Sandra BeLê

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Sandra BeLê
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A cantora paraibana Sandra Belê carrega em seu repertório o sentido de lembranças, saudades, emoções e tempos de outrora.

A sua vivência com reisados, pastoris, aboios, benditos, romances, forrós tem lhe proporcionado uma interpretação singular, da qual surge a forte identidade que carrega na voz quando interpreta as encantadoras obras do cancioneiro nordestino. Zabelê, cidade do Cariri paraibano, foi seu berço de ouro, lá nasceu, cresceu e aprendeu a admirar as paisagens, os cheiros e os sons duma terra árida, porém fértil para as mais variadas formas de sobrevivência. Luiz Gonzaga, João do Vale, Gordurinha, Manezim Silva, Biliu de Campina, Dominguinhos, Benedito do Rojão, Sivuca, Marinês, Gonzaguinha, Antônio Barros e Cecéu são algumas das infinitas luzes que fazem com que Sandra Belê cante um passado cheio de amores, desamores e imagens que nos remetem à infâncias brincadas, sofridas, vividas.

Entre os anos de 2004 e 2005 Sandra Belê gravou o seu primeiro CD – Nordeste Valente. Um ano depois se encontrava na cidade de Taperoá – PB, em que participou como atriz cantora das gravações da série global “A Pedra do Reino” do escritor Ariano Suassuna. Com o CD – Nordeste Valente ela participou da coletânea de músicas da “Pedra do Reino”, organizada pela Som Livre, e da coletânea do Projeto Esquina Brasil, organizada pelo SEBRAE, SESC, entre outros. O ano de 2007 culminou com a participação da cantora na peça teatral “Auto do Menino Jesus” na cidade de Campina Grande – PB, em que interpretou Maria, a mãe de Jesus. O seu mais novo show, intitulado “Baú de Saudades”, releva através da voz, percussão e violão, a sensação do encanto das recordações de um povo forte, vitorioso e legitimamente nordestino. É o encontro do velho com o novo; é o saber do passado com o brilho do presente; é a amostra de uma musicalidade nobre e essencialmente imortalizada. Romério Zeferino, Etnomusicólogo, acompanha ela ao violão.

Segue abaixo a entrevista exclusiva com  Sandra Belê para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 16.05.2011:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Sandra Belê: Eu nasci em 14 de março de 1980. Minha cidade natal é Zabelê-PB, cidade do Cariri Ocidental paraibano.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Sandra Belê: Sempre ouvi meu pai tocando. Ele tocava sanfona nas quadrilhas juninas, nos circos, nas festas da cidade. Sempre que eu podia, o acompanhava. Também ouvi, desde menina, canções de aboio, reisados, pastoris e incelenças. Foi daí que retirei a paixão pela música.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Sandra Belê: Faço Faculdade de Arte e Mídia na Universidade Federal de Campina Grande. Quanto à música, faço cursos de violino e percepção musical. Também estudo pandeiro. Já estudei flauta doce.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Sandra Belê: Minha maior influência foi meu pai. Depois vieram os maravilhosos cantores como Luiz Gonzaga, Jacson do Pandeiro, Marinês e Elis Regina. Atualmente ouço Zeca Baleiro, Ney Matogrosso, Maria Rita, Mariana Aydar… Nenhuma deixou de ter importância para mim. Estão todos calcificados em minha alma e lembrança como algo de muito bom.

05) RM: Quando, como e onde  você começou a sua carreira musical?

Sandra Belê: Comecei a cantar profissionalmente em 1999. Minha escola promoveu uma simulação de eleição. Daí surgiram as paródias para os candidatos, e com elas, pessoas para cantar. Eu fui uma dessas pessoas. A partir disso, em todas as festas que ocorriam na cidade, me chamavam para cantar nas bandas musicais que estavam se apresentando. Depois disso, nunca mais parei de cantar. Isso ocorreu em Zabelê, minha pequena Zabelê.

