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Forró

Rafael Beibi


O cantor, compositor, multi-instrumentista paulista Rafael Beibi mistura Forró com tudo, dando movimento e melodias para letras que sugerem uma fotografia do nosso tempo.

Trabalhando como artista independente há 16 anos, é um dos fundadores da banda Dona Zaíra, que traz parcerias com nomes como Hermeto Pascoal, Dominguinhos, Trio Virgulino, Francisco, El hombre, Rapadura, entre outros. É fundador do canal de Youtube “Zabumblog”, onde compartilha seus estudos direcionados à zabumba e à música nordestina. Com esse projeto, Beibi já ministrou workshops de zabumba e percussão em (Paris/FR), Amsterdan (NL) e Colônia (DE). Também faz parte do “Fuá do Guegué”, sendo um dos vocalistas desse trabalho que reúne Guegué Medeiros, Salomão Soares, Janayna Pereira, Danilo Moraes, Olívio Filho, Lau Trajano.

Em 2021, lançou o disco de estreia de um projeto cênico-musical, o “Beatles Cordel”, assinando a direção artística e o roteiro, e unindo grandes paixões: a música universal dos Beatles e a riqueza musical e poética do regionalismo nordestino.  Ainda em 2021, segue com a pulsação da zabumba junto ao peito preparando novas músicas que serão lançadas no segundo semestre, e prepara seu disco e seu show solo.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Rafael Beibi para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 12.06.2021: 

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Rafael Beibi: Nasci no dia 19.12.1982 em Piracicaba – SP. Registrado como Rafael Paschoalini Arthuso.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Rafael Beibi: Minha mãe Ana Maria Paschoalini Arthuso cantava muito para mim quando eu era pequeno, e ela é afinadíssima. Desde que me conheço por gente a música sempre esteve presente de alguma forma na minha vida, sempre gostei de cantar e queria a aprender a tocar algo.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Rafael Beibi: A partir dos 12 anos de idade mais ou menos eu aprendi um pouco de Piano, Violão e depois Bateria, onde eu me desenvolvi mais e instrumento através do qual tive minhas primeiras bandas de garagem. A Zabumba e a posição de vocalista vieram depois, quando comecei a pesquisar música nordestina e tocar profissionalmente na noite, por volta de 2005. Sou formado em Licenciatura em Música pela UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba. 

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Rafael Beibi: Minhas grandes influências musicais são: Beatles, Luiz Gonzaga, Dominguinhos. Depois vem Gilberto Gil, que para mim é um dos grandes gênios musicais do mundo contemporâneo. Mas sempre ouvi de tudo, dependendo da fase da vida, de BNegão a Paulinho da Viola, e a música instrumental de Sivuca, Dominguinhos, Oswaldinho do Acordeon também foi muito importante na minha vida. Dei uma olhada no meu Spotify para ver o que é mais recorrente nos meus plays e os 10 artistas que mais tenho ouvido hoje são: BNegão, Egberto Gismonti, Moraes Moreira, Supergrass, Nicolas Krassik, Alceu Valença, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Oswaldinho do Acordeon, Ricardo Herz. 

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Rafael Beibi: Comecei a tocar profissionalmente em 2005. Comecei tocando na noite de Piracicaba, em 2006 e 2007 estava tocando em várias cidades de interior de São Paulo, e a partir de 2008 comecei a tocar pelo Brasil todo com a Dona Zaíra, banda de Forró da qual sou vocalista e um dos fundadores.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Rafael Beibi: Ao longo da minha carreira, são cinco discos lançados: quatro com a Dona Zaíra e um do projeto Beatles Cordel, além de singles e participações em alguns trabalhos. Em 2007 saiu “O Forró de Dona Zaíra”, primeiro disco da banda, primeira experiência de um disco em estúdio, um álbum de Forró bem tradicional que abriu portas e até hoje toca bastante para públicos de Forró na Europa.

