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Ponto - Contra - Ponto - Artigo |
| Tambor de Língua ou logos do caos. *Por Babilak BahData do artigo: Outubro 2009
“Este homem sempre vai ficar de sombra:
nenhuma memória será bastante para lhe salvar do escuro. Em verdade, seu
astro não era o sol, nem seu país era a vida. Talvez, por razão disso, ele
habitasse com cautela de um estranho...” Mia Couto
Ao pesquisar sobre a história da música no
cenário brasileiro, percebe-se que não há uma memória sistematizada da
existência da percussão no país, nem um reconhecimento de seu valor como
patrimônio cultural rítmico, ou um mapeamento de sua variedade de
instrumentos, nem sequer uma catalogação da produção discográfica do
segmento. Depara-se ainda com o total desconhecimento da sociedade sobre a
cultura percussiva como “fenômeno de linguagem” e suas interfaces.
Possuidora de múltiplos saberes e com a capacidade de agrupar, a percussão
torna-se ótima estratégia de inserção social, além de gerar impacto no
sujeito, imprimindo a dimensão do subjetivo e despertando-o para a questão
da identidade. A instituição universitária, que é oficialmente o espaço do
desenvolvimento da "cultura nacional" nos aspectos relativos à ciência, à
tecnologia e ao pensamento cultural amplo, cada vez mais fundamenta sua
dependência histórica nos modelos europeus e norte-americanos, desconhecendo
ou ignorando, as expressões multiculturais que surgem no interior da
sociedade. São necessários nesse campo, estudos sistemáticos que não
reproduzam velhos vícios de abordagem, que contribuam com propostas
objetivas e estudem a presença da linguagem percussiva e sua contribuição na
formação cultural da sociedade brasileira, para que haja uma maior
compreensão do seu valor histórico e artístico. Percebo que essa temática
interessa às ciências humanas: como a sociologia, antropologia, a psicologia
social. A teoria geral dos signos, tal como concebida por Charles Sanders
Peirce (1839-1914) - filósofo, cientista, pai da semiótica e do pragmatismo,
engloba em seu conceito as diferentes linguagens não-verbais: imagens,
gestos, sons. Trata-se de um assunto de interesse, sobretudo, dos estudos
culturais mais abrangentes sem criar dicotomias entre “sociedade e música”.
Em 2001, enquanto o mundo assistia às cenas de
puro surrealismo do cinema globalizado, em que aviões atravessavam as torres
gêmeas do World Trade Center, emblemas do poderio do império econômico
americano, aqui, na terra da “garota de Ipanema” ou a terra dos sem
alqueires, o departamento de história da Pontifícia Universidade Católica –
RJ realizava o seminário: “Decantando a república, um inventário histórico e
político da canção popular moderna brasileira”. Com o objetivo de discutir a
história de nossa música, sua contribuição no processo das lutas
republicanas e sua intervenção no processo político, esse evento reuniu uma
constelação de intelectuais brasileiros, que nos enchem de ufanismo e
orgulho. Em parceria com instituto de estudos avançados transdisciplinares
da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, resultando em três
publicações: 1 - outras conversas sobre os jeitos da canção. 2 – retrato em
branco e preto da nação brasileira. 3 – a cidade não mora mais em mim.
O que mais chamou a atenção nessa realização
foi que nos três livros não há citação da arte dos tambores, ou um debate
profundo sobre a contribuição dos agentes percussivos na formação da música,
nem sua participação na luta pelos direitos civis no país abaixo da linha do
equador. O evento e as publicações são de grande valor, porém, cometem o
mesmo erro de abordagem, dando seqüência às dicotomias. Quase todos os
palestrantes desconhecem o valor histórico e estético da expressão
percussiva e sua intervenção no corpo social. Dentre os palestrantes, a fala
do historiador José Murilo de Carvalho revela a tônica do seminário:
“Sinto-me na obrigação de alertar a todos de que esse texto é de quem não é
capaz de solfejar um do-re-mi. Se algum mérito houver em minhas palavras,
advirá da alegre irresponsabilidade da ignorância. A primeira conseqüência
de minha ignorância musical é a necessidade de colocar a ênfase da análise
nas letras das canções”. Ora, sabemos que a canção é uma arquitetura
complexa de amplos horizontes. Tenho convicção estética de que um compositor
deva estabelecer no seu método de criação uma perfeita articulação entre os
parâmetros musicais que sejam ritmo, harmonia, melodia e signos verbais, no
caso da canção, ou mesmo timbragem eletrônicas elaboradas, dependendo de seu
grau de abertura para as novidades do mundo contemporâneo. Sendo assim, uma
avaliação que se limite aos signos lingüísticos empobrece a discussão. Se
hoje os compositores conseguiram o status de serem a antena dessa gente
bronzeada e a academia assimila as lições que a musica pode oferecer, a
sociedade brasileira, por outro lado, tem dificuldade de enxergar a
participação da linguagem percussiva dentro dos processos das conquistas
nacionais e sua importância na formação cultural do povo brasileiro. Sem querer desmerecer a importância e a sofisticação inauguradas na música brasileira pelo movimento bossanovístico, não hesito em dizer que o movimento percussivo, citado em boa parte da bibliografia musical simplesmente como o “batuque dos negros”, do ponto de vista sociológico foi muito mais inclusivo, combatendo as diferenças sociais e contradições. Para os admiradores da mitologia da moderna música realizada no Brasil nos anos 60, esse raciocínio soa como heresia, mas, é a realidade, é o que soa nos terreiros dos brasis; parafraseando, Assis Valente, a república precisa iluminar nossos terreiros. Nos tempos sombrios da vida política brasileira dos anos 70, Nana Vasconcelos fazia sua estréia no mundo fonográfico com sua “aquarela sonora”, chamando atenção à nossa responsabilidade sócio-ecológica com seu álbum “Amazônia”, em defesa do patrimônio ambiental brasileiro. Um agravante, que percorre a historiografia da música brasileira, é a escassez de bibliografia sobre a música percussiva, que estabeleça um esclarecimento desta dificuldade de entendimento histórico, somando, ainda, com outro lapso freqüente por parte dos estudiosos da música popular, que ignoram a contribuição dos “músicos percussionistas” na história da música brasileira e mundial. O jazz, por exemplo, jamais foi o mesmo depois de um músico como Airton Moreira, também a música pop com a contribuição dos percussionistas brasileiros, cubanos, caribenhos e latinos.
*Babilak Bah - Musico, percussionista, poeta - - contatos: (31) 9913 - 9650/3496 - 6282 - babilakbah@hotmail.com / www.myspace.com/babilakbah
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