Iso Fischer

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O cantor, compositor, pianista e arranjador paulista Iso Fischer aos 17 anos de idade, venceu um Festival de Música em Penápolis – SP, sua cidade natal, com uma canção “Libertação” de cunho “Tropicalista” e influência de Mutantes.

Durante o curso de Medicina na FMUSP atuou no centro acadêmico Oswaldo Cruz como diretor de discoteca, ator e compositor de trilhas sonoras no grupo de teatro, coordenador de espetáculos musical e integrante do coral de 1973 a 1978. Em 1979 em Campo Grande – MS, formou o grupo “Iso Fischer e Amigos”, com o qual dividiu o palco com Almir Sater, Geraldo Espíndola, Paulo Simões e Guilherme Rondon. Ele desenvolveu trabalhos musicais de coro cênico, um movimento inédito na cidade até então, com o grupo vocal Salada de Frutas.

Foi membro do Conselho Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul. Em 1984, sua composição “Isso e aquilo” em parceria com Guilherme Rondon é gravada por Nana Caymmi e César Camargo Mariano (LP “Voz e Suor”).

Em 1985, mudou-se para Curitiba – PR, onde reside até hoje. De 1994 a 2001, exerceu o cargo de diretor tesoureiro da Associação dos Compositores do Estado do Paraná (Clube do Compositor), da qual foi um dos sócios fundadores. Participou, como compositor, arranjador, instrumentista e cantor, de diversas oficinas de música do Conservatório de MPB, em algumas delas, executando arranjos seus para coro, sob a regência de Marcos Leite.

Realizou, de 1994 a 2000, diversos shows autorais em Curitiba. Em 1999, lançou seu primeiro CD – “Camera Pop”, que lhe rendeu no ano seguinte o Troféu Saul Trumpet, como melhor compositor de 1999. Ainda em 2000, montou, com a cantora e compositora Etel Frota, o espetáculo “Alphonsus Guimaraens, o poeta da lua”, para o qual compôs 16 canções, a partir de textos do poeta simbolista. Assinou, ainda, os arranjos e a direção musical do espetáculo.

De 2000 a 2004, criou trilhas sonoras para as peças teatrais: “Colônia Penal”, indicado em 2001 ao Prêmio Gralha Azul na categoria Melhor composição musical; “Homem elefante” e “A Metamorfose”.

Em 2006, comemorando 40 anos de carreira como compositor, um trabalho com seu irmão, o cantor e ator Tato Fischer, processo esse que culminou no CD – “Valsa da Vida, as canções de Iso Fischer na voz de Tato Fischer”, gravado ao vivo no Teatro Paiol em Curitiba, lançado em 2009.

Realiza em 2012, no Teatro Paiol o Show “180 Graus”, com os parceiros Etel Frota e Guilherme Rondon, em que os três comemoram seus aniversários de 60 anos. Também em 2012, realiza em Campo Grande – MS, na Escola Arte Viva de Música, o Sarau “Valsa da Vida”, com participação de Luciana Fisher, Clarice Maciel, Sofia Maciel e Guilherme Rondon.

Em suas apresentações musicais, bem como em seus trabalhos registrados em CD, Iso canta suas composições feitas em parcerias com:  Guilherme Rondon, Alexandre Lemos, Lucina Carvalho, Luhli, Zé Edu Camargo, Sonekka, Tato Fischer, Alice Ruiz, Paulo Leminski, Etel Frota, Paulo Bafile, Gilvandro Filho, Marcelo Sandmann, Helena Kolody e outros.

Em 2014, foi gravada pela cantora de Campo Grande – MS, Luciana Fisher as suas canções: “A Cor do Meu amor” (com sua participação) e “Horizontes” (esta, em parceria com Guilherme Rondon e Paulo Simões). Em 2015, teve duas canções em parceria com Etel Frota, presentes no CD – “Flor de Dor” do trio vocal “O Tao do Trio”, de Curitiba – PR. “Cidoidania” e “Dolor”, esta última dando o tom do CD, e gerando seu nome.

