Carl I&I

Carl II

A música reggae foi adotada por quase todos os países do mundo. A verdadeira música das raízes jamaicanas, continuou a crescer como um estilo de vida cultural fortemente ligado ao rastafári como o meio preferido de consciência. A história do reggae internacional é contada através da história de muitos artistas não jamaicanos. Carl I&I tem sua própria história para contar.

Carl I&I como todas as crianças brasileiras, ele queria ser um jogador de futebol, mas sua mãe lembra dele cantando em muitas festas familiares em forma de diversão. Carl I&I recebeu sua primeira guitarra aos 17 anos de idade de um amigo que já não queria, por não saber tocá-la. O que levou a um começo musical inesperado. Ao crescer, recorda ter ouvido música negra, música brasileira, o que resultou em sua introdução a Bob Marley & the Wailers.

Aos 19 anos, CarlI&I começou a frequentar festas onde seus amigos tocavam uma mistura de reggae, rap e rock, promovendo seu amor pela música e busca do reggae raiz. Em 1999, Carl I&I começou a banda, “Deep Roots” tocando covers de Bob Marley, “Ponto de Equilíbrio”, “Tribo de Jah” e tantos outros artistas de reggae brasileiros. Alguns anos mais tarde, depois de mudar o nome para “Cerrado Manjah”, a banda fez muitos shows em sua cidade natal.

Em 2004, Carl I&I se mudou para Londres, Inglaterra. Depois de estarem entre africanos e jamaicanos rastafáris, aprofundando seus conhecimentos desta cultura e deixaram crescer seus dreadlocks, como forma de estilo de vida. Como artista ainda buscava a excelência reggae, experimentou uma sensação de vazio e frustração. Carl I&I foi para a Espanha, onde formou sua banda “Gwa Ya”, em que ainda dirige e atua com estilo em alto nível por toda Europa. E, agora sigo no País Basco, onde reside.

Em 2020, lançou seu primeiro álbum solo “Raízes Tupiniquins”, que foi gravado por Sergio Campomanes no estúdio Positive Vibz em Madri – Espanha. Nove músicas com mescla de estilo, com base no reggae raiz, Stepper, ska, Rockysteady. Ele considera que expressou seu melhor desempenho e deixando um sentimento poderoso que aprendeu sobre a música reggae todos esses anos tocando e cantando, em diferentes países.

Um belo álbum com a participação e contribuição de artistas como Maga Lion e Mary Jane (Emeterians – Espanha), Paulo Dionísio (Produto Nacional – Brasil), Ras Makalox (Road to Zion – Luxembourg), Caio Stuart (Brasil), Leo Roots (Brasil), Julio Weber (Brasil). Agora está desejando novas experiências e aprendizados, com a esperança de atuar em várias partes do mundo com seu primeiro álbum “Raízes Tupiniquins”, que mostra o poder real da música reggae e sua Cultura,tanto em formatos Sound System, acústicos e com banda.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Carl I&I para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 02.10.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

CARL I&I: Nasci no dia 20.06.1982. Fui registrado como Carlyle de Queiroz  em Goiânia – Goiás, apesar de ter vivido parte da minha infância em São Paulo, no Pará e no interior de Goiás, pelo trabalho que tinha meu pai. Mas logo voltamos a Goiânia, quando tinha 7 ou 8 anos de idade e fiquei até 21 anos de idade até mudar para Europa, passei por Inglaterra e moro na Espanha, atualmente.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

CARL I&I: Quando falo de música, lembro sempre do meu avô com a Sanfona na varanda da sua casa, com os netos sentados em volta, cantando. Mas meu primeiro instrumento só comecei tocar aos 17 anos de idade era uma guitarra de um amigo de um amigo meu (risos), que tinha deixado na casa dele e só parei de tocar quando ele a pediu de volta (risos).

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

CARL I&I: Tenho minha formação Universitária em Administração em Turismo. Minha formação musical, sigo aprendendo coisas no dia a dia. Frequento, sempre que possível, aulas de técnicas vocais. Já tive aulas de Piano e Violão, que ainda tenho muito que aprender.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

CARL I&I: Minhas influências são bem ecléticas. Sou de Goiás e lá não tem como fugir da música Sertaneja (risos). Meu pai sempre colecionou discos de Vinil, na minha casa sempre escutávamos The Beatles, Creedence, Rolling Stones, Djavan, Gilberto Gil.

