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Categorias: Entrevistas

Carlos Walter


Carlos Walter é mineiro de Uberaba, filho do saxofonista e compositor Alvaro Augusto Walter e da artesã Giselda Bárbara Walter.

Iniciou seus estudos musicais com o pai e os professores Sérgio Ramos e Olegário Bandeira, prosseguindo-os como autodidata. É músico inscrito na Ordem dos Músicos do Brasil, associado do Clube do Choro de Belo Horizonte, filiado à União Brasileira de Compositores e autor dos livros: O violão e as linguagens violonísticas do choro e Discurso jurídico na democracia: processualidade constitucionalizada, respectivamente publicados pelo Clube de Autores e pela Editora Fórum. Possui mestrado em direito e instituições políticas pela Fundação Mineira de Educação e Cultura.

Carlos Walter ministra oficinas de violão e atua como violonista em trabalhos individuais e coletivos com o saxofonista Alvaro Walter, os violonistas Sérgio Ramos (Duo Mel) e Sílvio Carlos (13 Cordas), o multi-instrumentista Marcelo Jiran, o bandolinista Marcos Frederico, a cantora Giselle Couto, entre outros. Já tocou com Alexandre Gismonti, Aurélie Tyszblat, Babaya, Dudu Braga, Elodie Bouny, Felipe José, Fernando Sodré, Geraldo Vianna, Gabriel Grossi, Guilherme Vincens, Hamilton de Holanda, Henrique Cazes, Humberto Junqueira, Ian Coury, Ian Guest, Izaías de Almeida, Jo Vurchio, Juarez Moreira, Lígia Jacques, Lucas Telles, Marcelo Taynara, Marcos Flávio, Maria Inês Guimarães, Mariana Brueckers, Mozart Secundino, Nicolas Krassik, Paul Mindy, Paulinho Pedra Azul, Pernambuco do Pandeiro, Rafael Martini, Ramon Braga, Rômulo Marques, Serginho Silva, Silvério Pontes, Thiago Delegado, Toninho Ramos, Verioca Lherm, Zé da Velha, Waldir Silva e Yamandú Costa.

Carlos Walter representando a música brasileira, apresentou-se nos seguintes eventos internacionais: I Semana de Belo Horizonte en Buenos Aires (2008), VI Festival du Choro de Paris (2010), 16ª Cumbre de Mercociudades (Montevideo, 2011), Portes ouvertes 2012-2013 du Club du Choro de Paris (2012) e VIII Festival Internacional de Violão de Belo Horizonte (2015).

Foi semifinalista do XV BDMG Instrumental (2015 e 2018) e premiado pelo Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural do MinC (2010), Programa Música Minas (2012) e Edital Novas #2 de seleção de peças para CD de áudio com álbum digital de partituras (2014), avaliadas por Fábio Zanon, Marco Pereira, Sérgio Assad e pela idealizadora Elodie Bouny, com lançamento realizado no MASP.

Em 2015 lançou o CD de áudio e o livro de partituras, cifras e tablaturas Calendário do (A)feto: suíte para violão solo com 9 movimentos alusivos aos meses de gestação com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, o qual recebeu menção honrosa e o classificou como um dos Melhores Instrumentistas do Prêmio Melhores da Música Brasileira de 2015.

Em 2019 colaborou como organizador do Songbook de Ian Guest publicado pela Irmãos Vitale/Lumiar e atuou como um dos curadores do Sons da Cidade: Mostra Internacional de Violão de Belo Horizonte,projeto realizado em parceria com Fernando Chagas e o Instituto Abrapalavra mediante recursos da PBH/Belotur.

