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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Dalton Pessoa


Na era tecnológica e de relacionamentos líquidos sem profundidade, entre frias máquinas que nos rodeiam com seus loucos, pelo vil metal; a natureza nos presenteia com um gênio fugaz.

Predestinado a ser um devoto da arte, com o espírito livre e a alma rebelde, Dalton Pessoa, buscou no Samba, o seu primeiro alento.  Sambou, cantou na casa de amigos, até o destino leva-lo a encontrar Bruno Negão, sua irmã e percussionista Denise, May Sistah e Heider.

Em 2001 uma revolução interna aconteceu que o levou em direção ao Reggae e ao sentimento Rasta. Hoje com dezenas de composições, Dalton Pessoa é o que acredita ser, e aí está a força de um homem. Um homem natural, com inspirações sociais muito engajadas, músico sensível e de espiritualidade elevada.

Em 2006, através da Denise, em uma festa, conheceu o baterista João Batista e o baixista Leão, da cultural banda Nyahlive. Depois de alguns ensaios no bairro Jardim Guarani em São Paulo, aonde João tinha um estúdio, foi o suficiente para perceber o que poderia ser um sinal de Jah: no teclado dele estava escrito Ras Lion. Ele que já usava esse nome desde 2004 nos registros de suas letras, assume esse mantra, Ras Lion Dalton! Mas atualmente voltou a usar o nome de batismo: Dalton Pessoa.

No começo de 2007, passou por um momento difícil e surreal que foi um verdadeiro divisor de águas em sua vida.  Em fevereiro desse mesmo ano Dalton Pessoa teve a sua primeira vivência em comunhão com o Ras Ivan na Casa de Menelik, grupo cultural de orientação Rastafári. Recebeu o batismo em uma sessão Nyabinghi na cachoeira (Nyabinghi é uma das denominações mais antigas, ou “Mansões”, da religião jamaicana de Rastafári. Provavelmente o maior grupo Rastafári, a Casa de Nyabinghi é um agregado de rastas mais tradicionais e militantes que buscam manter o movimento próximo à forma como existia durante os anos 1940). Por um sabático período; entre estudos e vivências, Dalton Pessoa se voltou ao seu íntimo ser, até participar de uma marcha rastafári, no dia de Garvey (Marcus Mosiah Garvey foi um ativista político, editor, jornalista, empresário jamaicano ei fundador e primeiro presidente da Associação Universal para o Progresso Negro e Liga das Comunidades Africanas, organização através da qual se autoproclamou “presidente provisório da África”), no dia 17/08/2008 no centro de São Paulo.

Dalton Pessoa foi se fortalecendo nestas bases, criando suas próprias perspectivas musicais, seu desejo de liberdade, seus acordes e versos que resultaram em um estilo original, composições que trazem a filosofia e a inovação de uma música consciente. Canções de amor fraterno, de louvor, de perdão, de múltiplas alegrias… Com o repertório direcionado, era hora de botar o Reggae na rua, e pra isso fundou a banda “Os Madibas”, em homenagem carinhosa ao grande Nelson Mandela.

A zona Norte de Sampa foi o palco inicial dessa saga, quando se reuniram Gajó na bateria, Heider no Baixo, Black Anjo na guitarra base e backing vocal, entre outros amigos colaboradores. No estúdio, apelidado de Toca do Leão, construíram uma apresentação cheia de emoção e verdade. Bares, centro culturais, baladas, casa de amigos, saraus…todo lugar foi palco da mística Rastafári que compõe as músicas de Dalton Pessoa.

Hoje em dia, Dalton Pessoa mora São Thomé das Letras – MG, sagrado templo da mística natural que flutua pelo ar.  Lá, cuidando dos filhos, da família, das hortas e da mãe natureza e continua criando e compondo reggae rurais, envolto pelo canto dos pássaros e voos das borboletas. São Thomé das Letras (A Montanha Mágica) tem sido um oásis, onde as vibrações positivas encontram os verdadeiros sentimentos do Homem Rasta. As montanhas encontram o rio, cachoeiras e as pessoas tem sentimento amável e um sorriso sincero. Nessa nova fase, nessa retomada cultural pós pandemia do Covid-19 se permitiu retomar as atividades de estúdio, visando as apresentações. Então, a hora é agora. Sintonize esta vibração e vamos viajar nas ondas sonoras do Leão de São Thomé!

