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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Ana Rita Simonka


Ana Rita Simonka está entre os casos raros de artistas que criam novos gêneros musicais. No início dos anos 2000, ela começa a divulgar seus trabalhos autorais trazendo uma visão inovadora dentro da World Music e unindo a MPB – Música Popular Brasileira – com os sons do oriente.

Com ênfase nas tradições da música Indiana e Sufi e inspirada em elementos da música New Age e Meditation, seu diferencial foi ter avançado além do cenário New Age dos tecladistas e arranjadores ou dos cantores do chamado “mantra ocidentalizado” para propor um mergulho aprofundado na fusão de linguagens a partir dos Ragas e Maqam (escalas clássicas indianas e árabes) que ela usa para compor suas canções. Seus poemas trazem temas místicos inspirados em poetas como Rumi, Kabir, Hakim Sanay, Tagore,e e Omar Kayam entre outros, ou reverberando os ensinamentos das mais diversas tradições de amor e consciência como no Zen e no Cristianismo.

Dessa influência, ela também traz uma inovadora técnica vocal inspirada em microtons e overtones, recriando gêneros como a Bossa-Nova ou os ritmos Nordestinos brasileiros com um novo estilo de voz que altera o estado de consciência dos seus ouvintes; sua idéia é apresentar ao Brasil uma via de canto de êxtase tal como o Qawalli Sufi ou o Kirtan indiano.

Sua fusão inclui ainda uma arrojada concepção harmônica para o violão – seu instrumento preferido – onde através dos conceitos do jazz, propõe harmonizações inéditas para as escalas orientais, obtendo assim uma atmosfera única dentro da MPB e da World Music. Como violonista, cita suas principais influências como sendo o seu professor Toninho Horta além de João Bosco, Baden Powell e João Gilberto.

Dentro da MPB, Ana Rita Simonka considera a sua maior influência estilística como sendo o Clube da Esquina de Minas Gerais, que é a terra de sua família maternal e de onde ela resgata a mineiridade de seus antepassados; desse movimento, ela traz o conceito de unir os universos tonal e modal, conceito que é super afinado com a proposta da artista de introduzir escalas orientais e canto Gregoriano na MPB. Também do jazz mineiro ela traz a idéia do improviso buscando recriar atmosferas barrocas dos cantos das Igrejas que tendem ao espiritual.

Dentro da visão da música como uma expressão de Yoga e do Sufi, Ana Rita Simonka também traz para a MPB a relevância de se criar música como um veículo de energia de cura e transformação: seus arranjos trazem misturas inéditas como o Santur da Pérsia e a Tabla Indiana ao lado da viola mineira, o Sitar junto com o Samba-Choro, o violão Bossa-Nova com os ritmos árabes, sonoridades de Sound Healing como tigelas sonoras e gongos junto com Cirandas Nordestinas e Valsas Mineiras, e também a presença de elementos eletrônicos como os synths e pedais de efeito.

Além de compositora, cantora e multi-instrumentista, ela também tem formação em dança e é mestra em meditação ativa pela linha do método “Shattari Sufi” do renomado mestre Adnan Sarhan que trouxe o Sufismo para o ocidente e com quem estudou por mais de dez anos na Sufi Foundation of America.

Seu primeiro álbum autoral “Bossa Nova Delhi” foi aclamado internacionalmente sendo selecionado para a coletânea “Gardens of Eden” da Putumayo (USA) como um dos melhores trabalhos em World Music do ano. Esse trabalho é uma fusão da MPB com a Música Clássica Hindustani que ela dividiu com os intérpretes Ratnabali no canto indiano e Edgar Silva na Tabla e vários outros artistas da etno-music. Lançado em 2000, esse foi o primeiro trabalho que propos uma fusão entre o Brasil e a Índia.

Em seguida, produziu e editou dezenas de trabalhos como a série “Mantra”, “Yoga Music Brasil”, “Yoga Dance”, além de diáticos como “Mantras&Chakras” com 80 áudios e mais de 100 páginas de texto original atendendo ao ensino de professors de Yoga e Meditação e atuando em todo o Brasil nos mais renomados eventos de Yoga e Saúde Alternativa.

Teve seus trabalhos licenciados para os selos MCD, AZULMUSIC, LUAMUSIC, REVISTA CARAS ZEN, TRATORE, BUDDHA LOUNGE, EMI. Suas faixas foram trilha sonora de importantes programas de TV e novelas como “ALTERNATIVA SAÚDE”, “CLONE” e “MALHAÇÂO” da REDE GLOBO e “CASA DOS ARTISTAS” do SBT.

Em 2021 recebeu o prêmio “AWARD OF EXCELENCE NADA CENTRE” ofertado pelo mais importante instituto de Pós-Graduação da Índia pela sua contribuição na área de Musicoterapia e pesquisa de linguagens cross-cultural. (IMTA India Music Therapy Association).

Sobre sua formação, Ana Rita Simonka nasceu numa privilegiada família artística no Brasil; seu pai – o “Velho Pietro” – é um dos mais consagrados professores de dança latino-americana de São Paulo e por muitos anos ela formou com o pai uma parceria de sucesso. Pela influência de seu pai, ela cresceu cercada de grandes mestres da Música Popular Brasileira e aos dez anos de idade iniciou seus estudos musicais no chorinho e no violão clássico aprendendo com grandes maestros como Benedito Costa (o iniciador da música orquestrada no sertanejo brasileiro) e Toninho Neto (conjunto Talismã de Adoniran Barbosa).

Teve o privilégio de estudar diretamente por muitos anos com nomes internacionais como o percussionista Papete (Toquinho, Sadao Watanabe, Sado); os integrantes do Trio Mocotó, Muri Costa (Caetano Veloso); o sambista Jorge Costa entre outros grandes da MPB que frequentavam sua casa por influência de seu pai.

Ana Rita Simonka é uma produtora musical cuidadosa que investiga todas as fases da criação, desde a captação, mixagem e arranjos numa verdadeira alquimia de sons. Seu trabalho nunca teve apoio institucional de qualquer tipo, sendo produção independente em todas as etapas e garantindo com isso a pureza de sua proposta artística única e singular.

Como formação acadêmica, Ana Rita Simonka é Mestre em Ciências da Comunicação e Artes da USP com a tese “Os Cantores da Noite”, que conta a sua própria história de estudante junto aos músicos com os quais teve a oportunidade de aprender desde a infância; é também Pós-Graduada em Yoga pelo curso da FMU- São Paulo pela linha científica de Swami Kuvalayananda, e Pós-Graduada pelo instituto Nada-Centre da Índia em musicoterapia ao lado da IMTA – India Music Therapy Association.

Recentemente ela tem se dedicado a lançar projetos de qualificação professional de terapeuta holísticos através de seus cursos “Musicoterapia Universal Holística” e o método de dança oriental para meditação “The Padma Flow”.

Mestre em Ciências da Comunicação e Artes pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Cinema (graduação incompleta, apenas matérias técnicas). Na FACULDADES METROPOLITANAS UNIDAS fez Pós-Graduação em Yoga/Educação Física. NADA CENTRE INSTITUTE / ÍNDIA fez Post-Graduated Music Therapy.

Devido ao alto nível da sua participação nessa pós-graduação, recebeu o prêmio “AWARD OF EXCELENCE 2021” / NADA CENTRE INSTITUTE por sua colaboração na área de pesquisa em Musicoterapia Ocidental e Oriental.

Atua em produção de eventos musicais para a REDE SESC do Brasil tendo levado seus shows de “World Music” & “Meditation” para dezenas de Unidades dessa rede em mais de vinte anos de atuação (Fases de Contratação, Programação, Panejamento, Passagem de Som, Divulgação, etc). Produção de eventos artísticos e musicais para o SPA “Ponto de Luz” (primeiro SPA Holístico do Brasil), XI Congresso Brasileiro de Yoga, Semana de Yoga da USP, Centro Cultural Banco do Brasil, Associação Pallas Athena entre outros.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Ana Rita Simonka para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 19.09.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Ana Rita Simonka: Nasci no dia 21 de julho de 1965 em São Paulo mas acontece que a minha mãe, Maria Apparecida Seraphim Pietroforte é de uma família muito grande de Minas Gerais, então, apesar de eu adorar ter nascido em São Paulo sempre me considerei como mineira, pois foi essa foi a cultura que eu absorvi desde o berço e que tem a maior influência na minha arte e na minha vida. Registrada como Ana Rita Seraphim Pietroforte Simonka descendente de fidalgos portugueses por parte de mãe Seraphim e por parte de pai, avô italiano Pietroforte e avó índia Guarani da comunidade de Avaí interior de São Paulo e Simonka, sobrenome húngaro do marido (Carlos Estevão Simonka).

