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Categorias: Entrevistas

Marcelo Jiran


O compositor, orquestrador, regente, arranjador, pianista, multi-instrumentista, produtor musical/fonográfico mineiro Marcelo Jiran, teve a sua inicialização musical (autodidata) aos três anos de idade e profissionalização musical aos quinze anos.

Apreciação musical aos 8 anos, com Glaura Lucas (duração: um ano) aos 17 anos, com Kleinny Kacilah Bok (duração: seis meses). Teoria Geral da Música aos 18 anos, no Curso de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais (duração: seis módulos – curso completo). Prática do instrumento (Piano): aos 18 anos, no curso de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais, com Lucas Bretas (duração: um mês – curso incompleto). Licenciatura em Piano aos 19 anos, na Universidade Estadual de Minas Gerais, com Rodrigo Miranda (duração: um ano – curso incompleto). Bacharelado em Piano: aos 20 anos, na Universidade Estadual de Minas Gerais, com Carla Reis (duração: três meses – curso incompleto). Curso de Luteria com o Luthier espanhol Carlos Juan Busquiel.

Experiência em milhares de rodas de Choro, bailes, turnês, “diálogos musicais” (em amplos aspectos), composições, orquestrações (para formações sinfônicas e camerísticas), arranjos (para formações populares), gravações, produções musicais e fonográficas. Tocou com inúmeros artistas, como Elza Soares, Yamandu Costa, Roberto Silva, Paulinho Pedra Azul, Tunai, entre outros.

Difunde amplamente a música instrumental e universal em suas redes sociais. Presidiu o Clube do Choro de Belo Horizonte em 2011. Instrumentos tocados com maior fluência: Piano, Bandolim, Sax Alto e Acordeon. Instrumentos usualmente tocados em gravações, além dos mencionados acima: Teclados, Violões de 6 (Aço e Nylon) e de 7 cordas, Cavaquinho, Saxofones Soprano e Tenor, Clarineta, Flautas Transversa e Doce, Viola Caipira, Baixo Elétrico, Guitarra, Bateria, Escaleta, Xilofone e vasta Percussão: Pandeiros de Couro e Nylon, Shaker, Surdo, Timba, Reco-reco, Triângulo, Zabumba, Congas, Cuíca, Caxixi, Ganzá, Caixa de Folia, Bongô, Tantan, Agogô, Castanholas e tudo em que se pode produzir som percussivo, como catálogos telefônicos, conchinhas, talheres, etc… Nomeado ao Grammy Latino 2020 junto de Yamandu Costa, com o álbum “Festejo”.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Marcelo Jiran para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 23.07.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Marcelo Jiran: Nasci no dia primeiro de janeiro de 1985 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Marcelo Jiran: Aos três anos de idade, admirado pela beleza de um grande artefato encostado na parede da sala e pelo som hipnotizante que emanava dele quando aquelas coisas pretas e brancas eram apertadas, fui enfeitiçado imediatamente. A música possui esse imenso poder de resgatar memórias longínquas que são guardadas em lugares especiais através dela.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Marcelo Jiran: Estudei Piano e Musicalização com os professores Glaura Lucas, Kleynny Kacilah Bok, Lucas Bretas, Rodrigo Miranda, Carla Reis. Sou formado em Teoria Geral da Música pelo curso de extensão da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais. Fui jubilado do curso de Licenciatura/Bacharelado em Piano da Universidade Estadual de Minas Gerais, onde estudei por quase um ano e meio. Explico: entrei na faculdade por exigência de minha namorada daquela época, que afirmou não se casar com alguém não diplomado. Abandonei a Faculdade logo que o namoro acabou, mas também pela necessidade e quantidade de trabalho (com música mesmo – sou músico desde os três anos e exerço minha profissão desde os dezesseis). Sou grato aos professores e coordenadores dos cursos da UEMG, pois fizeram o impossível para que eu continuasse com os estudos acadêmicos. Uma pena que as coisas estavam tão complicadas naquele tempo, tanto no âmbito amoroso (desilusão catastrófica do primeiro amor) quanto no familiar; havia perdido meu pai há pouco. Saí e fui seguir meu caminho autodidata. Desconfio que meus professores não me perdoaram (e com razão), pois simplesmente não voltei a aparecer nas aulas! Fui incapaz de me explicar. Minhas sinceras desculpas. Fora da área musical ficou apenas o sabor do desejo de cursar Letras e Ciência da Computação. Hoje tenho me dedicado também à arte da luteria.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Marcelo Jiran: Meus pais Helionora e João… também uma amiga da família, a Neuzinha… ambos tocavam Violão nas reuniões familiares. Os LP’s diversos que eu ouvia, principalmente um do Richard Clayderman (da capa branca) que eu ganhei de uma tia querida, a Marilu; ali foi onde tudo começou! Eu, novinho de tudo e super curioso, ficava ouvindo repetidas vezes esse LP e tentava reproduzir os sons no Piano. Minha avó Diva ainda diz que eu cruzava as minúsculas mãos uma sobre a outra em busca de alcançar as notas! Ela é pianista, e minha bisavó Octacília também foi. Os queridos amigos das rodas de Choro que herdei de meu pai, com os quais convivo desde a infância, como o Moreira do Cavaquinho, Zito do Pandeiro, Paulinho 7 cordas, Agnaldo 7 cordas, Vicente do Clarinete, Nonô caolho, Mozart 6 cordas, Zé Carlos do Cavaquinho… alguns desses queridos já se foram. Há incontáveis influências primordiais e suas raízes jamais deixam de ter importância, pelo contrário: elas nos fazem manter a consciência, buscar o autoconhecimento e aquietar o ego. São essenciais e é imperativo que sejam inabaláveis.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Marcelo Jiran: Entre quinze e dezesseis anos de idade comecei a “pentelhar” os músicos, pois a energia que borbulhava em mim desde a pré-adolescência querendo aprender novos instrumentos tornou-se voraz e incontrolável. Eu, que àquela altura já tocava um pouco de Violão também, voei nas jugulares do Pandeiro e do Cavaquinho. Os amigos Chorões Moreira do Cavaquinho, Paulinho 7 cordas e Zito do Pandeiro formavam um trio. Havia um evento particular para eles tocarem e o Zito não podia ir, então fui substituí-lo. Daí em diante virei o substituto oficial! Há uma célebre frase que até hoje o Paulinho e eu relembramos felizes sempre que nos encontramos: “É cinquenta pra pegar e levar!”. Dessa maneira minha história profissional começara, aos dezesseis anos, ganhando um cachê de cinquenta reais e uma carona de ida e volta para o evento. Tratava-se de uma festa no bairro Ouro Preto, em Belo Horizonte mesmo. Lembro-me que estava bastante frio… tocamos ao ar livre e meus dedos quase congelaram! Antes disso, quando me interessei pelo pandeiro, o Zito, meu querido “Zitão”, presenteou-me com um Pandeiro de couro de doze polegadas. Foi nele que aprendi a tocar. Depois vendi meu vídeo game, com o dinheiro comprei um Pandeiro de dez polegadas e um Cavaquinho; indubitavelmente o melhor investimento dessa história! Aos dezoito anos me inscrevi na Ordem dos Músicos do Brasil, treze dias antes de meu pai falecer; ele ainda teve a chance de compartilhar comigo a alegria por ter em mãos minha carteira profissional. Nela está escrito: “Especialidade: Cavaquinista/Pianista. Gênero: Erudito/Popular”. 

