Sambajah

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Tempo de Leitura: 16 minutos

O grupo Sambajah apesar de ter nascido no exterior é um grupo tipicamente brasileiro e a sua musicalidade traz na essência os elementos do samba misturando um pouco do tradicional com o contemporâneo.

Sorte ou destino, o importante foi os músicos de diferentes partes do Brasil se encontrar na Califórnia – EUAArlindo Jr. e Renato Vasconcelos (Cupim) se encontraram em 2004. O Cupimfoi até a casa do Arlindo para consertar o carro dele. No som do carro tocava uma música do grupo Fundo de Quintal, e ali os dois descobriam que tinham um ponto em comum. Mais tarde,Arlindo encontrou Ricardo (Gargamel), não pertence mais ao Sambajah, quando estava participando de uma festa na casa de um amigo. Rodrigo conheceu Arlindo durante uma visita à sua casa em companhia de um amigo em comum. A ideia de formar a banda veio de um amigo chamado Jorge. O mesmo sabia que o Arlindo era compositor e apaixonado por samba. A primeira apresentação foi num lugar chamado “PLAYERS” e ali nascia oficialmente o grupo Sambajah. Sambistas brasileiros mantendo a chama acesa do samba na terra do Tio Sam.

O nome do grupo foi criado por Lindemberg Jr., editor da revista Soul Brazil, que sugeriu o nome, em que seria a combinação do “Jah” que significa Deus na Jamaica e a sonoridade do “já” de agora. Entre 2005 e 2009 o grupo se apresentou em várias casas noturnas da Califórnia e Los Angeles. Setembro de 2009 Arlindo e Rodrigo voltam ao Brasil. Querendo dar continuidade ao trabalho, resolveram chamar outros três músicos, Izael (voz), Sidnei (violão) e Anderson (percussão), assim formando a nova composição do grupo.

Segue abaixo entrevista exclusiva com o Sambajah para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 01.12.2011:

01) Ritmo Melodia: Qual a data de nascimento dos membros da banda Sambajah?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Eu nasci no dia 28/10/1972, em Recife – PE.  Rodrigo F Mariano – Banjo – Eu nasci em São Paulo no dia 04/05/1981. Sidnei – Violão – Eu nasci em São Paulo no dia 03/12/1979. Anderson – Cavaco – Eu nasci em São Paulo no dia 22/10/1985. Izael – Pandeiro e Voz – Eu nasci em Santos no dia 13/04/1982.

02) RM: Como foi o primeiro contato com a música pelos membros da banda?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista: Meu primeiro contato foi em casa. Primeiro com as músicas evangélicas ou gospel. E na casa das minhas tias, com o Samba. Eu, desde os cinco anos de idade, assistia de tudo na TV. E na minha adolescência ouvi muita música. Eu acordava de madrugada para ouvir rádio em Recife-PE. Eu lembro que às quatro da manhã tinha um programa só de músicas da Jovem Guarda e às cinco da manhã; começava o de Samba. Isso na década de 80. Eu acordava diariamente com essa missão.

Sambajah – Rodrigo F Mariano – Banjo – Ouvindo Samba em casa: Martinho da Vila, Bezerra da Silva. Depois em Rodas de Samba na esquina de casa, cantando com os amigos.

Sambajah – Sidnei – Violão – Meu primeiro contato com música foi aos sete anos de idade, dublando grupos como Dominó, Menudos e outros. A partir desse momento fui me interessando pela música ao vivo.

Sambajah – Anderson – Cavaquinho – Meu primeiro contato musical foi na infância, na casa de um amigo! Depois nunca mais larguei o Cavaco.

Sambajah – Izael – Pandeiro e Voz – Meu pai é músico, as minhas tias e os meus primos sempre cantaram, ou seja, a musicalidade já está no sangue. E sou primo de Agostinho dos Santos, um ícone da MPB na década de 70.

03) RM: Qual a formação musical e acadêmica, fora música, dos membros da banda?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Eu sou formado em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas desde 1996.

Sambajah – Rodrigo F Mariano – Banjo – Musical: Cavaquinho – Conservatório Musical Oreste Sinastra – 6 meses.  Acadêmica: Pós Graduado Marketing/Negócios – Orange Coast College. Graduação Marketing – Universidade Mackenzie.

