Francis Cassol

Francis Cassol

O baterista Francis Cassol atualmente residente em Los Angeles, EUA. Natural de Porto Alegre – RS, é apaixonado por música desde criança, mesmo sem vir de família de músicos.

Aos 11 anos de idade, o Rock in Rio II despertou nele o desejo de tocar bateria. Inspirado principalmente com a apresentação do Guns N’ Roses nesse festival, Francis montou um kit caseiro com objetos que encontrava em casa. Assim Francis aprendeu as suas primeiras levadas e viradas, tocando na sua bateria caseira e ouvindo os seus discos preferidos. Dois anos mais tarde, passou a fazer aulas de bateria.

Com mais de 20 anos de carreira profissional, Francis já teve a oportunidade de tocar e gravar com diversos artistas, muitos dos quais ganhadores de Grammy, America’s Got Talent e discos de ouro e platina. Com a sua banda Rage In My Eyes (antigamente conhecida por Scelerata), Francis foi baterista oficial de Paul Di’anno (ex-Iron Maiden) por cinco anos consecutivos. Em 2018, Francis fez parte da banda da cantora Bianca Ryan, a primeira vencedora do concurso America’s Got Talent, com apresentações em Los Angeles. Em 2019, Francis teve a oportunidade de dividir o palco com o lendário e três vezes vencedor do Grammy, Bobby Kimball (ex-Toto). Em seu currículo ainda constam performances e gravações com Kiko Loureiro (Megadeth, ex-Angra), Renato Borghetti, Andi Deris (Helloween), Roy Z. (Bruce Dickinson) e Edu Falaschi (ex-Angra).

Como membro fundador da banda Rage In My Eyes (originalmente Scelerata), Francis lançou mundialmente quatro discos. Em 2011, Francis gravou na Alemanha, no estúdio da banda Blind Guardian, com um dos maiores produtores de Heavy Metal do mundo, Charlie Bauerfeind. O resultado foi o disco The Sniper, considerado por fãs e mídia especializada como uma referência dentro do Heavy Metal nacional. Em 2017, Francis gravou em Los Angeles com o renomado produtor brasileiro Adair Daufembach, o disco Ice Cell, lançado em 2019. Em 2002, sob produção do guitarrista Rafael Bittencourt (Angra), Francis lançou o disco Spirits Looking For… da banda Holyfire.

O Rage In My Eyes abriu o show de bandas como Deep Purple, Edguy, Kamelot, Angra, Shaman, Viper, Gamma Ray. Em 2019, o Rage In My Eyes abriu para o Iron Maiden na Arena do Grêmio, para 40.000 fãs.

Francis também realiza workshops de bateria. Em 2014, fez um evento ao lado do lendário baterista Dave Lombardo (ex-Slayer, Suicidal Tendencies), em 2016 ao lado da atual grande estrela do Heavy Metal mundial, Eloy Casagrande (Sepultura), além de inúmeras masterclasses e workshops. Além da sua carreira como artista, Francis também é educador musical. Professor particular de bateria desde 2002, Francis formou-se em Música Licenciatura em 2017 com Mérito Acadêmico, e em 2018 formou-se em Drum Performance (performance em bateria) no Musicians Institute em Los Angeles, EUA, com media final de 3.8/4. Atualmente Francis atua também como professor de música em Los Angeles.

