Janayna Pereira

Janayna Pereira

Janayna compôs seis das onze músicas e o álbum tem ainda canções de Paulo César Pinheiro, Bernardo Lobo, Zeca Baleiro, que participa cantando.

Após mais de duas décadas de estrada, sendo 18 anos à frente da banda de Forró Bicho do Pé, a cantora, compositora e artista multimídia Janayna Pereira lança seu primeiro trabalho solo esbanjando versatilidade e o melhor da música brasileira. “Tempo Bom” traz belas canções executadas por um time de primeira linha, que prepara o caminho para que a voz de Janayna desfile com graça e vigor.

A própria cantora escreveu seis das onze canções e ainda assinou o arranjo de duas: “Velocidade”, que abre o álbum, e “Do Tanto”, parceria de Janayna com o sanfoneiro Nathanael Sousa, que presta homenagem à Anastácia, grande compositora e parceira de Dominguinhos.

Nas demais músicas, composições de nomes importantes, como Zeca Baleiro, Paulo César Pinheiro, Ricardo Barros, Paulio Celé, Bernardo Lobo (filho de Edu Lobo) e Edu Krieger.

Este é o sétimo trabalho fonográfico da carreira (foram quatro CDs e dois DVDs). Um desses álbuns foi o CD – “Olhando pra Lua”, uma linda homenagem ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga, lançado em 2013. A figura de Gonzagão, aliás, também está em “Tempo Bom”, desta vez sendo reverenciado em “Velho Lua”.

“Gravar “Tempo Bom” me deu uma alegria imensa, não apenas pelo resultado do álbum, que muito me encheu de orgulho, mas também pela oportunidade de trabalhar com tanta gente linda e talentosa e que contribuíram tanto com a minha música”, afirma Janayna.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Janayna Pereira para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa 05.06.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Janayna Pereira: Nasci no dia 13.03.1973 em São Paulo – SP. Registrada como Janaina Pereira de Souza.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Janayna Pereira: Meu primeiro contato com a música foi em casa, desde bebezinha, papai Felinto Pereira de Souza, mais conhecido como Fefeu, ouvia muita música boa. E segundo ele, eu me acalmava quando ele colocava um radinho no meu berço, e eu ficava “cantando”. Eu cresci adorando música, ele ouvia muito Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, músicas que lembravam a sua terra natal Paulo Afonso – BA. E ouvia muito jazz: Cole Porter, Miles Davis, Louis Armstrong e adorava as cantoras: Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Janis Joplin, Elis Regina, Maria Bethânia, Clara Nunes… E também gostava de rock, minha sorte, ele ouvia Rolling Stones, Jethro Tull, Jimi Hendrix, só os clássicos. Meu gosto foi ficando bem eclético, devo isso a meu pai.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Janayna Pereira: A música é pura intuição na minha vida. Eu comecei o curso na ULM – Universidade Livre de Música, mas não conclui. Fiz aula de Percussão Popular com Paulo Dias no Coralusp, fui parte dos grupos Cachuêra e Cupuaçu até entrar na EAD/ECA/USP. A minha formação é em Teatro, sou atriz e no momento estou cursando Gastronomia EAD-UNICESUMAR, me formo em 2022.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Janayna Pereira: Tudo que painho Felinto Pereira de Souza ouvia acabou me influenciando: Forró, Jazz, Rock, MPB, Samba. Aí na minha adolescência comecei a curtir música pop, rock. Aos 15 anos descobri Frank Zappa, que mudou a minha cabeça, pois a música era complexa, as letras puramente críticas e cítricas, um Rock diferente, virtuoso e estranho que me fez abrir a mente com relação a música que eu já ouvia. Um dia; acho que cansado de tanto ter de ouvir Zappa, pois só tínhamos uma vitrola e que ficava na sala. Papai me mostrou o Hermeto Pascoal, segundo ele, nosso Zappa brasuca, que ficou sendo das minhas maiores referências de música sofisticada. Através do Hermeto conheci outros artistas sensacionais. Apesar da minha música não ter nem de longe a universalidade do campeão, sempre me inspirei ouvindo sua obra, meu disco “Tempo Bom” traz alguma influência deste estilo.