Sambajah – Sidnei – Violão – Formação musical foi na Academia Musical Eldon por quatro anos. Trabalho fora da música como consultor de vendas (Grupo Sinal Veículos).

Sambajah – Anderson – Cavaquinho – Meu estudo musical é como autodidata. E minha formação escolar, conclui o ensino médio.

Sambajah – Izael – Pandeiro e Voz – Eu escuto de tudo. Aprendi tudo tocando na noite e no meio musical gospel, que é uma escola impecável. Fiz um ano de Artes Cênicas na PUC-São Paulo.

04) RM: Quais as influências musicais no passado e no presente? Quais que deixaram de ter importância?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Eu que sou nascido e criado em Recife – PE tenho muita influência musical em todos os sentidos. Eu considero Pernambuco o Estado mais cultural do Brasil. Temos Coco, Ciranda, Maracatu, Caboclinho, Frevo, Forró. Então, desde criança cresci ouvindo Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, etc. Na casa das minhas tias eu comecei a ouvir Samba: Beth Carvalho, Alcione, Noite Ilustrada, Clara Nunes, Agepê entre outros. E na adolescência o samba entrou mesmo na alma, através do Grupo Fundo de Quintal, que foi a minha referência maior. Alguns artistas não reciclaram ou até não tiveram a mesma oportunidade, sendo assim a obra do passado continua sendo referência, mas a mudança ou a nova proposta não me chama mais a atenção.

Sambajah – Rodrigo F Mariano – Banjo – Passado: Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Leci Brandão, Beth Carvalho, Almir Guineto, etc

Presente: Seu Jorge, Djavan, Arlindo Cruz (apesar do passado), tem influenciado muito o samba no presente, Quinteto em Preto e Branco, todos os grupos que ainda mantém a essência do Samba nos dias atuais. Deixaram de ter importância: Todos os grupos levados ou induzidos pelo modismo do samba, assim como de outros ritmos musicais, fugindo totalmente da origem dos mesmos.

Sambajah – Sidnei – Violão – Influências musicais são várias. Cresci ouvindo música Sertaneja, Pagode, Bossa Nova. Atualmente ouço muito: Ed Motta, Jorge Vercilo, Maria Rita entre outros da nossa MPB. Na verdade as músicas que fizeram parte do meu crescimento musical não deixaram e não deixarão de ter importância para mim.

Sambajah – Anderson – Cavaquinho – Só Preto sem PreconceitoGrupo RaçaTrio Esperança, Grupo Relíquia. E hoje ouço Turma do Pagode, Sensação, Maria Rita e Marcelo D2.

Sambajah – Izael – Pandeiro e Voz – Passado: Fundo de Quintal, Agostinho dos Santos, Jackson Five, Ray Charles, Candeia, Cartola, Clara Nunes, Elis Regina, etc.

Presente: Seu Jorge, Djavan, Rodriguinho, Pregador Luo, Rappin Hood, Maria Rita, Raiz Coral, Tom Carf, Sulamita, Sambajah, Jeito Muleke, MR. Dam e muito mais. Só o que me deixa triste são esses grupos sem qualidade que estão na cena por causa da grana. Mas o que é bom fica  e o que não é, não tem dinheiro que segure.

05) RM: Quando, como e onde começou a banda? Como foi a escolha do nome?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Alguns podem chamar de sorte e outros destino, mas o que mais importa é que Deus permitiu que músicos de diferentes partes do Brasil se encontrassem em outro continente, mais especificamente na Califórnia – EUAEu e Renato Vasconcelos (Cupim) nos encontramos em 2004 quando Cupim foi até a minha casa para consertar o meu carro. No som tocava uma música do grupo Fundo de Quintal, e ali descobrimos que tínhamos um ponto em comum. Mais tarde, eu encontrei Ricardo (Gargamel), um dos fundadores (não pertence mais ao grupo), quando estava participando de uma festa na casa de um amigo. Rodrigo me conheceu durante uma visita à minha casa em companhia de um amigo em comum. A ideia de formar a banda veio de um amigo chamado Jorge. O mesmo sabia que eu era compositor e apaixonado por Samba. A primeira apresentação foi num lugar chamado“PLAYERS” e ali nascia oficialmente o grupo. O nome do grupo foi criado por Lindemberg Jr., editor da revista Soul Brazil, que sugeriu o nome “Sambajah”, em que seria a combinação do “Jah” que significa Deus na Jamaica e o “já” de agora.

