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Categorias: Entrevistas

Banda Abufela!


 

A· BU· FE· LAR verbo transitivo direto e pronominal. Fazer respirar ou respirar fortemente, ger. Acelerado, por razões emocionais ou causas físicas.

Da mescla de texturas psicodélicas a doses de maculelê, ijexá, funk, rock’n roll, jongo e outros ingredientes, surgiu a Abufela! A banda, que tem dois anos, e traz um repertório em sua maioria autoral, já percorreu estradas importantes do circuito musical brasileiro. Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia já receberam com entusiasmo o trabalho do trio.

Todos compositores e moradores do Rio de janeiro, o trio incorpora letras que vão de temáticas corriqueiras à evocação de raízes afro- -brasileiras e ácidas críticas sociais, perpassando influências como Jards Macalé, Jimi Hendrix, Anelis Assumpção, Marinês.

Sempre com propósitos eletro-orgânicos e espontâneos, lançaram seu primeiro EP “Os Abufelados” em 2018, os singles “Buenos Aires” e “Odoyá” em 2019, o disco “Lá Vem o Medo” e o single Breu em 2020. E já tem single novo para ser lançado em janeiro de 2021.

Segue abaixo entrevista exclusiva com a banda Abufela! para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 19.07.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a data de nascimento e cidade natal dos membros da banda?

Abufela! Cau Barros (Percussão e Voz) nasceu no dia 03.01.1965 em Maceió – AL. Diogo Spadaro (Violão, Guitarra, Voz) nasceu no dia 07.11.1988 em Campos dos Goytacazes – RJ. Thati Dias (Voz) nasceu no dia 19.07.1991 em Macaé – RJ.

02) RM: Como foi o primeiro contato dos membros da banda com a música.

Abufela! Cau Barros, a mãe escutava muita música em casa e foi se encantando, até que, ainda criança, construiu o seu próprio instrumento, que simulava um violão, com uma tábua de bolo, régua de madeira como braço, cordas de nylon e pregos. Aos doze anos de idade (1977) ganhou o seu primeiro violão, que até hoje está consigo.

Diogo Spadaro: Com seu avô que tocava gaita, violão e sanfona teve o primeiro contato com a música. O avô passava tardes a fio tocando em sua cadeira de balanço e Diogo escutando-o. Mesmo sem saber os nomes dos acordes e notas, o “véio” sempre teve bom ouvido e transpunha isso para o que conseguia executar.

Thati Dias: Começou com a música desde pequena. Sempre foi incentivada pela avó a cantar, além de escutar os discos de MPB e bossa que os pais e tio tinham. Sempre cantou em coral, fazia solos quando criança. Depois de um tempo começou a sentir atração pelo violão e percebeu que poderia cantar e tocar as músicas que gostava. Conta que sempre foi muito tímida, durante alguns anos, deixou de cantar em público. Porém, com o tempo, veio a necessidade de voltar a se apresentar, dessa vez, cantando as músicas que escolhia, deste universo mpbístico.

03) RM: Qual a formação musical e acadêmica fora música dos membros da banda?

Abufela! Cau Barros, é músico autodidata, tendo realizado diversos cursos livres ao longo da sua trajetória.

Diogo Spadaro, concluiu o curso de Produção Musical na IFF – Cabo Frio – RJ e trilha sonora para rádio e TV na IATEC.

Thati Dias, tem formação acadêmica em Psicologia. Fez ao longo da vida alguns cursos de técnica vocal e teoria musical, mas nunca chegou a concluir.

04) RM: Quais as influências musicais no passado e no presente dos membros da banda? Quais deixaram de ter importância?

Abufela! Cada um trouxe as suas influências e algumas tínhamos em comum, mas isso é fonte inesgotável. O tempo todo estamos nos apresentando coisas novas. Tanta gente boa que vai surgindo o tempo todo, tantos artistas amigos também nos tocando com suas músicas! Originalmente, as principais referências da banda foram (e seguem sendo) Jards Macalé, Naná Vasconcelos, Jimi Hendrix, Anelis Assumpção, Marinês, mas como dissemos, isso não tem fim… 

05) RM: Quando, como e onde começou a carreira musical da banda? E qual o significado do nome da banda?

Abufela! Os três músicos, que já se conheciam, em algum momento, se juntaram para uma apresentação específica, gostaram do que rolou e decidiram seguir. Isso foi em 2017. A banda completou três anos em agosto de 2021. O nome da banda surgiu do dialeto nordestino, que era usado, principalmente, pelos mais antigos, no Nordeste. O Cau Barros é alagoano e ainda usa muitos desses termos de lá. Nas nossas conversas descontraídas, nossas brincadeiras, ele sempre trazia um novo.  Um desses foi “abufelar” e gostamos, nos divertiu e ficou. Aos poucos fomos conhecendo mais o termo e descobrindo que nos identificávamos com a definição de “fazer respirar ou respirar fortemente; acelerado, por razões emocionais ou causas físicas”, porque nosso show é isso! Sobre a mudança do nome, foram duas. Primeiro éramos Os Abufelados e esse artigo masculino nos incomodava sobremaneira, principalmente, à Thati, claro. Tiramos o artigo, que não nos representava. Mas sentimos que havia alguma coisa dessa referência ao masculino do nome, que sempre retornava. Conversamos novamente e decidimos tirar por completo qualquer referência única e, assim, poder falar com todes, através da nossa música.