Atualmente é apoiado pelas marcas Paiste Cymbals, uma das maiores marcas de pratos de bateria do mundo, Aquarian Drumheads, uma das maiores marcas de pele de bateria do mundo, Orbian Drums, uma marca nova de caixas de bateria feitas na Califórnia, baquetas C. Ibañez e tênis para bateristas Urbann Boards.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Francis Cassol para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 03.02.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Francis Cassol: Nasci no dia 30 de agosto de 1979 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Francis Cassol: Sempre fui apaixonado por música, mesmo não vindo de família de músicos. Quando criança, eu e meu irmão mais velho ficávamos grudados no rádio, ouvindo e gravando em fitas cassete as nossas músicas favoritas. Dois episódios importantes me inspiraram a querer tocar, e os dois ocorrerem em janeiro de 1991. O primeiro foi o Rock in Rio II, mais especificamente o show do Guns N`Roses, que assisti pela televisão. O segundo foi o fato de assistir a esse evento na casa de um primo baterista e assisti-lo tocar. Foi o suficiente para eu me apaixonar por bateria e rock.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Francis Cassol: Sou Arquiteto formado em 2004 pela PUC-RS, Licenciado em Música pelo Centro Universitário IPA em 2017 e formado em Performance em Bateria pelo Musicians Institute, de Los Angeles, em 2018.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Francis Cassol: Acredito que todas as influências seguem importantes porque elas trilharam o caminho para onde estou hoje. Sempre digo que eu tenho um “triunvirato” de influências, que são as minhas principais: Lars Ulrich, Neil Peart e Mike Portnoy. Existem dezenas de outras influências, mas esses aí de cima certamente são os bateristas que mais ouvi na vida. Posso dizer que muito próximos a esses em importância estão Ingo Schwichtenberg, Aquiles Priester, Clive Burr, Vinnie Paul e Thomen Stauch.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Francis Cassol: Comecei a me interessar em tocar bateria em 1991, que foi quando eu montei a minha primeira bateria caseira, feita de tudo que é cacareco que encontrava em casa. Comecei a fazer aulas em 1993, e em 1995 a minha banda da época ganhou alguns importantes festivais de música estudantis, incluindo o FestValda, das pastilhas Valda. Mas comecei a me profissionalizar por volta dos anos 2000 e 2001, que foi quando as minhas bandas Scelerata e Holyfire começaram a tocar, gravar e ganhar visibilidade no sul do país.

06) RM: Quantos discos solos ou em grupo lançados?

Francis Cassol: Com a minha banda Scelerata foram três discos lançados mundialmente: Darkness & Light (2006), Skeletons Domination (2008) e The Sniper (2012). Esse último foi gravado na Alemanha e produzido pelo grande produtor alemão Charlie Bauerfeind, que já trabalhou com artistas como Helloween, Blind Guardian, Motörhead, Rob Halford, Angra, entre muitos outros. Em 2018 modificamos o nome da banda para Rage In My Eyes, e no ano seguinte lançamos o disco Ice Cell, que foi gravado em Los Angeles, sob a tutela do produtor brasileiro Adair Daufembach, que trabalha com nomes como Kiko Loureiro, Tony MacAlpine, Aquiles Priester, Dirk Verbeuren (Megadeth). Com a banda Holyfire, gravei o disco Spirits Looking For… (2002), que foi produzido pelo Rafael Bittencourt (Angra). Também gravei para o cantor australiano Simon Chainsaw e fiz gravações de bateria em diversas músicas para diversos artistas.

06) RM: Como você define seu estilo como Baterista? Você toca outro instrumento musical?

Francis Cassol: Considero-me um baterista de Metal e Rock. É claro que, sendo músico profissional eu também estudei diversos outros estilos, mas a minha praia mesmo é essa. Como baterista de Metal, sempre estudei muito elementos como precisão, velocidade e tal, mas acredito que as minhas principais virtudes sejam a musicalidade e a sonoridade que tiro do instrumento, coisas que pra mim são fundamentais e que na verdade estão conectadas. Eu toco guitarra também, mas longe de me considerar um guitarrista, apesar que também dou aulas de guitarra e violão para iniciantes.

07) RM: Quais as principais técnicas que o Baterista deve se dedicar?

Francis Cassol: Depende muito do estilo de música, mas sem dúvida é importante que todo baterista estude o básico, como rudimentos, dinâmicas, groove. Não é preciso tocar um milhão de notas para ser um grande baterista. O mais importante, na minha opinião, é ter sensibilidade musical e saber tirar um som bonito do instrumento.

08) RM: Quais os principais vícios técnicos ou falta de técnicas têm bateristas alunos e alguns profissionais?

Francis Cassol: É normal que alunos iniciantes cheguem para fazer aulas com alguns vícios já desenvolvidos, especialmente aqueles que aprenderam sozinhos. É muito comum o aluno ser “durão”, como a gente fala coloquialmente, ou seja, ele não trabalhar pulsos e tornozelos, mas sim braços e pernas inteiros. É função do professor orientar o aluno a evoluir tecnicamente, mostrar, demonstrar e repetir bastante alguns movimentos (até adquirir a memória muscular) que certamente facilitarão o desenvolvimento do aluno.

