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Duo Benji & Rita

Duo Benji & Rita


Tempo de Leitura: 17 minutos

Em dezembro de 2019, os músicos Benji Kaplan e Rita Figueiredo chegaram ao Brasil, para uma série de shows de divulgação do primeiro álbum do duo, “Benji & Rita”. Ao término da tour dos músicos no Brasil, os EUA já haviam solicitado aos seus cidadãos no exterior que voltassem ao país, por causa da pandemia por coronavírus.

“Eu e Benji moramos no Brooklyn em Nova Iorque. Quando a cidade virou o epicentro da pandemia achamos que fosse mais seguro fazer o nosso isolamento com a família numa casa no meio da floresta no Hudson Valley, no Estado de Nova Iorque. Após um mês de isolamento lembramos o quanto a nossa música “Passatempo” gravada no nosso último álbum combinava com essa situação de pandemia que estamos vivendo agora. O clipe foi feito por mim com imagens contemplativas que fiz da natureza que nos rodeiam por aqui. Essa natureza que tem nos trazido um pouco de paz em meio a esse turbilhão de incertezas que mergulham as nossas vidas”, diz Rita Figueiredo.

“Transitoriedades, incertezas, o rio da vida que flui e a roda da fortuna a girar. De forma contemplativa e sensível, a letra da canção “Passatempo” nos apresenta um jogo de palavras que orbitam o tempo, nos aproximando de um mistério que permanece irresoluto. O fim da canção, como acontece na realidade, não responde aos anseios da letra, e as dúvidas que tanto nos acompanham simplesmente pairam no ar”, diz Benji Kaplan. Assista ao clipe: www.youtube.com/watch?v=fBBhrkBs31k

Benji Kaplan um americano de alma brasileira, que já tem quatro álbuns na bagagem, trata a influência da MPB de forma mais expansiva. Seu último disco, Chorando Sete Cores, alia a força rítmica e harmônica do violão a um quinteto de sopros, formando um conjunto em que cada elemento colabora para um tipo de narrativa.

Rita Figueiredo antes de assimilar referências de distintas expressões regionais brasileiras em sua forma de cantar, a paulistana Rita Figueiredo ingressou nos estudos de canto lírico aos 14 anos de idade na escola EMESP Tom Jobim em São Paulo. Aos 18 anos já dividia o seu tempo em concertos eruditos, cantando árias antigas italianas e shows intimistas de música brasileira na sua cidade. Em 2011, teve a oportunidade de gravar seu primeiro disco autoral ao vencer o prêmio ProAC, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Seu talento para as artes também foi desenvolvido em sua profissão como ilustradora, animadora e videomaker.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Duo Benji & Rita para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 06.07.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo (Voz) – Eu nasci em São Paulo no dia 19 de Abril de 1976.

Benji Kaplan (Violão e Arranjos) – Eu nasci no dia 24 de Junho de 1985, em Nova Iorque, EUA.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Quando eu tinha uns 8 anos de idade em 1984, minha mãe (Maria Figueiredo) comprou para mim e para a minha irmã três coleções completas de LPs da editora Abril. Os Gigantes do Jazz, História da Música Popular Brasileira e Grandes Compositores da Música Universal. Essas coleções eram fantásticas pois além do LP vinha anexo uma biografia de cada artistas. Naquele tempo eu me apeguei mais aos artistas do Jazz e da música popular brasileira, enquanto a minha irmã mais velha que depois veio a estudar Harpa clássica, se apegou mais aos álbuns de música erudita. Depois mais tarde quando eu já era pré-adolescente e arrisquei a cantar as primeiras canções e a tocar os primeiros acordes no Violão em saraus organizados pela minha irmã mais velha e minha mãe na nossa casa no bairro do Lapa em São Paulo. Nesses saraus musicais recebíamos muitos bons músicos, como Isaías e seus chorões, o violonista Chico Araújo, Arnaldinho do Cavaco, a cantora Maricene Costa entre muitos outros…

Benji Kaplan – Meu pai colocou o Dumbek (tambor de mão do Oriente Médio) em minhas mãos quando eu tinha 5 anos de idade e comecei a tocá-lo com meu pai, irmão e amigos nos drumming circles (jam sessions) aos 6 anos de idade e aprendemos esses ritmos e melodias para cantar, tocar e dançar as tradicionais canções ladinas Judaica espanhola,  como também as músicas judaicas do Oriente Médio, cubana e africana. Mas tarde aos 11 anos de idade, comecei a tocar Violão e descobri o mundo do jazz, da música brasileira e música clássica.

