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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Daniel Gonzaga

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Daniel Gonzaga

O cantor, compositor e produtor musical carioca Daniel Gonzaga, em 1996 gravou seu primeiro CD, “Sob o sol”, lançado pela gravadora Velas.

Em 1997 participou do disco “Tal pai, tal filho”, produzido por Paulinho Tapajós para a gravadora CID, interpretando “Galope” (Gonzaguinha). Na área publicitária destacou-se pela gravação do jingle “Liza: o xodó do Brasil”, para a óleo Liza. Em 1998 apresentou-se no “Som Brasil Especial: Gonzaguinha”, ao lado de Zé Ramalho, Fernanda Abreu, Chitãozinho e Xororó, Roupa Nova, Ivan Lins. Em 1998 apresentou-se no projeto “Novos Cariocas”, ao lado de Carol Saboya, filha do compositor Antonio Adolfo e de Bernardo Lobo, filho do compositor Edu Lobo. Ainda nesse ano, lançou seu segundo CD, “Os passos na paralela”, também pela gravadora Velas.

Puxou o samba “O que é o que é”, de Gonzaguinha, no desfile de uma escola de samba formada por jovens da Rocinha, criada e dirigida por Joãozinho Trinta, realizado nas Praias do Leme e de Copacabana. Realizou uma participação especial no disco “Nádegas a declarar”, de Gabriel O Pensador.

Em 2001, lançou, o CD – “Um banquinho, um violão…” com composições de seu avô, Luiz Gonzaga, e uma música de seu pai, Gonzaguinha. Teve músicas gravadas por Carol Saboya, João Pinheiro, Clara Moreno, O Terço, Daniela Mercury, entre outros.

Lançou, em 2004, o CD – “Areia” pela Dabliú, com show no Teatro do SESC Pompéia (SP). Em 2015 subiu ao palco do CCBB, RJ, para se apresentar no show “Moleque – Gonzaguinha 70 anos”, em homenagem ao seu pai. Dividiu os vocais com Elza Soares.

A responsabilidade em ser filho do saudoso cantor, compositor Gonzaguinha e neto do Gonzagão, é grande. Percebe-se a boa influência da família no trabalho de Daniel. Com personalidade própria, é possível comparar suas letras ácidas e bem construídas com as do pai. Na parte musical, Daniel herda o ritmo inconfundível do Rei do Baião e cria fusões enriquecedoras para a MPB. Daniel é um músico maduro que traça seu próprio caminho, onde a poesia é o grande destaque. Por vezes, seu baião dispara palavras com a velocidade de um RAP, em outras, a reflexão sobre a sociedade em que vivemos é embalada por um xote cheio de swing. Novidades que devem ser ouvidas.

“Meu pai, companheiro de televisão. Meu feitor. Escravo de corta grama. Amigo de longa distância. Poeta que me fez poeta. Sou fã do discurso dele. Que fala da liberdade. Que fala do dia a dia. Que fala do povo. Que fala da vida. Que fala dos Gonzaga. Que fala da minha vida futura. Sou fã do Gonzaga que fala do amor, que fala da rosa, que fala da gravidez… que fala da sua mudança. Um desejo de mudança. Músico atento, desbravador, autêntico. Violonista “chato”. Dono do Violão Ovation da capa rosa, Luizinho do São Carlos, treina pra ser avião. O dono da verdade, o líder do jogo. O que incentiva à luta, Nossa luta”.