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Ana Rita Simonka: A música sempre me fascinou desde muito pequena: eu deixava qualquer passeio típico de “criança” em troca de ir a qualquer restaurante onde havia música ao vivo para ver pianistas, trios de guarânia de churrascaria ou cantores italianos de cantina; na idade em que as crianças preferiam ouvir aqueles discos coloridos que existiam para tocar nas vitrolas com histórias infantis, eu pedia para o meu pai colocar os discos “de adulto” que eram os “discos de música” – essas são as minhas primeiras lembranças de fascínio com a experiência da música.

Um contato mais formal aconteceu aos dez anos de idade quando o meu pai chegou em casa com um violão e colocou eu e meu irmão, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte para estudar música. Aí entra um grande diferencial, pois meu pai, , Antonio Pietroforte (o dançarino Velho Pietro) é um dançarino e professor muito tradicional de danças de salão em São Paulo, o “Velho Pietro”, e foi com ele que me iniciei na dança também muito cedo, tornando-me sua parceira ainda jovem para aulas e apresentações profissionais. Então, música e dança sempre estiveram ligadas na minha formação.

Através do meu pai de seus contatos com os meios profissionais de música e dança popular de São Paulo eu pude ter o privilégio de estudar com grandes nomes da MPB, gente muito talentosa que frequentava a minha casa semanalmente para fazer saraus, tocando por pura curtição mesmo, ou para dar aulas para mim e para o meu irmão. Foi assim que eu comecei tocando violão de Choro com os maestros Benedito Costa e Toninho Neto do conjunto Talismã do Adoniran Barbosa; o Evandro do Bandolim e o pessoal da antiga Casa Del Vecchio.

Depois estudei música brasileira com o grande percussionista Papete ( que tocoi com Toquinho e Vinícius, Sadao Watanabe, Sade) que era também um exímio violonista e compositor; convivi muito com todo o pessoal do Trio Mocotó (Fritz, João Parahyba, Nereu) e aprendi horrores vendo esse grupo dando aula de percussão para o meu irmão – foi com o Fritz eu aprendi o verdadeiro swing do Jorge Benjor na guitarra; tinha também o regional do Bando da Lua (Fernando Luna, Vidal França); também estudei com o violonista Muri Costa (que tocou com Vinícius Cantuária, Caetano Veloso).

Aprendi muito com os sambistas Jorge Costa e Oswaldinho da Cuíca, e por fim, os grupos de tango com suas orquestras e seus bandoneons com quem a gente convivia nos nossos shows de dança… enfim, era esse pessoal que também frequentava a famosa casa noturna do “Jogral” que tanto marcou época revolucionando a música em São Paulo: era tanta gente boa que eu nem lembro mais… esse pessoal não saía da minha casa, e eu vivia aprendendo tudo o que podia… então, foi assim que eu comecei, transitando na melhor MPB que poderia existir: me considero uma pessoa muito afortunada nesse sentido.

Na continuidade, eu fui estudar o violão clássico pois todos esses músicos sempre diziam para os meus pais que eu tinha muito talento – e eu acreditei! Também tentei estudar piano, cursei dois anos de clássico mas larguei depois… porque a minha paixão sempre foi o violão, não tem jeito!

Paralelamente, começa a acontecer o meu interesse pela música na visão da espiritualidade que é a marca central do meu trabalho, e vamos falar mais sobre isso mais adiante quando entrar o tema da musicoterapia; basicamente o que aconteceu foi que o trabalho como dançarina profissional me levou a buscar técnicas de cuidado com o corpo e consciência corporal, e daí foi que eu caí direto no Yoga: foi então as coisas começaram a se encaminhar para o “lado do Oriente”, e quando eu passei do Yoga para a Dança do Ventre, todo um universo de música se abriu para mim: comecei a conhecer um conceito totalmente diferente de arte e de musicalidade.

Eu fui me aproximando disso de maneira absolutamente pioneira pois naquela época não havia sequer CDs, ainda era o tempo do LP e da fita cassete, e sem a internet… então, para se ter acesso à música árabe por exemplo, a gente tinha de ir comprar umas fitas cassete pirata de uns tiozinhos ali na Rua Abdo Chain, eram comerciantes que traziam discos do Líbano, Egito, Turquia, Síria, só para o pessoal da colônia entende? Sobre mantras era pior ainda pois havia uma única fita cassete que circulava literalmente em São Paulo inteiro sempre com as mesmas músicas e que a gente comprava em lojas de roupa indiana… tinha quatro mantras nessa fita e era só isso… então foi assim que eu comecei nessa árdua pesquisa, com absoluto pioneirismo. O resultado é esse estilo que eu criei, de MPB com elementos New Age e Oriente. Imagina a dificuldade que foi apostar nisso! Agora com toda a facilidade da internet, eu olho para trás e custo a acreditar em tudo o que eu enfrentei por ter despertado essa paixão por esse outro lado do planeta…

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Ana Rita Simonka: Bem, como toda essa bagagem de vida e nessa estrada musical tão espontânea, eu não me sentia inclinada a fazer curso superior de música na juventude, mesmo porque eu sabia que não iria encontrar numa Faculdade o que mais me interessava na ocasião que era a questão da música e da espiritualidade, do Oriente e etc.

Teve uma situação muito triste que eu fui até a Faculdade de Música da ECA – USP para pedir para assistir as aulas de harmonia como ouvinte que era o que me interessava, e fui literalmente enxotada pelo diretor que me humilhou muito dizendo “aqui não é lugar de bicho-grilo”, “esse pessoal que imita música indiana” (risos). Veja a pobreza de visão dessas pessoas…e eu sempre enfrentando todas as barreiras – e não foram poucas!

Sobre curso superior, eu sempre adorei ciência e tecnologia – eu sou muito nerd – então, fui estudar Biologia na Faculdade, mas não me encontrei na profissão; então, depois da graduação, eu ingressei na faculdade de Cinema da ECA – Escola de Comunicações e Artes da USP, cursei dois anos mas não quis terminar, pois não via nenhuma perspectiva na carreira de cineasta. Foi o momento em que resolvi dar uma virada e fui para fazer o Mestrado na ECA e escolhi um tema belíssimo, quase que auto-biográfico, que foi uma tese sobre os Cantores da Noite onde eu entrevistei muitos dos grandes mestres que me formaram como musicista e foi um trabalho muito gratificante.

Depois, sempre conjugando a questão da dança, do yoga e da música, eu continuei na vida acadêmica e fiz uma Pós-Graduação em Yoga pelo curso da FMU – Faculdades Metropolitanas Unidas e mais recentemente, eu fiz uma pós internacional de musicoterapia indiana onde fui inclusive premiada pelo meu trabalho para essa área e que falaremos mais a seguir.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Ana Rita Simonka: Nossa… pergunta muito difícil para quem trabalha com World Music… eu creio que nenhuma influência deixou de ter importância pois eu sempre fui muito eclética no meu gosto musical no que se refere a gêneros, mas também muito seletiva no que se refere a artistas…

Na minha infância e adolescência, eu aprendi a ouvir de tudo, ouvia temas para dança de salão e eu gostava de tudo que você possa imaginar: guarânias, tangos, boleros, salsa; eu também ouvia muita MPB – especialmente Clube da Esquina que eu acho o auge da cultura brasileira – e ouvia também a Bossa Nova, o Choro, música caipira de raiz, Vicente Celestino, ouvia tudo… ouvia Rock Progressivo… eu curtia varar madrugada e faltar da escola no dia seguinte para assistir festival de jazz quando passava na TV Cultura: ouvia muito Jazz “brazuca”, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Airto Moreira e Flora, ouvia gravadora ECM, ouvia todo esse povo pois eu sempre adorei as coisas mais experimentais… então nem sei como responder direito essa questão, pois não é comum alguém que curte desde Alceu Valença até Carlos Gardel, é complicado né? (risos).

