Zé Paulo Medeiros

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Zé Paulo Medeiros
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Canções e queijos. À primeira vista são duas coisas completamente diferentes. Mas, o mineiro Zé Paulo Medeiros mostra que elas têm muito mais semelhanças do que diz o senso comum.

Criar músicas e queijos são atividades que requerem sensibilidade para selecionar e misturar os ingredientes na medida certa e paciência para esperar o tempo de maturação. O resultado são obras de arte que encantam a audição e o paladar. Na vida de Zé Paulo Medeiros, as facetas de músico e empresário correm juntas. Tanto que é difícil separar uma da outra. Na música, ele toca com galhardia a sua carreira de violeiro, cantor e compositor, marcada por uma obra singular e autoral. Já como empresário, comanda, junto com a família, a empresa de laticínios Cruzília, fundada em 1948 por seu pai, José Moreira de Almeida. A música surgiu para ele na infância, por influência da mãe e ouvindo rádio. Por conta das raízes familiares e dos negócios da empresa, sempre esteve em constantes viagens pelo interior de São Paulo e Minas Gerais (terra natal dos pais). Foram nessas andanças que ele descobriu a viola, instrumento que desde então não largou mais.

Nos anos 1970, Zé Paulo Medeiros botou o pé na estrada e iniciou sua jornada musical apresentando-se em Festival de Música Estudantil, nos quais conquistou mais de 40 prêmios. Mineiramente, ele foi levando a carreira sem pressa. Sua estreia fonográfica se deu em 1982, com um compacto lançado pela extinta gravadora Fermata que trazia as músicas: “Sei Lá” e “Meditação” e no qual assinou apenas como Zé Paulo. Disposto a levar sua obra para um público maior, ao longo dos anos 2000 lançou os discos: “Caminhante”, “A Cara do Sertão” e “Cine Mazzaropi” (tributo ao falecido ator e cineasta Amácio Mazzaropi). E é assim, seguindo seu próprio ritmo, que Zé Paulo Medeiros celebra 30 anos de carreira com A Tr3logia. Como o nome diz, trata-se de um projeto formado por três CDs, denominados Casulo I, II e III. O projeto levou três anos para ser feito. De seu vasto baú de composições guardadas, Zé Paulo Medeiros havia selecionado inicialmente 50 até fechar nas 36 que foram gravadas. O projeto gráfico é caprichado: os CDs vêm num box com um invólucro em formato de borboleta. “Eu me inspirei no processo de metamorfose da borboleta para expressar a ideia de evolução”, explica. Evolução que se reflete no repertório, que passeia por música regional, sertanejo de raiz, MPB, samba, bolero e até blues. Cada CD marca o período de uma década. “A sequência das músicas foi pensada para retratar minha história e vivências que tive nesses 30 anos”, diz. Ao longo desse tempo, Zé Paulo Medeiros coletou muitas histórias no balcão da loja da Cruzília no Mercado Municipal de São Paulo, onde faz questão de atender e conversar com clientes. “É um trabalho enriquecedor, pois você aprende a arte de ouvir”, ressalta. Aliás, o movimento é sempre intenso na loja. Afinal, os queijos produzidos pela Cruzília são reconhecidos nacionalmente. Prova disso é que há três anos a empresa é a primeira colocada no ranking de produtos lácteos criado pelo Instituto Cândido Tostes e EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais). Como a ocasião é festiva, Zé Paulo Medeiros fez questão de convidar vários músicos e artistas para o projeto. A lista tem nomes consagrados como Sérgio Reis, Inezita Barroso, Zé Geraldo, Maria Alcina, Paulo Caruso, Célia e Celma, Oswaldinho da Cuíca, Rodrigo Sater e Arranco de Varsóvia, dentre outros. Depois de ouvir A Tr3logia, certamente o público vai pedir bis para Zé Paulo Medeiros. Que venham mais canções inspiradas e queijos saborosos!

Segue abaixo a entrevista exclusiva com Zé Paulo Medeiros para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 16.03.2014:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Zé Paulo Medeiro: Nasci no dia 30.07.1955 em “São Minas Paulo Gerais”. Eu vim para São Paulo garoto, mas eu sempre estive no local que nasci em São José dos Lopes, que é no interior de Minas Gerais e que fica no pé da Serra de Ibitipoca – Lima Duarte – MG. Fica próximo a Juiz de Fora. É nesse local que mora minha família; eu sempre vou lá.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Zé Paulo Medeiro: Na cidade de Lima Duarte – MG desde garoto frequentei rodas de contadores de causos e violeiros e ouvindo Tião Carreiro, Alvarenga e Ranchinho. Eu fui criado na roça e a gente tinha nas festas que acontecia todos os anos, um contato com a música regional. E muita moda de Viola e essas coisas me influenciaram. Foi que pela primeira vez eu peguei um instrumento, a Viola caipira para começar desenvolver uma melodia e para criar um som no meu estilo. Depois peguei o Violão e estudei música alguns anos. Fui desenvolvendo e deu no que deu e hoje a gente tem um projeto mais maduro, fazendo hoje a influência que tivemos tempos atrás.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica (Teórica)?

