Jongui

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“Passeio de São Sebastião” – https://www.youtube.com/watch?v=yBMXTiYX1nY, Jongui lança videoclipe de canção que fala das antigas e contínuas contradições do Rio de Janeiro.

Logo após assalto seguido por breve sequestro sofrido no bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro, Jongui escreveu de uma tacada a letra da canção “Passeio de São Sebastião”. Nas palavras do compositor, cantor: “A atmosfera do assalto, essa invasão, é muito violenta e te joga num tempo de urgência. Tudo apareceu ali pra mim naqueles instantes densos e tensos: susto, medo, adrenalina, a calma, desejo de viver, a comunicação falada e visual, a compreensão do estado de nervos e falta de perspectivas daqueles garotos fortemente armados, o batuque que me acompanha desde os dois anos de idade e que era possível ponto de encontro com os assaltantes-sequestradores de primeira viagem, enfim, uma concentração alta de sensações”.

A música foi finalizada tempos depois na ocasião da gravação de seu disco de estreia, o elogiado “Elétrico Fio Que Teço”. “Desde quando escrevi a letra já vinha experimentando a música, que veio se modificando mais vezes do que costumo ao compor, até chegar à versão final. Quando estava gravando com a banda me veio esse riff de sintetizador que finalmente fechou a composição pra mim, deu-lhe a energia necessária. Já estava no terceiro arranjo pra ela”.

O clipe foi dirigido, montado e manipulado digitalmente pelo mineiro Davi Fuzari e teve argumento do roteirista sergipano Rafael Todeschini. O diretor usou imagens de arquivo de situações e cenários clássicos da cidade do Rio de Janeiro disponíveis na internet, além de ter feito interferências de animações digitais frame a frame. O áudio do videoclipe foi gravado na ocasião do show no festival A.Nota, cujas imagens também são usadas. Segundo o artista, o arranjo e formato sonoro ganharam mais expressividade e potência na versão feita para o show.

A música faz parte do álbum de estreia de Jongui como cantor e compositor, após mais de 30 anos de atuação como baterista, percussionista e produtor musical. “Elétrico Fio Que Teço é sem dúvida um disco de travessia. Estética, pessoal, de vida, um organismo vivo ecoando no oco da zumbilândia. Escuta, reflexão, concentração e sensibilidade para desbravar novos caminhos”, assinala o compositor baiano Lucas Santtana no texto de apresentação do álbum lançado em parceria com a gravadora paulistana Y/B music em 2017.

Sobre as características sonoras do disco, Jongui sublinha a potência da mistura entre o orgânico e o eletrônico. “Antes de começar a compor eu já sabia a sonoridade que queria que o disco tivesse. Uma mistura de batuque afro-brasileiro e música eletrônica. Uma música popular de invenção, e não de gênero”, afirma. “Penso a música em 3D, não só letra e melodia. Adoro a canção, mas tenho esse outro lugar do todo, como num quadro. Essa relação com o fonograma, com as camadas, das coisas irem aparecendo e se completando”, diz Jongui.

O lançamento do videoclipe é o fechamento do ciclo de “Elétrico Fio Que Teço”. “Já estou gravando o segundo álbum e senti falta de ter material audiovisual, era uma lacuna no projeto. Mesmo em tempos nebulosos e de pandemia, precisamos nos manter altivos, ativos, reflexivos e manter a calma. Sigo compondo e acreditando na vida apesar de vivermos tempos terríveis.”

Jongui tem na bagagem uma trajetória de três décadas de música. Como baterista e percussionista, tocou e gravou com nomes como Lulu Santos, Gal Costa, Lenine, Ramiro Musotto, Leoni, Daúde, Jorge Mautner, Jards Macalé e Vulgue Tostoi. Na produção musical, assinou trabalhos de Lucas Santtana, Zeca Baleiro, Rita Benneditto, Raquel Coutinho e Maurício Tizumba, entre outros.

