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Categorias: Entrevistas

Bruno Marinheiro


Lançamento no dia 04/03/2022 do single “Jesus, Alegria dos Homens”, por Bruno Marinheiro nas plataformas de streaming e estreia de clipe no YouTube.

O multi-instrumentista paulistano Bruno Marinheiro escolhe a singela obra “Jesus, Alegria dos Homens”, do alemão J. S. Bach, para estrear nas plataformas digitais sua nova fase como produtor, porém agora fonográfico, pois já atuava como produtor do projeto Violadas, pelo coletivo PaVio – Paraíba Violões.

Além deste, outros lançamentos estão planejados ao longo dos próximos meses. Dentre os lançamentos estão mais obras para violão solo, produções de artistas independentes e beats lo-fi em que o artista busca a integração entre o som eletrônico e os sons acústicos das cordas dedilhadas.

Bruno Marinheiro tem no violão seu instrumento principal, mas também toca guitarra, bandolim, charango e percussões. Eclético, estuda e cria obras e interpretações em diversos gêneros como o violão de concerto, erudito ou popular, arranjos de Jazz e violão fingerstyle percussivo, bem como seus mais recentes estudos sobre beats acústicos.

Persegue a interconexão de sentidos entre as diversas manifestações musicais e a experiência humana, com todas suas nuances e complexidades. Suas performances são entremeadas com humor, conhecimento, histórias e reflexões que sintonizam a razão e os sentidos na vibração dos afetos transmitidos pela música. Foi professor substituto do Departamento de Música da UFPB em 2008, época em que também começou seu trabalho no que viria a ser a PaVio. Após 4 anos afastado do violão, venceu rara e incapacitante condição de saúde, especialmente no caso de músicos.

Em seu retorno aos palcos fundou, em 2012 a Camerata Filipeia, grupo em que atuou principalmente como bandolinista, charanguista, arranjador e produtor. Com menos de um ano de estrada, o grupo participou dos festivais de inverno de Areia e Garanhuns, Projeto da Academia Pernambucana de Letras e Conservatório Pernambucano e Evento Internacional UFPB-USP. O grupo também foi agraciado com aprovação de projeto para gravação de álbum no FIC 2015.

Durante seu período afastado do violão, iniciou seu trabalho de produção musical através da PaVio – Paraíba Violões, coletivo do qual é um dos fundadores, e que visa promover e dar destaque ao violão e violonistas, especialmente os da Paraíba. Pela PaVio produziu mais de 70 edições do projeto Violadas, maior série de violão do Nordeste na última década, além de produzir em 2011 o Quaternaglia Guitar Quartet, o mais prestigiado quarteto de violão clássico do Brasil e, em 2015, o Duo Assad, um dos mais importantes e influentes duos de violão de todos os tempos.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Bruno Marinheiro para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 04.03.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Bruno Marinheiro: Nasci no dia 23/07/1982 em São Paulo – SP. Registrado como Bruno Xavier Marinheiro de Oliveira Costa.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Bruno Marinheiro: Não lembro exatamente, mas as memórias mais antigas que tenho em relação a música são de brincar com a vitrola que tínhamos em São Paulo. Ouvia discos infantis, também lembro de discos de Belchior. O meu pai Antonio de Pádua era meio que sósia dele e eu pensava que a pessoa na capa do disco era o meu pai.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Bruno Marinheiro: Sou técnico em informática pelo CEFET (hoje IFPB – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba) e iniciei graduação em Ciências da Computação antes de entrar na graduação em música. Trabalhei vários anos como programador. Em 2007 graduei-me em Música e mestre pela UFPB – Universidade Federal da Paraíba.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Bruno Marinheiro: Legião Urbana foi a influência da adolescência. Quando comecei a tocar, já com quase 18 anos, pegava muitas músicas cifradas da Legião Urbana para tocar com os amigos. No violão minha principal referência é Julian Bream. Também me inspiram muito Vivaldi, Beethoven, Bach, The Beatles, Queen, Garoto.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Bruno Marinheiro: Minha carreira foi bem diferente. Comecei aqui em João Pessoa – PB, quando fui chamado para uma banda que precisava de um violonista. Era uma banda que já tinha um tempo, mas cheia de problemas. Essa já era a enésima formação. Depois dessa apresentação brigaram de novo e terminou. Decidi estudar música. Ao me formar fui professor substituto na UFPB – Universidade Federal da Paraíba, mas com 6 meses de contrato manifestei uma síndrome chamada distonia focal do músico. Passei 4 anos afastado do instrumento. Nesse período comecei a produzir eventos aqui em João Pessoa, especialmente o projeto Violadas em 2010. É um projeto totalmente independente, sem aporte de verba. Mesmo assim conseguimos parcerias importantes e colocamos a Paraíba e outras cidades do Nordeste na rota dos grandes concertistas de violão do mundo. Nesse meio tempo formei um grupo chamado Camerata Filipeia, composto de 5 violonistas, mas tocando outros instrumentos. Eu tocava bandolim e charango no grupo. Minha carreira ficou meio bagunçada nesse meio entre violonista, produtor, etc. Agora que estou dando um rumo mais voltado a produção, gravação, etc.