Em 2016, realizou em Campo Grande – MS no teatro Glauce Rocha, um espetáculo com a Orquestra Sinfônica Municipal, com regência de Rodrigo Faleiros, a convite do maestro Eduardo Martinelli Danzi, responsável pela orquestra, com a participação de músicos locais: as cantoras líricas Clarice Maciel e Cristina Passos, a compositora e cantora Lenilde Ramos, a cantora Luciana Fisher, e o pianista Evandro Rodrigues Higa.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Iso Fischer para a www.ritmomelodia.mus.br  , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 05.08.2017:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Iso Fischer : Nasci no dia 05/08/1952, em Penápolis, São Paulo.

02) RM : Fale do seu primeiro contato com a música?

Iso Fischer : Não sei precisar muito. Meu irmão mais velho, Tato Fischer estudava piano, lá na nossa cidade, até mesmo viajava para cidades um pouco mais desenvolvidas, para estudar em conservatórios. Quando ele se firmou nos estudos do instrumento, meu pai comprou um piano Essenfelder para ele poder estudar em casa. E eu comecei a brincar nesse piano, tirar músicas de ouvido. Bem, meu pai gostava muito de música e comprava muitos discos, eu ouvia de tudo naqueles 78 RPM de acetato, que se quebravam facilmente. Depois, também estudei piano clássico, com muitas interrupções.

03) RM : Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Iso Fischer : Fiz o curso de piano, com todas as irregularidades, começando e parando várias vezes. Mais tarde, como atividades de Centro Acadêmico participei de Coral e me aprofundei um pouco mais. E fui autodidata, ou mesmo estudei canto e piano, de acordo com minhas necessidades. Eu estudei medicina na FMUSP de 1973 a 1978. Fiz especializações em Saúde Pública e Homeopatia. E também como Terapeuta Corporal em Biossíntese.

04) RM : Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Iso Fischer : Na minha casa, havia um disco, já então um LP, do Juca Chaves. Chamava-se: “As duas faces de Juca Chaves” (meu pai adorava o cara). Havia sátiras e Modinhas, cada uma delas numa das faces do LP. Essa foi uma forte influência. Eu fiz um poeminha autobiográfico dizendo: “Juca Chaves me ensinou a mostrar as duas faces Tropicália abençoou: Todas as faces fazem parte do meu show”. Mas considero muito importantes aqueles discos todos 78 RPM que eu ouvia na infância e adolescência. Duplas caipiras, Dalva de Oliveira, Clássicos populares, Temas de Filmes, Francisco Alves, Ima Sumac, Carlos Gardel, Luiz Gonzaga…..e por aí vai… Essa miscelânea deixou-me de ouvidos e espirito abertos, de forma que o Movimento Tropicalista, com sua “Geleia geral Brasileira”, permitiu-me compor de forma variada, sem barreiras.

Os ídolos eram “Os Mutantes” e os baianos, Maria Bethânia vinha junto pela proximidade. Taiguara me inspirou profundamente:  na forma de cantar, escandindo as palavras, (naquela melodiosa voz) e na forma de compor, naquele piano com um ritmo bem peculiar, e suas harmonias. O contato com a música clássica, através dos estudos de piano, foi bastante importante.

Apresentei como trabalho de escola, nos meus 15 anos de idade, um panorama sobre a Bossa Nova, para o qual me debrucei sobre Tom Jobim e João Gilberto. Como movimento, tendência, somou-se. E os grandes Festivais, com seus ícones, vieram arrematar esse caminho. Mas, se tivesse que individualizar seria: Juca Chaves, Luiz Gonzaga, Taiguara, “Os Mutantes” e Tropicalistas com sua irreverência maravilhosa.

A influência que foi mais próxima e constante, que de tão próxima quase deixo de citar, é a influência de meu irmão Tato Fischer em vários sentidos, não só no musical, pela sua carreira de pianista, de estudante de piano, como no fascínio pelo psiquismo do ser humano, determinando escolhas de formação profissional, e ainda por suas ideias libertárias. Ele, que já buscava seus caminhos pelas vias do teatro, muito cedo começou a interpretar minhas composições, o que me foi um estímulo para continuar a compor. E, de alguma forma, viemos nos estimulando e influenciando ao longo da vida e até hoje.

