Edvaldo Santana

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“Não há equivalente de Edvaldo Santana na música brasileira. Digo isso de um longínquo e ao mesmo tempo privilegiado posto de observação. Ele não é um Elomar porque não é sedentário, não é o sábio de uma montanha; é um andarilho, um artista em movimento. Ele não é um Cartola porque não pertence a uma geografia, a uma agremiação; ele é margem de muitos rios. Ao mesmo tempo, contém todas essas histórias. Ele aproxima pontas que parecem distantes, como Celso Blues Boy e Luiz Melodia e Augusto de Campos e Arnaldo Antunes.

Por conta de tudo isso, seus discos sempre tiveram uma admirável diversidade de pontos de vista e de urdiduras musicais. Mas agora ele fez um álbum conceitual, uma coisa de uma unidade e simetria absolutas. É como se fosse um curriculum vitae em forma de poesia e ourivesaria sonora: Só Vou Chegar Mais Tarde (Distribuição Tratore).

O piano de Daniel Szafran pontua a canção 40 com um toque de boogie woogie sulista, aproxima Edvaldo de Jerry Lee Lewis. Tem até um washboard no som – aquele instrumento de New Orleans originado de uma tábua de lavar roupa, que espalha pequenos batuques pelas reentrâncias da música.

A tuba de Eliezer Tristão é que constrói as lombadas de “Só Vou Chegar Mais Tarde”, um country tingido de bluegrass que tem uma crueza musical calculada, um refinamento de distraído, tipo Wilco. A voz parece que vem de algum milharal lá no fundo.

Em “Predicado”, ele fala do alheamento urbano, da solidão das pessoas em suas unidades móveis de internet (“o sonho que não foi conectado”), de novo numa canção piano-driven, dirigida pelo piano, como dizem os críticos americanos. Quando chega ao lalalalalá delicioso do final, a gente se pergunta: como um compositor desse nível não está no palco de um Lollapalooza, no lugar de algum desses bostinhas que estão lá todo ano imitando Tame Impala?

“Ando livre” é um surf song ancorada numa guitarrinha havaiana fornecida pelo maestríssimo Luiz Waack, um lorde da música paulistana. O fio da meada da canção conduz o ouvinte como se fosse um road movie, fazendo-o atravessar o país em um ritmo de outro tempo, entre Elvis e Joe Pass, bebendo água de cacimba, tomando banho de riacho. O dueto com a cantora Rita Beneditto parece evocar um diálogo de um encontro marcado pelo destino.

“Gelo no Joelho” é um samba encoxado por sanfona e trombone que fala sobre a posição crepuscular de um velho jogador de peladas, um craque amador que descobriu como diminuir os trajetos dentro do campo para que o corpo dure mais. “O tempo não para mas o tempo passa gelo no joelho”, diz Edvaldo, autor de alguns dos mais belos hinos sobre o futebol, que ele ama – mais adiante, em “Dom”, ele volta ao tema com um samba, homenageando o doutor Sócrates (“Num pé pequeno, homem de coração bom”) e acentuando o caráter retrospectivo do trabalho (“Fiz minha parte/Deixo aqui minha alegria”).

“Retorno do Cangaço” é ultrapolitizada, a canção mais chute nos bagos do lote, mas está a milhas de ser panfletária. “A grana que sumiu tá na casa do pastor”, canta Edvaldo, numa canção de construção sonora mais assimétrica, resultado de todas as vanguardas das quais ele se alimentou, começando pela música dos colegas Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção.

Já a acústica “Sou da Quebrada”, emoldurada pela gaita de Bene Chiréia, é a nossa equivalente de This Trains is Bound for Glory, de Woody Guthrie; uma balada biográfica folky sobre uma geografia afetiva de Zona Leste, erguida sobre muito tempo de camaradagem. “Sou da quebrada mas eu sou das antigas/Quem me ensinava tinha uma letra linda”. 

“Fazendo pra Aprender” mostra Edvaldo, orlandosilvanamente crooner, encontrando Tom Waits numa quebrada de São Miguel Paulista. “Arte Depura” descobre Edvaldo citando a si mesmo, o primeiro disco (Lobo Solitário, de 1993), e as suas mais antigas influências (no verso de Divino Maravilhoso, de Caetano Veloso, que canta), como se fechasse um ciclo. Sob um lençol musical que usa da percussão de um cajon até banjo e cavaquinho, o filtro de Edvaldo depura os ouvidos.

Em “Domínio”, a profissão de fé encontra seu manifesto logo no início da música. “Como diz o Tião Carrero, amigo do Pardinho, minha viola ainda paga o aluguel”. Nem tudo que Edvaldo aprendeu veio da estrada (ele desfruta da amizade de concretistas e estetas do portunhol selvagem), mas quase tudo que o fortalece vem do movimento contínuo.

