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Categorias: Entrevistas

Ângelo Arruda


O cantor, compositor, violonista alagoano Ângelo Arruda, nascido no dia 14 de junho de 1957, com uns seis meses de vida só conseguia dormir com a babá dançando músicas dos anos 1957, dentre elas, o baião de Luiz Gonzaga. Assim começou sua relação com a música.

E com uns 12 anos começou a comprar em bancas de jornal e ler a Revista POP e lá conheceu o melhor da música mundial e nacional. Ganhou um rádio Philco AM e OC e de madrugada escutava rádios no Rio de Janeiro tocando o melhor rock da época, especialmente no programa do Big Boy. Em Recife – PE, por volta de 1975, se deu conta de que a música era uma das coisas mais importantes para ele. Passou a conviver com Lenine, Zé Rocha, Mário e Sérgio Lobo, Caca Barreto do grupo musical Flor de Cactus. Assistir o ensaio deles, noitadas, eventos, composições. Foi aí que aprendeu a tocar violão de cordas de nylon e nunca mais parou. corria atrás de shows, apresentações de artistas locais, viu Zé Ramalho, Elba Ramalho, Alceu Valença, no começo de suas carreiras, tocando em bares de Olinda – PE. Assistiu o que tinha de melhor em shows em Recife – PE. Sempre curtiu a boa música brasileira e internacional. Do Rock ao Blues; da Bossa Nova ao instrumental.

Em 1980 se transferiu para Campo Grande (MS) e durante 37 anos se entregou à música local. De verdade, reconhece que depois de tudo que viu, leu, assistiu e ouviu, que em Mato Grosso do Sul, há uma fonte inesgotável de bons músicos, intérpretes e compositores, um dos cinco melhores Estados em produção musical do país. Foi lá que aprendeu muito com todos os músicos locais. Assistiu o nascimento dos pioneiros. Ouviu em sua casa o cassete do primeiro LP de Almir Sater.

Ângelo Arruda tocou nos anos 80 em botecos na noite, nas madrugadas, com amigos e um dia, se deram com Tim Maia e Fábio Stella, nas madrugadas, procurando uma birita e tocaram juntos. Em Olinda – PE, em 1977, numa noite linda, ao fim do seu show, Ivan Lins e Gilson Peranzetta, ficaram na mesma mesa, uns 8 violões, tocando o melhor da música brasileira.

No celeiro de Campo Grande – MS, os Espíndola em primeiro lugar com Geraldo, Celito, Jerry; Almir Sater, Paulo Simões, Geraldo Rocca, Gilson Espíndola, Rodrigo Sater, Guilherme Rondon, João Figar, Lisoel Costa, Zé Du, Sandra Menezes, Carlos Colman, Grupo Acaba, Maria Cláudia, Marcos Mendes, Américo e Nando, dentre tantos, se tornou amigo de todos e passou a acompanhar suas trajetórias musicais e assim, nasceu amizade e respeito cultural.

Até os anos 2010 nunca teve nenhuma vontade de cantar ou compor. Acompanhava todos em shows e eventos. Mas como tudo tem a primeira vez, um dia, conheceu os queridos e competentes músicos da banda Dazaranha de Florianópolis – SC e com uma parceria com o Chico Martins, em um trabalho seu solo, nasceu a sua primeira composição: escreveu a letra da música “No Tom do Amor”, que ele gravou em seu segundo CD, Deslancha. E, daí pra frente, se deu conta do que ele podia. Foi fazer músicas e deixar de ser um espectador privilegiado, cheio de amigos competentes e começou a fazer músicas completas, pois tinha começado apenas letrando composições, como no caso de duas ou três com Raimundo Galvão e Rubênio Marcelo.

Arquiteto e urbanista de formação, professor por profissão e músico por predileção e, portanto, compor, cantar e produzir um CD não é tarefa fácil. Mas se identificou com a arquitetura e começou perceber que os caminhos da música e da arquitetura são muito parecidos. Os dois criam, esboçam, arranjam, fazem, constroem, produzem e executam. Assim eu acabei entendendo o processo e como já tinha experiência no campo literário (também sou escritor e poeta com livros lançados) se organizou para fazer a parte mais complexa: encontrar os recursos – humanos e financeiros- para fazer um disco. Em nasceu o primeiro álbum – “Água de Viver” em 2018 e o segundo álbum – “Régua e Compasso” em 2020. Em 2022 prepara o terceiro álbum, um CD – Livro – “Amor em tempos de cólera”. 

