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Categorias: Entrevistas

Diego Salvetti


Sentimento, energia, cores, sabores e paisagens como mistura cultural que une a Europa à o Brasil: é o show do violão 8 cordas de Diego Salvetti.

Esse violonista italiano oferece peças de própria autoria cruzando estradas de várias culturas que o representam. O seu é um violão que respira da melodia italiana e no mesmo tempo mistura o flamenco com as harmonias e os ritmos da música brasileira. Esta forma pessoal de interpretar a música que rende a esse artista completa originalidade.

Diego Salvetti, nascido em Bergamo (Itália) em 1982 é de uma família de músicos. Desenvolveu o seu ouvido musical já a partir da tenra idade escutando os muitos gêneros musicais tocados pelos dois irmãos músicos e pelo pai; da música clássica ao jazz e o flamenco. Inicia o primeiro contato com estudos da teoria musical sob a guia do pai e depois de um breve tempo, começa os estudos do violão clássico com o maestro e compositor italiano Giovanni Podera. Com apenas 11 anos, vence o 1° Prêmio Nacional do 13° Concurso de Violão em Genova “Pasquale Taraffo” na categoria juvenil. Sucessivamente inicia os estudos com o Maestro Giorgio Oltremari no Instituto Musical de Bergamo “G. Donizetti” e depois de 10 anos de estudo se forma brilhantemente em violão erudito com as máximas notas.

Em 2000, ganha a renomada bolsa de estudo do 14° Concurso da Associação Bergamasca “Amici di Lino Barbisotti”. Em 2009, conclui a pós-graduação em Didática da Música. Na Itália participou em numerosos Concursos Nacionais de violão erudito obtendo ótimos consensos e resultados como um dos poucos finalistas. Depois da formação começou os estudos do violão flamenco desenvolvendo a composição e a técnica no violão de 8 cordas.

Pesquisador sobre música e violão brasileiro mora no Brasil desde janeiro de 2015 e o trabalho dele vem destacando-se cada vez mais recebendo elogios e apreçamentos de muitos músicos e violonistas. Hoje é professor de violão no Conservatório Musical de Tatuí – SP e desenvolve trabalhos como violonista, compositor e professor, tocando e ministrando workshops em todo o Brasil.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Diego Salvetti para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 21.01.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal? 

Diego Salvetti: Nasci no dia 03 de dezembro de 1982 em Bergamo, Itália.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Diego Salvetti: O meu contato com a música nasce desde dentro do ventre da minha mãe Gabriella, nasci em uma família de músicos, meu pai Emilio acordeonista, meus dois irmãos mais velhos (Paolo e Marino), pianista e acordeonista. Escutei muita música popular tradicional italiana desde pequeno e muita música clássica tocada pelo meu irmão pianista que estudava piano erudito na Faculdade. Tenho uma lembrança muito forte da música como grande sacrifício para chegar em altos níveis, observando meus irmãos estudar muitas horas por dia, e junto uma visão da música como divertimento, como alegria e festa, juntando-me com a banda do meu pai que tocava em bailes no final de semana, principalmente nas festas populares nos verões italianos dos anos 80 e 90 percorrendo a inteira região da terra bergamasca.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Diego Salvetti: Tenho formação liceal sócio-psico-pedagógica, e um curso de 5 anos de Teologia não terminado (só completei até o terceiro) fora da área musical. Na área musical tenho o diploma em Violão Erudito pela Faculdade de música de Bergamo “Gaetano Donizetti” (duração de 10 anos acadêmicos) e o mestrado habilitante ao ensino em Didática da Música pela Faculdade de Música de Brescia “Luca Marenzio”.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Diego Salvetti: De modo preponderante e muito forte a música clássica é minha influência. Com dez anos de formação em Violão Erudito não pode ser diferente. A época de estudo na Faculdade me marcou muito. Ouvir e estudar os grandes clássicos, não somente do Violão, me ajudou na minha formação acadêmica, mas também foi necessário para o “imprinting” do meu estilo de vida, pelo horizonte e visão do mundo. Na época dos estudos sempre pude ouvir também outras músicas: pop italiano, muito jazz, Ennio Morricone e as suas trilhas sonoras, muito flamenco e violão latino-americano com os discos que meu professor de Violão trazia para as aulas para ouvirmos: Sabicas, Paco de Lucia, Duo Assad, Astor Piazzolla, Leo Brouwer, Garoto e tantos outros. Tudo tem a sua importância e hoje faz parte do meu modo de compor e ouvir a música, mas a música que se radicou em mim e não quer me deixar mesmo é a grande música clássica. E pode até soar muito estranho, pois não desenvolvi minha carreira especificamente como violonista clássico, mas é sempre a minha raiz a visão de violonista clássico em tudo que faço e minha lente para enxergar melhor as coisas.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Diego Salvetti: Comecei minha carreira musical muito tarde, tocando na Itália, em festivais de música. Estudei dos meus 7 anos de idade até os meus 26/27 anos. Na verdade, estudo até hoje, porque o processo de aprendizagem na música nunca acaba. Nunca me sentia pronto. Comecei tocando repertório de Violão Erudito e depois, timidamente começando a colocar minhas composições no repertorio. O momento mais importante com certeza foi quando comecei a compor com mais intensidade fazendo do meu jeito, misturando os estudos do Violão Erudito com a guitarra flamenca e o violão brasileiro. Isso foi mais ou menos em 2012. Foi a partir desse momento que meu trabalho começou a ser mais procurado e eu ganhando sempre mais confiança.