06) RM: O nome Sambajah não é confundido como banda de Reggae?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Realmente algumas pessoas perguntam se existe a ligação com o Reggae e temos que explicar que éramos um grupo brasileiro que começou uma história no exterior e aceitamos o nome, por sugestão do Lindemberg da revista Soul Brasil, que achou que o nome traria um impacto maior e seria muito bem aceito, tanto pela comunidade brasileira no EUA, como pela internacional.

07) RM: Fale do primeiro CD lançado  e qual o ano de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Quais as músicas que se destacaram?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Gravamos o primeiro CD no ano de 2007 para 2008. Fizemos uma releitura dele no Brasil acrescentando uma nova canção chamada “Pega Pega” e fizemos também uma nova capa com as fotos dos novos integrantes. O título do CD – City of Jah. Produzido pelo Arranjador e Maestro Denys Cristian. As bases foram gravadas no Brasil e a parte vocal na Califórnia – EUA. Este álbum coroa toda uma trajetória iluminada de um grupo que acreditou em seu potencial. Sem perder a identidade, trouxe elementos de hip-hop para o mundo do samba. Contou com a presença ilustre de convidados especiais como: “Verbal Threat” (grupo de rap de Los Angeles), Marcinho (Art Popular) e Rappin Hood na música Origem. Na canção romântica “Sunset” contaram com a presença do cantor Ryan Burk, e num tributo a James Brown lançaram a música “Vem de Carona” que traz a voz do inconfundívelPimpolho (Art Popular), sem contar outras composições próprias da banda como: “Rosa” e “Pensando em você” que trazem a face romântica do Sambajah. E merecem ser citadas as canções “Expresso 2222” do ícone Gilberto Gil e o partido alto “Batucada”, do grande compositor Ademir Fogaça. Realmente uma celebração à Música Popular Brasileira, demonstrando toda a paixão ao nosso samba.😎 RM – Como você definem o estilo musical da banda dentro do samba?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Nós procuramos não nos rotular como o grupo de Pagode ou Samba de Raiz. Até porque sou do tempo que Samba é o estilo musical e Pagode é a festa, é a manifestação dos sambistas. Procuramos tocar música de qualidade. Tocamos desde o samba de raiz, passando pelo samba soul, samba rock até chegar no samba estilizado que é chamado popularmente e, às vezes até de forma pejorativa, de Pagode. Nosso cuidado maior é de tocar o que tem qualidade sem apelar. Eu encho a boca pra falar que somos sambistas e a minha escola no Samba foi o Grupo Fundo de Quintal, com muito orgulho.

09) RM: Arlindo, como você se define como cantor/intérprete?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Se eu for fazer uma autoanálise eu me defino primeiro como Compositor, depois cantor e por último um ritmista ou percussionista. Mas eu me considero tanto cantor, como intérprete, pois além de me considerar afinado, ter ritmo e uma voz razoável, também eu procuro colocar sentimento em todas as músicas que eu canto.

10) RM: Você estudou técnica vocal?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Nunca tive uma aula individual ou direcionada, minha experiência com aula de técnica vocal foi através do canto coral. Meus pais são evangélicos e eu, ainda jovem, comecei a cantar em coral de Igreja. E tive a oportunidade de ter tido uma grande professora chamada Noemi Monteiro que nos ensinou a respirar corretamente, usando o diafragma e também nos passou muita coisa de técnica vocal, trabalhando a articulação e sempre buscando a boa dicção. Mas pretendo num futuro próximo ter um professor particular de técnica vocal.

11) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Não são poucos. Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Cartola, Djavan, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Steve Wonder, Zeca Pagodinho, Altemar Dutra, Nelson Ned, Marisa Monte, Alicia Keys, Alcione, Beth Carvalho, etc.