Segue abaixo entrevista exclusiva com Dalton Pessoa para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 02.05.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Dalton Pessoa: Nasci no dia 01.09.1980, no bairro Jaçanã, zona norte de São Paulo. Registrado como Dalton Pessoa e nome artístico Dalton Pessoa surgiu em 2001.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Dalton Pessoa: Desde muito cedo comecei a escrever canções.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Dalton Pessoa: Não tenho formação acadêmica de nível superior. Fiz dois anos de Conservatório de Canto em 2008, época em que fiz também um breve curso de áudio tecnologia através de um projeto social. Cursei Ensino Médio com técnico em Publicidade e Propaganda. Iniciei na faculdade de Ciências Sociais em 2001, mas foi um momento extremamente conturbado em minha vida. Por isso, interrompi os estudos.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Dalton Pessoa: Conhecia o reggae do Pato Banton que fez muito sucesso no começo da década de 90, nessa época em que o álbum Legend do Bob Marley foi amplamente divulgado. Burning Spear, Papa Winnie, Bob Marley, Peter Tosh era tudo que eu conhecia sobre reggae. Comecei a conhecer mais o reggae em meados de 98. Ouvia UB40, Alpha Blondy, Gregory Isaacs, etc. Hoje em dia sou fascinado por bandas vocais, Third World, Meditations, More Relations, Abyssinians, uma vasta gama de artistas hoje influencia meu trabalho.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Dalton Pessoa: Em 2004, eu encarei o palco pela primeira vez em um Bar em São Thomé das Letras. Em 2003 na época em que conheci a Maytê Rodrigues, eu já tinha algum material escrito. Mas foi em 2004 ao conhecer a Montanha Mágica (São Thomé das Letras) que comecei a me apresentar ao vivo e comecei a iniciar meu interminável processo de gravação (risos).

 06) RM: Quantos CDs lançados?

Dalton Pessoa: Não cheguei a gravar um álbum. Em 2005 em São Thomé das Letras comecei uma gravação de algumas composições que acabaram sendo perdidas. Em 2006 conheci a banda Nyah Live que me deu um apoio, mas não chegamos a gravar. Em 2014 eu gravei “Vale de Josafá”, produzida pelo Caio Bernardes, com a participação do meu grande amigo Black Anjo, que sempre me auxilia nessa jornada.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Dalton Pessoa: Reggae. Carregado de todas influências da minha história. Sou sempre aberto ao desafio de novos ritmos e estilos, mas o meu continua sendo reggae.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Dalton Pessoa: O professor Marcio Matos e também um grande amigo me ensinou muita coisa durante os dois anos de aulas de canto. O que aprendi com ele procuro pôr em prática até hoje quando vou me apresentar.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz? 

