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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antônio Carlos da Fonseca Barbosa.

iris De franco

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iris De franco é idealizadora e gestora do projeto feminista Mulheres que Conduzem, professora, pesquisadora de Forró Dança e mediadora de conversas feministas e terapêuticas.

Organiza rodas de acolhimento da mulher dentro do Forró e promove vivências de percepção, descoberta e desenvolvimento dos potenciais da mulher na dança e na vida.

Trabalha com vivências que buscam caminhos para compartilhamento da condução e para a criatividade na dança no intuito de promover a integração do corpo, mente e alma e a transformação do ser humano e da sociedade através da dança.

iris De franco participa do movimento forrozeiro desde 1997, acompanhando o surgimento e desenvolvimento do “Forró Universitário” no Brasil. É professora de Forró Urbano e viajou para Europa, América do Sul e Brasil, ministrando cursos em diversos festivais e projetos: Forró de Frankfurt Festival 2019 / Alemanha; Pisa na Fulô Barcelona Forró Festival 2019 / Espanha; Forró Meeting Kalamata 2019 / Grécia; Festival Sudamericano de Forró / Argentina; Forró Montevideo / Uruguay; Forró Basel e Forró Berna / Suíça; Forró Coladinho / Alemanha. No Brasil: Nata Forrozeira 2018 e 2019 / São Paulo; Rootstock 2017 / Belo Horizonte, Café Brasil 2016 / Itaúnas, dentre outros. Mediou também rodas de conversa feministas no Brasil e exterior.

Fez formação em Forró com o mestre Evandro Paz e junto com ele organiza o Uaná Urbano, método de ensino de Forró, para dançarinxs e professores que aborda metodologia e didática, matrizes de movimentações, conceitos para dança a dois, história e lifestyle do Forró Urbano.

Estudou no Remelexo Brasil, casa noturna onde também lecionou, um dos epicentros do “Forró Universitário” em São Paulo. Fez aulas de dança clássica, contemporânea, contato-improvisação, flamenco, danças de salão e foi ginasta olímpica por 7 anos.

Participa do movimento do Forró Patrimônio Cultural, que visa transformar o Forró em Patrimônio Cultural do Brasil e participou de mesas de registro histórico do Forró junto ao IPHAN em São Paulo e Belo Horizonte nos Fóruns de Forró. É integrante dos coletivos SPForró, Fórum do Forró de SP e Frente de Mulheres no Forró, defendendo uma melhor posição para o Forró junto aos órgãos públicos.

Trabalhou nas comunidades carentes da região sul de São Paulo dando aulas nas Fábricas de Cultura e no Forró da Quebrada em 2016 e 2017 com o Mulheres que Conduzem. Realizou apresentações e aulas em diversos Sescs do Brasil, sozinha e com seus parceirxs.

É responsável pelo programa de pesquisa e registro: As Mulheres do Forró, onde a História das Mulheres e do Forró é contada através da voz delas em entrevistas desde 2018.

Em 2020, iris De franco foi contemplada pela lei emergencial Aldir Blanc premiada pelos trabalhos realizados na cidade de São Paulo e o Mulheres que Conduzem foi contemplado como espaço cultural.

Segue abaixo entrevista exclusiva com iris De franco para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 20.12.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

iris De franco: Nasci no dia 29 de dezembro de 1978, em São Paulo, fui criada no interior, em São Roque dos 7 aos 16 anos, e retornei à capital para fazer faculdade em 1996, onde permaneci. Eu amo São Paulo por ser uma mistura caótica de etnias e culturas em que a arte explode de muitas maneiras em todos os cantos.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

iris De franco: Meu contato com a música vem da barriga de minha mãe Erô. Meu pai, Fábio, é um ser extremamente musical que batuca o dia todo. Ele está sempre experimentando os sons seja na parede do elevador, raspando o garfo no prato ou tocando taças (risos). Ele e minha mãe gostam de poesia, trocadilho de palavras, rimas e metáforas, e isto é muito presente no dia-a-dia da família, na oralidade, na leitura.

Meu pai acompanha os lançamentos da música no mundo, especialmente do Brasil, foi minha fonte de educação musical na infância e adolescência, até hoje traz novidades nesta área para a família. Aos 8 anos de idade comecei a estudar piano e partitura e isso também me ajudou a entender um pouco mais sobre música. Eu compunha poesias e melodias desde muito pequena, gostava de cantar e escrever, mas não levei este lado para o mercado, apesar de ter um blog, há 10 anos, com mais de 150 poesias e letras de música: www.ventodoventre.blogspot.com , é um passatempo que levo à sério.

Meus pais estimularam desde cedo a leitura e reflexão em casa, dando o exemplo, lendo muito, presenteando com livros, comentando jornal, poesia, texto, livro. Minha mãe é professora de português, e escreve contos e peças de teatro, eu fui influenciada por um ambiente criativo, cultural e artístico, com uma avó pintora, tias e avós artesãs, pai e avô que criavam engenhocas e consertavam as coisas com as próprias mãos. As brincadeiras que eu mais gostava quando menina eram ensaiar e apresentar peças de teatro, coreografias de dança e música, escrever poesias, desenhar, pintar e costurar roupas para bonecas, eu desde sempre gostei de fazer arte.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

iris De franco: Sou formada em Artes Plásticas pela USP / Universidade de São Paulo, com bacharelado em gravura, eu ainda hoje, desenho e pinto quadros, papéis, papelões, telas. Tenho algumas ilustrações no blog: www.dosconfinsdomundo.blogspot.com.br , mas não dei uma atenção profissional-mercadológica para esta área. A xilogravura também é uma grande paixão, na qual me especializei na Faculdade e que tem ligação forte com o Cordel e a poesia. Minha formação em música falei um pouco na pergunta anterior.

