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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Fernando Forni


Fernando Forni, paulista de Araraquara, vem atuando a cerca de 30 anos, primordialmente como produtor musical focado em criação, produção e arranjos de jingles e trilhas para publicidade.

Começou na produtora Lua Nova, do músico e publicitário Thomas Roth, que além de ser um ícone do mercado publicitário, é compositor de inúmeras músicas que foram gravadas por artistas como Elis Regina, Beto Guedes, Flavio Venturini, Jane Duboc, Roupa Nova, Peninha, Ronnie Von, dentre outros.

Em 2000 ingressou na produtora DRDD, de propriedade de Dudu Marote, produtor de bandas como Skank, Jota Quest, Pato Fú, dentre outras, onde atuou como produtor musical para publicidade. Desde 2006 trabalha com o produtor e compositor Hilton Raw, na Raw Áudio, premiada produtora do mercado publicitário paulista.

Lançou dois discos autorais, “Tudo” de 1998. Lançado pela Dabliú/Lua Music, com distribuição do selo Eldorado, e “De Passagem”, de 2006, lançado pela Lua Music.

É proprietário do selo RAM Music desde 2009, por onde saíram os CDs: “Paladar”, da cantora Daisy Cordeiro, e “Disco do Jericó”, do respeitado trompetista Jericó, que conta com a participação de muitos músicos maravilhosos, como Nahor Gomes, Ubaldo Versolato, Nailor Proveta, João Lenhari, Paulo Braga, Fernando Correa, e do saudoso saxofonista Vinícius Dorin, dentre outros. Em 2000 teve uma de suas canções incluída na série televisiva “Malhação”, da Rede Globo.

É formado em Gestão Comercial pela FGV e possui Master Certificate em arranjo e composição pela Berklee School of Music. Possui também Pós em Música Popular na Faccamp. Estudou com os professores Gogô e Wilson Cúria, dentre outros.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Fernando Forni para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 18.05.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Fernando Forni: Nasci no dia 4 de abril de 1967, as oito e vinte da manhã, na maternidade “Gota de Leite”, em Araraquara, no interior de São Paulo. A família de minha mãe é toda de lá. Registrado como Dorival Fernando Chiossi Forni.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Fernando Forni: Não lembro exatamente quando foi meu primeiro contato com a música, pois desde sempre lembro de meu pai, Ruy Forni, tocando violão e minha mãe, Rosicler Chiossi Forni, cantando. Meu pai também cantava. Ambos chegaram a cantar profissionalmente em rádios, quando jovens. Meu pai chegou a ser contratado da Rádio Nacional. Em casa se ouvia muita música também, desde MPB, músicas de Orquestras, Boleros e Sambas. No meu primeiro CD -Tudo, de 1998, incluí um trecho de uma gravação caseira onde meu pai toca violão e eu canto “Festa para um Rei Negro” (G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro – Samba-Enredo de 1971) que foi gravada em um disco do Jair Rodrigues e a cantei também “Dei Tempo ao Tempo” (Jorge Costa) e a gravação foi feita em 1971, quando eu tinha 3 anos de idade, quase 4 anos.

03) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Fernando Forni: Ouvi muita MPB, Músicas de Orquestra, que tocavam em casa: Jorge Benjor, Taiguara, Toquinho e Vinícius, Wilson Simonal, Paul Mauriat, Franck Pourcel, Ray Connif. Já adolescente apaixonei-me por Beatles, Clube da Esquina, Rock Progressivo (que meu irmão mais velho ouvia muito), Djavan, Disco Music. A lista é grande! Acredito que nada disso tenha perdido a importância, pois mesmo que eu considere algo de gosto duvidoso hoje em dia, fez parte da minha formação e por isso tem no mínimo um grande valor afetivo! Acho muito importante se ouvir de tudo.

04) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Fernando Forni: Eu comecei a trabalhar em um estúdio relativamente jovem, com 19 anos. Estava cursando Música na Faculdade Santa Marcelina, mas tive que interromper, pois a demanda profissional começou a se tornar muito grande. Só recentemente, há cerca de oito anos, concluí um curso de Gestão Comercial na FGV – Fundação Getúlio Vargas. Após isso concluí um Master Certificate em Arranjo pela Berklee College of Music, e fiz também uma Pós em Música Popular pela Faccamp – Faculdade Campo Limpo Paulista. Adoro estudar e não pretendo parar nunca! Acho de extrema importância para um bom desempenho profissional, para se manter atualizado e animado sempre!

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Fernando Forni: Na adolescência tocava violão o dia inteiro, não sei como minha família aguentava! Mas me profissionalizei de fato a partir de uns 23 anos de idade (1990), depois de alguns anos no estúdio “Lua Nova”, de propriedade do compositor e cantor Thomas Roth e do maestro Júlio Moschen, onde comecei efetivamente minha carreira.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Fernando Forni: Em 1998, o CD – “Tudo”. Em 2006, o CD – “De Passagem”. O primeiro pela Dabliú/Lua Music, com distribuição da Eldorado, e o segundo pela Lua Music.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Fernando Forni: Acredito que meu estilo musical transite entre música brasileira e pop. Mas são muitas as influências. Devo isso à minha a minha atuação em áudio para publicidade, onde aprendi a trabalhar com qualquer estilo musical que aparecesse pela frente.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Fernando Forni: Não cheguei a estudar nada relacionado à técnica vocal, pois na verdade não me considero um intérprete, mas sim um compositor e arranjador, que canta suas próprias canções.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Fernando Forni: Toda! A voz é um instrumento de trabalho, e como tal deve ser cuidada com carinho. Já vi muitos cantores perderem a voz por maus tratos diários, excessos ou mesmo desconhecimento. Não canto com a mesma frequência que muitos amigos meus, mas acho importantíssimo procurar um fonoaudiólogo caso sinta alguma espécie de desconforto ou rouquidão ao cantar.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Fernando Forni: São muitos!! Vou enumerar alguns resumidamente aqui! Milton Nascimento, Djavan, Stevie Wonder, Gilberto Gil, Paul McCartney, Jane Duboc, Elis Regina.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Fernando Forni: Em geral eu fico tocando um instrumento aleatoriamente, quase sempre violão, as vezes piano, até surgir uma sequência bonita de acordes. A partir daí surge uma melodia e posteriormente uma letra. Outras vezes parto de uma ideia de melodia que vem na mente, e harmonizo quase sempre no violão. E posteriormente vem a letra. Mas muito raramente a letra é meu ponto de partida! Já aconteceu, claro, mas é bem raro.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Fernando Forni: Sou um “compositor eremita”, talvez pelo fato de ser meio tímido ao compor, ou muito autocrítico. O ato de compor me exige uma concentração grande! É quase como um ato de meditação! Mas já fiz músicas com Élio Camalle e Cassio Gava, Eduardo Santhana, Marcelo Quintanilha e mais recentemente com o letrista Léo Nogueira. Nesses casos, compusemos separadamente, num processo em que alguém faz um trecho de música, manda para e outro, que completa, mas tudo sempre à distância.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Fernando Forni: A carreira independente apresenta muitos pontos positivos, dentre os quais a liberdade de se buscar fazer a melhor música possível, independente do retorno financeiro que isso possa trazer! É possível fazer algo sincero e verdadeiro, que venha da alma e do coração. Em contrapartida, com a facilidade se se fazer música e subir nas plataformas digitais, fica difícil selecionar um trabalho de qualidade. Acredito que tenhamos um volume imenso de músicas lançadas diariamente, em que 5% é realmente algo de qualidade. O resto infelizmente não é. É como procurar uma agulha no palheiro. Antigamente, apesar dos pesares, as gravadoras funcionavam como um “filtro de qualidade”, mesmo que eventualmente deixassem escapar muita coisa boa! Talvez hoje em dia essa seja um pouco a função dos selos musicais menores.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Fernando Forni: Procuro fazer as coisas com calma, absolutamente sem pressa, pois acho que o trabalho tem que transmitir algo que você considere importante. Para isso, é preciso que se sinta vontade ou necessidade de se expressar, e isso não acontece toda hora, não é algo que se planeja. Não acredito artisticamente na música feita de forma mecânica, sem que se tenha algo significativo e relevante para dizer. Isso na minha opinião não é arte, mas apenas um produto.