Meu projeto que homenageia Gonzaguinha já traz um estilo totalmente influenciado pelo rock dos anos 70,80, guitarra, baixo e bateria, nada a ver com Forró. No projeto “Urbana”, outro trabalho autoral e Pop que foi gravado em 2009, mas nunca oficialmente lançado, quem sabe em 2022 e alguns sambas que estarão presentes nos próximos discos. Minha curiosidade não se aquieta e vou aumentando as influências e os interesses. Nenhuma dessas influências jamais deixou de ter importância e vão me alimentando e em algum momento da minha arte elas estarão presentes.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Janayna Pereira: Minha carreira como cantora começou no início de 1997 como backing vocal de Miltinho Edilberto, em São Paulo. Depois de uma canja que dei no show do Trio Virgulino, empurrada pelas amigas da EAD, ele me convidou para fazer uma participação num show na inauguração do KVA. Eu fui como quem não quer nada e foi tão bom que ele me pagou o cachê e me chamou para fazer parte da banda, eu topei de cara pois amei cantar Forró. A banda era sensacional, ia mudando sempre, conheci e cantei com tantos músicos fantásticos como: Chica Brother, Olivio Filho, Cesar do Acordeon, Renatinho Cigano, Jean Garfunkel, Turquinho Filho, Arismar e seu filho Thiago do Espírito Santo, Yamandu Costa, o baterista Nenê, até Arnaldo Antunes. Nossa, me apaixonei por cantar no palco e no baile de Forró, que eu já gostava de frequentar, foi bem natural esse começou profissional na música.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Janayna Pereira: Em 1999 no álbum – “Alcançar uma Estrela” de Miltinho Edilberto como backing-vocal e percussionista.

Com a banda Bicho de Pé tenho 4 CDs gravados, dois DVDs e um documentário:

“Com o Pé nas Nuvens” (2001), lançado pela Paradoxx Music, vendeu mais de 250 mil cópias. A canção “Nosso Xote” (Janayna Pereira) entrou para lista dos 50 forrós mais executados daquela década.

“Que Seja” (2008), lançado pelo selo independente da Cooperativa de Músicos e distribuído pela Tratore, conta com as participações de Dominguinhos, Miltinho Edilberto e uma parceria com Caju e Castanha.

“A vida Vai” (2012) saiu pela gravadora Arlequim, foi lançado primeiro na Europa, numa turnê que passou por Portugal (Lisboa, Porto, Setúbal), França (Paris, Toulouse), Itália (Torino), Suíça (Berna, Zurique, St Gallen), Alemanha (Stuttgart, Munique, Frankfurt, Aachen, Colônia), Holanda (Amsterdam), Finlândia (Helsinque) e Inglaterra (Londres). Tamanho foi o sucesso da turnê, tendo três shows em Paris com ingressos esgotados, que em 2011, a banda Bicho de Pé foi homenageada e fui tida como madrinha do festival de Paris que tem como nome o título de minha canção “Ai, que bom”, escrita em português e francês. Na edição de 2011 do festival “Ai, que bom” de Paris foi gravado um DVD (apenas em formato digital) do show de lançamento do CD, cujas visualizações no Youtube ultrapassam os 400 mil. “Olhando pra Lua”, uma homenagem a Luiz Gonzaga” (2013) Arlequim, lançado em dois formatos, o CD gravado nos estúdios da Arlequim e o DVD gravado ao vivo no teatro GEO, São Paulo, em novembro de 2012 e teve a participação especial do Trio Juriti (Mestrinho, Thaís Nogueira, Scurinho Zabumbada) e do grupo vocal “Os Felas” fazendo um tributo ao rei do baião.

Paralelamente ao trabalho com o grupo Bicho de Pé, em 2009 produzi e gravei um CD solo autoral de pop rock intitulado “Urbana”, de forma independente, em parceria com o estúdio Space Blues e dividi a direção musical com o produtor, guitarrista e parceiro Alexandre Fontanetti. A música “A Febre” foi abertura da série Bipolar dirigida por Edú Felistoque, e participei de outras músicas da trilha da série compostas pelo parceiro Conrado Pera.