“Eu olhava do chão a grandeza do homem no palco enorme. Eu, pequeno como era, sabia que atrás daquele negócio engraçado, que chamavam de sanfona, tinha um avô que era meu. Já tinha ido vê-lo algumas vezes, com meu pai, na Ilha do Governador. E ele me olhava de lado. Curioso com o neto e com o pai, com quem se dava assim-assim. Perguntava se eu ia tocar quando crescesse e me incentivava a pegar na sanfona (até hoje não toco). Quando conheci Exu – PE e andei a cavalo, ele sorriu. Saiu correndo pra dentro de casa, procurando o chapéu até achar e botou na minha cabeça, triunfante: – Meu neto é um boiadeiro! – e ria alto, contente. Acho que desde esse dia eu sou um boiadeiro. Contente por seguir no rumo desejado. Feliz com a sanfona de Luiz”.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Daniel Gonzaga para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.07.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Daniel Gonzaga: Nasci no dia 27.02.1975 no Rio de Janeiro. Registrado como Daniel Porto Carreiro Gonzaga do Nascimento e filho de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior e neto de Luiz Gonzaga Nascimento. Minhas irmãs também são artistas: Fernanda Gonzaga, Mariana Gonzaga, Amora Pêra. Em 2018 em Campina Grande – PB no evento Troféu Gonzagão, eu subi ao palco para homenagear duas gerações que representam um grande marco da música: Gonzagão e Gonzaguinha, uma homenagem in memoriam pela contribuição com a cultura regional.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música?

Daniel Gonzaga: Meu primeiro contato com a música foi no dia que eu nasci, na maternidade o meu avô Luiz Gonzaga tocou sanfona no quarto e nesse momento ele me presenteou com três maravilhas que carrego para toda a vida: a sua música, a sua sorte e a sua história.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Daniel Gonzaga: Sou autodidata na música, mas estudei por alguns métodos, como do Antonio Adolfo e do Almir Chediak. Tento estudar Piano, Acordeon, Flauta e sonorização. Iniciei o curso de Comunicação Social/jornalismo na FACHA – Faculdades Integradas Hélio Alonso e parei no quinto período, mas pretendo retornar e concluir.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Daniel Gonzaga: Eu comecei a lidar com a música quando comecei a escutar o rock nacional nos anos 80: Blitz, RPM, Legião Urbana, entre outras bandas. Depois comecei a escutar muito Jazz e aos 18 anos de idade comecei a escutar Música Popular Brasileira. Aos 20 anos comecei a escutar e estudar os ritmos regionais brasileiros: Carimbó, Maracatu, Frevo, Vaneirão, Baião, Xote, Caboclinhos, etc. Todas as influências ainda têm importância. No presente não escuto absolutamente nada. Estou escutando o que sempre escutei no passado e muito rock pesado, os primeiros discos do Zé Ramalho, pretendo entrevista-lo. Estou escutando os artistas que estou produzindo no momento: Anastácia, Marcus Lucenna, entre outros.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Daniel Gonzaga: Em 1984, aos 9 anos de idade cantei junto com um coro de crianças na música “Semente do amanhã” (Gonzaguinha) para o álbum do Erasmo Carlos, produzido por João Augusto pela Universal Music. Meu pai Gonzaguinha me perguntou se eu queria participar e eu aceitei e por receber meu primeiro cachê, eu considero como sendo meu início na carreira musical. Depois continuei participando de coro de criança e gravei outras músicas em disco do Erasmo, do Tim Tones (1984) personagem de Chico Anysio Show e em músicas nos discos do meu pai, entre outros artistas.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Daniel Gonzaga: Em 1996 “Sob o Sol” pela Velas, o meu primeiro disco com muitas influências e muitas vontades. O desejo de passar uma mensagem através da poesia e a alegria de ver ficar pronto. Em 1998 “Os Passos na Paralela” pela Velas, um disco de canções com arranjos simples, acústicos e minha primeira experiência em produção musical. O encontro da sonoridade da madeira. O encontro do caminho que sigo até hoje. Em 2002 “Um Banquinho, Um violão” pela Seven Music, uma homenagem ao meu avô Luiz Gonzaga. Um disco de Baião sem sanfona, totalmente feito com instrumento de cordas. A rearmonização, dos clássicos e a transposição do universo da sanfona para um violão influenciado pelo Blues. Em 2004 “Areia” pela Dabliú, um disco denso gravado “quase” ao vivo que mistura do Xote com o Blues e ritmos nordestinos, poesia urbana, identidade sedimentada. Em 2008 “Vida de Artista”. Em 2007 “Comportamento Geral”, eu interpretando músicas do meu pai Gonzaguinha. Em 2011 “Pedaços Q Contam 1 História – Pedaços Q fogem do Assunto”. Em 2021 lanço meu primeiro DVD.

