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Categorias: Entrevistas

Marcelo Falcão


Orquestra de cinema mudo em São Paulo em setembro de 2022. O projeto é do maestro brasileiro Marcelo Falcão, que foi em Berlim um dos fundadores da orquestra do cinema Babylon.

No telão do lendário cinema Babylon de Berlim, o filme Metrópolis. No palco, uma orquestra tocando ao vivo a trilha sonora original do clássico alemão de cinema mudo. Na plateia lotada, figuras ilustres como o cineasta Wim Wenders e o artista chinês Ai Weiwei. É esta experiência como um dos fundadores e como regente titular, entre 2019 e 2020, da Babylon Orchester Berlin que o maestro brasileiro Marcelo Falcão quer trazer para a cidade de São Paulo. 

O maestro chega ao Brasil no dia 15 de agosto de 2022 para definir o espaço cultural e para angariar patrocinadores que viabilizem a criação de uma orquestra brasileira de cinema mudo. “Eu acredito que o público paulistano tem o perfil perfeito para um projeto como este. Em Berlim, em todas as apresentações, tínhamos fila de espera para a venda dos ingressos. Acredito que em São Paulo não será diferente”, prevê.

Marcelo Falcão mora em Berlim desde 2008 e, além de maestro, é arranjador e compositor. Participou da première alemã da versão restaurada do filme Novo Babylon, com música original de Shostakovich, além de concertos em tributo a Ennio Morricone e a Nino Rota. Também fez parte da estreia de um arranjo para a comemoração do centenário de O Cabinete do Dr. Caligari.

Marcelo Falcão é carioca e tem 38 anos. Ele recebeu no final deste mês de julho, na cidade de Baugé-en-Anjou (França), o prêmio de segundo colocado no 4.º concurso internacional de regência da Ópera de Baugé. Em 2021 participou do Taschenopern Festival de Salzburg (Áustria), regendo a ópera “O Beijo” de Wolfgang Mitterer, no qual trabalhou com membros do Schönberg Ensemble e da Neue Vocalsolisten Stuttgart. Foi regente no Ateliê Contemporâneo em São Paulo, com performances de Pierrot Lunaire de Schoenberg em Português, e estreou obras de compositores brasileiros.

O maestro foi bolsista do Festival Internacional de Campos de Jordão (SP) e regeu a Orquestra Nacional da Rússia, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, a Orquestra Nacional Filarmônica da Geórgia, a Argovia Philharmonic, a Orquestra Sinfônica da USP, a Berlin Sinfonietta, a Orquestra Jovem de São Petersburgo e a MÀV Budapest Orchestra, além de grupos de música contemporânea como o Divertimento Ensemble (Itália) e a Ensemble NAMES (Salzburgo, Áustria). Foi também semifinalista da competição de regência de música moderna e contemporânea na Città di Brescia (Itália).

Marcelo Falcão estudou contrabaixo e composição na Universidade Federal do Rio de Janeiro. É bacharel em Musicologia e História da Arte pela Universidade Humboldt de Berlim (Alemanha). É especialista em regência de música moderna e contemporânea, tendo feito cursos com Arturo Tamayo na Suíça, Sandro Gorli na Itália e Peter Rundel na Áustria. É Mestre em regência orquestral pela Royal Welsh College of Music and Drama (País de Gales), onde concluiu seus estudos com mérito.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Marcelo Falcão para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 15.08.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Marcelo Falcão: Nasci no dia 19/08/1983, em Nova Iguaçu/RJ.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Marcelo Falcão: Foi com o meu avô, que tocava teclado, e com os vinis dos meus pais, uma coleção rica e que me aguçava.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Marcelo Falcão: Mal cheguei a iniciar o curso de Engenharia Mecânica na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro e a música falou mais alto. Fui, então, cursar Música – contrabaixo e composição, também na UFRJ. Sou bacharel em Musicologia e História da Arte pela Universidade Humboldt de Berlim (Alemanha). Sou especialista em regência de música moderna e contemporânea, tendo feito cursos com Arturo Tamayo na Suíça, Sandro Gorli na Itália e Peter Rundel na Áustria. Sou Mestre em regência orquestral pela Royal Welsh College of Music and Drama (País de Gales), onde concluí meus estudos com mérito.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Marcelo Falcão: Desde Paul McCartney até Bach, passando por heavy metal, pop e música brasileira. Não me lembro de nada que tenha deixado de ter importância. Todos, cada um ao seu modo, continuam sendo relevantes.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Marcelo Falcão: Comecei aos 18 anos de idade (2001), no Rio de Janeiro, tocando em uma banda como baixista, dando aula de contrabaixo e fazendo gravações para comerciais.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Marcelo Falcão: Não tenho nenhum CD autoral.