04) RM: Fale do seu contato com a arte.

iris De franco: Desde cedo era apaixonada por todas as artes, fiz aulas de teatro e dirigi e participei de peças com minha mãe em escolas de Ensino Fundamental, onde também fui professora de Artes.

Trabalhei com moda, cursei pós-graduação em Moda e Criação pela Faculdade Santa Marcelina e tive duas marcas de roupas, além de ter desenhado figurinos para teatro e dança.

Fiz performances com meu próprio corpo e maquiagem, por exemplo: várias vezes fui ao Forró com os olhos pintados de vermelho e deixava um pouco desta cor nas pessoas com quem eu dançava no intuito de expressar que a dança é uma fusão entre seres humanos e uma troca muito profunda que deixa marcas. Também com a ideia de resgatar a ancestralidade das tribos que se pintam com caráter ritual. Ir ao Forró e me maquiar é também poder resgatar e reverenciar minha tataravó índia Bina, é saudar meu povo, minhas raízes e agradecer à ancestralidade brasileira.

Eu sou uma mulher de todas as artes e dizem que minha maior qualidade e meu maior defeito é ser muito criativa (risos). No mundo gostam de criatividade até a página dois, a criatividade é boa quando resolve certos problemas, porém quando se torna revolucionária e abala a ordem social e do dia a dia, as pessoas se sentem ameaçadas ou não veem sentido nela. Por isso que, muitas vezes, uma ação artística é reconhecida anos, ou séculos depois de ter sido realizada. Nem todos gostam de ser tocados por minha sombra vermelha (e eu aqui queria falar de sombra de olhos enquanto maquiagem e sombra no sentido psicológico junguiano).

05) RM: Qual sua formação em Dança?

iris De franco: Com a dança tive uma formação de rua: baladas em casas noturnas e festivais de Forró Urbano. Eu chamo de Forró Urbano todos os galhos e estilos descendentes do “Forró Universitário” do final dos anos 90, ramo que surgiu no sudeste do Brasil e se espalhou pelo mundo. Eu sou frequentadora da cena forrozeira do sudeste desde 1997, em algumas épocas eu dançava entre 5 e 10 horas por dia, 7 dias por semana, da primeira até a última música, só parava para beber três copos de água ou se a sapatilha furasse.

Participo muito dos festivais de Forró Urbano, onde também ministro cursos e vivo intensamente seu Lifestyle casual, inclusivo e pacífico. Onde todas as tribos, classes sociais, idades, raças, credos se misturam e vivem de maneira simples, sem ostentação. No Forró Urbano todo mundo dança com todo mundo, há muita troca de par nas festas. A dança é o ponto alto do baile e não a música, e ela, geralmente, não tem pretensões de exibição, mas acontece para divertimento do casal. Foi por causa da dança que o Forró se perpetuou na Europa e eu tive o prazer de ver de perto esta realidade na minha Turnê Internacional de Forró, dando aulas pelo mundo.

Mas minha formação em dança e corpo vão para além do Forró. Estudei dança contemporânea, moderna, clássica, contato-improvisação, flamenco, danças de salão e fui ginasta olímpica por 7 anos, competindo pelo COTP (Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa de São Paulo) e GUS (Grêmio União Sanroquense). O que me deu muita consciência corporal e instrumentalização para elaborar didática e metodologia de aulas.

Eu também estudei Forró dois anos e meio no Remelexo Brasil, onde lecionei. Além de sempre fazer muitos workshops e aulas particulares com diversos professores, principalmente estudei com o mestre Evandro Paz.

Até hoje procuro me atualizar e treino bastante, acho que professor não pode parar de estudar. Passei por muitas técnicas diferentes até chegar na minha própria maneira de ensinar, mas estou sempre criando novas metodologias e conteúdo. O mundo anda depressa, e o ser humano está em constante transformação.

Mas Forró é cultura popular, e, cultura popular se desenvolve na experiência e se transmite com a oralidade e no fazer diário. É importante participar do movimento e não ficar somente dentro da sala de aula. Estar presente nas festas, festivais é primordial para um aprimoramento como professora e para uma agente do movimento forrozeiro urbano.

06) RM: Qual sua relação pessoal e profissional com o professor de dança Evandro Paz?

iris De franco: Cursei muito tempo de aula com o mestre Evandro Paz e desde 2018 ele é também meu parceiro de dança. Juntos desenvolvemos o Uaná Urbano. método de ensino de Forró Urbano que contempla alunxs e professorxs (www.uanaurbano.com.br ). Organizar esta metodologia é um trabalho gigantesco, pois o mestre Evandro começou a dar aulas de Forró em 1995 e desde 2010 vai para o exterior todo ano ensinar, já formou milhares de alunxs e dezenas de professores.

Eu tenho o prazer de ser parceira na organização desta metodologia que foi criada por ele no decorrer destes anos e aprendo muito. Também consigo imprimir no método minha vivência no Forró, em identidade visual e conceito de marca. E agregar minha experiência em cursos de Forró e como professora no ensino de Artes na rede Infantil e Fundamental no projeto.