06) RM: Quantos discos lançados?

Abufela! Em 2020 um álbum – “Lá vem o medo”. Em 2018 um EP – “Os Abufelados”.  Além desses trabalhos, atualmente temos quatro singles nas plataformas: “Paracaê”, “Buenos Aires”, “Odoyá”, “Breu”.

07) RM: Como define o estilo musical da banda?

Abufela! São vários estilos dentro de uma mistura psicodélica e orgânica, onde cada um traz a sua vivência musical. Sobre o gênero, se sabe brasileiro, se sabe popular, mas o método de criação é muito espontâneo, portanto, tudo o que vivemos, lemos, ouvimos ou estudamos acaba se juntando e formando a sonoridade da banda.

08) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Abufela! Somos uma banda de três compositores que viram a possibilidade de colocar suas músicas no mundo. A mistureba foi legal porque temos tesão em instrumentos que se complementam: voz, guitarra e percussão. A nossa interpretação é definida a partir da nossa história, daquilo que sentimos e transpomos para as nossas letras e arranjos. Outros compositores também são convocados a estarem no nosso repertório, mas o nosso critério é a mensagem que vai ser passada com a composição.

09) RM: Quais os cantores e cantoras que vocês admiram?

Abufela! São tantos e tantas. Mas podemos citar Milton Nascimento, Elis Regina, Gal Costa, Mônica Salmaso, Juçara Marçal, Anelis Assumpção 

10) RM: Como é o processo de composição musical dentro da banda? Quem faz a letra e melodia?

Abufela! Somos todos compositores na banda e cada um tem as suas e o seu processo. O Cau Barros, por exemplo, tem como inspirações a cultura afro-brasileira, situações, sonhos, palavras. A Thati, por sua vez, diz: “Escrevo sobre o que vivo… uma música fala sobre ser mulher, outra sobre ansiedade, outra sobre plenitude, outra sobre tristeza e raiva pelo abandono da população pelo governo. São várias as direções das composições e todas precisam me atravessar necessariamente. A partir daí vemos o que se encaixa nos recados que a banda quer passar ao público e assim resolvemos o repertório, tanto dos shows quanto dos discos”. E o Diogo: “Procuro não atrelar a minha criação a momentos específicos pois acredito que “situações ideais” são agentes limitadores. Concordo com João Nogueira e Paulo César Pinheiro quando eles cantam que “não é preciso estar nem feliz nem aflito, nem se refugiar em um lugar mais bonito em busca da inspiração. Ela é uma luz que chega de repente, na rapidez de uma estrela cadente que acende a mente e o coração.” Mas posso dizer que maioria das minhas músicas foram feitas pela manhã, na solidão, na tristeza e foram frutos de leituras e catarses”. Todos fazemos letra e melodia de um modo mais individual. Agora os arranjos decidimos juntos nos ensaios.

11) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Abufela! Os prós é que fazemos do jeito que pensamos e queremos e os contras é que tudo recai sobre o músico, por exemplo, divulgação, produção dos shows, marketing digital, contratação de terceiros… No Brasil, o músico acaba assumindo todas as funções.

12) RM: Quais as ações empreendedoras que vocês praticam para desenvolverem a carreira musical?

Abufela! Cada um segue a seu modo aprimorando seus estudos, as vivências com o instrumento e com a composição. A gente não para. E como aqui no Brasil a coisa é difícil pra quem não nasce com a faca e o queijo na mão, a gente está no lugar de banda independente que precisa gerar seu próprio conteúdo, buscar fechar seus próprios shows, pensar em campanhas, no marketing digital… Por aqui fazemos de tudo um pouco. E nessa onda, desenvolvemos uma boa comunicação com o nosso público através da internet também! O Diogo é quem faz os roteiros da maioria dos nossos vídeos e colocamos em prática várias ideias. Até o nosso primeiro videoclipe foi criado e executado dessa maneira. Além disso tudo, acreditamos na força do coletivo, temos muitos amigos que são parceiros de trabalho e que enriquecem muito nossas ideias.

13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da carreira musical?

Abufela! Ajuda na velocidade da divulgação, permitindo acesso ao artista e sua música de imediato. O prejuízo diz respeito ao tempo que se consome para idealizar e produzir conteúdo, como dito acima, ininterruptamente.

14) RM: Como vocês analisam o cenário musical brasileiro? Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quem regrediram?

Abufela! O cenário musical brasileiro continua sendo riquíssimo e diversificado. Há para todos os gostos. A indústria musical e seus apelos são outra coisa. Cássia Eller e Nação Zumbi são exemplos de revelações que perduram. Permanecem os gigantes da Tropicália e do Clube da Esquina e sobre quem regrediu não nos cabe falar, porque na verdade nesse nosso imenso país há lugar para todos e todas. 

15) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (Home Studio)?

Abufela! Os avanços tecnológicos ditam a evolução do mundo e não seria diferente no “mundo do áudio”. Poder gravar em casa independente da pretensão de lançar um disco é uma ótima ferramenta de estudo e ampliadora de conhecimentos. Existe muito mais coisa em comum entre um software de gravação e uma partitura do que se pensa vendo à primeira vista. Não vejo muitas desvantagens nesse caso a não ser o fato de a pessoa ter muitas ferramentas e talvez não saber administrá-las ou criar “mitos particulares” devido a referências equivocadas ou falta das mesmas. 

16) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que vocês têm como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Abufela! Tem muita gente que não está na grande mídia, que está produzindo coisas incríveis e revelando profissionalismo e qualidade artística que nos inspiram, como Anelis Assumpção, Luedji Luna… Caetano Veloso não para, Elza Soares tampouco. Milton Nascimento, Gilberto Gil

17) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Abufela! Digamos que a mais inusitada ocorreu numa turnê que fizemos para o Sul da Bahia, junto à outra banda parceira, James Coroico, de Campos dos Goytacazes. Estávamos em Caraíva, montando o som para tocarmos, inclusive com esta banda, quando apareceu um nativo, com grande influência na localidade, que nos disse que se tocássemos com bateria, ele jogaria nosso equipamento no rio. Decidimos não correr o risco e o show das duas bandas, que seria completo, se transformou em voz e violão. Vive-se toda sorte de coisas sendo uma banda independente na estrada, mas o saldo dessas experiências vividas, sempre foi muito positivo.

18) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Abufela! O que nos deixa mais felizes é ver a vibração e a felicidade do nosso público dançando e curtindo o nosso trabalho. Não falaríamos de tristeza, mas o mais difícil é sobreviver de arte e cultura independente neste país. 

19) RM: Vocês acreditam que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Abufela! O artista independente enfrenta dificuldades nesse sentido, mas não deixamos de acreditar. 

20) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Abufela! O que dizer para alguém movido por paixão? Dedique-se, ame, ame-se, cuide-se, persevere. Boa sorte! Tamo junto!

21) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Abufela! Pensamos em paixão e habilidade e em desenvolvimento dessa habilidade. Vivência, trajetória e estudo. 

22) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Abufela! A vantagem é a abertura para o novo, para as descobertas, é a democratização. A desvantagem é a competitividade, que excita uns e aflige outros e aqueles tendenciosos, que privilegiam sempre o óbvio. 

23) RM: Festivais de Música revela novos talentos?

Abufela! Os não tendenciosos sim. Na história sempre houve festivais que revelaram grandes talentos. A gente, por exemplo, vem conhecendo muita gente boa, através deles. 

24) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Abufela! A grande mídia é tendenciosa ao extremo. Privilegia, massifica, decide o que vai ser consumido, formata. 

25) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Abufela! Fundamental. Uma oportunidade maravilhosa, que possibilita que artistas consagrados e independentes transitem no mesmo palco. 

27) RM: O circuito de Bar na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Abufela! Responder isso em plena pandemia do Covid-19 é quase surreal, porque estamos impedidos de fazê-lo. Mas diríamos que é onde tudo começa. Apesar também do Estado do Rio de Janeiro, como um todo, estar em apuros. A batalha é grande para o contratante e para o contratado. Estamos sempre, ambos, juntando os cacos e resistindo. A nossa banda está parada e vendo como será quando voltar à normalidade.

28) RM: Banda Abufela, Quais os seus projetos futuros?

Abufela! Seguir produzindo a música que nos emociona e tocando sempre mais pessoas. Em janeiro de 2021 tem single novo na área. A pandemia desconcertou de certa forma, privou-nos de coisas que gostamos: fazer shows, a emoção do palco, a troca com o público. Mas estamos vivos e que venha o futuro. 

29) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Abufela! (22) 99971 – 8762 | 98799 – 5924 | contato.abufela@gmail.com

https://www.instagram.com/abufela_/  

https://web.facebook.com/abufela 

Abufela! https://www.youtube.com/channel/UC2CCRIyALSjz3Ykz9S6TAag

Live Abufela! https://www.youtube.com/watch?v=oi_18jNy0zQ 

Abufela! Odoyá: https://www.youtube.com/watch?v=1Z5cIo9m0cY 

Abufela! – Buenos Aires: https://www.youtube.com/watch?v=rC1221bYhUg 

Abufela! “Lá Vem o Medo” (2020): https://www.youtube.com/watch?v=SLiFnhL8cMc 

Abufela! Os Abufelados (EP 2018): https://www.youtube.com/watch?v=i_pQirOfRrY 

“Lá vem o medo” – Clipe oficial: https://www.youtube.com/watch?v=zB0uHK0yYiQ 

Abufela! Na Sala #3: https://www.youtube.com/watch?v=1g1wSHH2FG0


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Publicado Por
Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
Tags: funkJazzmpb
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