06) RM: Quantos CDs lançados? Cite alguns CDs que já participou tocando o Violão de 6 e 8 cordas?

Diego Salvetti: Em 2020 lancei meu primeiro álbum – “Ocho cuerdas latinas”. Em 2019 o DVD com um trio gravado ao vivo em que toco músicas de minha autoria acompanhado por dois queridos amigos músicos, na bateria Rhuan Rodrigues e no piano elétrico Laudinei Napedri. Tenho dois livros de Técnica para Violão lançados em 2018 e 2021 com o prefácio respetivamente do Marco Pereira e Sergio Assad e que acompanha um DVD por cada livro.  Por questões pessoais não tenho uma grande quantidade de material discográfico lançado. Nunca me senti pronto. E nunca senti que era o momento certo, por várias questões de identidade musical minha, na época pouco definida, mas agora me sinto mais pronto e tenho bastante músicas que ainda quero gravar, uns cinco álbuns.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Diego Salvetti: É Difícil se enxergar de dentro. Mas com certeza meu estilo é um violão latino que respira muito dos ritmos flamencos e brasileiros, e sempre tem a necessidade de ter uma melodia e tema bem definidos presentes nas composições…com uma certa veia italiana/mediterrânea. Muitas pessoas que curtem meu trabalho insistem em dizer que já criei um jeito original e único de compor e tocar. Talvez eu devo isso justamente a essa mistura de estilos durante a formação que hoje se espelha no meu modo de compor e tocar.

08) RM: Como é o seu processo de compor? 

Diego Salvetti: Todos os processos da composição dão certo se o ouvido do compositor é bom. É claro que o estudo e análise são muito importantes e ferramentas que ajudam na hora que falta a inspiração. Mas eu acredito que compomos o que escutamos… somente mudamos as cartas na mesa. Eu gosto muito de encontrar melodias, não muito complexas, que o pessoal possa lembrar facilmente. Porém sempre elaboro o arranjo, a técnica de execução e harmonização. Gosto de compor músicas mais tonais…músicas quando o público sai de um concerto possa lembrar com facilidade e sair cantando. Uma coisa que me ajuda muito é também uma certa forma de experimentar caminhos das mãos no instrumento. As vezes um tipo de técnica sugere um tipo de música, determina a cara da nova melodia o do novo efeito chave da música. É uma coisa muito ligada ao tato, muito pratica e dependente do instrumento (nesse caso o violão).

09) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Diego Salvetti: Componho sozinho e com elementos de inspiração: Paisagem, estado espiritual, lembranças, viagens. Só que a inspiração as vezes acaba rápido. Então precisa de muita proximidade com o instrumento e muita paciência para esperar o resultado final. As vezes uma música pode demorar muitos meses antes de “sair do forno”.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Diego Salvetti: Desenvolver uma carreira musical independente ajuda a ter uma certa liberdade de planejar o próprio trabalho em base aos próprios compromissos e também necessidades financeiras. Por outro lado, precisamos cuidar de tudo com mais proximidade. Estudar, compor, cuidar das redes sociais, editar conteúdo, fazer planejamento. Hoje quem chega a um nível muito elevado de qualidade acredito não consiga fazer tudo isso. Existem então parceiros que podemos contratar e criar parcerias para suprir todas as tarefas que envolvem por exemplo toda a parte de marketing digital.

11) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Diego Salvetti: Com certeza as primeiras necessidades se referem a base para viver de música. Tem um trabalho a ser feito para nos manter. Hoje o mercado musical mudou muito, portanto no meu caso preciso de uma estabilidade necessária para alimentar tudo o resto. Projetos discográficos, construção de conteúdo online como cursos online ou pacotes de aulas entre outros, se mantem se existe já uma certa estabilidade. O terceiro passo se refere a divulgação de shows através do tanto falado “network”, hoje cada vez mais importante. Produção de conteúdo audiovisual constante permanece com certeza o carro chefe que move todos meus trabalhos. Por dois motivos: a necessidade de compartilhar saberes e emoções e a necessidade de poder estar ao alcance do trabalho. Outro pilar não menos importante é a vertente didática. Sempre estou planejando material para estudantes e profissionais que queiram se aprofundar: isso exige muito tempo e longos prazos de entrega de material pronto e organizado. Por último a criação de repertórios: ter um ou mais projetos musicais sempre prontos e embaixo dos dedos é acredito o elemento mais importante da carreira de um músico instrumentista. As horas de estudo diários são de extrema importância e nunca deveriam ser substituídas por nenhum outro tipo de atividade, mesmo fosse por razões ligadas à música. Mas sabemos como hoje, na era da tecnologia, isso se tornou sempre mais difícil.

12) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical? 

Diego Salvetti: A visibilidade na internet com certeza é uma grande vantagem. Tempos atrás o artista só era visto se estiveste na TV, hoje todo mundo pode ser visto. E quem não é visto não é lembrado. Utilizando com inteligência as próprias redes sociais e meios de comunicação podemos ter hoje um alcance cada vez maior e ter um espaço interativo para conexões profissionais e artísticas. Todos os shows que consegui até agora no Brasil foram por meio dessa visibilidade que as redes sociais proporcionaram. Isso vale também pelo trabalho como professor e músico dedicado a didática violonística.

13) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Diego Salvetti: Com certeza a possibilidade e a independência de gravar quando queremos aumentando exponencialmente a quantidade de produções de audiovisuais. Hoje com um razoável sistema de captação e um ambiente adaptado podemos conseguir resultados muito satisfatórios. Uma das desvantagens é a pouca prepararão técnica na área da engenharia de som que a maioria dos músicos tem. Sabemos quanto é importante conhecer a fundo as mais modernas técnicas e recursos de gravação que dificilmente serão substituídos por um simples home estúdio.

14) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Diego Salvetti: Verdade. Hoje tem cada vez mais músicos bons e música boa. Não me preocupo excessivamente e tento fazer o que meu coração manda. Acredito que o que tem que ser feito é na época dos estudos musicais (que nunca acaba!): curiosidade é a palavra-chave. Quando somos curiosos e apaixonados por algo conseguimos a criatividade e originalidade de maneira mais natural. Nada disso deve ser por querer! Tem que ser um processo. O diferencial vem dessa mistura de informações e formações.

15) RM: Como você analisa o cenário da música instrumental brasileira. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Diego Salvetti: O Brasil, embora ser um país jovem comparando a velha Europa, mas tem uma riqueza musical que acredito nenhum outro país possa reivindicar. A diversidade de ritmos e estilos de um Estado e região para outro é numerosíssima. Com certeza músicos como Hamilton de Holanda, Yamandu Costa, Nelson Faria conseguiram e mereceram uma projeção muito grande no país e afora.

16) RM: Apresente seu estudo com o Violão de 8 Cordas que mescla a técnica da música Erudita com a Flamenca.

