Anastácia

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A cantora e compositora pernambucana Anastácia, iniciou a sua carreira profissional em 1961 com o disco Anastácia no Torrado. Brilhou também como atriz de radionovela. Nessa época a única mulher que cantava Forró era a talentosa Marinês, que recebeu do rei do baião o título de “Rainha do Xaxado”.

Mesmo sendo fã de Marinês, não se pôde evitar a disputa salutar pelo trono de diva da música nordestina estimulada pela gravadora de ambas. Foram cinco anos de concorrência com lançamento de um disco por ano de cada uma das cantoras simultaneamente. Nessa disputa quem ganhou foi a música pelo acervo e pela popularização da cultura nordestina.

Anastácia começou a se destacar como compositora, sendo o ponto da diferença entre ela e Marinês, que gravou 15 canções suas. Em 1973 Marinês gravou “Eu Só Quero um Xodó” (Anastácia e Dominguinhos), no álbum “Só pra machucar” que passou despercebida. No mesmo ano (1973), Gilberto Gil gravou em um compacto simples, tornando-a um sucesso espetacular que colocou em evidência a letrista Anastácia. Hoje sua obra soma mais de 400 músicas gravadas e ela se mantém em plena atividade. Reforçando a autoestima do nordestino que também saiu do seu torrão natal na busca de uma vida melhor longe de sua terra.

Segue abaixo entrevista exclusiva de Anastácia para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em fevereiro de 2002:

01) Ritmo Melodia: Fale do seu local de nascimento e seu primeiro contato com a Música.

Anastácia: Eu nasci no dia 30 de maio de 1940 em Recife – PE e meus pais José Bonifácio Ferreira e Josefa Conceição Ferreira me batizaram como Lucinete Ferreira. Eu comecei cantar muito cedo, na beira dos açudes com as lavadeiras de roupas e adorava cantar para diverti-las. Com 13 anos de idade houve um concurso na fábrica que minha mãe trabalhava, no qual tinha uma menina ganhando há três semanas, eu fui lá e ganhei da menina.

Nessa ocasião, fui contratada para cantar na orquestra da Fábrica. Depois cantei bastante nos SESIs do Recife. Um dia no SESI do Vasco da Gama, um senhor perguntou se eu não queria cantar na Rádio e Jornal do Comércio. Achei que era brincadeira, mas ele estava muito bem vestido e me deu seu cartão. Fiz um teste em uma quarta-feira 10:00. Ele era Clênio Vanderlei um dos grandes atores pernambucanos, já falecido, que fazia o papel de Jesus Cristo na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Passei no teste, fui contratada e comecei a cantar em 1954 na Rádio e Jornal do Comércio, expandi minha carreira como atriz de rádio – teatro. Fiquei em Recife até 1960.

02) RM: Por que você resolveu vir para São Paulo?

Anastácia: Na década de 60 começou a popularização da Televisão e houve muita contratação de artistas nordestinos para o Eixo Rio – São Paulo. Achei que era hora de sai de Pernambuco e vim para São Paulo em 1960 com minha mãe Josefa, cinco irmãs (Arlete, Lucy, Vera Lúcia, Maria José) e uma sobrinha, todos eram crianças. Eu tinha 20 anos e não vim pensando em cantar, porque eu achava que meu talento não estava no nível do sudeste. Os artistas eram mais profissionais e populares, eu vim para tentar qualquer trabalho, tinha uma irmã que já morava em São Paulo. Acho que Deus escreve certo por linhas tortas.

Eu acho que meu destino já estava traçado. Quando cheguei, no outro dia andando pelo centro da cidade, uma pessoa de dentro de um Bonde gritou meu nome, era um cantor chamado: Nelson Roberto do Recife. Ele tinha vindo antes de mim, mas não estava trabalhando como cantor. Ele me deu um cartão de Venâncio (da dupla Venâncio & Corumba) que tinha um escritório de caça talentos. Procurei o Venâncio (Marcos Cavalcanti de Albuquerque que nasceu no dia 07.10.1909 em Recife e faleceu no dia 18.09.1981) um tempão até encontrá-lo e deixei meu contato e fui trabalhar na Vasp. Um dia ele me procurou na Vasp propôs um trabalho. Foi ele que me levou para gravadora Continental, fiz o teste, passei e fui contratada. As coisas aconteceram rápido em 1960. Fiz um disco compacto em 1960 e em 1961 lancei meu primeiro long play. Fiz sucesso no Nordeste com o primeiro Disco. Eu casei com Venâncio e tivemos duas filhas: Márcia, Liane.

