Vanu Rodrigues

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 A cantora, compositora e pesquisadora musical Vanu Rodrigues nasceu em Euclides da Cunha – Bahia.

Ela iniciou sua trajetória artística participando de corais, primeiro em Salvador-BA, e depois em São Paulo, na USP, por seis anos, sob a batuta do Maestro Alberto Cunha. Ali teve seu primeiro contato com o trabalho de voz, buscando o refinamento da técnica com diversos preparadores. Depois disso participou do grupo Experimental de Música do SESC Consolação, sob a coordenação de Ricardo Zhoyo, baixista alinhado à concepção musical de Hermeto Pascoal, que valoriza e estimula a diversidade e a criatividade. Essa experiência é considerada por ela essencial para o desenvolvimento de improvisos com a voz e para toda sua aprendizagem. “Na Orquestra Experimental de Zhoyo a voz cumpria o papel de um instrumento, por isso, aprendíamos a usar nossa voz a partir de variações de acordes e de rítmicas distintas, usando como referência gêneros musicais como Samba, Choro, Xote, e ritmos da cultura tradicional como Maracatu, Coco, Boi, Afoxé, entre outros. Ali conhecemos também instrumentos praticados nos grupos folclóricos das várias regiões do Brasil como a Alfaia, a caixa usada no Boi do Maranhão, entre outros. A Orquestra Experimental foi uma experiência riquíssima”. O rico processo de criação da orquestra com a voz resultou em um trabalho original, polissonoro, considerado pela artista essencial para conhecer os caminhos e o alcance da sua voz.

Como intérprete atuou ao lado de Isaías de Bandolim e de Fernanda Porto, no SESC Consolação ao lado do Grupo de Choro e Canção coordenado por Bob Souza. Sua carreira está fortemente marcada pela experiência na noite paulistana, tendo cantado em bares de Sampa, na Vila Madalena, no bairro do Bexiga, na Pompéia, bairros marcados pela criatividade e ligados à intensa produção cultural de uma das maiores metrópoles da América Latina.

Seu primeiro CD – “Baú de Quimeras” reflete o interesse da artista pela diversidade musical. Traz a música popular e seus mais expressivos ritmos como samba, forró, maracatu, coco.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Vanu Rodrigues para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 16.01.2013:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Vanu Rodrigues: Eu nasci no dia 16.05.1969 em Euclides da Cunha, sertão da Bahia, lugar que pode presentear as pessoas com estrelas, tão límpido é o céu à noite.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Vanu Rodrigues: É difícil identificar precisamente esse primeiro contato com a música, talvez as batidas do coração de minha mãe, quando eu ainda estava mergulhada em seu universo, mas a lembrança desse momento parece volátil. No fundo, essa pergunta remonta ao momento em que tivemos consciência da música em nossa vida pela primeira vez, porque estamos sempre em contato com ela no cotidiano, mas nem sempre nos damos contato desse processo. Vou pontuar os que foram mais marcantes e estão mais vivos em minha memória. Lembro-me de minha mãe, dona Lindaura, cantando sempre que estava envolvida nas tarefas de casa ou quando trabalhava em suas costuras, e associo essa imagem à da cigarra – o som de sua voz se imiscuía ao da máquina de costura. Essa lembrança é preciosa para mim! É uma canção só minha e dela. Em minha cidade, tinha também seu Edmundo, um homem muito carismático, dono de uma loja de presentes finos e que era autodidata na música, dominando diferentes instrumentos de corda como violão, bandolim e cavaquinho. Aos domingos executava peças de chorinho, veiculando na rádio difusora de Euclides da Cunha. Sempre ficávamos atentos e esperávamos ansiosamente por esse momento. Grande parte da família dele era muito musical e filhos e sobrinhos tinham vocação para instrumentos de corda, o que lhe permitia fazer uma espécie de clube da música em Euclides da Cunha. Desde muito pequena o debate sobre a música brasileira era intenso em minha casa e meu tio Salomão, que viveu conosco como irmão, foi uma grande influência na formação do meu gosto musical. Entre os medalhões da música, Elis Regina foi uma importante referência pra mim e antes mesmo da adolescência eu me propunha a interpretar músicas cantadas por ela, sempre que tinha oportunidade. Mexia com minha alma! Outro contato que destaco foi o canto coral em que estive durante sete anos de minha vida, primeiro em Salvador-BA e depois em São Paulo. Por tudo isso, eu considero difícil falar de primeiro contato, mas é possível falar de momentos que marcaram minha interface com a música e dos quais tenho consciência.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Vanu Rodrigues: Sou Cientista Social, mestre em Sociologia e atualmente estou na USP, onde pesquiso, em nível de doutorado, a formação da identidade brasileira por meio da música. Minha formação musical se iniciou por meio do canto coral, primeiro na Bahia e depois em São Paulo. No coral da USP, além de aulas de canto, tive aula de percepção musical.  Depois disso participei da Orquestra Experimental coordenada por Ricardo Zhoyo, da qual falei no início dessa entrevista e que considero muito importante em minha formação artística.  Paralelamente a esse cantar “Hermetista”, passei a atuar na noite paulistana e em rodas de samba e choro, experiência que ajudou a formar repertório e influenciou minha identidade de cantora. Quanto ao aperfeiçoamento da voz, tive professoras de canto no coral da USP e depois fui aluna na escola de Regina Machado – Canto do Brasil, de Fabíola Medeiros e de Sandra Espirez, que também dá aula na USP.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Vanu Rodrigues: Quando reflito sobre as influências que me marcaram em termos musicais o que me vem à cabeça é um mosaico ou uma colcha de retalhos ou ainda um caldo cultural feito de diversas especiarias. Sons, imagens, aromas e sabores se combinam. Sou muito ligada à produção cultural brasileira e não é à toa que estou estudando identidade musical de nosso país. A música produzida no “Brasil de Norte a Sul” ecoa forte em mim. Cresci vendo e ouvindo sons bem diversos, que abarcam desde o folclore, passando por ritmos como coco, afoxé, maracatu, embolada, carimbó, entre outros. A própria literatura de cordel, a execução das bandas de pífanos, música religiosa – romarias, rezas entoadas em latim, procissões -. Mais do que som, tudo isso é um cenário ou poderia compor a trilha sonora de minha vida até a pré-adolescência, quando ouvi abundantemente Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elomar, Xangai, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ednardo, João Bosco, Milton Nascimento, Alceu Valença, Trio Armorial, Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, Moraes Moreira, Hermeto Paschoal, Rita Leem, Amelinha. Cada vestígio de som que descubro faz crescer ainda mais minha admiração pela riqueza de nossa música. Da adolescência em diante, passei a ter mais contato com a música internacional, no Jazz e Blues, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Areta Franklin, foram muito importantes, no rock e pop – The Beatles, John Lennon, Janis Joplin, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen/Fred Mercury.

