Wilson Curia

WilsonCuria ao Piano
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Wilson Curia iniciou os seus estudos de piano aos 13 anos, foi aluno de Paul Urbach, Hans-Joachim Koellreuter, Nellie Braga e Maria Helena Silveira. Em 1954, enquanto cursava o curso de Direito da PUC / SP – Pontifícia Universidade Católica – venceu o concurso para a escolha do Melhor Pianista Amador de Jazz de São Paulo. Participou na TV Record da primeira apresentação de Sarah Vaughan no Brasil, acompanhado por Azeitona (baixo) e Chim (bateria). Participou com Sergio Mendes de um dos primeiros concertos de Jazz realizados pelo jornal Folha de São Paulo e foi classificado em uma eleição organizada por esse mesmo jornal. Como um dos melhores músicos de São Paulo. Em 1956, durante a apresentação da banda de Dizzy Gillespie em São Paulo, teve a oportunidade de tocar com três de seus melhores músicos: Phil Woods (sax alto), Frank Rehack (trombone) e Marty Flax (sax barítono). Durante seis meses fez parte do grupo formado por Hector Costita (sax tenor), Magno D’Alcântara (trumpete), Luiz Chaves (baixo) eRubens Barsotti (bateria), que se apresentavam toda segunda – feira no Teatro de Arena, em São Paulo.

Atuou também com Booker Pitman (sax alto, soprano e clarinete), Shu Viana (baixo), Maciel (trombone) e “Gafieira” (bateria), em uma famosa jam session em homenagem ao Rev. Padre John Crowley que na época excursionava pelo Brasil. Em 1959 concluiu o curso de Harmonia Moderna, Improvisação, Arranjo e Orquestração do Berklee College of MusicBoston – EUA, tendo como professores: Robert Share, Jim Progis e Harry Smith. A revista Down Beat de março de 1974 incluiu seu “Moderno Método para Piano Bossa Nova”, como a publicação sobre Bossa Nova mais importante já lançada nos Estados Unidos. Em 1979, durante a estada de Liza Minnelli em São Paulo, Wilson Curia foi convidado para acompanhá-la durante um de seus ensaios. Durante a visita a São Paulo de Harold Danko e Mike Wofford – pianistas de Liza Minnelli e Benny CarterWilson teve a oportunidade de tocar com ambos a dois pianos. Em 1980 participou com um quarteto do 2º Festival Internacional de Jazz, realizado no Palácio das Convenções do AnhembiSão Paulo, em que se apresentaram 150 músicos nacionais e 70 estrangeiros. Durante realizações de workshops em São Paulo, teve também a oportunidade de tocar com Jamey Aebersold e Chuck Marohnic.

É autor de vários livros e vídeos aulas, alguns dos quais sendo distribuídos nos EUA pela Warner Bros. e Pender’s Music Co. Seus livros fizeram parte da VII Bienal Internacional do Livro, realizada no Ibirapuera em 23 de agosto de 1982. Que contou com a participação de 18 países: Brasil, Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Suíça, República Federal da Alemanha, Hungria, México, União Soviética, Estados Unidos, Uruguai, Israel, Angola, Japão, África do Sul e Peru. Foram expostos 70.000 títulos. O seu Método “Moderno Método para Piano Bossa Nova”, encontra-se na Fundação Nippon Gakki do Japão e na Lincoln Center Musical Jazz Library em New York. E na biblioteca do Berklee College of Music. Há vários anos mantém sua escola de piano em São Paulo, tendo tido como alunos vários músicos profissionais, dentre os quais: Hector Costita, Luiz Chaves, José Briamonte, Maestro Branco, Silvio Cesar, Madalena de Paula, Osmar Milito, Aloísio Aguiar, músicos de Roberto Carlos, Jessé, Guilherme Arantes, Roberto Leal, Wanderléa e outros. Sua escola já recebeu a visita de vários músicos internacionais: Tommy Flanagan, Harold Danko, Marian McPartland, Toshiko Akiyoshi, Mike Wofford, Jamey Aebersold, Chuck Marohnic, Carlton Schroeder e outros.