03) RM: O que você cantou no teste para gravar o seu primeiro disco?

Anastácia: No teste na gravadora cantei de tudo. Desde Bolero, Mambo, Samba e no meio do teste, o diretor musical Palmeira, da dupla Palmeira e Biá, disse “Lucinete, canta um forrozinho”, eu lembrei de cantar Sebastiana, ele me mandou parar. Achei que não tinha gostado. Ele disse que fui bem cantando outros gêneros musicais, mas na hora do forró, me denunciei como forrozeira nata com ritmo e suingue.

Perguntou se queria gravar um disco de Forró e fiz meu primeiro disco, Anastácia no Torrado. Mudaram meu nome de Lucinete para Anastácia. Eu nem sabia e me surpreendi, mas acho que o nome Anastácia foi uma coisa boa para mim. Deve ter alguma proposta de outra pessoa de sobressair como esse nome e serviu para mim. Moral da história eu fiz o primeiro Disco e não parei mais.

04) RM: Como era a sua relação profissional e pessoal com os forrozeiros da época?

Anastácia: Quando eu comecei, só tinha uma mulher cantando Forró que era Marinês. A Rainha Absoluta e todo mundo que gostava de cantar Forró se espelhava nela. Uma excelente cantora e tinha uma performance muito forte. Eu era a sua fã, mas minha voz não parece com a dela e tenho uma personalidade formada. Ela, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro faziam muito sucesso no Nordeste. Quando eu comecei a gravar perguntavam quem era a mulher que estava cantando Forró e fazendo sucesso. Virei uma concorrente da Marinês e éramos de gravadoras diferentes. E quando ela gravava um disco, eu gravava também, foram cinco anos de concorrência no mercado toca uma e toca outra. Foi muito bom para música nordestina, uma soma, eu sempre procurei fazer um bom trabalho, aprendendo e buscando melhorar sempre.

Eu conheci Marinês no Rio de Janeiro e Luiz Gonzaga em São Paulo ambos gravaram minhas músicas. Conheci Genival Lacerda em Recife e Jackson do Pandeiro no Rio de Janeiro quando participei do Projeto Pixinguinha e do projeto Seis e Meia da Funart. Abdias e o Trio Nordestino, conheci em São Paulo e depois todos começaram a gravar minhas músicas, inclusive as românticas gravadas por Waldick Soriano, Claudia Barroso, Roberto Muller e outros artistas.

05) RM: Como iniciou sua amizade com o Rei do Baião Luiz Gonzaga?

Anastácia: Eu conhecia Luiz Gonzaga desde Recife, mas não tinha contato pessoal. O Venâncio vendia os shows de Gonzaga no Rio de Janeiro e em São Paulo. Um dia eu estava no escritório quando ele chegou e começamos a conversar e nos identificamos muito. Eu declarei que era sua fã e apaixonada pelo seu trabalho. Ficamos amigos e trabalhamos juntos e ele gostava muito de mim. Em 1967 ele me convidou para fazer um programa de TV no Rio, chamado: “Noite Impecável”. Eu fazia em São Paulo, um programa chamado “Chapéu de Couro”, dirigido por Jorge Paulo, eu fazia dupla com Aluízio Gomes, interpretávamos uma dupla de nordestinos: “Seu Cazuza e Dona Severina”. Gonzaga gostava muito desse quadro e me chamou para fazer no Rio de Janeiro.

06) RM: Qual sua relação pessoal e profissional com Dominguinhos?

Anastácia: Em 1967 conheci Dominguinhos em São Paulo e ele tomava conta do regional de Gonzaga. O rei do baião me convidou para uma temporada de shows no Nordeste e o sanfoneiro Ari Coutinho foi substituído por Dominguinhos. E começou nossa amizade, paixão e primeiras composições: “Um Mundo de Amor”, “De Amor Eu Morrerei” (que Gal Costa gravou).

Em 1972 fizemos: “Eu Só Quero Um Xodó” que Marinês gravou no álbum “Só pra machucar” e Gilberto Gil gravou em um compacto também em 1973. A gravação do Gil se tornou um sucesso nacional. Tivemos um relacionamento amoroso por quase 12 anos (1967 a 1978) e mais de 160 composições em parceria. Ele era casado, sua esposa morava no Rio de Janeiro e eu e ele morávamos e trabalhávamos em São Paulo. Foi um relacionamento muito bom, mesmo não tendo terminado muito bem. Ele casou com a cantora Guadalupe e foi cuidar da própria vida. Não tivemos “filhos” carnais, mas crias musicais e foi o que mais valeu a pena.