06) RM: Quantos CDs lançados? Cite alguns CDs que já participou como instrumentista e arranjador e tocando que instrumento?

Marcelo Jiran: Possuo quatro álbuns: “Porta-retratos” (Instrumental – 2010), “Choro de martelo” (Piano Solo – 2013), “Horizonte Brasileiro” (Instrumental com a Orquestra Horizonte – 2015), “Amor em Sambas e Bossas” (Canções – 2020). Todos eles independentes, mas sempre contando com o generoso apoio dos amigos. Tenho no mínimo mais três em vista. Sob encomenda, como solista, o “Cativante” (Instrumental – 2019). Produzidos por mim são mais de quatorze álbuns, também trilhas sonoras e jingles. Exemplificando, produzi alguns álbuns para o querido Paulinho Pedra Azul, com quem trabalhei por mais de onze anos: “Paulinho Pedra Azul 25 Anos” (Clave de Lua – 2006 – São doze parcerias nossas), “Paulinho Pedra Azul – Lavando a Alma” (Clave de Lua – 2008), “Paulinho Pedra Azul 30 Anos” (Som Livre – 2011), Paulinho Pedra Azul Ao vivo no Palácio das Artes” (Não foi lançado ainda). “Tino Gomes – Vida Aventureira” (SEST SENAT – 2012). “Carlos Nunes – Comi uma galinha e tô pagando o pato” (Trilha sonora teatral). Atualmente tenho trabalhado com o amigo e parceiro Yamandu Costa, e nosso trabalho tem rendido lindos e expressivos frutos, como o álbum “Festejo – Yamandu Costa featuring Marcelo Jiran” (Independente – 2020), indicado ao Grammy Latino 2020. Na maioria dos trabalhos citados acima atuei como produtor, arranjador, engenheiro de áudio e multi-instrumentista. Alguns dos instrumentos que toquei: Piano acústico e elétrico, Acordeon, Escaleta, Vibrafone, Bandolim de 8 e 10 cordas, Cavaquinho, Guitarra, Violão de 6 e 7 cordas (aço e nylon), Viola caipira, Baixo elétrico, Baixolão, Saxofones (Soprano, Alto e Tenor), Clarinete em Bb, Flauta transversal em C, Flauta doce Soprano, Gaita, Bateria, Timbatera, Congas, Timbales, Bongô, Pandeiro (couro e nylon), Surdo, Tantan, Tamborim, Cuíca, Shaker, Clave, Triângulo, Zabumba, Caixa de Folia, Agogô, uma série de objetos quaisquer que produzem sons alternativos (como bolinhas de gude, conchinhas de praia, catálogo telefônico, mesa, caixas de papelão, faquinhas, etc…), bem como sons emitidos através do corpo, entre outros. Um trabalho que também adorei fazer foi a remixagem e remasterização do “Vento Sul – Yamandu Costa” (Independente – 2019), álbum de canções que tem parcerias do Yamandu com Paulo César Pinheiro.

07) RM: Qual sua relação pessoal e profissional com Yamandu Costa?

Marcelo Jiran: Desde a primeira vez quando assisti pela televisão ao Yamandu Costa tocando, em minha adolescência, fiquei fascinado pelo instrumento que ele o é. Algo especial mexeu comigo ao detectar naquilo que ele fazia os elementos que eu também degustava e adorava; ora, ele nunca repetia o tema da mesma maneira, sempre modificava a harmonia, usava ritmos e frases que me eram comuns no Piano, viajava pela música universal… quero dizer, imediatamente sonhei em me encontrar e tocar com ele, pois via nele meu parceiro ideal! É claro que naquela época, mesmo ele sendo apenas cinco anos mais velho, já estava muito mais adiantado, com mais estrada e conhecimento técnico do que eu; mas essa não era a questão: quando dois músicos se encontram e gostam, usam e compartilham elementos musicais similares, não interessa qual é o nível técnico entre eles; a música aflora. Em 2011, quando presidi o Clube do Choro de Belo Horizonte, estávamos os diretores e eu preparando o evento do Dia Nacional do Choro. Encontrei ali uma oportunidade para que ele pudesse participar do evento e a diretoria abraçou a ideia. Após o show, saímos para comemorar e pudemos conversar um bocado. Estreitamos os laços e ele, noutra oportunidade daquele mesmo ano, convidou-me para um sarau em sua residência no Rio de Janeiro, à época. Notamos muita semelhança em nossa história musical e de vida. Dali em diante nos tornamos amigos e passamos a compor juntos. Perdi a conta de quantos saraus maravilhosos fizemos nesses dez anos de amizade. Tive a alegria de participar como convidado em alguns de seus shows, no Palácio das Artes (BH – MG), na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (Itabira – MG) e no Teatro da UFF (Niterói – RJ). É claro que também me alegrei muito ao ser convidado para trabalhar em seu álbum “Vento Sul” e para produzir o “Festejo”. Muito respeito e admiração por esse grande artista e ser humano digno, além de imensa gratidão por sua confiança, por momentos inesquecíveis e trabalhos fantásticos.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Marcelo Jiran: A composição pode surgir de uma frase musical que canta nos pensamentos; de um momento singular transformado em poesia; do insaciável desejo de experimentar frases e texturas; de uma ideia sonora vinda de qualquer lugar, até mesmo do ruído. Às vezes a composição começa e termina, e às vezes fica reticente, aguardando novas inspirações ou necessidades. Gosto muito de deixar o som caminhar naturalmente em seu lugar comum, porém buscando trilhas distintas. Tenho fascínio por harmonia; isso ajuda bastante para que as ideias vivas se movimentem espontaneamente; elas podem ser registradas nalgum dispositivo através do solfejo, alinhadas diretamente na partitura ou pode nascer através da voz de algum instrumento. De qualquer maneira, tecnicamente falando, há a busca (ou o encontro) de um tema e depois há o seu desenvolvimento, que sempre vem acompanhado de um contexto claro de vestimenta.

09) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Marcelo Jiran: As últimas instrumentais em parceria foram compostas com Yamandu Costa e Carlos Walter. Atualmente tenho colocado letras nas lindas e peculiares melodias do querido Fred Andrade. Estou numa fase de composição mais solitária.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Marcelo Jiran: A arte feita de maneira independente proporciona total liberdade de escolha, e isso é maravilhoso. Mas a dificuldade para captar recursos é severa. Com isso a gente acaba tendo que se desdobrar e ampliar as áreas de atuação. Eu, por exemplo, além do que seria meu “dever” enquanto músico, como arranjar, compor, orquestrar, sair para me apresentar, trabalhar com as gravações no studio e estudar os instrumentos, ainda tenho que aprender sobre iluminação, filmagem, edição de foto e vídeo, elaboração de projetos, divulgação, navegar pelas redes sociais para atender ao público, etc. Fora lecionar e dar consultorias. Essas coisas todas ocupam um tempo inimaginável, e a administração de tudo isso também… é outro complexo! Ufa!…

Quando já se conseguiu firmar o nome como marca de sucesso, as parcerias acabam acontecendo naturalmente. Mas enquanto isso não acontece, fica praticamente impossível delegar atividades, pois elas carecem de pessoal especializado e isso carece de recurso financeiro, daí a gente volta ao início da questão. Mas graças a Deus, apesar das dificuldades, sempre encontrei seres de luz que muito me ajudaram (e continuam ajudando!) a seguir firme nessa estrada linda da musa música. Com força, perseverança, empenho e extrema dedicação a gente vai plantando. A alegria abraça e afaga quando a gente vê os frutos!

11) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Marcelo Jiran: A busca pelo desenvolvimento técnico e prático de todas as questões musicais é incessante. Então é importante administrar o tempo para dar conta de toda a carga exigida por uma carreira profissional tão complexa. Divido o tempo entre pesquisa, estudo, experimentos práticos, produções e descanso. Com isso consigo melhorar a qualidade do material geral que produzo no studio, a qualidade dos estudos e a qualidade das apresentações. Também é fundamental exercitar o autoconhecimento e meditar para conseguir melhorar o comportamento. Isso ajuda a ter clareza nas situações diversas do cotidiano profissional. Cada palco é diferente do outro; muda-se o ambiente, muda-se o público. Estar tecnicamente preparado é fundamental para o controle da mente e do corpo. Existem outras coisas muito importantes também que ajudam numa performance, como controlar a respiração e se aquecer antes de subir no palco; olhar para o público, esboçar um sorriso…

12) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Marcelo Jiran: Estou desenvolvendo alguns cursos na área da produção e da apreciação/percepção musical. Conquistei bastante experiência prática nessas áreas em mais de vinte anos de dedicação. Desde os 14 anos de idade lido com equipamentos no studio e fora dele. Há muito o que compartilhar! Tenho participação ativa em redes sociais e sempre me proponho a abastecê-las com materiais relevantes. Para elas, produzo séries onde convido compositores para encontros virtuais musicais: a exemplos, “Encontros Musicais”, “O canto do compositor” e “De repente, a gente!”; algumas exclusivamente instrumentais e outras exclusivamente cantadas; algumas mais simples, onde faço arranjos para um ou outro instrumento, e outras mais elaboradas, com direito a Big Band! Mas a ideia principal de todas elas é valorizar o compositor e agregar as minhas impressões musicais sobre a performance do compositor/intérprete, valorizando os pontos-chave da obra! Estas séries proporcionam importantes interações com outros artistas, a oportunidade de estudar os diversos instrumentos que toco, a prática de experimentos em arranjos e orquestrações, o desenvolvimento da percepção musical, a expansão das mídias sociais para levar a um maior público todo esse material feito com amor, a oportunidade de novas parcerias em composições ou trabalhos diversos e diversos outros benefícios. Quando vejo o compromisso e dedicação de um artista para com a musa música, acabo o convidando para participar de alguma série, ainda que eu não o conheça. Fico muito feliz quando sou respondido e atendido, pois creio que a arte possui esse poder de união. Há um imaginário que “seria uma absurda falta de noção” convidar alguém que não se conhece para participar de um projeto. Creio que esse pensamento seja pequeno e desconstrutivo, principalmente em se tratando de arte. É importante que a humildade esteja sempre presente e que estejamos com a mente aberta para o novo.

13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Marcelo Jiran: A rede mundial de internet oferece incríveis oportunidades para os empreendedores. A informação viaja na velocidade da luz! Anteriormente, para se ter o trabalho divulgado, era necessário apelar para os jornais, buscar oportunidades de ser convidado para participar de algum programa de televisão ou rádio… a gente dependia da boa vontade de outras pessoas para conseguir ampliar o alcance das produções. Hoje você pode ter seu próprio canal e ainda lucrar com ele! Mas há também aquele temor por situações envolvendo alguém mal intencionado; uma de minhas redes mesmo foi invadida; isso me causou algum transtorno e tive de recomeçá-la do zero. Precisamos ficar atentos e tomar todas as medidas necessárias para estarmos sempre o mais protegidos possível.

14) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home studio)?