Em 2020 organizou junto aos violonistas Tabajara Belo e André Siqueira o Festival online Violões em Rede, uma série de concertos, bate-papos e workshops remotos, que contou com o apoio do Acervo Digital do Violão

Brasileiro. Sua trajetória como intérprete, compositor e arranjador está registrada em vídeos e CDs.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Carlos Walter para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16.10.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Carlos Walter: Nasci no dia 06 de agosto de 1979 em Uberaba, Minas Gerais. Registrado como Carlos Humberto Walter.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Carlos Walter: A música é uma tradição na minha família paterna. Sou filho, neto, bisneto e sobrinho de músicos proeminentes da Sociedade Musical União XV de Novembro da histórica cidade de Mariana, fundada há mais de cem anos. Então o meu primeiro contato se deu quando ainda estava no ventre materno, intensificando-se desde a primeira infância. Meu pai, o saxofonista e compositor Alvaro Augusto Walter, compôs a marcha sinfônica “Carlos Humberto Walter” na véspera do meu nascimento. Nasci e cresci num ambiente musical, vendo e ouvindo meu pai, meu saudoso irmão Cloves Aníbal Walter, meus tios, primos, vizinhos, entre outros amigos tocando vários instrumentos de sopro, teclas, percussão e cordas.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Carlos Walter: Sou um músico autodidata inscrito na OMB – Ordem dos Músicos do Brasil/MG, filiado à UBC – União Brasileira de Compositores e associado do Clube do Choro de Belo Horizonte. Estudei violão em Uberaba com os professores Sérgio Ramos e Olegário Bandeira.

Ao mesmo tempo dissequei as videoaulas da extinta MPO Vídeo, especialmente os VHSs do Paulinho Nogueira, Ulisses Rocha, André Geraissati, Paulo Bellinati. Tirei de ouvido peças de violão-solo brasileiro presentes da discoteca familiar e de solícitos parentes e amigos. Aprendi a ler partitura para expandir o repertório e a consciência musical. Era uma alegria conseguir a cópia da cópia da cópia de uma partitura, bem como gravações de referência que eu ia armazenando em “fitas cassetes” extraídas do “fino chiado da vitrola”. Programava o videocassete de 2 cabeças para gravar na alta madrugada raras performances de violonistas transmitidas em programas da TVE, TV Cultura e Manchete reprisados em horários pouco convencionais.

Filmava também recitais de violão e apresentações de música instrumental realizados no auditório da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (hoje UFTM), Sala Cecília Palmério da Universidade de Uberaba, Museu de Arte Sacra (Igreja Santa Rita), Conservatório Renato Frateschi… Depois eu “tirava de olho e ouvido”. Essas artimanhas precedem a internet. Com a difusão da rede mundial de computadores (rede descentralizada de informações) tudo ficou mais fácil ou, dependendo da perspectiva, mais difícil, não é mesmo? Depois assisti workshops das edições do Festival Internacional de Violão de Belo Horizonte (aonde anos mais tarde cheguei a tocar). Convivi e toquei desde sempre com bons músicos, a exemplo do meu pai, que é um virtuose. Pratiquei horas a fio em todo lugar (casa, escola, igreja, teatro, estúdio, bar…).

Quando concluí o ensino médio, fiz o vestibular para o bacharelado em Direito, depois uma especialização lato sensu em direito civil e processual civil. Em seguida, um mestrado em direito e instituições políticas. Portanto, a minha formação acadêmica foi noutra área de concentração. Desde sempre busco entretecer Música e Direito, sem licenças poéticas. Trato essa simbiose como uma decorrência da transdisciplinaridade.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Carlos Walter: Fui influenciado desde sempre por universos culturais distintos. O meu embornal é um balaio! Ouvi e ouço de tudo: música barroca, do período romântico, impressionista, serialista, minimalista, étnica, caipira, marcial, choro, baião, samba, valsa, bolero, salsa, jazz, flamenco, rock, blues, eletrônica, instrumental e cantada… Acho que, por osmose, internalizei um pouco da essência de cada uma dessas linguagens. Cada qual tem a sua parcela de valor. Logo, nenhuma deixou de ter a devida importância. Estou sempre ampliando o meu cardápio de apreciação musical, renovando e revisitando influências. Trocando em miúdos, não ouço apenas violonistas e guitarristas. A lista de ídolos é quilométrica, por isso, a resposta foi abrangente e impessoal.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Carlos Walter: Em 1983 comecei tocando com o meu pai e o meu irmão em eventos privativos. O grupo chamava-se The Walters. Nessa época, também foi representativo um recital junto ao meu pai na sede da Sociedade Musical União XV de Novembro de Mariana, MG, berço musical da minha família paterna. Eu tinha 14 anos de idade. Logo depois recebi o meu primeiro cachê, tocando num caminhão-palco na inauguração da UniVerdeCidade de Uberaba com o meu pai Alvaro, o saxofonista Reginaldo Costa e o pianista Daniel Lopes. Em seguida, integrei o Tons in Versus com Kleider Risso, Patrícia Villas Boas e Lucas Guerra, participei dos CDs The Days of Creation de Carlos Perez, Urupê de Sérgio Ramos e não parei mais.