Em 5 de Setembro de 2000, Wilson foi homenageado pela “International Association of Jazz Educators” que o agraciou com a “Lifetime Achivement Award” (Placa dada a um único músico em cada país) como reconhecimento por sua dedicação e relevantes serviços prestados ao Jazz.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Wilson Curia para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16 de setembro 2014:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Wilson Curia: Nasci no dia 24 de julho de 1933 em São Paulo – SP. Sou filho de Eduardo Curia e Carolina Tassini Curia. Irmão de Carlos Eduardo Curia. E sou casado desde 1971 com Lucy Meriwether Curia e tivemos uma filha a Thais Curia.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Wilson Curia: Meu lado musical vem de família: minha mãe tocava todo repertório de Zequinha de Abreu (o conhecia pessoalmente). Uma tia minha foi professora de Piano e uma prima concertista. Descobri o meu talento para música na adolescência, depois de arriscar na Gaita de Boca, no Cavaquinho e na Bateria, aí iniciei no Piano. Quando tinha 10 anos de idade, eu costumava ir à casa de uma tia que tinha um Piano. O meu tio costumava brincar, aquela coisa de tocar com dois dedos e eu sempre ficava ao lado observando. Aquilo era o que eu queria: tocar Piano.  Quando eu tinha mais ou menos 12 anos de idade, aos sábados eu e meus amigos jogávamos futebol em um campinho perto de casa. Passávamos em frente de uma casa e ouvia o som de piano. Eu parava para ouvir e meus amigos seguiam em frente. Mais tarde formamos um time de futebol chamado Juvenil Paulistano. Jogávamos na várzea e com colégios. Na várzea eu era tão bom que os times de adultos me chamavam para jogas com eles. Minha posição era ponta direita.

Tive aulas particulares com uma professora perto de casa. Tive aulas com Hans-Joachim Koellreutter, Maria Helena Silveira e Nellie Braga. Aos 17 anos de idade fui assistir um concerto de Paul Urbach, pianista húngaro que havia chegado ao Brasil, no Teatro Cultura Artística. Falei com ele, peguei o seu cartão de visita e telefonei para ele. Na época um professor de música cobrava de 80 a 120 cruzeiros e ele 500 cruzeiros. Comentei com meu pai que era muito caro. Ele disse: vá tomar aula com ele. O Paul Urbach me chamava de “Vilson”. Um dia eu perguntei para o Paul, porque eu não toco para o senhor como toco na minha casa. Ele respondeu que em Budapeste não toca para o professor dele como tocar em casa. Estudei com ele durante sete anos. A música clássica me ajudou muito no desenvolvimento do Jazz, principalmente na parte técnica, que exige um estudo com afinco. Paul Urbach foi o professor que mais me influenciou e fez aquilo que um professor tem que fazer por um aluno que é inspirar o aluno, no sentido de proporcionar admiração e confiança. Em 1976 ganhei da minha esposa Lucy, um Piano Steinway – Model O. Living Room Grand. This 5′ 10 ¾” (180cm) grand piano.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical? Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância? Quando, como e onde você começou a sua carreira profissional?

Wilson Curia: Comecei a minha carreira profissional como professor de música aos 25 anos quando eu deixei no terceiro ano da PUC o curso de Direito. O Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta (arcebispo de São Paulo) frequentava a casa dos meus pais, foi ele quem insistiu para que eu fizesse o exame na PUC.

Em 1954 venci o Concurso de Pianistas Amadores no L´Amiral de Jazz de São Paulo. Participei na TV Record na primeira parte da apresentação de Sarah Vaughan no Brasil, acompanhado por Azeitona (baixo) e Chim (bateria).

Em 11-9-1956 no Teatro Cultura Artística foi realizada uma autêntica festa do JAZZ. Eu me apresentei na primeira parte do programa. OJornal Ultima Hora escreveu que deste pianista amador (Wilson Curia) não precisa falar muito, pois o seu desempenho já foi demonstrado em outras reuniões jazzísticas. Com Sergio Mendes participei de um dos primeiros concertos de Jazz realizado pelo jornal Folha de São Paulo e fui classificado em uma eleição organizada pelo mesmo jornal como um dos melhores músicos de São Paulo.

Em 1956 durante a apresentação da banda de Dizzy Gillespie em São Paulo teve a oportunidade de tocar com três de seus melhores músicos:Phil Woods (sax alto), Frank Rehack (trombone) e Marty Flax (sax barítono). Durante seis meses fiz parte do grupo formado por Hector Costita (sax tenor), Magno D’Alcântara (trompete), Luiz Chaves (baixo), Rubens Barsotti (bateria), que nos apresentávamos às segundas-feiras no Teatro de Arena em São Paulo. Atuei também com Booker Pitman (sax alto, soprano e clarinete contemporâneo de Louis Armstrong), Shu Viana (baixo), Maciel (trombone) e “Gafieira” (bateria), em uma famosa Jam Session em homenagem ao Reverendo Padre John Crowley que na época excursionava pelo Brasil.

