Valdir Dafonseca

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Valdir Dafonseca
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O cantor, compositor e violonista paulistano Valdir Dafonseca (falecido em 21 de novembro 2016), batizado como Waldir Wanderlei da Fonseca, começou a carreira nos anos 70, participando de shows e Festivais de Música.

Na adolescência, influenciado pelos novos sons da Bossa Nova, The Beatles, Jorge Bem Jor e graças à ajuda do pai, cantor e compositor Thales da Fonseca, compôs as primeiras canções, passando a estudar violão. Valdir cursou Letras (Português-Inglês) nas Faculdades Farias BritoGuarulhos – SP e Oswaldo CruzSão Paulo entre 1970 e 1973 e se aposentou como professor de Inglês nos anos 90.

Em 1971, o autor de “Outro amor” e “Lindo, lindo, lindo”, entre outros sucessos, destacou-se no IV Festival Universitário de Música Popular Brasileira, da extinta TV Tupi: “Prá Inglês Ver” que foi a terceira música colocada. Na mesma época, integrava a ala dos compositores da Escola de Samba Mocidade Camisa Verde e Branco, tendo sido, também, um dos fundadores da Escola de Samba Tom Maior, em 1973.

Em 1973 os grupos Chic Samba-Show e Som Brasil Exportação seriam os primeiros a gravar músicas de Valdir Dafonseca, que enriqueceria a cultura musical percorrendo o Nordeste – de Recife – PE a São Luís – MA. Absorveu traços do folclore e da musicalidade típica da região. De volta a São Paulo, afasta-se do magistério e se lança na carreira de músico. Violão e voz, ganha a noite paulistana, apresentando-se em casas como “Bar Sem Nome”, “Chamego”, “Bar do Amorim” e “Patropi”, entre outros. Em 1975, integrante do “Grupo Raízes”, embarca na música folclórica das mais diversas regiões do País.

Em 1991 a sequela do AVC calou o virtuoso e sentimental Violão de quem, tocando sozinho, nos bailes, não deixava quem quer que fosse sentir falta da orquestra. Mas os amantes da boa música ganharam um cantor que aprendeu a bem colocar a própria voz e, acima de tudo, um Tecladista que, autodidata, desenvolveu a técnica que lhe permite tocar só com a mão direita, o que muita gente jamais conseguirá com as duas mãos. O bom-humor é a sua marca, o que faz sempre começar os shows na noite de São Paulo com uma piada sobre si mesmo. Diz ele: “Vocês já ouviram Teclado a quatro e oito mãos. Mas jamais a cinco dedos”.

Ele continua aos 67 anos produtivo e ativo no ato de compor e cantar. Segue abaixo entrevista exclusiva de Valdir Dafonseca para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01 dezembro de 2014:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Valdir Dafonseca: Nasci em São Paulo – SP no dia 21/11/1947. Fui batizado como Waldir Wanderlei da Fonseca.  Em 2003, após uma consulta numerológica realizada por uma jovem cantora Camila Boer, filha da minha amiga cantora Elizabeth Viana, rainha do Samba – rock, que fiquei sabendo que o nome Valdir da Fonseca com “V” daria o número 8. Que é o número do dinheiro. Como Waldir com “W”, com várias músicas gravadas, eu nunca vi a cor do dinheiro. Resolvi mudar o nome artístico para Valdir Dafonseca, optei grafar Dafonseca em uma única palavra, eliminando uma possível barreira do “Da”.

02) RM: Conte como foi o seu primeiro contato com a música?

Valdir Dafonseca: Meu pai, Thales da Fonseca, era músico diletante (cantor e compositor) e foi com ele que, na adolescência, comecei a aprender os primeiros acordes no Violão. E fui desenvolvendo, depois, com método prático emprestado por um colega de colégio e, após a maioridade (18 anos) e, já fazendo cursinho pré-vestibular, comecei a sair à noite e, frequentando barzinhos noturnos, fui conhecendo muitos bons músicos e aprendendo mais e mais…

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Valdir Dafonseca: Curso básico de Inglês no Instituto Roosevelt-1969 – Cursei 6 semestres do curso de Língua e literatura Inglesas na Faculdade Oswaldo Cruz, entre 1971, até, 1973.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Valdir Dafonseca: Meu pai Thales da Fonseca era cantor (seresteiro) e compositor amador (não tinha músicas gravadas) e eu, como fui adolescente nos anos 60 e  músico da noite, desde o final da década de 60, fui muito influenciado pelos sons da Bossa Nova, The Beatles e dos grandes Festivais da TV Record. A influência da obra de Chico Buarque foi a que considero como estímulo mais marcante no meu trabalho autoral.