Segue abaixo entrevista exclusiva com Ângelo Arruda para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16.01.2022: 

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal? 

Ângelo Arruda: Só nasci em Penedo – AL no dia 14 de junho de 1957, mas morei em Pernambuco em Caruaru e Recife. Registrado como Ângelo Marcos Vieira de Arruda.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Ângelo Arruda: Segundo minha mãe Arlene Vieira Silva, eu só dormia quando a babá colocava Luiz Gonzaga para tocar na vitrola ABC de Ouro.  De verdade ouvindo rádio AM e OC com o programa Big Boy da Rádio Mundial do Rio de Janeiro e depois por meio das revistas POP dos anos 70. Amigos da rua tinham toca disco e ouvia música boa dessa época na casa deles. Creedence por exemplo.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Ângelo Arruda: Eu não tenho formação musical, aprendi como autodidata. Aprendi a tocar violão sozinho olhando os outros tocarem, isso em Recife – PE em 1975 em diante, eu tinha 18 anos de idade. Depois fui acompanhando amigos de Recife que atuavam na música (Banda Flor de Cactus, Zeh Rocha, Lenine) e vendo eles tocarem, ensaiarem etc. Em Campo Grande (MS) quando me mudei para lá em 1980, aí sim foi um festival musical de ritmos em minha cabeça com o que tinha de melhor na cidade naqueles tempos: Geraldo Rocca, Paulo Simões, Almir Sater, os irmãos Espíndola (Geraldo, Tetê, Celito, Jerry) e tantos outros craques.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Ângelo Arruda: Minhas grandes influências vieram do que eu mais gostava de ouvir e depois aprendi a tocar as músicas deles. Um impacto em nossas cabeças e mentes foi, sem sombra de dúvidas, o LP Clube da Esquina 1 e 2 do Milton Nascimento. Daí para Djavan, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Bosco, foi um pulo. Em Mato Grosso do Sul terra da polca paraguaia e do Chamamé argentino eu também me senti influenciado, além da excelente música pop da cidade de uma nova geração de músicos como Gilson Espíndola, Rodrigo Teixeira, Chicão Castro e tantos.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical? 

Ângelo Arruda: Toco Violão desde os 18 anos de idade e escrevia poesias de adolescente. Escrevia e guardava, muitas, centenas, mas música eu nunca fiz e nunca me dei conta de que esse era um caminho para eu trilhar. Foi aí que um amigo e parceiro Raimundo Galvão foi me entrevistar como arquiteto que sou e membro do Conselho de Cultura que fui, e ele falou de fazermos uma parceria musical. Um dia ele me envia uma melodia no violão e me pede uma letra. Pronto. Daí começa a vida de músico/compositor/poeta/cantor tudo junto. Em 2016 em plena confusão social com a política e a sociedade, eu fiz minha primeira música sozinho – letra e melodia – e convidei o Gilson Espíndola para cantar “Água de viver”. Ficou lindo, ele fez uns ajustes, etc e acabamos finalizando ela juntos. Daí começa de verdade minha carreira musical.

06) RM: Quantos CDs lançados? 

Ângelo Arruda: São dois CDs lançados pela MCK Records de São Paulo. Em 2018 “Água de viver”. Em 2020 “Régua e compasso”. CDs produzidos e arranjados por Otávio Neto e Gilson Espíndola em seus estúdios em Campo Grande – MS. Cada um desses trabalhos tem uma história. O primeiro, como todo primeiro trabalho, a gente nunca esquece. Não sou cantor e achava que eu não devia me lançar com tudo. E assim convidei o que tinha de melhor em vocal e musical de Mato Grosso do Sul para colocar voz em minhas canções. Nomes de peso da MPB como Guilherme Rondon, vencedor do Prêmio Sharp de música e parceiro de Zélia DuncanChicão Castro, um jovem intérprete e músico da nova geração que foi convidado para abrir o show de Vitor Kley; os cantores da Banda DAZARANHA de Santa CatarinaMoriel Costa e Chico Martins e por aí vai.  No segundo trabalho eu já tinha começado a fazer aulas de técnica vocal e melhorado minha interpretação e cantei 4 músicas. Lançarei em 2022, um CD – LIVRO – “Amor em tempos de cólera”. São 14 músicas inéditas todas compostas durante a pandemia do Covid-19 e 14 poemas que serão declamados por 14 mulheres amigas de diversos locais do Brasil.

