Zé Geraldo

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Zé Geraldo
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“Alguns versos na mochila e a cabeça cheia de sonhos”, Zé Geraldo chegou a São Paulo na década de sessenta com dezoito anos.  Mineiro da cidade de Rodeiro, criado em Governador Valadares, é mais um dos milhares de JOSÉ e de milhões de cidadãos que buscavam e buscam na “Terra da Garoa e do trabalho” uma  vida próspera.

O sonho de ser jogador de futebol foi interrompido aos vinte anos por um acidente automobilístico. Mas a vida continua e trabalhava, estudava e tocava nos finais de semana nos Bares da vida. Fase que durou oito anos. Foi várias vezes premiado em Festivais de Música, os quais proporcionaram o convite para gravar o primeiro Disco em 1979 (Terceiro Mundo) depois vieram os outros (Estradas, Zé Geraldo, Caminhos de Minas, Sol Girassol, No arco da porta de um dia, Poeira e Canto “AO VIVO”, Viagens e Versos, Ninho de sonhos, Aprendendo a Viver, No meio da Área e Novo Amanhecer). Todas as gravações mantiveram a coerência inabalável, originalidade e identidade do cantor, compositor e poeta popular.

Conheci Zé Geraldo pela primeira vez com a obrigação prazerosa de entrevistá-lo. Era uma terça-feira, no início da noite de 24/07/2001 tipicamente paulistana, ou melhor, fria, chuvosa e no corre, corre da metrópole. Foram quatro conduções: duas para ir e duas para voltar. Cheguei às dezenove horas no escritório que fica na Vila Madalena, bairro conhecido pela sua movimentação cultural.  Ao chegar fui recebido pela simpática e atenciosa produtora Márcia Gonçalves que fez a ponte necessária para meu contato com o Zé Geraldo. Ele chegou minutos depois. Eu não tinha conhecimento da obra de Zé Geraldo de audição, li sempre sobre o trabalho dele e conheci a sua gravação mais popular: Cidadão (Lúcio Barbosa) pela voz de outro , o Ramalho, que escuto desde criança. Pesquisei as fontes que pudessem me dar condições de entrevistá-lo a contento. Viajei literalmente no site oficial do cantor, que é muito organizado e criativo. Mas minha entrevista foi pautada para pessoas interessadas em conhecer um músico comprometido com a arte dos sons, das palavras  e das melodias, algo que está sendo esquecido por muitos aventureiros musicais. O Zé Geraldo chegou e depois de um cumprimento formal e sem delongas entrei na arena com o Gladiador dos versos. A cada pergunta uma resposta breve e sincera. Sem me olhar nos olhos, mesmo estando um de frente um para o outro. Ele despojado nas vestes e nas palavras sem um discurso elaborado, mas com uma tranqüilidade impávida e uma desconfiança de “homem do mato” e respondendo como quem fala para os próprios ouvidos debaixo de um Carvalho Mineiro sem a preocupação se quem escutava gostava ou concordava, mas convicto dos seus pensamentos. A voz grave, pausada e as palavras daquele homem silencioso ficaram gravadas na minha mente e alma. Homem que ao passar dos cinqüenta anos, com sua experiência de vida e profissional não se surpreende nem se assusta com nada e não acredita em verdade absoluta nem em caminhos fáceis. A entrevista foi breve e o privilégio foi grande. No meio da entrevista a desconfiança inicial dava lugar a um breve ensaio de intimidade. Ele perguntou sobre a minha cidade de origem (Campina Grande – PB), comentou que gostaria fazer um show e conhecer essa cidade do interior da Paraíba, popular pela festa junina. Eu perguntei do novo Projeto Musical que será o Lançamento do novo CD: TÔ ZERADO em 2002. Eu queria saber como não estando na mídia nacional consegue levar um bom público para os seus shows quebrando o mito que música de boa qualidade não é prestigiada pelo povo. Por que Zé Geraldo canta para esse povo que pega quatro ou mais conduções e que constrói o país sem poder nele entrar. Na despedida mais calorosa e contida de Zé Geraldo, sabendo que cumpri mais uma rotina do ofício de entrevistador com o dever cumprido a serviço da arte musical. Só existe dois tipos de música: A boa e a ruim.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Zé Geraldo para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.07.2001:

01) RM: Quais as dificuldades que você enfrentou para encontrar seu nicho musical e seu público?

Zé Geraldo: Foram às circunstâncias da estrada com passagem por diversas gravadoras, mais as dificuldades que tive no início de carreira para me posicionar no meio artístico. Eu não era roqueiro, não era do mato, nem era MPB. A gravadora que iniciei me vendia como cantor de vanguarda. Eu dizia que não era, que era um cantor popular. Eu fiquei nesse conflito até a década de oitenta, quando as portas começaram a se fecharem e eu caí na estrada, porque sabia que dava para desenvolver meu trabalho longe dos grandes esquemas. Mas isso me custou muito caro. Mas o pior eu já passei, atravessei um grande deserto, mas sempre trabalhando, sempre lutando. E hoje eu olho para trás e fico feliz de ter chegado aqui inteiro como cheguei. Com meus versos com toda sua integridade, não abri mão de uma vírgula das minhas convicções. Isso me custou caro. Mas hoje minhas duas filhas me olham com orgulho, sabem os caminhos que passei. Olho para o meu passado e vejo que tenho motivo para ficar feliz e confiante no que eu vou caminhar ainda. Mas serve para outras pessoas terem a informação e a certeza que dá para construir uma carreira longe dos holofotes da mídia. Pode custar caro, há muito sofrimento, mas a vida do artista é assim mesmo. Eu felizmente consegui chegar aqui inteiro, com minha música e feliz.