“De repente, em Cabeça na Mesa”, comparece a influência do blues rock inglês, Led Zeppelin, John Mayall, Eric Clapton, sob um cozido de guitarra, baixo e bateria e uma vozinha de Holy Golightly (trata-se da gigantesca Alzira Espíndola, no disco) se contrapondo à sua saga de Zé do Chapéu do bilhar da esquina (“Eu não sei jogar com rato no meu taco falta giz”).

A décima terceira canção é a versão musicada de Edvaldo para o poema provençal de Guillaume de Poitiers, na tradução de Augusto de Campos. De novo acústica, Edvaldo e Luiz Waack apenas, é o fecho perfeito de um disco autobiográfico minucioso. Edvaldo parece ter escolhido essa por ser um manifesto da fé no homem que se basta, no cavaleiro solitário de poucas e suficientes convicções – nenhuma delas baseada na concessão. Essa é a vida dele.

Tem um poema do Paulo Leminski que diz assim: “Um bom poema leva anos/cinco jogando bola/mais cinco estudando sânscrito/seis carregando pedra/nove namorando a vizinha/sete levando porrada/quatro andando sozinho/três mudando de cidade (…)”. O melhor disco do Edvaldo Santana levou 40 anos. E ele o dá assim a você de mão beijada” por Jotabê Medeiros que é jornalista e escritor, autor de O Bisbilhoteiro das Galáxias (Lazuli Editora, 2014).

O cantor, compositor, violonista paulistano Edvaldo Santana, nascido e criado em São Miguel Paulista, periferia de São Paulo, o primeiro de oito filhos do piauiense Félix e da pernambucana Judite, nordestinos que vieram tentar a sorte na cidade grande.

Os primeiros acordes foram dados no velho violão do pai no final da década de 60, com influências que vão de Manezinho Araújo e Jackson do Pandeiro à Torquato Neto, Jimi Hendrix e toda contracultura que entra em cena nesse período.

A partir daí, Edvaldo participa de vários festivais estudantis e cria seu primeiro grupo, o “Caaxió”. É nessa época que a necessidade de ajudar a família o leva ao seu primeiro emprego numa fábrica de brinquedos, deixando os finais de semana para os ensaios com a banda, mas sempre objetivando a profissionalização como músico.

Em 74 no teatro de Arena, o “Caaxió” apresenta o show, “Casca de vento” com Edvaldo Santana como cantor e compositor. Os amigos Fernando Teles, Luciano Bongo e Zé Bores completavam o grupo. Numa época em que a censura era comum, o show teve dez músicas cortadas do seu repertório.

Em meio a batalha pela sobrevivência do grupo, eles conseguem um contrato com a gravadora Top-Tap que impõe a condição de substituírem o nome do grupo que passa a chamar-se “Matéria Prima”. Infelizmente o contrato com a Top-Tap é cancelado logo em seguida, mas o nome do grupo já modificado se mantém.

Um ano antes da gravação do primeiro disco do “Matéria Prima”, Edvaldo conhece Tom Zé que os convida para acompanhá-lo em alguns shows. O músico destaca esta fase de convivência com Tom Zé como muito importante para sua formação. O primeiro disco sai pela Chantecler com a música “Maria Gasolina” sendo muito executada nas rádios.

O grupo “Matéria Prima”, consegue espaço na mídia graças ao sucesso e apresenta-se em programas de grande audiência como Silvio Santos, Flávio Cavalcante e Fantástico. Edvaldo também participa como cantor e compositor do programa de Ronald Golias na TV Record, produzido por Arnaud Rodrigues.

Em 1978 sai o segundo disco do “Matéria Prima”, pela gravadora CBS, e a música tocada nas rádios agora é a “Entranhas do Horizonte”.

No final dos anos 70 acontece o ressurgimento dos movimentos populares e sindicais em todo país, com destaque às greves do ABC, antecedendo e sinalizando a abertura política e o fim da ditadura militar. Edvaldo, seu grupo “Matéria Prima” e outros amigos músicos, poetas e artistas plásticos de São Miguel Paulista, atentos aos acontecimentos, resolvem se mobilizar e criam o Movimento Popular de Arte (MPA) promovendo eventos com música, teatro, poesia e oficinas de cultura. Foi um movimento espontâneo e pioneiro que serviu como orientação para muitos outros projetos de casas de cultura em São Paulo. Severino do Ramo, Pedro Peres, Osnofa, Sacha Arcanjo, Akira Yamasaki são alguns dos nomes de grande importância no movimento. Nesse período o grupo “Matéria Prima” participa de um evento em comemoração pela visita do Papa João Paulo II ao Brasil tocando para 100 mil pessoas no Morumbi.

No ano de 1985 o MPA, já reconhecido no meio artístico pelo trabalho que vinha desenvolvendo, grava uma coletânea com músicos locais no estúdio da Eldorado. São mais de cinco anos de existência e o movimento começa a apresentar um certo desgaste, conflitos por interferências políticas partidárias marcam o fim do MPA.