03) RM: Qual sua formação musical?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Estudei canto popular com as professoras Cida Moreira, Ná Ozzetti, Silvia Cueva e Carmina Pinheiro. Cantei em dois corais do CoralUSP por dois anos em que tive a oportunidade de ter a prática de coro e também tive meu primeiro contato com a teoria musical. Após esse período entrei na ULM – Universidade Livre de Música, atualmente com o nome de EMESP Tom Jobim. Lá estudei formalmente música no curso de Canto Lírico com a grande professora Lenice Priolli, infelizmente já falecida. Também estudei Violão Popular com o violonista Chico Araújo e Rubens Nogueira.

Benji Kaplan – Estudei música e me graduei no curso de Guitarra / Jazz na New School University, em Nova York. Lá estudei com muitos músicos e educadores incríveis, incluindo: Junior Mance, Vic Juris, Rodney Jones, Benny Powell, Buster Williams, Bernard Purdie entre outros. Eu também estudei outros assuntos como literatura, sociologia e psicologia por lá.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – São muitos nessa lista. Gosto muito da Carmem Miranda, Angela Maria, Elizete Cardoso, Jassye Norman, Leny Andrade, Ney Matogrosso, Ella Fitgerald, Gal Costa, Sarah Vaughan e Elis Regina. Dos Letristas gosto do Aldir Blanc, Chico Buarque e Caetano Veloso. Dos compositores gosto do Chico Buarque, Guinga, Tom Jobim, Edu Lobo, Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, George Gershwin, Stephen Sondheim, Dorival Caymmi entre muitos outros.

Benji Kaplan – Bom, sou influenciado por tantos grandes artistas. Dos brasileiros cito aqui alguns: Chico Buarque, Tom Jobim, Guinga, Milton Nascimento, Tavinho Moura, Toninho Horta, Ernesto Nazaré, Villa Lobos, Edu Lobo, Francis Hime e Carlos Lyra. Do universo do jazz: Clifford Brown, Clark Terry, Charlie Parker, Thelonious Monk, Willie The Lion Smith, Count Basie, Duke Ellington, Erroll Garner, Wes Montgomery, Tal Farlow, Barney Kessel, Coleman Hawkins e Teddy Wilson. Na música Erudita: Debussy, Ravel, Chopin, Rachmaninoff, Stravinsky, Puccini, Sibelius, Bach, e muitos outros.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Eu trabalhei com desenho animado e videografia profissionalmente por mais de 20 anos e a música sempre esteve presente na minha vida em paralelo, seja estudando, compondo canções ou fazendo pequenas apresentações. Mas considero que comecei a consolidar um caminho mais sólido com a música a partir do lançamento do meu primeiro álbum “Brasilis” que foi lançado em 2013.

Benji Kaplan – Comecei minha carreira musical quando eu tinha 16 anos de idade. Nesse tempo comecei a tocar em festas particulares, clubes, eventos e restaurantes no interior de Nova York. Nessa época pesquisava muito música brasileira e tocava muitos arranjos para guitarra de Luiz Bonfá. Nesse tempo tinha um repertório de Bossa Nova em geral e também standards de jazz.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Tenho dois CDs lançados:em 2013 “Brasilis” meu primeiro disco solo e em 2020 “Benji & Rita” álbum que fiz em parceria com Benji Kaplan. O meu primeiro álbum “Brasilis” é um disco onde assinei a autoria das melodias e letras. Ele tem um carácter um pouco mais pop do que este meu segundo trabalho com o Benji onde a sonoridade do álbum flerta muito mais com a música erudita e Jazz. Mas em ambos álbuns eu mantenho o meu papel de contadora de história através das letras das músicas que assinei em ambos os álbuns. No meu primeiro álbum a faixa “Milho, Dezembro e Reis” composição minha em parceria com a minha mãe (Maria Figueiredo) e produzida pelo Marcelo Jeneci foi talvez a música que ganhou mais a atenção do público no meu primeiro CD. Esta faixa foi listada como umas das melhores canções de 2013 pelo Ed Felix dos Melhores da Música Brasileira além de ter o clipe finalista no Festival de Clipes e Bandas de 2013, e a indicação pela Vevo Brasil como o melhor Clipe do mês no tempo de lançamento.