Em 2012 saiu o “Tome Forró”, segundo disco da Dona Zaíra, onde canto ao lado de Dominguinhos na minha composição “Todo Dia”, além de participação de Hermeto Pascoal e do violeiro Paulo Freire. Esse disco “Tome Forró” foi um grande sucesso pra gente, também toca no mundo inteiro. Quando fizemos turnê pela Europa, em 2014, encontramos gente traduzindo nossas músicas para russo!

Ainda em 2014, saiu “Antenas e Raízes”, terceiro disco da Dona Zaíra, onde assino nove composições. Nesse álbum experimentamos mais e saímos do tradicional, adicionamos temperos de rock, música paraense, música eletrônica, entre outras.

Em 2018 saiu o “Levanta, Sacode e Dança”, quarto álbum da Dona Zaíra onde assino sete composições, no qual trouxemos mais influências de outros cantos pra misturar com Forró e contamos com participações da banda Francisco, El Hombre e do rapper Rapadura.

Em maio de 2021 lancei o disco do projeto “Beatles Cordel”, um projeto paralelo meu. “Beatles Cordel” mistura música e poesia e traz as músicas do quarteto de Liverpool para um universo regional nordestino. É um projeto que me traz muita alegria e tem chamado bastante a atenção do público! E sobre as músicas que mais agradaram o público são: “Tome Forró”, “Tom de Alegria”, “Todo Dia”, “Carne Viva”. 

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Rafael Beibi: Tudo o que toco tem um pé na música regional nordestina. Minha música traz o que eu enxergo desse gênero: uma música muito verdadeira e apaixonante, com várias facetas soam no mesmo lugar da música psicodélica e rock experimental, tendo também grandes canções de amor e músicas com energia pra alegrar qualquer lugar. 

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Rafael Beibi: Estudei técnica vocal para suprir algumas necessidades pontuais, mas nunca de forma sistemática como estudo bateria e percussão. 

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Rafael Beibi: Ainda que eu não tenha estudado muita técnica vocal, o conhecimento de como cuidar da voz é muito importante para manter minha saúde como cantor. Busquei várias coisas nesse sentido e fazem muita diferença, principalmente quando vou gravar algo em estúdio. Sinto que se eu tomar todos os cuidados e aplicar os exercícios que aprendi, me ajuda muito a cantar mais tranquilamente, ter uma amplitude vocal maior e me dar liberdade na interpretação. 

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Rafael Beibi: Mais importante do que qualquer coisa, é a forma como o cantor interpreta e dá sentido à música, além também de eu admirar muito cantores que também são compositores e dão voz às suas próprias ideias. Nesse sentido, sou muito eclético. Admiro muito Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Djavan, Freddie Mercury, Robert Plant, Eddie Vedder. Mas também tem cantores que atuam bastante como intérpretes que me fizeram muito a cabeça, como Elis Regina, Ney Matogrosso, Maria Bethânia. Cada momento acho que tenho os meus favoritos. 

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Rafael Beibi: Geralmente começo a construir a canção a partir de pequenos trechos como riffs, frases, ritmos ou melodias que me tocam. Na maioria das vezes, a partir desse pequeno fragmento que acho interessante construo uma música inteira. Usualmente componho com o Violão na mão, mas como não sou um grande violonista e alguns acordes mais complexos não sei fazer, vou construindo a música com a linha do baixo e o ritmo na cabeça, e depois peço ajuda pros meus amigos bons de harmonia (risos). Também gosto muito de compor dirigindo, já fiz várias músicas que gosto muito na estrada. Nesse caso, componho bem livre mesmo, sem violão (é claro), gravando vários pedaços da melodia e da letra no celular, para depois chegar em casa e juntar tudo. 

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Rafael Beibi: Meus principais parceiros são: André e Matheus Tagliatti, irmãos que fundaram a Dona Zaíra junto comigo. Também tem o Bruno Lins, amigo do Recife – PE que deu contribuições importantíssimas em músicas que gosto muito do resultado final. 