Dalton Pessoa: É fundamental o estudo de técnica vocal e cuidado com a voz. Imprescindível, embora seja negligenciado. Hoje em dia com recursos tecnológicos uma pessoa não precisa necessariamente de boa voz desde que tenha um bom técnico de áudio. Mas considero fundamental pra tocar sem esses recursos.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Dalton Pessoa: A lista é vasta, e nesse caso não se resume ao reggae. Sou um ouvinte razoavelmente eclético. São muitas vozes belíssimas. Que vem em minha mente: Freddie Mc Gregor, Alton Ellis, Bobby Andy, enfim uma lista extensa.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Dalton Pessoa: Varia um pouco. Inspirei-me muito em um processo de meditações na Escritura Sagrada inclua-se a Kebra Nagast, entre outras leituras. O processo pode variar, mas grosso modo, as vezes explode o insight da letra e eu quero musicá-la. As vezes acontece o inverso, a melodia vem primeiro e eu busco encaixar uma letra.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Dalton Pessoa: Black Anjo, o Heider Lages que me ajuda com os arranjos principalmente da linha do Baixo. Não posso deixar de mencionar o Gajo e Maytê, Rodrigues, Muta Man, Michel Irie. Posso dizer que são os meus principais parceiros a quem eu costumo mostrar meu material em primeira mão. Tenho mais de 50 composições registradas na Biblioteca Nacional.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Dalton Pessoa: A música independente dá uma certa liberdade pra produzir. No entanto as oportunidades são muito mais restritas e na maioria das vezes o apoio financeiro pra um projeto independente no Brasil é praticamente nulo. Então se a pessoa não dispõe de recursos através da música, acaba se rendendo a outras atividades e fazendo da música mais um hobby do que um projeto profissional.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Dalton Pessoa: Estratégia e planejamento é o que têm me faltado. O cenário vem se alterando demais nos últimos anos. Alguns anos atrás a música só era vendida em CD, que substituiu muito mal o LP. Com a chegada das novas plataformas musicais, deezer spotfy, YouTube, entre outros, perdeu-se um pouco o sentido de gravar um álbum. Venho mirando esses novos recursos digitais como possível meio de distribuir meu trabalho, mas antes preciso finalizá-lo no estúdio.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Dalton Pessoa: Não enxergo a música como uma carreira. Não é raro o caso de um artista ser descoberto até mesmo depois da sua morte tendo o seu trabalho tardiamente reconhecido. A música é uma missão. Seu atributo principal penso que seja a inspiração e dela decorre os demais passos da produção musical. Investi em equipamentos de áudio e espaço para ensaios e gravações. Mas se eu não tivesse me inspirado a compor, esses investimentos dificilmente aconteceriam por mero empreendimento. A inspiração é a chave.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Dalton Pessoa: A facilidade e o baixo custo pra divulgar seu trabalho é a maior vantagem da internet. Da noite pro dia seu trabalho pode fazer sucesso no youtube ou rede social. O prejuízo que ela oferece é a ampla concorrência nem sempre com qualidade. Um consumidor final geralmente implacável, aonde qualquer erro pode se tornar um meme.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Dalton Pessoa: O baixo custo de um home estúdio, eu vejo como a maior vantagem. A desvantagem é a ausência de recursos técnicos que limitam a qualidade da produção.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Dalton Pessoa: Por mais que tenha facilitado e barateado o processo de produção musical nos dias de hoje, gravar um disco pelo menos para mim continua sendo um árduo e complexo trabalho. Não vejo os outros cantores como concorrentes embora o mercado nos transforme em tais. O desafio maior é não desanimar perante essa jornada de produção. Finalizar uma produção vem sendo um desafio maior que a concorrência do mercado, por isso meu foco antes de pensar nesses atributos vem sendo finalizar minhas produções.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Dalton Pessoa: Falando do cenário brasileiro do reggae, há duas décadas haviam bandas e canções autorais em uma ampla variação, no mainstreaming e no underground tínhamos muita coisa boa. Hoje o cenário está aparentemente estagnado, as mesmas bandas que se lançaram há algumas décadas são as que fazem sucesso ainda hoje.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Dalton Pessoa: David Hubbard, por seu talento com sua voz e seu steel drums. Um exemplo de profissionalismo e qualidade musical. O QG Imperial (Tael Bass no Baixo, Lucas Junior no Teclado, Jah Faya na Bateria, Douglas Martins na Guitarra, Vinicius Sampaio na Guitarra Solo, Marina Peralta na Voz), banda que costuma lhe acompanhar é um exemplo de qualidade, uma banda que resistiu e manteve sua formação durante os altos e baixos recorrentes na cena do reggae nacional. Sem desmerecer as demais bandas que estão nesta batalha musical.

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)?

Dalton Pessoa: Cada apresentação tem seu momento, mas posso destacar uma apresentação pra um evento beneficente. Éramos os organizadores do evento e estávamos extremamente pilhados, pois seria nossa primeira apresentação. Nossa formação era eu no vocal, Black Anjo na guitarra e voz, Heider no baixo, Magu na bateria e Maytê Rodrigues no teclado e trompete. Além de uma calorosa discussão faltando poucos dias para o evento, o baterista se acidentou ferindo o joelho, o que comprometeria sua performance no palco. No dia da apresentação a dor o impossibilitou de tocar até o final. Um amigo chamado Robson, que acompanhava a nossa banda se ofereceu para tocar. A apresentação estava relativamente vazia, somente restando alguns amigos e parentes que vieram prestigiar. Mesmo assim queríamos seguir o repertório até o fim, então demos a oportunidade a esse amigo. Essa foi a sua estreia e salvação do nosso repertório naquele dia. Uns dias depois tentamos ensaiar com ele, mas incrivelmente ele não soube tocar um compasso das músicas do show. Jah deve ter lhe inspirado no dia da apresentação (risos).