06) RM: Quantos CDs lançados? Cite alguns CDs que já participou como violonista?

Bruno Marinheiro: Não gravei CDs. Já fiz pontas em gravações feitas em projetos do Departamento de Mídia Digital da UFPB, fiz registros com parceiros, mas não lançados em CD. Dia 04/03/2022 lancei meu primeiro single “Jesus, Alegria dos Homens de Bach”, nas plataformas digitais e em vídeo no YouTube. Tudo produzido por mim, desde a pré-produção até a gravação de áudio, vídeo, fotografia, campanha de lançamento.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Bruno Marinheiro: Acho difícil definir pois gosto de diversas manifestações, e minhas criações acabam cada uma saindo com uma cara, desde forró, passando por vinhetas e jingles, música para teatro, beats lo fi, canções pop rock.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Bruno Marinheiro: Cada caso é um caso. Às vezes vem uma ideia de um trecho de letra que vai sendo trabalhada aos poucos. Às vezes é uma sequência de acordes. Alguns casos vão fluindo. Em outros empaca, aí parto para processos mais analíticos, de escrever o que já criei e ir decompondo, criando motivos a partir daqueles primeiros, etc.

09) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Bruno Marinheiro: O lado bom é que você não precisa ficar mais esperando uma gravadora, uma rádio, ou seja lá quem for abrir as portas. O lado ruim é que toda uma gama gigantesca de atividades recai nas suas costas. Você até pode pagar para fazer suas fotos, clipe, etc. Mas a depender do gênero/estilo, não se tem um retorno direto. É preciso monetizar em cima de outras coisas. Mas aí entra a questão de tempo: fazendo tantas coisas (música, interpretação, gravar áudio, vídeo, marketing, etc) fica difícil ter tempo para cuidar desse lado business. 

10) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Bruno Marinheiro: Hoje, depois de dar muito murro em ponta de faca, e em questão da idade e de ter um trabalho que me prende em um escritório, meu planejamento é agregar parceiros, continuar produzindo o projeto Violadas e, em paralelo, gravar as minhas interpretações e minhas composições, produzir artistas independentes, fazendo uma sinergia entre esses projetos, de forma a crescer meu nome como produtor, ajudar os colegas que por sua vez vão acabar levando meu nome nessas produções e parcerias.

11) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Bruno Marinheiro: Produzir o projeto Violadas, montei meu home studio, estou aprendendo a produção fonográfica e marketing digital, anúncios para redes sociais,

12) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Bruno Marinheiro: Não depender do tempo dos outros para se divulgar.

13) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Bruno Marinheiro: A vantagem é a possibilidade de se registrar, experimentar. A desvantagem é o custo, a necessidade de manutenção, e também, a facilidade de perder o foco, pois é um universo muito amplo. É preciso ter em mente onde se quer chegar para não perder tempo demais explorando as inúmeras ferramentas e possibilidades. 

14) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Bruno Marinheiro: A primeira forma de se diferenciar é buscar em si mesmo as suas motivações e focar nisso na escolha e criação de repertório. É preciso oferecer algo de si. Além disso, é preciso saber comunicar sua personalidade dentro da música e nas redes sociais. O que busco hoje é encontrar esse caminho, seja para aplicar a minha produção e divulgação, bem como produzir outros artistas independentes. É um aspecto que me parece ser muito pouco explorado ainda. Muitos artistas não sabem muito bem o que fazer depois que a música está pronta. Só colocar a música nas plataformas digitais é o mesmo que acrescentar uma gota no oceano. Por dia são 60 mil novas músicas. É preciso saber encontrar um público e se comunicar com ele.