05) RM: Quando, como e onde  você começou a sua carreira musical?

Vanu Rodrigues: O início de minha carreira está ligado ao grupo de música experimental do SESC Consolação, sob a batuta de Ricardo Zohyo. Com ele subi ao palco do SESC pela primeira vez, isso deve ter sido em 2002 /2003. A noite paulistana foi uma grande escola para eu me exercitar no palco. Produzi shows em homenagem a Dorival Caymmi, a Eduardo Gudin, neste último dividindo o palco com Shirley Espíndola. A experiência de produção também é muito importante porque ela exige que se olhe o todo. Você é obrigada a ter clareza sobre o conceito artístico que está por trás do trabalho, precisa escolher repertório, reunir músicos, ensaiar, saber com quais recursos você conta e é fundamental que aprenda a comunicar o trabalho artístico que desenvolveu. Estar no palco é expressão primeira desta comunicação, fazer com que saibam sobre o espetáculo, sobre sua arte é a outra parte. “O show não pode parar”!

06) RM: Fale do seu primeiro CD? (Quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical do CD? E quais as músicas que se destacaram? 

Vanu Rodrigues: Meu primeiro CD – “Baú de Quimeras”, e estamos no ano de seu lançamento – 2012, um marco para mim. É interessantíssimo perceber como a biografia de um artista vai se inscrevendo de maneira gradual no desenvolvimento de sua obra, é o que ocorre com a feitura de um CD. São seus desejos, sonhos, sua personalidade musical, sua maneira de pensar, sentir, perceber, agir, as principais influências sonoras que teve. Está tudo lá, sem que, ao longo do processo, você se dê conta que tudo isso estava acontecendo, e eis que ele nasce!  Não gostaria de enquadrar minha música em um perfil, prefiro estar envolvida no “fazer”, na “realização do trabalho”, faço música brasileira, e por isso passeio por vários gêneros musicais. A faixa título “Baú de Quimeras” que tematiza o papel dos sonhos em nossa vida “de carne e osso” é sempre muito bem recebida e é bastante destacada nos lugares onde tocamos, assim como as músicas “Beijo”, que é jocosa, tem um tom de descontração e brincadeira, “Maria Moderna”, que fala das novas formas de amar, do novo papel da mulher e da internet e “Meu analista”, que aborda o fim de um amor. Meu primeiro CD tem a direção musical de Edu Malta e a maior parte dos arranjos leva sua assinatura. Rodolfo Stocco, que escreveu os arranjos de duas músicas e a produção musical é minha e do Edu Malta. Os músicos que fizeram parte desta produção foram: Alessandro Ribeiro, André Gomes, Angela Coltri, Claudio Oliveira, Franklin, Edu Camargo, Edu Malta, Edu Salmaso, Franco, Humberto Ziegler, Lael Medina, Leo Costa, Lucas Silva, Marcílio Zarpelão, Rodolfo Stocco e Thadeu Romano.

07) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Vanu Rodrigues: Em termos de desenvolvimento criativo o artista independente tem total liberdade de escolha, atua da maneira que quer. Toda a sua obra está em suas mãos e depende inteiramente da energia que ele tem e se dispõe a doar ao seu projeto, de sua capacidade de articular pessoas em situações que viabilizem a realização de seu trabalho, de se comunicar com seu público, de entrar em contato com a mídia, de se fazer conhecer. Ou seja, apesar de toda essa liberdade, corre-se o risco de ser invisível, o que significa não existir para o público e para o mercado. Se sua música não chega ao seu público, o seu trabalho ainda não aconteceu. Além de compor, criar, buscar inspiração para os arranjos, escolher repertório, o artista independente tem de saber usar as novas mídias e os mecanismos de divulgação de sua obra e deixa de se envolver na atividade principal de compor e cantar para executar outros trabalhos. O futuro já chegou, não sabemos quais são as formas mais eficientes para fazer nossa música tornar-se conhecida – streaming gratuito da música, download gratuito de parte das faixas, sem pagamento mínimo ou download gratuito de algumas são algumas possibilidades. No meio disso tudo há erros e acertos e, algumas vezes, acertos de bandas que estão se aventurando em um trabalho artístico, fazendo sua obra aparecer. É preciso atentar para o seguinte, se formos contabilizar diariamente centenas de milhares de trabalhos são lançados, mas dessa enxurrada de artistas novos, quantos de fato conseguem ganhar visibilidade? O número é restrito. Como disse, atualmente há ferramentas muito diferentes do LP e do CD para tornar um trabalho artístico comunicável. Eu mesma estou começando um trabalho de disponibilização de minhas músicas em ambientes corporativos, por meio de uma empresa que se chama Musicdelivery. Eles fazem uma seleção de músicas do CD e tocam nos ambientes, pagando para os compositores, intérpretes, músicos e produtores pela música tocada. A proporção para cada um dos que participaram da produção é diferenciada. De todo modo, vemos atualmente artistas disponibilizando seu trabalho integralmente na internet, mas o impacto ou o resultado não igual para os vários artistas. Uma coisa é o Radiohead, banda conhecida e que já tem público cativo fazer isso, outra completamente diferente é um artista desconhecido fazê-lo. O grande desafio é tornar isso um acontecimento, fazer as pessoas saberem que vale a pena ouvir, partilhar. Já se percebe que o cantor não vive mais de CD, salvo algumas exceções, então quem está começando tem de construir um diálogo próprio com seu público e criar os meios ou usar os meios adequados para isso. No fundo são formas de descoberta próprias do artista, é o que podemos chamar de experimentação.

08) RM: Como você define o seu estilo musical?

Vanu Rodrigues: Posso afirmar que uma das características que se destacam em minha maneira de ser é a inquietude, a curiosidade. E isso, resulta em uma personalidade “camaleônica”, que aprecia as mudanças, o que também está em meu perfil artístico. Conheço o samba como linguagem musical, muito do que canto na noite é samba, eu tenho muita afinidade com os demais ritmos do nordeste, tive banda com trabalho pop, e essas experiências podem se combinar. O meu primeiro CD é um reflexo desta maneira de pensar a música. Lá há diversos gêneros musicais. Xote, samba, maracatu, afoxé aparece nos arranjos. Miscelânea de sons.

09) RM: Como você se define como cantora/intérprete?