Marcelo Jiran: Há apenas vantagem. Hoje é essencial que um músico profissional tenha pelo menos os acessórios básicos para fazer uma gravação. Com um home studio montado, além de possibilitar produções próprias em qualquer tempo, também proporciona a abertura do leque de trabalho. É bom lembrar que o equipamento mais importante é e sempre será o músico e sua performance, portanto é nele que se deve aportar a maior parcela de investimento. Há a ideia de que, com o aumento do número de home studios, passa a existir maior concorrência; mas eu não vejo dessa forma. Consigo enxergar mais oportunidades de trabalho, como diversas parcerias que já fiz com outros engenheiros (com o querido e competente Sérgio Moreira, por exemplo); também parcerias com outros músicos, como fiz com o próprio Yamandu Costa. O álbum “Festejo” foi totalmente concebido nos nossos home studios (o meu em BH e o dele no Rio). A indicação desse álbum ao Grammy Latino prova que não é necessário um grande studio para se fazer música de qualidade. Os hardwares e softwares podem proporcionar efeitos quase mágicos, mas não trabalham sozinhos. A arte existe no ser, na experiência e preparo do profissional. 

15) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Marcelo Jiran: As expressões musicais são distintas em cada indivíduo, e isso já é um ponto a ser observado. Há público para todo tipo de produto, e saber como encontrar e cativar seu público é a chave. Não adianta você produzir alguma coisa e achar que o mundo precisa conhecer aquilo, nem se queixar que o mercado está assim ou assado, que tal estilo vende mais que outro, ou que a cultura está desmoronando. Com a internet e o home studio, os músicos conseguiram fazer suas produções atravessar fronteiras; eu, que vivo usando a internet feito Barsa, fico espantado e feliz com a quantidade, qualidade e diversidade de estruturas artísticas e seus artistas. Para mim cultura “são muitas”, e está em pleno desenvolvimento. O que diferencia um do outro? A qualidade. Portanto invisto o máximo possível nos estudos práticos e experimentos, pesquisas, equipamentos, programas, enfim, em tudo aquilo que me faz crescer enquanto profissional e ser humano. Certamente esse é o caminho para se destacar, e não há outro: muito trabalho e dedicação, o famoso “suar a camisa”, e sempre contando com as faculdades do intelecto, pois suar a camisa sem consciência não leva ninguém adiante.

16) RM: Como você analisa o cenário da música instrumental no Brasil? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Marcelo Jiran: Como mencionado anteriormente, fico fascinado com os músicos que encontro internet afora. Há uma quantidade absurda de músicos se empenhando e fazendo muito pela nossa musa música. Estamos muito bem servidos de instrumentistas, compositores, arranjadores… e a maior parte desses bons artistas está aproveitando as oportunidades encontradas na rede. Tenho gostado muito de observar as fusões entre estilos, as ferramentas musicais universais sendo bem utilizadas, afirmando a música como totalidade e não como gênero. Exemplos de músicos que me causam alegria na alma e se destacam muito: Jacob Collier, Hiromi Uehara, Lang Lang, Yamandu Costa. Sobre veteranos de obras sempre consistentes: Hans Zimmer, Phil Collins, Ivan Lins, Gilson Peranzzetta. Sobre regredir há relatividade, pois se fulano evoluiu e ciclano não, do ponto de vista de fulano, ciclano passaria a impressão de ter regredido. E também prefiro não opinar, já que não vejo relevância no assunto.

17) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Marcelo Jiran: Fourplay, Jacob Collier, Diana Krall, Quincy Jones, Rod Stewart, Stevie Wonder, Elton John, Celine Dion, Pink Floyd, Mariah Carey, Yamandu Costa… É bom lembrar também daqueles que já partiram, pois arte é imortal e se revela através de seus instrumentos mais dedicados: J. S. Bach, S. Rachmaninoff, Jonh Williams, Tom Jobim, Ella Fitzgerald, Michael Jackson, Whitney Houston, Oscar Peterson e muitos, muitos outros. Levei em consideração o resultado dos trabalhos dessa turma, pois a excelência pode ser constatada através do portfólio profissional.

18) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc…)?

Marcelo Jiran: Citarei um exemplo para cada um dos tópicos mencionados na pergunta, afinal, o que um músico tem é história para contar! A falta de condição técnica é algo comum no meio artístico, pois mesmo o equipamento de ponta carece de pessoal especializado para opera-lo. Lembro-me de um episódio onde havia um bom teatro, um bom equipamento, mas ninguém sabia mexer nele… por pouco não teve show!

Sobre brigas: há muitos anos eu andei tocando com uma banda muito legal de Pop Rock. A intérprete (e responsável pelo grupo) marcou um ensaio de manhã bem cedo. Naquela época eu detestava a idéia de acordar cedo, pois geralmente dormia muito tarde. Havia feito o meu “dever de casa”, como de costume, e cheguei no ensaio preparado e com sono. Ao iniciarmos, alguns músicos começaram a interromper demasiadamente a música, pois não fizeram o “dever de casa”. Ora, para que servem os ensaios onde os arranjos já estão prontos? Para trabalhar detalhe de feeling, dinâmicas e coisas do gênero, e não para tirar frases, harmonias e coisas do gênero; isso a gente faz em casa! Já bastante irritado com aquilo, debrucei-me sobre o Piano e comecei a dormir. A intérprete, horrorizada com aquilo, indagou-me em tom bravo se eu não iria tocar. Retruquei, dizendo que tocaria quando o ensaio estivesse valendo. Ela começou a resmungar e, de saco cheio e com sono, passei a mão em meu instrumento e fui embora. A última coisa que a ouvi dizer ao longe foi: “Oh, esse cara é louco!”. É claro que meu comportamento foi impróprio, mas eu era muito novo e ainda estava domando minhas emoções. Busco aprender e melhorar cada dia mais, e esse episódio me rendeu uma boa lição. Adorava tocar com aquela turma.