Com o fim do MPA em 1986, Edvaldo Santana parte então para sua carreira solo, vai para o Rio de Janeiro e se instala no Morro de Santa Tereza em que vive entre o bate bola com a rapaziada, suas composições e shows com o parceiro Paulo Aueira. É uma fase de amadurecimento na carreira do músico. Atento à riqueza cultural do Rio, frequenta de festas do morro e gafieiras às apresentações da Jazz Sinfônica. Circula pelo posto 9, ponto de encontro de personagens como Luiz Melodia, Cazuza e Ferreira Gullar. “Sabonete” gravado no disco “Lobo Solitário” é dessa época.

Em 1989 Edvaldo Santana está voltando para São Paulo, pois mesmo morando dois anos no Rio de Janeiro era na Paulicéia que viviam seus parceiros. Se instala na Avenida Rebouças dividindo um apartamento com a amiga Soninha. Conhece o poeta curitibano Paulo Leminski através do amigo e parceiro, também poeta, Ademir Assunção. Estas parcerias, além das vividas com Tom Zé, Haroldo de Campos e Arnaldo Antunes marcam sua carreira. Consegue um pré-contrato para gravar um disco com a Warner que é cancelado com a vinda do Plano Collor.

Desde 1980, época em que o “Matéria Prima” participava de festivais universitários, Edvaldo mantém um relacionamento com a futura esposa Sueli, que é de Botucatu – SP. Dessa relação nasce em 1991 sua filha Carolina, e com ela o poema “Cara Carol” que viria a ser gravado no segundo disco solo. Em agosto de 1992, Sueli e Carolina vem de Botucatu para morarem juntos em São Paulo.

O “Lobo Solitário” está em seu repertório de shows desde 1989, mas só vem a ser gravado em 1993 pelo selo Camerati de Belchior. Nesse disco ele conta com Bosco Fonseca, Luís Waack, Marcelo Farias, Daniel Szafran e participação especial de Bocato, Paulo Le Petit e André Magalhães com produção do próprio Edvaldo Santana e do Claudio Lucci, que é do time da Camerati. O disco é um sucesso de crítica. O Tom Waits da Paulicéia com seu calo na garganta mistura funk, blues e samba. O lançamento é no Sesc Pompéia logo seguindo para outras casas de São Paulo e outras cidades. Infelizmente o selo Camerati é limitado na distribuição e na divulgação, e o disco tem dificuldade em chegar ao grande público.

O segundo disco “Tá assustado?” vem em 1995, agora pela gravadora Velas, de Ivan Lins e Victor Martins, teve a participação de Duofel e Arnaldo Antunes.

Grava o clip da “Caximbo” no centro da cidade de São Paulo que é trabalhado junto a MTV Brasil. Shows do “Tá assustado?” percorrem o Brasil junto com algumas apresentações em festivais de blues, um público já conquistado pelo músico. É citado no livro “Da lama à fama”, de Roberto Muggiatti, sobre a história do blues, onde o autor tece alguns comentários a respeito do trabalho de Edvaldo Santana.

Ainda existe uma grande dificuldade em relação à divulgação do trabalho, mas graças ao prestígio pessoal do músico, que não depende de gravadora, ele consegue um bom espaço na imprensa escrita e participa de alguns programas de TV como o “Ensaio” da Cultura.

O terceiro CD “Edvaldo Santana” lançado em 2000 com distribuição da Eldorado tem a participação de Oswaldinho do Acordeon, Fernando Deluque, Titane e Bocato. Algumas músicas foram executadas pelas rádios USP, Cultura e Eldorado, além de rádios universitárias e comunitárias. No repertório, “Samba de Trem’ abre o cd com Edvaldo fazendo suas alquimias – nesta faixa ele mistura o samba com seu ritmo contagiante aos slides da guitarra do blues. Além disso, há uma parceria inédita com Itamar Assumpção, “Blues Caboclo” e uma gravação antológica de “Dor Elegante” poema de Paulo Leminski. Destacam-se ainda “Sem Cena” e “Zensider” composições com letra de Ademir Assunção. Arnaldo Antunes participa com a letra de “Beija-Flor” que encerra o álbum.

No álbum “Amor de Periferia”, a sonoridade é marcada pela diversidade: tem choro, reggae, samba-choro, blues, salsa, mambo-xote. A mistura testemunha a formação musical de Edvaldo Santana, um filho de músico que ouvia samba, choro e cantores populares em reuniões domésticas, enquanto escutava um pouco de tudo fora de casa, de Rolling Stones e Beatles a Roberto Carlos e Altemar Dutra. Por isso, “Amor de Periferia” é um caldeirão sonoro, temperado com letras que, acima de tudo, resgatam outros tempos e outros lugares.

