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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Guinga

OS MAIS BELOS ACORDES DO SUBÚRBIO – Guinga (Carlos Althier de Souza Lemos Escobar), é carioca da zona norte do Rio de Janeiro – o bairro de Madureira –, onde nasceu em 1950. Foi por cinco anos aluno de violão clássico de Jodacil Damasceno. Começou a compor aos 16 anos.

Trabalhou profissionalmente como violonista, acompanhando artistas como Clara Nunes, Beth Carvalho, Alaíde Costa, Cartola e João Nogueira. Teve inúmeras de suas músicas gravadas por músicos como Elis Regina, Michel Legrand, Sérgio Mendes, Leila Pinheiro, Chico Buarque, Clara Nunes, Ivan Lins e tantos outros. Suas composições são parcerias com Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Chico Buarque, Nei Lopes, Sérgio Natureza, Nelson Motta, Simone Guimarães, Thiago Amud, entre outros. Tem uma dezena de CDs gravados.

Reverenciado pela crítica, com frequência cada vez maior vem sendo considerado “o maior e o mais importante compositor brasileiro da atualidade”. O mesmo diz dele seus pares. Citando apenas um, o bruxo dos sons Hermeto Pascoal: “Um cara como esse só aparece a cada cem anos”. Em 2002, Guinga teve biografia escrita pelo jornalista Mário Marques “Guinga, os mais belos acordes do subúrbio” pela Ed. Gryphus. Em 2003 teve lançado seu songbook “A música de Guinga” também pela Ed.Gryphus.

Seu disco Rasgando Seda, em parceria com o Quinteto Villa-Lobos, lançado pelo Selo SESC-SP em 2012, foi indicado ao Grammy na categoria – Melhor Disco Instrumental do Ano-2012. “Roendopinho”, lançado pelo selo alemão Acoustic Music Records, vem colecionando elogiosos comentários pela crítica especializada. Foi nominado para o “Prêmio da Música Brasileira” como Melhor Disco Instrumental de 2015. Lançado em vinil no Japão. Também em 2015 ele lançou “Porto da Madama” pelo Selo SESC com a participação de quatro cantoras: Esperanza Spalding, Maria João, Maria Pia de Vito e Mônica Salamaso. Guinga recebeu o “Prêmio da Música Brasileira” como Melhor Arranjador do Ano pelo disco, que conta com arranjos de clássicos da canção brasileira de Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, José Maria de Abreu entre outros.

Em 2016 lançou o disco “Mar Afora”, pelo selo Acoustic Music Records, em parceria com a cantora portuguesa Maria João, num clássico dueto de voz e violão. O repertório passeia pelas composições de Guinga e seus parceiros.

Em 2017 lançou “Canção da Impermanência” pelo selo alemão Acoustic Music Records e “Avenida Atlântica” em parceria com o Quarteto Carlos Gomes pelo selo SESC.

Em 2018 lançou em parceria com o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi “Passos e Assovio” pelo selo alemão Acoustic Music Records. Em 2019 fez sua primeira turnê pelo Japão acompanhado de Mônica Salmaso, Nailor Proveta e Teco Cardoso, e aproveita para gravar o disco “Japan Tour: Guinga + Mônica Salmaso + Teco Cardoso + Nailor Proveta” lançado no Japão em 2020 e distribuído em 2021 no Brasil pelo selo Biscoito Fino. No mesmo ano de 2021 lançou o disco “Zaboio”, seu primeiro álbum inteiramente de composições próprias (letra e música). Ambos vem colecionando críticas elogiosas pela imprensa especializada.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Guinga para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 15.12.2021:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Guinga: Nasci no dia 10 de junho de 1950 no Rio de Janeiro. Registrado como Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Guinga: Meu primeiro contato com a música eu era muito novinho, a minha memória mais remota era quando eu tinha três anos de idade, escutava meu tio tocando no violão a valsa “Se ela perguntar”https://www.youtube.com/watch?v=SxKLtmLFStY (Dilermando Reis – nasceu em Guaratinguetá – SP em 22 de setembro de 1916 e faleceu no Rio de Janeiro em 02 de Janeiro de 1977).