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Rafael Beibi: A maioria das minhas músicas gravadas está nos discos da Dona Zaíra, interpretadas por mim mesmo. Tenho várias parcerias com o Bruno Lins da banda “Fim de Feira” (o single mais recente deles, “Tiro Fatal” de 2020, é uma parceria nossa). Já tive músicas gravadas Tati Portella (ex vocalista do Chimarruts), Andrezza Formiga (Recife-PE), Diego Oliveira (cantor brasileiro residente em Portugal), Trio Alvorada (trio de Forró de São Paulo), mas perdi a conta do tanto de trio e banda de Forró que toca músicas como “Tome Forró” e “Tom de Alegria” em shows ao vivo. 

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Rafael Beibi: A carreira independente exige muito do artista, exige que a gente atue em múltiplas funções e faça jornadas bem longas de trabalho. Mas a partir do momento em que decidi ser músico independente, senti um amadurecimento profissional e pessoal muito grandes na minha vida. Hoje em dia o mercado virtual dá muitas oportunidades para música independente, embora a remuneração via plataformas em muitos casos é insuficiente para se sustentar. É uma carreira que exige muita dedicação, é bastante incerta e é preciso criatividade para lidar com as mudanças e incertezas do mercado; sentimos muito fortemente na pandemia na Covid-19. Mas acho que, entre prós e contras, faço um balanço positivo da minha carreira. Não tenho nenhum familiar ou pessoa próxima que tenha me guiado para trilhar minha carreira no mercado musical, aprendi tudo na prática e na insistência. Ao lado de vários parceiros da vida musical, bati muita cabeça, errando, caindo, levantando e começando de novo. E é assim até hoje. Continuo aprendendo e me reinventando.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Rafael Beibi: Basicamente, minha estratégia é ter vários trabalhos musicais coexistindo, não depender de um projeto apenas, e fortalecer parcerias com pessoas em quem confio e admiro. Acho que ter parcerias sólidas e confiáveis é algo muito importante, em qualquer meio. 

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Rafael Beibi: Eu sou muito proativo nos bastidores da minha carreira. Penso que, se tem alguém que tem que saber tudo o que está acontecendo, desde as redes sociais até a hora do show, esse alguém sou eu. É muito importante entender todos os processos e saber se todos os desdobramentos do meu trabalho estão se comunicando de maneira que fortaleçam minha imagem como artista. Sou muito pé no chão e procuro não me deslumbrar. Minha arte é mais importante que meu ego. Por isso, citando BNegão, “o artista tem que trabalhar como um operário”. Sendo assim, participo bastante da organização de tudo que diz respeito à minha carreira, participo da elaboração de projetos, na concepção de vídeos e artes, capas de trabalhos e, é claro, nos arranjos das músicas. Estudo bastante também sobre mercado, acompanho e ouço artistas novos. 

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Rafael Beibi: Penso que a internet só ajuda o artista a alcançar seu público. Às vezes é difícil entender como usar certas ferramentas, certas redes sociais, e esse desconhecimento pode atrapalhar, mas é preciso se informar e aprender a conversar com seu público. É muito legal pensar na amplitude que meu trabalho alcança com a internet. Há 14 anos atrás, quando lançamos o primeiro disco da Dona Zaíra, lembro de ir no correio postar uma caixa cheia de CDs para mandar pros festivais europeus. Hoje, tudo se desenrola no digital. No ano passado, pelo relatório do Spotify, havia 76 países ouvindo Dona Zaíra pelo mundo. Isso é muito incrível. Lógico que a gente tem aquele apego pela capa do disco, a arte, a ficha técnica (que aliás é uma coisa à qual os streamings tem que dar mais atenção), mas os tempos mudam e a gente tem que se adaptar. De qualquer forma, quero lançar um vinil do meu disco solo, que quero lançar em 2022 na íntegra. Vai ter disco nos streamings e em vinil, pra todos os gostos. 

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Rafael Beibi: Acho maravilhosa a facilidade do home estúdio. Antes a gente ficava limitado a equipamentos caríssimos para registrar ideias. Hoje a gente pode fazer pré-produções ótimas ou até mesmo gravar músicas com uma qualidade incrível em home estúdio embora eu ainda goste de contar com estúdios de gravação por conta de equipamentos específicos e etapas da produção que realmente fazem muita diferença. Inclusive o disco Beatles Cordel foi todo gravado pela própria banda, e quero agradecer muito esses parceiros por serem tão generosos. Vou citar integrantes da trupe: Matheus Tagliatti no Baixo, Guegué Medeiros na Bateria, Alysson Salvador na Viola, Giovani Bruno atuando como “Seu Quité” e Rafa Virgulino, que além de tocar sanfona maravilhosamente, comandou a captação, a edição e coproduziu o disco. 