Em 1959 conclui o Curso de Harmonia Moderna, Improvisação, Arranjo e Orquestração na Berklee College of Music – Boston – EUA, tendo como professores: Robert Share, Jim Progis e Harry Smith. Sou o primeiro, no Brasil, a fazer esse curso. Nos anos 60 no Jazz Club de São Paulo havia reuniões de músicos amadores e profissionais. Eu me apresentava com Zuza Homem de Melloe Luiz Fernando Mendes. O Jornal Ultima Hora comentou que esses três jovens, membros de um conjunto amador, estava conseguindo justa popularidade e participamos de inúmeras Jam Sessions em São Paulo, Santos e programas de TV. Formei outro conjunto de jazz amador integrado por Hernani Bastos (bateria), Daniel Grizante (contrabaixo), Rubens Bezerra (vibrafone) eLuiz Fernando Mendes (clarineta). Participei da promoção da Folha de Sã Paulo da IV Jam Session com Luis Chaves (contrabaixo), Rubinho Barsotti (bateria) e Heraldo do Monte (guitarra elétrica). Apresentei-me no Teatro Arena com Hector Costita (sax), Geraldo (piston), Rubinho Barsotti (bateria) e Luis Chaves (contrabaixo).

Até final de 1969 eu ministrava aulas e toca como pianista amador.   A partir de 1970 comecei a me dedicar somente ao ensino. Em 1973 participei todos os dias na Rádio Mulher do Show das 9 falando sobre música. Os participantes eram Giba, Ronaldo Esper, Marizia Portinari, Audalio Dantas.

Em 9 de novembro de 1796 participei com Paul Urbach do Concerto de Jazz no Auditório Villa Lobos, acompanhados de Zeca Assumpção(contrabaixo) e Jayme Pladevall (bateria). Em 1979, durante a estada de Liza Minnelli em São Paulo, fui convidado para acompanhá-la durante um de seus ensaios. Durante a visita aSão Paulo de Harold Danko e Mike Wofford (pianista de Liza Minnelli e Benny Carter) tive a oportunidade de tocar com ambos a dois Pianos.

Em 1980 participei com Ubaldo Versolato, Sergio Saia e Matias Mattos do Segundo Festival Internacional de Jazz, realizado no Palácio das Convenções do Anhembi em São Paulo, em que se apresentaram 150 músicos nacionais e 70 estrangeiros. Nos workshops realizados emSão Paulo por Jamey Aebersold e Chuck Marohnic tivemos a oportunidade de tocarmos a dois Pianos. Recebi em minha escola a visita de vários músicos internacionais: Tommy Flanagan, Harold Danko, Marian McPartland, Mary Lou Williams, Toshiko Akiyoshi, Mike Wofford, Jameu Aebersold, Chuck Marohnic e Carlton Schroeder. Participei de vários programas de TV, dentre eles: Ponto de Encontro (TV Cultura com Walter Lourenção), 90 Minutos (TV Bandeirantes comNuno Leal Maia), Brasil 65 (TV Excelsior com Bibi Ferreira), Almanaque (Globo News com Beth Pacheco). Durante sete anos consecutivos, fiz parte do júri dos Concursos da Yamaha do Brasil, inclusive ministrando workshops para organista de todo o país.

Em 05-09-2000 fui homenageado pela Internacional Association of Jazz Educators com a placa Lifetime Achievement Award, dada a um músico de cada país como reconhecimento por sua dedicação e relevantes serviços prestados ao Jazz. Tive alunos que são músicos profissionais: Hector Costita, Luiz Chaves, José Briamonte, Joãozinho Paraíba, Maestro Branco, Dick Farney, Silvio Cesar, Madalena de Paula, Osmar Milito, Aloísio Aguiar, Fernando Cesar, Celso Mojola, Hager Grimaldi, Evaldo Soares, Emilio de Mendonça, Rosa Soares, Cristina Carneiro, Simoninha, Tiago Tavares, Maria Áurea da Veiga, Marcos  Romera, músicos que já trabalharam com: Roberto Carlos,  com Jessé, com Guilherme Arantes, com Roberto Leal e com Wanderléa. Ana Paula(filha de Roberto Carlos), Manoel dos Santos (irmão do cantor Jessé), Janio Santone, Tiago Tavares, Regina A Gomes, Hameleto Stamato. O pai de Roberto Sion vinha uma vez por semana de Santos – SP para ter aulas comigo. A dona Clarinha Chaves, mãe de Juca Chaves também estudou comigo. Como tenho quadros de músicos com suas fotos pintadas, ela dizia: “Se o Juquinha vê esses quadros ele leva todos”,Rubens Salles (mora em Nova York – EUA), Paoula Abou-Jaoudé (ex assistente de produção de Hebe Camargo, que mora em Los Angeles – Califórnia – EUA), Adriana Damus (mora na Alemanha), Monica Ajej (proprietária  do Conservatório Butantã), Sandra Kison, Isabel Wallace (San Diego – EUA).