E o disco que pontua oficialmente minha carreira solo é “Tempo bom”, lançamento no dia 24 de junho de 2021. Gravado no estúdio 185 por Beto Mendonca, produzido por Swami Jr, com a participação especialíssima de Zeca Baleiro, Mestrinho e os instrumentistas maravilhosos: Léa Freire, Tiquinho, Alexandre Ribeiro, Cesar Roversi, Reinaldo Izepi, sem falar na minha banda virtuosa e maravilhosa: Nathanael Sousa, Guegué Medeiros, Paulio Celé, Sá Reston, Renato Chica (um irmão, com quem toco há quase 20 anos) e ainda tem as participações especiais que fiz nos discos de: Falamansa, Mestre Zinho, Seu Jorge do Rastapé, Trupe Trupé, Raiz do Sana.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Janayna Pereira: Meu estilo é o que me faz sentir vontade de cantar, me atrevo em todos os segmentos e sou feliz em todos.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Janayna Pereira: Sim, estudei um ano com Miriam Maria quando tinha 18, 19 anos idade e três anos com Madalena Bernardes e faço manutenção com minha fonoaudióloga.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Janayna Pereira: O estudo de técnica vocal e cuidado com a voz são super importantes. A nossa voz é nosso ganha pão, nosso meio de expressão, todo cuidado é pouco. Bebo bastante água, procuro dormir bem e não ingerir lactose e derivados no dia de cantar, sempre tenho um lenço ou cachecol para envolver a garganta e cobrir o peito, costas ou cabeça, dependendo da necessidade. Não bebo álcool e faço aquecimento pra poder melhor performar. O estudo da técnica é fundamental para nossa formação e para a desenvoltura da voz, afinação, longevidade das notas e para poder criar as “firulas” vocais que a gente usa como característica marcante.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Janayna Pereira: Nossa, uma lista longa… Começo por: Clara Nunes, Elza Soares, Baby Consuelo, Elis Regina, Elizeth Cardoso, Marisa Monte, Marinês, Elba Ramalho, Mônica Salmaso, Rita Benneditto, Ceumar, Déa Trancoso, Roberta Sá, dos homens amo: Caetano Veloso, Gilberto, Milton, Ney Matogrosso, Freddy Mercury, Elvis, Luiz Gonzaga. Da atualidade gosto muito de Josyara, Marcia Castro, Mariene de Castro, do François Muleka, Conrado Pera, Tó Brandileone, adoro a Fabiana Cozza, Vanessa Moreno, Joyce, Tatiana Parra, Lena Bahule, Irene Atienza, Maro, Carminho, Marisa, Dulce Pontes, Mayra Andrade… a lista vai longe…