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Guinga: Não tenho formação musical acadêmica, tudo que aprendi foi como autodidata. Tentei estudar teoria musical com o maestro Bohumil Med, mas não me adaptei. Violão Clássico com Jodacil Caetano Damaceno e com João Pedro Borges, mas eles perceberam que eu não tinha disciplina no estudo para eu ser um concertista, eles investiram mais na minha virtude para compositor. Eles colocavam músicas para eu fazer uma escuta acurada. Mas o que aprendi foi vendo e escutando outros violonistas.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Guinga: O que abortei das minhas influências musicais foram as músicas que atendiam o modismo (Twister e Pop Rock). Quando amadurecemos aprendemos que modismo não passa de modismo e geralmente são descartáveis. Não tem um compromisso com a eternidade de uma obra musical. Twister e Pop Rock, exemplo Elvis Presley, mesmo reconhecendo o talento de grandes instrumentistas e artistas, mas nunca tive afinidade com esse gênero musical. No geral não é uma música que me toca profundamente, uma ou outra canção me chama atenção. Eu adoro as músicas do Beatles e gosto de algumas músicas do último álbum – Blackstar do David Bowie. Não tenho preconceito com nada, mas eu tenho o meu filtro.

O que ficou de minhas influências musicais foi o que escutei na minha casa por intermédio da família da minha mãe que eram as músicas de Seresta, Bolero, Jazz, Samba-canção, o nascimento da Bossa Nova e por intermédio do meu pai era a Seresta, Música Clássica, Música Lírica italiana, meu pai gostava muito de Ópera. Eu com dez anos de idade já tinha uma audição musical privilegiada e essas influências musicais nortearam a minha vida até hoje. Eu procuro estabelecer um elo com o que toca a minha alma. Somos frutos do ambiente, eu vivi em meio musical muito denso, apesar de ser de uma família financeiramente humilde e inculta, mas todos gostavam de música de boa qualidade. Eu fui aperfeiçoando meu gosto musical ao longo de minha vida, tem música que escuto hoje que a maior parte de minha família não alcançava ou não percebia, pois tudo na vida é um treinamento da sensibilidade.

Eu amo as músicas de Heitor Villa – Lobos, Antonio Carlos Jobim, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ravel, Bach, Beethoven, Mozart, Schubert, Debussy, Stravinsky, Brahms, Chopim, Verdi, Wagner, Bártok, entre outros compositores da música clássica, os grandes compositores russos. Eu passaria uma vida citando os artistas que me emociona, eu tento ouvir a música do mundo, mas não dar para termos uma grande abrangência. Tem a obra de alguns artistas que leva um período longo da vida para entendermos. O tempo de uma vida é muito pouco para escutar tudo que existe de maravilhoso na boa música. Existem muitas músicas ruins, mas se fez e se faz muitas músicas boas.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Guinga: Profissionalmente eu comecei quando classifiquei “Sou só solidão” (em parceria com Paulo Faya), para participar do segundo Festival Internacional da Canção em 1967 da TV Globo, eu ia completar 17 anos de idade e foi meu ponta pé inicial como compositor. Eu passei a minha vida toda tentando ser um compositor reconhecido e fazer sucesso. Quem é que não quer fazer sucesso? Eu persegui e persigo esse objetivo com dignidade sem me vender nem fazer concessão para atingir a fama.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Guinga: Como compositor e Intérprete: “Simples e Absurdo” (1991). “Delírio Carioca” (1993). “Cheio de Dedos” (1996). “Suíte Leopoldina” (1999). “Cine Baronesa” (2001). “Noturno Copacabana” (2003). “Graffiando Vento” (2004). “Casa da Villa” (2007). “Dialetto Carioca” (2007). “Saudade do Cordão” (2009), com Paulo Sérgio Santos. “Rasgando Seda” (2012), com o Quinteto Villa-Lobos. “Francis e Guinga” (2013), com Francis Hime. “Roendopinho” (2014). “Mar Afora” (2015), com Maria João. “Porto da Madama” (2015), com Maria João, Esperanza Spalding, Maria Pia de Vito, Mônica Salmaso. “Canção da Impermanência” (2017). “Avenida Atlântica” (2017), com Quarteto Carlos Gomes. Em 2018 lancei em parceria com o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi “Passos e Assovio” pelo selo alemão Acoustic Music Records. Em 2019 fiz minha primeira turnê pelo Japão acompanhado de Mônica Salmaso, Nailor Proveta e Teco Cardoso, e aproveitamos para gravar o disco “Japan Tour: Guinga + Mônica Salmaso + Teco Cardoso + Nailor Proveta” lançado no Japão em 2020 e distribuído em 2021 no Brasil pelo selo Biscoito Fino. No mesmo ano de 2021 lancei o disco “Zaboio”, meu primeiro álbum inteiramente de composições próprias (letra e música). Ambos vem colecionando críticas elogiosas pela imprensa especializada.