12) RM:  Como é seu processo de compor? Quem são seus parceiros musicais?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Eu componho de diferentes maneiras. Na maioria das vezes começo a solfejar uma melodia que me veio na cabeça e em seguida crio uma letra em cima. Mas acontece o contrário algumas vezes, de escrever uma letra e depois colocar a melodia. Rola também de sonhar já com uma melodia e acordar para escrever. Eu gosto muito da parceria. São pouquíssimas músicas feitas só por mim. Sempre acho que o parceiro vai acrescentar algo importante. São tantas as vezes que o parceiro vem com uma palavra ou frase que enriquece a canção, porque muitas vezes você chega a um ponto de criação que não consegue mais evoluir. Por isso a importância da parceria. Conheço basicamente a característica de cada parceiro. Quando eu começo a criar uma música, eu meio que já sei com quem vou terminar. Tenho compositores que escrevem comigo em diferentes estados brasileiros, mas a maioria é deRecife, pois foi aonde eu comecei a escrever e boa parte dos artistas de samba do cenário Pernambucano me conhece. Difícil lembrar todos, mas vou pelo menos citar a grande maioria,espalhados pelo Brasil: Izaias do Cavaco, Jamelão do Cavaco, Marcos Almeida, Flavinho Santos, Flavinho Silva, Christovão Nascimento, Fernando Paz, Jaílson Nunes, Marcelo SR, Osvaldo Jr , Júnior Formiga, Rappin Hood, Izael Santos, Rick de Carvalho, Ely Peroais, Riva Leboss, etc.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – A grande dificuldade para a carreira artística e musical é a falta de investimento e recurso financeiro. Se houver uma equipe forte, uma assessoria bacana e um patrocínio, você tem tudo para desenvolver uma carreira, independente de ter uma gravadora do seu lado. Em outra época havia o suporte das gravadoras que colocava os artistas nas rádios, vendia o  trabalho e facilitava em muito a vida do artista. Mas hoje a realidade é outra e temos que nos adequar. E ter fé em Deus e buscar sempre um melhor lugar ao sol.

14) RM: Como você analisa o cenário do samba? Em sua opinião quem foram as revelações nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Como em todos os estilos musicais, sempre acontece um período de febre ou modismo, em que um gênero se sobressai de alguma forma. Quem gosta de Samba de verdade nunca deixou de seguir ou abandonou. Na década de 90, quando no auge do movimento do “Pagode”, que é o termo mais utilizado para o Samba estilizado, houve um grupo que massificou bastante o gênero e chamou a atenção do público em geral que foi o grupo Raça Negra. Muita gente foi no embalo, inclusive grupos musicais que não tinham nenhuma referência com o samba, aproveitaram o momento e seguiram aquela tendência.

Eu particularmente não gosto de diferenciar Samba de Pagode. Sou da época em que o samba era o gênero musical ou estilo. E o Pagode era a manifestação (o espaço físico que rolava a festa) do samba, ou seja, era a festa. Mas de uns tempos para cá, a expressão “pagode “ganhou um contexto pejorativo. Muitos falam: “Eu gosto de samba, não de pagode”. Eu respeito, mas tenho uma ótica diferente. Mas sem dúvida as minhas referências sempre foram os mais antigos e eu escuto muito mais o Samba de Raiz do que o estilizado ou pagode, como queiram chamar. Mas tem muita coisa nova boa que eu adoro ouvir. Eu comecei ouvindo samba na casa das minhas tias. Que sempre curtiram a Beth Carvalho, Alcione, Martinho da Vila, etc. Mas na minha adolescência foi quando eu realmente me apaixonei pelo gênero. Foi quando conheci a obra do Grupo Fundo de Quintal, que até hoje para mim é a referência número um. Tanto que o formato da grande maioria dos grupos de Samba ou “Pagode” vem de uma linha criada pelo Fundo, que é o Cavaquinho, Banjo, Violão, Repique, Tantan e Pandeiro. Eu lembro que eu e o meu primoEnéas, ainda adolescentes, enlouquecemos com as composições do Fundo. O Partido Alto com os versos sempre ricos em rima. Pouco depois se formaram os grupos na rua, no bairro. Na periferia de Recife, na época, o Samba já era muito forte. Bem antes de se tornar aquela febre.

Nossas referências em termos de grupos nacionais eram o: Grupo Fundo de Quintal, Só Preto Sem Preconceito e o Grupo Raça, todos do Rio de Janeiro (Não o Raça Negra, que só surgiu anos depois). Os grupos de São Paulo surgiram depois. Cito: Exaltasamba, Katiguele, ArtPopular (que participou do nosso CD inclusive), Negritude Jr, Sensação, etc. O Grupo Fundo de Quintal pra mim até hoje é aquele que conseguiu manter um nível de qualidade que ainda é modelo. Claro que mudaram bastante desde a primeira formação. Já passaram pelo grupo: Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha, entre outros. Mas a qualidade continua e essa rapaziada que veio do movimento do Cacique de Ramos, que é um bloco carnavalesco antigo do Rio de Janeiro, que criou um movimento que revelou muita gente boa. Inclusive o próprio Zeca Pagodinho, que é um ícone no Samba.