O Uaná Urbano é bem revolucionário, pois fornece ferramentas para se dançar qualquer estilo de forró, ensina metodologia e didática, matrizes de movimentações, conceitos, dinâmicas, história e lifestyle do Forró Urbano.

07) RM: Qual importância da Dança para as pessoas?

iris De franco: Quando um ser humano dança ele deixa de ser mero espectador e passa a fazer parte da festa, tornando-se o artista e a própria obra de arte. Ser agente da cultura, participante ativo da festa e fazedor de arte tem alto poder transformador do ser humano e da sociedade. Está nas mãos de quem faz a festa o destino do Forró, está nas mãos de quem faz arte a manipulação da chama da vida, a manipulação da criação, isso coloca o ser humano na posição reflexiva, ativa e de agente multiplicador da cultura.

08) RM: Fale da sua experiência com o Forró Urbano.

iris De franco: A primeira vez que entrei numa balada de Forró Urbano foi na casa de show KVA em São Paulo, em 1997/98. Também frequentei muito o Remelexo e Canto da Ema, bem como os Forrós de rua. Hoje em dia, o maior Forró de rua regular em São Paulo acho que é o Forró dos Amigos, que agrupa muita gente nos Parques ou na Avenida Paulista, onde também dei aula. Aqui em São Paulo atualmente gosto muito dos dois Ratos, do Canto Madalena também, dentre outros. Em São Paulo tem muita festa independente e muito particulino. Todo dia tem muitas opções de Forró para ir. Eu mesma já organizei alguns como o Forró Cedinho e o Baile Livre de Gênero, o primeiro junto ao Evandro Paz e o segundo com a Fê Squariz.

Fui pela primeira vez para Itaúnas – ES, a meca do Forró Urbano, em 1998, onde acontece o maior festival de forró do planeta neste estilo (FENFIT – Festival Nacional Forró de Itaúnas), onde os nativos dançam Forró com um estilo muito específico, que tem raiz no Ticumbi, dança indígena local. Eles criaram uma maneira de dançar com muito jogo de pernas e abraço fechado, sem giros, que se misturou ao “Forró Universitário” e influenciou praticamente todas as vertentes do Forró Urbano que existem hoje.

O “Forró Universitário”, no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, era mais girado e teve muita influência do Samba Rock, da Lambada, do Reggae, do Forró Nordestino e dos corpos das cidades do sudeste que não viveram o Forró enquanto dança na infância. Este “Forró Universitário” foi se misturando ao estilo Itaúnas e também sofreu alguma influência da Gafieira, do Zouk, e do Tango. E hoje são muitas vertentes de Forró Urbano, diversos estilos se inspiram em Itaúnas e trazem muito jogo de corpo, de pernas e fartura de abraço aos bailes, festas e festivais.

09) RM: Fale da sua experiência com o Forró na Europa.

iris De franco: Pude frequentar e dar aula em diversos festivais e escolas pelo mundo como o Forró de Frankfurt Festival, na Alemanha; o Pisa na Fulô Barcelona Forró Festival, na Espanha; o Forró Meeting Kalamata, na Grécia; Forró de Basel e de Berna, na Suíça, o Festival Sudamericano de forró, na Argentina. No Brasil em muitos SESCs, Casas de Cultura, Centro de Referência da Dança de São Paulo, Nata Forrozeira em São Paulo; o Rootstock Brasil, em Belo Horizonte; dentre outros tantos.

A comunidade de Forró Urbano vive o movimento de maneira muito parecida no mundo todo. Mas poder saber que ele atravessa continentes e mares, cruza fronteira de línguas e culturas e se impregna no coração e no dia-a-dia das pessoas não tem preço.

O Forró leva a cultura brasileira e uma esperança de uma sociedade melhor por onde passa. O Brasil é uma grande potência cultural e o Forró ainda vai dar muito o que falar por aí: Forró – o embaixador do Brasil.

10) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

iris De franco: Minhas principais influências musicais estão nas matrizes populares da música brasileira: Samba de Raiz, Forró de Raiz, Maracatu, Ciranda, Coco, as Folias de Reis que escutava na infância em Minas Gerais, os cantos das lavadeiras. A batucada que vem do terreiro me pega pelo coração. Mas também curto muito Rock de vários estilos, Jazz, Blues, Tangos. Adoro o som da sanfona (Acordeon) popular em várias culturas do mundo, também da Rabeca e do Cello.

Acho que esta mistura da música brasileira: a matriz afro, indígena e branca e cigana fazem um caldeirão que me identifico. O Brasil já tem em sua base o cosmopolitismo do mundo contemporâneo. Eu sou isso, a mistura do ancestral com o Mundo Líquido, esta contradição rica de liquidificador: da tribo com a sociedade racional, suco de macumba com queijo brie, macaxeira com Dostoiévski, Marinês com parmesão.

Na dança não é diferente, o Forró Urbano é um mix do contemporâneo com a raiz, onde o ser das grandes urbes pode encontrar um espaço de acolhimento e ter noção de pertencimento. A questão da fluidez das identidades na sociedade Líquida faz com que as pessoas necessitem de um porto seguro, um local onde se sintam em casa.