Até eu me apaixonar pela música negra, e consequentemente o reggae de Bob Marley, Tribo de Jah, Edson Gomes e muito outros artistas brasileiros. Todos tiveram uma importância em diferentes etapas de minha vida. Cada música ou estilo tiro algo positivo, para seguir evoluindo nesse meio e ser um artista melhor.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

CARL I&I: Minha carreira musical começou meio tardia, a princípio era um hobby e foquei terminar meus estudos antes de sair do Brasil, a música era algo secundário. Até chegar o ponto de sentir-me preparado, capacitado e feliz para entrar nesse mundo que é muito complicado e vaidoso. São pouco profissionais que podem sobreviver 100% só com a música, ainda mais no estilo reggae.

Mas, estamos buscando esse espaço que Jah nos deixou. Em 2013 os compromissos com a música começaram ser mais sérios e mudei minhas atitudes para uma maneira mais profissional. Meu nome artístico CARLI&I é o um jogo de palavras entre meu nome verdadeiro e a expressão na cultura rastafári I&I (Eu & EU) em português.

É uma expressão usada como forma intima, espiritual no encontro com Jah (Deus), e usado nas músicas reggae. Tenho um nome de origem britânica “Carlyle”, que pronuncia mais ou menos “CARLAILI”, então foi juntar essas duas palavras. Que seria a pronuncia correta… é CARLAI & AI.

06) RM: Quantos CDs lançados?

CARL I&I: Tenho três CDs lançados. Dois com a banda “Gwa Ya” do Norte da Espanha, em que sou Vocalista. Em 2015, gravamos “Indivíduos de la misma Especie”. Com sucessos como: “What we plant today”, “GwaYa Reggae”, “Ashes” e “Skatan´go” .Em 2019, gravamos “Kukula”. Que começou com single “refugee”, que fizemos para participar de um festival, para arrecadar fundos aos imigrigantes que chegavam na Europa.

E no cd com 10 músicas pode encontrar, ritmos de peso como “Nattydread” e também uma batida lovers como: “Feeling” e “Sweet Love”. Em 2020 gravei “Raízes Tupiniquins”, como noves faixas, cantadas em português e inglês. Meu primeiro disco solo, que dá início a uma carreira paralela a banda “Gwa Ya”.

São álbuns totalmente diferente um do outro, com uma evolução significativa, como músico e profissionalmente. Sinto-me muito realizado com o lançamento solo e estou muito feliz com o resultado final, que pude demonstrar meu lado mais pessoal através das músicas. Recomendo todos e todas a escutarem meu CD, claro, (risos) é um prato cheio para os amantes da música reggae em geral, com reggae roots, stepper, ska, rocksteady e muito mais.

Os dois clipes lançado de “A paz que você me traz” e ” Selva de Pedra”, são muito bonitos e estão sendo muito bem aceitos pelos amantes da música reggae. Tocada nas principais rádios reggae do país. Tem outros dois vídeos “lyrics” de “Meditação” e “Road to Lord” no meu canal do Youtube “CarlI&I”. Em 2020 quero lançar mais dois novos vídeos clipes, se essa pandemia louca do tal corona vírus nos permitir. Também, podem escutar todas essas músicas nas principais plataformas musicais mundiais.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

CARL I&I: Um estilo em evolução, que gosta de cantar o amor, a verdade, ser reivindicativo com linguagem simples e que possa ser escutada por todas as idades, culturas, sexo e religião. Em que as pessoas possam conhecer como sou através das minhas canções, que expressam a realidade de muitas pessoas.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

CARL I&I: Sim, sigo estudando. Tenho a sorte de ter ao lado da minha casa, uma Escola Municipal de Música. Que todos anos faço a matrícula em algo diferente. (risos). Nem sempre posso terminar, por outros compromissos, mas sempre estou buscando algo que possa me completar.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

CARL I&I: Para os cantores a VOZ é um instrumento de trabalho. Então, quanto mais você aprende usar a Voz mais você quer aprender, para fazer coisas diferente e seguir crescendo. É como ir na academia. Você precisar exercitar, vários músculos diários e a respiração para executar notas o melhor possível.  E cuidar da Voz, deveria ser obrigado nas escolas. Poucos valorizam esse dom de Jah. Eu não bebo bebidas alcoólicas, não fumo. Em épocas de shows não bebo nada frio. A voz necessita de todo corpo em condições ótimas, para ser algo em harmonia.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

CARL I&I: Sempre gostei de ouvir Michael Jackson, Bob Marley, Tony Garrido, Jannis Joplin, Tom Jobim, Dennis Brown, Alpha Blondy, Gilberto Gil, Gregory Isaacs e muitos outros…

11) RM: Como é o seu processo de compor?