07) RM: Como você define seu estilo musical? 

Ângelo Arruda: Como diz Lenine, eu faço música. O estilo é definido pela sociedade. Eu faço música popular brasileira e nas classificações de estilo já de tempos eu amo a Bossa Nova, por exemplo, mas me arrisquei num Blues, num Xote e em outros ritmos.

08) RM: Você estudou técnica vocal? 

Ângelo Arruda: Fiz em 2020 um curso iniciante com Silvia Abelin em Florianópolis – SC por uns 4 meses, e comecei, na pandemia do covid-19, a tocar todo dia e exercitar e aí os amigos dizem que eu ando cantando melhor (risos).

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz? 

Ângelo Arruda: É tudo. Faço o que a técnica vocal manda para ficar com a voz sempre em dia. Especialmente gargarejo e uso muito soro fisiológico na garganta e ainda tem a respiração que cuido. De uns tempos para cá ando meditando e assim a respiração é tudo.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira? 

Ângelo Arruda: Vou ficar nos brasileiros: Lenine, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, João Bosco, Ivan Lins, Marcos Valle, a família Caymmi, Rosa Passos, Gal Costa, Betânia. Eles são minha grande inspiração. E vale lembrar de Alceu Valença, Zé Ramalho, Ednardo, Belchior, sempre.

11) RM: Como é seu processo de compor? 

Ângelo Arruda: Eu faço tudo, letra para melodia, crio melodia para letra. Não tenho regra. No geral começo com uma melodia, gravo no celular, dou um nome fictício que no final acaba ficando real. Depois escuto várias vezes e faço uma letra. Recebo encomendas de parceiros que me mandam melodias e eu coloco letras.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição? 

Ângelo Arruda: Tenho músicas com Zeh Rocha, Guinha Ramires, Raimundo Galvão (1968-2021) que faleceu por causa do Covid-19, meu maior parceiro com umas 15 músicas, Gilson Espíndola, Toninho Porto, Gabriel Andrade e entre outros. Mas tenho poemas meus que coloquei a melodia e é sempre uma outra dificuldade colocar a métrica no campo correto. Atualmente Zeh Rocha, um grande músico e compositor de Recife – PE, parceiro de Lenine e que já temos boas canções juntos, eu fazendo as letras de várias delas. Mas abro portas com diversos como Gilson Espíndola, Gunha Ramires, e quero fazer música com Moriel Costa, líder da banda Dazaranha de Florianópolis – SC. Estou sempre aberto a parcerias musicais.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente? 

Ângelo Arruda: Eu aprendi a me virar na vida. Sai de casa com 16 anos de idade para estudar Arquitetura em Recife – PE, morando em Caruaru – PE, cidade que é meu berço cultural. Me virar significa fazer tudo sozinho, tocar a vida, sobreviver, trabalhar, buscar meios. Portanto tenha fé, estude, aprenda e faça um trabalho que você vai brilhar. Carreira independente é a sua liberdade que imprime. Por exemplo eu tive uma carreira como arquiteto de 1980 a 2004 totalmente livre. Naquele ano de 2004 resolvi dar aulas para uma universidade pública, fiz concurso, passei e me aposentei em 2017 com 60 anos e fechei minha carreira docente e comecei a carreira musical para valer. O mesmo pode acontecer com você que é principalmente, um bom instrumentista, como a violinista Iva Giracca,  Spalla da Camerata Florianópolis – SC. Ela toca na orquestra, mas mantém atividades privadas, dando aulas de violino, tocando em um quarteto e sendo “independente”. Portanto depende de cada um ser ou não independente.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco? 