07) RM: Como foi a criação do grande sucesso “Eu só quero um xodó” em parceria com Dominguinhos?

Anastácia: Estávamos no meu apartamento na Vila Buarque no centro de São Paulo e Dominguinhos estava tocando o acordeon e eu fritando um peixe na cozinha. Eu escutando a melodia que ele tocava fui me aproximando e comecei a cantar a letra de uma vez só que era uma indireta para ele. Depois ele no Rio de Janeiro ligou para mim dizendo que a Marinês estava selecionando músicas para o próximo álbum e ele queria mostrar aquele xote. Eu falei que não lembrava mais da letra e ele insistiu e cantei pelo telefone e ele gravou e mostrou para a Marinês que gravou em 1973 no álbum “Só pra machucar” e a gravação de Gilberto Gil no mesmo ano se tornou um sucesso nacional.

08) RM: Como era visto o nordestino na década 60 em São Paulo?

Anastácia: O nordestino não tinha muito apoio em São Paulo e éramos marginalizados, por pura ignorância. As pessoas não conheciam o Nordeste nem o potencial do nordestino. Achavam que todo homem era Lampião e toda mulher era Maria Bonita, coisas da imaginação e ignorância. Fez 42 anos que moro em São Paulo e estou lançando o 42º disco (2002) de carreira. Tenho mais de 450 músicas gravadas por interpretes importantes dentro e fora do Brasil. “Eu Só Quero Um Xodó” foi gravada mais de 300 vezes e é uma música nordestina gravada no estrangeiro. Isso é a cultura do Brasil que o povo desconhecia e por desconhecer achava que o artista nordestino não tinha mercado em São Paulo. Agora, graças a Deus, a gente pode se dar ao luxo de ver a meninada cantando Xote e dançando Forró.

Eu canto e as pessoas começam a se “peneirar”. É o sinal do tempero nordestino brasileiro e pode ser um xote, arrasta-pé, baião tudo ao mesmo tempo. “Eu Só Quero Um Xodó” foi gravada no ritmo de arrasta-pé, xote, reggae e balada. O país se negava a discutir as questões culturais e educacionais do povo nordestino. Éramos vistos como “anti-povo” e “anti-herói” e com a conscientização que nós brasileiros estamos tomando podemos fazer o encontro do Sul, Sudeste com o Norte e Nordeste. Os artistas e formadores de opinião é que mudarão esta realidade, para esse país no futuro possa ser um país respeitado pela sua cultura e pela sabedoria do seu povo.

09) RM: Como você define o Forró?

Anastácia: Olha é tão difícil (risos) definir o Forró. Quando estou cantando com um sanfoneiro bom com aquele som acústico do Zabumba que é a mola mestra e o triângulo, pinta tanta coisa na minha cabeça, faço tanta coisa, vêm mil e uma ideias.

10) RM: Fale do seu Xote em homenagem a Bob Marley.

Anastácia: Eu levantei duas horas da madrugada com um refrão na cabeça e fiz uma música para Bob Marley e o ritmo dele é música nordestina. O Reggae é um Xote jamaicano, vocês vão ouvir meu Xote-Reggae-Xote, essa música vai dá o que falar. Eu acho que nem fui eu que fiz, acho que recebi uma mensagem duas horas da madrugada de Deus ou Jah que me inspirou. Há um encontro, uma identificação incrível desses dois ritmos Reggae e Xote. Eu fico sem saber se é realmente música do nordeste ou música universal.

11) RM: Como você vê o reconhecimento do seu trabalho como cantora e compositora no Brasil?

Anastácia: Existe um problema muito sério no Brasil, pois é muito difícil uma cantora fazer sucesso em relação a um cantor. Eu acho que tem mais público feminino para os cantores do que masculino para as cantoras. Existe um número maior de cantores do que de cantoras. Eu por gravar sempre música nordestina já sou colocada em segundo plano, as gravadoras não tinham e nem têm interesse de me promover nacionalmente. A gravadora me promovia para o Nordeste e depois do carnaval todos os forrozeiros viajavam para o nordeste para divulgarem os seus discos da Bahia até Belém, como sendo o único espaço para divulgar o nosso Forró. Esqueceram que no Sudeste foi crescendo a colônia nordestina querendo conviver com seu habitat musical e costumes.