15) RM: Como você analisa o cenário da música instrumental no Brasil. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Bruno Marinheiro: A música instrumental brasileira é forte apesar de todas as dificuldades. O músico que atua no cenário instrumental em geral é uma pessoa muito apaixonada pelo som e pela música. É um nicho muito exigente. Demanda muita técnica. Existem muitos nomes, mas o Yamandu Costa se revelou duas vezes para mim. Ele vem amadurecendo muito, controlando mais a velocidade e entregando cada vez mais musicalidade. O Yamandu pós parceria com Dominguinhos me parece outro músico comparando-se com o início da carreira.

16) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Bruno Marinheiro: Marisa Monte tem um posicionamento muito sério e consistente. Humberto Gessinger é muito sério nas suas produções também.

17) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Bruno Marinheiro: Quando produzi o Duo Assad (Sérgio e Odair) aqui em João Pessoa – PB, no ano de 2015, contratamos uma empresa de sonorização, pois eles iriam tocar numa sala ampla. Mesmo tendo bons violões, construídos com tecnologias de ponta, para o público leigo é uma experiência um pouco brochante, pois o som do instrumento não preenche a sala. O violonista entende e aprecia o som natural, mas o leigo quer ouvir como no CD. Estava tudo correndo bem quando por volta da quarta ou quinta música o som começou a fazer uns pequenos estalinhos. De repente fez um estampido alto. Parecia um tiro de revólver. Eu corri para lateral do palco soltando fogo pelas ventas e ficava aquele jogo de empurra entre o técnico de som dizendo que era problema de aterramento e os responsáveis pelo espaço dizendo que estava aterrado, e não tinham sequer um multímetro para verificar. Enquanto isso a produtora nacional do Duo Assad, que viajava com eles foi lá no palco mandou desligar os microfones e puxou Duo Assad bem para boca da cena. Como a sala não estava cheia até o fundo, e tinha muitos violonistas, o público conseguiu ouvir bem. Os instrumentos deles eram muito bons também. No dia seguinte eu até experimentei o violão do Odair Assad. Graças a isso, deu certo. Mas podia ter sido um fiasco…

18) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Bruno Marinheiro: Tocar ao vivo e sentir a vibração da plateia não tem preço. Quando toco o último acorde de uma música e sei que naquele momento consegui dar o máximo, alcançar o público e transmitir a emoção, nesse momento que se segue uma salva de palmas, não há preço. Outra coisa muito boa é quando estamos ensaiando com um grupo, que está rolando aquela química musical e pessoal. O que traz mais tristeza é a falta de incentivo e a percepção de que a música está caminhando cada vez mais para a banalização, fórmulas enlatadas, pobreza melódica e harmônica. Muitas vezes a música é um acessório no meio de tanto modismo e badalação.

19) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Bruno Marinheiro: Acho que nem com o pagamento (risos). O tipo de música que faço não tem espaço nas rádios comerciais. Em rádios digitais, de nicho, pode rolar. Parece-me que nas rádios digitais o jabá não é mais tão fundamental como antes. As playlists do Spotify me parecem ter tomado o lugar das rádios hoje. Talvez para gêneros muito populares a rádio ainda seja determinante.

 

20) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?Bruno Marinheiro: Comece cedo, faça o máximo de parcerias e experimentações. Cuide do networking. Essas parcerias e experimentações vão ajudar a abrir portas e o músico vai sentir que caminhos funcionam melhor para poder investir no que der mais resultado. Quanto mais o tempo passa, mais difícil vai se tornando, pois vem as contas para pagar, a pressão social. No início é bem difícil conseguir cachês bons. É preciso investir, tocar às vezes até sem perspectiva de retorno financeiro imediato, para fazer nome. Quanto mais velho você vai ficando, mais complicado investir esse tempo.

21) RM: Quais os violonistas que você admira?

Bruno Marinheiro: Julian Bream, Segócia, Garoto, Baden Powell, Raphaell Rabello, Dino 7 cordas, Rogério Caetano, Gilson Antunes, Marco Pereira, Thierry Begin-Lamontagne, Duo Assad, Tommy Emmanuel, Lucas Brar.

22) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Bruno Marinheiro: Bach, Vivaldi, Beethoven, Debussy, Albeniz, Willian Walton, John Dowland.

23) RM: Quais os compositores populares que você admira?

Bruno Marinheiro: Chico Buarque, Tom Jobim, Sivuca, Renato Russo, Cazuza, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, The Weeknd, Doja Cat, Vinícius de Morais, Falcão (Seu Pereira e Coletivo 401), Chico Correa.

