Sebastião Marinho

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Sebastião Marinho
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O Repentista paraibano Sebastião Marinho respirava a sonoridade do repente e a sua poesia na infância. De família de agricultores tinha como brincadeira de criança o desafio do repente.

Aos vinte anos colocou a viola no saco para encontrar o seu destino de cantador de Viola. Começou a tocar na cidade de Solânea (PB) e chegando ao seleiro cultural do interior da Paraíba nos anos sessenta: Campina Grande. Depois para João Pessoa e outros Estados nordestinos. Chegou a São Paulo em 1976 para participar de um encontro da Semana Nordestina e fixou residência até os dias atuais.

Fundo em 1988 a associação UCRAN (União dos Cantadores, Repentistas e Apologista nordestinos) por vê dispersão dos artistas na grande São Paulo. Sebastião participa de vários eventos e projetos envolvendo os repentistas e cantadores, comenta que em São Paulo tem poucos repentistas para a quantidade de espaços para trabalhar, mas alerta aos artistas que o profissionalismo e o estudo dos conceitos musicais são importantes nos dias atuais.  Lançou onze discos de repente para registrar o melhor de sua obra com os parceiros: Andorinha, Mocinha de Pacira, João Quindingues, Coriolano Sergio, Antonio Maracajá, João Cabeleira e Luzivan Matias.  Lamenta que hoje os cantadores estão fazendo poucos versos de improviso, a maioria para agradar o público leva os versos feitos em casa para o salão.  Os versos estão muito rebuscados e fugindo da temática popular e sertaneja.

Segue abaixo entrevista exclusiva com  Sebastião Marinho para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.08.2002:

01) Ritmo Melodia: Fale do seu primeiro contato com o Repente e o Cordel?

Sebastião Marinho: Nasci no campo no dia 10.03.1948, hoje cidade conhecida por Casserengue – PB. Desde menino ouvia cantoria dos grandes mestres: Josué da Cruz, Antonio Eugênio, Valdemar Irene, Zé Camelo de Melo e muitos outros. Esse era meu mundo na infância, diferente hoje da meninada que através da TV e parabólica convivem com a violência e no passado ao invés dos revolves e metralhadoras de plásticos para brincar, brincávamos com Viola feita de madeira e fios de agave simulando as Violas dos Violeiros.  Com doze anos de idade,  eu já tocava Viola e fazia Repente, mas a família não deixou cair na profissão de cantador, as famílias querem ver artistas na família dos outros. Em 1968 aos vinte anos coloquei a Viola nas costas comecei a profissão em Solânea e Campina Grande, João Pessoa – PB e outros Estados Nordestinos. Em 1976 cheguei a São Paulo e estou até hoje sem arrependesse-me da carreira que escolhi e faria tudo de novo, mas de uma forma diferente aprendendo teoria musical e com uma escolaridade mais avançada.

02) RM: Fale de sua chegada em São Paulo?

Sebastião Marinho: Cheguei a São Paulo em 1976 na primeira semana de Abril para participar da Semana Nordestina realizada no Anhembi e queria ficar uns vinte dias e fiquei três meses. Percebi a necessidade de cantadores para tocar para os muitos nordestinos que chegavam todos os dias. Hoje falta cantador para o público que temos em São Paulo, mesmo tendo três vezes mais cantadores profissionais que as principais Capitais nordestinas.

03) RM: Fale dos seus primeiros Discos?

Sebastião Marinho: Comecei gravar Em 1979, gravei dois Discos e CDs com: João Quindingues. Com Andorinha: Dois Discos e CDs. Com Mocinha de Pacira: um Disco e um CD. Com Coriolano Sergio: um Disco. Estou preparando um CD com Luzivan Matias para 2002. Gravei com Antonio Maracajá e com João Cabeleira. Foram poucas gravações no decorrer da carreira, só entro em estúdio quando tenho algum trabalho importante para registrar.

04) RM: Fale dos primeiros locais que você tocou em São Paulo?

Sebastião Marinho: Eu comecei em Bares e passei dez anos tocando em uma casa noturna no bairro do Bixiga (Bela Vista): “Baião de Dois” que era freqüentando por nordestinos anônimos e famosos como: Luiz Gonzaga, Renato Aragão, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Raul Seixas que muitas vezes bebia tanto que ficava debaixo da mesa, porque não aguentava fica sentado. E percebi que o repente não era só obedecer às regras métricas e tocar aquela Viola gritante que é muito comum no repentista do nordeste, mas improvisar em cima de outras melodias e para isso precisa conhecer teoria musical ou conhecer as possibilidades do instrumento, mas como a maioria dos repentistas é anti-musical não conseguiam se adaptar a determinados lugares. A maioria tocar em uma nota só e não desenvolvem harmonias no instrumento.

05) RM: Qual a diferença do Violeiro para o Repentista?

Sebastião Marinho: O Violeiro é aquele que executa a Viola, o instrumentista que conhecer a teoria e o seu instrumento. O Repentista faz versos sem a preocupação ou conhecimento de toca os acordes na Viola, muitos cantam em tom menor e tocam acordes tom maior e vice-versa. Os cantadores alegam que o importante é o verso, eu acho uma ignorância, porque se você está com instrumento em punho tem que fazer os acordes afinados com a melodia da letra.

06) RM: Fale das lendas e verdades do mundo dos repentistas?