O Forró Urbano faz isso por causa da dança e do seu estilo de vida em comunidade. A gente se acolhe, se ajuda, se abraça. Socializa as caronas, quando tem festival, recebo forrozeirxs do mundo todo que muitas vezes não conheço em minha casa, assim como me recebem. Fiquei uma semana na Espanha na casa de um mestre de capoeira, o mestre Guinho, uma enciclopédia viva da cultura brasileira, por indicação de um amigo do amigo do meu companheiro, por exemplo. Este couchsurfing do Forró é algo muito rico, um exemplo da troca humana que a gente tem no Forró Urbano.

Além disso, o ser humano contemporâneo cosmopolita necessita resgatar sua ancestralidade, ressignificando-a; e o Forró faz isso. É voltar a viver os valores tribais com uma releitura contemporânea e urbana. É saber que temos raízes fortes para crescer a copa da árvore, ter casa e chão que nos dão base para voar. É resgatar a união do ser humano com o sagrado, a arte popular promove este movimento.

O Forró saiu do Nordeste e do campo e ganhou o mundo tornando-se cosmopolita, em cada cidade onde ele é praticado adquire um novo sotaque, o tempero da cultura onde está sendo vivido, mas nunca perde esta noção de abraço grupal, de inclusão e do resgate da arte e cultura tribal, da terra-mãe.

11) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira de professora de Dança?

iris De franco: Eu comecei minha carreira como professora em 2012 auxiliando professores em suas aulas. Por ser mulher (e o Forró é um ambiente muito machista como nossa sociedade), eu não conduzia na dança, demorei para entender que eu poderia dar aulas sozinha.

O mercado do Forró não incentiva a mulher a adentrá-lo, muito pelo contrário, coloca-lhes travas e muitos obstáculos. Eu só me assumi professora em 2013, com minha primeira turma, mas eu dava aulas junto com um homem e isso não me ajudava a crescer profissionalmente.

12) RM: Quando, como e onde você começou conduzir na Dança?

iris De franco: Foi um processo muito doloroso me tornar professora. Desde 2009 as pessoas me pediam para dar aulas de Forró Urbano, mas nenhuma escola queria me aceitar como aluna para aprender a conduzir. Na dança a dois, um professxr que não conduz, não é consideradx um professxr completo. Eu não me sentia pronta para lecionar.

Em 2014 tive minha primeira turma dando aulas com minha parceira Fê Squariz, no Centro Cultural do Jardim São Luiz, onde depois me juntei ao Forró da Quebrada e foi ela que me incluiu no projeto, sem ela eu não teria esta oportunidade. Precisa de uma mulher para gerar espaço para outras mulheres, os homens não valorizam nosso trabalho.

Neste mesmo ano, começamos a estudar e iniciou a ideia do Mulheres que Conduzem e em 2015/16 já fizemos site, redes sociais, turmas rodas de conversa.

Depois lecionei no Remelexo Brasil e tantos outros locais, mas foi por causa do Mulheres que Conduzem que as portas se abriram para mim. Eu tive que criar minhas próprias oportunidades para olharem para meu trabalho, me aceitarem e começarem a me chamar para trabalhar.

Sobre a condução na dança…

A condução é um papel tradicionalmente realizado por um homem, e por isso, quem conduz, é muito mais valorizado; na dança, quem conduz tem poder. O poder do falo na nossa sociedade patriarcal, o poder da razão, do mando e desmando. E isso na realidade é uma grande falácia da sociedade, “falácia” deve vir de “falo” (risos).

Ser conduzidx é um papel muito difícil de desempenhar e pode ser até mais complexo do que conduzir. E uma professora que “só” dança como conduzida pode perfeitamente dar uma boa aula de Forró sozinha e ensinar ambos papéis. Tem um texto meu que saiu na Revista Contemporartes que fala sobre este assunto: https://www.mulheresqueconduzem.com.br/dan%C3%A7ar-tamb%C3%A9m-%C3%A9-fazer-revolu%C3%A7%C3%A3o

13) RM: Quais os obstáculos que a mulher enfrenta como professora de Dança?

iris De franco: Uma mulher para ser professora respeitada precisa saber conduzir bem, mostrar que ela sabe fazer o papel considerado principal. Mas além disso, ela deve ser boa sendo conduzida, ter ótima didática, ter experiência como professora e nas baladas. Ela deve dançar bem e provar seu conhecimento em aulas, em história do Forró etc. Enquanto que um homem, se souber fazer uns três passinhos de dança como condutor, já é aceito para dar aulas de Forró, não precisa saber ser conduzido, não precisa provar muito seu valor.

As mulheres precisam estudar muito mais para começarem suas jornadas de trabalho no Forró e enfrentam machismo, preconceito e ainda recebem muito menos que os homens. Muitas aceitam trabalhar sem ganhar, sendo assistentes e várias vezes são assediadas.

De dois anos para cá o cenário está mudando um pouco, com espaços de fortalecimento da mulher e de denúncia e apoio contra violência, mas ainda temos um chão imenso pela frente para que as mulheres ocupem seu verdadeiro espaço.

14) RM: Fale sobre o projeto Mulheres que Conduzem.

iris De franco: Em 2014 iniciamos o projeto Mulheres que Conduzem e 2016 lançamos o site a divulgação pelas redes sociais (www.mulheresqueconduzem.com.br ). Eu sou uma das idealizadoras e gestoras dele juntamente com Fê Squariz, uma mulher incrível que me valoriza muito, me ensina, me deixa livre para ser quem eu sou e está comigo no sucesso e nas crises.