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Rafael Beibi: Acho que o poder da arte está no poder das ideias. Digo em uma música minha que “o verso que é cantado pelo povo, ganha vida, e nunca mais vai se acabar”. Acredito muito no poder das ideias, no poder que uma imagem ou uma palavra tem de transmitir algo que vai ser inesquecível, mudar a vida de alguém. Como público, eu sempre busquei referências de artistas que me fizeram sentir arrebatado, transformado pela música; artistas verdadeiros, com ideias pra transmitir, com verdadeira devoção pela responsabilidade do poder que a arte tem. É esse lugar que é a essência da minha busca como artista. Ser verdadeiro, transmitir ideias que, de alguma forma, transformem o sentido da vida das pessoas. Se alguém é capaz de imaginar um objetivo, esse objetivo fica mais possível.

Falando desse contexto – desse lugar da imaginação – nesse trabalho mais recente, o Beatles Cordel, fiz alguns shows ao vivo antes da pandemia do Covid-19. E esse show brinca com muito com a imaginação das pessoas, com um universo mágico onde existem os “Beatles do sertão”, tocando “Come Together” em maracatu, “Day Tripper” em arrasta-pé, enfim, transportando os Beatles para esse universo alternativo e costurando tudo isso com poesia e literatura de cordel. E o resultado é lindo, é mágico! As pessoas viajam na história, se envolvem, choram, saem verdadeiramente tocadas do show. Eu consegui criar um universo onde fãs de Beatles saem com sorriso de orelha a orelha por ouvir as suas músicas preferidas serem tocadas de uma maneira totalmente inesperada, coisa que, para um fã fiel de uma banda, pode soar meio atravessada. E tudo isso só rolou no show por causa desse exercício de imaginação! 

20) RM: Como você analisa o cenário do Forró. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Rafael Beibi: Beth Carvalho já disse: o Forró é um dos três pilares da música brasileira; os outros dois são a música Caipira raiz e o Samba. O Forró nunca vai ser esquecido, sempre vai fazer parte da trilha sonora dos brasileiros. É lógico que as coisas vão se transformando, isso é natural, e o Forró tem sofrido transformações ao longo das décadas. Hoje o mercado tem ficado cada vez mais nichado, o mainstream tem se distanciado dessa fatia do midstream, e é justamente nessa fatia do mercado, onde estão os artistas independentes, onde acho que há um espaço para “estudar” o Forró, inserir ele num contexto cada vez mais urbano, cada vez mais situado nesse mundo frenético e interligado.

O Forró continua existindo de várias formas, como aconteceu com o rock, com o samba, com o reggae, com o jazz. Ele se desdobra em releituras mais populares no mainstream, se misturando com gêneros de massa por exemplo, mas também tem o seu lugar no midstream. Nesse lugar ele é reinventado e incorporado em formatos onde não necessariamente é preciso ter zabumba, triângulo e sanfona. Meu grande amigo Guegué Medeiros, que faz parte do Beatles Cordel e que tem um projeto “Fuá do Guegué” do qual eu faço parte, sempre me diz que o Forró está na intenção com a qual se toca, e é possível fazer Forró numa sala de concerto, é possível fazer Forró com voz e violão, é possível fazer Forró em um power trio. Essa é a reinvenção do Forró que me interessa, e acho que ela está em curso. 

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Rafael Beibi: Gosto muito do trabalho do Lenine. Ele está sempre lançando coisas que se pautam em uma narrativa interessante. Vejo que ele pensa os trabalhos dele com muito cuidado e excelência. Já assisti vários, todos impecáveis, com uma estética de palco e a dinâmica do show sensacionais. O último show que assisti antes da pandemia foi o do BNegão, de quem também sou muito fã. As letras dele sempre trazem reflexões muito aprofundadas, é um cara que sempre traz nas suas falas ideias que destrincham várias camadas dos assuntos discutidos. Também gosto muito do Childish Gambino, outro artista que se posiciona muito bem, levanta discussões pertinentes e apresenta uma obra impecável ao meu ver. 