Alguns grupos regrediram ou deixaram de existir. Mas não é só uma questão musical. O mercado muda muito. Às vezes tem um time bom, mas, por exemplo, o vocalista é convidado para uma carreira solo e deixa o grupo. Na maioria das vezes afunda a banda e não consegue ter sucesso na nova missão. Continuo gostando de ouvir: Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Lecy Brandão, Alcione, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Sombrinha, Almir Guineto e outros que não me lembro agora. E da geração mais recente gosto do Grupo Revelação, Dudu Nobre, Quinteto em Branco e Preto, Grupo Bom Gosto, etc.

15) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Vou comentar aqueles que eu tenho a oportunidade de vivenciar de perto, e também tenho algum grau de amizade. São muitos o que admiro, mas vou citar dois que tenho uma convivência próxima e conheço nos bastidores: Grupo Fundo de Quintal, Rappin Hood e a dupla Caju e Castanha. Poderia citar uma lista imensa, mas sem conhecer o caráter de alguns, prefiro não me arriscar.

16) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Foram várias. Lembro que fizemos um show na Califórnia na cidade de Santa Bárbara para uma única pessoa. Nós brincamos na banda que o único consolo era que a mulher era maravilhosa. Um avião (risos). Outra vez nos Estados Unidos mesmo, eu passei um pouco mal no avião por comer um “bendito” amendoim de estômago vazio e a rapaziada, que não perdoa, me zoou muito. Nessa mesma viagem, não tínhamos dinheiro para o hotel e dormimos próximo ao aeroporto de Sacramento, dentro do carro, até amanhecer e chegar a hora do voo de manhã. Demos muita risada, pois um ex-componente, O Cupim não suportou o ronco da rapaziada e forrou jornal na grama e dormiu ao ar livre.

Eu tenho a fama de sempre dormir quando eu entro no carro, cansado do show. E os caras me sacanearam uma vez. Chegaram ao hotel, me deixaram dormindo dentro do carro e foram para os quartos. Acordei assustado depois (Risos). Aqui no Brasil aconteceu da gente participar de um show beneficente, no aniversário de uma Rádio, como uma das atrações principais da festa, e no final todos os outros artistas fizeram show certinho. Na hora de cantar, não tinha microfones suficientes. Nós já estávamos atrasados para um segundo compromisso. Terminamos fazendo playback de duas músicas e vendo a galera esvaziando o salão. Foi desastroso, pela falta de comunicação, etc.

Mas temos um carinho muito grande por essa rádio que nos acolhe sempre super bem. Pessoas maravilhosas. Tocam nossas músicas sem cobrar jabá. Que já merecem aplausos por isso.  Além da audiência bacana. Não poderíamos deixá-los na mão. Às vezes na vida temos que fazer sacrifício.

17) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – O que deixa feliz é poder fazer o que gosto e realizar um sonho que é o de cantar música de boa qualidade. Além do prazer pessoal de cantar a música autoral. Ver as pessoas cantando o que você criou. Não tem preço. O que me deixa triste é a falta de oportunidade para a maioria. É o pré – julgamento da tua obra, sem nunca mesmo ter parado para ouvir. Se você não tiver recurso para divulgar o seu projeto musical, são poucas as chances de alcançar o sucesso. A não ser que Deus queira mesmo. Dessa forma ninguém segura. Ao contrário é melhor se preparar para sofrer. Mas o importante é ter a cabeça erguida, fazer o seu melhor e nunca desistir.

18) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Eu tenho uma composição inédita que fiz com o parceiro Jaílson Nunes que responde um pouco dessa pergunta e retrata o que é basicamente a cena musical de Recife. Faço questão de escrever a letra:

SOU DO RECIFE AONDE O SAMBA PEGA FOGO ATÉ DE MADRUGADA

SOU DO RECIFE AONDE AS PRAIAS E OS COQUEIROS FAZEM MINHAS MANHAS

NÃO VEJO A HORA DE TOCAR MEU CAVAQUINHO , DE PEGAR O PANDEIRO E O TAMBORIM

O TIRA GOSTO E A MULHERADA VAI CHEGANDO E A FESTA NÃO TEM FIM

JÁ FUI DO XOTE, DO XAXADO, MANGUE BEAT E DO CABOCLINHO

LÁ NO ENSAIO DA MINHA ESCOLA DE SAMBA DANCEI O MIUDINHO

SE VOCÊ NÃO CONHECE O RECIFE NÃO SE APAVORE EU TE MOSTRO O CAMINHO

 TEM BATUCADA, SAMBA, ROCK, HIPHOP E O NOSSO CHORINHO

EU GOSTO DE UMA CIRANDA, DO COCO E MARACATU

DO FORRO QUE ME SACODE NAS NOITES DE SÃO JOÃO

DO FREVO LÁ DOS BATUTAS, MADEIRA QUE NÃO DÁ CUPIM

MAS O SAMBA FOI RESOLVER GOSTAR DE MIM.”

Eu sou suspeito para falar, mas o Estado de Pernambuco é o mais cultural do mundo em minha opinião. Inclusive o nosso carnaval também é o mais democrático. No Recife Antigo, que é o centro antigo do Recife, você, no mesmo dia, consegue visitar diferentes pólos culturais. Frevo, HipHop, Rock, Samba, Maracatu, etc. Essa coisa me fascina. Eu cresci ouvindo os ritmosPernambucanos. Na música que eu citei acima é a realidade realmente da minha vida. Recife foi a minha grande escola. Inclusive foi em Recife mesmo que tive as primeiras experiências com instrumentos de samba. No Pagode do Didi, roda de samba tradicional, local que a maioria dos artistas de samba locais teve seu primeiro contato com roda de samba. Ainda é uma escola para todos. Também não posso deixar de citar o Refúgio da Vanda, tradicional casa de samba que começou a levar os artistas que vinham do Rio de Janeiro e São Paulo para o Recife. Muitos antes de serem famosos nacionalmente.

19) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Eu recomendo o Zé Brown que é Rapper e Repentista Pernambucano que tem um trabalho belíssimo, que coincidentemente nasceu no Alto José do Pinho que fica em cima de onde eu nasci e me criei que é a Mangabeira. Conhecíamos-nos de vista, mas estreitamos a nossa amizade através do Rappin Hood e um dos seus produtores, oMarcivan Menezes, que também trabalha com a gente.  A dupla de emboladores Caju e Castanha, que para mim são os melhores do gênero, de quem eu sempre fui fã e tive a felicidade de me tornar um amigo, através do próprio Zé Brown.  Muita gente conhece o Alceu Valença da MPB, mas precisa conhecer o outro lado do Artista Alceu Valença. O do Frevo. Que é uma das marcas registradas do carnaval Pernambucano.

Eu sou amante do Hip-Hop e do Rap. E para os que têm identidade ou admiração pelo seguimento, também sugiro ouvir: Racionais Mc, Rappin Hood, Mv Bill, Marcelo D2. Dos internacionais: Nas, Tupac, B.I.G, 50 cent e outros. No samba todos que eu já citei. Os mestres Cartola, Candeia, Clementina de Jesus, Donga, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Silas de Oliveira, Done Ivone Lara. E também : Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Almir Guineto, Jorge Aragao, Lecy Brandao, Beth Carvalho, Alcione, Martinho da Vila e tantos e tantos outros….

20) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Que vai tocar nas rádios eu tenho certeza. Agora se vamos conseguir tocar nas rádios populares (FMs) e de grande audiência sem o jabá é outra pergunta. A realidade hoje diz que é uma missão quase impossível tocar sem esse “pequeno” incentivo. Mas o Sambajah está aí para superar obstáculos e vencer barreiras e graças a Deus existem pessoas que confiam no nosso trabalho. Além dos familiares e amigos, que não são poucos, nós temos alguns colaboradores e patrocinadores que não poderíamos deixar de citar. Nosso webdesigner Francis Farago. E CONTEMPORÂNEA INSTRUMENTOS MUSICAIS, que é sem sombra de dúvidas, o melhor fabricante de instrumentos percussivos do mundo.

21) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Ter foco, pesquisar e estudar. Ouvir bastante conselho dos que já alcançaram um patamar um pouco melhor que o seu. Ouvir música sem preconceito.  Confiar no que faz. É importante ter um senso crítico e sempre buscar melhorar, principalmente quando as pessoas começarem a bater nas suas costas dizendo que você é muito bom. Não cai nessa. Melhor aquele que faz a crítica construtiva. Conhecer pessoas influentes ou ter amigos famosos não te assegura nada. Você que tem que plantar e colher o teu próprio fruto. Para os que acreditam: Fé em Deus. Não desistam nunca. Essa é a minha mensagem.

22) RM: Fale de sua vivencia nos EUA. Quais os prós e contras de morar em outro país?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Eu morei quase sete anos nos EUA. Não fui inicialmente com um projeto musical ou com a ideia de formar banda ou coisa do tipo. Fui com o sonho americano de ter condições melhores e aperfeiçoar o meu nível do Inglês. Já tinha familiares por lá. Meus irmãos vivem naquele País desde 1985 ou 1986.  Também fazia tempo que tinha terminado minha faculdade de Comunicação Social, então resolvi arriscar. Tive as dificuldades naturais de um imigrante com adaptação, tipo de comida e uma cultura bem diferente. Trabalhei de entregador de Pizza, Valet Parking, entregador de correspondência para empresas, Gráfica, etc.

Mas nesse período eu nunca deixei de exercitar a vocação de compositor e inclusive fazia música por telefone com os amigos do Brasil. Na época tinha um parceiro em Portugal, o Jamelão do Cavaco que também criava com ele por telefone e simultaneamente com o Christovão Nascimento do Brasil. Em seguida em encontrei o Cupim que veio consertar o meu carro e tava ouvindo uns sambas. Depois veio a ser meu vizinho e tocava um violão. E brincávamos um pouco. Eu costumava ir muito num Bar Brasileiro em Los Angeles chamado Zabumba, no qual rolava um sambinha. Aí, anos depois, batendo papo com os amigos veio a ideia de fazer uma festinha brasileira com pagode. Eu morava em Orange County que fica 40 minutos de Los Angeles e a galera estava meio carente de um agito brasileiro. Foi quando veio a ideia de formar o Sambajah com os amigos. Daí começou toda a história que contei no começo da entrevista. Vieram as viagens, a maturidade e diversos shows.

23) RM: Fale do seu Samba Enredo em homenagem ao Luiz Gonzaga?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – A Escola de Samba Unidos da Tijuca – Rio de Janeiro, resolveu homenagear o Grande Luiz Gonzaga neste carnaval de 2012. E por ser uma personalidade Pernambucana, a mesma resolveu abrir um espaço para que os compositores deste Estado participassem do processo seletivo, e tivessem a chance de ter um samba enredo escolhido para ser o oficial da Escola. Sendo assim me reuni, juntamente como mais dois amigos compositores. O Jaílson Nunes e o Flávio Santos, também pernambucanos, sendo que o segundo também mora aqui em São Paulo. E montamos essa homenagem ao Grande Rei do Baião, que é um patrimônio nacional na verdade.

Eu cresci ouvindo o Luiz Gonzaga: O “veio Lua”. E não foi difícil criar com emoção e verdade. Sentimo-nos muito honrados em compor para aquele que consideramos um gênio da Música Popular Brasileira. Verdadeiro mestre. O campeão da seletiva em Recife vai disputar a final com os escolhidos no Rio de Janeiro. Não sabemos ainda da nossa colocação, mas o mais importante foi homenagear o Rei da Sanfona. Um representante nato do povo humilde do Nordeste. Segue aqui o link do nosso samba para apreciação: http://www.youtube.com/watch?v=9hJGy2jW2ro

24) RM: Quais os seus projetos futuros?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – Inicialmente fortalecer o projeto já existente. Investir na possibilidade de trabalhar uma ou mais musicas do CD nas emissoras de televisão e de rádio. Futuramente gravar um DVD bem produzido com participações especiais. Também queremos voltar a fazer turnê nos Estados Unidos e conhecer o mercado Europeu que é muito receptivo para a música Brasileira de uma forma em geral.

25) RM – Contatos ?

Sambajah – Arlindo Junior – Vocalista – (11) 94759 – 3795www.sambajah.com.br

 

E-mail: [email protected]

[email protected]

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.