Vicente Barreto

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Vicente Barreto
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Vicente Barreto é o legítimo “tabaréu”, caipira do nordeste. Nascido em Salgadália distrito de Conceição do Coité, no interior da Bahia, mas criado no município de Serrinha, tornou-se autodidata na arte de tocar violão.

Parceiro de diversos artistas da MPB. Lançou 12 discos ao longo de sua carreira. Em 1973, o Quinteto Violado grava a sua primeira música “Baião do Quinji“ em parceria com Fábio Paes, no disco “Berra Boi”. Com 25 anos de idade foi apresentado a Vinicius de Moraes, com quem compôs a música “Eterno Retorno”, que foi gravada pela cantora Márcia no LP – Ronda de 1977, além do próprio Vicente no CD – Mão Direita em 1996.

Em 1979, já estabelecido em São Paulo, ele grava o seu primeiro LP, contando com a participação de Gonzaguinha na música “Abençoado e Santo”, em que Gonzaga Junior canta um lindo aboio.

No final da década de 70, Vicente Barreto começa a trabalhar com Tom Zé, apresentando-se no circuito universitário paulistano e participando dos arranjos de base dos discos “Estudando o Samba” e “Correio da Estação do Brás”, obra divulgada internacionalmente por David Byrne. Também compôs com Tom Zé, “Hein!”, “Esteticar” e “Vaia de Bêbado não Vale” que fariam parte dos discos “Com Defeito de Fabricação”, “Imprensa Cantada” e “No Jardim da Política”, gravados por Tom Zé.

Outra parceria de grande sucesso foi com Alceu Valença nas músicas “Morena Tropicana”, “Cabelo no Pente”, “Pelas Ruas que Andei”, “Tirana”, “Dia de Cão”, “Vou pra Campinas” e “Pirapora”, que projetaram a carreira dos dois artistas no cenário nacional e internacional. A partir daí Vicente Barreto passa a ser reconhecido como um grande compositor popular.

Diversas intérpretes da MPB também cantaram as músicas de Barreto como Elba Ramalho, Alaíde Costa, Mônica Salmaso e Vânia Abreu que gravaram “Na Volta que o Mundo Dá”, com letra de Paulo César Pinheiro, parceiro em diversas canções e um dos mais importantes da carreira de Vicente. As mais recentes interpretações das músicas de Paulinho e Vicente foram gravadas por: Maria Bethânia em “Capitão do Mato”, música gravada no CD – Brasileirinho e na voz da cantora Sônia Rosa que gravou a música inédita “Pássaro Solto” no CD – “Depois do nosso Tempo”, produzido em Tóquio em 2007.

Outro parceiro constante é Celso Viáfora, letrista e compositor paulistano com o qual compôs diversas músicas, em mais de dez anos de parceria. A mais conhecida é “A Cara do Brasil”, música gravada por Ney Matogrosso no CD – “Olhos de Farol”. Outros sucessos da dupla são: “Por um Fio” e “A Notícia”.

Outros parceiros importantes para a carreira de Vicente foram Chico César, Zeca Baleiro, Hermínio Bello de Carvalho, Jorge Melo, Belchior, Paulinho Pedra Azul, Antônio Carlos Costa Neto, Walter Queirós, entre outros.

Desde o CD – “Noites sem fim dos Forrós”, no ano de 2002, Vicente Barreto, com a inquietação que movimenta os grandes artistas, vem aprimorando suas composições e seu modo de cantar na procura de novos caminhos, mudanças nítidas que podem ser percebidas no CD – “Vicente – Vicente Barreto” de 2008. Novas parcerias também trouxeram uma cara nova ao disco. Zeh Rocha, compositor pernambucano, e parceiro de Vicente no início da carreira, retorna com quatro belas músicas. Carlos Rennó, letrista e jornalista paulistano dá um tom moderno e atual com “Esse Rio”. Gravado em São Paulo com arranjos de Paulo Calazans e produção musical e percussão de Marco Bosco, o CD – “Vicente” traz outra surpresa: os arranjos e a execução de violão de Rafa Barreto.

Após sete anos Vicente grava o seu 11º álbum de carreira. Instigado pela parceria com novos letristas da cena contemporânea paulistana: Manu Maltez, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos e seu filho Rafa Barreto apresenta neste álbum dez canções e um tema instrumental. Produzido por Marcelo Cabral, que toca baixo acústico e elétrico, além do próprio Vicente, voz e violão, a gravação do disco contou com as guitarras de Rodrigo Campos e a bateria de Serginho Machado, além da participação de Juçara Marçal e Thiago França. Este trabalho também foi lançado em vinil pelo selo GomaGringa.