Em 1998, quando lancei meu primeiro trabalho autoral, fiz alguns shows, sendo que os principais foram no Tom Brasil, no extinto Mistura Fina, no Rio de Janeiro, e alguns SESCs. Atualmente venho atuando primordialmente dentro de estúdio. Trabalho em uma produtora de Áudio para publicidade, a Raw Áudio, junto com o compositor Hilton Raw, o que demanda muito do meu tempo. Mas sinto falta de me apresentar ao vivo, pretendo voltar a fazer isso algum dia, assim como ainda pretendo fazer no mínimo mais um trabalho autoral.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Fernando Forni: Além do meu trabalho autoral, possuo um selo musical desde aproximadamente 2006, a Ram Music. Por lá saíram os CDs: “Paladar”, da cantora Daisy Cordeiro, e “Disco do Jericó”, do respeitado trompetista, Jericó. Aliás, esse trabalho contou com a participação de um “timaço” de músicos paulistas, como Nahor Gomes, Ubaldo Versolato, Nailor Proveta, João Lenhari, Paulo Braga, Fernando Correa, e do saudoso saxofonista Vinícius Dorin, dentre outros.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Fernando Forni: A internet é uma ferramenta fantástica, pois proporciona a divulgação de um trabalho em escala global. Quando uma pessoa sobe um trabalho para uma plataforma de streaming, como Spotify, Tidal e todas as outras, basicamente está lançando uma semente de algo que poderá ser acessado mesmo após sua morte, ou seja, está de certa forma eternizando sua obra, deixando uma mensagem para as próximas gerações. Acredito que isso seja uma maneira de ajudar não só a minha carreira, mas a de inúmeros músicos e compositores pelo mundo afora. Em contrapartida, como disse antes, é um “oceano” de informações, e muitas vezes as obras ficam “perdidas” em meio a tanto conteúdo. Acredito que o maior desafio agora seja criar “relevância” à sua obra, para que ela possa chegar ao público correto, que tenha afinidade com o artista. Sendo sincero, eu ainda não sei exatamente qual a melhor forma de se fazer isso.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Fernando Forni: De fato, se você tiver talento, hoje em dia é possível fazer um trabalho de extrema qualidade em um home estúdio. Existem cada vez mais interfaces portáteis de áudio, laptops poderosos e teclados pequenos, de uma oitava, além de microfones USB, que podem ser transportados em uma mochila. Eu chamo de “Estúdio de mochila”. O que já seria uma evolução de um home estúdio. Com esses recursos, já vi muita gente fazendo trabalhos que você, se estivesse desavisado, não saberia diferenciar se foi feito em um grande estúdio, num home estúdio ou em um “estúdio de mochila”! Até o tratamento acústico mínimo que se faz normalmente uma sala ou quarto, para se captar uma voz ou um instrumento sem a reverberação do ambiente, já está se tornando “dispensável” através do uso de plug-ins que “subtraem” essa ambiência de um áudio já gravado! O resultado é muito bom. Uma loucura! A única desvantagem que vejo, é que para pessoas que como eu, investiram grande parte de sua vida para ter um estúdio grande, isso se tornou dispensável (risos). Mas falando sério, acho que em um estúdio grande ainda se pode gravar uma banda ou uma formação maior tocando junto, e isso sempre será insubstituível, pois você capta a interação que existe entre os músicos tocando junto. Muitas vezes o rendimento de um músico melhora quando ele (ou ela) está interagindo com a banda, a emoção é maior. Basta ouvir as gravações antigas, dos anos 60 e 70, que utilizavam esse processo. Existe uma atmosfera, algo mágico que ficou captado e é transmitido para quem ouve.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Fernando Forni: Confesso que atualmente ando em um período de relativa “hibernação artística”, pois meu foco está mais no mercado musical publicitário, onde a remuneração é boa ainda. Mas em breve pretendo fazer no mínimo mais um trabalho autoral, e estou digerindo todas essas novidades, para pensar na melhor maneira de trabalhar minha obra, para que ela possa chegar ao maior público possível, mas principalmente, ao público correto.

19) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileira. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Fernando Forni: Muita coisa boa vem surgindo, mas é preciso garimpar na internet para achá-las. Dos que já se destacaram, gosto muito dos trabalhos do Dani Black, Pedro Altério, Paulo Novaes, a banda Dingo Bells. E ando bastante impressionado com o trabalho de uma baixista e produtora musical Ana Karina Sebastião. Extremamente talentosa, ainda vai dar muito o que falar. Todos esses vieram para ficar. Tenho também uma sobrinha que vem fazendo um trabalho bonito, a Thais Forni. Quanto ao mainstream, existe muita coisa de uma grande qualidade técnica (falando do áudio aqui), mas que são cada vez mais passageiras. Bandas ou artistas de um único sucesso. Com raras exceções, vejo isso como algo bastante descartável.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)?

Fernando Forni: Uma vez quando era muuuuuito jovem, participei de um projeto meio estranho. Era uma dupla que fiz com um amigo. Fizemos alguma divulgação na época, e fomos a alguns programas de TV. Uma vez no programa do Bolinha, o produtor, que ficava na coxia orientando as pessoas que iriam se apresentar, era extremamente mal educado, tratando todos de forma grosseira. Vi quando ele humilhou sem motivo algum uma cantora bem jovem que iria se apresentar. A menina chorou muito, alguns poucos minutos antes de se apresentar. Um absurdo completo. Confesso que senti uma vontade imensa de bater no cara! Tive que me controlar. Obviamente ninguém além dele tinha culpa por isso. Seguramente, o Bolinha não sabia dessa atitude grosseira do produtor. E talvez as pessoas ficassem com medo de contar, já que esse produtor possuía relativo “poder”, pela posição que ocupava. Acredito, que infelizmente que esse tipo de atitude ainda aconteça bastante por aí.

21) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Fernando Forni: Fico muito feliz e grato por ainda estar conseguindo trabalhar com música e fazer disso meu ganha pão e de minha família, mesmo após 35 anos de profissão. Considero uma benção. Triste é não poder me dedicar mais tempo para fazer o meu trabalho autoral. Mas dando para conciliar um pouco já está bom demais!

22) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Fernando Forni: Acho que existe dom para tudo, todo mundo possui alguma aptidão, resta descobrir qual. Assim como em todas as atividades, também na música algumas pessoas nascem com um conhecimento que outras pessoas não possuem. Isso não se explica, mas é fato. Acredito que são bagagens que trazemos de outros lugares onde já estivemos antes dessa existência atual, coisas que já estudamos anteriormente. Mas acredito também que com esforço, disciplina e dedicação, é possível obter bons resultados, mesmo que não tenhamos nascido com uma habilidade específica.

23) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Fernando Forni: Improvisação musical é a habilidade de se fazer música em “real time”. Algo que algumas pessoas possuem, um dom também. Mas também acredito que com estudo, é possível se chegar a bons resultados e aprender a improvisar, mesmo que não seja de forma tão brilhante como alguns músicos super dotados fazem.

24) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Fernando Forni: Fiz recentemente um curso de improvisação na Berklee College of Music, do grande vibrafonista de jazz Gary Burton. Excelente!! Aprendi muito, mas não tive tempo de sentar para praticar tudo! Pretendo fazer isso em breve, pois não sou um improvisador. Mas seguramente é possível aprender a improvisar. Não sou eu quem está dizendo, mas o próprio Gary Burton. Talvez não tão bem como alguns músicos que já nascem com essa facilidade, mas de forma satisfatória pra passar a sua mensagem através da música, o que já é muito bom! Só para finalizar, improvisação é uma forma de conversação musical. Assim como as pessoas se comunicam através da fala, onde se utilizam de palavras, que constroem as frases, que expressam ideias e sentimentos, pode-se de forma similar fazer o mesmo por intermédio da música, utilizando-se de escalas, que constroem frases musicais, que por sua vez tem a capacidade de expressar ideias e sentimentos também.

25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Fernando Forni: Os métodos de improvisação musicais são excelentes para quem quer se iniciar nesse campo e podem fornecer os fundamentos. Porém, existe o risco de se prender ao estilo de alguém e se tornar, mesmo que involuntariamente, um imitador, apenas. Acredito que se deva buscar o seu próprio estilo e linguagem, pois essa é a função principal da improvisação, comunicar-se por intermédio da música, mas sempre sendo você mesmo, e não imitando alguém.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Fernando Forni: Eu vejo mais prós do que contras! O aprendizado obtido através do Estudo de Harmonia ajuda a enriquecer e muito o trabalho de um músico ou compositor. É uma fonte quase infinita de aprendizado! Uma vida é pouco para se aprender tudo que é possível! Como contra, vejo o risco de ficar engessado pela parte teórica, e sufocar o lado instintivo que todo músico possui, e que é o maior aliado da criatividade! É preciso achar um equilíbrio entre o aprendizado e o instinto.

27) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Fernando Forni: Acho mais difícil, mas não impossível. Fundamental é manter a verdade nas coisas que se faz, pois se você fizer algo apenas cerebral, para atingir o objetivo de tocar na rádio, se isso acontecer acredito que você se sentirá incompleto, pois aquilo na verdade não te representará verdadeiramente. Pior ainda pagando jabá, pois é uma forma de sucesso ou divulgação artificial.

28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Fernando Forni: Muito trabalho e seriedade, tomando cuidado por manter-se humilde e com os pés no chão nos bons momentos! O deslumbramento e vaidade em excesso pra mim são o primeiro passo para a derrocada! E fé e ânimo nos momentos adversos, pois uma carreira é feita de altos e baixos. Perseverança enfim! Mas no final, a carreira musical é apenas um trabalho como todos os outros.

29) RM: Festival de Música revela novos talentos?

Fernando Forni: Os festivais de música já tiveram uma relevância maior como porta de entrada para novos artistas no mercado musical. Hoje em dia vejo a divulgação bem feita e planejada pela internet como o principal aliado dos novos artistas. Mas ainda existem festivais de música importantes sim! Como o festival de Avaré – SP, realizado há muitos anos pela prefeitura em conjunto com a família Novaes, que já teve a participação de compositores como Vicente Barreto, compositor de “Tropicana”, sucesso na voz de Alceu Valença, e “revelou” artistas como Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, dentre outros. Mas como tudo é cíclico, os festivais devem voltar a ter uma relevância maior um dia, acredito nisso.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Fernando Forni: A grande mídia necessita acompanhar o que está se fazendo de maior projeção comercial, não necessariamente o que possui maior qualidade. Ela só existe e é grande por isso. A grande mídia ajuda os trabalhos com maior apelo comercial a existirem, e por sua vez esses trabalhos ajudam a mídia a se manter grande. Uma coisa alimenta a outra. É um fenômeno global, o Brasil apenas acompanha essa tendência. Mas a busca pelo maior retorno financeiro de forma mais rápida possível tem um preço: a criação de produtos cada vez mais descartáveis e com menos consistência artística. Menos criativos também. Fórmulas vendedoras que são repetidas até a exaustão. Vejo isso com tristeza, pois a música está se tornando fraca em todo o mundo. Isso claro, é minha opinião pessoal.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Fernando Forni: Esses espaços possuem papel importantíssimo para divulgação de novos artistas que não fazem parte ainda dessa grande engrenagem comercial, e da grande mídia. Deve-se sempre tomar muito cuidado para que os grandes artistas, comercialmente falando, não monopolizem esses espaços também. Não que não possam eventualmente fazer shows nesses espaços, mas que não monopolizem os mesmos. Os novos artistas que surgem nesses espaços oxigenam e injetam criatividade na cena artística, e de certa forma, servem de fonte até para o mainstream. Acabar com essa possibilidade é seguramente prejudicial pra todos.