É o caso da lírica “Variante”, que recupera um episódio biográfico do músico, uma viagem que fez ao Norte do país quando criança – nessa viagem, um de seus irmãos morreu a bordo de um vapor no rio São Francisco. “Amor de Periferia” e “Batelaje” funcionam como crônicas musicais, ao focalizar cenas do cotidiano e falar de gente que encontra nas pequenas alegrias e na solidariedade um antídoto contra as agruras do dia-a-dia na periferia. O disco tem uma série de convidados especiais. O pianista cubano Yaniel Matos participa das músicas “Choro de outono” e “Cantora de cabaré”.

A cantora Zélia Duncan divide os vocais com Edvaldo na “Desse fruto”, enquanto “Batelaje” tem a participação do Quinteto Preto e Branco e “Guilhotina” tem na guitarra Nuno Mindelis. “O jogador” tem os vocais de um grande admirador do trabalho de Edvaldo Santana: Lenine. Edvaldo Santana faz desde 2001 a direção musical da Missa Afro Brasileira, realizada em Itu – SP, organizada pela União Negra Ituana (UNEI), entidade representativa da comunidade negra da região da Sorocabana.

Em 2003, produz o primeiro disco do violonista caipira de 70 anos,”Ico Almiro”. Em 2004, participa do Show de abertura do Fórum Mundial de Cultura, no Parque do Ibirapuera, juntamente com Manu Chao, Gilberto Gil, Marcelo Yuca entre outros. Em 2004, inicia o processo de criação do novo álbum, “Reserva de Alegria”, influenciado pela cultura dos negros, dos caipiras e de sua formação urbana na periferia de São Paulo, sem deixar de lado a cultura de seus ancestrais nordestinos.

Paralelamente grava dois vídeos clipes com músicas do álbum “Amor de Periferia”. O primeiro vídeo foi gravado em 2004, na “Favela de Sacadura Cabral”, na cidade de Santo André, com a participação da comunidade local e do grupo, “Quinteto em Branco e Preto”, com direção de Robson Timóteo, Marcelo Montenegro, Albert Clink e Álvaro Perrone.

O segundo vídeo – clipe foi filmado em 35 mm, em 2005, no campo de futebol da favela de São Remo, periferia da zona oeste de São Paulo, com a participação de “Lenine” e das crianças que jogam futebol na comunidade, a direção foi de Telso Freire. 

Em 2006 é lançado, “Reserva de Alegria”, quinto álbum, mesclando MPB com ingredientes latinos, de Cuba, Jamaica, Caribe e do blues. A mistura de elementos rítmicos, melódicos, poéticos, convivem lado a lado com a origem mestiça do artista de voz rouca e coração quente, colocando o caldeirão sonoro que sua música produz em sintonia com sua história de vida. Neste álbum Edvaldo tem como convidados: Bocato, Thaíde, Rappin’ Hood, Chico César, e foi acompanhado por músicos que estão ao seu lado há alguns anos, possibilitando a sintonia necessária para a conceituação de sua obra. A produção musical ficou novamente a cargo da parceria, entre Edvaldo Santana e o guitarrista Luiz Waack.  Este é Edvaldo Santana para quem quer conhecer o que é a música popular inventiva, sofisticada, singular, com o amor pela periferia na alma e na voz.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Edvaldo Santana para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 20.11.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Edvaldo Santana: Nasci no dia 17 de agosto de 1955 em São Paulo no bairro de São Miguel Paulista, periferia da zona leste.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Edvaldo Santana: Meu primeiro contato com a música foi em casa vendo e ouvindo meu pai e os amigos cantarem e tocarem cavaquinho pandeiro violão, músicas do Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Teixeirinha, ouvindo os LPS de música instrumental de Pixinguinha, Waldir Azevedo, Poli que meu pai adorava, além da literatura de cordel que chegava através dos repentistas cultura presente na casa de migrantes nordestinos.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Edvaldo Santana: Minha formação musical é autodidata aprendi a tocar Violão quebrando as cordas do Violão Giannini do meu pai. Eu cursei o ensino médio incompleto.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância? 

Edvaldo Santana: Vivi infância e pré-adolescência nos anos sessenta e setenta a música era o carro chefe da Televisão, do Rádio. O público tinha acesso a vários programas que mostravam a diversidade da música brasileira: Fino da Bossa da Elis Regina, Jair Rodrigues, Zimbo Trio. Jovem Guarda de Roberto Carlos, Erasmo Carlos. Tropicália, de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Os Mutantes. Os programas de auditório onde se apresentavam artistas de estilos diferentes, como Jorge Benjor, Altemar Dutra, Antonio Marcos, os festivais da TV, onde apareceram Chico Buarque, Geraldo Vandré, ainda haviam os festivais de rock como Woodstock que traziam o som de Carlos Santana, Jimi Hendrix, Joe Cocker, Janis Joplin, Bob Dylan, e também Ray Charles, Beatles, Roling Stones que tocavam muito no rádio. Depois ouvi bastante Raul Seixas, João Bosco, Belchior, Luiz Melodia, Monsueto, Adoniran Barbosa.