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Dalton Pessoa: A maior felicidade é ver minha música sendo tocada e dançada. A música pode eternizar o artista. A maior tristeza é a pouca valorização do trabalho do músico. No Brasil é um enorme privilégio conseguir viver de música sem trabalhos paralelos.

23) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Dalton Pessoa: É possível. Entretanto é muito mais provável que o espaço da rádio de grande audiência seja ocupado em sua maioria bancado pelo pagamento do jabá.

24) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Dalton Pessoa: Poderia dizer muitas coisas. Em resumo, não desista de seu sonho. Não resista à sua inspiração. A música pode eternizar sua arte e expressão, pense nesta possibilidade.

25) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Dalton Pessoa: A cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira é da pior forma possível. A grande mídia prefere a imagem ao talento genuíno. Se a qualidade musical fosse um critério para a escolha dos artistas teríamos outro cenário musical com outras perspectivas.

26) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Dalton Pessoa: Importantíssimo. Ao contrário da grande mídia que é excludente, esses espaços tendem a mostrar tudo aquilo que mesmo com qualidade não conseguem o espaço e o reconhecimento no mercado.

27) RM: Você é Rastafári?

Dalton Pessoa: Não pertenço a nenhuma religião Rastafari. Reconheço o papel messiânico de Sua Majestade Imperial Qedamawi Haile Selassie. Em 2007 durante uma vivência na Casa de Menelik recebi o batismo pelo Honorável profeta Ras Ivan, que se não me engano hoje é Bobo Shanti. Foi um renascimento em minha vida. Contudo não me considero Rastafári. Prefiro ser um homem livre de denominações. Em São Thomé das Letras conheci e frequento a doutrina do Santo Daime.

28) RM: Alguns adeptos da religião Rastafári afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como você analisa tal afirmação?

Dalton Pessoa: Discordo plenamente. Existem muitos artistas excelentes que não pertencem ao Rastafári. Você pode não ser rasta e tocar um maravilhoso reggae como pode ser rasta e cantar RAP ou mesmo seguir outro caminho que não seja musical.

29) RM: Na sua opinião quais os motivos da cena reggae no Brasil não ter o mesmo prestígio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral?

Dalton Pessoa: Os motivos podem ser vários. A desvalorização artística que já falei pode ser uma das razões. Pouco se valoriza e pouco se investe em recursos de produção, muita concorrência ao invés de união da classe. A desunião entre os músicos da cena do reggae é um fato. Na minha perspectiva eu penso que podemos e ainda vamos amadurecer muito. É bom lembrar também que temos duas cenas do reggae brasileiro. Uma é a do Nordeste aonde o reggae se faz presente em todas as rádios, todas as idades aceitam e tocam reggae. Já no Sudeste a cena ainda é restrita à juventude principalmente, é a preferência de apenas 8%, diferente da cena do nordeste. O espaço e o valor atribuído a uma banda no Sudeste é menor, por isso acho que ainda não dá pra afirmar que o reggae no Brasil é uma caricatura do reggae jamaicano, pois isto está em constante desenvolvimento.

30) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Dalton Pessoa: Considero que a pessoa tem o dom musical quando ela já tem a música dentro dela e apenas deixa fluir. Um dom musical é ao meu ver como passear nas frequências das notas musicais, transformar o ruído em ritmo, etc.

31) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Dalton Pessoa: Quando o festival de música é uma amostra de música é uma ótima oportunidade de promover trabalhos musicais. Mas quando é aquele concurso com ganhadores e perdedores, o festival se torna um celeiro de egos. Daí um artista ganha para três perderem. Isso é tóxico, nocivo para música em meu ponto de vista. Fui convidado em 2005 a participar de um festival em São Thomé das Letras – MG. Tive um desacerto bem desagradável, pois havia feito tudo o que o organizador do evento tinha solicitado. Enfim, para organizar um festival o organizador tem que ter a responsabilidade daquilo que está promovendo.