32) RM: Qual sua relação pessoal e profissional com Madan?

Fernando Forni: Conheci Madan (Pedro Neves) quando lancei meu primeiro CD – “Tudo” pela Dabliú/Lua Music (1998). Pela Dabliú, tive oportunidade de conviver com grandes artistas da cena independente, que se tornaram amigos pra vida inteira, irmãos de alma. Pessoas que sempre fizeram música com coração. Dentre eles, o Madan. Compositor inspiradíssimo, e com um dom único para musicar poesias, algo que considero bastante difícil. Quando ouço as músicas do Madan, ainda hoje, após ouvi-las muito anteriormente, sempre fico impressionado como letra e música se integram como uma coisa única! Suas melodias são lindas e se unem incrivelmente com as poesias que ele musicava! Além de ter sido um grande artista, dono de um estilo único, muito pessoal. Não parecia com ninguém, parecia com o Madan! Essa assinatura é fundamental em todo grande artista. Tive a oportunidade de trabalhar com ele em um projeto infantil que ele fez pela Lua Music, onde fiz um arranjo e produção, que utilizava muitos samples e programações, coisa que era um tanto quanto rara naquela época. Hoje em dia é bem normal. Ele curtiu muito o resultado final! Ficamos de compor algo juntos, ensaiamos algumas vezes, mas infelizmente não se concretizou, devido a correria na agenda de ambos. Uma pena! Hoje em dia sua filha July (Juliana Neves), que é trompetista, dentre outras inúmeras atividades artísticas, vem fazendo um trabalho muito bonito de resgate da obra do pai, pois ele deixou muita coisa inédita, dentre gravações e livros. Estou ansioso por ouvir o que vem por aí, pois seguramente será de muita qualidade.

33) RM: Qual sua relação pessoal e profissional com Wilson Curia?

Fernando Forni: Tive alguns professores que considero essenciais na minha formação. Grandes músicos e pessoas que me ensinaram muita coisa sobre música, mas de uma forma abrangente, relacionada com a vida como um todo. Um deles foi o saudoso mestre Wilson Curia. Outro que gostaria de citar é o Hilton Jorge Valente, o Gogô, professor da Unicamp. Inclusive o professor Wilson Curia também foi entrevistado pela RitmoMelodia, pouco antes de seu falecimento. E ao ser perguntado se havia lançado algum trabalho autoral, disse que não, pois sua vida foi essencialmente direcionada para o ensino musical, mas que gostaria de citar alguns CDs de alunos seus. Para minha surpresa e emoção, ele incluiu o meu primeiro CD – “Tudo” nessa lista! Honra indescritível.

34) RM: Apresente seu trabalho como produtor musical.