05) RM : Quando, como e onde você começou a sua carreira profissional?

Iso Fischer : Comecei a compor aos 14 anos de idade. Aos 17, venci um festival de música em Penápolis – SP, com uma canção de influência dos Mutantes: “Libertação”. Junto com alguns amigos, tínhamos uma banda de baile (“N-Plas), e sempre, na primeira seleção de músicas, nos bailes, tocávamos canções da banda “Os Mutantes”. Com minha ida a São Paulo para estudar medicina, as coisas correram paralelamente. No Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, da FMUSP, eu pude vivenciar a música de diversas formas, cuidando de uma Discoteca: onde ouvia “as novidades”, cantando no Coral e me interessando por arranjos vocais, participando de Reuniões Musicais: onde eu apresentava composições próprias, como grupos criados ali mesmo, e atuando e compondo trilhas para Peças teatrais.

Ao terminar a Faculdade, fui a Campo Grande – MS, como Médico Militar. Logo que cheguei, me inscrevi num Festival, o primeiro do Novo estado de MS, e mesmo não tendo vencido, fiquei entre as melhores da cidade, e minha música provocou um grande impacto. Comecei a perceber que minha música podia ir bem mais além dos muros da Faculdade.

06) RM : Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Iso Fischer : Tenho dois CDs lançados.

De 1999, o “Camera Pop”, onde eu pretendi mostrar a diversidade como característica do meu trabalho como compositor. Muitos convidados:

Nas bases: Rosemeri Paese nos teclados, Endrigo Bettega na bateria e percussão, Paulo Bettega no baixo elétrico, Boldrini no baixo acústico, Javier Balbinder no oboé, Romildo Weingartner no violoncelo, Lydio Roberto e Guilherme Rondon nos violões, Rogerio Gulim na viola caipira, nos vocais e backings Liane Guariente e Andrea Bernardini. Vicente Ribeiro foi produtor, co-arranjador comigo, diretor de estúdio, programador de Teclados. E houve a participação especial de convidados: Grupo Fato, Celso Loch Piratta, o vocal d’O Tao do Trio (Cris lemos, Helena Bel e Suzie Franco, na época), e cantores e/ou compositores: Tato Fischer, Alexandre Nero, Lydio Roberto, Mauricio Detoni, Paulo Barato, Hilton Barcellos, Celso Piratta, Oswaldo Rios, Etel Frota, Ana Clara Fischer, e Zecca Wachelke. Este é um CD de estúdio, que foi trabalhoso na sua criação, pela diversidade proposta. E a diversidade é também a tônica das composições, uma MPB, desde a influência do erudito (oboé e cello), por isso, “Camera” ao Pop. (Bossa, Fox-trote, Valsa, Rock, canções brejeiras e canções românticas. As canções de destaque pelo gosto do público foram: “Origami” (parceria com Etel Frota), “Isso e aquilo” (com Guilherme Rondon), “Horizontes” (com Guilherme Rondon e Paulo Simões) e “Que festa é essa, malandro?”

De 2009, o “Valsa da Vida, as canções de Iso Fischer na voz de Tato Fischer”. Este foi um CD gravado ao vivo, num show no Teatro Paiol, em Curitiba, com a participação de, além de Tato Fischer, Ana Clara Fischer e Maurício Detoni, em solos e vocais, Fábio Cardoso ao piano, e Luís Fernando Fischer Dutra, ao violino. O CD foi resultado de um processo nosso Tato e eu, de revisão das composições minhas que ele já havia interpretado ao longo de nossas vidas. E que resultou em diversos shows, em Penápolis, nossa cidade natal, São Paulo (Café Piu-piu), e Curitiba por mais de uma vez. Tem um clima mais introspectivo, com momentos de maior dramaticidade.

As músicas mais apreciadas pelo publico são: “Depende só de mim” (parceria com Luhli), “Épica” (com Etel Frota e Ray Rolim) e “Valsa da Vida”.