05) RM: Quando, como e onde  você começou a sua carreira musical?

Valdir Dafonseca: Nunca tive coragem de viver de música, mas, eu comecei minha vida profissional na música aos 19 anos de idade, em 1966, tocava guitarra base em um conjunto de Yê, Yê, Yê. O conjunto era formado por cinco componentes, com apenas um músico que não era negro e tocávamos semanalmente, principalmente, em bailes de clubes da comunidade negra. Um desses clubes era chamado Coimbra, um time de futebol de várzea que tinha sua sede na Av. São João, próximo à Av. Duque de Caxias, onde, além, de outras atividades, aconteciam, também, bailes matinais aos domingos, das 10h às 14h (manhãs dançantes!). Eu, já me apresentava, também, em alguns Barzinhos do centro da cidade, como Quitanda, Bar Sem Nome, Chamego, Silvano’s e outros, mas, só comecei a contar, mesmo, (colecionar recortes de jornais, etc.), a partir de 1971, quando participei do IV Festival Universitário da TV Tupi-SP e fui classificado em terceiro lugar com minha música “Pra inglês ver”. Foi aí, que, ainda, estudante e, já, trabalhando como professor de Inglês, eu comecei a “batalhar”, procurar gravadoras, levando fitas cassete para mostrar minhas músicas para outros intérpretes. Eu tive meus dois primeiros sambas gravados em 1973 em, dois compactos simples: “É sexta-feira” (Waldir W. da Fonseca), lado B do samba-enredo da Camisa Verde e Branco; “Pra que chorar”, “Foi Opinião”, (Waldir W. da Fonseca/ José Luiz Manaia), lado B do samba-enredo da Vai Vai, ambos, pelo selo Sinter (Phillips), com os grupos Chic Samba Show e Sambrasil Exportação, respectivamente.

Em 1973 fiz uma viagem (de carona!) pelo nordeste, desde Recife – PE, até São Luís – MA, onde pude conhecer vários compositores e manifestações folclóricas locais, principalmente, de Fortaleza – CE e São Luís, onde fiquei mais tempo. De volta a São Paulo, me afastei do trabalho com o magistério da língua inglesa e fui para noite com meu Violão. Nesta época conheci o “Grupo Raízes” que trabalhava um repertório autoral de rock rural voltado para o folclore de Minas Gerais e do Ceará.

Em 1975, os líderes do “Grupo Raízes”, o casal Ângela Linhares, uma cantora e flautista cearense (flauta transversa e vocal) e seu marido, o mineiro Charles Boa Vista (vocal e percussão) mineiro, me convidaram para cantar, tocar violão e viola caipira no grupo, do qual, já fazia parte um amigo; o violonista e arranjador Odilon Escobar Filho (saudosa memória). Trabalhei com o grupo durante um ano inteiro, compus duas músicas com letra do líder do grupo, Charles Boa Vista, fazendo shows aqui, na capital de São Paulo, no interior do Estado e norte do Paraná. Depois de um ano com o “Grupo Raízes”, achei que podia encarar uma carreira solo, saí do grupo e comecei a me apresentar sozinho, voz e violão em barzinhos,  shows estudantis, em sindicatos, nas universidades, teatros alternativos, etc. Em 1976 conheci meu parceiro carioca Heitor dos Prazeres que, na época, morava em São Paulo e, logo, começamos a compor e apresentar nosso show “Defesa”, além de nossas músicas, apresentávamos, também as dos nossos pais e outros autores, nos mesmos locais onde eu, já me apresentara sozinho e, também, em algumas unidades do Sesc da capital e do interior. Em 1988, eu recebi e aceitei o convite para uma temporada de seis meses em Toronto – Canadá, no Niagara Cafe. Um show produzido por mim, cantando e me acompanhando ao Violão, Cavaquinho, Bandola e contando com a excelente participação de Bruce Jones (guitarrista e band leader canadense), que, há anos vive no Canadá, mas, desde criança, foi criado, aqui, no Brasil, em Santos-SP. De volta, em 1989, participei de um show com Eduardo Gudin, Zé Ketty e Elton Medeiros, no Teatro Fernando Costa, e em seguida, optei afastar-me dos shows e das casas noturnas para me dedicar ao estudo e magistério da língua inglesa.