Músicas que se destacaram: “Bianca”, “Calma, paciência e fé”, “Entre a cruz e o inferno”, “Eu não acredito em nada”, “Mês da chuva”, “O dia em que a baleia teve que fugir do mar”, “Os olhos por debaixo da batina do papa”, “Pensando junto”, “Perdido no meio das ondas”, “Poeira”, “Restos de festa”, “Reza das fortes”, “Samba pro João”, “Seca de letras”, “Sob o sol”, “Tarde vazia”, “Ventos”, “Janela” (com Kiko Furtado), “Mundo” (com Bernardo Lobo), “O engolidor de espadas” (com Élio Camalle), “Quatro quantos” (com Kiko Furtado), “Toada dissonante” (com Bernardo Lobo).

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Daniel Gonzaga: Eu faço Música Popular Brasileira que a rigor é o que reúne toda as linguagens da música brasileira somado em uma produção musical.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Daniel Gonzaga: Não, infelizmente, mas estudarei.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Daniel Gonzaga: O estudo das técnicas vocais tem toda a importância por possibilitar o cantor usar bem a voz em shows e gravações para não cansar nem machucar as pregas vocais. Quem fuma prejudica a voz, alguns alimentos também prejudicam. É importante comer frutas que ajudam na limpeza da garganta, beber muita água e fazer gargarejo frequentemente. É importante manter os cuidados com a voz, com a mente e a saúde do corpo em geral.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Daniel Gonzaga: Admiro todos os intérpretes de alto nível, exemplos: Ney Matogrosso, Edu Lobo, Pabllo Vittar, Paula Santoro, Áurea Martins, Renato Russo, Emílio Santiago, etc. Mas no Brasil vivemos um momento bem complicado para o mercado musical que não é bem utilizado, principalmente pelos governantes, já que é um mercado que rende muito dinheiro aos cofres públicos através dos impostos. É um desperdício o que se faz com o mercado musical brasileiro.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Daniel Gonzaga: Meu processo de fazer música é não ter regras. Quando eu penso em lançar um álbum, muitas das vezes não tenho nenhuma música feita, mas tenho muitas anotações de letras incompletas, melodias gravadas, sequências de acordes. Quando vou fazer músicas novas coloco esses “rascunhos” na minha frente e sento ao piano, deixo o violão ao lado, ligo a mesa de som e começo a burilar a concepção de um assunto para começar a fazer as músicas. As vezes a música vem já inteira, posso estar andando na rua ou fazendo algo e a música nasce. Ou acontece alguma coisa na minha vida, um nascimento de um filho, a morte de uma pessoa importante ou uma questão política e etc, que me motiva a criar uma nova canção.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Daniel Gonzaga: Eu componho mais sozinho e tenho poucos parceiros musicais: Bernardo Lobo, Kiko Furtado, Élio Camalle, Fabiano Salek.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Daniel Gonzaga: Daniela Mercury gravou “Janela” (minha em parceria com Kiko Furtado), Carol Saboya, Clara Moreno, Fernanda Cunha, João Pinheiro, O Terço, entre outros.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Daniel Gonzaga: Eu nunca tive outra alternativa para desenvolver minha carreira musical que não fosse de forma independente. As gravadoras sempre me viram para ser um “produto” destinado a servir um determinado público. A partir do momento que eu não aceitei cantar as músicas do meu pai Gonzaguinha e fazer vários discos com esse foco de ser “cover de Gonzaguinha”, eu perdi meu espaço na indústria fonográfica e não me deram a oportunidade de ser eu mesmo. A única gravadora que eu tive foi a Dabliú, uma gravadora pequena, que mostrou o que eu tinha para falar musicalmente e foi quando eu vendi mais discos na minha carreira. Depois a gravadora queria que eu fizesse trabalhos ligados ao repertório do Gonzaguinha e eu não faço. A minha carreira é independente, não sei te dizer onde começa os prós ou terminam os contras. São contras sempre, nesse tempo de redes sociais, nos quais supostamente a internet deveria ajudar, mas não ajuda tanto. Os prós são não ter o rabo preso com ninguém, mas o que não deixa de ser também um contra, pois ter um “rabo preso com alguém” pode ser uma boa parceria, um apoio ou suporte.