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Bia Marinho


A cantora, compositora, produtora cultural Bia Marinho nasceu em São José do Egito, Sertão do Pajeú, Pernambuco, cidade é reconhecida internacionalmente como Terra da Poesia, devido à qualidade e à quantidade de poetas e repentistas que nela nasceram.

Uma lenda popular diz que um cantador enterrou sua viola na nascente do Rio Pajeú, e quem bebe dessa água, se torna poeta. Só pode ser verdade, pois na cidade a declamação é livre e intensa, a vendedora, o barbeiro, o açougueiro, a professora, as crianças, enfim, todos são poetas! Além desse ambiente, Bia Marinho teve em casa grande proximidade com a arte e a poesia em geral. Ela é filha caçula de Lourival Batista, o célebre Louro do Pajeú, um dos maiores nomes da poesia oral do Brasil. É também sobrinha dos grandes repentistas Dimas e Otacílio Batista, este último autor de “Mulher nova, bonita e carinhosa/Faz o homem gemer sem sentir dor”, um dos maiores sucessos da Música Popular

Brasileira, com inúmeras gravações. E Bia é ainda neta do primeiro grande poeta da história de São José do Egito, Antônio Marinho, o primeiro repentista ouvido por Ariano Suassuna, pai de Helena Marinho, sua mãe, grande mulher que influenciou as famílias de toda a cidade pelo seu estado de comunhão intenso e estruturador.

Tendo toda essa verve à disposição, Bia não demorou a fazer sua escolha também pela arte. Aos dezesseis anos fez seu primeiro show profissional, em outubro de 1981. Até hoje nunca viveu de outro ofício. Mas a grande marca de sua carreira é o encontro com Zeto do Pajeú. Um poeta, músico, cantor e compositor natural de Canhotinho, no Agreste pernambucano. Zeto foi marido e parceiro de palco por quase dezessete anos, até falecer no dia 14 de outubro de 2002. Juntos, eles ganharam festivais de música importantes de Pernambuco, nas décadas de 80 e 90, como o Fempp e o Fercan e gravaram um LP em 1989, intitulado “Estrada”, em homenagem a Zé Marcolino, o disco trouxe as primeiras composições da dupla Zeto e Bia Marinho.

Já tendo passado pelos principais palcos da cena Pernambucana e Nordestina, ela lançou também outros trabalhos: “Sabiá” (1997), “A Convites” (2004), “Cantos Dalí” (2006), “Tempero do Forró” (2013), são os discos que fez em carreira solo, além de inúmeras participações em CDs e DVDs de amigos.

Bia Marinho também é compositora respeitada e gravada por nomes como Amelinha, Santanna – o cantador, Alcimar Monteiro, Irah Caldeira, Kelly Rosa, Delmiro Barros, Val Patriota, Nádia Maia, Tonfil, Em Canto e Poesia (Gregório, Antonio e Miguel Marinho), Mastruz com Leite e muitos outros.

Como produtora cultural, além de festivais de violeiros e eventos de música em geral, é a criadora e coordenadora do Festival Zeto / Udistoque Pajeuzeira (edições 2018 e 2019) e do Encontro de Arte e Cultura das cidades do Pajeú, já com duas edições realizadas em Recife, e gestora do Instituto Lourival Batista, entidade com sede em São José do Egito, destinada à salvaguarda da obra do seu pai, o poeta Louro do Pajeú e realizadora da Festa de Louro e de outras ações culturais na região do Sertão do Pajeú.

Bia Marinho revela uma expressão musical única, e preserva tradições e manifestações culturais, que exalam a inspiração poética sertaneja do Estado de Pernambuco.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Bia Marinho para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 18.08.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Bia Marinho: Nasci no dia 19 de maio de1965 em São José do Egito, região do Pajeú, no sertão pernambucano. Registrada como Maria Beatriz Marinho Patriota do Nascimento.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Bia Marinho: Eu tive a dádiva de nascer numa família de poetas repentistas/cantorxs: Antonio Marinho (avô materno), Lourival Batista (meu pai), Otacílio Batista e Dimas Batista (tios). Então meu contato com a música, foi desde sempre. Eu nasci nesse meio e sou muito grata ao universo por isso. Meus filhos formaram o grupo Em Canto e Poesia (Gregório, Antonio e Miguel Marinho).

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Bia Marinho: Eu nunca estudei música, ela aconteceu na minha vida naturalmente! 

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Bia Marinho: A minha principal influência foi e sempre será a minha origem. Mas claro que tive outras fora do meu “habitat”. Quanto à importância dessas influências, algumas podem até não ter mais um peso nos trabalhos atuais. Mas nunca deixarão de estar, elas fazem parte da base, estarão sempre presentes na formação do todo!