04) RM: Você lançou algum disco autoral?

Wilson Curia: Não tenho gravação de CD, pois me dediquei a lecionar na minha escola. E não atuei como músico profissional montando grupo musical ou fazendo gravações de disco autoral. Como não tenho discos gravados cito os discos de alguns de meus alunos:

Osmar MilitoO Piano de Gogô (composições de sua autoria). Enviou o CD para mim com dedicatória: Ao prof. Wilson Curia, que guardo até hoje as suas aulas, abração do Milito.

Celso Mojola – Música para saxofone  (no piano Celso e no saxofone Cesar Albino)

Desconstrução por Eugenia Melo e Castro (piano Emillio Mendonça)

Hager Grimaldi (Harmonia Quente)

Bons TemposVinicius Nucci Cocolicchio

TudoFernando Forni

Jazz TrioFernando Tadeu

Isabel Wallace Magic Touch (gravado nos EUA, San Diego, onde mora). Enviou o CD para mim com dedicatória: Ao querido professor,Wilson Curia, um pouco da minha música e o meu respeito a quem contribuiu e contribui para que “ela” soe melhor. Com carinho, Isabel – 04-01-2001

Em 1965 minha aluna Maria Inês Correa de Oliveira gravou um LP – DOIS E ELA, com João Rodrigues Ariza (bateria), Francisco Esteves(contrabaixo) e Ela (no piano). Enviou o CD para mim com dedicatória: Wilson, com grande reconhecimento e admiração de Maria Inês – Abril 1966.

05) RM: Como você define seu estilo musical?

Wilson Curia: Meu estilo musical é uma mescla de todos os músicos que ouço: Bud Powell, Erroll Garner, Bill Evans, Oscar Peterson, Eliana Elias, Diana Krall, João Donato, Eumir Deodato, Cesar Camargo Mariano, Johnny Alf, Dick Farney.

06) RM: Você compõe?

Wilson Curia: Fiz o curso para composição, mas não sou compositor. Quando tinha a minha escola no Planalto Paulista, quem vinha na minha escola mostrar suas composições era cantora sertaneja Roberta Miranda.  A pianista Marian MCParland compôs um musica para minha filha: “For Thais”.  E meu ex aluno Tiago Mineiro fez uma composição em minha homenagem chamada: Curia.

07) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Wilson Curia: A minha carreira musical foi consolidada muito antes da era digital, mas hoje vejo as pessoas divulgando material em troca de exposição na internet.

08) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia de gravação (home estúdio)?

Wilson Curia: As vantagens são que verdadeiros talentos podem aparecer sem estarem vinculados a uma grande gravadora. A desvantagem é que fica difícil achar os verdadeiros talentos no meio de muita coisa ruim.

09) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Wilson Curia: O nível musical decaiu muito nas ultimas décadas. Tomara que tenha gente tentando melhora-la.

10) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Wilson Curia: Os citados acima e mais: Zizi Possi, Ed Motta, Wilson Simonal, Eumir Deodato, Antonio Adolfo, Nelson Ayres, Hector Costita, Roberto SionLeni Andrade e Tim Maia.

11) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Wilson Curia: Enquanto estava no curso de Direito, às vezes substituía na casa de show Baiuca, Moacir Peixoto, pois ele precisava se apresentar em outra cidade. Como meu pai não queria que eu fosse músico profissional, não avisava aos meus pais que iria tocar. Estava com 18 anos e a época era outro. Um dia meu pai veio falar comigo que um casal amigo havia me visto tocando. Falei que não queria ser músico profissional e sim professor de música e iria desistir da faculdade. Aprovou-me em minha decisão.