Ângelo Arruda: Minhas estratégias são simples. Para lançar um trabalho como o terceiro CD para 2022, eu comecei a pensar nele dois anos atrás. Canções e poemas esboçados, passei para fechar em voz e violão as músicas e colocá-las em condições de planejar. Corro atrás de quem vai arranjar, fazer o trabalho integral, gravar, os músicos, quem pode cantar uma ou outra canção etc. Faço os contatos, vejo custos e começo a colocar no papel. Aí com um valor estimado para o trabalho completo, corro atrás da grana, seja de patrocínio, seja de doação, vaquinhas etc. E começo sempre com uma música e um clip. Fiz isso nos dois CDs anteriores e deu certo.  Ao lançar o clip eu comento do trabalho que vem por aí e nesse tempo estamos trabalhando o todo. Um CD meu tem um custo alto para os padrões de amigos que fazem trabalho digital quase total. Eu convido músicos profissionais bons, que eu conheça ou não. E eles são remunerados pela tabela do sindicato ou se forem muito amigos nem cobram para tocar. Mas eu prefiro que tudo seja profissional. Sendo assim o investimento total ficar próximo dos 45 mil reais. Com 200 CDs impressos. Mais do que essa quantidade fica na gaveta (risos).

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical? 

Ângelo Arruda: Eu uso as minhas redes sociais quase diariamente atualizando meus seguidores com coisas novas, sejam minhas ou de parceiros e amigos. Empreender no campo musical exige profissionalismo, coisa que entre nós é sempre difícil acontecer. Meus colegas gostam muito de tocar, compor e poucos de empreender. Saber as fontes de financiamento público e privado por exemplo, poucos fazem isso. Mas reclamam quando o Estado não lhe apoia. Escuto isso há 40 anos.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Ângelo Arruda: A internet só prejudica quem quer polemizar ou seja, abrir espaços para si usando o outro como trampolim, polemizando, falando mal etc.  Portanto se você for competente no que faz, a internet é um universo aberto para você colocar a sua estrela nesse céu. Como o céu tem bilhões de estrelas você precisa brilhar diferente das demais para que seja visto e sentido pelas pessoas. Isso não é tarefa fácil. Ainda mais a toda hora a gente toma conhecimento que os donos dessas redes têm estratégias diferentes para quem paga e para quem não paga impulsionamento, algo que exige grana e técnica. Mas você pode se beneficiar se fizer o trabalho correto. Agora ganhar dinheiro e sobreviver é outra coisa.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)? 

Ângelo Arruda: O home estúdio eu ainda não tenho o meu, é a ferramenta que mais revolucionou o campo musical. Veja só. No meu novo trabalho a música tema do CD – “Livro” é um xote e convidei, por meio de Beto Miranda de João Pessoa que o conhece, o Nonato Lima. Um excepcional sanfoneiro cearense que tem estúdio em casa e amigos para acompanhar. Vou mandar a trilha da música para ele e ele vai tocar e ainda vai chamar amigos para a zabumba e o triângulo. Olha só que vantagem danada para nosso trabalho?

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical? 

Ângelo Arruda: De fato, com tanta tecnologia disponível, gravar música ficou fácil demais. Muita gente passou a ter o próprio estúdio em casa e gravar suas coisas. Tanto trabalho lindo vimos nessa pandemia com tantos artistas que gravaram de casa mesmo. Agora colocar esse trabalho nas ruas, nas plataformas com tanta gente fazendo o que você faz, é um enorme desafio. Eu vou pelo caminho profissional. Boa foto, boa capa, bom material fonográfico, etc. E usar todas as plataformas de forma competente e profissional. Eu tenho conta no Instagram e Facebook somente para a minha arte musical e poética. E tenho minhas contas nas redes sociais pessoais onde separo as coisas. Faço isso com orientação de amigos do ramo e agora quero contratar profissionais para fazer melhor.

19) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileira. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram? 

Ângelo Arruda: A cena musical brasileira nos últimos 20 anos, ou seja, em pleno século XXI não é das melhores. A nata da MPB hoje tem entre 70 e 80 anos de idade. Me refiro aos grandes: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Gal Costa, Maria Bethânia, João Donato, Milton Nascimento e tantos outros – e esses têm sua carreira e público consolidado e alguns deles, como o Caetano Veloso, dão muita força para os novos que ele se apaixona, põe a mão em cima do cara e ele cresce. A MPB perdeu espaço para a música chamada de “sertaneja” de todos os ritmos além do “Forró Universitário” que cresceu gigantescamente em todo o país. Luan Santanna e tantos outros são ídolos nacionais de um padrão musical que mistura tudo, muito visual, muito palco e banda grande e música de sofrência. Marília Mendonça, falecida em 2021, era uma prova disso. Com esse quadro falta espaço para os artistas da MPB. Eu faço MPB e tem uns 500 artistas no Spotify e Palco MP3 e outras telas que não são vistos pelas grandes mídias. Você não vê na TV (apesar do The Voice e outros programas parecidos) promover os que não fazem parte da grande mídia. Um especial de grandes músicos e/ou desconhecidos. Sem festivais de música e programas de TV que possa abrigar os novatos, a cena musical fica pobre. Como está atualmente.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)? 