Vanu Rodrigues: Sou uma cantora eclética, gosto de me experimentar em diferentes situações, posso cantar sambas, soul, pop, música de seresta, choro, forró, rock. Sinto-me a vontade com diferentes gêneros musicais e acho importantíssimo que um artista busque a diversidade, se exercite, quero aprender cada vez mais. Participar de novas experiências musicais é um desafio que valorizo. A atuação no palco é meu maior fascínio, sinto-me em casa e gosto de estabelecer diálogo com o público, gosto de sentir aquele frisson, uma energia que percorre o corpo inteiro, sabe como é?

10) RM: Você estudou técnica vocal?

Vanu Rodrigues: Sim, estudei com diversos professores de canto, entre os quais BaldurFabíola Medeiros, na Escola Canto do Brasil, de Regina Machado e com Sandra Espirez.

11) RM: Quais as cantoras que você admira?

Vanu Rodrigues: Essa é sempre uma pergunta difícil porque há muitas cantoras que valorizo e corre-se o risco de esquecer alguém importante, posso afirmar que cada uma das que vou citar merecia um texto a altura de seu talento, mas se fosse assim, iria me alongar demais. Elizete Cardoso, Elis Regina, Clara Nunes, Maria Bethânia, Marisa Monte, Rosa Passos, Rita Lee, Gal Costa, Cássia Eller, Rita Ribeiro, Carmem Miranda, Marisa Monte, Ella Fitzgerald, Billye Hollyday, e mais recentes, Corine Bailey Rae, Mayra Andrade, Amy Winehouse, Adele, Vanessa da Mata, Roberta Sá são algumas das que mais gosto. Mas é preciso destacar que você não ouve todas ao mesmo tempo. Há fases que uma voz produz mais eco, está mais presente em sua vida, talvez porque aquela sonoridade é a que chega ao seu coração de maneira mais profunda e verdadeira naquele momento. Por isso, agora mesmo posso não ter citado alguém que em outro período foi muito importante.

12) RM: Você compõe? Quem são seus parceiros musicais? E os compositores (as) que você mais grava?

Vanu Rodrigues – Nesse momento, o lado intérprete é mais atuante que o de compositora, mas tenho algumas composições em parceria com Élio CamalleBráu MendonçaMárcio Policastro.  A maior parte das músicas é de minha autoria, mas em meu CD há composição de Noel RosaIsmael Silva e Francisco Alves.

13) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Vanu Rodrigues: Gilberto Gil, por sua versatilidade, inventividade e criatividade tanto quando se trata da música quanto das letras, ele é incrivelmente talentoso. Chico Buarque, por sua erudição, ecletismo e capacidade de surpreender tanto na poesia quanto na música, há muita verdade na emoção que passa através da música e considero que sua contribuição para a língua portuguesa é impagável. Paulinho da Viola – que delicadeza magistral tem os seus sambas! Voz firme e doce, presença e elegância irretocáveis no palco, com poucos gestos, versos que traduzem os acontecimentos cotidianos em crônicas. A tradição sempre se renova em seu trabalho. Tom Jobim – A beleza de suas melodias e a capacidade de produzir harmonias perfeitas em sons orquestrais que estão na base de sua obra. João Bosco, sua personalidade musical pode nos fazer pensar em um gênero “Bosconiano”, criatividade em carne e osso. João Gilberto, pelo rigor de seu trabalho e cuidado estético, que resultam em uma sonoridade cristalina. Caetano Veloso, por sua ousadia, capacidade de se reinventar sempre, ele é expressão da arte em seu sentido pleno, é “impávido que nem Muhammad Ali, a paleta de sons que experimenta é bastante variada. Essa lista é interminável! Lenine– Viva Pernambuco! Quantos ritmos renasceram pelas mãos desse grande artista! Maria Bethânia – quantos personagens estão encarnados em seu canto, uma dramaticidade emocional sem par!Diva, viva, Diva!

 14) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Vanu Rodrigues: De tudo que já fiz cantar é o meio que encontrei para me sentir plena. Nada se compara a esse ato, não se é um só quando se canta! As emoções que experimentamos ao cantar revelam matizes variados, personagens que nos surpreendem. Tudo isso se converte em pura felicidade, sobretudo quando estamos no palco com músicos em profunda comunicação com o público. Pura magia! A carreira musical é tortuosa e nessa trajetória, encontramos muitos talentos sem a visibilidade e o reconhecimento que merecem. E isso causa muita tristeza.