CARL I&I: Geralmente eu espero a inspiração chegar, não vou detrás dela. Tem que ser algo natural, sento com meu Violão, muitas vezes,arrisco e tento fazer algo no Piano ou escrever algo. E, quando consigo juntar as duas coisas é quando começo a “processar”, como vai ser.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

CARL I&I: Por sorte, não tenho um parceiro fixo para compor. A parte do meu companheiro de sempre, o meu Violão (risos). Sempre tive o privilégio de estar cercado de bons músicos e de gente interessado pelas coisas que faço, então depende do momento e lugar. Meu recente disco é um reflexo do que eu estou falando.

Tem a participação de três produtores diferentes: Caio Stuart, Sergio Campomanes, Leo Roots Negus e vários músicos, cantores, que tive o prazer de convidar para fazer parte. E meus parceiros da banda “Gwa Ya”, Ramón Diaz, Miguel Lekeitown, Victor Gomez, Txema Suarez, Iñaki Ria, Ibai Madaria. Que muitas das vezes, são responsáveis de fazer minhas letras virarem músicas.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas? 

CARL I&I: A BANDA B. KINGS, do Rio Grande do Sul, muito recente agora, fizeram uma versão da minha música a “A PAZ QUE VOCÊ ME TRAZ”. Oficialmente para um álbum não tive o prazer de escutar ninguém cantando uma música minha mas quem sabe um futuro. Apesar de eu contribuir com letras e composições para alguns artistas.

E no meu disco, tenho a participação especial do Ras Makalox de Cabo Verde, que canta uma letra minha na música, “Luz de Jah” e também o grande ícone do reggae brasileiro, Paulo Dionísio da banda “Produto Nacional”, do Rio Grande do Sul que fez uma adaptação em outra música minha “Tempos de Revolução”.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

CARL I&I: Muitas vezes é um “tiro no escuro né?”. Mas o bom é que você tem liberdade pra controlar tudo o que faz, horários, composições e valores. O mal é que não sabe, quando vai recuperar o que normalmente se investe financeiramente, sobre tudo. E não poder contar com esse apoio financeiro fixo, talvez seja a pior parte.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

CARL I&I: Planejo o ano em duas partes: verão e inverno. No inverno trato mais de temas burocráticos, composições, gravações e busca por investidores/patrocinadores. Para que durante o verão eu possa me concentrar ao máximo de shows possíveis. E, também respeito, meu momento familiar, que é meu momento de recuperar folego para começar tudo de novo.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

CARL I&I: Eu sempre estou em contato com pessoas e músicos que temos algo em comum e que acreditam nos meus projetos de uma maneira verdadeira, não só pelos benefícios. Que a final de contas, eles me ajudaram, quando podem claro, no processo de divulgação. Uma espécie de marketing natural(risos). Para poder seguir avançando. Uso de “merchansing”, camisetas, discos e etc. Em momentos estratégicos, contratamos alguma agência publicitária, que possa ajudar impulsionar nosso trabalho.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

CARL I&I: Hoje em dia chegamos em uma velocidade tremenda nas casas das pessoas através da Internet. Com várias ferramentas gratuitas, que grande parte da população tem acesso e podemos interagir com eles.

Em 2020 com a pandemia mundial por causa do novo corona vírus, as “lives” passaram a ser algo muito utilizado por artista para se manter ativo e estar “perto” do seu público. O “mal” é que você está muito mais exposto a todo tipo de comentário e tem que ter a cabeça boa para poder superar e seguir em frente. Talvez, uma frase mal interpretada ou uma foto manipulada, pode ser um grande problema.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

CARL I&I: As vantagens é que você pode colocar uma ideia de produção musical em prática muito mais rápido e desenvolvê-la sem precisar de muito recursos. As desvantagens muita das vezes é não saber usar as ferramentas necessárias de maneira correta, por isso sempre é bom passar na mão de algum profissional antes de publicar a músicas.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

CARL I&I: A concorrência sempre existiu, não tem como fugir dela. E, nos serve para melhorar também, seguir amadurecendo e crescendo. Dizia-me um professor da Universidade que, “tudo está inventado já, você só tem que melhorar”. Então sempre acreditei no meu potencial, nas minhas virtudes e as pessoas me respeitam pelo que sou e sabe que, não estou fazendo nenhum “teatro”.