06) RM: Quantos discos lançados e quais os anos de lançamento(quais os músicos que participaram das gravações)? Qual o perfil musical de cada álbum? E quais as músicas que você acha que caíram no gosto do seu público?

Valdir Dafonseca: Gravei dois LPs solos; um compacto simples e  dois CDs.

Em 1979 lancei o primeiro disco, LP – Waldir da Fonseca, gravadora Continental – SP, com 12 músicas de estilo como Samba, Samba-canção, Bossa Nova, Choro, Baião, Guarânia.  Sendo nove delas de minha autoria e as outras três, “Arrependido” (Ismael Silva/ Francisco Alves/Newton Bastos), “Amor de Hotel” (Eduardo Gudin/ Paulo Cesar Pinheiro) e “A televisão” (Chico Buarque), teve como produtor Waldyr Santos (saudosa memória), arranjadores: José Briamonte, Messias Santos, Jr. (saudosa memória), Eduardo Gudin e Otávio Basso. E participações especiais de Amilson Godoy & Bossa Jazz trio, o flautista Carlos Poyares (saudosa memória), Evandro e seu Regional, Cascatinha e InhanaOswaldinho do Acordeon.

Em 1984 lancei o segundo disco: Compacto simples – single – “Cuidado menino” (Tião Pelado/ Waldir W. da Fonseca), que gravei no lado B do compacto simples  que no lado A, tem “Viva o Samba” (Thales da Fonseca/WaldirW. da Fonseca), produção, arranjos e direção musical de Eduardo Gudin, pelo selo Lira/Continental.

Em 1987 gravei o terceiro disco: LP – Waldir da FonsecaLindo, lindo, lindo, gravadora Copacabana – SP. Dentro do projeto Bom tempo, criado por Eduardo Gudin. E Produção, arranjos e direção musical de Edson José Alves, com 10 músicas, sendo nove de minha autoria e uma delas “GRES Estrela do Asfalto” (Eduardo Gudin/ Costa Netto), com as participações de Filó Machado, Heitor dos Prazeres, e Rosa Marya.

Em 1995 lancei o primeiro CD – Doce Canto de Waldir da Fonseca, gravadora CPC – UMES-SP. Produção de Filó Machado, com vários intérpretes, como Adyel, Aldyr Blanc, Cibele Codonho, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Leny Andrade, Pery Ribeiro, Celso Miguel, Claudio Nucci, Sergio Ricardo, Tetê Espíndola, Trovadores Urbanos e Walter Franco. São 14 músicas de minha autoria, sendo que eu canto só uma música, “Romance das mil e uma noites”. A música título do CD, “Doce Canto” (soneto 49 de Luís Camões), que eu musiquei, foi gravada pelo Aldyr Blanc e, também, “O brilho da lua” (versão do clássico norte americano Moonglow), interpretada pela Adyel e a versão de In my Life (Lennon/ Mc Cartney) gravada por Claudio Nucci e outro clássico norte americano All the tyhings you are, que foi gravado no CD da Vânia Bastos do selo Eldorado em 1990 e regravado no meu CD – Doce Canto, pelo produtor, arranjador  e diretor musical do disco,  Filó Machado. A produção deste CD foi custeada com a ajuda dos diretores e dos meus alunos do Colégio Indac, em 1991, após eu ter sofrido um infarto agudo do miocárdio e um AVC isquêmico que limitou severamente a parte motora dos meus membros inferior e superior esquerdo e resultou numa aposentadoria precoce, aos 43 anos, por invalidez previdenciária, em 1993.