07) RM : Como você define seu estilo musical?

Iso Fischer : MPB com influência erudita, e bastante diversificado.

08) RM : Você estudou técnica vocal?

Iso Fischer : Sim.

09) RM : Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Iso Fischer : A menos que não se queira cantar nunca, a técnica vocal é fundamental para melhorar a emissão, para cantar melhor, sem prejudicar suas cordas vocais, e, consequentemente, sua voz. A voz é um delicado instrumento, e precisa ser cuidada, também porque, com o tempo, como outras funções humanas, ela também se deteriora.

10) RM : Quais as cantoras(es) que você admira?

Iso Fischer : Cantoras: Zizi Possi, Maria Bethânia é grande intérprete, Elis Regina e Gal. Entre as novas, Roberta Sá é minha preferida. Gosto da Zélia Duncan. Cantores: Zé Luiz Mazziotti, Ney Matogrosso, e alguns que são cantores de suas próprias canções como Djavan.

11) RM : Como é o seu processo de compor?

Iso Fischer : Mais frequentemente prefiro criar uma melodia para sublinhar um texto, que pode ou não ser meu. Um poema, ou uma letra à espera de uma melodia pode me inspirar, “cantar para mim”. Mas também crio melodias sem letras. E faço letras para melodias de outras pessoas. Em geral, prefiro estar sozinho ao compor, mesmo que eu divida a composição.

12) RM : Quais são seus principais parceiros de composição? .

Iso Fischer : Etel Frota, Gilvandro Filho, Guilherme Rondon, Sergio Veleiro e Lucina Carvalho.

13) RM : Quem já gravou as suas músicas?

Iso Fischer : Nana Caymmi, Ivan Lins, Jackie Hecker, Ana Cascardo, Luciana Fisher, Ana Gilli, Lucia Helena Correa, Tato Fischer, O Tao do Trio, Trio De Favetti, Cris Lemos, Danny Reis.

14) RM : Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Iso Fischer : Prós: Fica-se mais independente, como o próprio nome diz. Independente de exigências de gravadoras, de produtor, podendo escolher seu caminho com maior liberdade. Contra: têm que batalhar mais, tudo depende de você, financiamentos não são fáceis, mesmo leis de incentivo ou patrocínios.

15) RM : Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Iso Fischer : Por levar essa carreira em paralelo com a medicina, que acaba sendo meu principal meio de vida, até então, investi menos do que gostaria. No momento, estou buscando o que as mídias existentes podem me oferecer. Até mesmo estar fazendo essa entrevista é resultado de contatos que tenho procurado fazer nas redes sociais. E faz parte dessas estratégias utilizar tudo o que possa no canal do YouTube, postar músicas no Sound Cloud, enviar músicas para cantores (as). No palco, é produzir mais shows, descolar espaços, e fazer as coisas, sempre que possível,  junto de outras pessoas, a união com parceiros sempre é positiva. Pelas trocas e pela força que se une.

16) RM : Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Iso Fischer : Contatos com músicos que estão na ativa, conhecer trabalhos de gente nova, apoiar e propor trocas. Descobrir os caminhos digitais possíveis. Organizar minha obra, indexar, procurar registrar, e gravar minimamente tudo.

17) RM : O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Iso Fischer : Eu gosto muito do objeto disco. Sejam os antigos (e relançados) LPs, ou CDs. A Internet aponta para o desaparecimento deste produto. Que vêm com capa, letras, textos explicativos, créditos, etc. Pela Internet tudo fica sendo um produto de consumo a mais, do qual o consumidor não fica sabendo muito. Apenas curte ou não curte e pronto. Por outro lado, sabendo-se utilizá-la, coisa que eu ainda não sei fazer direito, você consegue uma divulgação maior, universal mesmo.

18) RM : Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Iso Fischer : Não creio que existam desvantagens. Sinto muito não ter essa tecnologia às mãos, pois já me adiantaria, e muito, a minha produção E Divulgação do meu trabalho, sem depender de outros. Mesmo não tendo a qualidade de um estúdio. O que também representa grande economia.