Como compositor, em discos de outros intérpretes em que todas as faixas são de minha autoria: Leila Pinheiro“Catavento e Girassol” (1996), participo como violonista. Marcus Tardelli“Unha e Carne” (2005). Mônica Salmaso“Corpo de Baile” (2014).

Mas ressalto que não escuto meus discos, na verdade qualquer compositor que se preza não fica escutando os próprios discos. Eu gravei disco na Itália, Alemanha, Japão.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Guinga: Meu estilo musical é o que eu consigo criar como compositor, eu gostaria de fazer algumas músicas que não consegui que compositores que adoro fizeram: “Oblivion” de Astor Piazzollla https://www.youtube.com/watch?v=dF-IMQzd_Jo; “Assobio a jato” de Heitor Villa Lobos https://www.youtube.com/watch?v=RNMFDCBhlTI; “Olha Maria” de Antonio Carlos Jobim https://www.youtube.com/watch?v=maGrV410OPA; “Cais” de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento

https://www.youtube.com/watch?v=dtZVQGa9eDw; “Construção” de Chico Buarquehttps://www.youtube.com/watch?v=wBfVsucRe1w; Toda a obra de Francis Hime, de Luiz Gonzaga, de Hermeto Pascoal. Mas eu faço a música que eu consigo fazer, do meu jeito e ela acaba saindo um pouco com a minha “cara”, não consigo fazer do jeito dos caras que eu amo.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Guinga: Não estudei técnica vocal, mas sei da importância de estudar, inclusive convivi com uma pessoa que estudava e leciona técnica vocal. Eu tenho um certo distanciamento do ambiente professoral do canto. Nesse ambiente tem muita gente talentosa e séria, mas as pessoas falam muito sobre nome de músculo, de técnica de emissão da voz, de voz de cabeça, de peito, de garganta, de registro, mas falam pouco sobre arte.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Guinga: Eu nunca fui contra o estudo, mesmo não tendo estudado formalmente. A pessoa estudar técnica vocal ou um instrumento ajuda a quem tem talento. Mas quem não tem talento nunca vai tocar bem, cantar bem, mesmo estudando, isso eu tenho certeza.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Guinga: Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Zezé Gonzaga, Aracy de Almeida, Isaurinha Garcia, Nana Caymmi, Mônica Salmaso, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, entre outras que tenho grande admiração e respeito.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Guinga: Meu processo para criar melodia é igual a qualquer outro compositor não tem nada de especial. A inspiração é uma centelha que nos visitar as vezes, mas precisamos acreditar nela, e estar sempre preparado para receber a inspiração. Mas se a inspiração não surgir temos que estar preparados para correr atrás das melodias. Se nós não corremos atrás da arte, não é ela que vai ficar correndo atrás de nós, por mais talento e inspiração que tenhamos.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Guinga: Meus principais parceiros musicais são os letristas Aldir Blanc e Paulo César Pinheiros, com quem compus a grande parte da minha obra musical. Tenho umas quinze músicas com Thiago Amud. Tenho parcerias pontuais como Chico Buarque, Nei Lopes, Sérgio Natureza, Hermínio Bello de Carvalho, Nelson Motta, Simone Guimarães, Celso Viáfora, Eduardo Gudin, Chico Bosco, Edu Quinaipe, Mauro Aguiar, Luís Felipe Gama e já peço desculpa aos parceiros que não citei por falha da memória.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Guinga: Leila Pinheiro, Fátima Guedes, Elis Regina, Nana Caymmi, Vânia Basto, Mônica Salmaso, Paula Santoro, Isabella Taviani, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Michel Legrand, Sérgio Mendes, Chico Buarque, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Ronnie Von, entre outros intérpretes e as vezes descubro no YouTube músicas minhas com alguns intérpretes que nem sabia. Não temos domínio sobre a nossa obra, a música é um pássaro que voa e que segue a sua vida.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Guinga: Eu nunca tive um projeto independente, meus discos sempre tiveram alguém patrocinando. Eu nunca tirei dinheiro do bolso para gravar um disco e se dependesse de tirar dinheiro do meu bolso para gravar minhas músicas, eu não gravaria. Eu não iria tirar dinheiro do sustento da minha família para gravar discos. Eu nunca tive esse apetite pela minha carreira musical tendo que investir do próprio bolso, eu quando encontro quem me ajude financeiramente, eu fico muito agradecido. Eu sei que nunca podemos dizer que “dessa água não beberei”, mas estou com 71 anos e nunca toquei minha carreira de forma independente, na realidade sempre fui dependente dos outros para gravar meus discos.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Guinga: Eu nunca fiz um planejamento sobre a minha carreira, eu saí lutando igual a um tatu que cava um buraco ou uma ave que sai voando. Eu fui seguindo meu instinto sem nenhuma estratégia. Talvez eu não seja rico e famoso por falta de ter tido uma estratégia quando as coisas foram acontecendo. Mas sou muito feliz com tudo que consegui na área musical e não faria diferente do que fiz até aqui.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Guinga: Não tenho ações de empreendedoras. Mas se ser empreendedor é quem tem coragem de trabalhar, eu tenho. Mas ficar criando estratégias, isso não. O sucesso não tem receita e depende muito de sorte. Agora ser bem sucedido na carreira é diferente de fama ou sucesso. Eu nunca criei nenhum plano para que acontecesse alguma coisa, meu plano foi compor melodias exaustivamente e trabalhar a criação feita.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Guinga: Eu não tenho muita interatividade com a internet, deve ser por causa da minha idade (71 anos), mas sei que hoje ninguém desenvolver uma carreira sem o uso das redes sociais. Eu quero aprender utilizar esse instrumento como a gente usa o garfo e a faca, ou como eu utilizei o boticão atuando por 35 anos como dentista. A internet é um boticão!