06) RM: Quantos CDs você lançou?

Carlos Walter: Gravo desde 1996 como sideman (músico profissional que é contratado para se apresentar ou gravar com um grupo que não é membro). No seguinte link você encontrará a minha discografia: http://www.carloswalter.com.br/2011/08/cds.html

A partir de 2001 participei de coletâneas como violonista-compositor e violonista-arranjador. Lancei em 2002 o CD – “Sorte” com o Sérgio Ramos, contendo um lindo texto de apresentação do Ian Guest. Em 2014, participei do CD – “Novas 2 – peças brasileiras para violão”, um concurso de composições idealizado pela Elodie Bouny, cujo júri é integrado por ela, Sérgio Assad, Fábio Zanon e Marco Pereira. Em 2015, lancei o meu primeiro álbum autoral com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, o Calendário do (A)Feto – suíte para violão solo com 9 movimentos alusivos aos meses de gestação, concebido ao longo da gravidez do meu primogênito. Segue link com áudios, vídeos, livro de partituras, entrevistas e matérias publicadas por ocasião do lançamento: http://www.carloswalter.com.br/2010/04/blog-post.html

07) RM: Quais os artistas que você já trabalhou?

Carlos Walter: Segue uma lista de músicos com os quais toquei: o saxofonista Alvaro Walter, os violonistas Sérgio Ramos (Duo Mel), Sílvio Carlos (13 Cordas), Geraldo Vianna, Alexandre Gismonti, Elodie Bouny, Humberto Junqueira, Mozart Secundino, Jo Vurchio, Thiago Delegado, Lucas Telles, Yamandú Costa, Juarez Moreira, Guilherme Vincens, Conrado Paulino, Toninho Ramos, os multi-instrumentistas Marcelo Jiran, André Siqueira, Verioca Lherm e Felipe José, os bandolinistas Marcos Frederico, Rubim do Bandolim, Izaías de Almeida, Ian Coury, e Hamilton de Holanda, os trombonistas Marcos Flávio e Zé da Velha, os cantores Paulinho Pedra Azul, Giselle Couto, Lígia Jacques, Aurélie Tyszblat, Babaya, Marcelo Taynara, os cavaquinhistas Waldir Silva, Dudu Braga e Henrique Cazes, o violeiro Fernando Sodré, o gaitista Gabriel Grossi, os pianistas Ian Guest, Maria Inês Guimarães e Rafael Martini o violinista Nicolas Krassik, os percussionistas Oszenclever Camargo, Jack Will, Pernambuco do Pandeiro, Paul Mindy, Ramon Braga, Serginho Silva, Analu Braga, os baixistas Juninho Fiúza, Rômulo Marques, os pistonistas Márcio Walter e Silvério Pontes, os flautistas Dado Prates, Marcela Nunes

Na pandemia do novo corona vírus, estabeleci também novas conexões, gravando vídeos à distância com Paulinho Pedra Azul (https://youtu.be/njkSzHx7NFo), Guilherme Lamas, Juarez Moreira e Alaíde Costa (https://youtu.be/vuirP2wIN_c), Ezequias Lira (https://youtu.be/CRl-9Y5H_fw), Chicó do Céu (https://www.instagram.com/p/CDRRX-jlg7C/?utm_source=ig_web_copy_link), Sílvio Carlos (https://youtu.be/Rx5JtCAq6qU) e Alvaro Walter (https://youtu.be/Xsj39rjT3MM). Em breve, gravarei outros.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Carlos Walter: É oscilante. Às vezes, refém da forma e, até mesmo, da tempestividade (prazo-limite), noutras de insights instantâneos e diacrônicos, ensejados por reflexões poéticas, filosóficas, transversais, não necessariamente musicais. Acontece também desses ingredientes se misturarem. Eis alguns exemplos… Dia desses compus em parceria com o Fernando Chagas o corta-jaca Abrapalavra, um choro bem tradicional, com 3 partes tocadas na forma rondò e quadraturas de 16 compassos. A melodia é preponderantemente tocada na região médio-grave e busca abrigar um pouco daquela atmosfera vivaz de João Pernambuco e Ernesto Nazareth. Foi feita em alguns minutos. O Fernando mostrou-me a 1ª parte. Em seguida dei vazão à 2ª e à 3ª. Já veio semipronta dalgum espaço-tempo transcendental. No dia seguinte, gravei um vídeo tocando-a: https://youtu.be/5Wh5yT3zaEc