19) RM : No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Iso Fischer : Acho que a diferença está na qualidade do meu trabalho. Apesar de não ser a minha principal atividade, do ponto de vista de sobrevivência, não faço a música como um hobby, por puro prazer. Primo pela qualidade do meu trabalho e quero as coisas bem feitas, com a melhor qualidade possível. E sigo meu caminho musical, sem me deixar levar por modismos, pelas facilidades. Sou fiel à minha convicção artística.

20) RM : Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Iso Fischer : Compositores: Lenine, Chico Cesar, Zeca Baleiro, Guilherme Rondon são revelações. Acho que permanecem com qualidade. Na verdade, todos eles já trabalham há mais tempo, mas conseguiram maior visibilidade nos últimos 20 anos. Cantoras: Maria Rita: acho que estacionou, Roberta Sá: sempre me surpreende, não pela novidade, mas pela fidelidade às canções que recria, além da qualidade vocal e interpretativa. André Mehmari, pianista e compositor.

21) RM : Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Iso Fischer : Cesar Camargo Mariano, Djavan, Milton Nascimento, Zizi Possi, Ney Matogrosso.

22) RM : Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Iso Fischer : Participar de Festivais de Música em cidades pequenas (não só) sem mínimas condições, com microfones presos com esparadrapo, caindo, e Teclado que não funcionava, em vez de piano. Levar um grupo vocal de Campo Grande a Corumbá para nos apresentarmos para meia dúzia de gatos pingados, num local inadequado. Cantar com o mesmo grupo Vocal em aniversário de socialite, apresentando um trabalho cênico, com viés cultural múltiplo, e pedirem: Toca uma polca! Tocar em casamento de pseudogranfina em restaurante onde eu era o músico de todo dia, tendo que aguentar bêbados querendo cantar “eu carquei o pé na cova”.

23) RM : O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Iso Fischer : Feliz: Saber que a minha música tocou o coração das pessoas, de uma pessoa, que seja. Que fez bem. Triste: não ter podido me dedicar mais e fazer com que minha música pudesse ter tocado mais corações.

24) RM : Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Iso Fischer : Moro em Curitiba – PR. Parece que tudo acontece escondido. Soube recentemente que há dezenas de bandas de garagem, e até mesmo com boa qualidade, mas nunca vi ou ouvi. Subterrâneas. Há muitos compositores de MPB, espalhados, cada um desenvolvendo seu trabalho. Quem quer sobreviver de sua arte tem que dar aulas ou tocar em barzinho.

Já houve, ao longo de anos, vários movimentos musicais com começo, meio, e infelizmente, Fim. Vários dos quais tive noticia, anteriores à minha vinda para cá. Já do meu tempo, houve um “Clube dos Compositores de Curitiba” (Nome de fantasia de uma associação) do qual participei ativamente, como membro da diretoria, que foi bastante ativo de 1994 a 2000, com parcerias com as instituições, promovendo shows em vários formatos.

Mas há também o Conservatório de MPB, que é um local que agrupa muita gente fazendo boa música. Ali há uma Orquestra à base de sopros, e uma Orquestra à base de Cordas, que frequentemente convidam um compositor de renome nacional para fazerem um show juntos. E há também dois Grupos Vocais importantes, o Brasileirão, com cantores que também são solistas, e o Brasileirinho, das crianças. Ambos cantam MPB. Grupos esses que já existem há anos. Há mais de 30 anos, existe uma Oficina de Música no mês de Janeiro dividida em fase erudita e popular, que traz estudantes de todo o Brasil e de outros países, pra terem aula com professores do melhor naipe, nas duas áreas.

Neste ano de 2017, o atual prefeito cancelou a Oficina, com a justificativa de não haver verbas. Também de certa forma, provocado pela existência do conservatório, há um movimento interessante dos Chorões, que fazem apresentações, rodas de choro semanal.

A música Erudita também tem uma boa produção, com a camerata e coro da Cidade de Curitiba. Mais recentemente, por questões administrativas foi desativada a Orquestra Sinfônica do Estado do Paraná, que, segundo se diz, pretende ser reativada, praticamente reiniciada.