A minha formação foi fragmentada como um cara nascido e criado numa cidade cosmopolita. Nos últimos anos, tive muita influência do jazz do blues do reggae do samba, de Charlie Parker, Miles Davis, Howlin Wolf, Robert Johnson, Bob Marley, Bessie Smith, Noel Rosa, Cartola, Zeca Pagodinho, o samba caipira do interior de São Paulo, que aprendi com a comunidade negra da região de Itu, dirigindo a Missa Afro. Continuo sendo influenciado a todo momento quando descubro uma nova estética, ultimamente tenho ouvido as músicas contemporâneas: africana, árabe, americana, cubana, brasileira, a música é nosso oxigênio. A arte nunca vai deixar de ter sua importância na vida dos humanos, sempre vai haver uma modulação de acordes na harmonia de uma música que você vai usar no encadeamento de uma nova canção.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Edvaldo Santana: Profissionalmente comecei em 1974 com grupo “Caaxió” que virou “Matéria Prima”, gravamos nosso primeiro LP em 1975 pela gravadora Chantecler, que foi lançado no programa Fantástico da Globo.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Edvaldo Santana: Solo: Em 2016 o CD – “Só vou chegar mais tarde” – Independente. Em 2012 o CD – “Jataí” – Independente. Em 2006 o CD – “Reserva da Alegria” pela Tratore. Em 2003 o CD – “Amor de Periferia” – Independente. Em 2000 o CD – “Edvaldo Santana” pela Eldorado e que será relançando nas plataformas digitais para celebrar os 20 anos. Em 1999 – “Edvaldo Santana” pela gravadora Tom Brasil. Em 1995 – “Tá Assustado?” pela gravadora Velas. Em 1993 – “Lobo Solitário” pela gravadora Camerati.

Com a banda “Matéria Prima”: em 1978 – “Entranhas do Horizonte” pela Single/CBS. Em 1975 – “Matéria Prima” pela gravadora Chanteclair.

Em coletâneas: em 1997 – “Momento MPB” pela Revista Áudio News. Em 1994 – “Vanguarda da música popular Brasileira” pela Revista Áudio News. Em 1985 – “Movimento Popular de Arte” – Independente.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Edvaldo Santana: Não consigo definir nem me catalogar apenas num estilo musical. Eu gosto de música de boa qualidade, não tem predileção especial por nenhum gênero. Pode ser Samba, Xote, Blues, Jazz, Salsa, Rock, Reggae. Moda de Viola. Agora estou lançando um fado, chamado “Voo Iluminado”.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Edvaldo Santana: Não estudei fui aprendendo com os amigos cantores. Já profissional participei de uma oficina de canto, durante um mês com o saudoso Jorge Nakao, que me ensinou alguns exercícios que pratico até hoje. Faço gargarejo todos os dias ante de dormir com água morna.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Edvaldo Santana: A técnica vocal é muito importante e quem tiver a oportunidade de potencializar seus dons, vai ser muito bom, não tenho dúvidas.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Edvaldo Santana: Admiro muitos não sei se vou esquecer de alguém: Altemar Dutra, Pena Branca e Xavantinho, Louis Armstrong, Luiz Melodia, Antonio Marcos, Sergio Sampaio, Raul Seixas, Elis Regina, Jorge Veiga, Jackson do Pandeiro, Jamelão, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Clara Nunes, Jorge Benjor, Cassia Eller, Palmeira e Biá, João Bosco, Luiz Vieira, João do Vale, Maria Bethania, Tom Zé, Luiz Melodia, Lia de Itamaracá, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Manezinho Araújo, João Nogueira, Billy Holiday, Bessie Smith, Roberth Johnson, Clementina de Jesus, Elza Soares, Zeca Pagodinho e tantos outros.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Edvaldo Santana: O processo de criação é diversificado, as vezes me debruço sobre um tema e fico algum tempo buscando soluções para a melodia e para a letra. E em outros momentos as coisas acontecem espontaneamente, pode ser uma emoção, uma observação ou uma reflexão, que inspira uma nova ideia musical. Por exemplo o xote “Jataí”, fui fazendo aos poucos pesquisando sobre o Brasil e suas diferenças culturais já em “Cara Carol”, uma canção que escrevi no nascimento da minha filha, a emoção prevaleceu e a letra e a música vieram inteiras naquele momento especial.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Edvaldo Santana: Tenho vários parceiros e fiz muitas amizades através da arte. Eu gosto de poesia e me aproximei de alguns caras bem inventivos como: Arnaldo Antunes, Paulo Leminski, Glauco Mattoso, Haroldo de Campos, Tom Zé, Ademir Assunção, tem os amigos da banda “Matéria Prima” como: Osnofa, o saudoso Fernando Teles, as parcerias criadas na fase do “MPA” com Akira Yamasaki, Sacha Arcanjo. Tem os parceiros esporádicos que também são importantes.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Edvaldo Santana: Alguns artistas gravaram minhas canções: Arnaldo Antunes, Miriam Maria, Titane, Patrícia Amaral, Rodica Blues, Daniela Lasalvia, Mona Gadelha, Maricene Costa, Jordana, Veronica Ferrianni. Outros artistas gravaram comigo: Lenine, Zélia Duncan, Chico César, Nuno Mindelis, Rappin‘ Hood, Thaíde, Quinteto em Branco e Preto, Rita Benneditto, Fabiana Cozza.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Edvaldo Santana: Viver fora da indústria cultural oficial do show business acaba sendo uma maneira inteligente de preservar a obra. Sem a contaminação do mercado nem a obrigação de dar resultado como se fosse um operário conduzido para produzir na marra. No meu caso construí uma trajetória paralela que me faz muito bem. Independência não quer dizer que você não precise de outras pessoas para produzir, executar e escoar sua criação. Agradeço sempre poder contar com grandes músicos, poetas, jornalistas, produtores, público, que se interessam pela minha obra. Claro que se eu pertencesse ao cast de uma multinacional teria uma visibilidade maior para minhas canções, pois é tudo um grande negócio e quem paga tem mais inserção no mercado da música. Vivo como um artista independente desde 1978, quando gravei uma fita Cassete ainda com a banda “Matéria Prima”, acredito que sou um dos primeiros a trilhar uma carreira musical por esse caminho e não me arrependo.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Edvaldo Santana: Fui aprendendo a resolver meus problemas desde pequeno com pouca grana. Sou filho de operário e dona de casa, nascido e criado na periferia da zona leste. Acabo usando esse jeito de ser na condução da minha carreira musical. Não fico choramingando me sentido vítima e injustiçado, prefiro inventar, criar novas canções, buscar alternativas de produção e divulgação. Fico atento para aprender com outros universos criativos da arte, procurando outros caminhos constantemente, potencializando as ideias com coragem e ousadia. Tem um velho ditado no futebol que serve para essa pergunta: ”Quem pede a bola recebe e quem se desloca tem preferência”.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Edvaldo Santana: As minhas atitudes são bem naturais como vivo do trabalho musical há mais de quarenta anos, as coisas vão acontecendo. É fundamental continuar compondo escrevendo. A minha obra é meu motor e meu farol e ela é quem dita os caminhos que vou percorrer. Sou muito exigente com o que produzo, se tenho a obra produzida, posso gravar um novo álbum um novo vídeo. Como tenho vários discos gravados exploro isso na internet colocando letras, entrevistas, vídeos, algumas histórias interessantes da carreira. E muita coisa acontece sem planejamento, mas de uma maneira organizada.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira? 