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Rafael Beibi: São 16 anos na estrada (desde 2005), então realmente a gente acaba passando por umas situações interessantes. Mas uma história que sempre me faz rir é um acontecimento de uma turnê europeia, no aeroporto de Eindhoven, na Holanda.

A história começou em Amsterdã, quando o produtor local de um show que fizemos se atrapalhou na logística, nos colocou no metrô errado e acabamos perdendo um voo de Amsterdã para Lisboa, onde tínhamos um show no dia seguinte. Aí tivemos que fazer uma via sacra para o aeroporto mais próximo, que era Eindhoven, e de lá voaríamos para Lisboa. Pegamos ônibus, trem, taxi, estávamos virados do show e cansadíssimos. Mas chegamos nesse aeroporto umas 3h antes do voo, achamos que estava tudo tranquilo. Aí fizemos os check-ins com bastante antecedência e, como já é de praxe para gente, os instrumentos mais delicados como sanfona e contrabaixo sempre viajam dentro do avião, em hipótese alguma despachamos, pois, a chance de danificar o instrumento é enorme.

Então estava tudo certo, mas quando fomos embarcar nos informaram que não poderíamos levar os instrumentos dentro do avião. Bateu aquele desespero e eu, que era o único que falava um pouco de inglês, saí correndo e conversando em cada setor da companhia aérea e absolutamente todas as pessoas com quem conversei disseram que era impossível embarcar com os instrumentos. A única solução seria comprar um assento para os instrumentos, mas de última hora ia ficar super caro. Depois de tentar para caramba, precisava tomar uma decisão, pois o tempo estava acabando. Então resolvemos comprar a passagem a mais para os instrumentos, e quando chegamos no guichê, a atendente percebeu que tinha algo rolando, viu a gente com os instrumentos na mão e perguntou o que estava acontecendo. Expliquei e ela disse “ah, se vocês são músicos e querem embarcar com os instrumentos, está ok, eu resolvo”, mas antes, para provar que éramos músicos, tínhamos que tocar algo. Aí olhei para o André, sanfoneiro da banda, que não estava entendendo nada e falei “tira a sanfona da capa AGORA e toca um Forró aí!”. Aí o André tocou alguma música instrumental e a atendente resolveu que queria nos zuar um pouco mais e pediu para cantarmos também. Aí cantamos, ela riu mais um pouco da nossa cara, simplesmente escreveu “musician” nos nossos cartões de embarque, e finalmente voamos para Lisboa para fazer mais um show! 

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Rafael Beibi: O que me deixa mais feliz é poder trocar com as pessoas que me acompanham meu trabalho; provocar alegria, reflexão, enfim, provocar alguma transformação positiva em quem me segue. E claro, trabalhar fazendo o que eu amo é incrível. Já viajei por quase metade do Brasil, para Europa, fiz amigos em muitos lugares do mundo, minha voz faz parte da trilha sonora de momentos especiais de muitas pessoas, e isso é muito gratificante.

A parte difícil é a pouca estrutura que o Brasil oferece em termos de reconhecimento da classe musical e do mercado musical como um todo. A música está presente em absolutamente todo e qualquer evento, de festas populares e solenidades, em celebrações da maioria das religiões, em trilhas sonoras de filmes, documentários, games, novelas, séries (tenta imaginar um filme que você adora sem a trilha musical dando o tom da cena…), e mesmo assim os artistas da música ainda contam com pouca infraestrutura e garantia de direitos. Vou dar um exemplo de como funciona na França, por exemplo: lá os impostos são bem altos no setor das artes, mas os artistas podem contar com um salário caso precisem ficar sem fazer apresentações por um tempo para desenvolver um show ou espetáculo novo.