06) RM: Quantos CDs lançados (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que se destacaram em cada CD?

Sandra Belê: Tenho três CDs gravados e lançados. No primeiro, o CD – Nordeste Valente teve a direção e produção musical do Etnomusicólogo Romério Zeferino, nos arranjos os músicos Jaelson Farias e Matos. Na instrumentação tivemos: sanfona: Matos; pandeiro: Pedro Santana; violão de 7: Jaelson Farias. Flauta: Wilson; percussão: Moura; backing vocal: Flávia Wenceslau; e participação: Penha Cirandeira e João na Caixa. O CD é composto de canções, baiões, choros, coco. As pessoas falavam muito bem do choro “Tema Dum Brinquedo Chamado Viver”. No segundo CD – “Se Incomode Não”, tivemos sanfona, zabumba, triângulo, violão de 7 e flauta. Tivemos a participação de Vângelis Siqueira na sanfona, Jairo nas percussões, Jaelson Farias no violão de 7 e Carlos Zens na Flauta. A música título do CD teve um maior destaque. O terceiro é CD – “Encarnado Azul”.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Sandra Belê: Como um estilo que bebeu e bebe nas fontes dos grandes mestres da música nordestina e logo depois os insere no mundo da música atual. Com novos ritmos, sonoridades e propostas.

08) RM: Como você se define como cantora/intérprete?

Sandra Belê: Me percebo com alguém que luta para cada dia superar os obstáculos. Que luta para sempre fazer o que mais lhe enche de prazer e paz. E que busca, através da voz, gritar aos quatro cantos do mundo o quanto o Nordeste brasileiro tem de bom.

09) RM: Você estudou técnica vocal?

Sandra Belê: Tive algumas experiências de técnica vocal, mas nada por muito tempo.

10) RM: Quais as cantoras que você admira?

Sandra Belê: Marinês, Elis Regina, Maria Rita, Mariana Aydar, Rita Ribeiro.

11) RM: Você compõe? Quem são seus parceiros musicais?

SB – Tenho algumas composições. Só fiz uma canção em parceria. Ela está no primeiro CD com o músico Pedro Santana.

12) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Sandra Belê: A maior dificuldade é a falta de recursos financeiros para tocar os projetos. Isso dificulta a divulgação, a propagação e a consolidação mais rápida do artista no mercado. O bom é que gravamos o que nos traz prazer e colocamos no repertório o que achamos que o público precisa ouvir.

13) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Sandra Belê: Acho que musicalmente o Brasil produz muita coisa boa. Mas sinto falta de grandes produções, como as que costumamos ver no cenário musical em outras partes do mundo. Para se ter uma ideia, os artistas considerados os representantes do Brasil na música, não têm grandes produções. Ficam no básico. Inovações são raras. Para mim, a maior revelação musical no Brasil nesses últimos tempos é a cantora Mariana Aydar. Artistas consistentes, eu considero Ana Carolina, Zeca Baleiro, Lenine, Ivete Sangalo, Claudia Leite. Já os artistas como Netinho, grupos como o É o Tchan e Raça Negra que saíram da grande mídia. Na verdade não sei se a palavra certa é regrediram, no caso, eu estaria ligando sucesso desses artistas à grande mídia. Talvez isso seja certo, talvez não.

14) RM: Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Sandra Belê: Zeca Baleiro, Lenine, Ana Carolina

15) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Sandra Belê: Êita, já aconteceram diversas situações inusitadas. Já cantei com um microfone que me dava choques. Já cantei e só recebi o cachê cinco meses depois. Já levei o som para fazer uma apresentação numa festa que não tinha ninguém. Já recebi cantadas. Já fui fazer um show numa feira livre e chegando lá, percebemos que o som era horrível e o palco era descoberto (o sol estava de rachar). Ainda bem que sou artista, vejo o mundo de forma diferente, então, não dá pra desistir de cantar por causa desses mal entendidos da vida, não é?

16) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Sandra Belê: Feliz por fazer pessoas sorrirem, dançarem, lembrarem e se emocionarem. Triste por perceber que isso não é o suficiente para que as pessoas lhe respeitem enquanto profissional. E triste por saber que hoje, para ser considerado cantor ou cantora a pessoa não precisa saber cantar, interpretar, emocionar. Basta mostrar o corpo, basta saber mexer com a sexualidade alheia, basta ter seu vídeo caseiro bem acessado na internet.

17) RM: Nos apresente a cena musical de Campina Grande e da Paraíba? Como você analisa a cena musical Paraibana?

Sandra Belê: Campina Grande eu considero lenta para a música. Pelo menos para a música local. Os músicos nunca se apresentam, e quando o fazem, tem seus cachês divididos para tantos outros que estão na luta por reconhecimento. Percebo o movimento de alguns artistas, isso me dá esperança de dias melhores. Hoje o que está em alta são bandas de “sexy music” que se utilizam do nome forró para ludibriar quem inocentemente acha que aquilo é forró. A Paraíba quase toda é assim. Só João Pessoa, que ultimamente vem tomando uma posição honrosa de realizar eventos com a participação dos artistas da terra. Com música de tradição, com música que nos trazem, ao ser ouvida, a sensação de pertencimento à nossa região, ao nosso país.

18) RM: Como você analisa o envolvimento de músicos jovens, como você, com a música regional?

Sandra Belê: Vejo que grande parte dos jovens prefere cantar músicas que estão na boca da galera, que são de fácil execução, que tem ritmo frenético. Mas vejo também que existem outros jovens, aqueles que não se deixaram influenciar pela indústria de massa, que estão sustentando a música regional com muito talento.

19) RM: Quais os prós e contras dos programas de incentivo a cultura? Você já teve algum projeto contemplado?

Sandra Belê: As leis de incentivo à cultura estão fazendo jus ao nome. Pois aumentam as possibilidades de artistas independentes gravarem seus trabalhos. E de ONGs e instituições afins realizarem suas ações, que seriam remotas sem as leis de incentivo. Já tive projetos contemplados. A gravação do meu primeiro CD foi através de envio de projetos.

20) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Sandra Belê: Ah! Recomendo que as pessoas ouçam Luiz Gonzaga. Não somente as músicas já consagradas, mas as centenas de outras que pouco se ouviram. Também recomendo Zeca Baleiro, Mariana Aydar, Lenine, Antônio Nóbrega. E cá, da Paraíba, recomendo os Grupos Tocaia da Paraíba, CabruêraÔ de Casa.

21) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Sandra Belê: Acredito que sim. Basta ter paciência. Mas, se de repente eu “surtar” e quiser rapidez nesta ação, pagarei sim, o tão falado jabá. Por que não?

22) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Sandra Belê: Que vá em frente! A música é sempre renovadora, inspiradora. Obstáculos existem em quaisquer profissões. A diferença é que os nossos obstáculos, nós vencemos cantando. Salve a música na sua musicalidade mais profunda!

23) RM: Quais os seus projetos futuros?

Sandra Belê: Lançar meu terceiro CD – Encarnadoazul em 2011. Pretendo, com o meu trabalho, alcançar condição financeira estável e equilibrada. Pois além de desejar vida melhor para minha família e para mim, almejo poder contribuir para a consolidação de ações voltadas para a cultura, como é o caso da Associação Cultural de Zabelê (ASCUZA), da qual faço parte hoje. Esta muito me ensinou sobre o poder da coletividade na vida das ações independentes. Pretendo correr o mundo cantando e mostrando o que nós brasileiros temos de bom.

24) RM: Quais seus contatos?

Sandra Belê: (83) 98832 – 1399 | (83) 98893-4244 (Tim / Whats App) com Suelen Garcez  / [email protected] / [email protected] www.facebook.com/sandrabeleoficia www.palcomp3.com/sandrabele

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.