Obviamente, sei separar o que é o CarlI&I nos palcos e o Carlyle na rua ou na minha casa.Minhas letras são bem cuidadas, sempre penso bem no que escrevo para chegar nas pessoas que mais precisam. No, meu recente álbum tenho letras escritas quando tinha 20 anos. Hoje sou pai e quero que meus filhos possam ter orgulho das coisas que escutam nas minhas músicas e possa ser uma grande herança. Sei que todos e todas tem seu lugar ao Sol basta ir passo a passo honestamente.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

CARL I&I: Cada dia e a cada minuto surge um fenômeno no Brasil o problema é que muitos não tem constância, podem ser por falta de apoio ou até mesmo por não ser bem “administrada“ a fama repentina.  De repente, hoje se escuta por todo lugar que vai e amanhã ninguém sabe o que foi feito.

Gosto muito de acompanhar a novidade e saber se houve evolução e aprender. E, serve para os da velha guarda não ficar acomodada também. Agora as obras consistentes e regressões deixo com vocês da mídia (risos). Meu negócio é cantar.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

CARL I&I: Eu sempre fui fã do Gilberto Gil. É um profissional que acreditou na sua vocação sempre, independentemente de qualquer coisa e situação, enfrentou a tudo e a todos com a música. E evoluiu musicalmente e artisticamente durante os anos.

Gilberto Gil é respeitado mundialmente e é capaz de tocar reggae e jazz em uma sessão para o mesmo público. Conseguiu tudo através da arte, foi nosso grande representante no Ministério da Cultura, também. E, sempre está aberto a coisas novas. É, um grande espelho para nova geração.

Tony Garrido que tive o prazer de acompanhar, quase desde do início da sua carreira musical. Gosto muito como aproveitou sempre as oportunidades, desde quando entrou no Cidade Negra, até suas palavras medidas em entrevistas, ou algum papel em um filme.

Até mesmo o Paulo Dionísio, grande maestro, que tudo que já viveu e vive no reggae, sua forma como entrou na musica e vivê-la, de tocar com os melhores e é um cara humilde e sabe respeitar a todos. Por sorte, tive a honra de ter sua voz e arte no meu disco, Raízes Tupiniquins.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

CARL I&I: Tenho muitas situações vividas por sortes, a música sempre nos proporciona algo inesperado durante os shows. Lembro que uma vez tocamos em local que o palco era tão pequeno, que só a bateria e a percussão já tinham ocupado quase tudo. Antes éramos um trio vocal e os três ficaram embaixo e o tecladista teve que ficar no corredor do banheiro, ele tinha que afastar toda vez para o pessoal passar (risos).

Também, teve a situação de ir a outros países e o contratante não cumprir com o prometido e tivemos que de última hora procurar outros lugares para poder recuperar os gastos. Na Europa, as pessoas vivem o reggae de outra maneira, o publico custa mais a entregar-se, você tem que se esforçar muito para chamar a atenção da galera, diferente no Brasil, que até mesmo antes de começar a galera já está dançando (risos).

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

CARL I&I: Minha carreira musical sempre foi muito progressiva e sou feliz e agradecido as pessoas que pude conhecer e aprender através da música. A final é parte de mim e fez eu entender a vida de outra forma também, porque sou público e vou aos shows e sei o que se sente quando se sobe no palco, então é bonito viver isso, dos dois lados.

A parte triste é que a vida social dos artistas se resume em viagens, estradas, hotéis e palco. Temos que abdicar da família, dos amigos e muitas coisas que gosto de fazer também. Muitos pensam que a vida do artista é mil maravilhas, que é só curtição, que ganham a vida fácil para estar uma hora cantando. Mas, poucos sabem o que tem por trás de tudo antes do show: horas de ensaios, horas fora de casa etc.

Um show é a ponta do “Iceberg”. Ainda existem muitas pessoas que querem somente aproveitar do artista quando está no auge e quando estão por baixo são poucos que te ajudam a se levantar.

24) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

CARL I&I: Para o artista independente é uma missão quase impossível. O jabá é “necessário” para comercialização de ambas partes. É uma triste realidade, sabemos que as rádios tem que sobreviver também. Mas acho que poderiam existir apoio a essa parte fora da grande mídia também. E para o artista da música reggae então, nem te falo (risos).  Por sorte hoje em dia existem muitas rádios independentes também que dá um apoio e alimentam nossa ilusão.

25) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

CARL I&I: Eu digo que se preparem o máximo, que vivam a música intensamente a cada momento, porque tudo é aprendizado. Aprendam de tudo, novas técnicas, produção, agendamento, administração, para não se torna um boneco de fantoche nas mãos dos aproveitadores. Que sejam verdadeiros com seu público e que acreditem nos seus ideais que isso será seu grande diferencial.

26) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

CARL I&I: Voltamos ao jabá das rádios né? Na televisão funciona igual também (risos). Entendo, que  traz mais benefícios dar atenção aos que dão retorno rápido, do que acreditar no sonho de alguém e não tiro o mérito de ninguém. Mas tem muitos programas, artistas e músicos que estão desperdiçados por não ter nenhum tipo de oportunidade.  Como dizia a canção, “o poder é para quem tem o dinheiro e o dinheiro é para os que tem poder”. 

27) RM: Como você analisa o cenário do reggae no Brasil. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

CARL I&I: Eu diria que hoje em dia a cena reggae é mais “forte” pela quantidade de bandas, Sound System, rádios de reggae e festivais que foram crescendo durante os últimos anos. O duro é que os que estão no topo hoje, facilmente se esquecem que estiveram um dia por baixo. A “Babilônia”, sabe jogar com nossas fraquezas. Aquele apoio para as pequenas bandas, cada vez menos se vê. Antes era bonito ver uma banda local, abrir um show de uma banda conhecida. Hoje se não tem uma banda local, os mais famosos até preferem.

É mais fácil, muitas bandas pequenas juntarem e  promoverem pequenos Festivais de Música, para poder estar ativos.

As bandas que acompanhei e acompanho nas últimas décadas como “Ponto de Equilíbrio”, “Mato Seco” foram as que mais progressão tiveram no cenário reggae. São bandas constantes com presença quase que obrigatória em todos Festivais. Souberam adaptar-se as circunstâncias e seguir em frente.  Agora outra banda que gosto e já não vejo muita coisa sobre ela: Planta & Raiz.

Outra banda talvez por falta de investimento ou consolidação, seria a banda Arawaks de Pirenópolis – Goiás, tiveram um começo muito promissor com letras consciente e reggae raiz tremendo. Hoje tiveram que adaptar aos meios com redução de banda e até criação de Sound System para seguir ativos. Máximo respeito a todos, tem muitas bandas que gostaria de citar nomes, mas sei que não é fácil o caminho.

28) RM: Você é Rastafári?

CARL I&I: Essa é uma boa pergunta. Como fomos uma colônia europeia, tive a criação Católica. Por “sorte” Espanha é o terceiro país que vivo e tive o prazer de conhecer muita gente com diversas nacionalidades, culturas e religiões. E aprendi que o respeito ao próximo e o mais importante em cima de qualquer ato religioso. Convivi com pessoas ligado ao Rastafári na Inglaterra, na Espanha e no Brasil.

E tive o prazer de aprender sobre essa cultura e sigo aprendendo. Hoje eu prefiro ficar com o bom de cada ensinamento, evitar as segregações e dizer que o meu é melhor que o seu. Ou só que meu Deus salva. É importante ter fé, porque te move, inspira e é uma força mais para superar situações adversas.  Nossos antepassados acreditavam que a Lua, o Sol, o Mar era o seu Deus e também é.

Cada um vê Deus de uma forma, nossa imagem semelhança, Eu&EU, é ter esse momento intimo né? Poder falar com essa força, Jah, Deus, Budah, Alah, Jeová ou qualquer outra expressão que você use, se não tem fé e respeito, não valem pra nada.  Se uma doutrina te ensina a discriminar os que não são do mesmo, estamos no caminho errado. Eu sou um seguidor da Palavra. A espiritualidade é meu caminho.

29) RM: Alguns adeptos da religião Rastafári afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como vocês analisam tal afirmação?