02) RM:  A média de idade do seu público é na maioria a cima dos trinta anos ou há a presença de muitos adolescentes que se aproximam do seu trabalho?

Zé Geraldo: Pelo contrário, nos meus shows há a presença de muitos jovens que, no início, eram trazidos pelos pais ou que hoje acompanham meu trabalho. Hoje a grande maioria do público é dessa galera que curtem outros estilos, mas que valorizam o som autêntico.

03) RM: Como você vê o espaço dado pelos meios de comunicação de grande audiência às pessoas ou grupos que pouco ou nada acrescentam para a música brasileira?

Zé Geraldo: No passado eu ficava sem entender, ficava angustiado. Não conhecia o esquema das gravadoras  que pagam a esses programas para ver divulgarem seus lançamentos e popularizarem o produto. E é aquela coisa, quem tem dinheiro pode e manda mesmo. Hoje acho normal. A televisão vive em função de servir os interesses das gravadoras. Mas isso passa e o que fica mesmo é aquilo que tem qualidade. Eu faço dois ou três programas de televisão por ano e não é em televisão de destaque e continuo lotando meus shows.

04) RM: Na sua opinião quem nos anos 90 se destacaram e marcaram com um trabalho musical consistente?

Zé Geraldo: A MPB teve muitos destaques nos últimos dez anos. Mas a maior perda foi a do Renato Russo e do CAZUZA. Eles foram pura originalidade e destaques maiores que apareceram. Foram muito importantes para nossa música. Apareceram grandes cantoras como Adriana Calcanhoto, Marisa Monte e a cantora e compositora Cássia Eller. Apareceram também o Zeca Baleiro, Chico César e muitos outros. O Brasil tem muitos talentos, mas o Renato e o Cazuza foram os poetas modernos da música brasileira. Marcaram com suas obras e foram uma grande perda para a música brasileira.

05) RM: Como você vê a situação do artista que tem um trabalho semelhante ao seu e que não atinge o mesmo êxito nem o reconhecimento?

Zé Geraldo: Os novos artistas não devem desistir com os obstáculos de fazer música autêntica e regional. A vida de músico não é fácil. Eu, quando iniciei minha carreira, cantava em campo de futebol, feira e em frente de igreja. Levava meus músicos no meu carro e saia pelo mundo divulgando meu trabalho e hoje tenho que buscar os espaços para não perder o que já consegui. A verdade é que os cantores que tem um trabalho sério e criativo vão chegar ao que almejam, basta ter talento.

06) RM: Qual a semelhança da sua música com a de cantores como Belchior, Zé Ramalho, Tríade de Cantadores Xangai, Elomar e Vital Farias?

Zé Geraldo: O que me aproxima desses cantores e cantadores é o mato. Viemos do interior, eu de Minas Gerais e eles do Nordeste. Isso aproxima nosso trabalho, mas como tenho um pé no Rock e outro na música regional, faz o meu trabalho tomar outro rumo. Eu sempre tive essas duas influências musicais. E outro ponto que faz nossos trabalhos ficarem semelhantes é o fato de as nossas músicas falarem do povo para o povo.

07) RM: Qual o novo projeto musical e qual a sua música mais popular?

Zé Geraldo: Sem dúvida a música mais popular é “Cidadão”, pelo fato de outros cantores terem gravado e pela mensagem que traz. “Senhorita” é outra muito popular, mas com o tempo outras músicas vão ficando na cabeça das pessoas e se tornando populares. O projeto novo é o CD “Tô Zerado”, que terá músicas inéditas minhas e de parceiros. Esse CD é uma ironia bem humorada pelo fato de está começando de “novo”. As pessoas questionam porque não apareço na TV, então resolvi fazer um CD que tivesse a marca de está começando o início de carreira. Vou fazer alguns programas de TV, divulgar mais na mídia, mas o mais importante é que o trabalho traz a mesma fidelidade.

Contatos: www.zegeraldo.com.br

PS: Essa entrevista foi escrita usando a “memória”. Apertei o play do gravador na primeira resposta e depois apertei o pause e não apertei o play de novo nas respostas seguintes do Zé Geraldo. No metro fui escutar a gravação da entrevista  e me dei conta que só uma resposta foi gravada. Estava com o bloco de nota que tinha escrito previamente as perguntas que faria para ele. E fui lembrando das respostas que ele deu em cada pergunta que não ficou registrada no gravador. No outro dia  enviei para ele por email as perguntas e respostas antes de publicar. Ele leu e aprovou a publicação.

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.