09) RM: Quais são os Bateristas que você admira?

Francis Cassol: São diversos os bateristas que têm toda a admiração. Uma pessoa que é inspiração gigantesca, até pela proximidade que tenho com ele, é o Aquiles Priester. Não apenas por ser o grande mestre no estilo que eu toco, mas porque a dedicação de vida dele ao instrumento é algo realmente fantástico. Mauro Tarakdian é outra pessoa inspiradora, a pessoa mais apaixonada por bateria que eu já conheci. Danilo Pizzato, meu primeiro professor e primeira grande referência. Maurício Weimar, um dos bateristas mais assustadores do planeta e que é de uma humildade absurda. Kiko Freitas, outro grande mestre, que sempre faz tudo parar quando toca ou quando fala. Citei cinco bateras que, além da admiração profissional, tenho também a honra de poder chamar de amigos.

10) RM: Existe uma indicação correta para escolher uma Bateria?

Francis Cassol: Acredito que essa é uma questão bastante pessoal. Depende da sonoridade que o batera espera do seu instrumento. A verdade é que é um privilégio poder “escolher” uma bateria. A maioria dos músicos no Brasil acaba por adquirir a bateria que cabe no bolso, a que está mais acessível, ou por fazer um negócio de ocasião. Mas se a pessoa tem esse privilégio, é importante pensar na configuração, nos tamanhos dos tambores, no tipo de madeira, no estado em que se encontram as ferragens, etc., para que ela satisfaça a necessidade, de acordo com o estilo de música que será feito nela. Acredito que o visual é um aspecto muito importante na escolha do instrumento também.

11) RM: Quais os gêneros musicais que necessitam de bateria especifica?
12) RM: Qual a marca de Bateria da sua preferência?

Francis Cassol: Sinceramente não tenho preferência. Sendo uma bateria de boa qualidade, para mim é o que importa. Já tive Mapex, Ludwig, e no momento tenho uma PDP, todas ótimas. Porém confesso que tenho vontade de ter uma Tama, porque acho que tem a ver com o meu estilo, e também por ser um grande fã do Lars (risos). Atualmente tenho o apoio das caixas Orbian Drums, que é uma empresa nova da Califórnia que faz caixas de maple maravilhosas.

13) RM: Existe marca ideal para cada gênero musical ou é preferência pessoal?

Francis Cassol: Algumas marcas se identificam mais com alguns estilos, mas acredito que no fim das contas essa é uma questão bastante pessoal, até porque dentro das marcas existem diversos modelos diferentes.

14) RM: Quais os prós e contras de ser professor de Bateria?

Francis Cassol: Eu sou professor de bateria desde 2002, com muito orgulho. O mais bacana são as pessoas incríveis que a gente conhece. Alguns dos meus melhores amigos são ou foram meus alunos. Como são aulas particulares, a gente acaba tendo todo tipo de conversa, não apenas sobre música e bateria, mas também sobre diversos aspectos da vida. É claro que outro aspecto muito recompensador é ver os alunos evoluindo, aplicando as técnicas ensinadas, gravando, fazendo shows e se profissionalizando. A principal desvantagem é que no Brasil professor não é valorizado como deveria. É possível viver bem, no entanto é preciso dar aula como autônomo, entregar aulas de qualidade, ter um espaço bom, equipamentos bons, conteúdo bom, fazer recitais e apresentações, etc.

15) RM: Existe o Dom musical? Qual seu conceito de DOM?

Francis Cassol: Existem diversos debates sobre isso. Não sei exatamente como chamar, se talento, dom ou alguma outra coisa, mas é inegável que algumas pessoas aprendem mais rápido que outras. Algumas pessoas têm facilidade na movimentação, no desenvolvimento das técnicas, no próprio ritmo. Para essas pessoas, o instrumento faz mais sentido do que para outras, o que é algo absolutamente natural. Alguns alunos são auditivos, ou seja, têm facilidade de ouvido; outros são visuais, ou seja, precisam ver alguém tocando para obterem a melhor compreensão; e outros são cinestésicos, ou seja, precisam experimentar, botar a mão na massa mesmo. Mas é importante salientar que todos podem aprender, e independente do caso do aluno, quanto mais tempo de dedicação estudando corretamente o que se busca, mais rapidamente se alcança o objetivo.