Foi criador da Net Records, a primeira gravadora digital independente do Brasil, que lançou trabalhos de Lobão, Marcelo D2 e Karnak na internet e nas bancas de jornal. Nascido em Santa Maria no Rio Grande do Sul, foi criado no Rio de Janeiro e, hoje, mora em Belo Horizonte.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Jongui para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 29.06.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Jongui: Nasci no dia 20.09.1971 em Santa Maria – RS.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Jongui: Foi através do batuque quando ia ao Rio de Janeiro passar férias de verão com meus avós e tios. Era levado a ensaios de blocos.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Jongui: Estive sempre na música. Estudos de bateria, percussão, harmonia, violão, piano e canto. Tenho formação em licenciatura em música incompleta, já viajava com música desde os dezessete anos.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Jongui: Minhas mais antigas são o batuque, Kraftwerk, Beatles, Gilberto Gil, Alceu Valença, Rita Lee, Led Zeppelin, Pepeu Gomes e alguns mais. Depois um pouco, vieram o rock dos anos 80, Nação Zumbi com e sem o Chico Science, Bjork, Lenine, a cena eletrônica dos anos 90.

Ouço de tudo. De uns anos pra cá me aprofundei bem no candomblé. Adoro Quartetos de cordas eruditas, música eletrônica. Posso citar ainda Vítor Ramil, Lusine, Dofono de Omolu, Karina Buhr, Alessandra Leão, Edgar, Maria Beraldo, enfim, tem muito artista potente.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Jongui: Em 1989, no ano seguinte a ter finalizado o colégio, entrei pra banda “Buana 4”, que havia sido criada pelo Maurício Barros, recém saído, na época, do Barão Vermelho. Tivemos uma música escolhida pra ser abertura da novela Global Top Model e fomos contratados pela gravadora EMI. Viajamos bastante, foi divertido e aprendizado forte dentro da indústria. Precoce, diria.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Jongui: Como músico e produtor musical, muitos. Autoral e cantando, um, o “Elétrico Fio Que Teço” em 2017. Estou gravando o segundo álbum.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Jongui: Música de invenção pop.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Jongui: Bem menos do que deveria, mas um pouco.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Jongui: Sem dúvida é importante, mas creio importante também uma necessidade interior de criação e ou criação que te faz abrir a voz.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Jongui: Interesso-me tanto por exímios cantores como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Lenine, Nina Simone, Vítor Ramil, Chet Baker, Ella Fitzgerald, Gal Costa, Marisa Monte, quanto por cantores que são fortes através de sua poesia e poder expressivo, como Bob Dylan, Bob Marley, Jorge du Peixe, André Abujamra, Arnaldo Antunes, Mihay, Lucas Santtana, Karina Buhr, Fabinho Trummer e tantos outros.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Jongui: De vários pontos de partida, pode ser a partir de uma letra, de um encadeamento harmônico de Acordes, de uma melodia, uma batida. Costuma ter uma necessidade, uma inquietação expressiva, estética.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Jongui: Componho quase sempre só, tenho poucas parcerias. A mais recente é com o Mihay, chama-se “Espinho de Limoeiro” e vamos lançar um vídeo single assim que passar essa pandemia do corona vírus.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Jongui: Raquel Coutinho, uma banda mineira chamada Cumbaquê, Magno Mello e Z’África Brazil.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Jongui: Hoje em dia, particularmente, creio que não há prós. O mercado brasileiro é espremidíssimo para quem não é famoso ou não faz música dento do mainstream como Sertanejo e tais.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Jongui: Procuro sempre parcerias para as ações de divulgação, no mais, foco em seguir criando.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Jongui: Não sou bom nisso.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Jongui: Creio que me dá possibilidades de existir, no entanto, tem muita oferta.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Jongui: É muito bom o acesso, adoro, fui adepto no começo, e ainda sou. O único ponto que faço ressalvas é que alguns das gerações muito novas tem uma certa arrogância e menosprezo com o saber técnico que já vem de décadas de experiência e pesquisa. Mas em algum momento cai a ficha, nada muito grave.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Jongui: Olha, adoraria saber te dar essa resposta. Só sei fazer música da minha maneira. Penso sempre no todo musical, como numa tela, não bastam letra e melodia. A sonoridade, ritmo, atmosfera são fundamentais para se expressar.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Jongui: Brasil é dadivoso em arte potente, são muitos maravilhosos. Karina Buhr, Otto, Dona Onete, Lucas Santtana, Tiganá Santana, Tulipa Ruiz, Alessandra Leão, Céu, Maria Beraldo, Iara Rennó, Juliana Perdigão, o finado Ramiro Musotto, Edgar, Djonga, Rodrigo Amarante, Anelis Assumpção, Curumim, Ava Rocha, Junio Barreto, Raquel Coutinho, Criolo, Emicida, Alice Caymmi, Mihay, BaianaSystem, Rincon Sapiência, e muitos mais.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Jongui: Gilberto Gil.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Jongui: Sem dúvidas foi um show que fiz com minha primeira banda profissional, o Buana 4, em Erechim no Rio Grande do Sul. Foi no dia seguinte do anúncio do confisco da poupança pelo governo Collor de Mello (20 de março de 1991). Era num ginásio enorme para duas mil pessoas, quando contei pra começarmos a primeira música, do meu ponto de vista, na bateria, não via ninguém! Em compensação foi o camarim mais cheio da turnê, todos os que entraram depois que o show começou, umas quarenta pessoas no máximo, foram falar conosco. Foi divertido.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Jongui: Estar há trinta e um anos vivendo de música me realiza. A parte que incomoda é a errática quitação dos boletão.

24) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Jongui: Tenho me dividido há alguns anos entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Atualmente estou morando em beagá (BH), que tem uma cena plural e de muita qualidade.

25) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

Jongui: Em Belo Horizonte tem artistas que se tornaram nacionais, como Djonga, artistas mais MPB como Vitor Santana, Pedro Moraes, Nath Rodrigues e Luiza Brina, brass band com BabadanBanda de Rua e Sagrada Profana, blocos como Alcova Libertina, Magia Negra e Orquestra Atípica de Lhamas, no pop Thiago Correa, Júlia Branco, Rosa Neon, Raquel Coutinho, Graveola, Mariana Cavanellas e Veronez, eletrônicos como Radio Exodus, Clara Tannure e Gama Sound System, instrumentais como Thiago Delegado, Rafael Martini e Choro Amoroso, e do regional mineiro Maurício Tizumba e Sérgio Pererê.

26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Jongui: Dificilmente, mas é possível.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Jongui: Insista.

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Jongui: Só vejo prós em Festival de Música.

29) RM: Festivais de Música revelam novos talentos?

Jongui: Não exatamente, costumam referendar àqueles que estão despontando nas playlists. Ampliam o público seria mais preciso em Festival de Música.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Jongui: Paupérrima.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Jongui: Espaços Fundamentais.

32) RM: O circuito de Bar de sua cidade como boa opção de trabalho para os músicos?

Jongui: Funciona bem, beagá (Belo Horizonte) é a cidade dos bares e botecos por excelência.

33) RM: Quais os seus projetos futuros?

Jongui: Finalizar e lançar meu segundo álbum. E mais abrangente, continuar criando e fazendo shows.

34) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Jongui: [email protected]

 | https://www.instagram.com/jon.gui

 | https://www.facebook.com/jonguiOficial/

 | https://www.youtube.com/channel/UCRcg1zk3kKWR4KuPYVQHwNQ    

 “Passeio de São Sebastião” – https://www.youtube.com/watch?v=yBMXTiYX1nY                                                                    

 | https://open.spotify.com/album/1HdgkfUxejKASwjbtpnE4x

 

Jongui 1 Ritmo Melodia

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.