O projeto foi criado a fim de promover uma rede de apoio às mulheres do Forró, incentivando o desenvolvimento do seu potencial através da dança e articulando reflexões e ações que vão para além da sala de aula.

Em 2016 começamos a organizar rodas de conversa sobre gênero e dança e aulas de Forró Dança só para mulheres, condução para mulheres e treinamento para professoras. A comunidade LGBTQIA+ sempre participou muito das aulas também.

Em 2018 comecei a recolher material da vida das profissionais do Forró a fim de documentar a história das mulheres do Forró através da voz delas, a maioria dos pesquisadores são homens e não podemos ter uma história contada somente pela ótica masculina.

Na pandemia do Covid-19 surgiu a ideia de fazer meu projeto através de lives. O programa de pesquisa e registro: As Mulheres do Forró. A História contada por Elas, no qual entrevisto mulheres do Forró Dança (professoras e dançarinas), Forró Música (musicistas, compositoras e DJs), Forró Produção Cultural, Forró Apoio (grupos de agentes multiplicadoras do Forró e Coletivos feministas), Forró Literatura, Forró Artes. Elas contam suas histórias de vida, falam de machismo, feminismo, assédio, desigualdade de gênero, estilos de Forró, diferenças do Forró no mundo, dificuldades na profissão e na vida. Isso está quase tudo está registrado como um banco de dados no www.youtube.com/mulheresqueconduzem na playlist https://www.youtube.com/playlist?list=PLJISFHJLmzSE-ppCbMfnWzzzZn9-ir41W e toda semana o programa acontece aos sábados e domingos, registrando histórias novas e falando sobre feminismos, no intuito de formar uma rede de apoio, dar mais visibilidade, protagonismo, igualdade de gênero e oportunidades às mulheres.

Acho que o Mulheres que Conduzem inspirou várias novas gerações, pois a meninada de 20 anos hoje está mais consciente e feminista. E as pistas e cenário mudou nos últimos dois anos. Mas como o mundo é feito de sincronicidade, não éramos as únicas naquele momento a começar a pensar numa autonomia e protagonismo maior da mulher no cenário forrozeiro do Brasil.

15) RM: Quais motivos levaram você escolher ser professora de Forró?

iris De franco: O Forró tomava muito tempo da minha vida e me pediam aulas. Eu sou paciente com as pessoas, adoro metodologia, processos, sou detalhista, perfeccionista e curiosa. Gosto de aprender e ajudar a desenvolver o potencial de cada ser humano. Talvez tenha sido por isso que as pessoas me chamavam para dar aulas quando eu ainda não era professora. Mas o principal motivo foi a paixão por dançar Forró e por viver nas comunidades de Forró Urbano, difundir a cultura popular e o Lifestyle inclusivo e transformador do Forró.

A possibilidade de transmitir meu conhecimento para as pessoas e orientá-las dentro do Forró, de ser uma agente multiplicadora da cultura brasileira e a oportunidade de continuar eternamente aprendendo, eu observo muito e adoro a troca com xs alunxs. Evoluir como ser humano e ajudar as pessoas a evoluírem é algo que acontece em sala de aula o tempo todo, a arte tem um grande potencial transformador do indivíduo e da sociedade e eu gosto de participar deste processo de revolução.

A possibilidade de melhorar a vida e autoestima das mulheres também é grande motivo para eu ensinar. O Forró devolve para sociedade mulheres mais seguras, mais conscientes e que estão desenvolvendo plenamente seu potencial. O Forró é altamente curador e revolucionário. Além disso, através da dança a gente reflete a sociedade e pode transformá-la. Dançar é um ato político e eu faço diferença na vida das pessoas dançando e estimulando uma dança reflexiva, terapêutica e política.

O simples fato de uma mulher conduzir e um homem ser conduzido pode parecer uma ação boba e sem consequências, mas quem se coloca a dançar nestas posições ou vê isso numa aula ou baile, inevitavelmente reflete sobre as relações de poder entre opressores e oprimidos na nossa sociedade patriarcal. Por isso, dançar não é um ato despretensioso, dançar é refletir, é fazer verdadeiras revoluções internas e externas.

16) RM: Como você escolhe o seu repertório?

iris De franco: Eu tenho um repertório dos movimentos mais usados nas baladas e festivais de Forró Urbano, mas o Forró é vivo e se transforma o tempo todo, por isso estou sempre me atualizando e estudando. Eu não ensino movimentações do Forró nordestino, mas gosto de salientar que existem muitos tipos de Forró e maneiras de vivenciá-lo e nenhum é melhor do que o outro.

Eu trabalho com conceitos fundamentais de dança a dois, peso e contrapeso, equilíbrio, coordenação motora, eixo próprio, eixo compartilhado, deslocamento, energia, abraço, toque, olhar e não olhar, escuta e fala. Com o sentir o par, o ambiente. E com a criatividade e liberdade de corpos que já carregam seus conteúdos e querem se expressar.

Forró é cultura popular e gosto de salientar que a espontaneidade do baile, da festa, do corpo de cada um, o gingado, o pé na terra, faz parte da dança popular. Mas o forró é altamente democrático, dança quem ginga e quem não ginga, quem faz passo complicado e quem não faz, o importante é respeitar a si mesmo e o par, a dança ser confortável, prazerosa.

Trago muito do estilo de vida do Forró Urbano para as aulas, um pouco de História do Forró e reflexões sobre o corpo, a mulher, a cultura e a vida. Para mim, a sala de aula é um espaço terapêutico e político e além da gente dançar, refletimos muito.