16) RM: Quais os prós e contras de ser baterista freelancer acompanhando artista ou grupo?

Francis Cassol: Ser músico contratado de um artista grande tem vantagens e desvantagens. Nesse caso, o estresse tende a ser menor, porém a pressão maior. Não é preciso se preocupar com a parte gerencial e de logística de uma turnê ou gravação, o que tende a dar bastante dor de cabeça. Porém é preciso saber que você vai ter um chefe, uma pessoa te cobrando e tal. Você vai ter que tocar exatamente como o chefe quer, e pode perder o trabalho a qualquer momento, por diversas razões. É exatamente o caso de você ser empregado de uma empresa. Em geral músicos nessa situação recebem menos do que os artistas principais.

Se você tem a sua própria banda, é mais difícil “chegar lá”, no entanto você gerencia e tem o controle sobre o negócio (empresa), você tem direito sobre os royalties das composições (caso participe das composições), não precisa responder a um chefe (caso a sua banda seja democrática), etc.

17) RM: Quais os prós e contras de ser músico de estúdio de gravação?

Eu não sou um músico de estúdio e confesso que não conheço ninguém que viva apenas de gravações. Acredito que antigamente essa profissão era mais comum, porque a maioria dos desses músicos era empregado das gravadoras. Como as gravadoras estão praticamente quebradas, acredito que isso tenha mudado bastante. Mas é uma profissão incrível, os músicos de estúdio em geral têm um conhecimento absurdo, um pocket sensacional e tal. Eles têm o meu maior respeito.

18) RM: Quais grupos você que já participou?

Francis Cassol: Fundei a banda Scelerata no ano 2000, junto com meus companheiros de banda na época. Lançamos três discos mundialmente, incluindo gravações em terras estrangeiras. Fizemos aberturas para bandas como Deep Purple, Edguy, Gamma Ray, Angra, Shaman, Viper, Kamelot e fomos banda de apoio oficial do cantor Paul Di’anno (ex-Iron Maiden) por cinco anos. Em 2018 mudamos o nome da banda de Scelerata para Rage In My Eyes, banda que tem um disco lançado até o momento e uma abertura para o Iron Maiden, para 40.000 fãs na Arena do Grêmio em Porto Alegre. Também toquei na banda Holyfire, com a qual lancei um disco em 2002. Por 10 anos toquei na banda Street Flash, uma banda cover de rock clássico. Estou com um projeto novo chamado Blood Karma Foundation, que em breve vai lançar um material bastante promissor.

19) RM: Quais principais dificuldades de relacionamento que enfrentou em grupos?

Francis Cassol: Eu tive sorte, porque em geral sempre me dei bem com as pessoas com quem toquei e toco. É claro que, em mais de 20 anos tocando em banda, brigas ocorrem. Geralmente as brigas são saudáveis, porque elas visam o bem comum. Mas nem sempre é assim (risos). Já vi caras da banda brigando a socos, já vi cara subindo no palco muito bêbado que chegou a comprometer, já toquei com pessoas de pavio curto (o que é bastante desagradável), já toquei com pessoas que tinham uma visão de carreira bem diferente da minha… Porém, posso dizer que hoje eu toco apenas com pessoas que gosto e admiro, o que é ótimo.

20) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Francis Cassol: Esse assunto vai longe, mas vou tentar resumir a minha opinião. Na dinâmica interna de uma banda, ajuda demais. Poder trocar arquivos quase que instantaneamente, às vezes com integrantes em diferentes continentes, é maravilhoso. Poder gravar à distância, é sensacional. Poder dar aulas para qualquer lugar do mundo também é fenomenal. O que me desagrada é a forma como é feito o streaming. As bandas e os artistas são absurdamente desvalorizados dentro dessas plataformas. Não sou contra o streaming em si, mas acredito que deveria ser mais justo para os artistas, que são aqueles que justificam a existência dessas plataformas.

Tem outra coisa na internet que é curiosa. É maravilhoso e péssimo, ao mesmo tempo, que a internet dê espaço para todos. Por um lado, é ótimo que todos possam participar, porém não existem filtros. Qualquer coisa vai parar na internet, e nem sempre isso é bom. Muitas vezes músicas e músicos de qualidade ficam soterrados embaixo de um monte de porcaria, que se destaca geralmente por coisas alheias à música.

21) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Francis Cassol: Para os músicos que sabem o que estão fazendo, essa tecnologia veio a somar, sem dúvida nenhuma. Nem todas as bandas e artistas têm condições de pagar horas e horas de estúdio. Antigamente, só era possível fazer uma gravação profissional com o suporte financeiro de uma gravadora, porque era muito dinheiro envolvido. Hoje, as bandas podem gravar a custos muito mais baixos, o que, por outro lado, acabou por sucatear alguns estúdios importantes de gravação. Uma desvantagem que eu vejo, assim como ocorre com a situação da internet, é que o home estúdio acabou dando acesso à gravação a pessoas que muitas vezes não fazem ideia do que estão fazendo, e que acabam por jogar mais lixo musical na internet.

22) RM: Como você analisa o cenário da música instrumental no Brasil. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Francis Cassol: O maior fenômeno musical brasileiro, na minha opinião, se chama Luís Kalil. Luís é um guitarrista brasileiro radicado em Los Angeles, que é absolutamente fenomenal. A música dele não é unicamente instrumental, mas grande parte é. Quem não conhece o trabalho dele, precisa conhecer. Outro grande nome brasileiro no exterior é o também guitarrista Matheus Asato. E um dos meus artistas preferidos dentro da música instrumental é o guitarrista Frank Solari.

23) RM: Como você analisa o cenário da música brasileira. Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Francis Cassol: Vou procurar ser otimista, concentrando em quem está fazendo bons trabalhos. Vou me ater a bateristas. Na minha opinião, o grande baterista brasileiro do momento se chama Eloy Casagrande. Ele é a grande estrela em ascensão. Pela consistência, destaco os mestres anteriormente já citados Aquiles Priester e Kiko Freitas, que estão sempre à frente do seu tempo, tanto no play quanto na gestão das suas carreiras. Outros bateristas que estão se destacando são Daniel Moscardini, Ébano Santos, Renato Siqueira, Elias Frenzel, Maurício Weimar e Gabriel Faro.

Em relação ao cenário da música brasileira como um todo, direi o seguinte: os verdadeiros grandes artistas brasileiros existem em abundância, mas eles não estão na grande mídia.

24) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Francis Cassol: Foram inúmeras situações malucas que ocorreram nessas mais de duas décadas dedicadas ao Rock N’ Roll. Desde motoristas imprudentes que colocaram as vidas de músicos e equipe em risco, até pedal de bumbo quebrando em meio a show, baqueta voando em trechos importantes do show, necessidade de ajuste rápido à forma de trabalho de grandes produtores, etc. Mas vou destacar um episódio que apenas citei aqui antes. Em 2018, quando estava em turnê pelos EUA, com uma banda local, em uma noite fria no quarto de hotel após o show, dois caras da banda começaram a brigar a socos. E o mais curioso é que o clima interno naquele momento estava festivo, pois o show naquela noite havia sido muito bom. Em questão de poucos minutos, tudo inverteu. Foi uma das cenas mais lamentáveis que vi na vida, mas que serviu para que eu tivesse certeza que não teria mais nenhuma ligação com essa banda após a turnê.

25) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Francis Cassol: Fazer música com amigos e grandes músicos é o mais recompensador. Procuro trabalhar apenas com quem admiro, seja profissional ou pessoalmente. O mais triste é sentir na pele o quão desvalorizado um profissional da música é no Brasil.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Francis Cassol: Que primeiramente saiba onde quer chegar. Baseado nisso, estude muito o seu instrumento, e seja bom no trato com outras pessoas. Seja agradável, de fácil trato, pontual e busque conhecer e trabalhar com o máximo de pessoas possível. Ser bem relacionado é quase tudo nessa profissão. Arrisco a dizer que isso chega a ser mais importante do que ser um grande músico.

27) RM: Quais os erros na metodologia do ensino musical?