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Daniel Gonzaga: Eu planejo fazer tudo da melhor forma possível e com qualidade, pois quero deixar um legado que tenha qualidade poética e técnica através de boas gravações dos meus discos. Eu tenho um selo, uma webTV, uma produtora, uma editora e sou dono de minha produção. Eu sou contra plataformas digitais por considerar uma pirataria oficial na qual o artista é o menos remunerado. Cabe um debate sobre direitos autorais e se quem está usando as plataformas tem esse esclarecimento. Eu procuro ter o controle do que eu faço e fazer sempre com qualidade.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Daniel Gonzaga: A internet ajuda a todos e nas redes sociais quando você quer divulgar uma atividade profissional o algorítmo impede. A internet é muito boa para mostrar as fotos de cachorros, de crianças ou nossas trivialidades. Mas se você posta algum serviço ou produto o “robozinho do algoritmo barra” a visualização orgânica para você comprar o serviço de impulsionamento. Antes ajudava mais na divulgação orgânica, hoje nem tanto. Mas a internet não pode ser um parâmetro para uma carreira. Você publica algo bizarro e milhões visualizam e quando é algo relevante sobre a carreira só chega para meia dúzia. A internet está se configurando em local para vender sexo, drogas ilícitas e etc, ninguém a usa de fato como uma ferramenta de transformação e de informação. A internet te ajuda na medida que o seu trabalho está caminhando e o perigo é a falsa percepção de sucesso e de fracasso que ela passa para o artista. Faço o meu trabalho conforme minhas convicções e a propagação pela na internet será um diálogo com quem goste do que estou fazendo, mas não uso a internet como parâmetro para guia o meu trabalho.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Daniel Gonzaga: Todas as vantagens, eu tenho um home estúdio e gosto de produzir, mas não adianta ter os melhores equipamentos e não saber o que gravar, tudo vai depender do material que você tem para trabalhar. Um artista no formato voz e violão e tocando e cantando muito bem já basta. Meu avô Luiz Gonzaga com a sanfona, uma zabumba e um triângulo, modificou a música brasileira. O que vale mesmo é a qualidade das canções, dos instrumentos a serem gravados. Agora ter um home estúdio para ficar copiando fórmulas de sucesso americana não é a minha motivação.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo, mas a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Daniel Gonzaga: No passado fazíamos música pela qualidade da música e hoje fazemos música para vender outros produtos, ela está perdendo o seu valor no mercado. Tem um público que não vai ao meu show por achar que eu só cantarei as músicas do meu pai Gonzaguinha e eu desagrado aos fãs dele que querem que eu toque os seus sucessos, mas eu toco e canto as minhas músicas no meu show. Eu consigo frustrar essas duas plateias. Eu administro através da Moleque Editora a obra musical do meu pai que foram gravadas e as músicas ainda inéditas. Não me é permitido ter um nicho musical ou uma carreira artística. Eu trabalho como posso dentro de um nicho que consigo com minha combatividade para ter um lugar de fala. Ser artista é querer se expressar de alguma forma sobre determinado tema mostrando nossa particularidade e subjetividade. Eu procuro ter autenticidade, particularidade artística e me colocar pelas redes sociais contra essa política fascista que avança todos os dias, apoiar a luta e os direitos das minorias, dos LGBTQIA+, da população indígena que está sendo dizimada. Hoje meu diferencial é a minha colocação frente a esse mundo voraz que nos consome.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas, quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Daniel Gonzaga: Nas últimas décadas temos o final do pop cafona nos anos 90, a revolução do Axé Music, do Pagode, do Sertanejo. Nos anos 2000 quem tomou de assalto o mercado foi o FUNK, com a explosão da Anitta, o “Forró Estilizado”. Analisar o mercado da música não tem nada a ver com o que está sendo feito em música no Brasil, é preciso deixar esses dois temas separados. O mercado toca sempre as mesmas músicas, no passado tinha o pagamento do jabá no qual quem chegava com uma maleta de dinheiro colocava a sua música para tocar na programação da Rádio.