24) RM: Quais os compositores do Samba, Choro e Bossa Nova você admira?

Bruno Marinheiro: Cartola, João Nogueira, Baden Powell, Garoto.

25) RM: Quais as diferenças técnicas entre o Violão Erudito e Popular?

Bruno Marinheiro: A maior diferença entre o músico popular e o erudito não é a técnica em si, mas a abordagem da música. O músico erudito em geral tem a música pré-determinada, escrita. A performance consiste em realizar aquele balé digital que foi pré-concebido anteriormente, com pouca margem para invenção na hora. O músico popular aprende a obra de forma mais aberta, pois ele pode precisar transpor de tonalidade, para acompanhar um cantor, por exemplo. O músico popular foca muito mais em acompanhar enquanto o músico erudito, especialmente o violonista, precisa solar quase o tempo todo. O músico erudito acaba tendo que realizar muitas proezas técnicas a maior parte do tempo, mas se soltar um violonista erudito numa roda de choro sem uma partitura, ou pelo menos uma cifra, o desespero é grande.

26) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Violonista?

Bruno Marinheiro: O posicionamento da mão direita, saber tirar um bom som do instrumento. A mão esquerda chama mais atenção, mas é a direita que produz o som e o som é a matéria-prima da música.

27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Bruno Marinheiro: Ensinar o símbolo antes do som. Geralmente no ensino de adultos ou adolescentes é complicado ensinar primeiro o som para só depois ir para a notação, pois ninguém tem saco ou tempo de ir para uma aula ficar aprendendo a sonoridade de cada acorde, etc. O cara quer pegar o violão e sair tocando. Aí o professor ensina a fôrma da mão, uma batida e solta o aluno no mundo. Geralmente vai ser necessário usar algum tipo de escrita para cifras, etc. Agiliza bastante, mas lá na frente dificulta um bocado esses processos de internalização do som.

28) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Bruno Marinheiro: O dom musical é o encontro da vontade de aprender com a oportunidade. Quando a pessoa quer muito aprender, quando ela gosta muito, a mente dela vai ficar obsessivamente pensando naquilo. Toda chance que tiver a pessoa quer pegar o instrumento para praticar. Existem algumas pessoas que tem mais facilidade para algumas coisas, mas no final, acho que o verdadeiro dom é a manifestação desse desejo muito forte no aprendizado. A mente acaba criando os caminhos necessários para se aperfeiçoar.

29) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Bruno Marinheiro: É a criação de algo a partir de estruturas pré-existentes. Não existe improvisação totalmente do zero. Se você usa acordes tonais, já está partindo de uma série de regras pré-existentes, por exemplo. Quando um grupo de jazz começa uma Jam, existe uma série de pressupostos que orientam suas interações. As próprias frases musicais que um jazzista improvisa, de certa forma, já foram tocadas anteriormente nas sessões de estudos. Não tem como um músico tocar um arpejo de três oitavas super veloz no meio de um improviso se ele não praticou aquela frase. A diferença da música erudita é que esses blocos memorizados são reorganizados no próprio momento de tocar e não memorizados de forma rígida, num discurso predefinido.

30) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Bruno Marinheiro: Os métodos que conheci, boa parte deles, acaba focando muito em ensinar as escalas, as notas de tensão, etc e tal, mas não abordam a questão dessas pequenas frases que serão interconectadas, transpostas, transformadas, variadas, etc, ou seja, do vocabulário para o músico dialogas musicalmente. Enfatizam demais esse conhecimento teórico, mas muitas vezes esquecem de incentivar o músico a tirar solos de referências para construir seu vocabulário, do mesmo jeito que a gente constrói nosso vocabulário de palavras. 

31) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Bruno Marinheiro: Existe a improvisação no sentido de que aqueles elementos eles foram estudados em um contexto neutro, ou vazio, digamos assim, e, na hora da performance eles são agrupados. Novamente comparo com a fala. Toda nossa fala no dia a dia é improvisada, mas ela se adequa a padrões que já conhecemos como a língua e sua gramática, a estrutura das frases, etc. Se alguém começar a improvisar totalmente do zero quando falar, não vai ter sentido nenhum. O fato de que as estruturas e pequenas frases já tenham sido preparadas não invalida chamar de improviso. Não é improviso quando a performance é toda memorizada ou lida, como no caso da música erudita, com raríssimas exceções.