Francis Cassol: Acreditar que não existe música ruim ou mal feita. Entendo o ponto de vista de quem diz isso (incluindo alguns dos meus grandes mestres), mas eu discordo. Como educadores, precisamos ensinar os alunos a apreciarem música, caso contrário, estaremos dando corda a “músicos” que acabam se aproveitando da ignorância musical dos ouvintes. Eu considero boa música aquela feita com a simples intenção de ser artística, música de verdade, feita com o coração, e isso existe em TODOS os estilos musicais. Cabe a nós exaltarmos ESSA arte e refutarmos aquela música feita para outros fins. Infelizmente no Brasil, o ensino musical nas escolas praticamente inexiste, o que é algo absolutamente lamentável. Com um ensino musical de verdade, teríamos mais condições de ser um país mais sério. Precisamos manter a nossa verdadeira cultura viva, porque sem cultura, apenas existimos.

28) RM: Apresente seu método para o ensino de Bateria?

Francis Cassol: Não trabalho com apenas um método, mas com diversos livros, de diversos autores. Procuro ver no aluno quais são as suas necessidades e aspirações, para assim melhor guia-lo no sentido que ele quer ir. Como disse anteriormente, o básico é fundamental, e eu procuro dar ao aluno essa fundação musical e baterística forte, para que ele possa vir a desenvolver o seu próprio estilo.

29) RM: Como surgiu o conceito que Bateria e o Baixo trabalham juntos? Já caiu em desuso esse conceito?

Francis Cassol: Confesso que desconheço a origem, porém certamente essa dobradinha baixo e bateria segue existindo, e justificadamente. Nas gravações que faço, temos sempre todo o cuidado de trabalhar baixo e bateria (em geral o bumbo) tocando juntos.

30) RM: Como você analisa o cenário do rock no Brasil de 1960 a 1990?

Francis Cassol: O rock nacional é absolutamente maravilhoso. O brasileiro sempre foi muito criativo para música, isso é inegável. Me vem à cabeça o movimento da Tropicália, que teve seu marco inicial no Festival da Música Popular Brasileira da TV Record de 1967, e que, embora não fosse calcado no rock, tinha nele um pilar de sustentação forte, e deu uma cara mais brasileira ao rock que vinha sendo feito. Impossível não citar aqui Os Mutantes (Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias), que foi a primeira grande banda de rock brasileira a alcançar sucesso internacional. Desde então foram muitos artistas e bandas fantásticas que fazem e fizeram a trilha sonora da vida de muita gente.

Tivemos aquele “boom” do rock nacional nos anos 80, muito em função do Rock in Rio, que revelou dezenas de grandes bandas, muitas das quais ainda estão aí, gravando e excursionando. E o Heavy Metal também começou a se fortalecer nos anos 80. Não tenho dúvidas em afirmar que o nosso metal não perde em nada para os países de primeiro mundo. Embora não tenhamos inventado o estilo, aprendemos sobre ele e amamos ele a tal ponto que superamos os mestres. Brasileiro sabe fazer metal. De verdade. E isso se torna mais incrível em função da dificuldade que é o acesso a bons instrumentos e equipamentos de gravação de áudio e vídeo. Além do talento nato do músico brasileiro, temos o tesão e a superação. Não é querer romantizar a dificuldade e o sofrimento, mas creio que a nossa realidade nos fortalece. Não desistimos na primeira dificuldade.

31) RM: Quais os seus projetos futuros?

Francis Cassol: Tenho projetos de expandir mais as minhas aulas de bateria online. Estou com ideias ainda embrionárias para um curso bem legal, e também planejando a melhor forma de divulgar as aulas particulares online, com foco nos EUA, que é onde eu moro atualmente.

32) RM: Francis Cassol, Quais os seus contatos para os fãs?

Contato: [email protected] | https://web.facebook.com/francis.cassol

| https://web.facebook.com/Francis.RageInMyEyes

| https://www.instagram.com/francis.cassol/

| Canal: www.youtube.com/franciscassol

|FRANCIS CASSOL (Rage In My Eyes) – THE CORE: https://www.youtube.com/watch?v=FAywwmOOOCI

Scelerata – The Sniper: https://open.spotify.com/album/5lKfGwBgHKPfud4Vf4gEw1

Skeletons – Domination: https://open.spotify.com/album/6UPSTfuWzaTqWKbhuYXxse

ScelerataDarkness & Light : https://open.spotify.com/album/0ppXQNRoGZdQrbmxrw0jqe


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.