Edvaldo Santana: A internet mais ajuda do que atrapalha, com a possibilidade de usa-la como rádio, tv, mídia alternativa. Tenho vários CDs gravados, tenho muito conteúdo para mostrar, que estava escondido pela grande mídia. Nunca ganhei dinheiro com meus álbuns, sempre obtive alguns recursos nas apresentações, então não tenho prejuízo. Agora que estamos vivendo a pandemia devido ao covid-19, muita gente está descobrindo meu trabalho através das lives que venho fazendo.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Edvaldo Santana: A tecnologia hoje é essencial e gravar em casa significa que você tem as ferramentas que estavam sempre na mão de gravadoras e empresários. Eu gosto da participação dos músicos e da figura humana tocando com sua alma. E se isso pode ser feito em casa sem a anuência de ninguém, muito melhor. Meus discos em sua grande maioria foram gravados, mixados no estúdio da casa do Luiz Waack, meu parceiro e produtor já há alguns anos.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Edvaldo Santana: Hoje você não precisa nem do álbum físico, praticamente tudo está relacionado com a mídia digital. Quem tem qualidade e se dedicou, cuidou de sua obra sem se preocupar com o mercado musical, vai ser diferente daqueles que estão apenas interessados em serem reconhecidos. Com o advento da internet tem muito enrolador, isso sempre teve, mas não aparecia muito, a arte cobra se você não cuidar dela como deve, ela te abandona. Tudo na vida tem tempo, conhecimento, sabedoria, se houver merecimento as coisas vão acontecer. Eu continuo fazendo o que gosto da melhor maneira e isso faz a diferença em qualquer ofício.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Edvaldo Santana: A música brasileira vai ser sempre vigorosa, isso não quer dizer que o que é produzido vai chegar paras pessoas. O controle da comunicação da grande mídia, ainda está na mão de quem paga mais. Temos grandes artistas e não gosto de citar nomes, mas vou arriscar alguns que contribuíram com desenvoltura nestas duas últimas décadas: Racionais MC’s, Cassia Eller, Chico Science.

21) RM: Fale sobre o movimento cultural e musical que você participou em São Miguel Paulista. Quais os músicos que participaram junto com você?