CARL I&I: Acho que é uma afirmação precipitada. O reggae não deixa de ser um ritmo, como Hip Hop, Rap, Rock, Bossa, Samba etc. O único que o lado espiritual desse ritmo tomou força através das expressões Rastafári, usada a princípio, em muitas canções de Bob Marley.

Seria o lado “gospel” desse ritmo, mas o reggae pode ser expressado de muitas formas, ele canta o amor, a natureza, a harmonia e também e muito reivindicativo é um ritmo da massa, do povo, dos guetos. Por isso se tornou um patrimônio cultural da humanidade.  Somos um só amor!

30) RM: Na sua opinião quais os motivos da cena reggae no Brasil não ter o mesmo prestígio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral?

CARL I&I: Por eu viver os dois lados da moeda e os dois lados do atlântico, posso afirmar que a palavra prestígio é muito relativa. A cena reggae no Brasil é muito forte, as pessoas vivem com amor e muita intensidade, os shows são muito intensos e calorosos. Os músicos em geral do Brasil são muito respeitados aqui fora e de reggae também, somos abençoados por ter uma mistura de raças muito rica.

Os ritmos africanos são muito presente na nossa música. Assim como no reggae. O problema é que o reggae tem essa discriminação ainda, as pessoas relacionam com drogas e muito mais. Mas posso afirmar que como qualquer outro gênero musical, esse problema existe, por não dizer pior. Mas isso é outro assunto à parte.

Como você mesmo citou Europa e EUA, tem as moedas mais fortes do mundo e infelizmente as pessoas relacionam isso com prestígio. E aqui se paga bem quem está no topo, como no Brasil. Talvez aqui as coisas sejam mais acessíveis que no Brasil aos músicos, mas o caminho aqui não é fácil.

31) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

CARL I&I: Existem pessoas que se identificam mais com a música que outras. Ou que tem mais facilidade em aprender algo. Como tudo na vida, esse “dom” pode ser melhor expressado. Existe o esforço, dedicação e abrir mão de muitas coisas para poder se expressar musicalmente. Qualquer um pode tocar um instrumento, tambor, flauta, guitarra, mas sem constância não tem avanço.

A música pode ser sua melhor companhia, ela está em todo lugar, e uma criação divina, é vida. Está presente desde do ventre da mãe na batida do seu coração. Mas como tudo tem um limite, as vezes não se pode ensinar um elefante a subir em uma árvore, todos nos temos algo que fazemos melhor.

32) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

CARL I&I: Os Festivais de Música são muito interessantes, pois é um meio de reunir muitas pessoas com muitas coisas em comum. Nesse ambiente sempre nos identificamos logo no primeiro momento com sensação de estar em “casa”. É uma forma de conhecer muitos artistas. O mal hoje em dia, que a rotação de grupos é muito escassa. Os grandes Festivais, necessitam do capital e sempre apostam pelo seguro, quase não arriscam em apostar em grupos que estão começando mesmo tendo muito potencial.

33) RM: Festivais de Música revelam novos talentos?

CARL I&I: Eu acredito que sim, sabemos que tem muitas coisas por trás para estar nos principais Festivais de Música. Mas os Festivais sempre tem uma surpresa agradável e que te deixa com a sensação de ter descoberto algo novo. Existem muitas bandas, artistas e músicos que estão no mercado e não sabemos. Os festivais e musicas, são como as classes sociais, cada um está em um padrão. Depende do investimento e publicidade que se dá.

34) RM: Quais os pros e contras de se apresentar com o formato Sound System?

CARL I&I: O formato Sound System sempre foi conhecido na Jamaica por ser algo mais improvisado, quando a “irmandade” as famosas “Foundations” que se reúnem para mostrar suas músicas ou até improvisar letras em cima de “riddim” de alguns produtores. Assim saíram grandes artistas. Apesar de ser algo mais mecânico, também existe essa liberdade de expressar da maneira que quiser.

Os artistas que não tem condições de pagar uma banda usam esse formato com algum “Disc Jockey” soltando as bases instrumentais, daí que surgiu em todo mundo o “DJ”. Uma maneira útil de manter ativo e ter essa interação com o público.

Diria que os contra é “toda parafernália” que você tem que carregar se não tem algum contratante (risos). São muitas caixas de som, com agudos, graves e médios mais tocadores de discos, mesa de som, notebook etc. Tive o prazer de ver apresentações em diversas parte do mundo e cada um faz o seu estilo e “vibes” distintas.