Agora, na música oriental, eu tenho também várias referências que as pessoas não conhecem muito como os cantores Sufis (Nusrat Fateh e Abida Parveen), o próprio Ravi Shankar que já é mais conhecido, o turco Omar Faruk, o egípcio Hossam Ramzy e tantos outros gênios do oriente tanto tradicional quanto de fusion, enfim, eu não saberia como definir tudo isso… e tem também a New Age “classuda” que eu curto muito, Kitaro, Vollenweider, a World Music mais pop do Peter Gabriel, etc…

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Ana Rita Simonka: Na verdade, eu comecei com uns dezesseis, dezoito anos de idade (1978) tocando em barzinhos; meu irmão, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte era muito bom percussionista e ele sempre tinha convite para acompanhar diversos estilos, desde Jorge Costa até o Maestro Mário Albanese; eu ia junto e acabava conseguindo mostrar o meu violão e voz e daí rolavam uns convites para animar barzinhos no Bexiga (Bela Vista), em Moema, etc – e era igual antigo concurso de miss, pois a minha mãe ia junto! Também eu dava aulas de violão para o pessoal do bairro. Eu tocava aquele repertório convencional de barzinho, era a grande fase da MPB no rádio e existia muita música inteligente nessa época.

Depois dessa fase, eu acabei ficando muito mais envolvida profissionalmente com a dança de salão, a dança do ventre, o yoga e a meditação: acredita que eu fiquei uns sete, oito anos sem pegar no violão antes de gravar o meu primeiro álbum? Não foi desencanto algum, apenas eu estava mais ligada na dança, e a música para mim era um parceiro para eu dançar. Daí, final de 1999, eu produzi o meu primeiro álbum cuja história eu conto a seguir…

06) RM: Quantos CDs lançados?

Ana Rita Simonka: Eu tinha feito duas viagens para a Índia em meados dos anos 90: fui fazer uma jornada espiritual com o intuito de conhecer e pesquisar sobre as relações entre a dança, a música e o yoga – e nessa ocasião eu já estava muito envolvida estudando música árabe Sufi e fazendo o canto indiano com a cantora indiana Ratnabali em São Paulo.

Aconteceu que naquela imersão toda, quanto eu voltei para o Brasil, espontaneamente eu voltei a compor – algo que não acontecia desde a minha adolescência quando eu compunha muitas coisas para mostras estudantis – mas naquela fase foi diferente, pois aconteceu algo de grande maturidade musical: eu comecei a escrever as canções baseadas nas escalas orientais, os Ragas e Maqam – e disso eu percebi que estava trilhando um caminho muito novo e inusitado.

Foi algo tão forte e envolvente que eu levei muito a sério e resolvi produzir o meu primeiro álbum que era a fusão da MPB com a música indiana e que eu chamei de “Bossa Nova Delhi” (final de 1999). Escrevi as composições e os arranjos convidando a minha professora de canto Ratnabali e o tablista brasileiro Edgar Silva, além de uma turma muito boa de músicos para participar como o Marcos Santurys, o Krucis, o Renato Picchi, Johny Murata, entre tantos outros e tendo a meu favor o genial Mauricio Grassmann na técnica. Foi uma luta tremenda pois eu busquei apoio de todos os lados mas ninguém topou ajudar em nada; sinceramente, os produtores me olhavam como se eu fosse um extraterrestre… nem se davam ao trabalho de me ouvir… mas a recompensa veio em seguida pois eu fui a primeira artista brasileira a ser incluída numa coletânea especial da gravadora americana PUTUMAYO, que escolheu uma das faixas do “Bossa Nova Delhi” para integrar o CD – “Gardens of Eden” como um dos melhores trabalhos de World Music daquele ano. Foi muita alegria!

Depois desse sucesso internacional, eu produzi mais dois álbuns autorais que foram o ”Mantra Um”, “Mantra Dois”, e mais várias coleções que são o “Yoga Music Brasil”, “Yoga Dance”, e vários didáticos para formação de professores de yoga como o “Mantras & Chakras”, primeiro material do gênero criado no Brasil – tudo de maneira independente. Entrei em várias coletâneas muito legais tipo Budha Lounge, Sahara Lounge, Caras Zen, etc.

Minhas músicas entravam constantemente em programas de TV como trilha ou mesmo vinheta de quadros ou personagens como o “Alternativa Saúde”, “Casa dos Artistas”, novelas como “Clone”, “Malhação” e aquela outra sobre a Índia que eu não lembro o nome, então, apesar de ser uma apropriação da minha obra que eu nem sabia direito – pois nunca houve um convite mais formal – mas era sinal de que o que eu fazia tinha qualidade e público também.

Depois, como toda essa mudança para o digital, eu fui gravando mais alguns Álbuns autorais com muito esmero enquanto publicava coisas mais na linha do “Long Hour Meditation”; espero lançar esses autorais em breve, são todos na linha de Etno Fusion e World Music.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Ana Rita Simonka: Bem… eu sou a criadora de um novo gênero musical que é a MPB junto com a fusão da música oriental. Antes de mim, houve algumas pessoas gravando mantras mas sem ir tão fundo nesse exercício da linguagem musical ou estética oriental da Índia e nem do Sufi. Os poucos trabalhos que existiam no mercado era o que a gente costuma chamar de “mantra ocidentalizado” – note bem, eu não sou o tipo de tradicionalista que renega o “mantra ocidentalizado”, apenas não é o estilo que eu sigo. Mas antes de mim, ninguém tinha feito com a profundidade que eu levei, chegando ao nível do conhecimento das linguagens do oriente como por exemplo, compor baseado nas escalas indianas ou criar as fusões dos nossos ritmos com os ritmos indianos e árabes, e também criar as letras com o conteúdo místico inspirada em poetas como Rumi, Tagore, Omar Kayam, tudo isso foi um grande diferencial, era mesmo uma inovação na MPB.

Meu primeiro álbum foi lançado no final de 1999 quase na virada do ano, consta como sendo de 2000, então esse é um fato, todos os demais que fizeram algo parecido em álbum musical ou trilha para teatro, ballet, todos vieram depois e aproveitando muito nas idéias do que eu havia criado, as datas não mentem, “Bossa Nova Delhi” foi indiscutivelmente o primeiro, e apesar das conquistas internacionais logo de saída, a gente sofreu muito porque não teve nenhum orçamento de divulgação como outros trabalhos puderam ter.

Então, eu fui a primeira artista no Brasil que trouxe para a música brasileira uma visão de música para meditação e consciência que não existia até então, com aprofundamento de linguagem da forma que merecia esse tema tão maravilhoso e importante para os nossos dias; fico imensamente feliz em saber que era um caminho certeiro e que eu fui muito visionária pois atualmente existe muita gente bacana fazendo esse tipo de som: tem música de rezo, tem música de cura, tem música de consciência, tem mesmo bastante coisa acontecendo no Brasil – mas eu fui realmente a primeira.

Eu fiz uma ponte entre o que se fazia de New Age no Brasil, que era basicamente tecladistas criando mais naquele modelo clássico do New Age, e juntei o pessoal da MPB com os artistas que tocavam o que se chamava de “música étnica” que eram os artistas de sitar, de tabla, de santur e etc.

Dizem que o Brasil é um país completamente “sem memória”; será? Quando houve as comemorações dos 50 anos da Bossa Nova, acredita que eu estava um dia lendo uns comentários do público num site de um grande evento que aconteceu e de repente, eu vi um norte-americano escrevendo o seguinte: “mas como é possível que ninguém tenha se lembrado do Bossa Nova Delhi, a coisa mais interessante que aconteceu nos últimos tempos nesse gênero no Brasil fundindo Bossa Nova com música indiana?” Então, criar gênero novo e ser independente não é fácil… Mas esse é o meu estilo próprio e me orgulho muito disso!