Eu acredito que o que contribuiu também para eu não ter um reconhecimento foi minha parceria com Dominguinhos. Quando o conheci, ele era um desconhecido, tocava com Luiz Gonzaga e depois veio trabalhar comigo. Quando fizemos “Eu Só Quero Um Xodó”, ele foi trabalhar com a Gal Costa e se achava senhor absoluto e terminamos o relacionamento. Ele fazia tudo para me boicotar e em entrevista não falava das parcerias comigo. Muita gente até hoje duvida que fiz a letra de: “Eu Só Quero Um Xodó”. É uma coisa que não guardo mágoa, mas foi uma bobagem da parte dele. Quando perguntam de mim, ele diz que fui “agregada”. Uma pessoa agregada vive sob a dependência financeira do outro e nosso relacionamento era diferente, minha posição social era melhor quando nos conhecemos. Fui uma companheira de longas batalhas, renasci das cinzas e continuo mostrando que tenho talento. Ele colocou no seu site que eu não quis mais fazer música com ele. Não quis por esse motivo, pois 100% das minhas músicas em parceria com ele, a letra é minha e em algumas a melodias também, mas ele nega para poder se sobressair. E como é um excelente músico e homem, existe esse problema de homem ter mais espaço. As pessoas achavam que eu não era ninguém, mas continuei mostrando que fazia e faço minhas composições. E as pessoas que fazem parceria comigo sabem que eu participo efetivamente de tudo. Por egoísmo de uma pessoa, outra ficou em segundo plano.

12) RM: Fale da importância de Pedro Sertanejo na divulgação do Forró em São Paulo.

Anastácia: Pedro Sertanejo marcou na história nordestina, um baiano de Canudo que morou no Rio de Janeiro, veio nos anos 60 para São Paulo com a ousadia de montar um Salão de Forró na rua Catumbi, 183 no Belenzinho. Pessoas desavisadas achavam um horror tanto nordestinos reunidos em um só lugar. No Salão do Pedro pessoas casavam, encontravam amigos, parentes que fazia anos que não viam e artistas se hospedavam. Era um local de encontro obrigatório do pessoal que fazia música nordestina e quando os músicos vinham do Rio de Janeiro, perguntavam onde tinha canto para tocar e o pessoal levava para o Forró de Pedro Sertanejo. Ele sempre colocava para cantar, mesmo os que não eram contratados ou convidados. Eu não cantava muito lá, porque tinha outros espaços para fazer shows. Eu ia poucas vezes, mas às vezes que eu ia, era bem recebida. Eu prestei uma homenagem a ele no meu disco. Foi uma pessoa que nos deixou, mas que iniciou todo esse movimento do Forró em São Paulo.

13) RM: A discografia de Anastácia.

Anastácia: Em 2018 o DVD – Eu Sou Anastácia. E 2017 o CD – “Daquele Jeito”, que foi indicado ao Grammy. Em 2016 o CD – “60 anos de Forró e MPB. Em 2009 o CD – “Amor Entre Quatro Paredes”. Em 2004 o CD – “50 anos de Forró”. Em 2001 o CD – “Seresta”. Em 2000 o CD – “Sangue Bom”.

Em 1995 o CD – “Coração de Mulher”. Em 1994 o CD – “Coisa Querida”. Em 1993 o CD – “Faz parte do Amor”. Em 1992 o CD “Saudade Matadeira”. Em 1991 o CD – “Vem me Buscar”.

Em 1989 “Forró Bom é do Abc”. Em 1988 “Tem que mexer para Adoçar”. Em 1987 “Quero você pra mim”. Em 1982 “Cheinho de Amor”. Em 1981 “A Fulô do Forró”.

Em 1979 “Morrendo de Saudade”. Em 1978 “Você é meu Xamêgo”. Em 1972 “Vamos Xamegá”. Em 1971 “Torrão de Ouro”. Em 1970 “Canto do Sabiá”.

Em 1969 “Caminho da Roça”. Em 1965 “Anastácia”. Em 1964 “Anastácia”. Em 1963 “Anastácia”. Em 1962 “Anastácia”. Em 1961 “Anastácia”. Em 1960 “Anastácia no Torrado”.

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Anastácia (Forró) – Ouvir todas as 122 músicas: https://www.ouvirmusica.com.br/anastacia-forro/

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.