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Janayna Pereira: Depende, às vezes a música vem toda na minha mente como se fosse soprada no ouvido, de primeira, num improviso que gravo no celular para não esquecer. Tem vezes que algum tema ou história me desperta vontade de escrever, aí tem todo um trabalho intelectual para desenvolver o tema. Assim é com as melodias, os arranjos que crio. As composições também podem surgir de poemas que escrevo e eu mando para parceiros comporem a melodia e criar arranjos, ou alguém manda o tema musical e faço letras possíveis pra ele. Não tenho muita regra.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Janayna Pereira: Nathanael Sousa, Potiguara Menezes, Thiago Delegado, Danilo Moraes.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Janayna Pereira: Maciel Melo, Bruna Caram, a banda de Forró “Chilena Da Gota”.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Janayna Pereira: Hoje só vejo prós, ser independente te garante a autonomia sobre sua carreira. Uma gravadora grande pode investir mais dinheiro no artista, em mídia digital, televisiva ou radiofônica, mas nem sempre este é o objetivo do artista, além do que, ficamos “reféns” da programação da gravadora e da estratégia de divulgação. Artistas de grande porte podem negociar estes termos facilmente, mas artistas recém contratados não têm muita alternativa com relação a isso, é pegar ou largar, com raras exceções. Eu gosto de ser independente em termos gerais, mesmo tendo mais dificuldade e menos recursos pra investir, minha liberdade não tem preço.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Janayna Pereira: Na época do Bicho de Pé, a gente fazia tudo sozinho, tivemos empresário bem no comecinho, mas em 2002 saímos do escritório e seguimos por conta. Hoje possuo uma assessoria de marketing digital, tenho um empresário e amigo queridíssimo, Alberico Santos e um escritório (Dia de Groove) que me ajudam a organizar a parte de contratos, editais, e venda de shows. Uma assessoria de marketing digital Menu da Música, que cuida de todas as redes sociais desde a diagramação e arte das postagens que faço até o agendamento das postagens. Também assinei com um selo para distribuição digital e tenho a editora e a sociedade que cuidam das arrecadações. No palco a coisa muda um pouco de figura, eu sou a responsável pela organização de repertório, ensaios e sempre dirigia os shows, mas para o show/live de lançamento do álbum “Tempo bom” terei um diretor cênico, o Dipa, e a direção musical ficará a cargo de Nathanael Sousa e Paulio Celé, assim poderei me concentrar na atuação somente e deixar de fazer mil coisas ao mesmo tempo.

Fora do palco pretendo continuar estudando Gastronomia até me formar, quem sabe faça pós-graduação, e em breve lançarei um canal no Youtube com uma série de programas ligados à Gastronomia, memória afetiva e música.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Janayna Pereira: Procuro estar antenada com os novos artistas que estão surgindo na cena e fazer parcerias, quer sejam musicais, quer seja me propondo a dirigir seus espetáculos, assim posso interagir de forma direta com meus colegas de profissão. Procuro assistir a cursos de produção musical, para aprender a traçar meus novos rumos e estou sempre em sintonia com meu público através das redes sociais no intuito de sentir o que está funcionando e o que preciso mudar. Até o curso de Gastronomia já me trouxe novas perspectivas em relação aos novos projetos que tracei unindo as artes, oferecendo novas experiências sensoriais integrando a comida e a música em eventos particulares. E um programa semanal que iniciarei assim que possível, pois nesse período de pandemia do Covid-19 tivemos que pisar no freio um pouco com estes projetos, mas assim que for seguro, retomarei com força. Também não parei de fazer parcerias de composição, inclusive com artistas de outros segmentos musicais e gravei alguns singles tomando os cuidados necessários que lançarei ao longo do ano no intuito de ampliar meu público.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Janayna Pereira: A internet só ajuda, pois é um meio de divulgação bastante eficaz e barato, basta se planejar e oferecer conteúdo para que haja interação. Gasto bastante tempo com isso, mas vale a pena. A internet é um facilitador de contatos, de busca de novos talentos, parceiros, novidades no meio da música, inclusive facilita o intercâmbio com outros artistas de localidades mais diversas, através da internet conheci músicos de outros países e pude fazer gravações a distância, planejar turnês internacionais e nacionais.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Janayna Pereira: Só vejo vantagens, especialmente no momento de fazer as pré produções musicais antes de entrar num estúdio profissional para gravar, o que economiza tempo e dinheiro de gravação. Em alguns casos o home estúdio chega a ser tão eficaz quanto um profissional, dependendo da qualidade dos equipamentos e experiência do técnico de gravação, compensa gravar no home, pelo custo mesmo, pois sabemos o quanto custa gravar num profissional.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Janayna Pereira: Primeiro, procuro me renovar, não deixando nunca a pesquisa de lado e escrevendo músicas que buscam estar antenadas com o tempo e momento presente, promover de forma massiva e organizada nas redes sociais e interagir sempre com o público. Procurei também um caminho musical onde misturo linguagens, apesar de me basear na música tradicional e tê-la como esteio. Minhas composições e interpretações avançaram em termos de arranjos para um lado mais universal, valendo-me unicamente da virtuosidade dos músicos que convidei para participar, sem usar recursos de programação eletrônica ou samples. Acho isso um diferencial, trazer uma pesquisa bem fundamentada em termos rítmicos e melódicos e tentar fugir do caminho óbvio nos arranjos. Outro diferencial foi ter tido Swami Jr como produtor musical e ter gravado num baita estúdio, com uma qualidade impecável, ter masterizado o disco com Homero Lotito. Lança-lo com planejamento e contratado uma equipe de profissionais para criar uma identidade visual, e o marketing digital. Faz toda diferença.