32) RM: Festivais de Música revela novos talentos?

Dalton Pessoa: O Festival de Música tem o potencial de revelar novos talentos, mas infelizmente nem sempre é o que acontece.

33) RM: Quais os pros e contras de se apresentar com o formato Sound System? 

Dalton Pessoa: Em uma performance de sound system é apenas o cantor e o DJ, a execução é mais prática, porém o cantor que já tem o costume de tocar com banda pode se perder, a ausência dos demais músicos/companheiros acabam fazendo falta a quem estar cantando. Pelo menos foi essa a experiência que eu senti.

34) RM: Quais as diferenças de se apresentar com banda em relação ao formato com Sound System?

Dalton Pessoa: Tocar com banda é mais imprevisível o resultado. Essa é principal diferença que eu pude notar até agora.

35) RM: Quando, como e quais os motivos levaram você saírem da cidade/Babilônia para irem morar em contato com a Natureza?

Dalton Pessoa: Sempre gostei do contato com a natureza. Em 2000 com a perda do meu irmão Dagoberto a vida na cidade passou a me incomodar ao ponto de eu considerar insuportável. São Thomé das Letras – MG foi o socorro que eu pedi pra Jah.

36) RM: Quais os costumes e rituais dos adeptos ao Rastafári?

Dalton Pessoa: O Nyabinghi é a cerimônia de consagração rastafári. Uma fogueira é acesa aonde são tocados tambores ritmados na batida do coração. Cânticos, salmos e louvores são entoados. Geralmente o rasta não come carne de nenhuma espécie. Existem muitos atributos do movimento rastafári, daria um livro (risos).

37) RM: Você mora em uma comunidade que é adepta ao Rastafári?

Dalton Pessoa: Não moro em nenhuma comunidade.

38) RM: Quais as dificuldades de adaptação de quem tem os costumes de viver na cidade que passa a viver em uma comunidade agrária/rural?

Dalton Pessoa: Falando pela minha experiência, dinâmica da cidade é completamente diferente. Em São Thomé das Letras – MG, os mercados fecham para o almoço, nem sempre há locomoção e comunicação. Contudo a qualidade de vida acaba compensando qualquer dificuldade.

39) RM: Quais as diferenças de um casal rastafári e um casal comum?

Dalton Pessoa: Sinceramente não vejo diferença alguma.

40) RM: A relação de um casal rastafári é patriarcal no qual a esposa está sob as ordens do marido sem questionamento?

Dalton Pessoa: Esta é uma questão de caráter subjetivo. A violência da sociedade contra a mulher não está relacionada apenas a rastas, mas é algo generalizado infelizmente. Particularmente em minha casa não temos ordens e sim, decisões, das quais todos participam.

41) RM:  O que o Rastafári usufrui materialmente da Babilônia?

Dalton Pessoa: Nada é proibido, desde que eu saiba as consequências daquilo que eu venha consumir. Seria formidável se todos pudéssemos nos alimentar dos frutos que colhemos, mas essa é apenas a realidade de quem vive em um ambiente rural, nesse mundo de tanta miséria damos graças por tudo que conseguimos ter, seja industrializado ou natural.

42) RM: Qual a diferença entre uma comunidade Rastafári e outras comunidades alternativas?

Dalton Pessoa: A vivência em uma comunidade rastafári é uma vivência espiritual, de oração e conexão com Jah Rastafári, te leva para Sião. Há um hino que diz que o Monte Sião é sagrado. Lá o pecado não entra.

43) RM: Os Rastafáris se baseiam em que para ter a Cannabis com erva sagrada?

Dalton Pessoa: A Cannabis é usada desde tempos muito remotos, a consagração dela também não é exclusivamente Rastafári. No hinduísmo e outras doutrinas o uso da Cannabis é sacramental. Na Bíblia em Gênesis, Jah criou a erva cannabis junto aos demais frutos que contém sementes. Em Isaías o anjo queima o pecado do profeta com a brasa. Nos salmos, Jah que é a nossa imagem e semelhança sopra fumaça de suas narinas. No Apocalipse ela é a Árvore da Vida. O estudo da Cannabis é profundo, teríamos que fazer um tópico a parte.