Hoje os empresários têm as suas próprias rádios, TV e plataformas digitais que só tocam os seus artistas. Mas tem muitos artistas fazendo boa música no Brasil sem espaço na mídia para mostrar seus trabalhos. Nesse ponto a internet serve como uma ferramenta de pesquisa para achar os bons artistas nesse palheiro de músicas descartáveis. Hoje todos os dias temos artistas novos nos convidando a conhecer um novo livro, uma nova música, um novo clipe e muitos internautas ignoram. A grande mídia não mostra esses artistas por muitas vezes desconhecerem a existência deles por conta da empáfia de muitos jornalistas que se sentem incomodados com “mais um artista chato” querendo se comunicar comigo e querendo que eu veja alguma coisa dele. São muitos artistas novos querendo atenção para seu trabalho, pode ser que um desses artistas seja um novo Cartola, Gonzagão. Mas se até se estivéssemos falando de um novo Jesus Cristo na Rocinha ninguém iria notar e em cinco anos já estaria morto. É muito triste achar que não tem artistas criando músicas e ver o mercado se movimentar com poucas artistas. Anitta, por exemplo, vende muito produtos que dão muito dinheiro igual ao Neymar que também vende e passa mais tempo com agenda lotada de publicidade que jogando bola. O Brasil é conhecido pelo Luiz Gonzaga, Tom Jobim, João Gilberto, Pelé, entre outros ícones e por suas artes.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Daniel Gonzaga: Todos os artistas que tem profissionalismo eu respeito. Mas estar em alto nível profissional e de qualidade artística é para poucos. Os músicos que trabalham com as grandes estrelas do cenário musical são excelentes nos quesitos: talento, profissionalismo e pontualidade.

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Daniel Gonzaga: Problema técnico com a sonorização é clássico. Brigas sempre acontecem, mas o show continua. Em um show em Manaus começou uma briga e mataram uma pessoa com uma garrafa na minha frente. Gafe de dar boa noite e errar o nome da cidade. Ambiente e público singular é recorrente em meus shows. Já toquei em Pacaraima – RO divisa com a Venezuela para os índios e foi muito animado. Tocamos rock e os índios dançaram e gostaram. Não receber o cachê após o show também acontece. Em 2019 fiz um show junto com artistas famosos ninguém recebeu. Na mesma semana eu fiz um show e a produtora falou que não iria pagar o cachê, nem era para cobrar, pois ela estava com a mãe doente. Já escutei dessa pra pior e passaria dias relatando.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Daniel Gonzaga: O que me deixa mais feliz é a música e a carreira musical. É muito bom viver e sobreviver fazendo arte e música. O que me deixa triste é falta de uma política pública voltada para a fomentação do mercado musical brasileiro e para as artes em geral. O mercado artístico traz bom retorno financeiro através dos impostos pagos, ao aquecimento do micro ao macro mercado do entretenimento. Festas populares como o Carnaval em cidades como: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Festas Juninas no Nordeste, Festival Folclórico de Parintins, Círio de Nazaré, Oktoberfest no Sul, Festival dos botos do Sairé, etc. Todas essas festas geram milhões para os cofres públicos e aquecem o comércio em geral. No governo Lula que teve um olhar atento para a cultura e artes em geral a devolutiva financeira foi ótima para o governo e para o mercado. É uma falácia dizer que artista não quer ganhar dinheiro.

23) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Daniel Gonzaga: Hoje o jabá está nas redes sociais e plataformas digitais. E muitos empresários têm suas rádios e TV para divulgar seus artistas. A minha música não tocaria nas rádios nem eu pagando o jabá por eu fazer uma música que não combina com a programação das rádios em geral.

24) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Daniel Gonzaga: Estude muito e estude tudo pertinente a sua carreira musical, pois vai ser cobrado por sua postura profissional e por sua técnica nas gravações e shows.

25) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Daniel Gonzaga: Só tem prós nos Festivais de Música e tem que ter mais festivais e mais cobertura da grande mídia para os Festivais de Música.

26) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Daniel Gonzaga: Festival de música de grande porte revela novos talentos. Agora The Voice e programa similares não revelam novos talentos. É só produto e pode ser que o produto combina com o artista.

27) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Daniel Gonzaga: Não existe cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira. Existe pouco espaço para a maioria dos artistas e grande cobertura para os artistas famosos. Os meios de comunicações em geral não é amigo do artista e um dos objetivos é informar e o maior objetivo é vender publicidade, comerciais e ganhar likes. Anitta tatuando parte do corpo que não pode ser visto tem mais relevância que Daniel Gonzaga tocando música autoral para seu público. Celebridades em momentos triviais e íntimos chama mais atenção da grande mídia. A espetacularização da grande mídia faz com que ela não cubra pautas culturais. Os artistas que não são famosos estão sempre descobertos.

28) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Daniel Gonzaga: O sistema S já foi alvo de muito dinheiro e de muitos escândalos que fez contando a verba para a cultura. É um sistema incrível que os artistas conseguiam viajar para lugares que não tinham acessos a sua obra, eu mesmo fiz um mês de show por 26 cidades do interior de São Paulo. Foi na época que eu saí de uma companhia de circo que eu fazia parte. Os lugares que fiz esses shows eram cidades que o espaço do Sesc era a melhor opção para apresentação e não tinha show frequentes de artistas famosos.

29) RM: O circuito de Bar da cidade que você é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Daniel Gonzaga: Eu moro em Vargem Grande, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. Bares não é uma boa opção, mas é a única opção de sobrevivência para os músicos locais. É um bom começo, mas é muito sacrificante trabalhar em Bar. Eu respeito muito quem trabalha se apresentando em Bar, pois fiz essa atividade por muito tempo. Mas, o músico está sujeito a todo tipo grosseria. Então valorizem quem está fazendo um bom trabalho musical em Bares.

30) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com seu pai Gonzaguinha?

Daniel Gonzaga: Além da relação de pai e filho e desde 1991, eu sou produtor dele através da Moleque Editora administrando a imagem e os direitos autorais da obra dele e do meu avô Luiz Gonzaga.

31) RM: A sua postura política e ideológica se assemelha a do seu pai Gonzaguinha?

Daniel Gonzaga: Eu não tive chance de conversar com meu pai Gonzaguinha sobre o que ele pensava ou não pensava das questões políticas. Mas dá para imaginar o que ele pensava, então se o que ele pensava corresponde ao que eu acho que pensava, temos visões politicas semelhantes.

32) RM: Qual a sua análise da relação pessoal e profissional de Gonzaguinha com Gonzagão?

Daniel Gonzaga: Eles tinham uma relação normal de pai e filho, com harmonia e discordância nada fora da curva. Meu avô Gonzagão mais bonachão, e meu pai Gonzaguinha mais politizado. Mas não tinham muito a ver com a forma que foram e colocaram nos personagens deles no filme: “De Pai pra Filho” de Breno Silveira. A relação profissional foi através dos shows que fizeram juntos e meu pai já em condição de relevância artística que tinha nos anos 80 tentou ajudar alavancar a carreira do meu avô que nos anos 80 não estava em evidência e estava meio doente. A produtora do meu pai começou a trabalhar também a carreira do meu avô.

33) RM: Qual a sua relação pessoal com o padrinho e a madrinha do seu pai Gonzaguinha (Henrique Xavier e Dina)?

