O Reggae no Brasil é uma caricatura do reggae internacional?

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O Reggae no Brasil é uma caricatura do reggae internacional?
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Celso Moretti, Edson Gomes, Dionorina, Tribo de Jah e Cidade Negra foram os primeiros a fazer exclusivamente a música reggae no Brasil, nos anos 80. Em maio de 2011 fez 30 anos da morte de Bob Marley. Natural que muitos músicos negros buscassem, conscientemente ou inconscientemente, preencher a “lacuna” deixada pelo rei do reggae.

Após 1982 começaram a surgir músicos brasileiros que assumiram o reggae como música de carreira. O Edson era o “Tim Maia” de sua cidade, cantava Soul e Black music e foi convencido por Nengo Vieira a passar suas músicas para o ritmo do reggae. O Celso era dançarino, artista plástico e enveredou pelo reggae. Anos depois nasce a Tribo de Jah, liderada por Fauzi Beydoun radialista e roqueiro, um branco, mas a banda era composta por negros. E Dionorina, o mais velho da turma, fazia outros estilos musicais e tem formação em música clássica, mas também adotou o reggae nos anos 80. Fora as bandas de rock nacional que tocavam alguns Ska e Reggae nos seus discos.

A cena reggae no Brasil já passou da maioridade, já está na maturidade, mas infelizmente não tem a mesma importância e o respeito que já conquistou pelo mundo. O reggae nos EUA, Europa e Jamaica é cena de “gente grande”, com produções de shows de alto nível e gravações de discos com alta qualidade técnica, profissional e criativa. No Brasil a música reggae em geral parou no tempo. Estagnou-se, mantendo-se à margem. Os músicos regueiros sobrevivem pegando carona, como subproduto musical, da cena rock e pop rock. No país todos os estereótipos do reggae são reforçados como sendo: “música feita por e para maconheiros”, “música feita por e para religiosos fanáticos, poucos afeitos à higiene pessoal”. Como se em shows de outros gêneros músicas algumas pessoas não usassem drogas. Todos esses preconceitos levam o reggae para o fundo do poço no país. O reggae só é bem visto e respeitado quando gravado por músicos da MPB e do pop rock. Enfim, o reggae não teve a mesma pujança que o rock nos anos 80.

O reggae como um movimento musical no Brasil ficou preso aos clichês do reggae jamaicano e da personificação do Bob Marley. O Bob se tornou maior que o reggae. E surgiu “as viúvas do Bob e/ou os Ras Falsos” que imitam seu som, sua postura em palco, seu vício, sua religiosidade e sua imagem.  O reggae foi criado por Lee “Scratch” Perry, mas Bob levou o som ao máximo de visibilidade no mundo. Vejam este vídeo para entender o que falo clique nesse link: http://g1.globo.com/videos/globo-news/arquivo-n/v/morte-de-bob-marley-completa-30-anos/1519004/ .

As bandas e músicos brasileiros optaram pelo reggae por ser uma música em que as letras têm como ênfases à crítica e justiça social, à conscientização política, o protesto, à denúncia, a religiosidade (rastafari), o amor e à paz. Mas a maioria deixa os conceitos defendidos presos aos discursos das letras. Não existe uma unidade entre os músicos regueiros em prol de um fortalecimento da cena reggae no país. A fogueira da vaidade queima a cena, têm os que se sentem “iluminados e escolhidos por Jah”, os que têm o Ego maior que o talento, o egoísmo e individualismo tão combatidos nas letras são praticas comuns entre a maioria dos músicos regueiros. Não que em outras cenas musicais estas pragas não existam. Mas sendo uma cena musical que opta em conscientizar o público para o verdadeiro papel do cidadão, a postura individualista dos músicos é incoerente com o discurso coletivo das letras. Esta postura egocêntrica fortalece o “cada um por si” da “Babilônia – CAPETAlista”, tão combatida nas letras. E meia dúzia de regueiros são os escolhidos por produtores magnatas para manter uma cena reggae tabajara e hipócrita, em que a música reggae só serve de pano de fundo para alguns “malucos” “fumarem unzinhos” e balançarem a pança. Qual a diferença do show de música descartável? Nenhuma.

A música como meio de conscientização, paz, harmonia e arte continua presa ao discurso e não faz parte de uma prática diária combativa. Os ícones do reggae se isolam para preservarem a “imagem combativa” e conservarem a minguada agenda de show. Não combatendo de fato os magnatas, que só querem a grana, e ignoram o reggae e os regueiros. Os ícones não se falam entre si, não mobilizam nem lideram uma cena reggae séria, profissional e consciente. Os músicos e bandas desconhecidas seguem com baixa estima, na areia movediça da mediocridade, da alienação e da falta de espaço pra show. A cena reggae nacional continua sendo uma caricatura do reggae feito fora do Brasil. Até quando?

*Editor da revista:   \

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.