44) RM: O que representa e qual a importância do imperador da Etiópia Haile Selassie para os adeptos do Rastafári?

Dalton Pessoa: Total importância, seus ensinamentos devem ser estudados todos os dias se possível. O papel de Haile Selassie além do caráter messiânico, pois é visto por muitos como o advento de Jah na terra, foi de extrema importância para a organização sócio política da Etiópia e da África inteira.

45) RM: O que Jesus Cristo representa para o Rastafári?

Dalton Pessoa: Existem dois aspectos, a figura de Jesus Cristo que deu origem a igreja ortodoxa etíope, a primeira igreja cristã. O cristianismo presente nas igrejas de hoje vende uma imagem falsa com intenções meramente colonialista. Nessa falsa figura o rasta taca fogo.

46) RM: O Rastafári segue o Velho ou novo Testamento da Bíblia?

Dalton Pessoa: Os dois e mais alguns, a Kebra Nagast, o livro de Enoch, de Melquisedeque entre outros.

47) RM: O Rastafári só fuma a Cannabis que plantam?

Dalton Pessoa: Não. Porém agradece a Jah pela erva que consagra.

48) RM: Qual a diferença da música Nyabinghi para o reggae roots?

Dalton Pessoa: Nyabinghi é um cântico de caráter espiritual, reggae é um ritmo secular, o primeiro se canta em oração, o segundo já é tocado nas festas, não necessita da vivência Rastafári. O Nyabinghi requer as mãos limpas e o coração puro, o reggae requer talento e conhecimento musical.

49) RM: Não contraditório morar no mato e ganhar dinheiro fazendo show na cidade/Babilônia?

Dalton Pessoa: A Jamaica é considerada o berço do reggae. A influência do Rastafári no Caribe é muito maior que em outros lugares, então é natural que o reggae produzido no berço de origem acaba sendo mais genuíno do que o que é produzido em outros lugares. Se um conjunto de jamaicanos quisesse tocar Samba, por exemplo, esse conjunto por melhor que tocasse não faria o Samba que se faz nos morros cariocas ou da Bahia. Contudo existem diversas bandas que executam um bom reggae sem serem rastas, não poderia concordar com essa afirmação.

50) RM: Morar no mato não é um ato egoísta de não lutar junto com os oprimidos por uma melhor qualidade de vida na cidade?

Dalton Pessoa: Ao meu ver, a Babilônia não representa a cidade em si, Babilônia é a confusão e a ilusão que está mais presente nas cidades. Aonde os mais fracos são devorados pelos mais fortes. É a opressão do Estado. Um indivíduo pode estar lutando na cidade e outro pode estar se corrompendo na floresta. Nesse sentido a Babilônia está melhor representada por essas confusões humanas. Um Rastafári tem o direito de se sustentar em qualquer lugar, tocando ou trabalhando da forma que lhe aprouver, assim como todos os homens, entretanto o comportamento também deve ser reto, “Sai dela povo meu, para que não participem de seus pecados”. As cidades estão mais vulneráveis à corrupção da Babilônia, isso é um fato. Porém nada deve impedir o Rastafári de caminhar e se sobressair, seja músico artesão ou que ele queira ser. Sair da cidade para morar no mato não foi uma escolha fácil. Se eu estivesse no bairro do Jaçanã, eu seria apenas mais um oprimido sem perspectiva. Minha zona de conforto era lá. Morando em São Thomé das Letras tudo mudou pois eu passei a enxergar nas pequenas coisas, canto dos passarinhos, a natureza exuberante dizendo que ainda temos alguma chance. Passei a me sentir mais útil ao universo, sem esta experiência minha linha de ação na cidade estaria comprometida. Hoje me sinto capaz de fazer algo em prol do planeta aonde está a floresta e a cidade.

51) RM: Quais lendas e verdades sobre São Thomé das Letras que você desvendou? 