Fernando Forni: Venho trabalhando há quase 35 anos como produtor musical. Em publicidade posso me orgulhar de ter feito trabalhos para praticamente todos os grandes anunciantes. Muitos desse trabalhos foram veiculados em vários países pelo mundo afora. Europa, Ásia, América Latina e até Estados Unidos. Uma lista incontável de comerciais veiculados no Brasil em TV aberta e em horário nobre! Afinal é muito tempo fazendo isso. Um trabalho de formiguinha, que demanda muita energia, às vezes tenso, mas que me proporcionou muito na vida! Só tenho a agradecer! Foram quase 20 anos trabalhando na Lua Nova, 4 na DRDD, do produtor Dudu Marote, e desde então na Raw Audio, juntamente com o compositor e produtor Hilton Raw. Pela Raw Audio conquistamos muitos prêmios no Cannes Festival e em outros importantes festivais do mercado publicitário mundial. Além disso, como falei antes, lancei meus dois trabalhos autorais, além de ter participado da trilha de alguns filmes para cinema, como “Divaldo, o Mensageiro da Paz”, dois filmes do diretor Heitor Dhalia e mais um do cineasta Caito Ortiz, “Papai é Pop”, que conta com um elenco estrelado, com Paola Oliveira, Lázaro Ramos, entre outros grandes atores e atrizes. Os três recentes devem sair em breve, pois a pandemia do covid-19 adiou os lançamentos. E todas essas trilhas de filmes foram produzidas juntamente e para o compositor Hilton Raw.

35) RM: Apresente seu selo RAM Music.

Fernando Forni: Fiz esse selo para lançar trabalhos nos quais eu acredito que tenham qualidade! Isso é um sonho antigo. Embora tenha lançado apenas dois CDs, ainda alimento a esperança de lançar outros. Um projeto que estava engatilhado, mas que teve que esperar a pandemia do Covid-19 passar é o do grande guitarrista, compositor, cantor e produtor Edgard Gianulo. Íamos entrar em estúdio quando a pandemia estourou. As datas já estavam marcadas. Considero o Edgard um verdadeiro gênio, da guitarra e da harmonização, que influenciou muitos músicos. Na biografia do Toquinho, inclusive, ele é citado como uma influência importante. E assim como ele muitos outros gênios merecem e devem ter seu trabalho registrado e eternizado.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

Fernando Forni: Pretendo continuar trabalhando com música enquanto tiver forças, conhecendo novos músicos da nova geração, interagindo e trabalhando com eles, assim como com os da velha guarda, que sabem tudo e tem muuuuuuito para nos ensinar. Lançando CDs, fazendo trilhas pra filmes e series e estudando sempre! E que eu possa continuar sendo abençoado como fui até hoje, para fazer disso o meu ganha pão, e da minha família! É realmente muito bom poder trabalhar com o que se gosta, apesar de todas as dificuldades.

37) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Fernando Forni: (11) 99646 – 4413 | [email protected] | https://www.instagram.com/forni.fernando

Vergonhosamente não possuo um canal no youtube ou um lugar onde todas as coisas estejam concentradas e organizadas! Farei isso! Mas uma busca no Google pelo meu nome apresenta muitas coisas que já fiz, desde músicas autorais até trabalhos para publicidade. Meus dois CDs e alguns singles estão também em todas as plataformas digitais, como Spotify, Deezer, YouTube Music, Tidal, etc.

Seguem-se os passos – Fernando Forni: https://www.youtube.com/watch?v=jhUSWeMkuBI

Playlist do álbum “Tudo” – Fernando Forni: https://www.youtube.com/watch?v=jhUSWeMkuBI&list=PLQoUtskTr5YnvyKD-7wqX_6OruRfGSfTZ

Sonho – Paula Lima – Fernando Forni: https://www.youtube.com/watch?v=vNcmoSxAHcI

Playlist álbum “De Passagem” – Fernando Forni: https://www.youtube.com/watch?v=NRGD2FkstBs&list=OLAK5uy_kwwEEIcTwJfSL1nvUQV7RQnWIFjSrDNbU


Comments · 4

  1. Que linda entrevista com esse grande figura da boa música brasileira, Fernando Forni! Parabéns, grande Fernando! E viva a Ritmo Melodia! Valeu, ilustre jornalista Antonio Carlos!

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pelo jornalista, músico e poeta paraibano
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