Daniel Gonzaga: Dina é minha avó querida e com quem eu dividia o quarto, já o avô Xavier não lembro se convivi, pois eu era muito pequeno. Mas nunca os chamei padrinhos do meu pai, sempre de avô e avó.

34) RM: A hipótese de Luiz Gonzaga não ser pai biológico de Gonzaguinha causou ou causa algum desconforto familiar?

Daniel Gonzaga: Não causou e nem causa, mas eu tenho minha visão a respeito do fato. Eu fico imaginando qual macho seria benevolente morando em uma casa de portugueses, ainda mais meu avô Luiz Gonzaga que era muito ciumento, voltar para casa e dizer que por amor a esposa, ele adotaria o menino. Eu duvido muito, principalmente eu conhecendo atualmente o sertão pernambucano.

35) RM: Como vocês analisam o cenário do Forró. Quem foram às revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Daniel Gonzaga: Não sei se eu tenho competência para analisar o cenário do Forró, mas eu prefiro escutar todas as vertentes do Forró do que artistas brasileiros cantando música pop americana. O Forró além de ser o espaço para se dançar Baião, Arrasta-pé, Xote, etc, é um sentimento de estar cercado por uma das parte de nossa vasta cultura nacional. Por isso, qualquer vertente que carrega o nome Forró vou aprovar. Adoro a música pop americana, mas prefiro que nós falemos mais da nossa música. O Brasil tem cinco regiões e o Nordeste nove Estados, onde cada um tem as suas próprias particularidades. É sempre positivo falar da cultura nacional e a música na sua dinâmica se modifica com a participação dos jovens que levam essa cultura para frente. Eu adoro o rock, mas não é uma música brasileira. O Chico Science criou a Nação Zumbi para tocar rock misturado com maracatu que é brasileiro. Eu acho bacana essa mistura. Arrisco dizer que as revelações são: “Aviões do Forró”, Dorgival Dantas, Zé Vaqueiro.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

Daniel Gonzaga: Em setembro de 2021 lançarei um DVD, lançarei uma peça de Teatro. Lançarei pelo meu selo o álbum do Marcus Lucenna e álbum da Anastácia cantando samba. Estou compondo músicas para um álbum novo. Eu tenho o canal Rythmica WebTV que produz conteúdo todos os dias com quatro programas próprios. Tenho um livro para lançar e esperando poder voltar a fazer shows. Eu tenho uma editora, um selo, uma produtora e eu estou sempre em movimento e não consigo imaginar a vida sem um projeto futuro, sem propagação da arte.

37) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Daniel Gonzaga: (21) 2262 – 5449 | 99924 – 1555 (Rodrigo Rezende) | https://www.danielgonzaga.com.br | www.rythmicawebtv.com

| [email protected]

| https://www.instagram.com/danielgonzaga_oficial

| https://web.facebook.com/daniel.gonzaga

“Areia” – Daniel Gonzaga: https://www.youtube.com/watch?v=S4SMxn4r3y4

Sangrando – Daniel Gonzaga: https://www.youtube.com/watch?v=gJhYLqtsDrM

Cortes do Nação – Daniel Gonzaga fala sobre novos compositores: https://www.youtube.com/watch?v=WK4sO62SD3A

Especial Gonzaguinha. Homenagem dos filhos Daniel Gonzaga e Nanan Gonzaga. Com Angela Leal: https://www.youtube.com/watch?v=m8KhX3SJecU

Daniel Gonzaga e Nando Cordel – 09/11/2012: https://www.youtube.com/watch?v=R7wfLgfSCg4

Daniel Gonzaga, roqueiro e sambista assumido, o músico também é compositor de samba enredo: https://www.youtube.com/watch?v=nBgcJ7cf1gw

“Sementes do Amanhã” (Gonzaguinha) por Erasmo Carlos em 1984: https://www.youtube.com/watch?v=Mmg_sIY8DEA

Tim Tones (1984) – Chico Anysio Show: https://www.youtube.com/watch?v=dEwT9qcDhIw


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Uma Revista criada em 2001
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