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Bia Marinho: Comecei cantar profissionalmente aos 16 anos em 1981. Mas desde 5 anos de idade já me apresentava em eventos da Escola, da Igreja, etc.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Bia Marinho: Cinco trabalhos lançados, tendo sido o primeiro um LP – “Estrada” em 1989 em homenagem ao poeta/compositor Zé Marcolino. Na época era a dupla Zeto e Bia Marinho. Zeto foi um poeta, cantor, compositor, teatrólogo. Nasceu no dia 15.07.1956 em Canhotinho – PE, em 1956. Era um menestrel, um autêntico cantador do Sertão antigo, como afirma na sua cantiga Andarilho. Imitar os ciganos andarilhos, percorrer os caminhos dos trocadilhos. Durante uma viagem a São Paulo, Zeto me conheceu. Morou muitos anos em São José do Egito e tivemos os filhos Antônio Marinho do Nascimento e Miguel Marinho. Participou da campanha do programa eleitoral de Miguel Arraes, em 1986, improvisando em cima do mote “Arraes vai entrar pela porta que saiu”. Apresentou o programa Pé de Serra, na TV Jornal, em 1996, foi compositor de Forró bastante requisitado pelos artistas do gênero. Entre os que gravaram suas composições estão: Paulo Matricó, Alcymar Monteiro, Flávio José. Gravou seu último disco “Curvas”em 1999. Faleceu no dia 14.10.2002 em Palmares-PE, de complicações no fígado, sendo enterrado em Canhotinho-PE, cidade onde reside sua família. Outros discos: “Sabiá” (1997), “A Convites” (2004), “Cantos Dalí” (2006), “Tempero do Forró” (2013), são os meus discos em carreira solo, além de inúmeras participações em CDs e DVDs de amigos.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Bia Marinho: Eu canto Forró, Frevo, cantoria, canções. Eu me definiria como intérprete. Eu canto o que me alcança a alma!

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Bia Marinho: Não. Não tenho nenhuma formação técnica!

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Bia Marinho: Eu nunca estudei técnica vocal. Mas é claro que é importante procurar sempre aprimorar e expandir o aprendizado. Quanto ao cuidado com a voz, esse é indispensável e necessário para qualquer pessoa, e para quem tem a voz como “enxada”, esse trato tem que ser prioridade.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Bia Marinho: Eu prefiro não citar nomes de cantorxs que gosto e admiro. Com certeza faltaria alguém, então eu prefiro não citar ninguém. Eu gosto de quem canta bem e se compromete com o que canta!

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Bia Marinho: Eu não sigo técnica, nem ritual para escrever. A minha criação acontece naturalmente, eu não vou buscá-la, eu a deixo chegar. É tanto, que eu já escrevi seis poesias num dia e já passei meses sem escrever nada. Eu respeito o momento da criação, do nascimento. Quando ela chega, eu abro a conexão entre cabeça, coração, mão, papel e caneta e mãos à obra!

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Bia Marinho: Meu principal parceiro musical foi Zeto do Pajeú (José Antônio do Nascimento Filho). Até pelo fato de termos sido parceiros de vida como meu marido. Mas tenho trabalhos com muitos e ótimos parceiros irmãos de arte e de alma!

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Bia Marinho: Vários artistas/amigos já registraram algum trabalho como: Grupo Em Canto e Poesia (Gregório, Antonio e Miguel Marinho), As Severinas, Tonfil, Santanna – O cantador, Amelinha, Mastruz com leite.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Bia Marinho: Eu gosto de ter uma história independente. A arte tem que ser livre, eu jamais faria qualquer alteração na minha forma de senti-la ou expressá-la por imposição de quem quer que fosse. E quando você tem alguma amarração contratual, às vezes tem que se submeter a determinadas coisas. Eu dirijo o roteiro da minha história, eu prefiro assim!

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Bia Marinho: Eu não crio estratégias. Minha intuição me guia!

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Bia Marinho: Eu acho que a internet é uma força, uma abertura, um espaço pra criação de oportunidades através da facilidade ao acesso, que através dela, cresceu de forma considerável hoje em dia, qualquer pessoa tem condição de criar/divulgar seu trabalho sem sair de casa. No meu caso, já que não sou artista de mídia, a Internet ajuda muito na divulgação do meu trabalho, mediando a um alcance entre trabalho e público que eu jamais teria sem ela. Ela só ajuda!

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Bia Marinho: A vantagem é exatamente essa: o acesso!

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Bia Marinho: Eu não faço nada para diferenciar meu trabalho do de ninguém; pelo menos não de forma pensada. Eu apresento meu trabalho do jeito que ele é, as diferenças existem naturalmente. Todo trabalho por si só, já é diferente um do outro. Cada um tem suas características, cada artista tem seu jeito de mostrar sua arte. Às vezes você pode escutar 3, 4, 5 vezes a mesma canção e senti-la de forma diferente à cada execução. Eu acho que essa diferença ou diferenciação está muito mais na visão crítica do público do que na cabeça do artista!