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Ana Rita Simonka: Sim; quando eu fazia canto coral no conservatório ainda na adolescência, eu estudei o canto ocidental que todo mundo conhece mas… quando eu comecei o treinamento na técnica do canto clássico indiano no estilo Hindustani, a minha cabeça literalmente pirou…pirou total, pois o conceito é completamente o oposto, ao invés de “cantar para fora”, você “canta para dentro”…

Aconteceu que eu tinha visto um grande cantor indiano num naqueles eventos internacionais do SESC que trazia companhias da Índia – o cantor era o Madup Mudgal – e simplesmente, vieram as recordações das minhas vidas passadas com tudo aquilo ali… foi uma enxurrada, uma catarse, eu fiquei fora do ar… Procurei a cantora indiana Ratnabali, que reside em São Paulo, ela é uma senhora nascida na Índia e Bacharel em música clássica e ela topou me ensinar – e eu era uma aluna super dedicada, mas com péssimos resultados eu acho (risos).

Eu demorei demais para evoluir naquilo ali, pois era uma grande reviravolta e a sensação que eu tinha era de que eu tinha começado a “reaprender música a partir do zero” estudando o canto clássico com a Ratnabali – era essa a sensação que eu tinha, de ter que reaprender tudo, pois o canto indiano se apoia na meditação, na vibração dos sons, nos chakras, ele é uma forma de yoga: tem o yoga dos sons, o uso dos microtons, o uso diferenciado da respiração, da mente, das emoções, é tudo voltado “para dentro” enquanto o canto ocidental é “tudo para fora”pois nele a base é a projeção da voz num teatro, entende? Enquanto a base do oriente é a sua consciência sobre a energia e as suas sensações em torno da voz e da música e como levar esse estado sutil para despertar o seu público. Tocar a Tampura indiana foi para mim um divisor de águas pois é um instrumento que só pelo som que ele produz ele é capaz de te iniciar espiritualmente – e a Tampura é quem dá o apoio para o estudo para a vocalização no canto indiano.

Depois eu fui completando a minha instrução com o estudo dentro de escolas Sufis mais tradicionais e acabei nas mãos do mais importante mestre de música e dança do Sufismo que foi o Adnan Sarhan, da Sufi Foundation of America. Ele não dava aula de canto, mas sim de movimentos Sufis com respirações associadas – e o que eu aprendi com esse mestre em termos de corpo e respiração foi também decisivo para o uso que eu faço da energia da minha voz. Não tem como separar a “garganta” do resto do corpo entende? E no canto indiano e Sufi, a idéia é essa, é tudo muito integrado, e eu adoro isso e me faz viajar internamente… e o público viaja junto!

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Ana Rita Simonka: Considero importantíssimo, pois sem isso, a pessoa não tem como descobrir o seu estilo, a sua maneira de cantar… eu acho que a técnica é tudo – técnica é você trazer a sabedoria de gerações e gerações que vieram antes até você, é economizar tempo! Tem coisas muito interessantes que fiz na vida para aprender sobre técnica, por exemplo, eu fui na Índia para ver aqueles cantores tradicionais cantando em templos como nos estilos do Gurbani Sikh, do Bakti-Yoga e do Kirtan; assisti tanto cantores consagrados quanto músicos de rua mesmo, gente muito simples cantando mantras na rua… então, você se senta ali na frente de pessoas que estão conduzindo uma tradição há séculos… eles respiram diferente, entende? A maneira deles se sentarem é diferente, os movimentos do corpo, das mãos, com tudo isso eles se concentram na voz de forma diferente…

Eles sabem realmente como conduzir esse canto de êxtase, de emoção mística, pois isso também é uma técnica com todas as suas particularidades – eu te diria que até o movimento dos olhos, das mãos, dos pés enquanto você canta pode dar diferença na emissão da sua voz… canto para mim, é esse trabalho, é aperfeiçoar esse yoga.

Cuidar da voz é seguir um Sadhana, é como uma disciplina de yoga: tudo interfere na qualidade da sua voz – desde a sua alimentação, a hidratação, o sono, o exercício físico, os seus pensamentos e emoções, as pessoas com quem você convive… tudo isso diz respeito ao “cuidado da voz”, não é somente “não fumar” ou “não tomar gelado” eu penso. A voz é o condutor do Espírito.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Ana Rita Simonka: Eu vou citar aqui as vozes mais incríveis que eu considero, que são: o incomparável Nusrat Fateh Ali Khan, a divina Abida Parveen, os Sabri Brothers e Sain Zahoor que são todos da música Sufi do Paquistão do gênero Qawalli, para mim e a mais bela tradição vocal que existe; eu também adoro o Pandit Jasraj, T.M. Krishna, Madup Mudgal, Shoba Gurtu, Wadali Brothers, Gulam Ali – todos do canto indiano; também sigo os cantores do Gurbani Sikh do famoso Golden Temple do Punjab como o Bai Nirmal Singh Ji – essas são as vozes que me embalam no que eu realmente sinto como sendo a “minha música”: são técnicas vocais impecáveis a serviço da maior emoção espiritual possível.

Sobre experiências mais conhecidas para o público da RitmoMelodia, eu citaria também as maiores vozes que pude ver ao vivo e que mais me impressionaram que são a Nina Hagen e o genial Cauby Peixoto – esse último foi o maior cantor que eu pude assistir em toda a minha vida, simplesmente completo – e é claro, a diva Flora Purim que me inspirou demais a ser uma cantora, uma postura maravilhosa como líder de um grupo de feras sobre o palco, uma pena que a memória brasileira não cultue mais essa diva.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Ana Rita Simonka: Nossa… é estranho… é muito fácil para mim, muito prazeroso, é um processo místico, eu não tenho nem um pouco dessa ideia de que “compor música é para compensar danos psicológicos sofridos” (risos); é um mergulho num paraíso de sons e de cores.

Tem experiências sinestésicas completas, transcendentais mesmo: eu por vezes chego a “ver” a música como formas e padrões de energia, como se fossem mandalas flutuando… Como eu faço letra e música, às vezes vem a letra primeiro, outras vezes vem uma idéia melódica para eu ir burilando, outras vezes vem as duas juntas – mas eu componho 99% das vezes com o violão na mão: não consigo desligar do violão!

Já aconteceu de eu estar indo para o estúdio gravar, a música veio pronta enquanto eu dirigia o carro, cheguei no estúdio e gravamos; também já aconteceu de eu ficar quinze dias trabalhando a mesma composição até chegar naquilo que eu queria… já teve música que eu escrevi uma parte, guardei, só fui completar anos depois… O único padrão “exótico” é que eu uso a notação indiana, escrevo as notas em partitura indiana para fixar as notas daquele Raga ou escala – Sa, Re, Ga, etc…é um hábito que eu adquiri e que não consigo largar.

Uma coisa que eu faço muito é sempre selecionar um tema e fazer uma encomenda para mim mesma do tipo: “bem, agora vamos escrever sobre isso ou aquilo” e isso me ajuda a focar melhor no resultado – mas sem “sofrência”, isso não é comigo não: música para mim é yoga – talvez por isso eu não tenha tanto essa relação mais psíquica que é o padrão aqui no ocidente com sendo a base para a criação da obra – e isso que eu digo não é em absoluto uma crítica para a “sofrência” pois eu curto escutar muita coisa desse gênero também – apenas não é a minha praia, entende? Não quer dizer que eu não possa abordar também esse tipo de temática: não é questão da “temática” (embora minha temática seja sempre mística) mas é uma questão de como eu estou frente àquela temática musical.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Ana Rita Simonka: Nunca tive; eu faço letra e música; nunca aconteceu. Eu tive algumas criações conjuntas com o guitarrista Johny Murata colocando letras em temas prontos dele, mas parcerias combinadas mais detalhadamente não teve.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Ana Rita Simonka: Não componho para outros artistas, nunca aconteceu, mas eu curtiria ser gravada por grandes cantores, embora seja complicado achar alguém capaz de seguir os microtons que eu uso, iria descaracterizar muito o meu estilo.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Ana Rita Simonka: Eu não tive tempo e ainda não tenho tempo de pensar nisso: ou eu faço assumindo toda a produção, ou não acontece nada: essa sempre foi a minha realidade. Eu busquei incansavelmente todos os tipos de apoio possíveis para produzir no Brasil mas nunca tive nenhuma porta aberta nesse sentido; mas todos os álbuns que eu produzi foram licenciados para os grandes selos que existiam que eram MCD, AZULMUSIC, LUADISCOS e TRATORE, sempre com muito reconhecimento e sucesso, então, as dificuldades me fizeram crescer para me tornar uma produtora de qualidade, muito criteriosa e criativa, eu faço muito bem todos os estágios menos a masterização que eu não entendo muito.