 15) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Vanu Rodrigues: Eu ia me apresentar no SESC Consolação com um grupo, havíamos feito à passagem de som, tava tudo certo. Era minha primeira vez em um palco daquela dimensão. Apagaram as luzes do palco e da plateia, para nos prepararmos para a grande apresentação. Estávamos todos ansiosos! Dali a alguns minutos o público entraria para ver o espetáculo. Não me recordo por qual razão, eu tive de voltar para pegar algo que eu deixara na plateia – creio que era a partitura ou letra de uma das músicas que eu ia cantar -, no momento em que eu esperava os meus colegas passarem seus números. Então resolvi recuperar o que perdi. Saindo do camarim para encontrar a partitura, fiz a travessia inteiramente no escuro e quando imaginei que estava pisando no degrau da escada para ter acesso à plateia, onde supunha ter esquecido a peça, pisei no ar e despenquei do palco. Por sorte a altura era curta, mas fiz uma torção na perna que me deixou uns quinze minutos sem sentir essa parte do corpo e não conseguia me aprumar no chão, senti vertigem e uma dor agudíssima. Eram sambas, tinha ensaiado todas as peças cantando e dançando, com desenvoltura no palco, fazendo marcação e tudo mais e aquela dor que eu estava sentindo mal me deixava pisar no chão, que dirá dançar. Meu diretor, que era o Bob Souza, perguntou-me se eu preferia desistir de me apresentar, eu disse: _ Não, faço questão de apresentar os números que ensaiei! Nem imaginava o que ia acontecer, estava sem condições, mal pisava no chão, mas resisti à dor e me apresentei daquela maneira, tentando transmitir para o público a empolgação, alegria e até arrisquei um voleio. Foi difícil, mas deu certo! Acabei a noite no hospital e a perna ficou com uma mancha enorme de sangue por uns três meses. A arte sempre nos prega peças e é preciso saber enfrentá-las! Drama tragicômico.

16) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora.

Vanu Rodrigues: São Paulo é um caldeirão cultural, recebe arte de todo tipo e artistas de origens diversas. Muita gente vem pra cá lutar por espaço, isso nos faz perceber como o Brasil é “muitos brasis”, a riqueza de nossa arte. Mas há também artistas internacionais ligados a gêneros diferentes como o Jazz, o pop, o Soul, Rock, entre outros. Circulo em muitos lugares, mas não frequento todos os pontos culturais, certamente não sei de tudo que tá acontecendo e muita coisa vai escapar. Entre os artistas com carreira consolidadas, posso falar de Gilberto Gil,Eduardo GudinNá e Dante Ozzetti, Titãs, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Virgínia Rosa, José Miguel Wisnik, Vander Lee, Rita Ribeiro, Marisa Monte, Chico Buarque, Gal Costa, O Rappa, Maria Rita, Paulinho da Viola, Lulu Santos… Cantores mais recentes: Marina de la Riva, Fabiana Cozza, Jussara Freire, Céu, Tatiana Parra, Verônica Ferriani, Dona Inah, Marcelo Pretto, Tulipa Ruiz, Izabel Padovani, Mateus Sartori, João Macacão, João Borba, Juçara Marçal, Bruna Caram, Andréia Dias, Adriana Moreira, Giana Viscardi, Lia Cordoni, Luciana Alves, Juliana Amaral, Bia Goes, Cris Aflalo, Karina Ninni, Karine Telles, Barão do Pandeiro, Celso Sim, Mariana Aydar, Ana Cañas, Juliana Kehl. Compositores (canções): Cacá Machado, Chico Saraiva, Rodrigo Campos, Gui Amabis, Dani Black, Bluebell, Chico Pinheiro, Karina Buhr, Kiko Dinucci, Marcelo Jeneci, Rodrigo Campos, Fabio Cadore, Regina Machado, Tata Fernandes, Danilo Moraes, Ricardo Teté, Anelis Assumpção, Iara Rennó, Caê Rolfsen… Grupos/bandas: Clube do Balanço, Nô Stopa, Bixiga 70, Choro Rasgado, A Banda Mais Bonita da Cidade, Afro Electro, Nó em pingo d´água, Ó do Forró, Sandália de Prata, Projeto Vinagrete, André Marques e Vintena Brasileira, Cochichando, Sambanzo, A Barca, Pitanga em pé de amora, Vento em Madeira, Mawaca, Quinteto em Branco e Preto, Grupo Quatro a Zero, Banda Glória, Barbatuques… Compositores (música instrumental): Danilo Brito, Ricardo Herz, Zé Barbeiro, Alessandro Penezzi & Alexandre Ribeiro, Thiago Espírito Santo, Movimento Elefantes, Comboio de Cordas, Projeto Coisa Fina, Arismar do Espírito Santo.  Casas descoladas: Ao Vivo Music, Café Paon, Grazie a Dio, Casa de Francisca, Casa do Núcleo, Stúdio SP, Centro Cultural Rio Verde, Sala Crisantempo, Jazz nos Fundos. Teatros: SESCs, Tom Jazz, Via Funchal, Teatro Alpha, Credicard Hall, HSBC.

17) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Vanu Rodrigues: Chico Buarque sempre!, Lenine – O dia em que faremos contato, Rita Ribeiro, Roberta Sá, Tulipa Ruiz, Céu, Karnak, Mestre Ambrósio, Banda Glória, Mayra Andrade (adoro ouvi-la), Fela Kuti, Caetano Veloso, Salif Keita – o continente africano é imenso em extensão, diversidade étnica e cultural. Esses dois caras são incríveis! Gal a Todo Vapor – é um dos CDs preferidos, Expresso 222…  

18) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?  

Vanu Rodrigues: Sim, minha música já toca em rádio e há registros disso. Quero que se amplie. Tem também entrevistas que já circularam por diferentes rádios do país. Programadores e jornalistas com trabalhos mais comprometidos com a cultura. Sei que minha arte pode chegar a mais pessoas e esse é meu desejo, é isso que quero. O que posso fazer para ter realização nesse projeto é me dedicar, me reinventar.

19) RM: Fale de a sua relação pessoal e profissional com Shirley Espindola?

Vanu Rodrigues: Eu fui apresentada à Shirley Espíndola pela minha irmã, que é amiga da irmã dela em Salvador. Logo que nos conhecemos tivemos a ideia de fazer um trabalho em conjunto. Eu tive a ideia de produzir um show em homenagem a Eduardo Gudin, um músico excelente, que eu adoro, e que é referência para muita gente aqui em São Paulo. Fizemos esse show aqui em Sampa, no bairro Bexiga (Bela Vista) e no bairro Vila Madalena, foi muito bom, uma experiência que me fez entender a dimensão do que é produzir um show e, ao mesmo tempo participar dele. Que loucura!

20) RM: Quais os prós e contras de desenvolver a sua carreira musical em São Paulo?

Vanu Rodrigues: Como o meu trabalho artístico foi desenvolvido aqui Sampa, não sei como seria em outros lugares que funcionam como centros repercutem a cultura brasileira como Salvador ou Rio de Janeiro. Cada região tem seus códigos e uma maneira muito própria de desenvolver a programação e criar espaços pra arte. São Paulo é um polo gigantesco e aqui conhecemos músicos de todas as regiões do Brasil e diferentes partes do mundo. Isso é muito estimulante, pode proporcionar a troca entre os cantores e compositores. Por outro lado, essa diversidade torna mais desafiante para o artista encontrar seu espaço.

21) RM: Qual a importância do circuito de shows pelos SESCs?

Vanu Rodrigues: O SESC é fundamental para dar vitalidade à carreira de quase todos os músicos brasileiros que passam por São Paulo. A programação cultural organizada por essa instituição é intensa e diversificada e é um dos pilares da arte que é produzida ou circula em todo o Estado. Não sei se em outros estados tem a mesma força. É um lugar frequentado praticamente por todas as classes sociais, busca a excelência dos espetáculos e além de shows, oferece um conjunto completo de lazer e entretenimento, proporcionando a participação de todos os grupos sociais na cultura. É uma das instituições que faz, com maestria, a difusão da cultura brasileira. Acho maravilhoso!

22) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?  

Vanu Rodrigues: É importante ter clareza do que se quer. E ser persistente e capaz de se reinventar a todo o momento, descobrir brechas, encontrar atalhos para seguir em frente. A arte é desafiante! Os percalços e as delícias do trabalho artístico fazem parte da trajetória e ajudam a construir uma carreira sólida. É preciso ter história pra contar. De todas as artes a música é a que conversa com todos os seres. Entra sem pedir licença, chega mais rápida ao coração e à alma.

23) RM: Quais os seus projetos futuros?

Vanu Rodrigues: Quero que o meu trabalho circule por todo o Brasil e vou ficar ainda mais feliz se for também para o exterior, tenho interesse em participar de novas experiências artísticas, compor mais, fazer o segundo CD. Conhecer novos lugares com meu canto.

 24) RM: Quais os seus contatos para show e seus fãs?

Vanu Rodrigues: www.myspace.com/vanurodriguessoul | Vanu Rodrigues / Facebook

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=S39bAv-1fV8

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.