Em 2001 gravei o segundo CD – Waldyr Fonseca – Precioso, presente e terno, é uma regravação, utilizando os play backs dos meus dois primeiros discos, pela gravadora Zambaben-SP. Com 17 músicas, sendo 6 do meu primeiro LP e 11 (10, mais uma repetida), do segundo LP. Todas de minha autoria e uma, “Estrela do Asfalto” (Eduardo Gudin/ Costa Netto), com participações especiais de Aldo Bueno, Anna de Holanda, Batista Junior, Carlinhos do Cavaco, Cascatinha e Inhana, Filó Machado, Heitor dos Prazeres, Luiz de Oliveira, Nilza Maria e Zé Luiz Mazziotti. Este CD foi produzido em parceria com o cantor/ compositor/produtor Batista Junior, dono do selo Zambaben e teve uma única tiragem de  1.000 unidades.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Valdir Dafonseca: Um estilo eclético de música popular que varia entre samba,  samba-canção, samba-rock, choro, música rural do interior de São Paulo, ritmos nordestinos e, também, blues, fox-trot e versões de standarts norte americanos. Parafraseando o grande Millor Fernandes, “enfim, um compositor sem estilo”.

08) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Valdir Dafonseca: Sou um compositor, que interpreta as suas próprias canções e as de alguns outros colegas nacionais e internacionais.

09) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Valdir Dafonseca: Aldyr Blanc, Caetano Veloso, Chico Buarque, Claudio Nucci, Pery Ribeiro, Renato Brás, João Bosco, João Gilberto, Gilberto Gil, Ivan Lins, Djavan,Sérgio Ricardo, Zé Renato, Zé Luiz Mazziotti, Alcione,  Anna de Holanda, Beth Carvalho, Cristina Buarque, Eliseth Cardoso, Elis Regina, Gal Costa, Leny Andrade, Lucia Helena Corrêa,  Alaíde Costa, Rosa Marya Collin, Vânia Bastos

10) RM: Como é seu processo de compor? Quem são seus parceiros musicais?

Valdir Dafonseca: Muitas vezes, por inspiração, outras, tantas, por transpiração. Por inspiração é quando me aparece uma ideia melódica junto com uma frase poética; aí, começo a desenvolver essa ideia melódica, junto com a frase poética, até, que  aconteça um produto satisfatório aos meus ouvidos. Por transpiração é quando recebo um estímulo de fora, ou seja, quando pinta uma necessidade de dizer alguma coisa por meio de música, alguém me pede uma música ou, algum parceiro me envia um texto (poema ou letra de música) para eu colocar melodia! Componho sozinho (letra e música), mas, tenho, também, vários parceiros, letristas e melodistas. Dentre os letristas cito Charles Boa Vista, Eduardo Gudin, Carô de Oliveira, Lucia Helena Corrêa (saudosa memória, falecida em fevereiro de 2014, no Rio de Janeiro – RJ, com quem pude dividir música e o amor), Guaracy Rodrigues, Léo Nogueira, Caio Bassitt, Márcio Policastro, Rica Soares, Ricardo Moreira, Rolan Crespo, Tonico Freire, Zé Edu Camargo, Di Melo e Nelson Barbosa. Os melodistas são; Heitor dos Prazeres, Lula Barbosa, Mario Leite, Nando Távora, Tião Pelado.

11) RM: Quais os cantores e cantoras que gravaram as suas canções?