Zé Paulo Medeiro: Nunca estudei formalmente música. Eu sou formado em Engenharia Topográfica pela Escola Paulista de Engenharia, formado a mais de trinta anos. Mas não exerço a profissão.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Zé Paulo Medeiro: Bob Dylan, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Alvarenga e Ranchinho.

05) RM: Quando, como e onde  você começou a sua carreira musical?

Zé Paulo Medeiro: Minha carreira musical começou em 1981 quando fui contratado pelo selo Fermata para gravar um compacto simples. E quando eu era jovem, assistia os Festivais da Record na TV, nos quais apareceram Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os novos Baianos nessa época dos Festivais, eu vendo uma vez o Geraldo Vandré cantando; sou um grande fã dele e o conheço pessoalmente. Foi que eu decidir a compor, criar e fazer parte desse cenário musical que para mim foi um dos mais interessantes. Escolhi o gênero regional devido às influências que eu tive, pelo fato de mora na roça. Em que a música geralmente é mais voltada para Viola e para as tradições culturais do próprio Caboclo. Essa influência é que me deu uma visão do tipo de trabalho que deveria desenvolver e outra parte também ouvindo Geraldo Vandré e Chico Buarque foi que eu consegui fazer minha música mais eclética. Inclusive vendemos o nosso Show dizendo que vai da Moda de Viola ao Blues. Desde Tião Carreiro a Bob Dylan. E os artistas nacionais que já citei.

06) RM: Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Zé Paulo Medeiro: São 7 CDs, participações especiais: Osvaldinho da Cuíca, Maria Alcina, Zé Geraldo, Tinoco, Rodrigo Sater, Sergio Reis, Inezita Barroso, Saulo Laranjeira entre outros.

CD – “Caminhante” é uma continuação do primeiro CD, que eu fiz em 1985 e lançado pela Fermata. O CD – “Caminhante” caracteriza bem a minha influência por esse povo de sutil sabedoria, que é o povo Caboclo e Caipira. Resgato em muitas letras do CD o valor desse povo mais humilde que eu tenho muito respeito. O Titulo “Caminhante” é uma metáfora, talvez de procurar lugares ou de passar em lugares para aprender novas coisas. Por isso o nome “Caminhante” do CD. Como uma forma de está aqui ou está lá. É uma representação da música, nesse CD tem dezesseis músicas bem diferentes uma da outra, bem ecléticas com temas diferentes. Talvez por isso o nome “Caminhante”. Seria uma pessoa que esteve em vários lugares e que tem influências de várias pessoas e de várias coisas ao mesmo tempo.

CD – A Cara do Sertão.

CD – Cine Mazzaropi (tributo ao falecido ator e cineasta Amácio Mazzaropi).

A trilogia – Casulo ICasulo II e Casulo III que retratam 30 anos de carreira de 1982 a 2012. Nesses álbuns mostro minha diversidade musical dividida em três décadas, uma para cada álbum. São 36 faixas de canções inéditas com grandes participações.

A Tr3logia  ̶  Zé Paulo Medeiros:  

Casulo I (1982-1992):

1. Missão de Violeiro (participação de Ighor Águila)

2. Aprendiz (participação de Xoan Curiel)

3. Tonico e Tinoco (participação de Cláudio Lacerda)

4. Certa Vez (participação de Zé Geraldo)

5. Grande Rio (participação de Fernando Deghi)

6. Manhattan

7. Samba (participação de Oswaldinho da Cuíca)

8. Alquimista (participação de Cezar do Acordeom)

9. Digas Pra Mim

10. O Pensamento

11. Estradão (participação de Sérgio Reis)

12. Kafé Amargo e Coador de Pano (participações de Inezita Barroso e Paulo Freire)

Casulo II (1992-2002):

1. Cavalo Báio (participação de Sérgio Reis)

2. Sole Lua/Moon And Sun (participação de Bete Uehara)

3. América Latrina

4. Benção

5. Três Amores (participações de Yassir Chediak e Rodrigo Sater)

6. Lamento (participação de Socorro Lira)

7. Super Interessante (participação de Oswaldinho da Cuíca)

8. Rogai Por Nós

9. Nos Olhos Meus (interpretação de Socorro Lira)

10. Momento

11. Respostas

12. Maracutaia (participação de Paulo Caruso)

Casulo III (2002-2012):