No Brasil existe uma cultura que cada dia cresce mais nesse formato Sound System, no Maranhão as famosas “Radiolas” tem umas estruturas invejáveis e também vários seguimentos no resto do Brasil.

35) RM: Quais as diferenças de se apresentar com banda em relação ao formato com Sound System?

CARL I&I: Por sorte tenho o prazer de usufruir dos dois formatos e até mesmo o formato acústicos. E posso afirmar que são “vibes”, totalmente diferentes. Sempre tive o prazer de tocar com bandas e as vezes no Sound System não ter esse apoio de músicos é algo estranho.

Com a banda estamos toda semana ensaiando e cada um se dedica ao máximo sabendo o que tem que fazer e quando algo sai fora, todos nós nos olhamos, mas o show não pode parar né?! (risos). É algo mais homogêneo, em que os instrumentos estão em uma sintonia e volumes iguais.

No Sound System, como é algo mais mecânico, o cantor se expressa melhor, sabendo que a base da música não vai falhar, o DJ, que me acompanha, é importante ele ter uma sintonia para colocar os efeitos nos momentos adequados, poder sentir os graves e agudos nos momentos adequados também e tirar algum instrumentos, em algumas partes, se caso queiram fazer alguns “DUBs” ao vivo, é bonito ver as diferenças dos dois formatos quando são bem feitos.

Até mesmo no acústico que citei anteriormente, tem que fazer adaptações, arranjos diferentes para as músicas, mudar os ritmos e os “beats” as vezes, para ter essa harmonia mais tranquila.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

CARL I&I: Agora estou trabalhando a divulgação do meu disco “Raízes Tupiniquins” e quero sair pela Europa e chegar no Brasil com esse projeto bem consolidado. Agora fazendo planos e adaptações ao caos mundial, devido a Pandemia do Covid-19. Com a banda “Gwa Ya” tivemos nossos shows todos cancelados, infelizmente, e passaremos esse verão europeu de “férias” forçadas.

Nossos ensaios estão comprometidos também pelo número de pessoas em locais fechados e estamos buscando maneira mais adequadas. Assim que CARL I&I, está em ascensão, aproveito para iniciar dois novos vídeos clipes, que quero terminar esse ano, se Jah quiser e quem sabe o lançamento de um novo “single”, que já está de caminho. Atualizarei todos interessados e meu público fiel pelas redes sociais.

37) RM: Carl I&I, Quais seus contatos para show e para os fãs?

CARL I&I: Agradeço a Ritmos  Melodia pelo espaço e por sempre estar ajudando os artista de diferentes estilos musicais e especialmente a Antonio Carlos, por essa prazerosa entrevista. Agradeço a todos e todas pelo apoio sempre, por estar ao meu lado, escutando, partilhando minhas músicas e me incentivando para seguir vivendo esse sonho. Aproveito para convidar empresários e promotores para conhecer meu trabalho. Que a música não pare, damos graças a vida! Jah os abençoe! Bless&Love

Principais contatos: + 034 619 291 185 / carlmusic.com.br/ [email protected] /

 https://www.instagram.com/carlyle_vibz /

https://spoti.fi/3cE7RgT

 https://web.facebook.com/carlyle.filho / https://www.youtube.com/watch?v=jOl7JEiWATk

/ https://twitter.com/carlyle_fi  

Carl I&I – A Paz Que Você Me Traz (OFFICIAL MUSIC VIDEO): https://www.youtube.com/watch?v=XU94Jc4NOVU

Carl I&I – Meditação (Meditation) [OFFICIAL LYRIC VIDEO 2020]: https://www.youtube.com/watch?v=HMSq3d4WnrU

Carl I&I – Road to Lord (OFFICIAL LYRIC VIDEO 2020) Álbum Raízes Tupiniquins: https://www.youtube.com/watch?v=6EO9qHrtVDc

CarlI&I Ft. Gwa Ya Band – What We Plant Today: https://www.youtube.com/watch?v=olfFPauHOFU

CarlI&I feat Gwa Ya band – Refugee: https://www.youtube.com/watch?v=pMDEivoFA7U

1º DESAFIO DE BANDAS URG – B Kings canta “A Paz Que Você Me Traz” do Carl I&I: https://www.youtube.com/watch?v=RO0qlcInrsM


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.