Dalton Pessoa: Eu conheço algumas histórias. Historicamente São Thomé das Letras – MG já começa com alguns fatos místicos. Um escravo foragido da fazenda do Barão de Alfenas havia se refugiado na gruta que deu origem ao nome da cidade. Este escravo era João Antão, que encontrou uma figura que se tornou lendária. Uns atribuem a esse homem um personagem lendário chamado Sumé. Confesso que não tenho nenhuma informação que confirme. Outros se referem a esse personagem como o próprio apóstolo Thomé, descrito no evangelho. Segundo a sociedade brasileira da eubiose, São Thomé é um dos chakras do planeta, sendo um ponto energético da Terra. A isso se atribui os avistamentos de ovnis.

Algumas figuras daqui merecem um destaque especial. Um deles é o Chico Taquara, que viveu aqui no começo do século passado. Era um curandeiro, tinha dreadlock que ele passava cera de abelhas. Quando ele caminhava, os animais o seguiam. Assim que ele chegava no local aonde realizaria a cura, fazia um círculo no chão e os animais ficavam parados dentro. Quando ia embora batia em seus ombros e todos os animais o seguiam. Vivia nas grutas e tocas.

Outros dois personagens, são Domingos Teodoro e Antônio Rosa. Ambos também são históricos, descendentes de escravos e curandeiros. Uma das curas de Domingos Teodoro deu origem ao povoado que hoje é Sobradinho de Minas, o distrito aonde eu moro. O Antônio Rosa além de curandeiro possuía um dom de observar as pessoas através dos olhos. Olhava profundamente e dizia coisas a respeito do passado, presente e futuro apenas olhando dentro dos olhos de seus interlocutores. Todas essas coisas são históricas. Se compilasse tudo que se vê e ouve aqui teríamos um filme surreal (risos).

A gruta do carimbado que dá acesso a Machu Picchu. Essa gruta atualmente vive fechada pra visitação. Em 1978 um grupo de militares entrou nela afim de desbravar, mas apenas alguns voltaram e o caso foi abafado. Um pouco acima dessa gruta fica a ladeira do amendoim aonde os carros sobem quando estão soltos ao invés de descerem, enfim, só vendo pra crer (risos).

52) RM: Quais os seus projetos futuros?

Dalton Pessoa: Tenho um projeto com alguns músicos na Montanha Mágica. Finalizar o que foi produzido na medida do possível, visto que muito material foi perdido, tenho um projeto com o Michel Irie que além de um grande toaster (Toasting, conversar com o público – rap em outras partes do Anglo Caribe ou discotecar é o ato de falar ou cantar, geralmente em uma instrumental em loop, sobre um ritmo ou batida de um DJ de reggae), vem se aprimorando como produtor musical. Toquei em alguns riddims produzidos por ele e gostei muito do resultado, agora quero gravar.

53) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Dalton Pessoa: (35) 99748 – 6507 |  https://web.facebook.com/profile.php?id=100008963586412

| https://www.instagram.com/daltonpessoa1980

Canal: https://www.youtube.com/user/7Sebat 

“Vale de Josafá” – Dalton Pessoa: https://www.youtube.com/watch?v=G-bXqpxo1bw 

Banda Os Madibas – Apresentação Sabadania Rainha Preta: https://www.youtube.com/watch?v=7-FwaFypLIY


Comments · 4

  1. Muito top conhecer artistas no segmento alternativo!! Pura resistência!!! Meu vídeo clipe mais recente foi gravado neste lugar incrível!!! São Tomé das Letras!! Imagine morar lá!!! Muitas inspirações!!!

  2. Que maravilha conhecer artistas como Dalton Pessoa, é muito show a diversidade musical que a Ritmo Melodia nos oferece. Parabéns, grande Dalton, pelo importante trabalho! Valeu, jornalista amigo Antonio Carlos!

  3. Parabéns, grande Dalton Pessoa, por sua caminhada musical e de resistência cultural, sua história e jeito de viver, é tudo muito show! Saúde e paz, amigo, e segue a vida!
    Valeu, caro jornalista e amigo Antonio Carlos, pela linda matéria! Viva à revista Ritmo Melodia!

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Uma Revista criada em 2001
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