20) RM: Como você analisa o cenário do Forró. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Janayna Pereira: Vou dividir minha resposta em duas… O cenário do forró nunca foi um campo fácil de trafegar, especialmente pelo fato de ser MULHER. O machismo estrutural se faz presente entre os produtores, alguns companheiros músicos, até algumas mulheres é triste, mas sinto que ainda hoje, apesar deste pensamento machista e sexista ter evoluído um pouco ainda somos tratadas com diferença e inferioridade, inclusive na questão do cachê que se paga e na escolha de musicistas mulheres para integrar festivais, arrumadinhos e bandas. Ainda tratam algumas questões com as quais não concordamos nos chamando de exageradas, excêntricas, loucas, culpam nossa TPM e não enxergam suas falhas de conduta e caráter. E sou bem dura com relação a isso, não me calo, aponto o dedo e afronto sem medo, pois sei que me devem respeito e muito, não baixo a cabeça, não engulo, nem levo pra casa, procuro fazê-los entender de forma amena para não abalar muito seus egos, que precisam ser colocados no lugar, muitas vezes.

Tirando isso, acho um meio complicado, pois o forrozeiro como público é demasiado exigente e não valoriza muito os artistas na medida em que não se propõe a contribuir de forma justa pelo trabalho enorme que temos, mas quando gosta muito ele divulga, veste a camisa. Outra coisa, e que infelizmente nos coloca em desvantagem é o Forró ser um movimento muito sazonal para a grande mídia, quero dizer que só lembram da gente no período de festas juninas. mas estamos aí o ano todo e queremos ocupar um espaço maior no leque da MPB, merecemos isso.

O que me deixa feliz é que, por ser um movimento bastante humilde, feito e frequentado por pessoas simples em maioria, podemos ter contato direto com os colegas de outras bandas e com os mestres, como tive oportunidade de ter com Dominguinhos, Oswaldinho, Anastácia, Mestre Zinho, Trio Nordestino, Edson Duarte, Santanna – o cantador e muitos mais… sou muito feliz e grata por essa oportunidade.

Sei que parece pretensioso dizer isso, mas acho que todas as bandas do início do movimento “universitário” foram grandes revelações e me incluo nessa leva que teve Falamansa, Rastapé, Raiz do Sana, Peixe Elétrico, Circuladô, Forróçacana e claro, Bicho de Pé no enredo. A gente conseguiu trazer de volta alguns grandes nomes do Forró que estavam abafados pelos segmentos Pop na grande mídia. O sucesso estrondoso de Falamansa arrebanhou um monte de artistas e os trouxe para os holofotes. Depois dessa leva foram surgindo bandas muito boas como Bando de Maria, Zaíra, Dois Dobrado, Ó do Forró, Os Fulanos e trios muito bons como Dona Zefa, o fantástico Trio Macaíba e o trio feminino Mana Flor.

Hoje dois trabalhos me chamaram muito a atenção em termos de evolução musical: Nanda Guedes e a banda Sol na Macambira. Sem falar na genialidade de Mestrinho, que veio com tudo e pra brilhar muito, Nicolas Krassik, Mariana Aydar e seu Forró moderno com letras feministas e arranjos arrojados com pegada eletrônica sem deixar de lado as características da música regional nordestina, o que nos coloca em contato com um público mais diversificado. E temos no RAP o querido Rapadura, que trouxe a embolada pro flow, usou sampler de Marinês e levou a gente na bagagem. Regredir não, acho que ninguém de nós regrediu, cada um seguiu seu caminho e tem muita gente boa aí e muito mais vindo aí…