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Guinga: Eu não vejo desvantagem alguma com uso da tecnologia de home estúdio, tudo que é tecnologia e ciência só favorece o desenvolvimento do homem. A diferença de remédio e veneno é o uso e quantidade. Tem pessoas que usam a internet e home estúdio como remédio e outras como veneno.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Guinga: Eu procuro ser quem eu sou, sigo a minha intuição, a minha preocupação é com a ética, com a moral, com o respeito a arte e ter a humildade em saber que a arte não estar a nossa disposição a qualquer momento. As vezes marcamos um encontro com a arte e ela não aparece e pode não aparecer nunca mais. Eu quero ser um operário padrão do dom que Deus me deu.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Guinga: É mais fácil de falar de quem ainda continua atuante como o quarteto Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento que estão a mais de 50 anos na ativa renovando a música brasileira, mas não são os únicos tem outros geniais como Egberto Gismonti, Francis Hime, Edu Lobo, Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola, Nei Lopes, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Sombra, Sombrinha, etc. E os que já se foram como Antonio Carlos Jobim, Moacir Santos, Luiz Gonzaga, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Garoto, Baden Powell, Jararaca, Monarco, Ivone Lara, Augusto Calheiro, Cartola, Nelson Cavaquinho, Luiz Carlos da Vila, Noel Rosa, etc. A arte se renova, mas não é toda hora que vai nascer um novo Chico Buarque, Noel Rosa, Tom Jobim, entre outros geniais. A Itália ainda espera outro Michelangelo e um Leonardo da Vinci. O Brasil a quase 100 anos espera um novo Heitor Villa Lobos. A gente precisaria de um dicionário para falar dos que só morreram fisicamente e que nos deixaram sua arte que continua nos influenciando. A vida é assim, tem coisas que despontam no mundo, que são muito raras, talvez seja até bom se não banalizava a arte. Esses mitos não resistiriam. Imagine se tivéssemos uns 40 Tom Jobim? De repente vulgarizava. A natureza é perfeita, ela não negocia, ela impõe seus direitos.