Ah, tenho mais uma desse tópico que vale a pena lembrar para demonstrar o despreparo de um diretor musical. Deve-se tirar lição e aprender com isso. Há alguns anos eu fazia parte do grupo base que acompanhava os participantes do Festival SESI Música. Num dos ensaios do grupo, surgiu uma dúvida sobre a introdução de uma música. Começamos e tentar esclarecer aquele trecho. Como de costume eu havia feito o “dever de casa” e tentei explicar a introdução, mas o diretor não me deu ouvidos. Era comum pegarmos o CD que tinha a trilha com o arranjo e resolvermos as dúvidas quando acontecia isso, mas exatamente para aquela circunstância ele se negou a fazê-lo, perdeu a calma, disse aos gritos que mesmo se não fosse daquela maneira haveria de ser como ele quisesse, pois quem mandava era ele, ele era o diretor musical. Como se não bastasse a cena, ainda gritou para que eu saísse do grupo se não tivesse satisfeito, pois tecladista que toca Cavaquinho ele encontraria em qualquer esquina. Também resmungou que já me “tolerava” há muito tempo. Eu, humilhado desnecessariamente frente aos amigos e colegas de profissão, respondi “sim, senhor”. Mesmo com tudo isso, já mais maduro, concluí todos os ensaios e apresentações, cumprindo meus deveres com louvor. Vale dizer também que nós do grupo muitas vezes fazíamos o trabalho dele arranjando algumas das canções, e fazíamos com o coração aberto, buscando somar ao máximo à equipe. Havia comentado com alguns amigos do grupo que eu estava cheio daquelas situações e que pensava seriamente em não participar no próximo ano; mas não cheguei a dizer isso ao diretor musical. Pensei bastante no assunto e decidi dizer a ele quando fosse me despedir dele na comemoração que sempre acontecia após o festival. Já na comemoração, comecei a me despedir do pessoal deixando o diretor por último, mas algo surpreendente aconteceu! Quando fui me despedir do Gerente de Cultura do SESI Minas, responsável pelo festival, ele me abraçou feliz e me disse: “cara, metade da banda pode ir embora, mas você eu quero pra sempre!”. Aquilo mexeu muito comigo, pois o respeitava e admirava essa figura espetacular, o Thiago Maia! Fora toda a turma que participava… era muito divertido! Daí, naquela hora repensei meus planos e, em vez de me despedir daquele diretor musical dizendo que eu não participaria no próximo ano, preferi não dizer nada e deixar ao acaso sob uma condição interna: se recebesse o convite (que era feito anualmente), participaria com alegria, mesmo tendo que enfrentar os gênios e despreparo daquela figura estúpida novamente. O próximo ano chegou e não recebi o convite. E o que o diretor musical disse à gerência do SESI? Que me convidaram, mas eu não quis participar. Coisa feia, né?! Só desse festival, nos anos que dele participei, tenho muitas histórias. De um ponto de vista favorável, não precisei mais me preocupar com as desavenças exclusivas com aquela figura medonha. Em compensação perdi a oportunidade de estar com toda aquela turma maravilhosa do festival; uma pena… adorava aquele trabalho!

Tenho uma gafe memorável… estava no Rio de Janeiro, numa pizzaria que eu acabara de conhecer no Leblon. Tudo ia muito bem, quando de repente as pessoas começaram a bater palmas em alvoroço: era Caetano Veloso passando com alguns colegas pela calçada. Mais do que depressa corri atrás dele para me apresentar, dizer que curtia muito o trabalho dele e lhe entregar um CDzinho com algumas composições minhas que eu sempre portava no bolso do paletó. Ele me atendeu como um cavalheiro, tiramos uma foto, ouviu-me falar e, em vez de me despedir (eu já o havia agradecido), fiquei ali parado olhando para a cara dele e de seus colegas, sem conseguir sair do lugar. Ficou aquele clima estranho e eu simplesmente não consegui reagir! Eles pegaram um taxi e foram embora ao som de mais palmas e eu finalmente consegui voltar à mesa da pizzaria. Minha cara queima até hoje! Também já passei sufoco num camarim conversando com a querida Marrom (Alcione)… sou tão fã dela que acabei falando coisas sem nexo e escapulindo tangencialmente! A gente vai crescendo e aprendendo a se comportar e a controlar as emoções que envolvem aquele frio na barriga.

Sobre o próximo tópico, o público para o qual me apresento geralmente é atencioso e afetuoso. E um lugar onde toquei que eu não chamaria de tosco, mas de filosoficamente complexo: no cemitério. Já fiz algumas apresentações em velórios, inclusive com direito a torresmo e cachaça. A morte é assunto em constante desenvolvimento nos meus pensamentos.

Graças a Deus tomei pouquíssimos calotes em minha carreira. Faço questão de ser correto e, portanto, exijo a recíproca; geralmente com papel assinado. Não costumo dar chance ao azar. Mesmo assim há situações inusitadas, como gravar de boa fé para um colega que usou o financiamento coletivo, não me deu cachê algum, tirou o instrumento que eu havia gravado, chamou outro alguém de renome para regravar o instrumento (que parece ter sido baseado no que eu havia gravado), e certamente pagou ao artista algum cachê para isso. Essas coisas acontecem! Há histórias interessantes sobre relações humanas pós-show, mas deve haver discrição sobre elas. Coisas da intimidade!

19) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Marcelo Jiran: Fazer música é um sonho! Servir de instrumento a algo tão lindo e complexo é motivo de muita alegria! Gosto muito de poder soar de diferentes formas em diferentes instrumentos, poder ouvir de fora para dentro aquilo que nasceu de dentro para fora, compreender e experimentar com sentimentos as obras dos grandes mestres, viver a liberdade de criação, ter o tempo maleável… gosto das amizades proporcionadas, dos lugares que vamos conhecendo com as viagens e das peculiaridades de cada região… o que me deixa mais feliz é quando vejo que alguma de minhas crias está ajudando de fato a alguém. Por exemplo, quase tive um “tróço” de tanta alegria quando o amigo Paulo me disse que estava usando o “Choro de Martelo” para conduzir boas vibrações aos pacientes internados numa U.T.I. Fico muito triste quando vejo músicos desferindo ataques a algum gênero musical, ou grupo, ou artista… fazendo críticas que passam longe de serem construtivas. Insisto sempre: deve haver respeito e humildade.

20) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Marcelo Jiran: Minhas produções geralmente são tocadas em rádios públicas ou em rádios de outros países; essas rádios (como a Inconfidência ou a UFMG, para citar as nacionais) são parte fundamental na resistência cultural. Elas tocam também aquilo que está fora dos “padrões” das rádios comerciais – isto é, artes como música instrumental e produções desprovidas do tal “jabá”. Mas nas comerciais mesmo, não creio.

21) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Marcelo Jiran: Não é fácil, tanto pela quantidade de estudo e dedicação necessários (fato que geralmente é desconhecido pela maioria e acompanhado de crença sobre o “dom” como se fosse algo mágico), quanto por todas as situações naturais de quem exerce a profissão: pouca remuneração, falta de valoração, estereótipo de todo tipo, etc, etc, etc… também há preocupações sobre o meio um tanto nocivo para quem vai praticar música na noite. O músico fica exposto a todo o tipo de coisas, como drogas, por exemplo. Mesmo com todas as dificuldades/complexidades do mundo da música, se alguém sonha com isso, é claro que deve seguir seu sonho. Eu mesmo teria abandonado a idéia logo no início justamente por todo tipo de força contrária. Principalmente por tender ao caminho de multi-instrumentista. Os poucos que me apoiaram no início e minha sede insaciável pela música foram responsáveis por eu seguir firme no caminho. Com o passar do tempo o apoio foi aumentando. Ganhei instrumentos diversos, reconhecimento de músicos fantásticos que sempre admirei, patrocínio pessoal de disco (pois dois projetos de lei aprovados não receberam captação). Sobre a dificuldade na área artística, para ficar bem claro como o sistema se comporta, dois bons exemplos são estes projetos de lei que não receberam captação, portanto não foram executados. É bom também para ver como seus princípios enquanto ser humano podem facilitar ou dificultar as coisas pelo caminho: No primeiro projeto, uma daquelas empresas que trabalham na captação de recursos entrou em contato comigo dizendo que poderia “arranjar” a captação para meu projeto ao custo de 10% dele. Perguntei se nesses 10% estava incluída a prestação de contas do projeto, e a empresa afirmou que não, que se tratava apenas de me providenciar um patrocinador. O edital em questão era bem claro sobre as porcentagens para esse tipo de conduta: 5% para intermediação de patrocínio e 5% para a prestação de contas. Como tenho PAVOR de exploradores, como era o caso, neguei e não consegui o patrocínio por outros meios. Como me disse um amigo à época, eu deveria ter aceitado, executado meu projeto e pronto! Mas não sou assim; prefiro não realizar minhas produções (dessa maneira) a alimentar um explorador, que não está nem aí para mim e para minha arte, mas está absolutamente de olho no dinheiro que pode ganhar nas minhas costas.

Para o segundo projeto fiz até entrevista, mas por não ser artista consagrado e também por se tratar de música instrumental com público menor (a proposta era inclusive a disseminação dela), ele também não recebeu captação. Agora veja bem: uma única empresa tinha verba suficiente para bancar todos os projetos! Mas nem com aquele tanto de empresa e aquele tanto de verba disponível consegui captação. É muito difícil o sistema. Já que os governos propõem as leis de incentivo à cultura, deveriam fazer com que as empresas participassem realmente incentivando a cultura, e não com o intuito de escolher o projeto mais popular para promover sua marca. Afinal, os projetos são aprovados porque têm potencial cultural. É um absurdo.

No âmbito da música erudita a competição é voraz e muitas vezes o ego é exacerbado. Ou melhor, ele geralmente é exacerbado na grande maioria dos artistas, seja na música erudita ou popular. Então, se pretende trabalhar com arte, é sempre bom ficar de olho no próprio ego; o descuido com ele pode causar problemas dos mais diversos, incluindo a paralização do desenvolvimento técnico.

Coisas assim são comuns na vida dos funcionários da arte, e a gente tem que se desdobrar para fazer tudo isso além do batente cotidiano de estudos, pois o “manager” só aparece para aqueles com carreira já consolidada ou para aqueles que têm alguém na família que se dispõe a fazê-lo.

O caminho das artes pode não ser dos mais fáceis, mas creio que seja um dos mais saborosos. Só tome cuidado para não confundir, e é bom ressaltar novamente: vida de músico profissional é luta constante. A gente pode facilitar as coisas caminho afora, sendo alguém fácil para se trabalhar junto. Mas não vamos confundir isto com fazer tudo o que nos pedem, passando inclusive por cima de nossos propósitos.

22) RM: Quais os pianistas que você admira?

Marcelo Jiran: Nelson Ayres, Gilson Peranzzetta, Amilton Godoy, César Camargo Mariano, Glenn Gould, Vladimir Horowitz, Lang Lang, Hiromi Uehara, Oscar Peterson…

23) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Marcelo Jiran: Rachmaninoff, Mozart, Bach, Tchaikovsky, Chopin, Debussy, Vivaldi, Raydn, Scarlatti, Paganini, Liszt, Bartók

24) RM: Quais os compositores populares que você admira?

Marcelo Jiran: Pixinguinha e todos os compositores de Choro de maneira geral, Ivan Lins e Vitor Martins, Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, Djavan, João Bosco, Nando Reis, Zé Ramalho, Almir Sater, Tião Carreiro e Pardinho, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Gonzaguinha, Luiz Gonzaga, Raul Seixas, Geraldo Azevedo

25) RM: Quais os compositores da Bossa Nova você admira?

Marcelo Jiran: Tom Jobim, Roberto Menescal, Baden Powell, Edu Lobo, Carlos Lyra, João Donato, Ronaldo Bôscoli

26) RM: Quais os compositores do Jazz você admira?

Marcelo Jiran: Cole Porter, Oscar Peterson, Jerome Kern, Gershwin, Bill Evans… gosto mais de standards e do Jazz instrumental em sua forma mais “amável”.

26) RM: Quais as diferenças técnicas entre o Piano Erudito e Popular?

Marcelo Jiran: Basicamente o repertório e a textura do toque. Ambos possuem argumentos técnicos que vão desde extremamente fáceis a extremamente difíceis.

27) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Pianista?