19) RM: Como você analisa o cenário do Forró. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Bia Marinho: Nós temos compositores, intérpretes, músicos maravilhosos, que ainda tem compromisso com o Forró de qualidade. Enquanto houver gente comprometida e respeitosa com a história da música nordestina, o cenário para o Forró estará favorável. Aliado aos fazedores de arte, temos que contar com o apoio das instituições públicas para garantir um mínimo de estrutura à classe artística. Para falar em revelações musicais, sem sair de Pernambuco, nós já teríamos nomes para não acabar mais. Aqui nós temos revelações quase que diárias de novos e maravilhosos artistas. Eu acho que tudo que é bom, se garante. Eu não gosto de citar nomes, eu acho que todo artista tem que ser verdadeiro e comprometido. É isso que dá consistência à sua arte!

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Bia Marinho: Os meus. Os que me acompanham!

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Bia Marinho: Já fiz show de rua com a banda toda e eu sentada. Porque a cobertura do palco só subiu até metade do mastro de sustentação! Já cantei pra mesas e cadeiras fazendo show em chuvas torrenciais para cumprir agenda

– Fazer show e não receber, perdeu até a graça! (risos).

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Bia Marinho: O que me deixa mais feliz, é a oportunidade que tenho de muitas vezes através da minha arte, eu fazer a defesa daquilo que acredito e de meu ponto de vista em relação ao mundo e a humanidade. Meu palco, é minha tribuna. Nele, eu me armo de arte e encontro força pra qualquer batalha em defesa do bem! A arte comprometida me alegra! O que me deixa mais triste, é o artista descomprometido!

23) RM: Qual a sua opinião sobre o movimento do “Forró Universitário” nos anos 2000?

Bia Marinho: Eu não tenho nenhuma opinião sobre o “Forró universitário”. Nunca parei para pensar nisso!

24) RM: Quais os grupos de “Forró Universitário” chamaram sua atenção?

Bia Marinho: Não tenho como responder, eu não conheço trabalho de nenhum! Nunca ouvi!

25) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Bia Marinho: Eu nunca tive essa relação com as rádios.  Deve ter umas 3, 4 rádios que tocam alguma música minha. Tocam por gostarem, acreditarem no trabalho de alguma forma. Mas eu jamais pagaria para uma rádio tocar uma música minha. Eu já pago para gravar, então para cantar, para ser tocada, eu quero é receber. Minha arte é meu sustento do corpo e da alma!

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Bia Marinho: Eu digo que meta a cara! Se quiser mesmo, meta a cara. Eu faria tudo outra vez. Amo escrever, amo cantar, amo o palco, amo o público! A música nos coloca em sintonia com o astral. Cantar é orgástico, cantar é divino!

27) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Bia Marinho: Eu nunca mais participei de um Festival de música, eu amava. Já participei de vários, tanto organizando como concorrendo. Um festival termina  sempre sendo uma grande confraternização da classe. Eu amo, embora tenha sempre os que saem insatisfeitos!

28) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Bia Marinho: O palco de um Festival, sempre poderá ser o palco de uma grande revelação na área da música né?

29) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Bia Marinho: Se o trabalho fosse mais cuidadoso, seria mais abrangente e eles mostrariam muito mais coisas interessantes. A grande mídia deixa muito a desejar em termos de qualidade, quanto ao produto que ela divulga. A grande mídia tem um péssimo gosto musical.

30) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Bia Marinho: Todo e qualquer espaço que se abrir para arte, será sempre muito valorosa. Eu já fiz muitos trabalhos com o SESC. O Sesc é um grande parceiro da arte em muitas vertentes. Na música, na dança, no teatro, artes visuais. Tudo que se faz arte, encontra apoio no Sesc. Como outros citados nunca trabalhei, mas conheço os resultados e a qualidade dos projetos apoiados por todos. A arte precisa de mais apoio e parceiros. Todo apoio será sempre muito bem vindo pra ela!

31) RM: Qual a sua opinião sobre as bandas de Forró dos anos 90 e as atuais do Forró Estilizado?

Bia Marinho: Eu não escuto, nunca escutei. Não curto!

32) RM: Bia Marinho, Quais os seus projetos futuros?

Bia Marinho: Meu projeto de vida em qualquer tempo, é conseguir viver de minha arte!

33) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Bia Marinho: (81) 99728 – 1607

Zeto e Bia Cd Estrada Completo. Zeto do Pajeu e Bia Marinho: https://www.youtube.com/watch?v=WdYA4L0W74o

Zeto Cd Curvas (Completo). ZETO DO PAJEU / ZETO CABOCLO – 1999: https://www.youtube.com/watch?v=MPmtr4WJ_EQ 

Antônio Marinho entrevista Bia Marinho no #TVPEnoAR: https://www.youtube.com/watch?v=c-rIO9hCrhA


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
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