Outro exemplo é um caso que aconteceu comigo: em 2016 fiquei entre os 10 maiores arrecadadores de direitos autorais nas festas juninas do Nordeste. Quando recebi o valor arrecadado nesse mesmo ano, fiquei super feliz, foi um bom dinheiro. Aí no ano seguinte as músicas da minha banda Dona Zaíra continuavam tocando nas festas, muitos amigos de lá do Nordeste enviavam recados dizendo que nossa música tocava em todos os lugares, nas festas, no shopping, nas rádios, e quando chegou a hora de eu receber os meus direitos autorais em 2017 caiu o valor de R$0,40 na minha conta, sem brincadeira. Quando procurei o ECAD – Escritório Central de Arrecadação e Distribuição para entender o que havia acontecido, simplesmente me disseram que a grande maioria das festas juninas do Nordeste estava inadimplente e que não tinha o que fazer. Simples assim, essa foi a resposta que recebi. E isso segue acontecendo até hoje. A legislação no Brasil precisa avançar nesse sentido. 

24) RM: Qual a sua opinião sobre o movimento do “Forró Universitário” nos anos 2000?

Rafael Beibi: Eu tive a oportunidade de conviver e fazer amizade com Tato Cruz (banda Falamansa), com a Janayna Pereira (ex vocalista do Bicho de Pé), e Enok Virgulino (fundador do Trio Virgulino), três bandas que estiveram praticamente encabeçando esse movimento “Forró Universitário”. Tenho muita admiração por eles, são grandes artistas e puderam me contar como o surgimento do “Forró universitário” foi genuíno.

O movimento já rolava, estava acontecendo uma febre no Sudeste do país e as gravadoras ainda não haviam percebido o que estava acontecendo. E quando perceberam, é lógico que aproveitaram a onda e ganharam dinheiro para caramba. Eu acho o “Forró universitário” muito importante como movimento, apesar de ouvir muita crítica por aí. Se não fosse o “Forró universitário” talvez eu não estivesse tocando Forró hoje, talvez eu não tivesse o interesse despertado para pesquisar a fundo o Forró Pé de Serra. Sou muito grato por ter vivido um pouco dessa época, embora eu não tenha pego o auge do movimento, pois morava em Tocantins na época e lá não chegou com tanta força. Hoje continuo muito fã do Tato Cruz, da Janayna e do Enok, grandes representantes dessa época e três pessoas que me influenciaram e apoiaram muito minha carreira; inclusive gravamos uma música do Tato Cruz no recente álbum da Dona Zaíra. 

25) RM: Quais os grupos de “Forró Universitário” chamaram sua atenção?

Rafael Beibi: Acho que na resposta anterior já deu pra perceber as influências que ouvi dessa época, mas quero lembrar também da banda Forróçacana, uma banda de Forró carioca, surgida mais ou menos nesse mesmo auge do “Forró universitário”, que me influenciou muito também. Além disso, o Duani Martins (vocalista do Forróçacana), que é um grande músico e produtor musical, produziu o terceiro disco da Dona Zaíra, um trabalho que gosto muito.

26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Rafael Beibi: As músicas minhas que tocam nas rádios, tocam sem pagar o jabá, porque nunca paguei nada para ninguém. Mas a lógica do mercado hoje é outra. É claro que as rádios ainda tem muita força, mas há outras formas de atingir e interagir com o público. 

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Rafael Beibi: Estude muita música, estude sua carreira, conheça o mercado, seja disciplinado. Respeite muito seus colegas de trabalho, seus fornecedores, contratantes, cumpra horários, honre seus compromissos, fortaleça parcerias. Faça cursos, mantenha-se atualizado, estude música, faça terapia. Fazer terapia eu recomendo para qualquer pessoa, em qualquer profissão, em qualquer lugar do mundo. Não se deslumbre; a época dos popstars inconsequentes já foi, ninguém tem saco mais para isso. Seja humilde, mas saiba impor limites e por último, não deixe seu ego se sobrepor à sua arte. 