Ângelo Arruda: Eu ainda não passei por nenhuma dessas situações citadas na pergunta, mas diversos amigos da cena musical já passaram. Eu não faço shows e sim apresentações com amigos que me convidam para eventos, tocar em bares, live, etc.

21) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical? 

Ângelo Arruda: Eu fico feliz quando consigo fazer uma música completa e ela atinge no peito de quem escuta. Já fiz duas para minha mulher Ana Arruda; uma para meus filhos Moreno e Lucas e outra para meu neto Martin, que serão lançadas agora no meu terceiro CD. Tenho músicas que encantam as pessoas, o que me deixa muito feliz. Agora o que me deixa triste é ver músicos competentes que não conseguem apoio cultural como deviam.

22) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Ângelo Arruda: Como sou cristão, espírita, músico e compositor, eu posso dizer que existe o Dom. Há algo na alma que você carrega que vem de vidas passadas. Isso a gente pode chamar de Dom. Vemos em diversos momentos nas redes sociais crianças com 4 anos tocando piano como adultos. O que é isso? Agora o dom sozinho não anda. Ele precisa ser estimulado e você precisa estudar e praticar com o apoio externo para desenvolver essa sua força interior.

23) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical? Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois? 

Ângelo Arruda: Improvisar é um processo e exige de você muita bagagem. Não dá para querer improvisar em música sem ter bagagem, referências, etc. Eu posso tocar uma música conhecida do meu jeito e chamar isso de improvisação? Acho que não. Mas eu posso modificar frases musicais prontas e colocar aquela harmonia (sequência de acordes) em outro patamar. Músicos de Jazz, alguns sanfoneiros, vários guitarristas improvisam com muita competência. Improvisação musical exige estudo.

24) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical? 

Ângelo Arruda: Reafirmo a necessidade de estudar para poder improvisar. Tem um guitarrista de Campo Grande – MS, Gabriel Andrade que ainda não tem 30 anos de idade, se formou em Música na UFMS – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, mas estuda guitarra umas 10 horas por dia e foi tocar em bandas com os melhores músicos da cidade e escuta muita música. Quando ele pega a guitarra em cima de uma levada conhecida, ele improvisa lindamente. Mas ele estuda muito para usar as sequencias musicais e atingir uma perfeição.

25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical? 

Ângelo Arruda: A harmonia é a arte de compor e é necessidade ter uma bagagem de estudos e referências musicais. O Estudo da Harmonia é necessário para levar você para o verdadeiro universo musical por dentro. Mas claro temos exemplos de músicos que não usam nada disso e são craques no que fazem. Existem os prós e contras como tudo na vida. Um dos maiores arquitetos do mundo Le Corbusier nunca fez nenhum curso de arquitetura na vida. Era um relojoeiro. Conhecemos diversos músicos como Helena Meirelles, a Rainha da Viola, que nunca aprendeu nada com ninguém.

26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios? 

Ângelo Arruda: Infelizmente, o jabá existe e ele faz parte do processo. Como arquiteto conseguimos colocar no Código de Ética que o profissional que recebesse “jabá” (chamado pelo mercado de Reserva Técnica); uma grana por fora por indicar a empresa para o cliente ou os materiais, ele seria processado. Com isso conseguimos quase estancar esse processo espúrio. No caso das gravadoras, como gigantes do mercado fonográfico, o buraco é mais embaixo, pois o nosso Conselho de Música não atua nesse campo e continua o mesmo. Você pode ser bom, tocar pra caramba, ser excelente compositor, mas tudo isso ainda é insuficiente para você ir em frente.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical? 

Seja bom no que você faz. Seja competente e profissional e enxergue o seu fazer cultural como algo que mexe com os sentimentos das pessoas.

28) RM: Festival de Música revela novos talentos? 

