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Categorias: Carreira Musical

A sextilha e o blues


Tempo de Leitura: 2 minutos

A sextilha e o blues. Algumas formas de poesia cantada têm evoluções diferentes, vêm de origens completamente diversas, mas acabam convergindo para formas parecidas. É o que ocorre com a estrofe básica da Cantoria de Viola (a sextilha) e a estrofe básica do blues norte-americano, o blues tradicional, acústico, chamado às vezes de “twelve-bar blues” (blues de doze compassos).

A sextilha é ibérica. Pode haver alguma influência africana nela? Pode, como pode haver em tudo que faz parte da cultura popular do Nordeste. Mas em princípio a sextilha é sertaneja ou caririzeira, de uma região onde a presença negra é minoritária. Mesmo com grandes cantadores negros no passado (Fabião das Queimadas, Inácio da Catingueira, etc.), a sextilha me parece o produto de uma poética branca.

O blues tradicional tem uma estrofe com duas semelhanças com a dos cantadores: 1) é uma sextilha, ou seja, uma seqüência de seis versos cantados; 2) é um derivado da quadra, da estrofe de quatro versos. A sextilha dos cantadores derivou-se obviamente da quadrinha portuguesa, daquela estrofe singela que já era cultivada antes de Cabral, rimando ABCB: “Se eu não vejo luz acesa / na janela do meu bem / quer dizer que está dormindo / sonhando não sei com quem”. É a estrofe básica de nossa poesia. Os sertanejos da Serra do Teixeira a transformaram em sextilha com rimas ABCBDB: “Se eu não vejo luz acesa / na janela do meu bem / quer dizer que está dormindo, / sonhando não sei com quem, / ou que foi me procurar / sem pensar em mais ninguém”.

Já a estrofe básica do blues de 12 compassos é também uma estrofe de seis linhas, sendo que cada duas linhas são cantadas ao longo de quatro compassos. Uma sextilha, portanto. Ocorre que, numa quantidade imensa de canções de blues, os dois primeiros versos da letra sejam repetidos, ou seja, versos mesmo só existem quatro! É uma quadra espichada para caber numa melodia de sextilha. E isso ocorre com maior freqüência, pelo que pude deduzir, nos blues mais antigos, que seriam uma fase de transição entre a quadra e a sextilha. Eis um exemplo entre milhares, tirado de “Kind-hearted Woman”, do grande Robert Johnson: “I got a kind-hearted woman / do anything in this world for me. / I got a kind-hearted woman / do anything in this world for me. / But these evil-hearted woman / man, they will not let me be”. (“Eu tenho uma mulher de bom coração / que faz qualquer coisa no mundo por mim (2x) / Mas essas mulheres de coração ruim / não me deixam viver em paz”.

Isto abre uma interessante possibilidade de mão dupla: a de adaptar para cantoria em sextilhas inúmeras letras, melodias e canções já prontas, vindas do universo do blues. E, em contrapartida, de adaptar ao estilo de blues qualquer material de sextilhas nordestinas. Além dos evidentes parentescos sociais e históricos, o universo do blues e da cantoria tem nas suas estrofes básicas dois vasos comunicantes pelos quais podem passar oceanos de poesia.

*Bráulio Tavares – Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado em 12/07/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba – Campina Grande – PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Contatos: E-mail: btavares13@terra.com.br / http://mundofantasmo.blogspot.com


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

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