07) RM: Fale de sua atuação como regente de Orquestra.

Marcelo Falcão: Além dos repertórios tradicionais de orquestra, tenho esta atuação bem peculiar como maestro de orquestra que apresenta, ao vivo durante a veiculação da película na tela, a trilha sonora de clássicos do cinema mudo. Também tenho ênfase em música contemporânea, ou seja, música criada por compositores que ainda estão vivos.

08) RM: Quais os prós e contras de reger uma Orquestra?

Marcelo Falcão: Não consigo pensar em algo negativo, mas talvez um item desfavorável é o fato de um maestro não poder praticar em casa. Ele depende da orquestra para a prática. Isso faz com que um regente tenha que estar muito bem preparado sempre. É muito desafiador. Em contrapartida, os prós são muitos. Sempre digo que a gratificação em reger uma orquestra é algo difícil de descrever em palavras.

09) RM: Fale de sua atuação como criador de trilha sonora.

Marcelo Falcão: Crio especialmente para complemento ao vivo de trilhas sonoras de cinema mudo. Reconstituí a trilha do filme Nosferatu, por exemplo, porque tinha uma música original que estava perdida. Foi um trabalho incrível e muito especial para mim. Também fiz um novo arranjo para a trilha original do filme O Gabinete do Dr. Caligari, outra experiência muito enriquecedora.

10)  RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Marcelo Falcão: São muitos, mas se fosse escolher um único, escolheria Elis Regina. Sou muito fã dela.

11)  RM: Como é seu processo de compor?

Marcelo Falcão: Não tem um padrão. Cada vez acontece de um jeito diferente e depende muito da situação.

12)  RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Marcelo Falcão: Eu não trabalho em parceria, faço as composições sozinho.

13)  RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Marcelo Falcão: Hoje a maioria dos músicos desenvolve a carreira de forma independente, então, não considero que isso seja algo que me diferencie da categoria. Como ponto positivo, destaco a liberdade em dirigir minha carreira da forma que eu considere favorável. Como ponto negativo, a independência causa normalmente uma instabilidade financeira. Mas acredito que a liberdade se sobrepõe à instabilidade.

14)  RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Marcelo Falcão: Tenho um jeito bem livre de trabalhar. Talvez a única estratégia seja cumprir as metas estabelecidas. De resto, tenho como ponto de partida a liberdade para traçar a carreira.

15)  RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Marcelo Falcão: Acredito que, aqui, minha resposta seria praticamente a mesma que eu dei para a pergunta anterior (pergunta 14).

16)  RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Marcelo Falcão: Acredito que a internet só ajuda. Não consigo ver uma situação em que a internet possa prejudicar o desenvolvimento da minha carreira musical. Aliás, acho que a internet hoje é imprescindível para qualquer profissão.

17)  RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Marcelo Falcão: Também só vejo vantagens. Poder gravar e postar os trabalhos nas redes sociais, por exemplo, é algo que dissemina a arte e a música. Acho tudo isso muito importante.

18)  RM: Quais as principais características para ser um bom maestro de orquestra?

Marcelo Falcão: Ao meu ver, as principais características para ser um bom maestro são, em primeiro lugar, saber fazer uma boa gestão na esfera humana. Isso porque, como regente, você é o responsável pela unidade da orquestra, uma liderança que precisa estar presente com todo o jogo de cintura e noção de gestão de pessoas. Outra característica é o fato de o maestro dever conhecer muito bem o repertório que será executado. Também incluo nesta lista a necessidade de ter domínio sobre as disciplinas musicais tradicionais como harmonia, contraponto e orquestração, além de literatura, História da música e línguas.