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Janayna Pereira: Elba Ramalho, Alceu Valença, Gil, Caetano, Gal, Bethânia, Chico César, Zeca Baleiro, Mariana Aydar, Mestrinho, Baiana System, Francisco el Hombre, Maria Gadú, Luedji Luna, Emicida, Criolo, Mariene de Castro, Fabiana Cozza, Rita Benneditto, Maria Rita, Roberta Sá… é tanta gente… do meu meio, destaco Bernadete França, que mesmo com muitos anos de carreira, só ficou mais largamente conhecida por ter participado e vencido como melhor cantora no festival de Itaúnas.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Janayna Pereira: Graças a Deus não passei por muitas situações destas citadas na pergunta. No comecinho da trajetória do Bicho de Pé teve um show em Osasco – SP onde rolou uma briga grande, spray de pimenta e tudo, mas não aconteceu nada com a gente. Assim que o bicho começou a pegar eu juntei a mulherada em cima do palco e saímos pela saída de incêndio. Fiquei triste quando soube que o pau quebrou por uma bobagem, coisas de homem, atitudes que me dão preguiça, honestamente, acho que os meninos ainda precisam evoluir e muito.

Outra situação foi na Suíça em 2010, por incrível que pareça, chegamos ao local do show e não tinha equipamento de som, nem técnico, para não cancelar, improvisamos com minha mesinha de monitor (sorte nossa eu ter levado) e com caixas de monitor que um amigo emprestou, o Poti foi o técnico de som, foi surreal, mas rolou. Ih, perdi a conta de quantos calotes a gente levou, quem é do meio sabe, complicado…. Cantada, meu amigo, eu recebo sempre, mas faz parte, ainda bem que Mainha aqui ainda abala uns corações (risos). Até alimenta a auto estima, sem falar que eu tiro de letra, o bom de ser palhaça é isso, faço piada e a situação termina leve, nunca recebi nenhuma cantada ofensiva. Não sofri assédio até por conta da minha postura, sou firme e dou “papo reto”, tem gente que me acha bruta, masculinizada, porque sou franca até demais. Pode ser, a convivência de 25 anos com homens me endureceu um pouco, admito, mas não acho ruim, sinto que esta dureza me protege e afasta os inconvenientes. Uso como escudo e me sinto tranquila com isso, prefiro que me achem bruta e me respeitem, do que me achem frágil e disponível, pois nem de longe eu sou nem um nem outro.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Janayna Pereira: Feliz, a resposta sempre amorosa do público em tudo que fiz e faço, isso me dá impulso e razão pra seguir. Triste? A pandemia do Covid-19 e a impossibilidade de fazer shows e viagens, abraçar meus amigos e parentes, de dançar um forrozinho.

24) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com o grupo Bicho de Pé?

Janayna Pereira: Nossa relação pessoalmente e profissionalmente é boa, sou grata por tudo que vivi com eles (Potiguara Menezes, o Poti na guitarra, Daniel Teixeira no baixo, Chica Brother na “zabumbatera” e Olívio Filho, o Olivinho, no acordeon), aprendi muito e tenho muitas boas recordações. Não saí porque brigamos, mas por querer alçar novos voos e ser totalmente dona do meu nariz, decidir sozinha que rumos tomar, o que compor, como e quando investir e não me arrependo, estou plena e satisfeita com essa escolha. Eles encontraram uma maravilhosa cantora para ficar em meu lugar: Carla Casarim, nós queremos muito bem uma à outra, sempre com muito carinho e gratidão mútua, achei a escolha deles perfeita. O importante é estarmos todos felizes e creio que estamos.

25) RM: Quais os prós e contras da participação do grupo Bicho de Pé no SuperStar da TV Globo em 2014?