Valdir Dafonseca: Por ordem cronológica: 1973: Grupos Chic Samba Show e Sombrasil exportação gravaram “É sexta-feira” (Waldir W. Fonseca); Foi opinião (Waldir W. Fonseca/José Luiz Manaia), respectivamente (Sinter-Phillips). 1974: Caçulinha gravou “Tô na fossa” (Waldir W. Fonseca) – RCA-Victor. 1975: Leny Andrade gravou “Outro Amor” (Waldir W. Fonseca) – Odeon. Grupo Raizes gravou “Boa Vista” (Waldir W. Fonseca/ Charles Boa Vista)- Crazy. Di Melo gravou “Conformópolis” (Waldir W. Fonseca)- Odeon . 1980: Grupo Raizes gravou “Iara-Açude encantado” (Waldir W. Fonseca / Charles Boa Vista) – Fermata. 1981: Branca Di Neve gravou “Pobre Moleque” (Waldir W. Fonseca)- Mauricris . 1982: Rosa Marya gravou “Romântico bolero” (Waldir W. Fonseca / Márcio Théo) – Pointer. A dupla Neuber e Iranfe gravou “Açude encantado” (Waldir W. Fonseca / Charles Boa Vista). 1990: Vânia Bastos gravou “Tudo o que você é“ – versão de All the things you are (Kern/ HarmesteinII/Waldir W.Fonseca) – Eldorado. 1992: Rosa Marya gravou “How do I  feel” (Waldir W. Fonseca)-Polygram. 1996: Heitor dos Prazeres gravou “Samba de Pandeiro”, “Chora Chorinho”, “Nosso beguine” (Heitor dos Prazeres/Waldir W. Fonseca). 2004: Guilherme Lacerda gravou “Foi Opinião – Pra que chorar” (Waldir W.Fonseca / Luiz Manaia)-Solução Fonográfica. 2007: Maristela e Carlos Mello gravaram “Não mandei você me abandonar” (Waldir W. Fonseca / Tião Pelado)- In Sonoris. 2008: Digê Arruda gravou “Chá de Sumiço” e “Mal Necessário” ambas de (Waldir W. Fonseca)-Mirras Mídia. 2009: Guilherme Lacerda gravou “Chora meu pinho” (Waldir W. Fonseca / Luiz Manaia) – Solução Fonográfica. 2010: Grupo Casa Caiada gravou “Chá de Sumiço” (Waldir W. Fonseca)-Ágata-tecnologia digital ltda. 2012: Lucia Helena Corrêa gravou “Tarja preta” (Waldir W. Fonseca / Lucia Helena Corrêa) – Clone Carioca.

12) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Valdir Dafonseca: Eu sou um artista. E adoraria poder fazer minha arte sem ter que me ocupar com marketing, vendas, essas coisas. Convivi no meio artístico no tempo das gravadoras. Assinei contrato com duas delas, as medianas Continental, e Copacabana, cujo repertório pertence, hoje, a major Warner Records. E confesso que me desiludi muito com a carreira artística bem antes da chegada da era da informática, das mídias digitalizadas, dos estúdios analógicos e do fim das gravadoras. Por isso, nunca deixei de trabalhar como professor, com carteira assinada, salário mensal, desconto da previdência social e, hoje, sou aposentado, pois, sem sucesso, não teria nada, como não tenho, mesmo! Não digo isso em tom melancólico de reclamação. Estou feliz com o que fiz; com o que conquistei; com o que fui e sou. Tenho consciência de que não consegui nada melhor na minha carreira artística por culpa da minha própria negligência na administração da carreira. Embora com boas qualidades artístico musicais, fui muito mais um boêmio do que um profissional de música.

13) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Valdir Dafonseca: Nas duas últimas décadas, além dos movimentos do Pagode, da  música Sertaneja e das bandas nacionais  de rock como Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, etc., surgiram algumas cantoras e poucos esporádicos novos compositores e quem mais se destacou, ao meu ver, foram  o Lenine e o Otto. Se bem que eu me afastei muito do mercado, após o AVC e a aposentadoria precoce por invalidez, no começo dos anos 90. Artistas como Djavan, Ivan Lins e João Bosco decolaram suas carreiras muito mais no exterior do que aqui dentro e, com o fim da censura, nos anos 80, o mau gosto prevaleceu ao ponto de os estudantes universitários preferirem o “bunda-lê-lê” do cantor e compositor Latino, às artes de Caetano Veloso, João Gilberto e Chico Buarque.

14) RM: Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Valdir Dafonseca: Arismar do Espírito Santo e Filó Machado, ambos são músicos geniais e meus grandes amigos.

15) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Valdir Dafonseca: No momento, me ocorrem duas situações, no mínimo, bastante esquisitas:Minha primeira decepção (eu tive algumas outras, depois dessa) com Festival de Música, aconteceu, logo de início, no primeiro em que me inscrevi e fui classificado. Era o IV Festival Universitário da TV Tupi-SP em 1971 a produção realizada por Fernando Faro, Magno Salerno (já falecido) e Pelão. Eu, então, aluno do curso de Letras da Faculdade Oswaldo Cruz, inscrevi três músicas. Fui classificado, mas o Festival escolheu a pior das minhas três músicas inscritas, “Pra Inglês ver”, um samba-rock com harmonia de balada dos anos 60 e letra que misturava português e inglês. Foi muito bem defendida pela cantora carioca Myrian Goulart, acompanhada pela orquestra de Luiz Arruda Paes, com arranjo de Edmundo Vilani, além do grupo de samba Chic Samba Show, meus amigos da escola de samba Camisa Verde e Branco. Minha música foi bem nas eliminatórias e, na final, arrebatou o público presente no auditório da TV Tupi, no bairro Sumaré, onde, hoje, está o SBT e a decepção aconteceu na hora do resultado: fiquei com o prêmio de CR$3.000,00 (três mil cruzeiros). O primeiro prêmio ficou para o samba “Lá se vão meus anéis” (Eduardo Gudin / Paulo Cesar Pinheiro); nada contra a vitória dos meus dois concorrentes; o problema foi depois da premiação, quando fui chamado de lado pelo Silvio Santos, um dos jurados, que me confidenciou em voz baixa: “quero deixar bem claro que, pra mim, você era o primeiro lugar”! Eu, logo, pensei: ele deve falar isso pra todo mundo, tentando eximir-se de qualquer envolvimento numa trama acontecida durante a apuração das notas e antes da divulgação do resultado, houve uma reunião para mudar o resultado original, pois, a música dos meus dois oponentes deveria ficar com o primeiro prêmio, de CR$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros), porque o parceiro do Eduardo Gudin, o Paulo Cesar Pinheiro, teria perdido na viagem Rio / São Paulo, CR$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros) que ficara de trazer ao parceiro paulistano Eduardo Gudin, referente à metade do prêmio de outro festival vencido pela dupla, no Rio de Janeiro, de forma que, se eles ficassem com o primeiro lugar, receberiam os dez mil e o Paulo César Pinheiro, assim, poderia ceder sua parte para pagar o que devia ao seu parceiro. Na saída, do teatro o grande jornalista e crítico musical, Sergio Cabral, também, me chamou e repetiu a mesma frase que me foi dita pelo Silvio Santos. Nunca comentei nada disso com ninguém e estranhei muito que, depois disso, o Eduardo Gudin tivesse insistido tanto para fazer parceria comigo. E tenho quase toda a minha a discografia ligada ao Eduardo Gudin. Ele se tornou meu amigo e parceiro musical. Ele me apresentou ao produtor da gravadora Continental em 1979 e gravei meu primeiro disco. Ele me ajudou na produção e arranjos no meu compacto simples em 1984. Ele me incluiu no seu Projeto Bom Tempo da gravadora Copacabana, gravadora que lancei meu segundo disco.

Outra situação inusitada me aconteceu em 1998, após ter morado em 1997 em Fortaleza – CE. De volta a São Paulo, ao passar em frente a um bar de música ao vivo, na entrada da Cidade Universitária, eu ouço alguém, cantando um samba de minha autoria que eu o tinha, ainda, como inédito; atravessei a Av. Waldemar Marcheti, entrei no bar e perguntei ao cantor, de quem era aquele samba, cuja letra diz: “eu tenho um santo padroeiro poderoso, que é meu pai Ogum, eu tenho”… e, por aí, vai… O cantor Washington me respondeu: “é do Murilão, sucesso do Zeca Pagodinho, não conhece”?! Este samba, na verdade é do Tião Pelado (falecido em 1984), meu e do Murilão, só que o tal Murilão, levou o nosso samba pro Zeca Pagodinho e “tirou” os nomes dos dois parceiros, eu e o Tião Pelado. E quando, dias depois, encontrei o Murilão em uma roda de Choro e Samba que acontece aos sábados de manhã na Loja Contemporânea – Rua General Osório, perto Rua Santa Ifigênia – bairro da Luz, região central de São Paulo. Fui conversar com ele sobre a gravação do nosso samba pelo Zeca Pagodinho, ele quis brigar, me ameaçou e falou que nossa parceria era outra música. Tentei falar com ele outras vezes, mas, ele continuou irredutível e, sempre ameaçador, metido a valentão! Como eu, sendo portador de necessidades especiais, com uma severa limitação motora nos membros interior e superior esquerdo e, por tanto, com mobilidade muito reduzida, não posso, não quero e nem preciso brigar por causa de um samba (eu tenho uma obra inteira). Fiz a única coisa que poderia fazer: contei essa “crocodilagem” do Murilão para todos os meus amigos do meio do samba, como Almir Guineto, Beth Carvalho, e muitos outros e considerei isso, primeiro, como uma moeda que caiu do meu bolso e, depois, sabendo que o Murilão recebeu R$ 30.000,00 de adiantamento. Como se eu pagasse ao Murilão, R$ 15.000,00 para não ter o meu nome junto com o dele. Assim, essa história chegou ao conhecimento do Zeca Pagodinho, que, já, não grava mais nada desse mau caráter do samba chamado Murilão da Boca do Mato!