19)  RM: Como você analisa o cenário da Música Erudita Brasileira. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Marcelo Falcão: Ao mesmo tempo em que o cenário é extremamente diverso, devido ao fato de o Brasil ser um país de dimensões continentais, ele é pouco conectado entre si. O Brasil tem a tradição de muito bons pianistas e cantores, além de ser um país promissor porque existem muitas orquestras sendo formadas e novos músicos chegando ao mercado. O problema é que as universidades e as escolas formam profissionais em quantidade maior do que o mercado de trabalho comporta. Isso gera uma série de talentos sem espaço no Brasil.

20)  RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)?

Marcelo Falcão: Reger e não receber pelo trabalho. Acho que este é um clássico, né.

21)  RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Marcelo Falcão: O que me deixa mais feliz é reger, que é a coisa que eu mais amo na vida. Quando estou regendo eu entro em um outro mundo. E o que me deixa mais triste é voltar para a vida real, depois de reger. E, é claro, falta valorização para este o trabalho, o que me entristece também.

22)  RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Marcelo Falcão: Não sei dizer. O que existe, isso sim, é a capacidade de concentração. É só pensar em uma criança de 6 anos de idade parada e concentrada durante 4 horas por dia, estudando música. Creio que conseguir se concentrar dessa forma seja um dom.

23)  RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Marcelo Falcão: Em geral, reagir no momento certo, evitando frases feitas.

24)  RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Marcelo Falcão: Sim, existe. Mas acredito que ela é fruto de muito estudo prévio, de diferentes linguagens.

25)  RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Marcelo Falcão: Todos os métodos têm a sua importância. Acredito que importante, de fato, é você encontrar a sua própria voz.

26)  RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Marcelo Falcão: Novamente, todos os métodos têm os seus prós e os seus contras. O importante, na minha opinião, é você encontrar um método com o qual você se identifique. E, a partir desta escolha, você tem que estudar muito este método.

27)  RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira no exterior?

Marcelo Falcão: Como fator positivo eu destaco o acesso a concertos de alta qualidade e a infraestrutura que alguns lugares, como é o caso aqui da Alemanha, oferece. O ponto desfavorável é ficar longe da família e dos amigos. Fazer música em casa é sempre muito bom e isso faz falta.

28)  RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Marcelo Falcão: Estude muito, vá a concertos e a ensaios, e tente administrar desde cedo a ideia de como é administrar uma carreira musical.

29)  RM: Quais as diferenças de um músico de orquestra para um músico popular?

Marcelo Falcão: A diferença é pragmática. A orquestra exige mais leitura. A música popular exige mais capacidade de improvisação. Mas ambas requerem muito estudo e dedicação.

30)  RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Marcelo Falcão: A cobertura da grande mídia costuma ser mais intensiva para eventos musicais com maior apelo popular, o que é natural. Acredito também que exista uma carência de críticos especializados na minha área no Brasil.

31)  RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Marcelo Falcão: Não conheço a fundo a ponto de fazer uma avaliação.

32)  RM: Quais os seus projetos futuros?

Marcelo Falcão: No começo de setembro de 2022 estarei em São Paulo para dar andamento a um projeto de criação de uma orquestra que faça a trilha sonora ao vivo de filmes de cinema mudo. Este é um trabalho que fiz, entre 2019 e 2020, com grande sucesso aqui em Berlim e que quero levar para o Brasil.

33)  RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Marcelo Falcão: www.marcelo-falcao.com

Facebook – https://www.facebook.com/marcelofalcaoconductor

Instagram – https://www.instagram.com/marcelo.falcao.conductor

Canal: https://www.youtube.com/channel/UCu1j6Io0oqHq_hRN8nGkXTg

Battleship Potemkin – Edmund Meisel: https://www.youtube.com/watch?v=JVcSYskKP8Q

“Der Kuss” – Wolfgang Mitterer: https://www.youtube.com/watch?v=3HnbDsxfhU8

Mother Goose Suite – Ravel (CONDUCTOR’S VIEW): https://www.youtube.com/watch?v=iuf5lf47RpM

Scheherazade 2nd Mov. – Rimsky-Korsakov: https://www.youtube.com/watch?v=hsh06gUfQSU

Talk Assessoria de Comunicaçãowww.talkcomunicacao.com.br | (41) 3018-5828

Jornalista responsável – Karin Villatore   (84) 98118-4250  | karin@talkcomunicacao.com.br


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
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