Quando Erroll Garner veio se apresentar no Teatro Municipal – SP, entrei com Fausto Canova na cochia. Vi em uma sala um piano e comecei a tocar baixinho no estilo dele. Garner ouviu, parou de conversar, veio onde eu estava, parou do meu lado e perguntou: ”Quem é você.” Respondi que era professor de piano e toco também um pouco. “Que você quer. Quer conversar comigo, tirar foto.” Falei que gostaria de tirar uma foto com você e conversar. Ele disse: ”Vamos conversar, mas nada sobre música, porque sou totalmente analfabeto musical, não conheço nada de música, toco só de ouvido.” Conversamos, tiramos algumas fotos e ele foi então fazer o seu show.

O que me deixou muito sensibilizado como professor foi uma carta que recebi do jornalista Arapuã. O filho dele, o Arapinha estudou comigo. Fiz uma apresentação na Pró Arte com Sabá (contrabaixo) e Toninho (bateria) no dia 21 de setembro de 1975. No dia seguinte recebi esta carta:

Wilson, querido.  Puxa, não consigo acompanhar com os olhos as suas mãos. Rapaz, quem tem duas mãos como essas suas, não tem direito de se sentir tímido. O mundo seria melhor se adolescentes, como Arapinha, pudessem conviver mais com adultos como você. Por tudo de bom que vai ficar em meu filho, por ter convivido e aprendido com você, por tudo de emocionante que seu trabalho, ontem, me deu, meu muito obrigado. Você é grande. Arapuã SP. 22-9-1975.

Natan Marques, que foi pianista de Elis Regina, me escreveu agradecendo a atenção que dei ao seu filho André Marques quando estudou na minha escola nos anos 80.

12) RM: Como você analisa um Pianista e Tecladista?

Wilson Curia: As pessoas devem saber que não se pode analisar um pianista pela quantidade de notas que ele toca por compasso. Se ouvirmos Keith Jarret tocando uma balada, ele deixa espaços, “respiro”, coisa que pianistas não têm coragem de fazer. Deve haver equilíbrio de quantidade de notas tocadas e notas em silêncio (sem tocar). Aprendi muito ouvindo com Keith.

13) RM: Quais os pianistas que você admira?

Wilson Curia: Admiro: Bill Evans, Keith Jarrett, Erroll Garner, César Camargo Mariano, João Donato, Eliana Elias.

14) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Wilson Curia: O que me deixa mais triste é o não reconhecimento da profissão de músico. Quando me perguntam: Qual é a sua profissão e repondo sou músico, a pessoa diz: estou perguntando a sua profissão. O que o músico faz; pessoas de outra profissão não fazem. Mas o músico pode fazer. Tive poucos alunos que eram médicos, engenheiros muito bons na sua profissão e excelentes músicos. Mas é muito raro.

Outra tristeza é como o ensino de música é tratado no Brasil. No meu tempo de ginásio, antes de começar as aulas cantávamos o Hino Nacional. Uma das matérias escolares era a música. A música completa a educação. A criança que estuda música é menos agressiva e a música aguça a sua sensibilidade. O governo deveria seguir o exemplo do Carnegie Hall de Nova York maior casa de concerto do mundo, que conta com programas educativos destinados a levar a música popular e clássica a todos.

O Carnegie Hall associou-se ao sistema penitenciário e a instituições juvenis para oferecer cursos de formação aos presos. O programa é também mantido com ajuda do governo que incentiva o estudo da música e procura dar assistência a eles depois de cumprida a pena. Tenho muito prazer em vê os que foram meus alunos se sobressaindo aqui no Brasil e no exterior e também os que se dedicam ao ensino da musica em suas ótimas escolas.

15) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Wilson Curia: Estude tudo e sempre o que puder e com um bom professor. Nos dias de hoje, não mais espaço para os autodidatas ou musico de “ouvido.” Se o músico não estudar, seu campo de trabalho está altamente prejudicado. É importante fazer apresentações ao vivo, pois a escola pode proporcionar ao aluno, no máximo 60% do conhecimento, o restante vem de escutar muitos discos, da experiência em tocar com amigos e de assistir a todos os concertos e shows, possíveis. Não importa no começo, você não entender direito a música que esta ouvindo. Isso é importante para o desenvolvimento da percepção e educação musical. Se possível toque em um barzinho e entre em contato com o público para aprender como se desinibir.

16) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Wilson Curia: Compositores eruditos que admiro são: Frédéric François Chopin,  Claude-Achille Debussy e Erik Satie(Éric Alfred Leslie Satie).

17) RM: Quais os compositores populares que você admira? Quais os compositores da Bossa Nova você admira?