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Rafael Beibi: Festivais de música em geral, acho que tudo tem a sua função. Existem festivais e festivais. Tem festival que coloca músicas para competir, tem festival que é só celebração, tem festival de canção, festival de música instrumental, enfim, festival de todo jeito. É importante entender a função de um festival.

No meu caso e no caso da Dona Zaíra, teve dois festivais em diferentes momentos da nossa carreira que foram super importantes: o primeiro foi o Festival Nacional de Forró de Itaúnas-ES. Através dele nos tornamos conhecidos no circuito em que queríamos atuar, soubemos entender a função do festival para nossa carreira, pensar na nossa atuação no palco desse festival, e isso foi muito positivo pra gente. Embora fosse tudo em uma escala menor, esse festival e as consequências da nossa participação nos prepararam muito para estrada.

O segundo “festival” foi nossa participação no programa Superstar, na rede Globo, em 2015. Nessa ocasião já tínhamos 10 anos de carreira e ficamos participando de um programa na principal emissora de TV do Brasil por quase dois meses. É claro que isso facilitou muito coisa em termos de vendas de shows, mas também foi um aprendizado enorme participar de um evento desse porte no sentido da produção da nossa carreira. Eu amadureci muito a partir disso. Enfim, o lance é entender essa função e dar o melhor de si, mostrar seu trabalho. Nem sempre o ganhador do festival é aquele que tem mais sucesso a longo prazo. 

29) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Rafael Beibi: Hoje está mais fácil produzir sua música e mostrar para o mundo, a função de um festival de música hoje é potencializar um artista que já está produzindo. 

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Rafael Beibi: Hoje acho que existem várias bolhas, está tudo dividido em nichos. Já não existe mais aquela unanimidade de um veículo de comunicação. Tenho lido algumas coisas que dizem que a tendência daqui pra frente é o consumo de tudo na nossa vida ficar mais nichado e personalizado, e a música vejo assim também. A grande mídia, embora ainda tenha muito alcance, não consegue cobrir tudo o que acontece, estar antenada em todos os movimentos. Não estou dizendo que isso é ruim ou bom, é apenas algo que vejo como um fato. Estamos em um tempo de mudança e impermanência, então sigo observando e aprendendo. 

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Rafael Beibi: Essas instituições são muito importantes para a manutenção e até existência de muitos artistas. Espaços como esses deveriam existir mais. Eu tive a oportunidade de trabalhar bastante com SESC e SESI, e o respeito com o qual o artista é tratado é muito diferente do que a vida na noite, nos barzinhos, que é minha escola. O SESC, por exemplo, cria fomento e visibilidade para várias formas de manifestação de arte e disponibiliza espaços de convivência importantíssimos. Não é minha especialidade, apenas um achismo de um zabumbeiro atrevido, mas penso que se os espaços de convivência pública no Brasil tivessem a mesma lógica da gestão de um SESC, estaríamos em um país muito melhor. 

32) RM: Qual a sua opinião sobre as bandas de Forró das antigas e as atuais do Forró Estilizado?

Rafael Beibi: Na minha formação no Forró, acabei pegando um atalho do “Forró universitário” direto para o Forró pé de serra. Sei que existem grandes bandas de Forró que surgiram a partir da década de 90, nomes como Mastruz com Leite vêm à minha cabeça, mas nunca ouvi muito para ter uma opinião formada sobre.

Já as bandas desse “Forró Estilizado” que está por aí hoje acabo ouvindo uma coisa ou outra, porque toca para todo canto, virou uma febre. Acho que a música vai se ramificando, vai se transformando, mas esse “Forró estilizado” pouco tem de similaridade se compararmos à origem do Forró. Aliás, essas não são palavras minhas, são do próprio Dominguinhos. Tem músicos muito bons tocando nessas bandas grandes, músicos muito virtuosos, mas já ouvi de um amigo que tocava como banda base em uma das maiores bandas de Forró Estilizado no Nordeste: que há uma lógica de exploração de músicos nessas bandas que chega a ser perversa. Tem banda que cobra R$500.000,00 para fazer um show e paga R$150,00 ao músico por show, dar para acreditar em uma coisa dessa? Acho essa lógica muito ruim, prejudica muito a classe, explora demais.