Ângelo Arruda: Sim. Mas o Festival de Música precisa existir e ter prêmios para os artistas, pois há uma elaboração que depende de recursos – gravar, ensaiar, fazer um vídeo, etc. Sem dúvida os festivais fazem falta e precisam existir à rodo em todo o país.

29) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira? 

Ângelo Arruda: Eu considero que a grande mídia está perdida no que tange a informar o povo brasileiro. Informar a nação não é dedicar mais de 2/3 de suas programações dedicadas ou ao pior da política ou ao pior da insegurança pública. O domínio das religiões nos canais de TV e Rádio também está excessivo e vamos perdendo jornalistas que se dedicam a analisar a cena cultural e a grande mídia vai ganhando “influencers” sem noção de cultura. Com isso a cobertura é pífia, ruim, desprezo pelo novo, pelo que é bom, pelo que desperta olhares novos. E assim a grande mídia não cumpre sua tarefa de informar, pois deixa de lado a cultura e, a conta-gotas, nos dar notícias de vez em quando. Estamos num momento delicado. O trabalho que a Ritmo Melodia desenvolve é competente e elegante e mais do que tudo, necessário. Informar ao povo a cena cultural e musical é excepcional. Quando você não é conhecido, melhor ainda.

30) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical? 

Ângelo Arruda: Nós artistas e especialmente os novatos que precisam de apoio público e privado para as suas carreiras, temos muita dificuldade em acessar recursos disponíveis para alavancar nosso trabalho. O setor cultural brasileiro nacional está no meio de uma pandemia ideológica e no mais fundo do poço de todos os tempos. Com esse quadro ruim e triste, nos sobra os apoios desses organismos multilaterais e privados com tradição. Eu mesmo fiz meu primeiro livro e meu primeiro CD com apoio do SESC de Mato Grosso do Sul e é um dos caminhos que temos. Os editais do Itaú são muito bons e disputados. Faltam outros bancos fazerem o mesmo (Bradesco, Santander, etc) e aumentar os níveis de investimentos do SESC e SESI.

31) RM: Quais os seus projetos futuros? 

Ângelo Arruda: Estou nesse momento começando o terceiro CD de forma diferente: Um CD – LIVRO – “Amor em tempos de cólera”. São 14 músicas inéditas todas compostas durante a pandemia do Covid-19 e 14 poemas que serão declamados por 14 mulheres amigas de diversos locais do Brasil. A ideia é ser um portal para você entrar e se sentir bem no meio dessa pandemia que desgastou a todos. Já fiz a captação de recursos – apoio de duas empresas Habitasul de Florianópolis – SC e Plaenge de Campo Grande e recursos do Catarse e de amigos. Em 2022 ficará pronto. O CD LIVRO é uma novidade no mercado. Com 28 áudios nas redes sociais e nos sites, com capa de Guto Barros, artista plástico pernambucano, vamos inovar. Você vai escutar as músicas e escutar os poemas no mesmo lugar.

32) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs? 

Ângelo Arruda: (48) 3373 – 8522 | (48) 98821 – 1408 | angelomv@uol.com.br  

| https://web.facebook.com/angelomarcos.arruda 

| https://www.facebook.com/angeloarrudamusica

 Canal Ângelo Arruda: https://www.youtube.com/channel/UCmn3UhKVVwhb6AxFEiXdguw

Ângelo Arruda – Filhos: https://www.youtube.com/watch?v=EoAJ_QyNVDs

Álbum RÉGUA E COMPASSO nas Plataformas Digitais: https://open.spotify.com/album/5KoxP3bT4kk2C8ZuHgcQgX 

https://music.amazon.com.br/albums/B083VYVKQV?tab=CATALOG 

https://www.deezer.com/br/album/126806542 

Playlist – do álbum Régua e Compasso: https://www.youtube.com/watch?v=h5wxMQnRLwo&list=OLAK5uy_m5OmHWJlDZ64iIyzSD9MHD0OH3OEpd1Qo

Álbum Água de viver nas Plataformas Digitais: https://open.spotify.com/album/5xtJOdkyWuj7gzqz97cRCi 

https://music.amazon.com.br/albums/B07FYRYPQ5?tab=CATALOG&ref=dm_wcp_albm_link_pr_s 

https://www.deezer.com/br/album/69240782


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
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