Outra situação. Eu, Eduardo Gudin, Carlinhos Vergueiro somos contemporâneos. Um dia, no começo dos anos 80, andando pela Av. Paulista, próximo ao Conjunto Nacional, encontrei-me com o Carlinhos Vergueiro, paramos, conversamos e ele me convidou para ir ao lançamento do seu novo disco, no escritório da gravadora Odeon, aqui, em São Paulo, ali, bem perto, na Rua Ministro Rocha Azevedo, dali, há alguns dias. No dia combinado eu fui ao lançamento do disco dele; festa muito boa; boca livre, vinho, champanhe, canapés e o escambáu. Mas, de repente, uma confusão lascada e o dono da festa preste a se atracar em pugilato com um dos convidados, o cantor/compositor e guitarrista Miguel de Deus (saudosa memória), sabe-se, lá, por que. Eu lembro que o Carlinhos Vergueiro, aos berros, esbravejava, mandando embora o Miguel de Deus, ao passo que nós, os demais convidados, formávamos a chamada turma do “deixa disso” e, quando conseguimos segurar a “fera”, o Carlinhos Vergueiro me abraça e diz: “tudo bem, Waldir, você é meu irmãozinho, mas, leva aquele cara embora”; apontando o dedo para o Miguel de Deus; ao que eu respondi, Carlinhos: “tudo em paz, irmãozinho, faço melhor que isso, se é pra eu levar o cara embora, vou embora eu”! E fui saindo, seguido pela maior parte dos convidados, artistas, radialistas, divulgadores, um dos presentes, com certeza, era o Moisés da Rocha (Rádio USP), que foi embora, também, como vários outros!… Ou seja, acabou a festa! No dia seguinte fiz uma visita ao meu parceiro Tião Pelado do Salgueiro (saudosa memória), colega que cantava comigo na noite e morava na Pça. Roosevelt; contei-lhe essa história que, depois de ouvir tudo, respondeu o seguinte: “sabe, parceiro, lá no Salgueiro, quando estamos uma roda de samba e aparece um moleque babaca desses se metendo a besta, a rapaziada, logo, diz: “com tanto galo no terreiro, pinto quer cantar, por que”? e, dessa frase, não demorou muito pra nascer mais uma das nossas parcerias, um samba (partido alto) “Cuidado menino” (Tião Pelado/ Waldir W. da Fonseca), que gravei no lado B do compacto simples “Waldir da Fonseca”, que no lado A, tem “Viva o Samba” (Thales da Fonseca/Waldir W. da Fonseca), produção, arranjos e direção musical de Eduardo Gudin, pelo selo Lira/Continental, em 1984.

16) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Valdir Dafonseca: Muito feliz por ter talento para fazer o que eu mais gosto e fazê-lo por que gosto, mas, triste por não ter conseguido viver disso!

17) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

Valdir Dafonseca: Eu sou paulistano e moro em São Paulo desde que nasci aqui, há 67 anos e vejo a minha cidade, muito mais como plateia consumidora dos shows dos maiores artistas nacionais e internacionais, do que produtora de grandes artistas. Ah, costumo orientar jovens sambistas que a sociedade paulista e paulistana incluindo a imprensa, sempre gostou e gosta muito de samba, desde que seja do Rio de Janeiro. Acontece que esta cidade, a maior e mais desenvolvida e mais populosa da federação, até o começo do século XX, era uma cidadezinha muito pequena, pobre e pouco produtiva, portanto, aqui, quase não houve escravidão. Os negros de São Paulo vieram do interior do Estado, das plantações de café, de algodão e do litoral, os estivadores, ou de outros Estados. O meu avô, por exemplo, José Marcelino da Fonseca, era mineiro de Santa Rita de Cássia-MG, sul de Minas Gerais, filho de um padre português que teve um romance com a cozinheira do convento, que era ex-escrava. Ele veio para São Paulo aos 20 anos e sentou praça como soldado raso na Força Pública do Estado, continuou seus estudos, formou-se engenheiro de estrada de ferro e em 1932, quando faleceu em um desastre explosivo de uma bomba (morteiro MMM) invenção dele, que era capitão (único oficial negro da corporação) diretor do adepto de material bélico, durante a revolução constitucionalista de 1932. Seus restos mortais estão no Obelisco do Ibirapuera; documentos e mais informações, no museu da Policia Militar do Estado.

18) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Valdir Dafonseca: Ouço muito pouco, ou, quase nada da música que se faz atualmente, aqui, no Brasil e no exterior. Portanto, além de alguns amigos e parceiros do Clube Caiubi de Compositores, como Lucia Helena Corrêa (saudosa memória), Bráu Mendonça, Nando Távora, Carô de Oliveira, Márcio Policastro, Rica Soares, Sonekka, minha parceira musical Sandra Vianna e o jovem cantor/compositor, arranjador e violonista Bruno de La Rosa, além da cantora Samantha Esaú Bellini e do seu marido Matheus Bellini (violoncelista) um dos fundadores e líder do grupo instrumental Concerto de Rua.

19) RM: Você inscreve ainda as suas músicas em Festivais?

Valdir Dafonseca: Hoje, já não faço mais questão de inscrever minhas músicas em Festivais de Música, pois, já tive algumas boas decepções com isso! Minha primeira decepção que já citei. E também me decepcionei com o Fernando Faro que nunca me convidou para participar do seu programa Ensaio,  da TV Cultura!

20) RM: O que acha da importância dos Festivais de Música para lançar novos talentos para um grande público?

Valdir Dafonseca: Acho muito importante, mas, não confio mais em Festivais de Música competitivos. Acredito mais em Festivais de Música, tipo, mostra de música, sem premiação, em que todos os classificados, músicos, arranjadores recebem cachês estipulados pela Ordem dos Músicos do Brasil, condizentes, com suas participações.

21) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Valdir Dafonseca: Não, mesmo! Só conheço um radialista que toca as minhas músicas e, também, de outros artistas sem o tal jabaculê; é o meu amigo Moisés da Rocha da Rádio USP!

22) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Valdir Dafonseca: Digo que, para mim, não basta ter talento para fazer música popular. E que existem alguns pontos fundamentais e muito importantes na carreira de um artista, são eles: estudo, concentração, paciência, persistência e ensaio!

23) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Valdir Dafonseca: Não tenho, desde que tive o infarto agudo do miocárdio e o AVC,  em 1991, estratégias de planejamento da minha carreira dentro e fora do palco, como, também, nunca tive, antes.

24) RM: Quais as ações empreendedoras  que você pratica para desenvolver sua carreira?

Valdir Dafonseca: Nenhuma ação empreendedora.

25) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Valdir Dafonseca: A internet é uma ferramenta maravilhosa para o desenvolvimento das carreiras de muitos artistas que surgiram concomitantemente com o grande desenvolvimento tecnológico ocorrido nas últimas décadas.

26) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Valdir Dafonseca: São muitas as vantagens obtidas pelo fácil acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio), mas, não pra mim, pois, com a limitação física e sem equipamento adequado, nem  um parceiro com conhecimento técnico para me auxiliar na produção, tenho, ainda, que alugar um estúdio, quando preciso fazer gravações!.

27) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente uma carreira musical. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo, mas a concorrência se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Valdir Dafonseca: A grande dificuldade para gravar no passado servia como uma seleção natural, pois, para conseguir gravar um disco solo, era necessário, salvo exceções, ter muita qualidade artística, enquanto que a facilidade dos dias atuais eliminou tal seletividade!.

28) RM: Quais os seus projetos futuros?

Valdir Dafonseca: Além de, eventualmente, gravar uma ou outra das minhas novas composições, apenas para disponibilizar na internet. E dar entrevistas/depoimentos para órgãos da imprensa especializada no meio musical, como a RitmoMelodia. No mais, estou sem projetos futuros, pois, embora esteja saudável, idoso e com a limitação motora do lado esquerdo, já, não me sinto mais com disposição física para enfrentar estrada, palcos, essas coisas.

29) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Valdir Dafonseca  http://www.myspace.com/valdirdafonseca | http://vardi59.multiply.com

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.