Eu tive a imensa sorte de ter um companheiro maravilhoso que sempre me incentivou e priorizou me ajudar para produzir minha música: agradeço sempre ao meu marido, o Carlos Estevão Simonka, uma pessoa rara e que participa também sendo meu parceiro como autor da arte gráfica dos meus álbuns; ele sempre foi o meu maior incentivador.

Então, produzir independente não foi questão de opção para mim: foi falta total de outra opção. Era a minha missão de alma, entende? Era eu comigo mesma. Se eu não assumisse, eu seria mais um ser humano triste, infeliz, reclamando da vida e perdido por aí tomando pílulas para depressão… não sei se há prós e contras em ser independente, é o que eu consegui fazer e pronto, toca o barco! Alguém precisa ser o herói na jornada não é? Pois é, eu me fiz uma heroína e sugiro a todo mundo pensar assim: que nada te impeça; vai lá e faz. Faz com honestidade e sobriedade, mas faz!

Eu produzi sempre com os recursos da minha profissão como bailarina e mestre em yoga, e na continuidade, com o que retornava dos CDs lançados – sempre ia retroalimentando. Royalties autorais no Brasil é uma piada de muito mal gosto: eu já cheguei a receber R$ 0,49 centavos por música minha usada como tema de personagem em novela durante sete meses, e mais alguns centavos por uso como vinheta de programa de bem-estar, é essa a remuneração de um independente, ou seja, é um “zé ninguém” – e já aconteceu de eu ser cobrada pelos escritórios de arrecadação mesmo sendo eu a autora e produtora da obra, com tudo registrado direitinho, já fui até ameaçada de multa por executar “aquela obra” em público, você acredita? É cada uma!

Ainda sobre produzir independente, eu acho que é um modelo muito bom quando o artista produz a sua obra e fica sendo o dono do que ele criou, dono da master do álbum eu quero dizer; depois, licenciar para um distribuidor eu acho o ideal. Todos os meus álbuns foram licenciados por selos até chegar o grande final do mercado do CD; antes da chegada do digital era um modelo muito bom, todo mundo trabalhava, todo mundo crescia. Depois do “fim do CD”, ficou um buraco muito grande; eu produzi três álbuns muito especiais nos últimos tempos mais ainda não lancei nenhum deles, aguardando o que ia dar nesse caos digital – agora com o digital firmando melhor, com um modelo mais claro, vou lançar essas novidades muito em breve, mas também na praia independente.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Ana Rita Simonka: Meditação, meditação, meditação: eu lido com energias. Meu planejamento é a fé e a sincronicidade do Espírito.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Ana Rita Simonka: Eu acho que só ajuda, eu amo tecnologia – mas tem que saber usar senão… a máquina te engole e ela passa a usar você invertendo a relação. Os artistas jovens, que não viveram a época sem internet, é super comum eles serem usados pelo “hipnotismo das curtidas e seguidores”… eles sequer entendem que tudo faz parte de uma compra de espaço… eles se firmam piamente no modelo que lhes é apresentado, não tem qualquer senso crítico ou filtro contra tudo aquilo ali, contra aquela máquina poderosa (a máquina mais poderosa da história da humanidade) e que se especializou em criar ídolos, em criar fantasias, em criar sonhos, em criar padronização de comportamento… nessa máquina, a música vira facilmente uma peça de publicidade, ela raramente tem autonomia de se usufruir dela como “música”- ela vem embalada num pacote onde a música em si é o que menos interessa, é apenas a busca daquele “surto de adrenalina” para o entretenimento dos sentidos… e esse entretenimento tem horas que é muito legal, mas tem horas que ele se torna a própria Matrix… então, para lidar com tecnologia do jeito que chegamos, RED PILL é indispensável… e para inserir a sua carreira nisso, tem que estudar muito e entender a realidade do mundo para não ser vítima da grande ilusão coletiva.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do fácil acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Para mim, é um ponto complicado falar mal de home studio, pois eu sou cantora e multi-instrumentista, eu com um home estúdio me viro super bem sozinha – pois eu gravo voz, violão, percussão, teclado, synth, eu gravo tudo… e eu sei mixar muito bem – só preciso de ajuda na fase da masterização. Então eu acho fantástica essa opção do home estúdio mas… quando aumenta a banda, daí não tem como, tem que ter uma estrutura melhor para dar o resultado legal, ainda mais quando eu trago as fusões junto com tabla, sitar, santur, são instrumentos que eu costumo colocar nos meus arranjos e que honestamente, é preciso um GRANDE engenheiro de som para fazer a coisa funcionar bem… todos os meus trabalhos eu sempre gravei com o Maurício Grassmann, ele sabe realmente como produzir World Music.

Todas as tentativas de gravar fora das mãos do Grassmann no meu caso, no Brasil, não fluiu legal. É uma questão de cultura mesmo, de nível dos nossos técnicos de som. Outra coisa é a questão de eu poder gravar na tranquilidade respeitando o meu jeito: eu sempre sento no chão – então, você chega no estúdio para gravar e pede um tapetinho, pede para sentar no chão, o cara já te olha atravessado pois vai ter que mudar a disposição das coisas ali, ele vai ter que aprender comigo como eu posiciono o microfone, essas coisas, e geralmente eles não querem mudar nada, eles querem plugar em linha e tacar o pau… mas a minha música não dá para fazer assim, é um artesanato… então, para mim, gravar no home estúdio é incrivelmente melhor – mas para gravar voz, tem que ter um estúdio, só a voz é que raramente eu gravo em home-estúdio – mas todo o resto dá para fazer.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Ana Rita Simonka: Eu não acredito em concorrência em absoluto: concorrência é quando as pessoas estão se repetindo criando coisas parecidas com o que já existe – elas querem imitar o que já existe. Eu nunca me preocupei com isso e nunca vou me preocupar, Ana Rita Simonka é uma coisa muito única que não tem concorrência; mesmo porque, isso de pensar em “concorrer” com outro músico te traz uma energia muito negativa… isso tira a boa energia da música. Música é para somar, não é para concorrer.

Eu já tive experiências de tocar com gente que no palco começava a “concorrer” comigo e eu limei na hora. Eu dou total espaço para um artista quando ele vai tocar ou gravar o meu som, ele faz literalmente o que ele quiser, se eu convidei é porque eu confio – mas concorrer? Tô em outra praia meu irmão, eu sou Fernão Capelo Gaivota, deixe eu voar alto e você que voe mais baixo se quiser…Sob

re essa questão de se “criar música para concorrer com aquilo que já existe”, eu digo para os mais jovens que eu simplesmente abomino padronização; vou te dar um exemplo real do que estou dizendo: quando surgiram todos esses artistas da nova geração nordestina – Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho, etc – cada um tinha a sua marca, o seu estilo próprio, apesar de estarem todos no “mesmo barco”; pense nos Novos Baianos, a mesma coisa linda: era uma “barca que corria” com estilo comum entre eles, porém cada um com a sua marca e a sua personalidade individual, sem padronização… será que houve “concorrência” ali dentro? … sobre Clube da Esquina, não precisa nem falar né?! Você imagina dentro dessa mesma escola mineira o Beto Guedes “concorrendo” com o Milton, o Milton “concorrendo” com o Toninho Horta, o Toninho “concorrendo” com o Lô Borges? Para quê? Ali não existe concorrência…

Meu mestre espiritual um dia me ensinou: “Quem tem competência não precisa competir”. Então, eu não entendo essa ideia de “concorrer” no mercado da música… mas sei o quanto essa lavagem cerebral tem corroído o cérebro das pessoas, e como isso faz mal ao coração, à alma de um artista! Um artista é uma alma livre, não pode ficar escravo dessas coisas. Eu com dez anos de idade tocava na roda de choro lá na Del Vecchio e nunca vi um chorão concorrer com o outro, sempre era uma parceria de boas…

Acontece que hoje, a padronização é absoluta, a sociedade está escrava do coletivismo – tanto é que intuitivamente se chama hoje em dia “coletivo de artistas”, não tem a noção do “individual” – mas eu penso que deveria se chamar “individualização de artistas” e não “coletivo” entende? Individualização é no fundo uma noção espiritual, é uma energia espiritual de individualização, é ativar o seu DNA que é único em todo o Cosmos, é ser VOCÊ! Mas hoje acontece que o gênero – o “produto de prateleira”- engoliu tudo: se você pega sertanejo, pagode, gospel, sofrência, RAP, ou essa MPB eletrônica mais moderninha, axé, é aquela regra: ouviu um, ouviu todos.