A Fundação teatro Guaíra e a Fundação Cultural de Curitiba (Municipal) é que abrigam as principais atividades musicais da área erudita. Além de iniciativas outras de caráter particular.

25) RM : Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

Iso Fischer : Grupo Fato, Vocal Brasileirão, Grupo Viola Quebrada, Grupo Vocal feminino “As Nymphas”, grupo vocal “O Tao do Trio”, Trio De Favetti, Guego Favetti, Gerson Bientinez, Sergio Albach, João Egashira, e as Orquestras de Sopro e Cordas que eles coordenam, Juliana Cortes, cantora, Selma Baptista, cantora, Liane Guariente, cantora.

26) RM : Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Iso Fischer : Acho difícil, a menos em Rádios Educativas, como a de Curitiba. E outras do gênero. Preocupadas com a cultura e com apresentar música de qualidade, e de compositores pouco conhecidos.

27) RM : O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Iso Fischer : Que é preciso muita persistência, ralar muito, e achar os caminhos certos. Estudar, aprimorar-se, fazer a diferença. Conhecer o que já foi feito, para não ficar “descobrindo a roda”. Ouvir muito. Ter humildade, porém sem se rebaixar diante de exigências absurdas, saber se colocar. Ter atitude profissional, mesmo sendo ainda um amador. Buscar parcerias, não querer brilhar sozinho.  E, fundamentalmente, saber que não é fácil, especialmente cá no Brasil.

28) RM : Quais os prós e contras do Festival de Música?

Iso Fischer : Festival de Música já era. Pelo menos nos moldes em que foram inventados e realizados nos anos 1960/70. Acho muito estranho você comparar uma valsa com um samba, e escolher qual é a melhor. Se, por um lado, o Festival pode projetar um novo talento como o fez, naquela época: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque, etc, nos dias de hoje vencer um Festival fica sendo um ato isolado. Se isso não for aproveitado para alavancar uma carreira, não serviu para muita coisa.

E, além disso, se a música não vence em primeiro, segundo e terceiro lugar, não quer dizer que não seja boa. Se o júri for outro, o resultado será outro. É tudo muito subjetivo. E não garante uma carreira. Algum Festival de Música que selecionam sem classificação, e com a possibilidade de mostrar um trabalho, através de três ou quatro canções, eu acho mais interessantes. Acho que faz mais sentido.

29) RM : Na sua opinião, hoje os Festivais de Música ainda é relevante para revelar novos talentos?

Iso Fischer : Como já disse acima, é algo pontual, que, se não for muito bem aproveitado, se o compositor em questão não tiver condições de capitalizar isso para sua carreira, não vai ajudar muito. Mesmo que ele seja um talento que ali foi revelado. O que até pode acontecer. Acho que este não tem sido o objetivo dos Festivais de Música espalhados pelo Brasil, com exceções.

30) RM : Como você analisa a cobertura feita pela mídia da cena musical brasileira?

Iso Fischer : Cobre o que interessa, cobre o que é paga para cobrir. Constrói os sucessos por exaustão.

31) RM : Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Iso Fischer : Acho que são bons, e que é preciso saber fazer os projetos para participar, e poder ter os requisitos burocráticos muitas vezes exigidos por eles. Tem que ir atrás e ficar antenado quanto aos editais. No meu caso, seria mais fácil ter alguém que fizesse isso. Parece que o artista, em geral, não é bom administrador da sua obra, e não sabe fazer projetos, desenvolver esse meio de campo.

32) RM : Qual a sua relação pessoal e profissional com Nana Caymmi?

Iso Fischer : Nana Caymmi gravou uma canção minha em parceria com Guilherme Rondon, que foi o responsável por fazer chegar até ela uma gravação: “Isso e aquilo” no disco “Voz e suor”, que ela fez com Cesar Camargo Marianno. Fora ter conversado algumas vezes com ela, após shows, nenhuma outra relação.