Marcelo Jiran: A compreensão sobre aquilo que está tocando (estilo, performance solo ou em grupo). Não adianta possuir técnica mecânica apurada se a parte musical não estiver bem resolvida. Para exemplificar, no primeiro movimento da “Sonata de Scarlatti” (K 380, em Mi maior) há uma nota na partitura que foi escrita (ou transcrita) errada. Afirmo que está errada devido a sua progressão natural e por se tratar de uma belíssima peça, redondinha, na qual a nota errada “grita” quando é executada. 99% dos pianistas repetem o erro, mas Horowitz o corrige em suas performances. Agora pensando em técnicas mecânicas, um pianista bem preparado conhece as escalas e arpejos dos tons e seus relativos, os modos aplicados nas escalas, as diferentes expressões de toques e principalmente a percepção musical desenvolvida para aplicar da melhor maneira todos esses conhecimentos técnicos. Sim, a percepção musical faz parte do desenvolvimento técnico e é essencial.

28) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno de Piano?

Marcelo Jiran: O estudo é bastante diferente da performance. Tocar somente não possui o mesmo efeito do estudo, e pensar que está estudando quando se está apenas tocando é um grande erro. Faz parte do estudo a repetição vagarosa do que se almeja tocar e deve haver a repetição correta! Por exemplo, muitas pessoas que têm um trecho técnico a resolver, quando o conseguem tocar, executam duas ou três vezes corretamente e passam para frente. Isso significa que, na hora que estiverem tocando e forem passar por aquele trecho, provavelmente ele será tocado errado, pois carece de uma série grande de repetições corretas para que ele esteja de fato resolvido tecnicamente. Outro erro comum e sério é a impaciência no estudo lento e sem o uso de metrônomo. Daí a pessoa já vai acelerando e querendo tocar logo a peça!

Algo muito sério no estudo também que geralmente passa despercebido até mesmo por músicos experientes é a percepção dos pontos de tensão no corpo enquanto se estuda. O corpo deve estar o mais relaxado possível durante os estudos (e também durante as performances, logicamente!), pois as tensões musculares podem causar sérias lesões, como também impedir a execução técnica numa passagem mais complexa. Procure saber sobre a Técnica Alexander. Consciência corporal é fundamental para a saúde e performance de quem trabalha com arte.

Há um outro erro comum interessante que vale a pena dizer: quando se tem (ou se elege) um “mestre” na música, geralmente o “discípulo” segue cegamente as frases, harmonias e coisas do gênero. Esses “mestres” também cometem erros, e esses erros acabam sendo copiados por seus “discípulos”. Ter ou eleger um mestre é algo essencial, mas temos que raciocinar sobre a música que fazemos sempre e logo que houver condições mais desenvolvidas para isso, a fim de evitarmos repetir erros e também trilharmos nosso próprio caminho melódico-harmônico-rítmico.

29) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Marcelo Jiran: Às vezes me preocupam situações em que o método exige certa posição ou ação corporal. Todo organismo é diferente, com estruturas diferentes, então a adaptação do organismo ao instrumento e também à execução do instrumento deve ser individual. Sugerir certa postura para que não haja lesão no corpo é uma coisa, mas dizer, por exemplo, no caso do Piano, que se deve tocar como se houvesse uma laranja na palma da mão é complicado… só de pensar que está segurando algo nas mãos já provoca certa tensão, então não concordo com abordagens como esta.

30) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Marcelo Jiran: É uma questão complexa, pois parte do pressuposto que foi presente (gift) de alguma entidade. Acredito que uma energia positiva é emanada pelo universo em resposta a outra energia positiva que é emanada por aquele que sente amor pelo que faz. E é acreditar mesmo, pois o muito que sabemos sobre as coisas do universo é quase nada. Então chamo o “dom” de “facilidade”; logicamente fazer aquilo que gostamos é muito mais fácil. Mas “dom” como as pessoas imaginam, não acredito. Fazer o que fazemos demanda muito estudo, dedicação, coisas que geralmente as pessoas não vêem, ou muitas vezes vêem sem enxergar. Geralmente o público recebe o produto final; enxerga alguém tocando com prazer, com facilidade… e associa a raiz disso a algo divino, ou a alguma bagagem de outras vidas, quando na razão foi fruto de incontáveis horas de estudo e muito amor e dedicação pelo que se faz.

31) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Marcelo Jiran: A arte de se expressar em liberdade. O desenvolvimento de um tema em tempo real.

32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Marcelo Jiran: Os métodos podem ser bons enquanto referência, mas podem transformar músicos em “robôs”. É comum principalmente no Jazz ouvirmos diversos músicos tocando as mesmas frases.

33) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Marcelo Jiran: Sim, existe. Mas também é uma prática que demanda intenso estudo. O que difere um músico do outro é justamente a aplicação daquilo que foi estudado. Para entendermos melhor, podemos associar música a um idioma. Para escrevermos precisamos saber as palavras, o que elas podem significar em amplos sentidos, ortografia, etc. Daí a gente pode escrever uma carta, um poema, uma crônica, um conto, com os nossos próprios desenvolvimentos, com nossas palavras de preferência e meios pelos quais mais gostamos de nos expressar. A improvisação é exatamente isso: precisamos saber as notas, as escalas, os sons, as cadências, as regras, enfim, saber de todo o conteúdo musical para podermos expressá-lo livremente, sabendo inclusive como e quando quebrar as regras. Da mesma maneira que ocorre nas relações humanas, a “liberdade” na música obedece a uma “ética” que mantém tudo soando bem. De qualquer maneira, pensando tecnicamente, qualquer nota pode pertencer a qualquer harmonia contemporânea, e aí o campo para o improvisador (que já é imenso) se torna algo imensurável. É claro que a “vibe” deve ser a mesma entre os músicos num caso de performance em grupo, senão vira ruído em vez de música. Não é que tudo seja possível, mas tudo pode ser possível.

34) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Marcelo Jiran: Os mesmos dos métodos de improvisação.

35) RM: Quais os métodos que você indica para o estudo de leitura à primeira vista?