Sebastião Marinho: No mundo as pessoas fantasiam muito. Alguns ingênuos cantadores e ouvintes falam que o cantador Ivanildo Vila Nova canta recebendo o espírito do pai, o cantador: Zé Faustino Vila Nova. Eles falam que quando Ivanildo cantam olhando para um e para outro está cantando normal, mas quando colocar os olhos na direção do meio do salão sem encarar mais ninguém nem bater as pestanas, ele está recebendo o espírito do pai e não perde um desafio para ninguém, mas na verdade confundisse concentração com mediunidade. O Zé Limeira uma figura carismática da nossa cantoria ganhou muitos desafios de Viola para cantadores com qualidades superiores a dele, a exemplo do repentista: Zé Sobrinho que hoje é advogado em Campina Grande apanhou muito de Zé Limeira nos desafios dentro dos salões que só tinham intelectuais e quando o desafio era no meio do povo leigo sem escolaridade ganhava de Zé Limeira e o povão chamava Zé Limeira de doido e poeta do absurdo.

07) RM: Defina o conceito da disputa ou desafio dos repentistas?

Sebastião Marinho: As pessoas confundem o desafio ou disputas dos cantadores como uma forma de um desfazer do outro com versos maldosos, desrespeitosos ou imorais e não é nada disso. Quando alguém pede um tema ou mote, os cantadores fazem seus versos em cima do tema e quem fizer melhor e com mais sentido os versos começar a ganhar a simpatia do público ou jurado e a disputa. Ganhar o desafio é a superação de um cantador sobre o outro no conhecimento do assunto proposto, na versificação criativa imaginativa do improviso.

08) RM: Fale dos versos feito em casa que o cantador leva para os salões?

Sebastião Marinho: Hoje muitos cantadores estão improvisando menos, as duplas trazem de casa as cantorias prontas para agradar o público, mas eu prefiro o improviso e a criação no momento. E temos muitos repentistas capazes de improvisar, mas que preferem fazerem um trabalho bem elaborado antes e mostram ao público como sendo de improviso. O cantador tem que ter um vocabulário vasto para poder improvisar e ter assunto, como o cantador é curioso tem que ler muito também para ter assunto para improvisar. Ivanildo Vila Nova lançou um novo estilo da cantoria e que está perdendo muito a hegemonia do cantador que fala da sua própria essência. O cantador que não teve a experiências dos bancos escolares para não ficar para traz culturalmente cria versos cultos e técnicos que não fazem parte do seu universo pessoal, deixando para traz as suas experiências de caboclo e do campo. Ivanildo com a sua popularidade dentro do meio faz com quer os novos cantadores adotem esse estilo, mas a linguagem usada é muito rebuscada e distante da realidade das pessoas simples que são os ouvintes diretos do cantador de viola. O cordel escrito tem espaço para uma linguagem mais elaborada, mas no improviso a linguagem mais simples e popular ficar melhor.

09) RM: Fale dos projetos de cantoria que você organizou e da associação de repentista?

Sebastião Marinho: A UCRAN (União dos Cordelistas Repentistas Apologistas Nordestinos) foi fundada em 1988 na Estrada do Campo Limpo – SP. Foi uma necessidade de organização que eu senti e infelizmente não uso o nós, porque não existe ainda uma consciência de coletividade dos repentistas. Existem no nordeste outras associações que são utilizados como albergue para os cantadores viajantes e não uma Casa de Cultura. Poderia servir para as duas coisas em espaços separados.  Quando cheguei a São Paulo só tinha dois Bares no Brás, na rua Paulo Afonso e Brigadeiro Machado para os cantadores trabalharem. Tinha muito vagabundo que em parceria com alguns cantadores faziam as suas vitimas. Quando o cliente colocava o dinheiro no chapéu ou prato do cantador o vagabundo esperava sair para roubá-lo e dividir com esses cantadores que já morreram.  E fundei com João Quindingues dois espaços fora do Brás, nas Ruas das Palmeiras e Augusta o público começou a frequentar os novos espaços acabando com as cantorias do Brás e muitos cantadores não entenderam, um deles era o Venâncio da dupla Venâncio & Corumba, autor das músicas: “Pau de Arara” e no “Pé da Cajarana”,  que falou que não iria prosperar a cantoria fora do Brás, mas hoje  São Paulo é o maior espaço da cultura nordestina e da Viola.  A UCRAN fez três Festivais de Cantoria em parceria com CPC – UMES de 1996 a 1999 que foram muito bem aceito e que germinou os cem Anos de Cordel realizado pelo Sesc Pompéia em 2001.

10) RM: Fale das duas formas de se apresentar do Repentista?

Sebastião Marinho: A primeira forma é apresentação no “Pé de Parede”, os cantadores fazem seus versos no canto de parede das casas de famílias em um canto que se destacassem, mas que não atrapalhassem a passagem e circulação do público. Nos grandes centros começaram se apresentarem nos bares e em casas noturnas. Hoje em São Paulo fazemos apresentações em casas humildes, mansões, teatros, restaurantes, empresas, bares, clubes, bailes e comerciais de TV de empresas e instituições.

11) RM: Qual a sua dica para os novos e veteranos repentistas para não perderem a popularização e valorização do Cordel nesse novo milênio?

Sebastião Marinho: Obedecer às regras essências do Cordel (A Rima e Métrica), mesmo obedecendo às novas mudanças de valores, costumes e realidade. Respeitar os mestres: Leandro Gomes de Barro, Zé Camelo, Manoel Camilo, Manoel de Almeida Filho (falecido).

12) RM: Comente um pouco a sua opinião sobre Elba e Zé Ramalho que usam o Cordel nas suas obras?

Sebastião Marinho: Elba Ramalho tem paixão pelo Cordel tradicional sertanejo, mesmo sendo uma pessoa inteligente e culta. Zé Ramalho é o maior criador e cantador de martelo a galopar, beiram – mar que conheço. Cantei uma vez com no Rio de Janeiro nos anos setenta, ele cantando e tocando viola no nível que poucos cantadores chegam, está no sangue e na cultura dele e dela.

Contatos: 11 – 3208 – 0819 \ 6258 – 6459 \ 99959 – 8071

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.