Diego Salvetti: O Violão 8 cordas (minha afinação: E, B, G, D, A, E, B, F#) me proporcionou algo que eu nunca imaginei de poder chegar a fazer: compor para Violão. Desde os tempos da Faculdade sempre quis ser intérprete, me sentia muito inseguro se tinha que compor melodia. A possibilidade de exploração dessas duas cordas mais graves me abriu a visão! A necessidade de adaptar músicas para 8 cordas foi o ponto de partida de um processo criativo que proporcionou as minhas composições, como um rio que desagua no mar. Assim o estudo da guitarra flamenca e do violão brasileiro foram partes integrantes desse processo criativo. Sentia que não podia ficar amarrado a um estilo musical. A paixão muito forte pelo Violão considerado como um todo era muito grande. O estudo insistente de nova técnicas e ritmos seja no flamenco ou na música brasileira se tornaram fonte de inspiração para criar algo que pudesse intersectar os caminhos, algo que pudesse unir o que eu estava sentindo por dentro. Vale ressaltar que a bagagem dos estudos do Violão Clássico sempre foi o ponto de partida de tudo, mas entendia que muitos dos problemas técnicos do Violão Clássico estavam nas técnicas flamencas e vice-versa as questões interpretativas, fraseado, limpeza de som para um guitarrista flamenco estão no estudo rigoroso do violão clássico. O violão brasileiro chegava para colorir tudo, através do estudo das levadas e harmonia.

17) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)?

Diego Salvetti: A única vez eu recém chegado no Brasil, um amigo organizou um show pra mim na cidade dele. Eu me preparei bastante. Cheguei lá e tinha uma bagunça geral: Muita gente que vinha tocando em um evento ao ar livre desde a parte da tarde daquele dia, não tinha separarão física entre palco e público. O sistema de amplificação era péssimo e a pessoa que cuidava da sonorização quase me bateu de tanto discutir com ele sobre a equalização do som. Toquei 15 minutos e desisti…não tinha como…eu fiquei meio que assustado, pois era um dos primeiros shows que fazia no Brasil. Ainda bem que foi um episódio isolado. Todos os eventos dos quais participei foram de excelente organização e competência, seja dos organizadores que dos técnicos envolvidos.

18) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Diego Salvetti: Mais feliz: poder comunicar minhas as emoções para o público sem falar nada, aproximando o ser humano a uma realidade divina. Mais triste: ver como muitas vezes os meios de comunicação utilizam a música como consumo (tipo como mastigar um chiclete e depois jogar fora) e como muitos alcançam fácil o sucesso sem mérito.

19) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Diego Salvetti: Acredito que não preciso pagar jabá. Todos os processos devem acontecer de forma natural. Esses dias uma rádio de São Paulo me entrevistou e tocaram bastante músicas na emissora deles. Eu fiquei já bastante feliz (risos).

20) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Diego Salvetti: Digo para respeitar bastante a música. É muito importante estudar para ter uma mínima consciência do que estamos fazendo e o que queremos fazer, pois o estudo direciona. E que todos nós temos uma missão com a música: é importante tocar o que o nosso coração manda e ser o mais sinceros possível.

21) RM: Quais os violonistas que você admira?

Diego Salvetti: Sempre estou ouvindo músicas diferentes…cada mês o período é alguém. Mas com certeza posso falar três nomes referência por cada estilo. Para violão clássico: David Russel. Guitarra flamenca: Paco de Lucia. Violão Brasileiro: Rafael Rabello.

22) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Diego Salvetti: Especialmente Johann Sebastian Bach: acredito o maior compositor de todos os tempos. Mas adoro também em especial Antonio Vivaldi, Piotr Ilitch Tchaikovski, Johannes Brahms, Sergei Rachmaninoff, Richard Strauss.

23) RM: Quais os compositores populares que você admira?

Diego Salvetti: Especialmente: Sivuca, Hermeto Pascoal, Cartola, Ary Barroso, Antonio Carlos Jobim, Djavan.

24) RM: Quais os compositores Flamenco?

Diego Salvetti: Especialmente: Ramón Montoya, Sabicas, Paco de Lucia, Vicente Amigo, Antonio Rey.

25) RM: Qual a origem da música flamenco e quem foi o primeiro a desenvolver a técnica e método de Violão Flamenco? 