17) RM: Você é colecionadora de disco?

iris De franco: Não. Eu acesso o www.forróemvinil.com.br e o Acervo Origens de dois grandes pesquisadores de Forró, músicos e DJs, o primeiro do Ivan Dias, idealizador do Rootstock e o segundo do Cacai Nunes. Os Djs são artistas imprescindíveis no cenário do Forró Urbano. Eles pesquisam, lançam artistas e modas, desenterram e valorizam os mestres.

Além disso entendem de pista de dança, pois eles geralmente adoram dançar. Estão de igual para igual com os músicos e muitas festas acontecem “só” com Djs, sem músicos e muitos forrozeiros preferem frequentar estes rolês.

18) RM: Quais outros ritmos são de sua preferência?

iris De franco: Eu gosto também de escutar Samba, todo tipo de batuque, Rock, Jazz, Blues, música celta, Folk, sou muito eclética. Para dançar, além do Forró, paquero o Tango que tem um abraço envolvente que não se desgruda e um corpo parecido com o estilo de forró que eu danço com muitas sacadas de pernas e contrapeso.

19) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

iris De franco: Marinês é minha ídola, minha inspiração como cantora e como mulher forte e corajosa com um gogó de ouro. Anastácia também é uma mulher que enche meu peito e me dá coragem para seguir em frente, ela nunca teve medo de meter as caras e compõe letras que tocam demais o ser humano.

Amo Nina Simone, profunda, inconformada, militante, belíssima, ela me deu forças na juventude com suas letras políticas e melodias que atingem as questões da alma e vida do ser humano. Eu sempre dizia que em próximas vidas queria cantar como Nina, rs. Gosto de Lia de Itamaracá com a simplicidade, alegria e a força dela, uma voz que me coloca no colo. Quem me inspira são as mulheres, elas que me dão força para continuar vivendo e transpondo as dificuldades da vida.

20) RM: Apresente sua metodologia de aula.

iris De franco: Eu gosto de dividir as informações em partes pequenas e ir aumentando gradualmente a dificuldade. Gosto de apresentar ferramentas para o alunx ser independente e criar na dança, dançando qualquer estilo. Também me preocupo em fazer aulas reflexivas, feministas e inclusivas, em que x alunx possa levar para a vida o que viu em sala de aula. Eu me importo muito com o ser humano e olho a necessidade de cada um, se x alunx é mais visual, auditivo ou sinestésico, quais as feridas desta pessoa? Quais os potenciais? Por que ela veio parar na minha aula? Que questões são importantes para este ser humano?

21) RM: Quais são os principais passos para dançar Forró?

iris De franco: Dançar bem Forró a meu ver, não se mede em passos, mas sim em conexão com o par e respeito, entrega para a dança e sintonia com o ambiente. O mais importante para mim é um abraço aconchegante, energético e redondo. É quando a gente abraça e esquece que existem pessoas em volta, só fica uma unidade entre a gente mesmo e o par como se fosse um ser só.

Gosto de começar por aí. Para dançar, é essencial ter um bom abraço, uma boa troca de peso. E saber manter seu próprio eixo e dar contrapeso ao mesmo tempo, manter a comunicação horizontal e a conexão. Para isso tudo a gente pode estudar muita técnica ou fazer intuitivamente, contudo não é necessário fazer passo nenhum.

22) RM: Quais as diferenças de entre dançar Forró Chamegado e Coreografado?

iris De franco: O Forró das Pistas De Dança que talvez seja este que você esteja chamando de “Chamegado”, seja na festa da comunidade, de casa, na rua, em uma casa noturna, festival ou grande evento de Forró não tem o intuito de ser dançado para exibição, o mais importante é ser confortável e se divertir com o par. Já o Forró para apresentação, competição ou performance é pensado em satisfazer um público que está assistindo, por isso se pauta no virtuosismo e no que é interessante para ser visto. Tem uma preocupação estética que o Forró das pistas normalmente não tem. Independente da complexidade da movimentação que pode ser grande ou simples nas duas vertentes.

23) RM: Quais os melhores ritmos de Dança de Salão?

iris De franco: Melhor ritmo é aquele que a gente gosta de dançar, né? Então para mim é o Forró. Eu gosto de Forró porque dá para dançar abraçadinho um tempão, bem relaxado trocando energia boa. Dançar Forró é como um alinhamento de chacras a dois, uma meditação a dois. E dançar Forró é me conectar comigo mesmo, com meu par e com o mundo, é algo transcendente e altamente transformador do ser humano, que integra o corpo a mente e a alma.

24) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

iris De franco: Eu não trabalho com palcos há muito tempo, prefiro a sala de aula.

Hoje eu planejo meu ano com aulas regulares, festivais e turnês, mas aparecem muitos eventos no meio do caminho e aulas particulares, então prefiro trabalhar por projeto. Atualmente estou focada nos editais, políticas públicas para Forró, vídeo-aulas e a pesquisa e registro da história das mulheres do Forró e também no Forróm: a dança meditativa. Estou aprendendo a fazer a divulgação do meu trabalho pelas redes sociais, mas o boca a boca ainda funciona muito e as indicações.

25) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira de professor de Dança?

iris De franco: Eu organizo bailes livres de gênero e rodas de conversa políticas e terapêuticas no Forró. Hoje participo de vários coletivos como: Fórum do Forró de SP, o SPForró, o Forró Patrimônio Cultural, a Frente de Mulheres no Forró que lutam por colocar o Forró num lugar melhor. Os coletivos são importantes espaços de troca de cultura, conhecimento e de articulação política. Na Frente de Mulheres do Forró estamos fazendo um banco de dados das mulheres forrozeiras para mostrar ao mundo que temos inúmeras profissionais mulheres qualificadas esperando para serem contratadas. Não existe desculpa para realizarem produções com a participação majoritária dos homens.

O SPForró tem articulado muito espaço para forrozeirxs periféricos e fora do circuito e levou duas vezes o Forró para a Rede Globo de TV no programa É de casa, no qual eu tive o prazer de participar.

Os Fóruns pelo país estão registrando a história do Forró, promovendo o intercâmbio entre os profissionais e articulando junto ao IPHAN para que o Forró se torne Patrimônio Cultural do Brasil. Eu participei de mesas em São Paulo e Belo Horizonte. Uma delas está neste link: https://www.youtube.com/watch?v=9eYy9Dn_XT4 eu apareço com minha fala aos 1:11:39 e no momento final.

26) RM: Qual a importância das Políticas Públicas?

iris De franco: As políticas públicas são muito importantes para que o Forró ganhe visibilidade, forneça recursos para os profissionais e assegure o registro, pesquisa e formação continuada. Por isso, participo, destes movimentos, às vezes me apresento na Câmara Municipal de São Paulo e na Secretaria do estado.

Ano passado conseguimos aprovar a Lei de Fomento ao Forró na Cidade de São Paulo e para este ano estamos pleiteando aqui um Centro de Referência do Forró, o Mês do Nordestino, mais verba para a Lei do Forró, que o orçamento da cultura para a cidade aumente para 3% e que 50 milhões de reais sejam destinados para a cultura nesta calamidade pública da pandemia em 2021.

Foi com a Lei Aldir Blanc que paguei o ano de 2020, fui contemplada com a premiação pelos trabalhos realizados em São Paulo nos últimos dois anos e pelo espaço cultural Mulheres que Conduzem e como contrapartida oferecemos 10 aulas de Forró em casas de cultura, gratuitas para a população. Com as políticas públicas todo mundo ganha, os profissionais do Forró, a população, o Brasil que se “empodera” de sua cultura, as crianças que saem das ruas para viver na comunidade forrozeira e se inspiram a fazer arte e participar da festa, enfim, o ser humano e a sociedade crescem.

27) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira de professor de Dança?

iris De franco: Na internet tem muita gente fake. O que vende na internet é uma dança “bonita”, dentro dos padrões estéticos da nossa sociedade, que dependendo do nicho pode ser uma dança espaçosa, com passos grandes e cheia de charmes e sensualização e objetificação do corpo da mulher ou pode ser uma dança com padrão de um nicho específico. Isso faz com que o público leigo confunda ainda mais a profissão de dançarinx e professorx. A internet é uma ótima ferramenta de divulgação e gosto de alguns formatos de aulas online, mas nada substitui a conversa ao vivo, corpo a corpo com x alunx. Corporalidade se troca no encontro real. Aparecer bem nas redes sociais não significa que se está fazendo um bom trabalho. Neste ponto ela atrapalha muito, pois vários professores que não são profissionais se saem bem fazendo carão lá, enfeitando e tendo frequência em suas postagens. E vários dançarinxs pagam de professxr e não são bons nisso.

28) RM: Qual a diferença de ser dançarina e professora?

iris De franco: Ser dançarinx e ser professor são duas profissões diferentes. Uma pessoa pode desempenhar bem as duas funções, ou apenas uma. Além disso, existe o dançarinx de pista, de salão-performance e de palco. E tem o professor técnico, o professor de entretenimento, o professor terapeuta e o filósofo.

29) RM: Quais as situações inusitadas aconteceram na sua carreira de professora de Dança?

iris De franco: Já dancei em cima de um caminhão, já dei aula em sala que alagava e a gente tinha que parar tudo e puxar com rodo o rio que se formava. Já limpei banheiro de casa noturna, sendo frequentadora.

Na Feira da Diversidade de São Paulo de 2017 ou 2018 eu dancei em cima do palco para milhares de pessoas no show da Sandra Belê e quando desci de lá encontrei um cadeirante que estava na plateia protegida, chamei-o para dançar forró comigo e ele aceitou. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira.

Já dei aula em circo, em festa de criança, mas foi muito divertido fazer a animação de um casamento na Suíça, convidada pelo Forró Basel. A festa lá é muito formal, todo mundo fala baixo, não é uma festa muito alegre, parece um jantar empresarial. De repente, eu e meus parceirxs entramos ensinando Forró e Samba numa roda e depois dançamos entre nós e com xs convidadxs, com o noivo e noiva, foi muito diferente para eles, acredito.

30) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira de professora de Dança?

iris De franco: O que me deixa mais triste é o fato das mulheres ainda terem pouco espaço no Forró, sofrerem muito machismo. Também me deixa triste a confusão geral que as pessoas têm com dançarinxs e professores, são duas profissões diferentes. Nem sempre um bom dançarinx é um bom professor e vice-versa, as pessoas confundem estas duas profissões.

O que me deixa mais feliz é poder trocar conhecimento com as pessoas, poder melhorar o mundo e me melhorar através da dança e do Forró.

31) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira como professora de Dança?

iris De franco: Estudem muitos estilos, estudem, estudem, estudem. Estudem história do Forró, metodologia, didática, musicalidade, psicologia, estudem sempre. Aprender é infinito e professor deve estar sempre se atualizando. Não se esqueçam que nunca terão conhecimento sobre tudo, ser o dono da verdade não agrega. Existem muitas formas válidas de ensinar e aprender, muitos Forrós e maneiras de viver o Forró. Escolha um foco para você se especializar, ninguém pode se aprofundar em tudo.

Mas estejam sempre abertos a novidades, a trocar e não tenham preconceito. O mundo muda, as pessoas são diferentes, há muitos estilos válidos e muitas formas de ensinar, aprender e ser válidas, incluam e abracem as pessoas e a diversidade. Não desistam, ser professorx de dança é uma carreira difícil, principalmente para as mulheres. Tenham sempre o plano B, guardem dinheiro sempre que der, é uma profissão inconstante. Saiba que você é únicx e que muitas pessoas não vão se identificar com seu trabalho, mas sempre existirão aqueles que vão te seguir ou gostar do que você faz. Cada alunx se adapta a um tipo de professxr.

Para as mulheres: tenham muita garra, pois vocês provavelmente passarão por assédio, desvalorização do trabalho, serão acusadas de subir na carreira por sua beleza ou por flertar com alguém. Reivindiquem o seu lugar, lutem, falem, exijam, criem suas próprias oportunidades, não esperem elas chegarem até vocês. E saibam que vocês podem tudo que quiserem, sonhem alto, não se deixem diminuir, não desistam no primeiro perrengue. Juntem-se a outras mulheres e se fortaleçam, apoiem as mulheres que estão no circuito e que estão começando, nós precisamos umas das outras. Estudem sempre, pois vão te cobrar muito mais que aos homens. Façam parte de coletivos feministas e façam política.

32) RM: O circuito de Salão de Baile e Escolas de Dança na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho?

iris De franco: Eu desenvolvo um trabalho independente que nunca dependeu muito do circuito. Mas sou chamada para dar aulas em festivais, casas noturnas, antes de shows de música e em eventos de Forró Urbano e realizar rodas de conversa feministas e terapêuticas. Artista e professxr precisa ter atitude e se virar na vida, não é o tipo de profissão certa, precisa correr atrás, criar oportunidade para si mesmo, para xs parceirxs e para a cultura popular em geral, ter uma visão que vai para além da sua profissão. Precisa ser um pouco produtor, designer, marqueteiro, pesquisador para poder melhorar na profissão.

33) RM: Qual a importância de a professora de Dança conhecer a história e cultura dos ritmos que ensinam?

iris De franco: Conhecer história e cultura é sempre uma ferramenta ótima para se aprofundar nos estudos e no ensino da dança, pois a cultura contextualiza a dança, e, principalmente em sua manifestação popular. A dança se constrói junto à música e ao estilo de vida da comunidade onde é praticada. Estas são vividas num lifestyle que é desenvolvido, no caso do Forró Urbano, noite após noite, nas casas noturnas e festivais. Entender e vivenciar por muito tempo o estilo de vida do Forró Urbano e conhecer sua história faz com que a dança e o ensino dela transmitam uma verdade de algo experienciado na prática, dá propriedade ao conhecimento.

Cultura popular não é uma ciência muito encontrada em livros, mas sim estudada e vivida na prática e é viva, nunca esqueça. Mas não penso que seja errado quem faz a opção de escolher ensinar apenas movimentos deslocados de sua cultura, é uma maneira de ver a forma na dança e aprender somente técnicas específicas relativas a esta arte, sem contextualizá-la.

34) RM: Como o Forró é visto fora do Brasil?

iris De franco: Forró se difundiu no mundo através principalmente da dança e do Lifestyle do Forró Urbano. E através da dança, as pessoas conhecem a música e a cultura brasileira. Japoneses se abraçam num baile de Forró, ação que não são usuais na sua cultura. Muitos estrangeiros aprendem português por causa do Forró e passam a se interessar por cultura brasileira em geral, visitar o Brasil todo ano. Vi na Alemanha, pessoas compartilharem comida no Forró, isso não é comum para eles. Eu diria que o Forró no estrangeiro é um grande embaixador de um Brasil pacífico, construtivo, cosmopolita, humano; de um Brasil que deu certo.

35) RM: Você é musicista?

iris De franco: Não, eu apenas escrevo poesias e letras de música.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

iris De franco: Meus projetos futuros são continuar fortalecendo as mulheres, com o Mulheres que Conduzem e o Forróm, concluir o curso para professores do Uaná Urbano e divulgar ao máximo um Forró inclusivo em que todas as tribos e estilos possam se abraçar e se ajudar.

Meu sonho é incluir o Forró como matéria obrigatória no ensino Infantil, Fundamental e Médio no Brasil. E que nossas crianças e jovens se empoderem da cultura brasileira e possam se orgulhar dela e se transformarem em agentes multiplicadores do Forró e da cultura brasileira no mundo transformando o planeta num lugar melhor através da arte.37) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

iris De franco: (11) 99100 – 8067 | [email protected] | [email protected] | [email protected]

sites: www.mulheresqueconduzem.com.br | www.uanaurbano.com.br | www.ventodoventre.blogspot.com.br | www.dosconfinsdomundo.blogspot.com.br

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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antônio Carlos da Fonseca Barbosa.