Na onda da nova música

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Por Jorge Mello

Nos dias atuais, quando é possível com a utilização de computadores, o registro de músicas em um suporte físico ficou muito prático e fácil. Quase todo músico dispõe de um estúdio em casa, com essas ferramentas fruto da tecnologia. Bem diferente de outros tempos, não muito distantes, quando a aventura de gravar um álbum (disco), exigia um grande sacrifício. Em primeiro lugar só havia estúdios nos grandes centros como Rio e São Paulo, o que deixava o candidato a artista frente a uma aventura das mais difíceis e caras, principalmente os nordestinos, porque tinha que enfrentar uma viagem dispendiosa e difícil. No grande centro este profissional, com suas canções e sonho na bagagem, tinha de procurar um Produtor, figura que se tornava o responsável para resolver as questões que uma gravação contém (autorização dos autores, o GRA – hoje ISRC – e a providência da inscrição desse compositor iniciante numa associação de autores e intérpretes que seja membro do ECAD, e também a arregimentação dos músicos e por fim a roupagem de arranjos para as canções e ainda cuidava da sonorização atuando na mesa de som na busca de um melhor resultado final para a gravação). Por fim o Produtor cuidava também da tiragem industrial na fabricação do produto que era entregue ao artista que no final era quem pagava tudo. São essas as boas memórias de como andava a chamada “música independente”.

Mas foi a partir do aparecimento do movimento punk, que marcou o surgimento do rock de garagem, um rock que não exigia necessidade de estudo nem sobre música nem sobre técnicas do instrumento, feito por jovens com poucos recursos e utilizando uma estrutura básica e simples nas composições. Aí toda uma nova fase começou. Já não bastava só ser independente dos grandes grupos que dominavam o mercado da música (venda de discos e de shows). Agora a mudança era muito maior. Também não se exigiam registros em grandes estúdios e com tecnologia de ponta, porque o som, quanto mais sujo, melhor. Os registros de grande parte do som desses artistas se davam na própria garagem, gravados em equipamentos mais rudimentares resultando num som mais sujo e menos definido, mas caracterizando a revolta desses grupos de periferia, como uma forma de protesto contra os grandes grupos de gravadoras e grupos editoriais. Não bastava a música ser só de garagem, mas ela assumiu uma postura de movimento, adquirindo um caráter político, dotada de agressão e violência, rebatendo o rock comportado e cheio de passividade da época. Uma manifestação que trazia a linguagem simples tanto na música como na letra, cheia de deboche, sarcasmo, ironia e rebeldia. Os adeptos eram jovens da periferia das grandes cidades como São Paulo, que se reuniam em gangs, e eram vítimas de violência, do desemprego, da pobreza, e que não tinham locais para diversão, pobres, jovens, o que os levava a serem rebeldes.

Essa filosofia, esse compromisso há cerca de vinte anos chegou numa aventura encabeçada pelo Miltão, na época meu empresário, secretário, produtor, além de amigo, que enfrentando todo o sistema, levou um bando de jovens da periferia paulistana para umas performances na Av. Paulista, onde essas pessoas mostravam de forma rudimentar, seus textos poéticos, recitados sob a batida hipnótica de um instrumento e sob o som de LPs de outros artistas. Ali aparecia o rap paulistano, mais especificamente, Os Racionais MCs. Quatro rapazes que já venderam um milhão de cópias de seus CDs, sem terem suas presenças carimbadas nos programas populares da mídia televisiva. E apesar de terem atingido o sucesso, o grupo continua dedicando seu trabalho à periferia, preferindo os espaços como quadras de escolas de samba, a grandes teatros. Mas atingem de cheio a mente dos adolescentes, com seus textos diretos e denunciadores. Mano Brow adquiriu statusde mestre da cultura hip-hop. E assim essa nova onda, representada por Mano Brow e Sabotage (este, um ex-presidiário e que teve uma morte ainda não explicada), é hoje a língua dos oprimidos, pelos traços de autêntica representação da cultura periférica brasileira. E não é justo que a imagem dos artistas que se dedicam a essa arte popular, tenham suas imagens identificadas com a imagem de marginais, pois esses artistas, repórteres do espaço e tempo em que vivem e atuam não poderiam falar de outra coisa que não seja fruto do que vêm. E com maestria revelam as cores desse espaço em suas criações. Viva a cultura popular.

*Jorge Mello – Cantor, compositor, produtor e advogado.

Contatos: (11) 5612 – 2390 / 9311 – 0497  – E-mail e site:[email protected] / www.myspace.com/jorgemello /www.jorgemello2.hpg.ig.com.br

JORGE MELLO – Livros publicados

1 – TUMULTOS D’ALMA de Jorge Mello – Ed. Imprensa Oficial do Piauí – 1966.
2 – UNI VERSOS (Antologia de poemas) Editora Ática. 1972.
3 – BENEDICTUS – Uma Aventura de Magia ( Romance em fase de publicação).
4 – PASSARELA DE ESCRITORES – Edições Jaburu – 1997.
5 – A MEDICINA POPULAR NO CORDEL: MEIZINHAS, DOENÇAS E CURAS. Kether Editora – Rio de Janeiro. 2005.
6 – DIREITO AUTORAL: DA TITULARIDADE. Kether Editora. Rio de Janeiro. 2005.

– Inúmeros Libretos de cordel:

1- Na visão de um profeta.
2- Disco voador sobrevoa São Paulo, sequestra vereadora Irede Cardoso e dá um beijo verde no Tietê.
3- De como o Ceará é a extenção da Anhanguera.
4- Natal Popular.
5- Cai objeto estranho em Santo Amaro e o clarão espanta onça no pantanal.
6- Um Planeta de Luz descoberto em Santo Amaro.
( E uma dezena de outros folhetos de cordel)

– Livros que fazem referência ou publicaram textos de Jorge Mello ( Compositor, poeta, cantor, escritor e repentista):

VERSO E PROZA. Centro Médico Cearense. Fortaleza. 1983.

GONÇALVES,Wilson Carvalho.Dicionário Histórico Biográfico Piauiense. Teresina, Gráfica e Editora Junior Ltda – 1993

MELO, Cléa Rezende Neves. Memórias de Piripiri. Brasília. 1995.

MORELLI, Rita de Cassia Lahoz. Arrogantes, anônimos, subsversivos: interpretando o acordo e a discórdia na tradição autoral brasileira. Campinas, SP, Mercado de Letras, 2000.

NETO, Adrião.Dicionário Biográfico – Escritores Piauienses de todos os tempos. Teresina, Ed. Halley S/A – 1995.

PIMENTEL,Mary. Terral dos sonhos( O cearense na música popular brasileira) Fortaleza. Multigraf Editora,1994.

SANTANA, Judite.Piripiri. Teresina, 1977.

SERRA, Haroldo. RETROSPECTIVA – 45 AONOS DA Comédia Cearense. Fortaleza. 2002.
ANGELO, Assis. A presença dos Nordestinos em São Paulo.

THOMPSON, Mário Luis. BEM TE VI – MUSICA POPULAR BRASILEIRA Vol 1 e 2. Imprensa Oficial do Estado. São Paulo. 2001.

PÁDUA, Tom. Anos Dourados – Biografia Romanceada de um alcoólatra.

ROGÉRIO. Pedro. Pessoal do Ceará; hábitos e campo musical da década de 1970. Fortaleza: Edições UFC, 2008.

MELO, Cléa Rezende Neves de. Poetas de Piripiri – Antologia (Seleção e organização de Cléa Rezende Neves de Melo e Eliene da Silva Cesar). Piripiri. 2008.

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.