Benji Kaplan – Eu lancei até este momento, cinco CDs. Meu primeiro CD – “Meditações no Violão”, é um trabalho de composições minhas para Violão solo. Este trabalho é mais ao gosto das pessoas que gostam de música instrumental e Violão solo em geral.

Meu segundo álbum foi em Duo com a flautista e compositora Anne Drummond. Também um álbum íntimo de peças originais. O terceiro álbum foi chamado “Uai Sô”, que abrange muitos estilos, ritmos, arranjos e harmonias diferentes que eu fiz com cordas, sopros, bateria e percussões. Esse é o trabalho que mais mostro o meu lado “cantautor”. Também co-escrevi muitas canções com outros letristas do Brasil neste álbum. Uma das minhas músicas mais populares é a “Fuga de Alcatraz” composta em parceria com o meu amigo e parceiro musical Makely Ka. Meu quarto álbum é totalmente instrumental, e assino também as composições e arranjos. Desta vez para quinteto de Sopro e Violão. Os apreciadores de música instrumental também gostaram bastante desse CD. Em todos esses álbuns eu trabalho com ritmos brasileiros diversos como a valsa, o choro, o baião, a modinha, o frevo, a canção de ninar e etc. Meu quinto álbum é álbum “Benji & Rita” que fiz com a minha esposa e parceira Rita Figueiredo. Esse trabalho recente é um dos meus projetos favoritos. Foi um projeto mais audacioso, com arranjos robustos com a presença de muitos instrumentos por cada música. De certa forma esse trabalho tem alguns traços comuns com o “Uai Sô”. Enfim, fizemos muitas experimentações bonitas nesse último álbum.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Meus dois álbuns são muitos diferentes um do outro e não consigo me definir muito num estilo fixo. Mas o Brasil e a música brasileira estão inevitavelmente muito presente nas histórias, ritmos e referências nos meus dois trabalhos.

Benji Kaplan – Eu acho que vem de um acúmulo de coisas que aprendi a observar, tocar, ouvir e ensinar que ajudaram a moldar a minha voz pessoal como artista até aqui, mas que está em constante movimento, num processo evolutivo e de muito aprendizado também.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Sim.

Benji Kaplan – Sim, estudei um pouco, mas apenas cerca de 3 ou 4 meses. Eu não estudei voz até os meus 28 anos. Aprendi algumas técnicas muito importantes e gostaria de estudar mais. Espero fazer isso em breve. A voz é o nosso primeiro instrumento e é muito animador pensar que posso melhorar no uso desse instrumento também.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Os músculos responsáveis pela emissão da voz são sensíveis e merecem bastante cuidados. Também precisamos disciplina-los com treinos diários para que esses se desenvolvam em favor da música e da voz. Como um atleta precisa treinar os músculos e membros responsáveis pela alta performance. Estou bastante atenta a isso agora, pois como eu e o Benji começamos a fazer muitos shows nos últimos dois anos e por conta disso eu passei a sentir mais necessidade de cuidar da voz e também de treina-la com exercícios diários. Se não me atentasse a isso nesse momento, estaria correndo o risco de machucar as cordas vocais fazendo muitos shows seguidos cantando um repertório com um grau alto de dificuldade de execução, o que também me exige mais estudos.

Benji Kaplan – Eu não sou a melhor pessoa para dar conselhos sobre isso. Posso apenas dizer que é bom se manter hidratado, com maçãs e muita água.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Duo Benji & Rita: Benji Kaplan – Eu amo vários cantores, mas alguns que vem na minha cabeça agora são: Elizeth Cardoso, Elis Regina, Sarah Vaughan, Peggy Lee, Frank Sinatra, e Judy Garland.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Quando componho geralmente faço primeiro a letra e depois a melodia. Mas quando eu faço só a letra peço para ter a melodia primeiro para daí escrever a letra com base na melodia. É assim que faço com o Benji por exemplo.

Benji Kaplan – Acho que para o bem ou para o mal, nem sempre tenho uma maneira única de compor música. O importante para mim é sempre fazer algo com o auxílio do meu Violão. Praticar a técnica da mão direita, improvisar, estudar músicas de outros compositores ajudam no processo de composição. Dentro dessa cadência de estudos, deixo que novas ideias e composições venham e daí desenvolvo elas tanto quanto possível. Eu fico trabalhando nessas ideias até ter algo sólido, um projeto acabado. Eu também muitas vezes peguei uma música que eu escrevi no passado e a reorganizei de maneiras diferentes e com instrumentos diferentes no futuro. Acredito que as músicas também podem sofrer um processo de evolução, mesmo depois de acabadas.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Por hora o Benji Kaplan. Mas tenho um projeto de fazer um álbum no futuro só com parcerias com outras mulheres compositoras. É um projeto para o futuro, mas teriam muitos nomes legais nesse trabalho.