33) RM : Qual a sua relação pessoal e profissional com César Camargo Mariano?

Iso Fischer : Menor ainda do que com Nana Caymmi. Ele foi o pianista da canção “Isso e aquilo”, no disco “Voz e suor”, lançado em vinil LP, depois relançado em CD. Nem o conheço pessoalmente.

34) RM : Qual a sua relação pessoal e profissional com Almir Sater?

Iso Fischer : Aí já é diferente. Nos anos em que morei em Campo Grande – MS, de 1979 a 1985, frequentei a casa dos Sater, dei aula de música para alguns deles, e recebi também ajuda pessoal dessa família. Toquei e cantei no primeiro casamento do Almir Sater, nessa época. Chegamos a tocar juntos num Festival de Música, do qual saímos no meio, por discordar da forma como estava sendo conduzido. Nós e mais 28 concorrentes dos 40 classificados. Mas ele já não morava mais lá nessa época.

35) RM : Qual a sua relação pessoal e profissional com Zé Rodrix?

Iso Fischer : Este foi um grande amigo, grande pessoa, que conheci primeiro virtualmente, através do de um Grupo de discussão na Internet chamado M-Musica, que reunia compositores, produtores, amantes da música, interessados, etc. Mais tarde nos aproximamos de verdade, através dos encontros do Clube Caiubi, que seria o espaço de “desvirtualização” dos membros da M-Musica. Numa ocasião, neste espaço, ele foi a figura que me apresentou ao publico no inicio do show. Cantei com ele uma canção sua em apresentação que ele fez em Curitiba – PR, num Bar. E nos encontrávamos em situação social de amigos. Frequentei sua casa. Estive com ele também em Curitiba, na casa de Etel Frota, amiga comum, que teve a alegria de ser parceira dele.

36) RM : Qual a sua atuação como ator?

Iso Fischer : Fiz teatro no Centro Acadêmico, quando fazia medicina. Atuei em umas duas peças, e fiz trilha sonora para outras. Nunca fiz um grande trabalho especifico como ator. No ano 2000, junto com Etel Frota, montamos um espetáculo sobre a obra poética de Alphonsus de Guimarães, “O Poeta da lua”. Sobre seus textos compus 16 canções, fiz a direção musical, e também falei poemas. Não era exatamente um texto teatral, tudo ou quase era sobre os escritos do poeta. Mas havia uma dramatização.

37) RM : Quais os seus projetos futuros?

Iso Fischer : Na busca de uma síntese das minhas duas vertentes de trabalho, criei um “slogan” para mim que diz: “Por uma Medicina Criativa e uma Música Curativa”. Quero poder trabalhar mais com as duas coisas juntas, ajudando as pessoas a serem mais felizes. A se permitirem isso. Palestras sobre Qualidade de Vida, entremeadas com canções minhas ou significativas para mim.

Projetos de shows e de CDs na cabeça tenho vários, mas vamos realizando e montando na medida do possível. Um CD das minhas canções mais “brazucas”, das minhas trilhas para teatro, e outros. Material não falta. Mas meu objetivo mais próximo e presente é organizar minha obra, gravando minimamente tudo, escrevendo, cifrando e registrando o que ainda não foi registrado. E lançar meus dois CDs na rede, ampliar a divulgação.

Gostaria muito de repetir ou até mesmo ampliar a experiência que tive em outubro de 2016, em Campo Grande – MS,  de fazer um show junto de uma Orquestra Sinfônica, apresentando canções minhas, com a participação de cantores populares e eruditos. Não sei se será um projeto, mas sonho com isso.

38) RM : Quais seus contatos para show e para os fãs?

Iso Fischer : [email protected] | (41) 99644 – 0019 (WhatApp) | www.facebook.com/iso.fischer

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A banda “N-Plas” que Iso integrou como tecladista e cantor, era composta pelos seguintes amigos: Hedison Kiuti Sato, (guitarra solo) Laércio Peli ( guitarra base) Samuel Alves Cabral (crooner, em memória), Adirson (baterista) e José Angelo Amado ( contrabaixista).

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.