Wilson Curia: Os compositores populares que admiro são: Michel Legrand,  Burt  Bacharach, Rita Lee, Djavan, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Johnny Alf, Ivan Lins, Silvio Cesar, Toquinho, Vitor Martins, Marcos Valle, Paulo Sergio Valle, Edu Lobo, Baden Powell.

18) RM: Nos apresente seus métodos para Piano e Teclado.

Wilson Curia: Escrevi cinco livros: Manual de Improvisação, Harmonia Moderna e Improvisação, Moderno Método para Piano Bossa Nova (em português e Inglês).  A Revista Down Beat de março de 1974 escreveu como sendo o livro mais importante já lançado nos Estados Unidos sobre o gênero: Bossa Nova. Esse livro está na Fundação Nippon Gakki do Japão e na Lincoln Center Musical Jazz em Nova York. Dois livros de arranjos para Teclados MPB – Vol.1 e 2. Gravei cinco vídeos aulas: Harmonia e Improvisação conceitos básicos; Harmonia e Improvisação conceitos avançados; Piano Bossa Nova; Piano de Ouvido; Substituições de Acordes e Reharmonização.

19) RM: O Piano se tornou popular através da Bossa Nova?

Wilson Curia: A música popular sempre existiu para o Piano. A Bossa Nova teve início em 1960, mas em sua forma melódica, harmônica e rítmica, já existia no Rio de Janeiro desde 1950. Cansados da forma tradicional do Samba; músicos, compositores e cantores principiaram um movimento em clubes, apartamentos e residências, tentando dar uma concepção mais moderna às composições tradicionais. A estas reuniões, dava-se o nome de samba session. A maioria dos músicos que participavam do movimento eram apreciadores do Jazz. A característica básica do Jazz é a improvisação que foi introduzida na Bossa Nova. Nesta época um pianista, cantor e compositor chamado José Alfredo de Silva (conhecido como Johnny Alf) tocava um estilo de Samba completamente diferente dos demais. Ele estava muito a frente de sua época. Sua harmonia e maneira de distribuir os acordes eram extremamente modernas. Johnny Alf é para a Bossa Nova o mesmo que Bud Powell foi para o Bebop. A primeira composição autêntica de Bossa Nova foi gravada por volta de 1955. Chamava-se Rapaz de Bem que os americanos conhecem por Fellow Cat e composta em 1951 por Johnny Alf.

20) RM: Quais os principais vícios e erros devem ser evitado pelo estudante de Piano e Teclado? E quais os principais erros de metodologia de ensino de música?

Wilson Curia: Os vícios que eu encontro nos alunos são motivados por falhas de outros profissionais que foram seus professores anteriores. Quando o aluno estudou com bom professor não encontro vícios. Quando percebo a princípio que o aluno não leva jeito para o Piano não digo nada. Um aluno meu no principio não levava o mínimo jeito para o Piano. Mas ele gostava tanto de música e era tão esforçado; que pediu demissão de seu emprego e hoje ganha a vida como músico.

21) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Wilson Curia: O individuo já nasce com o dom musical. César Camargo Mariano é um exemplo. Seu pai comprou um Piano, quando ele era pequeno. Quando Piano chegou a sua casa, César abriu a tampa e começou a tocar. O pai ficou pasmo. Porém ele estudou. Foi para os Estados Unidos e aprendeu. Teve o bom senso de aproveitar o que ele tinha de dom e acrescentar aquilo que aprendeu.  Veja também o caso de Erroll Garner que era um gênio aos 10 anos. Isso é nato.

22) RM: Nos apresente a cena musical de São Paulo?

Wilson Curia: Em São Paulo, alguns dos espaços que indico são: Bourbon Street, Casa de Francisca, Sala São Paulo, Auditório Ibirapuera, Sescs, Bar Brahma, Bares da Vila Madalena, Estúdio Oca, de André Oliveira meu ex- aluno, que promove cursos para estudantes e músicos profissionais, apresentações musicais e filmes.

23) RM: Quais os novos pianistas de São Paulo indica como uma boa opção?

Wilson Curia: Indico: André Marques, Ricardo Herz.

24) RM: Qual a importância dos conhecimentos tecnológicos para o Tecladista?

Wilson Curia: Muito mais importante que o conhecimento tecnológico é o conhecimento musical.

25) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Wilson Curia: Existem regras para improvisação. A criatividade é inata, algumas pessoas têm outras não. A improvisação estudada deixa de ser improvisação e sim um reharmonização do que se esta tentando improvisar. E jamais toco uma composição de Jazz igual. Improvisar significa criar no momento da execução uma nova melodia baseada em uma melodia e harmonia já existentes ou apenas uma progressão de acordes. O músico é ao mesmo tempo, executante e compositor, refletindo sua personalidade, humor, estado de espírito, enfim seu “eu” interior.

26) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista?

Wilson Curia: Para o estudo de leitura à primeira vista indico a leitura de partituras de forma continua.

27) RM: Você vem de uma formação música erudita e tradicional. O que fez ser adepto da metodologia desenvolvida por Jack Lima, através do livro Dicionário de Ritmo e do software SMD (Sistema Musical Definitivo)? Quais os motivos que levam alguns músicos que tiveram uma formação tradicional a ser resistente a metodologia desenvolvida pelo Jack Lima? 

Wilson Curia: Jack Lima foi meu aluno. O livro dele Dicionário de Ritmo é um trabalho inédito no mundo. O método SMD veio para ficar. Eu endosso. Mas vai levar anos para os músicos aceitarem a mudança que ele propõe. Mas como todo estudo sério, vai sendo aceito ao longo dos anos.

28) RM: Você optou em seu professor e trabalhou desde sempre para montar a sua escola. Relate como você abriu a primeira escola e quantas escolas você abriu. Quais os prós e contras de se dedicar exclusivamente a profissão de professor?

Wilson Curia: A minha profissão só me deu alegrias e fiz grandes amizades, tanto no Brasil como no exterior tendo oportunidade de tocar com grandes músicos. Eu não faria outra coisa que não fosse a musica, tanto assim que larguei o curso de Direito da PUC. Na casa de meus pais, eu dava aulas particulares. Ficava na Rua Fabrício Vampré, 111 – Vila Mariana – SP. A rua era conhecida como Rua das Jabuticabeiras; pois cada casa tinha pelo menos um pé dessa fruta. No final da Rua tem uma árvore Paineira que aos oito anos de idade vi ser plantada e ela floresce até hoje (2014). Com o falecimento de meu pai aluguei uma casa para montar a escola e que tive como professores: Alais Dias, Cristina Carneiro, Darcy Khouri, Emilio Mendonça, Elizabeth Caproni, Hely-Ana Checchi, Mariza Murta, Regina Gomes de Almeida, Rosa Maria Soares de Almeida, Vinicius Cucolicchio, Denise M. Ogata, Enilce M. Oetterer, Denise Gaspar Reis. Todos os professores antes de darem aulas fazem um curso especifico da escola. Com o falecimento de minha mãe em 1995 mudei a escola para o endereço atual Rua Áurea, 251 – Vila Mariana – São Paulo – SP – CEP – 04015-070. (11) 5579-3073.

Até 1995 organizava apresentações dos meus alunos no final do ano, na Liga das Senhoras Católicas, Colégio Santo Estevão, Clube Pinheiros, Anhembi. A renda das apresentações era beneficente para entidades como São Judas Tadeu, Casa André Luiz, Obras Sociais das Antigas Alunas Dominicanas e Lar São Francisco. Os alunos eram acompanhados por músicos profissionais: Luiz Chaves (contrabaixo);Rubinho Barsotti (bateria), Guilherme Franco (bateria), Claudio Bertrami (contrabaixo), Renato Loyola (contrabaixo), Sergio Saia(bateria), Zeca Assumpção (contrabaixo), Jayme Pladevall (bateria), Sabá (contrabaixo), Douglas Oliveira (bateria).

29) RM: Cite alguns fatos memoráveis e tristes.

Wilson Curia: Os meus professores no Berklee College of Music – Boston – EUA foram Roberet Share e Jim Progris. Enviei muito alunos para lá com uma carta de recomendação. Um deles Eduardo Roberto dos Santos Ribeiro. Em uma quarta-feira de maio de 2003 pela manhã veio até a minha escola buscar a carta de recomendação, pois viajaria a noite. Estava todo empolgado. No sábado Lucy Curia atende ao telefone o irmão de Eduardo dizendo que ele havia falecido em um desastre de automóvel. Na sexta-feira Eduardo foi com os tios primos a igreja, oEduardo guiando um carro e o tio outro. Na volta as ruas estavam com neve o carro derrapou bateu no poste e ele morre na hora. Foi um choque para mim.