O “diferencial” é meramente uma “maquiagem” do produto: é a cor do cabelo do cara, é a roupa do cara, é o tênis que ele coleciona, são as pessoas que ele marca na rede social, é a conversa que ele conta ali na rede social, é a ideologia que ele defende… mas a música em si poderia ter sido feita por um robô, é tudo robotizado, se você programasse um software para criar aquilo ali, até os “gemidos” e as “malemolências” seriam automatizados igual.

As mesmas frequências de voz, o mesmo estilo de voz, as mesmas batidas, os mesmos recursos de automação de mixagem, as mesmas letras, tudo, tudo padronizado – e muito raramente você ouve nesse cenário algo que se destaque dentro dessa “fúria do coletivo”; parece o Exterminador do Futuro quando as máquinas dominaram o homem porém sem dar um único tiro, foi tudo no domínio sorrateiro do cérebro e da emoção… tudo no coletivo, programados igual máquinas…máquinas ligadas num “auto-tune”, e isso é algo mundial, não é só no Brasil. Então, para sair disso, é uma questão espiritual: você tem que saber como transitar nessa Matrix, tem que ir em busca da sua RED PILL.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Ana Rita Simonka: Vamos falar sobre voz para exemplificar: retomando o que eu falava anteriormente, no Brasil nós tivemos grandes escolas de voz e muitas que se consagraram internacionalmente; de Bidu Saião até Carmen Miranda, Araci de Almeida, a Inhana da dupla com o Cascatinha, Marlene, Emilinha, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, de Nora Ney até Isaurinha Gracia, de Elza Soares até a divina Clementina de Jesus… de Ademilde Fonseca até a Baby Consuelo (do Brasil)… Clara Nunes, Nara Leão, Flora Purim…! Cadê essas escolas de voz? Eu citei aqui dezenas de estilos diferentes, mas ACABOU TUDO! Acabou o “indivíduo”, é tudo agora no “coletivo”: você liga um programa de “novos talentos” e 100% dos cantores cantam em estilo vocal norte-americano – e o pior, cantam muito mal esse estilo que na sua origem, tem coisas lindas…

Eu falo 100% dos cantores ou cantoras sem medo de errar nas gerações mais jovens. Nossas escolas brasileiras de estilo vocal simplesmente ACABARAM num prazo de vinte, trinta anos. Isso é um fato, não pode ser discutido. Hoje, para você ouvir um bom cantor ou cantora de Bossa Nova por exemplo, talvez seja melhor procurar no estrangeiro, por incrível que pareça, tem japonês, alemão, francês fazendo esse tipo de resgate. É um momento muito difícil eu acho – a própria Matrix engolindo tudo…

Se eu comparar com o que viveu a minha geração, infelizmente eu sinto que houve muita regressão: quem cresceu ao lado de artistas como eu cresci sente uma pena enorme das gerações atuais que só tem acesso a coisas muito pobres pelo fato de serem padronizadas demais… tudo sendo feito para dar mais e mais visibilidade e “curtidas” e para fazer girar a roda da ilusão…

Eu dei um exemplo sobre a questão da voz, podemos estender para a composição e harmonização, e daí… é um desastre, é só mixar layers e loops e fim! Eu digo a meus alunos que eles deveriam experimentar desplugar um pouco dessa Matrix e começar a escolher aquilo que eles querem pesquisar e ouvir; já faz uns vinte anos que eu não assisto televisão, eu não tenho nem TV a cabo, e quando eu quero ouvir música eu vou na internet e SELECIONO o que me interessa e sugiro a todo mundo fazer isso também. É um caminho para a arte e também para a vida.

Quando quiser voltar para Matrix, ok, mas você mesmo já voltou como sendo uma nova pessoa, você já voltou diferente, aquela padronização não vai te engolir… e sem saber fazer isso, um artista não consegue lidar consigo mesmo: ele pira, ele não tem clareza das próprias forças que se movimentam dentro de sua alma – um artista precisa ser um pouco yogue eu acho, e de certa maneira, “estar no mundo sem ser do mundo” é essencial para a “alma de artista”.

20) RM: Quais os artistas já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Ana Rita Simonka: Sei lá…eu citaria gente já falecida como o maestro Benedito Costa, um senhor negro e que começou a vida como pedreiro; era baiano e pobre, nunca ouvi ele reclamar de nada, estava sempre na “vibe”, se tornou maestro sozinho e por esforço próprio: ele foi um dos primeiros arranjadores de orquestração para sertanejo no Brasil…

Eu também citaria o Papete(http://www.ritmomelodia.mus.br/entrevistas/papete), garoto pobre do Maranhão, nunca esteve numa escola de música mas era tão genial que foi ele quem gravou o primeiro LP de percussão do mundo pelo selo Marcos Pereira, era um garoto pobre do Maranhão que encantou o mundo e que na mesma humildade de sempre pedia para a minha mãe cozinhar comida mineira e fazer linguiça com couve para ele jantar conosco em casa… eu citaria essas pessoas que me deixaram valores humanos admiráveis. Profissionalismo para mim é isso: é você vencer na vida saindo do nada, estudando e crescendo, criando a sua família com dignidade e sem vitimismo, com fé e amor pela música. No momento, eu gostaria de falar dessas pessoas – pois talvez o Brasil seja mesmo um país sem memória pois quem se lembra do Papete, do grande “chorão” e maestro Benedito Costa? Seria o Brasil um país sem memória?

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)?

Ana Rita Simonka: A mais inusitada é a sua música ser vinheta de um programa que tem a maior audiência no maior canal e receber depois de oito meses a quantia de R$ 0,48 centavos… e sobre a tal “falta de condição técnica”, bem, acho que eu sofri mais do que ninguém com isso por causa dos instrumentos orientais que o pessoal não sabe como lidar com aquilo em cena… então, a passagem de som precisa ser algo muito dedicado, e o pessoal não tem essa dedicação, é muito raro, eles querem plugar a minha voz na equalização que eles fazem para ficar parecendo “igual a da Ivete Sangalo” mas no meu caso, não funciona isso entende? É tudo diferente, desde a posição do microfone até o tipo de panorâmica: então, eu resolvo esse problema levando um pequeno mixer portátil para o palco, levo meus microfones e até o meu tripé, daí eu mando o meu som pronto, então é só plugar nas caixas e acabou o drama (risos).

Quanto a problemas com o público, para mim é uma maravilha pois o pessoal que geralmente me assiste é gente do yoga, eles chegam tranquilos com os seus tapetinhos, não tem “barraco”, é ótimo (risos). Eu não me lembro de nenhuma experiência ruim, só coisa boa!

Felizmente as coisas evoluíram muito para quem faz o tipo de som que eu faço: ainda me lembro quando na fase de lançamento do “Bossa Nova Delhi” eu fui dar uma entrevista numa grande rede de televisão por indicação de um vizinho que era parente de um repórter famoso e que conseguiu me ajudar no contato; aconteceu que durante a entrevista, quando o entrevistador me perguntou sobre os motivos de eu fazer aquele tipo de som, eu disse “todo brasileiro comum, quando senta com a sua viola ou pandeiro para tocar no final do dia está praticando uma meditação de cura mesmo que ele não saiba exatamente que está fazendo isso – mas ele está meditando intuitivamente, mesmo sem saber”… quando eu falei isso, você acredita que o estúdio inteiro caiu na risada? Foi uma coisa muito constrangedora sabe… e eu olhava para aquele povo rindo, o cameraman, o pessoal do áudio, eu pensava comigo: “será que eu estou assim tão louca”? Você veja a falta de preparo desse pessoal…

Você veja que atualmente, as coisas evoluíram muito e isso que eu falei naquela época é algo que hoje, causa admiração ao invés de causar risos, é uma frase que faz as pessoas pensarem em coisas lindas – e eu me sinto feliz por ter feito parte dessa mudança pois hoje, os que riram de mim vem me procurar para estudar comigo. Sobre a tal entrevista? Nunca foi ao ar, estou esperando até hoje (risos).