Entrevista exclusiva com Vicente Barreto para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 29.01.2018:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Vicente Barreto: Nasci em Salgadália no distrito de Conceição do Coité – BA no dia 05 de abril de 1950.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Vicente Barreto: Quando ainda garoto, ao chegar à minha casa, eu ouvi o meu pai tocando Violão que ele gostava. Neste momento tive uma emoção diferente me sentindo paralisado pela música. A partir daí comecei a me envolver com a música, porém ainda sem perceber que ela se tornaria a minha futura profissão.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Vicente Barreto: Sou autodidata na música. E na escola cursei até o ensino fundamental.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Vicente Barreto: Sou influenciado por todos grandes artistas que tive oportunidade de ouvir ao longo de toda minha carreira musical, como Jackson do Pandeiro, João Gilberto, Tom Jobim, Edu Lobo, Gilberto Gil, Baden Powell e Luiz Gonzaga, entre outros. No presente, acredito que estes artistas consagrados ainda continuam influenciando todos os artistas.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Vicente Barreto: Comecei na cidade de Serrinha – BA tocando em conjunto de baile. Depois segui para o Rio de Janeiro em 1970 aonde gravei meu primeiro compacto na gravadora Phillipis acompanhado na gravação pelo Quinteto Violado.

06) RM: Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Vicente Barreto: Em 1980 – Assim tão Moço (Vinil) – Músicas de destaques foram: “Poeira nos Olhos” (parceria com João Garcia) que também foi gravada por Rosa Maria e “Abençoado e Santo” música em parceria com Gonzaguinha que também participou desta faixa cantando. Em 1981 – Vicente Barreto (Vinil) – Músicas de destaque foram: “Trem Bom” (parceria com Paulinho Pedra Azul) que eu gravei um clipe para o programa Fantástico da rede Globo. “Vou pra Campinas” e “Dia de Cão” são músicas em parceria com Alceu Valença. Em 1983 – Rasgando a Seda (Vinil). Músicas de destaque foram: “Batida de Trem” (parceria com Carlos Pita) que também foi gravada por Elba Ramalho. “Cabelo no Pente” e “Pelas ruas que Andei” em parceria com Alceu Valença que também foi gravada por ele. Em 1986 – Nação Brasileira (Vinil) – destaque para música: “Amor de Papel” (parceria com Raul Elwangler) e que fez parte da trilha sonora da novela “Sinhá Moça” da rede Globo. Em 1995 – Ano Bom (CD). Música de destaque foi: “Pastel de Feira”, uma parceria com Celso Viáfora. Em 1996 – Mão Direita (CD) – Foi o meu trabalho de maior destaque como compositor e violonista, sendo um marco na minha carreira. Neste CD destaco a música: “Na volta que o Mundo Dá” em parceria com Paulo César Pinheiro, que também foi gravada por Monica Salmaso e Vania Abreu. Em 1999 – “E a Turma chegando pra Dançar” (CD) – este CD teve a produção de Jair Oliveira e Daniel Carlos Magno. A música de destaque foi: “A cara do Brasil” em parceria com Celso Viáfora e também gravada por Ney Matogrosso. Em 2002 – “O Melhor de Vicente Barreto” (CD) – esta foi apenas uma coletânea da gravadora Dabliú com os discos gravados por lá. Em 2002 – “Noites sem fim dos Forrós” (CD) – este foi um CD dedicado ás minhas origens nordestinas em que procurei registrar o xote, que é um ritmo nordestino que sempre me influenciou. Em 2008 – “Vicente – Vicente Barreto” (CD) – este CD teve produção de Marco Bosco com arranjo de Paulo Calazans e participação de Rafa Barreto tocando violão de aço em todas as músicas. Este disco também foi lançado no Japão. Em 2015 – Cambaco – CD e Vinil. Este trabalho foi uma nova tomada de posição do ponto de vista artística, enxergando outra maneira de compor em relação aos demais discos. Esta mudança se deu particularmente pela participação de compositores da cena atual paulistana como Manu Maltez, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rafa Barreto e Rômulo Fróes. Este CD contou com a produção de Marcelo Cabral e tem a participação de Thiago França e Jussara Marçal. A música de destaque foi: “Cambaco” que dá nome ao disco e que também gerou um trabalho artístico de Manu Maltez com a criação de um curta metragem (animação e produção de Alexandre Gam) e um livro de mesmo nome “Cambaco”.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Vicente Barreto: Sou um compositor de música popular brasileira, não me prendendo a único estilo. Procuro fazer sempre novas composições aberto a novas possibilidades.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Vicente Barreto: Não tive nenhum estudo técnico.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Vicente Barreto: Isto é fundamental, pois você tendo cuidado com o uso da voz, seu potencial artístico não só é preservado como possibilita novas criações e desempenho cada vez melhor.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Vicente Barreto: Existem cantoras maravilhosas no Brasil e posso destacar algumas como: Elis Regina, Maria Betânia, Jussara Marçal, Ná Ozetti , etc

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Vicente Barreto: Não existe uma programação. Existe um trabalhar de forma contínua, em que busco permanentemente a melhoria das canções que já compus. E aí é quando surgem novos acordes e harmonias, que vão se tornar uma nova canção. Faço sempre a música (melodia) e em seguida busco identificar o parceiro letrista que eu sinto que terá afinidade com aquela melodia.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Vicente Barreto: Os principais são: Vinícius de Moraes, Gonzaguinha, Paulo César Pinheiro, Alceu Valença,Tom Zé, Celso Viáfora, Chico César, Zeca Baleiro, Hermínio Bello de Carvalho, Jorge Melo, Belchior, Paulinho Pedra Azul, Antônio Carlos Costa Neto, Walter Queirós.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Vicente Barreto: Muitos artistas já gravaram minhas composições como: Alceu Valença, Maria Betânia, Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Mônica Salmaso, Rosa Maria, Alaíde Costa, Chico César, Tom Zé, Vania Bastos, Vania Abreu, e muitos outros…