Edvaldo Santana: MPA – Movimento Popular de Arte, sou um dos fundadores, é muito significativo na minha trajetória musical. E talvez o primeiro agrupamento de artistas na periferia de São Paulo, em São Miguel Paulista, periferia da zona leste. Ainda não tínhamos o Hip Hop, nossos anseios de criar uma forma paralela para divulgar nossas manifestações artísticas deu um resultado extraordinário. Estavam nos nossos objetivos criar um novo campo de atuação e uma nova estética na zona leste possibilitando lazer e cultura para o povo mais carente que não tinha condição de frequentar um Teatro, uma Casa de show, uma escola de artes que só tinha no centro da cidade.

Durante sete anos de 1978 a 1985 foi o maior acontecimento cultural da periferia de São Paulo. Tive a honra de coordenar a programação do MPA Circo trazendo artistas consagrados como Belchior, Walter Franco, Inezita Barroso, Paulo Moura, mesclando atividades culturais com os artistas locais. Muita gente participou desse movimento posso citar alguns que estiveram desde sua fundação na mostra de artes que aconteceu na capela de São Miguel Arcanjo. Estavam comigo: os antropólogos Antonio Augusto Arantes e Tadeu Giglio. Os artistas: Akira Yamasaki, Sacha Arcanjo, Severino do Ramo, Cleston Teixeira, Raberuan, Osnofa, Tiziu, Grupo Crisol, Pedro Peres, Claudio Gomes, Matéria Prima, Nelson Mouriz. E com o avanço do movimento foram chegando mais gente: Gilberto Nascimento, Edson Tomaz Filho, Arlete Taboada, Domenico Tineli, Ceciro Cordeiro, João Caetano, Gildo Passos, Zulu de Arrebatá, Grupo Goró, Eder Lima, Ligia Regina, Fátima Bugolin, Jorge Gregorio, Artenio Fonseca, Sueli Kimura, Rosemari Beltrão, Dolores Pestelli do Balet do Brasil, Artur Shaker, Grupo Artmanha, Luiz Case, Grupo Periferida, e muitos outros que minha cabeça não consegue lembrar agora.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Edvaldo Santana: Teve várias situações interessantes: desde de ficar quatro dias consecutivos dormindo na rodoviária do Rio de Janeiro sem grana e sem comida, tentando fazer contato com uma gravadora chamada CID. Até apanhar em cima do palco no show da banda “Matéria Prima” em São Bernardo do Campo – SP num baile promovido para os recos da polícia do exército, o som pifou e os caras queriam dançar e resolveram bater na gente. Cantar e não receber teve várias principalmente nos shows que eram organizados pelos estudantes universitários, que nunca tinham dinheiro, isso aconteceu em Ribeirão Preto, em Bauru.

Nós da banda “Matéria Prima” vivemos o momento de ditadura militar no Brasil, tivemos que sair pela porta dos fundos correndo da polícia paraguaia após um show na Hidroelétrica de Itaipu. Era muito comum a falta de condições técnicas para show, tivemos que improvisar várias vezes cantando à capela, ou sair correndo do palco, pois estava pegando fogo o equipamento devido aos fios não suportarem o carregamento de energia de som e luz. Em um show em São Caetano do Sul – SP, queda do palco do teatro do Colégio D. Pedro, no tradicional show do Pingão que acontecia na escola. Levar cantada era um fato bem comum, mas isso eu sempre achei bom, era um sinal que tinha gente interessada em mim.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Edvaldo Santana: Mais triste é a perda de alguns amigos que partiram como Fernando Teles parceiro um dos fundadores da banda “Matéria Prima”, Tiziu que aprendeu a tocar bateria na sala da casa dos meus pais, Raberuan grande artista um dos criadores do MPA – Movimento Popular de Arte. O que me deixa mais feliz é poder continuar o ofício que me foi designado pelos deuses da arte. E potencializar minhas ideias, compondo novas canções, gravando meus discos, caindo na estrada para cantar tocar aprender e ensinar.

24) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Edvaldo Santana: Alguns caras nascem com mais jeito para a música, com mais facilidade para aprender e executar instrumentos, o Tiziu era um exemplo disso. Agora para você se tornar um grande artista tem que se dedicar muito para poder lapidar estes dons que foram doados. Tenho um pouco de dom, mas acredito que tenho mais vocação e determinação, o tanto que me doaram de dons, são potencializados ao máximo, a arte depura meu esforço.

25) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Edvaldo Santana: Improviso não é pra qualquer um e depende muito da personalidade e do jeito do artista. Para os músicos de Jazz que improvisam em cima de um tema harmônico (acordes) estabelecido, tem que haver conhecimento musical. E serve também para um cantor de música popular que as vezes esquece a letra e ninguém percebe, pois ele improvisou na hora algumas palavras que supriram a lacuna. De todo jeito acho bem legal o improviso ao vivo, pois de perto ninguém é normal.

26) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Edvaldo Santana: Improvisa-se a partir de um tema e precisa ter conhecimento harmônico (sequência de acordes) e uma execução consistente, clara, para que a música continue soando bem aos ouvidos. Tem também esses virtuoses que saem tocando o que vem na cabeça, sozinhos e funciona. É claro que tudo precisa de base de estudo e principalmente de conhecimento de prática.

27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Edvaldo Santana: Acredito que tudo é bom e todos os métodos são importantes.

28) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Edvaldo Santana: Estudar harmonia é ótimo. E quando você junta sua forma autodidata de aprender tocando de ouvido, com os estudos de harmonia, você só vai crescer como músico. Prática e teoria e sensibilidade com técnica.

29) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Edvaldo Santana: Se é assim que funciona, se depender de mim não vou pagar jabá para tocarem a minha música, mas tudo pode acontecer. Estamos produzindo a obra e ela está correndo trecho, não tenho a verdade absoluta. Nas rádios de grande apelo popular acho muito difícil, mas outras emissoras cuja programação destaca a música brasileira, minhas canções já tocam. Eu não fico preocupado com esse fato, já assimilei e continuo fazendo o que gosto do jeito que quero e isso é um privilégio. Já ouvi muita gente que não sabe como funciona o show business, sugerir que eu faça outro tipo de música. Eles não sabem que é tudo comprado e dominado e de uns anos pra cá ficou bem pior.

30) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Edvaldo Santana: Se o cara acredita na arte vai em frente sempre sem se preocupar com o mercado musical se vai ser famoso ou não. E valorize sua obra e se dedique ao máximo, na lapidação do diamante bruto que te foi doado. Tudo tem que ralar trabalhar, ninguém aprende do nada, ninguém é dono da verdade absoluta, tudo é possível, tem que acreditar com coragem e ousadia.

31) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Edvaldo Santana: Eu não gosto de participar de Festivais de Música, mas não condeno quem goste, para mim não acrescenta nada.

32) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Edvaldo Santana: Não acredito.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Edvaldo Santana: A música brasileira rica, diversa, forte é muito mal tratada pelos grandes meios de comunicação, claro que temos que acrescentar alguns ingredientes fundamentais para que ela fique escondida. Nos últimos anos houve um total descuido com a escola pública fazendo com que as populações mais pobres ficassem cada vez mais sem conhecimento. Há uma propaganda consumista para que você compre mesmo sem grana. Você vale pelo que tem não pelo que é, são conceitos de domínio capitalistas potencializados todos os dias. A música é uma arte que aguça sensibilidade, que muda comportamento, isso não interessa para os homens de negócios, ela é tratada como um sabonete descartável. O maior símbolo cultural do Brasil é a nossa música e infelizmente não tem o respeito que merece dos grandes meios de comunicação para poder escoar com dignidade essa produção inventiva que é criada por aqui.

34) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Edvaldo Santana: São ótimos espaços, mas poderíamos ter muito mais, São Paulo é a cidade mais rica da América Latina, tem artistas de todos os tipos. O Estado, as prefeituras, tinham que contribuir na formação de público, na produção estética dos artistas com muito mais veemência, afinal o dinheiro é nosso e é nós que pagamos os impostos.

35) RM: Quais os seus projetos futuros?

Edvaldo Santana: O presente é aqui e agora, o futuro a gente não pode ter certeza, mas não dá para esconder que estou compondo e com certeza vou lançar um novo álbum em 2021. Tenho que finalizar um livro de memória sobre o bairro de São Miguel Paulista, faz tempo que estou escrevendo. Estamos lançando um single e um vídeo do fado “Voo Iluminado”, parceria com Carlos Miguel, até o final de ano vai sair o outro single “Toque de Avançar”, criado para o livro de Flavio Paiva, que em breve será lançado.

36) RM: Edvaldo Santana, Quais seus contatos para show e para os fãs? 

Edvaldo Santana: (11) 97589 – 7705 / [email protected]https://www.facebook.com/edvaldo.santana.5 

Canal: https://www.youtube.com/channel/UCupBsjwWOiRBb5Z-ZahGKmg 

Voo Iluminado – Edvaldo de Santana Braga: https://www.youtube.com/watch?v=ECNsfNtQtmg 

Álbum Lobo Solitário – 1993 – Edvaldo Santana: https://www.youtube.com/watch?v=a19nahNm8rA 

Edvaldo Santana #EmCasaComSesc: https://www.youtube.com/watch?v=-DCVMTmcURM 

Edvaldo Santana no programa “Clodovil em Noite de Gala”: https://www.youtube.com/watch?v=hhwSas5FTw4 

Edvaldo Santana – Ao Vivo julho 2020: https://www.youtube.com/watch?v=rWCduF3g3SI 

Edvaldo Santana no (programa Ensaio )da Tv Cultura em 1998: https://www.youtube.com/watch?v=xyJtWb69vxs

 


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.