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Ana Rita Simonka: A tristeza é por conta da época que atravessamos, espiritualmente falando, é um momento decisivo para a Humanidade onde está ocorrendo uma grande transição planetária; então, é o império do caos e da loucura, e a arte está a serviço desse império muitas vezes; especialmente a música que é a arte mais vibracional que existe, ela é precisamente a ativação dos centros mais sutis que nós temos, e daí vem o poder da música – um poder que pode ser elevação, cura, auto-conhecimento, auto-expressão – mas pode ser também o horror da Matrix.

Na China do período Taoísta, havia um ministro que percorria as províncias para pesquisar que tipo de música estava sendo executada: pelo tipo de música, eles avaliavam porque ali estava havendo problemas, era como que um Feng Chui dos sons entende? Então, era prescrita uma nova prática musical para ajudar aquela província com seus problemas. Isso não é misticismo, é uma ciência do uso do som. Então, imagina quanto caos tem sido reverberado em nossa época devido ao uso da música para te plugar na Matrix… isso é muito triste, ver o horror e a estupidez a serviço da música. Sobre felicidade, a felicidade é fazer música e pronto! Já é mais do que suficiente.

23) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Existe sim! Quem dá aulas ou já deu aulas sabe perfeitamente que tem crianças que são diferenciadas em ouvido, percepção, coordenação motora, o talento ou dom é algo muito evidente. O que não significa que não possa ser desenvolvido, muita coisa pode ser desenvolvida em qualquer ser humano para tocar bem um instrumento, cantar, etc. O talento existe sim, o dom existe mas não ter o dom não é limitação para se tornar um músico – pois o músico tem que estudar todo dia. O Jimmy Hendrix não estudou música formalmente, porém ele “estudava” diariamente, ele acordava de manhã com a guitarra na mão, ia tomar café com a guitarra, saia de um show e ia tocar nos botecos, ia dormir tocando guitarra… isso é desenvolver o dom que se tem.

24) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Ana Rita Simonka: Bem… isso eu trago da música oriental sabe, pois ali entendemos a chamada “criação espontânea” como uma forma de meditação, é como se fosse uma “premunição”, uma “vidência”, ou seja: uma “parte mais nobre” da sua mente consegue “antecipar” o acontecimento musical real, é como se a consciência do músico “visualizasse” a música “antes dela acontecer” e a isso chamamos de “improviso”, é uma função meditativa para nós, significa uma expansão de consciência.

25) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Ana Rita Simonka: É ambas as coisas, é estudado antes mas é aplicado numa criação instantânea baseada no que estudou, mais uma vez, é expansão de consciência.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Ana Rita Simonka: Olha, eu não sou um especialista em métodos de improvisação, eu não saberia responder detalhadamente; o que eu aprendi nas minhas “andanças” – e não foram poucas ao redor do mundo – é que a música é criada dentro de um centro de consciência muito elevado; esse centro é capaz de “fazer coisas que a gente não consegue explicar” – por exemplo, quando algum músico dorme e sonha com uma música pronta… isso é uma função muito especial da sua consciência. Então, no oriente nós estudamos a consciência, é ela que trará o controle sobre a “criação instantânea” ou improvisação – isso é um fenómeno universal, é uma ciência da mente humana, não depende de estar tocando um Raga ou o Jazz. Esse é o método musical que eu uso, é yoga, ciência da mente – também é um método, mas um pouco diferente dos métodos ocidentais de improvisação.

27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Ana Rita Simonka: Olha, isso eu conheço melhor: eu acho que tudo é válido se você estuda o que quer, e depois faz do seu jeito; os “contras” é quando querem meter na sua cabeça que “só é válido se fizer daquele jeito ali” – isso vira um fanatismo e os estudantes sofrem com isso. Então, se você conhece um músico que você admira e ele está disposto a te ensinar e te dar aulas, você siga as instruções dele, confie nele, mas tem que ser baseado na qualidade do que ele mesmo faz: ou seja, teoria não se estuda sozinha, teoria existe para ser aplicada! Então, siga o resultado, não siga “teorias”!

28) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Ana Rita Simonka: Jamais tocarão as músicas sem o artista comprar espaço, e eu não sou contra o jabá em absoluto, eu acho que cada modelo tem suas regras e você se insere no que deseja para a sua vida; o que eu acho negativo demais é não ter as regras claras quanto ao modelo, ou seja, é as pessoas acreditarem que “fez sucesso” sem entender o modelo comercial que existe ali. Repito que eu não tenho nada contra o modelo, cada um é livre para fazer a vida e a música do jeito que bem entende, inclusive eu acho o termo “jabá” pejorativo, chame de compra de espaço, isso é o correto.

Muita gente se espanta quando eu digo que não acredito nessa oposição entre “música boa e autoral” X “música comercial ruim” – o que eu acredito é que as duas podem e devem caminhar juntas. Eu te daria inúmeros exemplos disso: a gravadora Motown, a criação da Salsa nos Estados Unidos, a era da Rádio Nacional do Rio de Janeiro… teria dezenas de exemplos onde o modelo conseguiu trazer o melhor dos dois mundos juntando a arte, o autoral com o comercial – é o que eu considero mais positivo, mas para isso acontecer, a sociedade precisa estar muito livre para que cada nível possa cumprir bem a sua função, incluindo a participação daquele ser “vilipendiado” que é o público, entende? O público precisa co-criar junto, ele tem que comprar os LPs da Motown, ele tem que lotar os shows de Salsa nos estádios, ele tem que escrever a sua cartinha para a Rádio Nacional…

É diferente de “curtir” e mandar “emojis” que pode ser inclusive um robô programado não é? Onde está esse trio mágico – “artista + um bom modelo de negócios + público”? Parece que sumiu! Então, não é assim tão simples de falar sobre tudo isso… lembre que os grandes músicos eruditos da história sempre transitaram nos grandes centros e tiveram acesso aos modelos de financiamento mais sofisticados de suas épocas… isso é o correto, o que funciona é o casamento entre o financeiro e o artístico, mas para isso é preciso a chamada liberdade de consumo, e isso não é possível enquanto a gente fica perdido por aí sem saber o que é um “robô que está clicando curtidas”.

29) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Ana Rita Simonka: Olhe para você mesmo, conheça você mesmo, e estude feito um louco. Não se meta a ser um artista se não tiver coragem de ir fundo dentro de você mesmo: arte não é cosmético. arte é ir fundo nos seus movimentos de alma. Ser um artista é se tornar uma luz visionária conduzindo e curando os sentimentos das outras pessoas: arte é medicina, não é glamour, não é lacração, não é brinquedo de luxo e nem é engajamento de ideologia de nenhum tipo. Arte é a liberdade total do ser, é “moksha”, é iluminação: liberte-se sendo um artista e com isso, liberte outras almas nesse caminho.

30) RM: Festival de Música revela novos talentos?

Ana Rita Simonka: Não sei também…eu não gosto de falar sobre o que eu não acompanho! Mas se tem aquela coisa de “concorrer”, “ganhar”, ser julgado por aquele “zé mané” que sabe menos do que eu… estou fora sabe…!

31) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Ana Rita Simonka: Não existe exatamente uma cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira; existe leitura de serviço e pronto. Existia quando havia grandes críticos e estudiosos como um Zuza Homem de Melo por exemplo; quando eu tinha uns dezesseis anos (1982) , inventamos de fazer um show de música experimental num salão de uma igreja lá no Jardim Paulista e fomos na Joven Pan convidar o Zuza que tinha um programa nessa Rádio; fomos lá no prédio da Joven Pan levando na mão uns convites toscos do show rodados num mimeógrafo da igreja… chegando na Rádio todo mundo recebeu a gente sem perguntar “vocês vieram em nome de quem?”. Nós apenas falamos a verdade na portaria e deixaram a gente subir.