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Vicente Barreto: Ser independente permite ao artista criar sem preocupação de mercado e sem interferência no trabalho artístico. Em contra partida o artista não tem a estrutura de apoio e o investimento necessário para alavancar a carreia, como acontecia com a contratação pelas grandes gravadoras.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Vicente Barreto: Uma única: você se concentrar, ensaiar exaustivamente, e estar sempre preparado para a qualquer momento se apresentar bem para o público.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Vicente Barreto: Sou um artista na expressão da palavra. Não me envolvo diretamente em planos de carreira. Deixo isso a cargo de produtores que trabalham comigo. Como disse anteriormente, sou um grande empreendedor na busca de composições inéditas e que tragam algo novo em relação a tudo que já fiz.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Vicente Barreto: A internet hoje é sem dúvida o maior veículo de divulgação para um artista, o que possibilita a manutenção do artista independente. A internet permite ultrapassar fronteiras até então inimagináveis. Porém a internet também         trouxe o excesso de informações, a dificuldade de se identificar a verdadeira arte. E financeiramente, mudou a realidade do disco físico que era uma forma de venda direta ao público.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Vicente Barreto: A vantagem é que o artista pode ter mais liberdade para registrar a sua obra de forma independente, porém também corre um risco quanto a qualidade de gravações sem a devida estrutura.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Vicente Barreto: Procurando ser autêntico e preocupado com a qualidade do que faço, não me preocupando com modismos.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Vicente Barreto: De fato não me preocupo com este rótulo de “revelação”. Preocupo-me com o trabalho bonito, de conteúdo e que traga algo que possa incentivar novos caminhos. Acompanho o trabalho do artista que sempre se aprimora e não aqueles trabalhos imediatistas. Nem sempre o que se revela é melhor do aquele que ainda não conhecemos.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Vicente Barreto: Neste caso posso citar: João Gilberto, João Bosco, Alceu Valença, Gilberto Gil, Tom Zé, Caetano Veloso, Guinga.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Vicente Barreto: No começo da minha carreira numa apresentação no Recife – PE em um Festival ao ar livre, o público por não me conhecer e talvez ansiosos para ver artistas mais conhecidos, me vaiaram no início. Apesar disso eu consegui reverter esta situação quase de imediato, e através da minha performance as vaias foram paulatinamente transformando-se em aplausos.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Vicente Barreto: Fico mais feliz quando me apresento e percebo a reação de emoção nas pessoas. E fico triste quando vejo muita dificuldade em trabalhar aqui no país com o tipo de música que não só eu, mas como diversos artistas também fazem.

24) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Vicente Barreto: Moro em São Paulo há 46 anos e vejo hoje grandes artistas que acompanho o trabalho e tendo alguns como parceiros. Posso destacar o trabalho de Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Manu Maltez, Rômulo Fróes, Caê Holfsen, Rafa Barreto, Jussara Marçal, Caçapa, Ná Ozetti, Alessandra Leão, Celso Viáfora, o pessoal do Cinco a Seco. São Paulo hoje tem uma verdadeira ebulição de arte acontecendo.

25) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Vicente Barreto: Não, porque infelizmente sem este tipo de pagamento nenhuma música não toca; com honrosas exceções para Rádio UPS, Rádio Brasil Atual, Rádio Cultura.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Vicente Barreto: Se dedicar o tempo inteiro, trabalhar o tempo inteiro naquilo que ele se propõe a fazer. Não se preocupar com o sucesso, mas se preocupar em buscar a sonoridade que queira atingir.

27) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Vicente Barreto: Não tenho vivência em Festival de Música, pois participei muito pouco. Já comecei minha carreira gravando um disco.

28) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Vicente Barreto: Vejo muito pouca cobertura musical na grande mídia de hoje em dia para o tipo de trabalho que eu faço. Vejo apenas a mídia de sucessos de massa.

29) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical em São Paulo?

Vicente Barreto: Acho a coisa mais importante no momento, pois têm uma postura democrática, dando espaço para manifestação de qualquer tipo de arte.

30) RM: O circuito de Bar nos Bairros Vila Madalena, Vila Mariana, Pinheiros, Perdizes e adjacência ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Vicente Barreto: Acho que qualquer espaço é importante para os artistas se apresentarem.

31) RM: Quais os seus projetos futuros?

Vicente Barreto: Estou desenvolvendo um novo trabalho para um disco que pretendo gravar em 2018.

32) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Vicente Barreto: https://www.youtube.com/channel/UCUeyhk-WTOkAqCPwpO2pogQ | https://www.facebook.com/cambacovicentebarreto | Shows: Wania Barreto: (11) 98265 9915

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.