Diego Salvetti: Historicamente falando as primeiras notícias do Flamenco tem como origem na Andaluzia (região localizada na parte meridional da Espanha) entre 1830 e 1850. Suas características estéticas e musicais particulares fazem com que o flamenco se diferencie da tradição folclórica da Andaluzia presente naquela região.  O flamenco é uma arte popular que nasce nas classes sociais populares. É uma arte que nasceu e se desenvolveu nas cidades e não tem origem rural como o folclore.  O lugar de origem dos ciganos é considerado uma região situada no atual Pakistan, chamada Sindh, de onde foram exiliados depois de uma série de conflitos e invasões. A partir desse momento começou uma longa história de nomadismo, passando pelo Egito, Checa, Eslováquia, de fato, somente a partir do século XV começamos a dispor de documentos sobre a chegada das tribos ciganas na Espanha. A Andaluzia, região com uma tradição cultural e científica multiétnica, entre todos foi o lugar onde a tradição cigana encontrou as condições melhores para a sua integração. Foi nessa fase histórica que a cultura musical se mescla com aquela árabe e hebraica e se torna expressão de uma rebelião escondida. Os cantores de flamenco eram convidados nas cortes dos aristocráticos como “menestréis” e denunciavam as opressões nos textos das músicas em língua Calo (dialeto dos ciganos) na frente dos mesmos perseguidores que obviamente não entendiam o significado. Neste período o canto e o baile são os únicos elementos do flamenco, acompanhados do toque das palmas. A guitarra como instrumento de acompanhamento somente chega em um segundo momento. A técnica e o método da guitarra flamenca sempre foram transmitidos de forma oral pois a maioria dos guitarristas flamencos não conheciam teoria musical. Digamos que foi somente com Ramón Montoya que a guitarra flamenca foi reconhecida ao grau de instrumento de concerto. O Montoya é uma das mais importantes figuras da história da guitarra flamenca que inspirou muitos guitarristas.

26) RM: Quais as diferenças técnicas entre o Violão Erudito e o Popular?

Diego Salvetti: Eu acredito que a técnica popular ressalta mais o lado percussivo do instrumento, reforçando mais um caráter rítmico, mesmo quando toca as melodias ou mesmo quando tocar “ad libitum”. A música erudita oferece uma bibliografia didática muito mais ampla e radicada na história, por isso acredito ser mais aprimorada, atenta ao timbre do som, um cuidado especial para interpretação e os aspectos detalhados da técnica. Nesse sentido o violonista popular é muito mais livre.

27) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Violonista Erudito, Popular e Flamenco?

Diego Salvetti: Entre esses estilos tem técnicas diferentes, mas vamos lá, vou mencionar só as principais: arpejo, técnica com apoio e toque livre, os vários tipos de tremolo, alzapua, uso do polegar, ligados, levadas. De qualquer forma eu sempre sugiro de ter uma solida base clássica: o violão clássico proporciona uma riqueza de informações que são quase imprescindíveis na fase do aprendizado.

28) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno de Violão?

Diego Salvetti: Tem muitos vícios, mas os principais são a pressa de estudar rápido: é muito importante tocar lento. No início o que conta é a mecânica dos movimentos sem nunca separar da musicalidade. Mas se o movimento está com uma mecânica correta a nota será produzida com uma melhor qualidade de timbre e tudo fluirá com maior segurança. Um outro vício é a falta de método de estudo: não estabelecer um horário para o próprio estudo. O corpo e o celebro precisam de uma rotina constante e programada. Outro vício está no conceito de repetição: repetir o conteúdo do jeito errado sem isolar as passagens mais difíceis, sem criar padrões de repetição conscientes.

29) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Diego Salvetti: De forma geral o erro principal é querer ser professor. Muitos não consideram que ser professor é uma responsabilidade gigantesca. Dar aula para alguém é primeiramente uma missão. A gente precisa inspirar o aluno antes do que ensinar algo, mas também precisamos dominar bem os conteúdos para a ação pratica. Por outro lado, ter a mesma consciência que na música ninguém é professor, mas todos somos alunos.  Mais especificamente: hoje existe uma separação entre escolas violonísticas que atrapalha ao invés de ajudar o instrumentista. Gosto é gosto! Sabemos disso. Mas estudo é estudo! É muito importante ter conhecimento geral de todas as escolas violonísticas, como acontece para o ensino escolar! Saber um pouco de tudo alarga o horizonte e proporciona experiências e soluções novas. Obviamente na fase sucessiva (profissional e artística) podemos focar (talvez devemos!).

30) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Diego Salvetti: Dom é algo que você recebe. Acredito que existe sim! Algumas pessoas nascem com muito mais predisposições do que outras. Mas eu acredito também que temos que entender primeiramente o que é dom. Eu penso que não seja nada mágico. Não é algo de muito transcendental (apesar de eu ser muito religioso e acreditar em Deus). Eu acredito que o dom se incarna na história de cada um. As experiências musicais que temos desde criança, o contexto no qual nascemos, a música que ouvimos desde pequenos, os estímulos familiares e sociais…e até a qualidade do primeiro instrumento que tocamos por ser uma experiência extremamente sensorial. Tudo isso é dom! Mas o dom não é nada sem ter paixão! Temos que amar tanto o que fazemos que o sacrifício de estudar não sentimos como tal. É um tempo bom e propício. É o momento do jogo e de se divertir. Não é frustrante jogar a videogame e perder? Então a frustração de não conseguir algo quando tocamos deve ser a mesma. Tudo isso também é dom.

31) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical? Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Diego Salvetti: Eu tenho um conceito da improvisação um pouco mais sincero do que se pensa por aí. Na real não existe o conceito de improvisação em si. Nos simplesmente tocamos o que já somos, o que já temos dentro, o que temos ouvido. Simplesmente aplicamos depois! Quanto mais cartas na manga temos, vocabulário de frases e experiências musicais nesse sentido, melhor improvisaremos. São principalmente dois planos então: o plano primordial do estudo de escalas, arpejos, frases, tirar solos, estudo das peças e o plano sucessivo da aplicação de todo esse vocabulário.

32) RM: Quais os métodos que você indica para o estudo de leitura à primeira vista? 

Diego Salvetti: Depende muito de qual instrumento estamos falando. Basicamente aconselho no começo de pegar os métodos clássicos de solfejo como Paschoal Bona e Ettore Pozzoli e sair tocando com o próprio instrumento. Isso deveria ser o primeiro passo. Depois focar na leitura de partitura para o próprio instrumento. Para Violão aconselho: os microestudios do Abel Carlevaro, os estudos completos de Técnica do Francisco TarregaDogson & Quine – 60 sight reading exercises for guitar, algumas peças de música antiga de nível intermediário. Para guitarra tem um método de exercícios do Nelson Faria muito interessante e bem didático!

33) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista? 

Diego Salvetti: É um exercício cotidiano não precisa mais do que 10 minutos por dia. O ideal é fazer exercícios de imaginação auditiva: imaginar onde o som escrito em partitura deve ser tocado no instrumento e imaginar o som dele. Ter adquirido uma boa leitura de solfejo é muito importante também. Ler as notas e bater o ritmo a voz alta separadamente do instrumento ajuda a conscientizar mais a passagem entre o símbolo escrito e elaboração musical interior.

34) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Carlos Walter? 

Diego Salvetti: Carlos Walter é um querido amigo, genial e supertalentoso violonista, pessoa de grande saber cultural. Conheci ele pessoalmente em Belo Horizonte – MG durante o festival de Violão Sons da Cidade, mas antes a gente veio construindo uma linda amizade virtual através de mensagens, ligações etc. E conversando sempre sobre música, prospectivas artísticas e profissionais. Com ele gravamos um duo em plena época da pandemia do covid-19 pelo projeto Aquidistantes do violonista Ulisses Rocha e tive a honra de ter o texto de apresentação do meu álbum – “Ocho cuerdas latinas” elaborado pelo próprio Carlos. É uma honra e alegria poder contar com a amizade do Carlos e com ele sempre compartilho em primeira mão todos meus projetos, minhas dúvidas, meus anseios. Isso pra mim é muito importante, pois ainda estou conhecendo a realidade musical brasileira e os caminhos artístico a serem perseguidos.

35) RM: Qual a origem e função do Violão de 8 Cordas? 