Janayna Pereira: A única coisa negativa era o clima de competição em que o programa nos colocava, porque tínhamos ali, companheiros músicos muito bons de todos os segmentos e era triste ver alguém ser eliminado, a gente fez amigos no Programa, a gente se sensibilizava, chorava junto, e era horrível a tensão em que ficávamos na expectativa de sermos eliminados ou não, semanalmente. Foram oito apresentações, oito semanas tensas para gente, mas valeu, a experiência foi ótima. Aprendemos muita coisa, nos acostumamos a lidar com as câmeras, aprendemos a nos vestir e portar na TV, a lidar com a emoção no ao vivo. Fizemos muitas amizades com músicos de todo o Brasil e conhecemos grandes nomes da MPB, divulgamos nosso trabalho massivamente em rede nacional. Nunca tínhamos tido a oportunidade de sermos vistos com tanta estrutura e especialmente na TV Globo, porque na época do sucesso do “Nosso xote” (Janayna Pereira), no ano 2000, éramos contratados de uma gravadora pequena, sem “bala na agulha” para nos oferecer essa visibilidade. Era nosso momento de aparecer, aparecemos, nos emocionamos com a resposta dos fãs, tanta votação, tanto amor, fomos até a semifinal. Imagina quantos fãs a mais ganhamos depois de aparecermos no Superstar, nossa, foi um renascimento para gente e para o movimento “universitário”. Todo movimento se beneficiou, o Forró voltou a ser IN, sem falar na nossa agenda de shows que encheu, no aumento da nossa estrutura e do cachê. Foi um momento intenso, marcante e especial na minha vida, sou muito grata.

26) RM: Quais os motivos levaram você a decidir sair do grupo Bicho de Pé?

Janayna Pereira: Como já disse, a necessidade de ser autônoma e tomar sozinha as decisões pertinentes a minha carreira, quer seja no sentido musical como nos sentidos logístico e financeiro. Poder administrar meu tempo, minha grana e condições de trabalho.

27) RM: Quais os prós e contras do Movimento do Forró Universitário em São Paulo?

Janayna Pereira: Nada contra o Movimento do Forró Universitário, acho lindo que artistas do sudeste reconheçam a força da cultura nordestina, se espelhem e espalhem através da arte das bandas, trios, músicos, cantores e compositores no Sudeste. Acho que São Paulo abraçou a cultura deste povo que em grande parte formou essa cidade, a construiu e a faz crescer. Acho que é uma manifestação de respeito e gratidão por essa arte ancestral através da nossa arte, uma forma de levar adiante, acho lindo isso. E importante. A gente ocupa um lugarzinho na prateleira da MPB, sinto um orgulho imenso de fazer parte disso.28) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Janayna Pereira: Não sei, depende do que acontecer nas redes sociais, e já não faço músicas com esse intuito comercial, se acontecer, estou no lucro.

29) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Janayna Pereira: Procure ter autenticidade, não tenha medo de arriscar o novo, persista, acredite em si mesma (o), estude, pesquise, encontre sua turma e meta as caras. Abuse das redes sociais, divulgue, peça ajuda dos amigos, e fé na arte! Sempre!

30) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Janayna Pereira: Nada contra os festivais de música, alguns inclusive estão se profissionalizando bastante. E o reflexo disso é a quantidade de festivais que surgiram na Europa, especialmente depois do “Ai, que bom”, de Paris, do qual sou madrinha e coidealizadora e do Festival Rootstock – Serraria Souza Pinto – Belo Horizonte – MG e do FENFIT Festival Nacional Forró de Itaúnas – ES.

31) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Janayna Pereira: Sim, novos e velhos (risos). Dão oportunidade de conhecermos e assistirmos artistas de outras regiões do Brasil, de fazermos amizades e gerar parcerias, dançar, trocar boas vibrações, aprender, se divertir, eu amo festivais de música!

32) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Janayna Pereira: Acho que o artista da vez e o segmento do momento são muito ditados pela grande mídia, leia-se TV Globo e afluentes, e que somos mais procurados em épocas de São João, mas acho que a internet nos possibilita acesso a algumas mídias importantes que nem sempre fazem parte do conglomerado televisivo e radiofônico. E é uma mídia acessível que pode até nos levar ao rádio e TV, depende da estratégia que traçamos.

33) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Janayna Pereira: Imprescindível, indispensável. sem mais (risos).