1. Mundo Pequeno (participação de Wanderli Rocha)

2. Lua (participação de Socorro Lira)

3. A Voz (participação de Arranco de Varsóvia)

4. A Amizade (participação de Zé Geraldo)

5. Saudade (participação de Ignez Carvalho)

6. O Amor e A Viola (participações de Paulo Freire e Ighor Águila)

7. Foi Por Amor (participação de Maria Alcina)

8. Pai-ssarinho

9. Chuva e Terra (participação de Fernando Deghi)

10. Conselhos (participação de Célia & Celma)

11. Cobaia

12. Viva A Vida (participação de Inezita Barroso)

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Zé Paulo Medeiro: Acho que não tenho um estilo e sim uma mistura musical.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Zé Paulo Medeiro: Pego o instrumento fico em silêncio, e as ideias vem.

09) RM: Quais são seus principais parceiros em composição musical?

Zé Paulo Medeiro: Não tenho parceiros. Raras às vezes fiz música com alguém.

10) RM: Você estudou técnica vocal?

Zé Paulo Medeiro: Não.

11) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Zé Paulo Medeiro: Maria Bethânia, Marisa Montes.

12) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Zé Paulo Medeiro: A carreira musical nos dá muito prazer e satisfação pessoal e pouco retorno financeiro. Meu trabalho é independente da mesma forma que eu sou uma pessoa Independente. E a vantagem de ser Independente é que você direcionar seu trabalho para onde quer sem correr o risco de assinar contrato e ter que seguir direção do seu Patrão, o que ocorre quando você não é Independente. Quando você está em uma gravadora você tem um Patrão e tem que seguir as regras e as metas que eles impõem. E infelizmente as metas que as gravadoras têm são inteiramente visando só o lucro e o trabalho artístico que faço eu não tenho a menor visão de lucro. A nossa intenção é mostrar nosso trabalho e tentar mostrar a capacidade do povo brasileiro que tem essa responsabilidade e essa facilidade de fazer um trabalho musical. As dificuldades. É um pouco na falta de divulgação, porque a gente chega a uma Rádio e por não fazer parte dos esquemas Jabalísticos das Gravadoras que pagam para tocar as músicas dos seus artistas com exclusividade, temos certa dificuldade, porque nós não estamos no esquema e nem fazemos parte desse esquema de gravadoras. Mas independente disso, sempre encontramos algumas Rádios que tocam nossa música e mostram nosso trabalho. Então o importante não é quantidade de público a ser atingido nem quantidade de meios de comunicações, mas sim a qualidade deles.

13) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Zé Paulo Medeiro: Não tenho estratégias, deixo ir acontecendo.

14) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Zé Paulo Medeiro: Nenhuma.

15) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Zé Paulo Medeiro: A internet é uma ferramenta que muito ajuda a divulgar meu trabalho; desvantagens não vejo.

16) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Zé Paulo Medeiro: Acho muito bom, pois facilita tudo. E o mundo hoje é veloz.

17) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Zé Paulo Medeiro: Faço exclusivamente o que sei fazer, uso minha receita, e como fazer um bom prato, cada qual com seu tempero.

18) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Zé Paulo Medeiro: Olhando o cenário da musica atual, não vejo nada de novo.

19) RM: Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Zé Paulo Medeiro: Roberto Carlos.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Zé Paulo Medeiro: Nada que tivesse grande importância para relatar aqui.

21) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Zé Paulo Medeiro: Mais feliz é o Dom. E mais triste o comércio na arte.

22) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Zé Paulo Medeiro: Em São Paulo, hoje é uma, amanha outra e assim vai mudando.

23) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que  você indica como uma boa opção?

Zé Paulo Medeiro: Nenhuma.

24) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Zé Paulo Medeiro: Sim.

25) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Zé Paulo Medeiro: Dê tudo de si e não espere nada.

26) RM: Fale de sua experiência musicando a peça “Espantalho”, que ficou em cartaz por alguns anos.

Zé Paulo Medeiro: Eu fiz as músicas dessa peça na época da Faculdade, foi uma peça que viajou todo o Brasil e uma parte da América Latina. E fiz a música “Lanomâmi” que consta no CD – “Caminhante”. Ela é a música principal do Filme: Zezinho: o Menino Mentiroso. Lançado pela RV produções Cinematográficas, que está rodando pelo Brasil e pela América Latina.

27) RM: Quais os seus projetos futuros?

Zé Paulo Medeiro: No momento nada à vista.

28) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Zé Paulo Medeiro: [email protected] | [email protected]

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.