Diego Salvetti: Os historiadores apontam a origem do Violão de 8 cordas como sendo na Rússia do século XIX. É provável que seja derivado do violão de sete cordas, também de origem russa. Observa-se entre os músicos um interesse crescente pelo 8 cordas nos últimos anos. Fenômeno que tem sido alimentado pelo aumento na oferta esse tipo de instrumento por grandes fabricantes industriais e artesanais por todo o mundo.  O costume de tocar com instrumentos multi – cordas vem já da época antiga e esses instrumentos em base a época histórica tem uma função diferente e em continua transformação como instrumentos de acompanhamento ou solista. Em âmbito erudito Paul Galbraith, inglês residente em São Paulo, figura como o mais expressivo violonista da atualidade a utilizar este instrumento. A peculiaridade de sua abordagem ao instrumento toma forma pela primeira vez em 1989 no Festival de Edimburgo: Galbraith adota no violão, desenhado em colaboração com o luthier inglês David Rubio, uma ponta de metal semelhante à usada no violoncelo, e fornece pelo acréscimo de duas cordas adicionais, uma no agudo afinada em Lá (A) e outra no baixo em Fa# (F#), mas essas afinações podem mudar em relação ao repertorio e tonalidade da música, ampliando enormemente as possibilidades do instrumento e posicionando-se como pioneiro na exploração de novos sons, distinguindo-se também por um estilo totalmente original . Em específico o Violão de 8 cordas proporciona uma maior possibilidade de afinações diferentes. No meu caso duas cordas adicionais no grave: a sétima corda em Si (B) e oitava corda Sol (G) que afino diferentemente em base ao tom da música, no geral minha afinação: E, B, G, D, A, E, B, G. Além disso mais possibilidades de digitação para comodidade técnica de execução: possibilidade de tocar os graves com a mão esquerda com mais facilidade. Dessa forma considero o Violão de 6 cordas como um violão alargado, uma extensão do Violão de 6 que proporciona a mesma tocabilidade só que com todos esses recursos a mais.

36) RM: Quais foram as suas motivações pessoais e profissionais para desenvolver uma carreira musical no Brasil? 

Diego Salvetti: É uma história muito longa, até criei uma série de seis episódios no meu canal Youtube para contar como tudo isso aconteceu porque muita gente me pergunta sempre sobre isso. A razão principal é que eu sempre fui um grande apaixonado pelo Brasil, América Latina, cultura e música do sul do mundo. Em específico o Brasil me encanta por ser uma país tropical, muito rico em tudo que tem: clima, natureza, comida, cultura, estilos musicais, empreendedorismo e muito mais. Meu estilo musical engloba muitas linguagens e percebi desde a época que viajava ao Brasil para passeio que o brasileiro é curioso e aberto as novidades. Meu estilo de compor música acredito tenha mais espaço aqui do que na minha terra onde temos uma predileção mais pela música clássica. No caso do violão por exemplo lá não existe o violão popular (chitarra popolare). Não temos uma riqueza de ritmos e estilos como no Brasil onde historicamente confluíram muitas etnias e culturas. Minha formação é erudita, mas nunca me senti catalogado somente um estilo específico. Eu gosto de fazer música e ponto! Por isso escolhi o Brasil! Obviamente não excluo um dia de poder voltar na minha terra Bergamo, Itália, mas se as coisas continuarem indo bem aqui penso em ficar.

37) RM: Quais os seus projetos futuros? 

Diego Salvetti: Quero gravar mais álbum solo e escrever um método de estudos simples para violão. Também continuar produzir cursos e material novo para o mundo online.

38) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs? 

Diego Salvetti: dgsalvetti@gmail.comhttps://diegosalvetti.com 

| https://www.facebook.com/diego.salvetti.8cordas 

| https://www.instagram.com/diegosalvetti_oficial  

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/user/diegoviolao1 

From cd ‘Ocho cuerdas latinas’ Fantasia per Lisa – Diego Salvetti (feat. Gino Zambelli): https://www.youtube.com/watch?v=GmjHOSiISBY 

Playlist Diego Salvetti trio ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=F_KaCPRMWDw&list=PL0qSNMKHmANTxdq8lczi4rHP9wVcOIwos 

Playlist de Apresentações com grupo: https://www.youtube.com/watch?v=_yLpCAfOmsI&list=PL0qSNMKHmANRdfEzHqR8SlddnuiqKCfiI 

Playlist BOOK+DVD: https://www.youtube.com/watch?v=Dy_h8-xsUTw&list=PL0qSNMKHmANSoLkJbcvgiHzT4QNCtHXaM&index=1 

Playlist contando a história do Diego Salvetti: https://www.youtube.com/watch?v=TyharYaPwV8&list=PL0qSNMKHmANRphWyCTmPZcKbHFY9EwlCU 

Playlist Violão do Zero: https://www.youtube.com/watch?v=gjNRJG4w7Eo&list=PL0qSNMKHmANS4zAIy6MPs5swbrVSsMCMP&index=1


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
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