34) RM: Qual a sua opinião sobre as bandas de Forró das antigas e as atuais do Forró Estilizado?

Janayna Pereira: Forró das bandas das antigas é a referência de todo mundo, são os mestres, referência inclusive para os Estilizados. O próprio Gonzagão foi mudando a instrumentação das suas gravações, incluindo a bateria, contrabaixo elétrico, por exemplo, ele foi se modernizando. Todos foram. Com a chegada da tecnologia foi-se abrindo novas possibilidades de busca sonora e os Estilizados como Mastruz com Leite, Limão com Mel, Calcinha Preta pipocaram nos arraias nordestinos. Estouro. Não critico o segmento como um todo, mas o teor de certas letras, ora machistas, ora homofóbicas, ora incitando o uso de álcool. Especialmente pelo baixo nível do conteúdo e pela sexualização exacerbada da mulher, disso eu não gosto, mas há quem goste, não julgo, só não compactuo e nem escuto em casa.

35) RM: Janayna Pereira, Quais os seus projetos futuros?

Janayna Pereira: Lancei o clipe “Velocidade” no Youtube, dois singles nas plataformas digitais e dia 24 de junho de 2021 o álbum “Tempo bom” estará também disponível em todas as plataformas. Gravei alguns singles com amigos artistas de dentro e fora do movimento que serão lançados ao longo do ano. Tenho um projeto de gravação de disco em homenagem a Gonzaguinha e já estou compondo e procurando músicas para o próximo álbum, escrevendo editais e torcendo para conseguir aprová-los.

36) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Janayna Pereira: [email protected]

| www.janaynapereira.com.br

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Playlist do álbum “Tempo bom”: https://www.youtube.com/playlist?list=PLijHK1AOiH84gX–u93QE5p1Dm55QzacW

“Tempo bom” primeiro álbum de Forró da carreira solo de Janayna Pereira: https://open.spotify.com/album/0ci8qvDckPl0z2pKu2tG8O?si=REGSJ4NvSTah69jwvX5fhw&utm_source=copy-link&dl_branch=1&nd=1

Canal Janayna Pereira: https://www.youtube.com/channel/UCqAk1PNhiC6n_E2sadkxAVQ

Janayna Pereira – Velocidade (clipe oficial): https://www.youtube.com/watch?v=TY5aKunFm_U

Janayna Pereira – Tributo ao trio Mossoró (Esse Não me Mata/ Ingratidão/ Hoje não, saudade): https://www.youtube.com/watch?v=feK5frmY5TQ

Janayna Pereira – Bulir com Tu (Cecéu): https://www.youtube.com/watch?v=brKbVVSiRl4

Janayna Pereira – Morena (Gonzaguinha): https://www.youtube.com/watch?v=7pr_b_o0GVs

Playlist “Com o Pé nas Nuvens” (2001): https://www.youtube.com/watch?v=HfJ1RrvCCXw&list=OLAK5uy_leIIW6NkY9-VLA-1cxiidp9TDROUnOcHk

Playlist Que seja (2008): https://www.youtube.com/watch?v=Cz2xnizGrak&list=PL1DOLAG8_NDqzb6n8KlaIK3iygS_q0HLw

Playlist A Vida vai (2012): https://www.youtube.com/watch?v=id5B56BM2QE&list=PL1DOLAG8_NDoCLYvk8DC8BWjXinpMzpzP

Janayna Pereira, Diego Oliveira and Fabiano Santana – Live In Saint Petersburg 2019: https://www.youtube.com/watch?v=3im5yW76KaE

Happy hour w/ Fabiano Santana, Vitor Diniz Janayna Pereira, Diego Oliveira Forró: https://www.youtube.com/watch?v=xInkLL6wvzw

TOUR CONNECTION FORRÓ – Fabiano Santana – Janayna Pereira e Diego Oliveira Forró: https://www.youtube.com/watch?v=AxyYf1OjzAM

Janayna Pereira e Nathanael Sousa – Prosoepopéia: https://www.youtube.com/watch?v=ZwfD1aitGnk


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.