Zuza recebeu a molecada com o maior carinho, ouviu a gente, e ainda falou muito carinhosamente que “ia fazer de tudo para ir nos assistir” – claro que ele quis ser gentil, mas eu te pergunto: quanto valeu essa gentileza para uma pessoa como eu, um jovem que estava começando? O Zuza era meu ídolo! Depois, como o show era beneficente, ele anunciou na Rádio, você acredita (risos)… é mole? Uma molecada doida sendo recebida por um gigante na mídia. É por essas histórias que eu tenho certa pena das novas gerações, eles ouvem essas coisas e piram… porque dá um curto-circuito no modelo que eles conhecem…

Havia cobertura da grande mídia quando havia esses grandes críticos ou mesmo, os radialistas que vieram da música popular, que conviviam com músicos, que faziam essa ponte entre o artista e o público… havia matéria paga, sempre houve, e nem todas as experiências que eu tive com críticos ou radialistas “velha guarda” foram boas, mas… além do chamado “jabá”, havia espaço para a decisão pessoal. Inclusive eu acho “jabá” uma palavra muito pejorativa, deveria chamar simplesmente de “compra de espaço”, “matéria paga”, é um modelo de negócios e está tudo certo – mas deve ser esclarecido.

Hoje existe um fenômeno novo, não sabemos exatamente para onde vai dar tudo isso, pois hoje acontece que um indivíduo normal com um celular na mão pode de repente gravar um sujeito que está tocando num barzinho, ou alguém que está tocando na rua, e isso pode iniciar uma bela carreira musical… o que eu digo para meus alunos é que eles precisam entender os dois modelos que existem hoje: um é esse modelo de grandes mídias onde a música entra não como “música” propriamente mas como um ítem num pacote publicitário, e o outro modelo que é o da internet onde você trabalha o seu nicho.

Eu acho que um músico hoje tem que estudar muito o marketing digital para com isso criar o seu próprio modelo de divulgação, ele não precisa replicar o que está nos grandes circuitos. Mídia é publicidade, publicidade é matéria paga, ele precisa entender isso. Mas eu sinto uma imensa falta nos grandes veículos de mídias das colunas sobre arte e música que sejam realmente escritas por gente que entende de música, que vive de música…

Talvez porque eu venha de uma outra geração eu sinto essa falta – então eu tenho a noção de que hoje o tal “caderno de artes” se resume mais a comentar a agenda da semana, e isso não é preciso né? Você mesmo pesquisa por si e descobre o que quer assistir, não precisa desse tipo de “opinião”, nem de “comentários”, cada um que seja livre para fazer a sua própria crítica.

32) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Ana Rita Simonka: Desses espaços, eu tive muita consideração do SESC junto a projetos especiais de Música para Yoga e Meditação. O resto eu não sei, nunca trabalhei com eles, não posso falar; não houve resposta quando fiz contatos.

33) RM: Fale sobre sua pós graduação em musicoterapia.

Ana Rita Simonka: Eu sou a primeira pessoa na América Latina a ter uma pós-graduação em Musicoterapia trazendo os conteúdos do oriente tradicional, um curso que é comandado pelo mais renomado instituto da Índia que é o Nada Centre criado pelo Dr T.V. Sairam e com apoio da IMTA – Indian Music Therapy Association. Participei do último congresso inclusive, apresentando um trabalho sobre técnicas de meditação ativa para a musicoterapia que é o uso dos movimentos, dança e respiração junto com os sons, segundo a minha prática Sufi e o método que eu sigo que se chama “Shattari Sufi”.

Eu fico muito orgulhosa de dizer que o Nada Centre me dedicou um prêmio 2021 “Award of Excelence” – só eu sei o quanto tudo isso foi difícil e envolveu imensos sacrifícios – mas creio que eu inspiro seriedade e confiança nas pessoas e isso me ajuda muito a prosseguir pois existe uma frase que diz “é melhor ser admoestado pelos sábios do que elogiado pelos tolos”, mas quando você é elogiado pelos sábios, aí é a glória! Essa conquista foi um coroamento de trinta anos de dedicação pioneira.

34) RM: Quais os benefícios da musicoterapia?

Ana Rita Simonka: Inúmeros, tanto como medicina complementar quanto como técnica principal; a ideia central é que a música conduz a expressão de traumas e dores via uma comunicação não-verbal e isso é um instrumento de cura muito poderoso; também existe a questão científica que é você usar da música para modificar o padrão das ondas cerebrais e dos neuro-hormônios e assim ajudar as pessoas a vivenciar padrões de relaxamento e cura dos piores males da modernidade que são o stress, a ansiedade, o pânico, etc…

Existe a atuação no nível sistêmico que é a musicoterapia no campo familiar, social, é um aspecto muito lindo pois estudar isso faz a gente ver por exemplo como que as grandes manifestações folclóricas da humanidade são verdadeiros rituais de cura coletiva… e tem por último a questão espiritual, que é o uso da música para o trabalho dos Chakras, do alinhamento dos centros sutis, para a energia vital, para a experiência mística e a transcendência nas práticas de Nada-Yoga, Nadanusandhana, Mantra-Yoga, Sama Sufi, etc.

35) RM: Quais as atuações da musicoterapia?

Ana Rita Simonka: São inúmeras aplicações na cura de questões psicológicas, traumas, problemas da velhice, autismo, internação hospitalar, convalescença, alzheimer, demência, conflitos sociais, questões espirituais; sem esquecer a chamada “medicina do futuro” que tem-se concentrado no estudo das frequências musicais para a cura de tumores, ação direta nos padrões das ondas cerebrais, eliminação de bactérias por frequências sonoras e tantos outros avanços que vemos chegar a cada dia.

Ainda veremos alguém ir na farmácia e ao invés de voltar com drogas invasivas, ele vai trazer uma caixinha de emissão de sons! A tecnologia para isso já existe! A musicoterapia age também em problemas cognitivos, deficit de atenção, desenvolvimento humano entre tantos outros benefícios.

36) RM: Quais as diferenças entre a musicoterapia e musicalização?

Ana Rita Simonka: Creio que musicalização seria conduzir uma pessoa para ser “alfabetizada” na linguagem da música; musicoterapia é trazer a música para uma sessão de cura.

37) RM: Quais as diferenças entre a musicoterapia e a musicoterapia holística?

Ana Rita Simonka: Nossa… isso é tema para uma pós-graduação… a musicoterapia tal como a conhecemos no Ocidente já surgiu muito influenciada pelo paradigma holístico, é difícil separar. Precisaria entrar numa descrição muito detalhada dessas três noções científicas que são a cartesiana ou ocidental, a holística (também uma noção ocidental) e a ciência oriental, que é outra praia… Eu peço desculpas mas vou remeter a audiência para a minha página de cursos, pois é uma pergunta que eu respondo nos meus programas e que não gostaria de fazer correndo aqui.

38) RM: Quais os benefícios de escutar músicas na frequência de 432 Hz?

Ana Rita Simonka: Essa questão ficou muito famosa aqui no Ocidente, mas não procede; creio que é algo que precisa ser desmistificado. Não existe essa regra em nenhuma grande matriz musical espiritual que eu pude estudar, não existe isso na Índia, na Pérsia, na Turquia, na China, no mundo Sufi… Eu nunca encontrei essa regra em qualquer civilização que criou ciência espiritual para a música e por isso, eu não sigo essa idéia. Até onde eu pude pesquisar sobre essa famosa “frequência 432”, não fiquei cientificamente convencida e nem sensorialmente também. Pode ser que um dia eu fique convencida, mas atualmente não estou.

39) RM: Quais os seus projetos futuros?

Ana Rita Simonka: São muitos, estive alguns anos parada por questões de perda de entes queridos, mudança de país e outras coisas que a vida nos trás… então, tenho álbuns novos para lançar, e estou lançando um curso especial de musicoterapia para qualificar os músicos profissionais ou estudantes de música para ter uma “segunda profissão”: ao invés de tocar coisas que ele não gostaria de tocar só pelo dinheiro ou de ter que dar aulas cansativas, ele pode atuar como Musicoterapeuta Holístico com um grande diferencial; na continuidade, eu sonho em colocar todo o meu conhecimento criando uma Pós-Graduação que contenha a musicoterapia oriental junto com a ocidental e adoraria receber convites ou parcerias de faculdades e grandes conservatórios musicais!

40) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Ana Rita Simonka: www.anaritasimonka.com

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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.
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