Sobre as revelações na música popular brasileira tem surgido muita gente, mas não posso citar muitos nomes, pois vivo recluso no meu mundo. Mas com certeza o Thiago Amud, é um grande talento que surgiu, inclusive é meu parceiro. Tem o Breno Luiz, Thiago Delegado, Luiza Lacerda, Bruna Moraes, Lívia Nestrovski. Tem muita gente cantando, tocando e compondo bem. A música brasileira sempre se renova, mas surgir um novo gênio leva um tempo. Os grandes artistas que eu gosto ninguém regrediu. A luta de quem tem talento, é as vezes para um tempo com a criação evitando se repetir ou criar algo inferior ao que já fez. O amor próprio faz parar de compor para não criar em um nível inferior e macular seu nome.

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)?

Guinga: Os fatos que aconteceram que não são felizes eu prefiro não comentar, eu gosto de usar meu espaço para falar bem do que amo, para falar das coisas boas e positivas da vida. É lógico de que como qualquer ser humano e como qualquer artista aconteceram situações muito desagradáveis e ainda podem acontecer outras, ninguém está imune a equívoco e julgamento precipitado. Mas nada me tirou o ânimo ou me fez retroceder. A profissão de artista é igual a qualquer outra, eu exerci por 35 anos a profissão de odontologia e tiveram fatos que me deram vontade de parar de ser dentista. Mas só parei quando eu quis, problemas tem em qualquer ofício.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Guinga: O que me deixa mais feliz na minha carreira musical é a música que eu faço e ela ser reconhecida como transformadora por determinadas pessoas que se emocionam profundamente e se tornam usuárias da droga que eu produzo. O que me deixa triste são as pessoas que não entendem e que não gostam, eu queria que todos gostassem, mas na vida ninguém é uma unanimidade.

23) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Guinga: Existe o dom, a inspiração, se não todo mundo era intérprete, compositor, instrumentista ou descobriria algo na ciência. Nem todo físico é Newton nem todo matemático é o Pitágoras. Agora o dom sozinho não se completa, a pessoa tem que estudar formalmente ou informalmente. A observação é tudo na vida, temos que observar com nossos sentidos (ouvidos, olhos, corpo, mente, coração).

24) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Guinga: Eu não sei improvisar e nunca tive interesse em aprender, eu acho que improvisar até se aprender, mas o improvisador é nato, já nasce com o dom e se escutar e estudar vai melhorando. Eu conheci Hélio Delmiro quando ele tinha 16 anos de idade e eu tinha 14 anos e ele improvisava maravilhosamente como um louco, mas tinha o dom e estudava. Talvez por ter o conhecido, eu ainda muito novo, eu não tive interesse em improvisar, pois percebi que eu não seria um improvisador igual a ele. Agora não acho que o improviso seja mais importante que a música. O que me irrita é quando um instrumentista acha que a música é um pretexto para que ele possa improvisar. É um engano, não gosto e enche minha paciência, eu não consigo escutar música dessa maneira.

25) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Guinga: No fundo o improviso é um estudo, tem muitas frases feitas no improviso, mas não podemos banir a inspiração, basta escutar os grandes improvisadores, mas eles têm muitas cartas na manga e vão repetindo. É impossível improvisar todas as vezes fazendo tudo diferentes, tem alguns que acham que fazem, mas não é assim que a banda toca. A maioria das vezes estar tudo pronto dentro da cabeça do improvisador, eles organizam e vão surgindo ideias que nascem no momento.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Guinga: Eu não sei ler música e nunca abri um método de improvisação musical, mas sei que tem quem estuda e acha legal. Estudar improviso não faz ninguém um grande improvisador, é o mesmo pensamento do que falei em relação a estudar técnica vocal. Quem tem talento e estuda fica melhor, mas se não tem talento, nenhum intérprete ou instrumentista se torna maravilhoso só por causa do estudo.

27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Guinga: Eu sei do estudo do profundo de Harmonia, mas os grandes harmonizadores brasileiros que eu conheci na minha vida eram autodidatas. O meu amigo Proveta (Nailor Azevedo) que é um grande improvisador e conhecedor de harmonia, estudou Composição e Regência com o professor Claudio Leal, mas se o Proveta não tivesse o dom e a percepção, nenhum Claudio do mundo faria outros alunos em um talento que é o Proveta. Quando o aluno tem talento os bons professores levam para o paraíso.

28) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Guinga: Eu nunca fiz sucesso de execução em rádio e não tive música tocando na TV, eu escuto falar em jabá, na minha época chamava de jabaculê, eu sei que existe, tem tanta coisa que a gente sabe que existe e não ver. Eu nunca tive dinheiro para pagar para ter minha música tocando nas rádios e mesmo tendo não sei se faria essa prática. Eu sou feliz pobre, mas com uma vida digna, nunca tive interesse em ser milionário financeiramente, mas já sou milionário, pois tenho 71 anos e passei minha vida me sustentando com meu trabalho de dentista e com meu estudo em forma de música. Até hoje sustento minha família e sou muito feliz, não adianta ser o Pelé, e estar passando por essa dificuldade de saúde atual, ele com certeza trocaria a fortuna para estar bem de saúde como sempre teve. Sem dinheiro também ninguém consegue ser feliz, é preciso ter o básico para manter a dignidade. Hoje passei por uma situação na rua, um homem me pediu uma calça, pois a dele estava rasgada, voltei em casa e peguei uma calça e duas camisas e dei para ele, ou seja, se eu não tivesse o dinheiro para comprar e não tivesse sobrando não teria como dar.

29) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Guinga: Quem quer trilhar uma carreira musical tem que ter força de vontade, dignidade e ser fiel aos seus princípios e sempre se reavaliar, pois ninguém é dono da verdade.

30) RM: Festival de Música revela novos talentos?

Guinga: Festival de música revela novos talentos, o Milton Nascimento é um exemplo, ele apareceu no Festival e depois revolucionou a música brasileira.

31) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Guinga: A cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira é uma merda, é horroroso o que eles colocam nos ouvidos do povo, mas quando querem fazer também coisa boa é maravilhoso, mas normalmente a grande mídia quer o ganho fácil e promovem muitas coisas que não tem valor artístico, mas tudo bem embalado, pegam um pacote de merda e embrulham de uma maneira que parece uma caixa de bombom.

32) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Guinga: Sem esses espaços fica bem difícil do artista sobreviver, pois a arte precisa do mecenato. O Sesc de São Paulo já me ajudou muito a matar minha fome e colocar comida na minha mesa. Quando parou tudo por conta da pandemia do covid-19 ficou muito mais difícil para o artista sobreviver.

33) RM: Quais os seus projetos futuros?

Guinga: Meu projeto futuro é continuar vivendo e dando conta das coisas que preciso para permanecer com dignidade em cima do planeta até o dia que a natureza achar que é a hora de eu ir embora. Eu só não gostaria de sofrer nos últimos dias de vida, pois morrer é a única certeza depois que nascemos e a cada dia que passamos vivos é um dia a menos de existência, mas nem por isso, eu deixo de amar tanto a vida e de querer ficar por aqui e se pudesse, eu gostaria de ser eterno.

34) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Guinga: (11) 96123 – 7070 (com meu produtor Luís Carlos Pavan) | [email protected] | www.guinga.com

| https://www.instagram.com/guinga_oficial/

| https://web.facebook.com/guingafanpage

Guinga – Delírio Carioca [1993] (Álbum Completo): https://www.youtube.com/watch?v=fIvb2XevgDE

Guinga – Cheio de Dedos [2001] (Álbum Completo): https://www.youtube.com/watch?v=wHS-A_TY2bQ

Guinga – Delírio Carioca: https://www.youtube.com/watch?v=o_S17gadPzA&t=2s

Guinga – Noturno Copacabana [2003] (Álbum Completo): https://www.youtube.com/watch?v=bqblJbmX9mQ

Guinga – Roendopinho [2014]: https://www.youtube.com/watch?v=WkyOWM2YMwc

Guinga: Um papo sobre os álbuns “Zaboio” e “Japan Tour 2019” | Entrevista | Alta Fidelidade: https://www.youtube.com/watch?v=10-XxAY7Fmo

Guinga no Música #EmCasaComSesc: https://www.youtube.com/watch?v=T5nz6VzXvB0

#AldirBlanc – Poeta da Canção: A Letra da Canção, com Guinga e Leila Pinheiro: https://www.youtube.com/watch?v=ZdAmfDAFlSg

Guinga | Compositor e Violonista | Podcast de Música: https://www.youtube.com/watch?v=qkliy9Yrlhc

Um Café Lá em Casa com Guinga e Nelson Faria: https://www.youtube.com/watch?v=jfbu6Le0aB4

Bate-Papo sobre Composição: Guinga: https://www.youtube.com/watch?v=qcRuvH36GeI

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