Recebi em 26 de agosto de 2014 um e-mail do pianista Gilson Schachnik professor na Berklee College of Music – Boston – EUA: “Caro Sr. Curia, meu nome é Gilson Schachnik e ouço seu nome há quase 30 anos. Primeiro quando fui aluno do Gogo e depois, quando estudei naBerklee com Ted Pease. Hoje em dia sou professor na Berklee no departamento de Ear Training, Ensemble e Harmony. Gostaria de parabeniza-lo pelos vídeos sobre harmonia e improvisação que assisti no youtube. Excelente na apresentação e organização do material e, sobre tudo, a clareza com que demonstra os tópicos. Abraço, Gilson.”

Quando estava estudando Direito na PUC fiz amizade com Kalil Filho que apresentava o jornal da TV Tupi – O Repórter Esso. Tornamos-nos grandes amigos.

O pianista da Baiuca, Pachá (Aljamar Ferreira da Silva) veio estudar comigo. Gostava muito dos meus pais. Às vezes aos sábados trazia pão italiano da Basilicata, pois sabia que gostávamos. Ele era muito divertido e sabia contar bem piadas.

Luiz Chaves quando estudava comigo, na casa dos meus pais, entrava sempre pela cozinha, na hora que minha mãe estava preparando o almoço. Dizia: Dona Carolina, eu posso pegar um pastel?  Pegava, ia para sala de aula e depois voltava e perguntava se podia pegar outro. Ela dizia: pode sim, meu filho.

Dick Farney quando estava em São Paulo, almoçava aos domingos na casa dos meus pais, com sua mulher e filho. Gostava muito de conversar com meu pai.

Nunca esqueci o meu professor e meu ídolo, Paul Urbach. Quando ele parou de lecionar eu uma vez por mês lhe fazia uma visita. Um pouco antes de ele falecer, a sua esposa Dona Hedy, me ligou que ele queria que eu fosse com Lucy e Thais Curia no seu apartamento.

Maria Helena Silveira, professora de música erudita, sempre que eu tinha alguma dúvida, lhe pedia seu conselho, até que um dia ela disse:Wilson, quando você precisar me consultar. Eu também me consultarei com você em relação a dúvidas sobre música popular.

Eu apresentava o Quando Disco é Cultura na Rádio Mulher, no qual levava um disco de um pianista para ser tocado e eu comentava.

Em 17 de fevereiro de 1982 o músico Thelonious Monk faleceu e fui chamado pela TV Bandeirantes para participar do Programa 90 Minutosfalando sobre ele. Foi feita uma entrevista comigo e finalizei tocando uma composição dele: Round Midnight.

Em entrevista ao Jornal do Santa Inês – dezembro de 1981 – ano 1  – número 1 – o pianista Gogo (Hilton Jorge Valente). Relatou que queria ser médico, mas começou a estudar piano aos nove anos de idade e se empolgou tanto que seguiu a carreira de músico e fez parte do conjunto de Dick Farney. Gogo lembrou que na sua formação, Wilson Curia, foi um tremendo professor de música, quem lhe mostrou o que é a música. Disse: que sempre foi bom de ouvido, mas o Curia foi quem lhe mostrou o que é a música.

Meu aluno Dr. Eulógio Emilio Martinez Filho (cardiologista) durante uma aula percebeu meu cansaço e me encaminhou para uma consulta com o Dr. Enio Buffolo. Fiz a cirurgia do coração no dia 12 de março de 2012 no Hospital das Clínicas. A minha assistente Denise Gaspar Reis deu algumas aulas para meus alunos enquanto eu me recuperava da cirurgia.

Luiz Mello é um excelente pianista que eu admiro muito. Sou seu fã. Uma vez pediu que o substituísse, pois tinha um compromisso. Com muita vergonha o substitui tocando com Luiz Chaves (contrabaixo) e Rubinho Barsotti (bateria).

30) RM: Quais os seus projetos futuros?

Wilson Curia: Os meus projetos são sempre lecionar, ouvir CDs, pois aprendo muito com os músicos. E sempre estudar, pois a música não é estática, é dinâmica. Assino revistas internacionais e fico atento às novidades.

31) RM: Valeu apena trocar a profissão de músico pela de advogado?

Wilson Curia: Cito um pensamento que sempre uso: “Music! What a splendid art, but what a sad profession” (Música! Que arte esplêndida, mas que profissão triste). Goerges Bizet. E complemento com: “A Música é a mais pura linguagem da alma. É a verdadeira expressão dos nossos sentimentos”. (A. D. Plácido).

*O Falecimento do mestre Wilson Curia foi no dia 04.03.2017.

 

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.