32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Bruno Marinheiro: Da mesma forma que os métodos de improvisação, os métodos de harmonia tendem a focar na explicação teórica, mas não dão muita atenção ao processo de internalizar as sonoridades das funções harmônicas, por exemplo.

33) RM: Quais os métodos que você indica para o estudo de leitura à primeira vista?

Bruno Marinheiro: Esse foi o meu tema de mestrado. Não recomendo um método. Recomendo o uso de diversos métodos, pois a leitura precisa ser inédita. Usando um método, rapidamente acabam-se as partituras inéditas e ao repeti-las, logo haverá algum nível de memorização. Contudo, o mais importante não é o método, mas o hábito de ler música sempre. É comum que ao estudar uma peça, a leiamos e, ao longo do trabalho, memorizamos e paramos de ler. O principal fator que leva a melhoria da leitura é a leitura constante, diária. Essa demanda vai forçar os processos mnemônicos a ir criando uma biblioteca de trechos na memória. Em cada estilo ou gênero musical, esses blocos de informação irão se aperfeiçoando e o músico vai se tornando capaz de prever melhor as possíveis notas que vem adiante, diminuindo a sobrecarga cognitiva. No fim das contas, leitura musical à primeira acaba sendo um exercício de predição informada. O músico vai prevendo as possibilidades e antecipando os possíveis movimentos.

34) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista?

Bruno Marinheiro: Praticando diariamente, se desafiando.

35) RM: Apresente o projeto PaVio.

Bruno Marinheiro: A PaVio – Paraíba Violões é um coletivo de músicos que, desde 2010, mantém um espaço cativo para a produção do violão na Paraíba, através do seu carro-chefe, o projeto Violadas, alguns espetáculos independentes, além de diversas ações nas redes sociais, em parceria com universidades e centros culturais. Temos em nosso DNA a busca por espaços e formatos que aproximem a música e as pessoas. A Sala Vladimir Carvalho (Usina Energisa), hoje consagrada como um importante palco da música em João Pessoa, teve no projeto Violadas o seu primeiro uso para música ao vivo. Mais recentemente, antenada às novas tendências, realizamos apresentações musicais ao vivo em cafés e outros estabelecimentos propícios à delicadeza do som do violão. Nesses espaços o violão reina, mas não sozinho, pois o intercâmbio entre linguagens é outro de nossos valores fundamentais, afinal assim é a vida, cheia de encontros, cores, cheiros e sons. Nos anos de 2020 e 2021, devido ao isolamento social imposto pela pandemia de COVID 19, a PaVio passou a realizar lives semanais com artistas locais e nacionais, mantendo acesa a chama da cena do violão instrumental na Paraíba. Também produzimos o documentário “PaVio – a semente de uma cena instrumental”, premiado pelo edital Lourdes Ramalho.

36) RM: Quais os prós e contras de ser multi-instrumentista?

Bruno Marinheiro: Tem vários lados bons em ser multi-instrumentista. Entre eles está a possibilidade de variar, evitar o tédio, mais oportunidades, etc. Mas ao mesmo tempo, demanda mais tempo, especialmente se for encarar os instrumentos todos com alto grau de excelência. Fatalmente haverá algum instrumento em que o músico terá mais habilidade. Nos demais, é difícil que alcance um patamar de excelência que abra muitas portas.

37) RM: Quais os seus projetos futuros?

Bruno Marinheiro: Os projetos futuros são a retomada do projeto Violadas, o registro do violão paraibano e sua divulgação nas plataformas digitais. Também estou focando em produzir artistas independentes e a pesquisa com música eletrônica, especialmente os Lo-Fi Beats, mas buscando uma linguagem própria e orgânica misturando os sons acústicos das cordas dedilhadas com os sons eletrônicos.

38) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Bruno Marinheiro: (83) 98759 – 700 |bruno.violonista@gmail.com

| https://www.instagram.com/bruno.marinheiro7c

| https://www.facebook.com/Bruno.Marinheiro7C

| https://www.facebook.com/bruno.marinheiro.5 

Canal: https://www.youtube.com/channel/UC6W9kfINYy-cQ-AKunVaTZw 

Jesus, Alegria dos Homens (Bach): https://www.youtube.com/watch?v=6ZeNaVFNHj8 

Conheça o Charango | com Bruno Marinheiro | Instrumentos Musicais: https://www.youtube.com/watch?v=N-oVOEJDXkc 

Live com Bruno Marinheiro sobre o documentário da PaVio:  https://www.youtube.com/watch?v=nwpvCkc06ds


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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