Marcelo Jiran: Leitura à primeira vista também é uma questão prática e deve fazer parte da grade diária de estudos; então a gente deve escolher peças mais tecnicamente simples (que condizem com nossa técnica performática) e ler todo santo dia. As peças devem ser simples o suficiente para conseguirmos ler a uma determinada pulsação do início ao fim, evitando ao máximo paradas pelo caminho. Este é o estudo mais eficaz para melhorar a leitura. Com o tempo, conforme a facilidade em ler aumenta, vamos aumentando o andamento e também o nível de dificuldade das peças. O solfejo também é espetacular para o treino de leitura, além de ajudar na percepção musical e desenvolvimento do ouvido interno.

36) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Carlos Walter?

Marcelo Jiran: Carlos Walter e eu nos conhecemos há uma penca de anos numa livraria-café onde eu participava de um Choro com uma turma de amigos: Moreira do Cavaquinho, Luiz da Clarineta, Renatinho do Violão, Zito do Pandeiro, Carlão do Pandeiro, Sérgio Danilo. Nossa energia se conectou de forma bela; tornamo-nos grandes amigos, tocamos e compusemos juntos. Tenho admiração e respeito profundos por esse imenso artista/profissional. Carlitos, como carinhosamente o chamo, é daqueles estudiosos aplicados, que conhecem de fato sobre a história geral daquilo que praticam. No caso dele, música e advocacia. Sua cabeça é uma verdadeira enciclopédia e seus feitos em ambas as áreas não são menos que excepcionais. Músico virtuoso e compositor inspirado. Além de tudo isso é um ser humano ímpar, educado, ético, um verdadeiro exemplo. O considero um irmão.

37) RM: Quais os prós e contras de ser multi-instrumentista?

Marcelo Jiran: Quanto mais instrumento a gente toca, mais intensamente conseguimos perceber as nuances entre eles, a “tocabilidade” de cada um, o melhor meio de escrita, as possibilidades musicais de extensão e textura. Os ouvidos também se abrem para o mundo geral dos instrumentos e não só se atentam sonoramente com mais intensidade para a sonoridade que se equipara a de um único instrumento. Os ouvidos devem ser treinados assim também por quem toca um instrumento apenas, mas geralmente não é o que acontece. Saber o lugar desse ou daquele instrumento numa performance em grupo também é vantajoso por esclarecer muita coisa nas áreas da direção musical e arranjo/orquestração. Gravar com outros músicos é muito bom e tem efeito incomparável, da mesma maneira que gravar sozinho é algo ímpar! É realmente delicioso poder executar a gente mesmo as ideias que passam pela cabeça. E fica sempre aquele gostinho de querer aprender ainda mais instrumentos, pois gostaria de gravar um Trompete aqui, um Trombone acolá, um Cello ali! A vontade de tocar um instrumento, em mim, vem da vontade de reproduzir um determinado som que me cativou. Sempre busquei novos instrumentos a fim de expressar aqueles sons cultivados por meus sentidos, então acredito que poder expressar boa parte desses sons é a maior vantagem/prêmio.

Em contrapartida, geralmente o multi-instrumentista não é bem visto, aliás, é visto como alguém que quer tocar tudo e acaba não tocando nada. Realmente conquistar a competência para se tocar bem um só instrumento já não é tarefa fácil. Outra coisa que costuma incomodar é as pessoas quererem que, porque o sujeito toca um bando de instrumentos, ele tem que levar todos eles para a apresentação! Não é que não seja legal e altamente desejável, mas com o passar do tempo essas coisas pesam e a gente bem sabe que valor de aquisição e manutenção de instrumento não é algo barato. Antigamente eu levava cinco instrumentos a uma Roda de Choro, por exemplo (incluindo Piano digital), descer e subir os degraus aqui de casa com essa “tchurminha” não era nada fácil. A bag da Sanfona nas costas, o suporte do Piano no ombro, o Piano e a Case do Cavaco numa das mãos e as cases do Bandolim e do Sax alto na outra mão. Já mencionei que além disso as escadas são apertadas?! Bastante complexo… todo um risco (inclusive de tomar um tombo com esses filhotes), todo um desgaste físico (meu e deles!)… se pudesse estalar os dedos e aparecer no lugar com tudo isso seria lindo! Mas a realidade não é essa (infelizmente!).

38) RM: Quais os seus projetos futuros?

Marcelo Jiran: Além do objetivo de organizar, arranjar e escrever todas as minhas composições, pretendo intensificar as atuações em peças orquestrais e de câmara. Desejo também gravar alguns álbuns autorais com os temas que mais gosto. Estou me dedicando à luteria, com ênfase na construção de Violões e Cavaquinhos. A vida é curta demais para não fazermos aquilo que gostamos, e também é preciosa demais para ficarmos engolindo sapos desnecessariamente. Quer uma novidade? A gente morre. E adivinha só: mesmo a arte que fazemos sendo eternizada, estaremos mortos. Portanto obedecer à minha consciência é prioridade, pois ela é o que sou enquanto existir; ela é o que justifica a minha existência. Digo isso porque apesar de tantos objetivos, estou em constante reflexão. Sempre buscando realizar os desejos conscientes para viver plenamente, por mais que isso possa dificultar alguma coisa no âmbito profissional. Depois de passar por tanta coisa mesmo não tendo muita idade, não creio que certos sacrifícios valham a pena. Acho que no fim das contas meu grande projeto é conseguir viver bem e intensamente ao lado daqueles que são importantes em minha vida e fazer com que o trabalho se encaixe nisso de maneira suave e feliz.

39) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Marcelo Jiran: Pelo Youtube é possível acompanhar minhas produções em vídeo: www.youtube.com/marcelojiran

É possível entrar em contato comigo através do Instagram www.instagram.com/marcelo.jiran  e também acompanhar postagens sobre as produções e novidades.  Site: www.marcelojiran.com.br

Agradeço ao Antonio Carlos Barbosa, à Ritmo Melodia, aos leitores e a todos aqueles responsáveis por tornarem mais saborosa e trafegável minha estrada musical.

Viva a musa música! =)

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=J8qROARBwG4&list=PLqoyd6–Auwm58RzH_BYH3eqM1fSMO34w 

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=W-yw60Jrgpc&list=PLqoyd6–AuwmOz4QodJkmzmPSQeg59rlp 

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=jYYe2gbyyAw&list=PLqoyd6–AuwmEfaqAWSpFYEVa9RPVVrOr


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
Tags: choroJazzmpb
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