Benji Kaplan Rita Figueiredo, Makely Ka, Luiz Henrique Assis Garcia, Pedro Dias Carneiro e Aaron David Gleason.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Eu tento cuidar de todas as etapas do trabalho com profissionalismo. Eu já trabalhei no mercado musical mainstream como diretora de filmes de animação e videografista, e já atuei com vários grandes artistas da música brasileira como Marisa Monte, Ed Motta, Simoninha, entre outros. Também fiz muitos trabalhos para a gravadora Trama e MTV na época fazendo peças visuais, vídeo cenário, vídeo clipe, abertura de programas e etc. Aprendi muito e hoje em dia uso esse conhecimento para fazer o material de divulgação, como vídeos, flyers, fotos, vídeo cenário e etc para o Benji & Rita. Eu gosto de fazer de tudo um pouco. A parte ruim disso é que tenho que programar meu dia muito bem para caber os estudos diários que a música exige, enfim, é um grande malabarismo.

Benji Kaplan – Há mais prós do que contras em ter uma carreira independente. É muito bom o fato de você fazer música do seu jeito sem que alguém tente influenciar seu som, estilo e etc. Você pode negociar e lidar diretamente com os locais que você deseja tocar, o que torna tudo mais transparente também. Agora o que não é muito bom é o fato de você precisar dividir seu tempo entre tocar, estudar, com todas os outros tarefas de produção, como escrever e-mails para agendar shows e ver detalhes de produção do show, alimentar rede social, enfim elementos que fazem parte do desenvolvimento da sua carreira musical mas que acaba tirando parte do tempo em que você poderia estar praticando música.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Com o Benji & Rita conseguimos viajar pelo mundo. Fizemos shows em clubs de Jazz, festivais de músicas importantes nos EUA, tocamos em muitas bibliotecas, centros culturais e Universidades de diferentes estados dos EUA. Também tocamos em várias cidades brasileiras e vários países da Europa. A nossa música tocou em rádios de vários países, como EUA, Canada, Japão, Grécia, Brasil, Portugal, Espanha, Inglaterra entre outros. Também conseguimos elogios da crítica especializada da música que ouviu o nosso álbum e replicou em forma de positivas resenhas como as que tivemos em publicações do mundo do Jazz e Worldmusic, como o All About Jazz, Downbeat Magazine, World Music Central, World Music Report entre muitos outros. Conseguimos tudo isso sem gravadora e Manager. Só agora que passamos a trabalhar com um booking agent responsável pelos nossos shows no Norte da América. Mas até então tínhamos feito tudo sozinhos. Na minha opinião é importante para o artista independente gravar um álbum e fazer uma boa agenda de shows. Um álbum sem shows não repercuti tanto. Vale a pena ter boas fotos, bons vídeos, e se possível contratar uma assessoria de imprensa para ajudar a divulgar o novo trabalho junto aos shows.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Esse ano tivemos que desmarcar 4 shows no Brasil, tour na Europa, e alguns shows nos EUA e Canada que estão para ser remarcados por causa do novo corona vírus. O cenário musical está muito incerto em 2020. Estou aproveitando a quarentena para mergulhar nos estudos de trompete e teoria musical além de trabalhar num projeto musical para crianças. E o Benji está dando muitas aulas, e preparando um álbum/livro com partituras de suas composições para violão.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Acho que no nosso caso mais ajuda do que atrapalha. A internet é um veículo poderoso de divulgação de shows e também na aquisição de mais audiência.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Não gravamos muitas coisas em casa. Nosso álbum “Benji & Rita” por exemplo foi todo gravado em estúdio. Acho que eu e o Benji compartilhamos a ideia de que é importante ter um lugar com boa acústica, equipamentos e um bom engenheiro de som para gravar um disco. Se o disco for gravado em casa, o engenheiro de som precisar saber muito de acústica para saber explorar bem os lugares da casa para a gravação. O Vinicius Castro por exemplo, que é um músico, compositor e engenheiro de som carioca que mora atualmente em Lisboa é um cara que sabe fazer muito bem isso.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Nós fazemos muitos shows com a nossa música autoral. Para os shows projetamos vários vídeos de animação com as traduções das letras das músicas originalmente compostas em Português para a língua do país que estamos a fazer o show. Também investimos em vídeos bem feitos de estúdio, todos bilíngues, Inglês e Português para trazer a compreensão da nossa música para todos. Como fazemos sobre tudo canções em Português e atuamos em vários países. Essas interferências visuais e o material bilingue são essenciais para nós termos um engajamento maior por parte da audiência.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – O cenário musical brasileiro é complexo. Muitos artistas bons sem visibilidade nenhuma e muitos artistas com visibilidade que possui um apelo estético e popular interessante, mas que as vezes ressoa muito inconsistente musicalmente. Os artistas que regrediram eu não sei, mas posso citar aqui artistas bons que tem um trabalho bastante consistente. Por exemplo: Yamandu Costa, Renato Brás, Mônica Salmaso, Hamilton de Holanda, André Mehmari, Ná Ozzetti entre outros.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – São muitos, mas vou citar aqui a Joyce e Rosa Passos. Acho que elas conduzem a carreira delas de forma muito digna. Ambas são super talentosas, criativas, são respeitadas pelos músicos que as acompanham, defendem a música brasileira de forma incondicional e ambas desenvolveram uma carreira sólida internacionalmente. Gosto da seriedade com que elas conduzem a carreira delas mesmo num cenário bastante adverso.