33) RM: Rafael Beibi, Quais os seus projetos futuros?

Rafael Beibi: Nesse momento, estou achando legal estar existindo como artista em vários projetos, cada um com uma função diferente, mas todos me satisfazendo muito artisticamente e pessoalmente.

O primeiro projeto que cito é minha carreira solo. Vou lançar alguns singles esse ano e é nesse lugar que imprimo o que costumo chamar de “fotografia do agora”, um lugar que me movimenta muito como artista, que é me expressar através da minha música como um ator do meu tempo. Depois vem o Beatles Cordel, um show onde sou um personagem, quase em um universo paralelo. Quanto a banda Dona Zaíra, estamos em uma fase meio stand-by, mas lançaremos um som inédito em breve. Tem também o “Fuá do Guegué”, uma banda que me honra muito fazer parte. Nesse projeto tocamos Forró em sete pessoas, é uma “sonzeira pesadaaa”, e além de tocar zabumba sou um dos vocalistas. Quero falar também do Zabumblog, que é meu canal no Youtube onde dou dicas de Zabumba, que é o instrumento que mais amo tocar. Para o futuro tem tudo isso, sigo fazendo o que amo e em muitas frentes que me fazem muito feliz. 

34) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Rafael Beibi: (19) 98205 – 3007 |  rafarthuso@gmail.com

| https://www.zabumblog.com  | http://zabumblog.blogspot.com

| www.instagram.com/rafaelbeibi 

| https://www.instagram.com/zabumblog/ 

| https://www.instagram.com/beatlescordel/ 

Canal Rafael Beibi: https://www.youtube.com/channel/UCP-fVid3JssDN1gbWDkpQfA 

Canal Dona Zaíra: https://www.youtube.com/channel/UCOXuBpoXl4mp7XEBR7JqoYg 

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=1MsmDrQxSN0&list=PL96Ff_D8e_YClylTD506O3BG-2EDhBwgj 

Playlist Dona Zaíra no Show Livre: https://www.youtube.com/watch?v=rk36Fzw5Gug&list=PLRIRg9V-mD_tG2vggkfi5V6ZnvfdYHj3c 

Canal Beatles Cordel: https://www.youtube.com/channel/UCTt0blA9RX5k2cacFytjJkg 

Beatles Cordel | Disco ao Vivo (4k): https://www.youtube.com/watch?v=-Qb9Gyj_k5c 

Canal Zabumblog: https://www.youtube.com/channel/UCkvLqkDYMof_rkhVkEP9FrA 

5 dicas de zabumba para iniciantes | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=ycCX9Kw4ngA 

Como tocar ARRASTAPÉ na zabumba | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=4pv9_GkUrfY 

Como tocar BAIÃO na zabumba | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=vNQtYpDm2Ds 

Como tocar BAIÃO na zabumba – Parte 2 | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=-XXxjW1-WBI 

Como tocar XOTE na zabumba | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=_m1dBuiw5LI 

4 variações de XOTE para zabumba | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=1xurgGUqqRc 

Como tocar FORRÓ na zabumba | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=1KLTHhXzj9Y 

Qual a diferença entre FORRÓ e BAIÃO? | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=9rTi0J_dobg 

4 variações de FORRÓ na zabumba | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=qCmAgAyV4eM 

Como tocar XAXADO na zabumba | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=fRgCUBt5bJ0 

Toque duplo no BACALHAU | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=h5ZsYhndSG8 

VIRADAS na ZABUMBA – Parte 1 | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=cK96-zqAbss 

VIRADAS na ZABUMBA – Parte 2 | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=OmSMF4pOJmA 

VIRADAS na ZABUMBA – Parte 3 | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=wQolGy_6X5E 

Como fazer baquetas para zabumba | Rafael Beibi: https://www.youtube.com/watch?v=_-wOXdt_gVA 

Canal Zaíra: https://www.youtube.com/channel/UCOXuBpoXl4mp7XEBR7JqoYg 

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=1MsmDrQxSN0&list=PL96Ff_D8e_YClylTD506O3BG-2EDhBwgj


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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