Já os 9 movimentos da suíte Calendário do (A)Feto foram compostos ao longo da gestação do meu primogênito, mês a mês. Na série de vídeos: https://www.youtube.com/watch?v=5nTniFA0XJ4&list=PLmBe9uox5Jfn1IQwOfsB35nGH2W0fxtsE, no encarte do CD e no Guitarbook: https://drive.google.com/file/d/1EKb7ZHR6uPvmCVp3iTS9yzGr0lZRluZt/view?usp=sharing descrevo os processos criativos de cada tema.

Vejamos, por exemplo, o que escrevi atinente ao 1º mês: “Valsa em Si maior com a atmosfera dos acalantos de ninar. Uma descentralização de Si perante o chamado existencial da paternidade. O ritmo binário da vida conjugal torna-se ternário, terno, repleto de ternura. O intervalo matrimonial transforma-se num acorde consoante, por vez dissonante: na tríade chama família”. Ou seja, escolhi o tom e o ritmo da música embalado pelo cultismo e conceptismo da literatura barroca: jogos de palavras e ideias.

Existem também aquelas ideias musicais inconclusas que ficam meses ou anos engavetadas e de repente se encaixam num quebra-cabeça a posteriori. Em todo caso, há um elemento transpessoal que não pode faltar: a inspiração! E para saudá-la, cito aqui a canção homônima do Flávio Henrique gravada pelo Paulinho Pedra Azul no álbum “Quarenta”. A letra ilustra com leveza e exatidão particularidades do processo inventivo. Segue o link: https://youtu.be/Crtix1jk-QA e a transcrição: “Quando a inspiração bate na porta / Entra e traz consigo o tempo bom / Faz do sentimento o dom / Traz uma palavra, um som / Traz por um momento / A chave que abre o coração / O elo, a luz, a criação

Quando a inspiração liberta a alma / Ela dá as costas à razão / Solta a imaginação / Leva o sonho pela mão / Traz na mais perfeita harmonia / Devaneio, fantasia, ilusão

Quando ela parte, vai embora / Sai sem avisar, desincorpora / A sensação de invalidez, solidão / De abandono, nostalgia / Invade o corpo, até que um dia /Ela volta e prenuncia outra canção”.

09) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Carlos Walter: Poucos são os temas concebidos em parceria: “Princesa” com Sérgio Ramos, “Alma de Saxofonista” com Fausto Reis, “Abrapalavra” com Fernando Chagas, “Caleidoscópica” com Marcos Frederico, “Sob o Sol, Sob o Luar” com Emílio Victtor, “Fronteiriça” com Marcelo Jiran e 3 temas instrumentais que ganharam letra desse multitalentoso artista, entre outros…

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Carlos Walter: Minha trajetória musical se dá exclusivamente na seara da produção independente. Concentro-me nos prós. Os contras/obstáculos de ordem ética, orçamentária e/ou operacional vou transpondo-os paulatinamente, encarando-os como desafios necessários e transponíveis, que proporcionam evolução. Considero-me um profissional liberal por essência que, na medida do possível, prima pela autonomia. Então, através da produção independente consigo customizar a minha produção musical e imprimir estéticas e estilísticas identitárias, não reféns de modismos ou tendências mercadológicas.

11) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Carlos Walter: Quase tudo que faço, dentro ou fora do palco, é planejado ou decorre de um plano de ações. Antes de iniciar um projeto, analiso-o perguntando-me: Por que? Para que? Para quem? Com quem? Como? Quanto? Quando? No final da enquete, decido se o levarei adiante ou não. Se considerá-lo viável, em seguida, estruturo-o em 3 etapas (idealização, consolidação e desdobramentos). Ao longo desse processo, faço balanços, ajustes, meço custos e benefícios…

12) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Carlos Walter: O desenvolvimento da minha carreira musical está atrelado à minha atuação em várias frentes de trabalho como violonista, compositor, organizador e curador de mostras e festivais, produtor, autor de artigos e livros didáticos, advogado etc. Na medida do possível, entreteço esse caldeirão, estabelecendo uma amarração entre essas ações empreendedoras, por deleite e subsistência.

13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Carlos Walter: Ao meu ver, a rede descentralizada de informações só auxilia. As ferramentas para a difusão de serviços e produtos musicais estão literalmente na palma da mão. A internet desencadeou múltiplas possibilidades de democratização do acesso à cultura. As redes sociais, o WhatsApp, o Telegram, as plataformas de streaming e transmissão ao vivo tornaram-se preciosas aliadas do fazer musical, proporcionando conexões inimagináveis entre artistas e públicos regionais e intercontinentais.

14) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home studio)?

Carlos Walter: Sou otimista por natureza. Então só vejo vantagem na popularização do home studio. Considero-o a reificação do self made man. O quadripé “hardware – software – periférico – acústica” (computador/tablet/celular – aplicativo de gravação e edição – interface de áudio/microfone – ambientação acústica, respectivamente) e uma dose de bom gosto, pesquisa e boa vontade possibilitam milagres sonoros. Além de possuir excelente custo-benefício, se comparado a um estúdio convencional, proporciona ao músico uma imersão nos processos de gravação, mixagem e masterização, competências geralmente delegadas a terceiros. Mas, dependendo da demanda, o recomendável mesmo é gravar no home studio; mixar e masterizar num estúdio corporativo. Ou, até mesmo, fazer tudo num só lugar. Estúdios profissionais normalmente possuem periféricos analógicos e digitais que podem fazer a diferença no arremate final.

15) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que um músico precisa fazer efetivamente para se diferenciar dentro de um nicho musical?

Carlos Walter: “A alma é um mundo à parte em cada peito”. Cada artista tem as suas particularidades e deve buscar dar vazão aos seus potenciais de forma dirigida a públicos especializados. Há espaço para todos. O grande desafio é encontrar e formar esse público, convertendo talento e elementos identitários em serviços e produtos musicais consumíveis por um público cativo e pagante. Além de produzir conteúdo regularmente, o músico deve fomentar o diálogo com as suas redes sociais presenciais e remotas e distribuir a sua obra, física e digitalmente, seja de forma direta e/ou através das agregadoras. Então, para se diferenciar dentro de um nicho musical, o músico deve ser producente, atuante, sociável e os seus serviços e produtos devem ser customizados (personalíssimos).

16) RM: Como você analisa o cenário da música instrumental brasileira. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Carlos Walter: Apesar de nadar contra uma maré predatória e das adversidades maximizadas pela pandemia do novo corona vírus, o cenário da música instrumental brasileira continua em franca expansão, resistindo culturalmente, calcado em práticas coletivas de fomento da produção musical como o crowdfunding e múltiplas possibilidades de distribuição e monetização (links de pagamento, Qr codes etc). Há inúmeras revelações musicais nas duas últimas décadas. Citarei uma a título exemplificativo: Marcelo Jiran, um gênio musical. Sua obra é consistente e está no gerúndio, sob permanente evolução. Os arranjos e a instrumentação do recém lançado álbum Festejo de Yamandú Costa foram realizados por ele: https://youtu.be/_IqOqfmfAEU. Para segui-lo no Youtube, inscrevam-se em seu canal: https://www.youtube.com/user/marcelojiran

17) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Carlos Walter: O conjunto de ações que incidem sobre a composição e o aprendizado de um tema musical, a concretização de um projeto de gravação e circulação de um álbum, a preparação de um material didático, o retorno do público sob a forma de aplausos, falas e mensagens, a aquisição de um novo instrumento, contratos que garantem remunerações mais justas etc são exemplos de situações que proporcionam-me felicidade. Fico triste quando deixo de tocar regularmente em público ou um projeto em curso torna-se descontinuado.

18) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Carlos Walter: Sim. A seguir 3 exemplos de rádios que tocam a minha música sem Jabá: a Rádio Inconfidência (Programa Bazar Maravilham, apresentado por Tutti Maravilha), a Rádio Câmara (Roda de Choro de Ruy Godinho) e a Rádio UEL (Programa Moda de Viola, apresentado por Patrícia Zanin). Neste link, as provas reais desses registros: http://www.carloswalter.com.br/2010/09/radio-entrevista-de-carlos-walter-ao.html. Inclusive, em breve a Brasileiríssima (www.inconfidencia.com.br) veiculará um episódio do programa Mistura Fina só com temas meus e de músicos que admiro.

19) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Carlos Walter: Procuro incentivar, ressaltando ditos populares: “Caminho não há. Caminho se faz ao andar”; “Não espere nada cair do céu”; “Quem faz por si, faz por três”. Indico alguns livros também. Por exemplo: FRANCEZ, Andréa et al. Manual do direito do entretenimento: guia de produção cultural. São Paulo: Senac/Sesc, 2009. MED, Bohumil. Vida de músico não é fácil: pequeno manual de sobrevivência na selva musical – dicas do Bohumil. Brasília: Musimed, 2004. SACKS, Oliver. Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro. São Paulo: Cia das Letras, 2007. SANTOS, Turíbio. Mentiras ou não? Uma quase biografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. Caminhos, encruzilhadas e mistérios… Rio de Janeiro: Artviva Editora, 2014. TAUBKIN, Benjamin. Viver de música: diálogos com artistas brasileiros. São Paulo: Editora BEI, 2011.

20) RM: Nos apresente seus livros.

Carlos Walter: No segmento musical, publiquei: O violão e as linguagens violonísticas do choro (Clube de Autores): https://drive.google.com/file/d/1YH6AHUvB9oT030DFYNFH7LYWr22Ywldx/view?usp=sharing . Calendário do (A)Feto: suíte para violão solo com 9 movimentos alusivos aos meses de gestação: partituras e tablaturas cifradas (Clube de Autores):https://drive.google.com/file/d/1EKb7ZHR6uPvmCVp3iTS9yzGr0lZRluZt/view?usp=sharing

No segmento jurídico, publiquei: Discurso jurídico na democracia: processualidade constitucionalizada (Editora Fórum): http://loja.editoraforum.com.br/pdf/Discurso_jur%C3%ADdico_na_democracia_processualidade_constitucionalizada_Carlos_Walter.pdf

Atuei também como organizador, revisor e/ou colaborador em outros trabalhos: Songbook de Ian Guest (Editora Vitale/Lumiar), Apontamentos sobre Improvisação de Alvaro Walter, No crepúsculo da mocidade: composições  e  arranjos  marciais  de  Aníbal  Walter, Composições e Arranjos de Alvaro Walter (Clube de Autores), entre outros, listados em http://www.carloswalter.com.br/2012/08/livros-artigos.html

21) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Carlos Walter: Existe o dom musical. Defino-o como uma aptidão imanente ao ser cujo florescimento está direta e proporcionalmente relacionado ao grau de dedicação. Cabe ao músico inato adicionar ao seu talento genuíno uma dose cavalar de transpiração. O desenvolvimento de habilidades cognitivas e manuais requer vivências, práticas, pesquisas e estudos continuados. Além de ser o start vocacional, o dom é também aquela chama imaterial acesa que sustenta o gosto pelo fazer musical; e, até mesmo, uma espécie de timbre personalíssimo do portador. Ou seja, um fluxo energético vital, identitário e motivacional que nos encoraja a construir a própria história. É o combustível do ser!

22) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Carlos Walter: Considero a improvisação uma composição instantânea, o retrato sincero de um momento, a resposta espontânea a uma pergunta, um recurso de comunicação que apimenta o discurso musical. Para falar de improviso sobre um tema, é necessário conhecer algo sobre o assunto e, se possível, estar inspirado. Da mesma forma, ao improvisarmos na música, buscamos lançar mão do brainstorm e do background. Isto é, da inspiração e da concatenação de dados sonoros internalizados pela memória (digital, visual e auditiva) como fraseados, escalas, arpejos, cadências, fragmentos melódicos e células rítmicas. Dessa mistura, surgem novas ideias, melodias, progressões harmônicas e variações rítmicas.

23) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista? Quais os métodos que você indica para o estudo de leitura à primeira vista?

Carlos Walter: Não considero a minha leitura fluente ou à primeira vista, pois não faço isso com regularidade. Acredito que outros violonistas também não a tenham em dia. Dependendo da demanda, ler, de forma instantânea, horizontal e verticalmente (em bloco), pode ser complexo. Mas quando preciso recorrer a uma partitura, me viro. Debruço-me sobre esse mapa musical, desenferrujo a leitura, estudo e decoro o texto sonoro. Em todo caso, recomendo o livro abaixo para violonistas e guitarristas que desejam aprimorar essa habilidade:

Exercícios de leitura para guitarristas e violonistas – Nelson Faria. São Paulo: Irmãos Vitale, 2014.

24) RM: Quais os seus projetos futuros?

Carlos Walter: Participo atualmente do desenvolvimento de um violão desmontável com captação hexafônica e outras particularidades. São meus sócios nesse projeto o luthier Gianfranco Fiorini e o violonista Aliéksey Vianna. A eletrônica foi desenvolvida por Matthias Grob da suíça Paradis Guitar. Não há ainda previsão de lançamento.

Atuo também como (co)curador do Sons da Cidade – Mostra Internacional de Violão de Belo Horizonte. A 1ª edição foi realizada em 2019. Por ser um projeto continuado junto ao violonista Fernando Chagas e o Instituto Abrapalavra, pretendemos realizar novas edições com fomentos provindos de editais de incentivo à cultura. Em outubro próximo realizaremos uma versão online pelo Youtube. Fiquem ligados!

Em 2020, durante a pandemia do novo corona vírus, organizei junto aos violonistas Tabajara Belo e o André Siqueira o festival online Violões em Rede, uma série de concertos, bate-papos e workshops remotos que contou com a produção executiva de Alessandro Soares da Produções do Tempo e apoio do Acervo Digital do Violão Brasileiro, Club du Choro de Paris, Cebramusik, Cordas Brasileiras – projeto de extensão da Universidade Estadual de Londrina, dentre outros. Atuaram conosco Alessandro Penezzi, Camilo Carrara, Daniel Murray, Elodie Bouny e Swami Jr.

Desde 2007 integro o 13 Cordas, duo de violões com o violonista de 7 cordas Sílvio Carlos, criado para difundir as linguagens violonísticas do choro. Já tocamos em muitos eventos e espaços culturais, inclusive no Festival de Choro de Paris. Falta-nos gravar pelo menos um álbum. Seguem 2 links de vídeos em homenagem ao centenário de Jacob do Bandolim e Dino 7 Cordas (https://youtu.be/RQmZ8-Qy7FI) e aos 90 anos de Paulinho Nogueira (https://youtu.be/26Th7nenIOk), gravados em espaços icônicos de Belo Horizonte e veiculados pelo Acervo Digital do Violão Brasileiro.

Tenho um repertório debaixo dos dedos para gravar alguns álbuns. Mas prefiro não citar as temáticas para não descumprir o prometido ou frustrar expectativas. Não basta gravar, prensar e subir nas plataformas de streaming. É necessário um planejamento, um conjunto de ações estratégicas, mensurando custos e benefícios etc para que esses produtos sejam divulgados, cheguem no público-alvo, gerem serviços e desdobramentos.

25) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Carlos Walter: www.carloswalter.com.br

/ contato@carloswalter.com.br

/ https://www.youtube.com/user/carloshwalter

/ https://www.instagram.com/carloshwalter/

/ https://www.facebook.com/carloswaltermusico/

/ https://www.facebook.com/carloshumbertowalter

Meses do Calendário do (A)Feto – Carlos Walter: https://www.youtube.com/watch?v=5nTniFA0XJ4&list=PLmBe9uox5JfnuBfPIe7Xjqvn_pZlGLt2s&index=1

Chorajazz – Juarez Moreira e Paulinho Pedra Azul: https://www.youtube.com/watch?v=vuirP2wIN_c 

Carinhoso – Carlos Walter convida Paulinho Pedra Azul: https://www.youtube.com/watch?v=njkSzHx7NFo

 


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
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