Benji Kaplan – O Lenine tem um suingue e presença de palco incrível e Caetano Veloso é de arrepiar. Lógico tem muitos outros exemplos, e cada um arrasa de uma maneira diferente.

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Uma vez a mulher do dono de um clube de Jazz perguntou para nós no camarim se íamos tocar mais música autoral ou Bossa Nova naquela noite. Nós respondemos que íamos tocar mais música autoral como já havia sido descrito no nosso release e material que havíamos mandado previamente para a casa. De forma rude a mulher nos replicou dizendo que já que iriamos fazer um show autoral ela achava melhor pedir para o público que já estava no clube ir embora, pois ela imaginava que todos ali estavam para ouvir clássicos da Bossa Nova e não música autoral. Ficamos chocados!

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Ultimamente estamos mais felizes do que tristes, o que é positivo. Gostamos de estudar, produzir, criar e a ideia de ver projeto pronto. E é muito prazeroso apresentar um trabalho novo e daí ter o retorno positivo das pessoas. Nós gostamos muito de botar o pé na estrada. Benji é uma ótima companhia para aventuras e nos divertimos muito trabalhando juntos em shows e preparando as viagens.

23) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical??

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Existe o Dom, mas o dom é só um empurrãozinho inicial. O que faz você se desenvolver como artista é estudo com objetivo e constância.

Benji Kaplan – Eu acho que existe o dom musical, mas o dom desacompanhado do trabalho não rendi muito. Por exemplo você pode nascer com muito talento e promessa, mas um cara que tem a metade do seu talento pode chegar a expressar um nível de musicalidade e criatividade maior se ele pratica e estuda diariamente. Então acho que a gente tem que se esforçar muito independente de ter dom musical ou não.

24) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Duo Benji & Rita: Benji Kaplan – Meu conceito de improvisação é multifacetado e inclui uso de teoria musical, escalas, estudo de acordes/harmonias. É importante tentar desenvolver o meu ouvido cada vez mais. Por exemplo, tirar melodias ou arranjos de músicas de outros grandes compositores de ouvido ajuda muito, não importando o estilo musical. No meu processo de compor 90 por cento eu acho as ideias através da improvisação livre, faço o que fluir, daí vem uns temas e eu tento amarra-los juntos depois pra criar as composições. As vezes vou acumulando partes de ideias que depois eu acabo utilizado e juntando a outras ideias mais recentes para daí então desenhar a composição final.

25) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Duo Benji & Rita: Benji Kaplan – Acho que existe uma espontaneidade no improviso na hora em que você está solando o instrumento. Mas para você chegar até aí, você precisa se preparar com estudos diversos. A gente cria coisas do que aprendemos no dia a dia misturado com uma antena de ideias espirituais que descem e atuam através do músico e o instrumento. Mas como disse, atrás disso vem os estudos. Como estudo de escalas, audição de solos de grandes artistas que você admira e etc.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Duo Benji & Rita: Benji Kaplan – Tem muito livros de estudos e métodos por aí. É importante que você tenha curiosidade para pesquisar os métodos que possam trazer mais evolução e benefício para você na música. Não podemos desenvolver nossas potencialidades se escolhemos um método ruim para trabalhar, por isso é importante a sabedoria na escolha dos métodos que você irá estudar. É importante se sentir confortável e perceber a evolução e os resultados que aquele método está trazendo com seus estudos diários.

27) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Duo Benji & Rita: O álbum “Benji & Rita” tocou em algumas dezenas de rádios pelo mundo sem pagar para tocar (o jabá). No Brasil infelizmente a política de pagar o jabá ainda prevalece nas rádios com mais audiência. Mas fomos entrevistados na rádio USP, rádio Cultura FM e rádio Brasil Atual por exemplo. Essas acredito que não trabalham com sistema de jabá o que é bom, pois nem tudo está perdido!

28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – É importante ter determinação e diversão nos estudos e nas etapas do processo de uma carreira musical. Nós passamos por muitas frustrações durante a caminhada e ainda nos deparamos com situações frustrantes, mas a constância no trabalho de forma equilibrada e divertida nos ajuda a continuar o caminho da evolução. Não vale desistir.

29) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Aqui nos EUA os Festivais de Música são excelentes. O Festival é um lugar para os artistas conseguirem mais visibilidade, além do que somos mais ou menos bem pagos para os shows que fazemos. Muitas vezes aparecem outras boas oportunidades a partir de um show que você faz num Festival também. Por exemplo, o ano passado fizemos dois shows num Festival grande na Pennsylvania, e por causa desse show recebemos o primeiro convite para tocar numa Universidade aqui nos EUA, que foi a Penn State University. E esse show na Universidade nos abriu a porta para poder fazer outros shows no circuito das Universidades nos EUA.

30) RM: Na sua opinião, hoje os Festivais de Música ainda é relevante para revelar novos talentos?

Duo Benji & Rita: Sim, claro.

31) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Acho que a grande mídia no Brasil está mais aberta a cobrir o cenário da música independente do que aqui nos EUA. Mas por aqui contamos muito com as rádios universitárias o que é bom. No Brasil as TVs e rádios públicas tem um papel fundamental nisso. Mas infelizmente nos últimos anos, muitas dessas rádios e TVs estão sendo fechadas devido à falta de interesse dos governos de direita de manter canais que repercutem pautas educativas e culturais de qualidade. Espero que isso mude futuramente para melhor.

32) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Esses espaços são ótimos! Tenho muito orgulho principalmente do SESC. Um oásis brasileiro. São verdadeiros espaços de convivência onde todos vão ser acolhidos com ótimas atrações culturais, uma comidinha boa e barata, debates, cursos interessantes para pessoas de todas as idades e espaços de laser. O SESC me faz ter orgulho do Brasil. Aqui nos EUA não temos uma maravilha dessas por exemplo. O modelo dessas instituições são um sucesso e deveriam ser replicadas em vários países mundo.

33) RM: O circuito de Bar na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Aqui em New York eu e o Benji não tocamos em bar, mas temos amigos brasileiros músicos que são excelentes e que tocam toda a semana em bares por aqui. Alguns bares são legais, pagam razoavelmente e tem um público interessado na música. Outros não são muito legais não, são barulhentos e o público quer mais conversar do que ouvir músico, para o nosso estilo de música não funciona tocar num lugar assim.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

Duo Benji & Rita: Rita Figueiredo – Estou trabalhando num projeto de música para criança e também estou compondo novas canções com o Benji para um possível segundo álbum no futuro.

Benji Kaplan – Eu estou armando para gravar um disco de peças inéditas para violão solo e um livro de partituras das composições minhas para violão solo também. E no paralelo trabalhando em novas canções com a Rita.

37) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Duo Benji & Rita: https://pt.benjiandrita.com/ |

contact@benjiandrita.com | https://www.facebook.com/benjiandrita

| https://www.facebook.com/rita.figueiredo

| https://www.facebook.com/benji.kaplan.3

| https://www.instagram.com/benjiandrita/

Canal: https://www.youtube.com/channel/UC0HVd7vmyBWNpnYPGMy9t9w

Videoclipe: “Passatempo”: www.youtube.com/watch?v=fBBhrkBs31k

Videoclipe: São Francisco é brasileiro: https://youtu.be/trjd63bwgpQ


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa: Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.
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