Renata Iacovino

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A cantora, compositora, escritora, poetisa paulista Renata Iacovino. Tem sete livros de poesias editados, três CDs para público infantil e quatro para público adulto.

Ilusões Amanhecidas (poemas), 1996; Poemas de Entressafra, 2003; Missivas (poemas), 2006, com Valquíria Gesqui Malagoli, com quem também lançou em 2007 o livro/CD infantil uniVerso enCantado; e Ouvindo o silêncio (poemas), 2009; ainda em 2009, com Valquíria, lançou o CD infantil De grão em grão e o livro Objeto OLHAR DIverso (haicais e fotos); em 2010, com a mesma parceira, o CD de CAntação de História Aprender e brincar; em 2012 publicou Música, Poesia e outros Baratos, livro de artigos sobre MPB e poesia, e em 2014 Ocasos e Renasceres, prosa e poesia.

Lançou dois CDs solo: 1 Rumo (1999) e Igualdiferente (2001); e dois em parceria com Valquíria: inVERSO (2010) e translúdico (2015).  É articulista do Jornal de Jundiaí Regional. Colabora com variados veículos de comunicação e obteve premiações em concursos literários. Participa de Antologias e é jurada de concursos literários.

Atua profissionalmente como cantora e violonista desde 1995, tendo se apresentado em São Paulo: em projetos da Prefeitura de SP; shoppings, praças, Livraria Saraiva, FNAC, espaços culturais, Sindicato dos Bancários, Associação Atlética Banco do Brasil, bares, restaurantes, eventos particulares, escolas, inaugurações na Rodoviária Tietê, casas de cultura, teatros, bibliotecas, anexo da Sala São Paulo, Praça Benedito Calixto (Projeto “O Autor na Praça”) e inúmeros outros locais; em Jundiaí, em projetos da Prefeitura, Virada Cultural, bares, restaurantes, supermercados, shoppings, bibliotecas, museus, praças, Senac, entidades assistenciais, teatros, eventos particulares, escolas, dentre outros. Alguns municípios que já percorreu com seus shows: Sesc-Piracicaba, Andradas-MG, São Caetano do Sul, Itatiba, Itupeva, Santana de Parnaíba, Atibaia, Itu, etc. Faz apresentações solo (voz e violão), em duo, trio e com banda. Integrante das entidades: Academia Jundiaiense de Letras, Academia Infantil de Letras e Artes de Jundiaí, Sociedade Jundiaiense de Cultura Artística e Grêmio Cultural Prof. Pedro Fávaro. Autora do Hino da Academia Jundiaiense de Letras. Atuou como Primeira Secretária em duas gestões (4 anos) na Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí. Organizou o livro 1ª Olimpíada de Redação – Ano 2005 / Os 35 anos da Biblioteca Pública Municipal Prof. Nelson Foot Jundiaí-SP. Em 2009 organizou a Antologia – Encontros de Defesa do Consumidor do Estado de São Paulo – 25 anos, lançado pela Fundação Procon/SP. Desenvolveu, juntamente com Valquíria as “Oficinas Pedagógicas de Educação Ambiental uniVerso enCantado” para educadores e alunos, no Estado do Amapá, com o patrocínio do Ministério Público e da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente e Conflitos Agrários daquele Estado.

uniVerso enCantado – o Musical, estreou na Sala Glória Rocha (Jundiaí/SP), encenado pelo Coral Estúdio Jovem, em setembro de 2009. Em parceria com Valquíria idealizou a CircuitoTeca, uma biblioteca itinerante e gratuita, projeto que levam a públicos e locais distintos. Foi uma das idealizadoras do Jornal Literário CAJU – saboroso e independente -, publicação mensal editada de 2009 a 2012 e que está sendo retomada em 2015.

Em 2011 executou, com Valquíria, o projeto “Galeria Literária”, criado e coordenado por ambas, numa realização da Prefeitura de Jundiaí, com exposições e instalações sobre oito autores de renome da literatura nacional. Em 2012, o mesmo projeto ganhou a versão infantil, intitulando “Galeria Literária Infantil”.

Em 2013 e 2014, ambas ministraram o curso “Chico em verso, prosa e música”, pela Secretaria Municipal de Cultura de Jundiaí, projeto idealizado pela dupla. Organizou e redigiu o livro 35 anos do Procon-SP (2011). É uma das fundadoras da Confraria Japi de Haicai. Vem, continuamente, ministrando oficinas, cursos, realizando saraus, CAntações de história e atividades afins em vários espaços e localidades, para os públicos adulto e infantil. Participou de festivais, ministrou aulas de violão particulares e aos internos da FEBEM-SP, no Tatuapé, quando lá trabalhou.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Renata Iacovino para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.11.2015:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Renata Iacovino: Nasci no dia 16 de março de 1968 em Jundiaí – SP

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Renata Iacovino: Fui aprender o primeiro instrumento musical, o Piano, por volta dos 8, 9 anos de idade. Mas em seguida fui aprender Violão popular, o que me estimulou o gosto por cantar e por conhecer músicas de nosso cancioneiro. Comecei a prestar atenção em intérpretes e em compositores da MPB.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica (Teórica)?

Renata Iacovino: Fiz um pouco de Piano e depois Violão popular. Iniciei o clássico, mas o que eu queria era cantar e o que ia me propiciar isso era o Violão popular. Estudei com professores particulares em Jundiaí – SP. Mas depois segui muito mais pela via intuitiva e de ouvido do que a teoria, em si. A técnica vocal eu estudei em São Paulo, fiz aulas a cantora Eliete Negreiros durante 10 anos. Mas estudo e aperfeiçoamento não cessam. Eu cursei Ciência Sociais pela PUC-SP. E foi pela minha formação acadêmica que prestei concurso público e exerço o cargo ligado à humanas na defesa do consumidor e cidadania. Os artigos que escrevo têm influência da minha formação.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Renata Iacovino: Minhas primeiras influências marcantes foram os compositores e intérpretes da MPB. Nos anos 80 eu ouvia avidamente Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa. Além dos compositores do nordeste, pois à época foi lançado o Movimento Musical Brasileiro, buscando resgatar essa safra de autores e cantores. Eu ouvia muito Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Zé Geraldo, Ednardo, Elba Ramalho. Mas também gostava muito de Rita Lee. Acho até que foi por meio dela que cheguei à MPB, quando foi lançado aquele disco com a música “Mania de você”. E também aqueles grupos e artistas que começaram a despontar em meados da década de 1980. Marina Lima, Lobão, Kid Abelha, Metrô, Blitz, Paralamas do Sucesso, RPM, Sempre Livre. Fui descobrindo que na verdade meu gosto não era muito direcionado. Eu gostava de coias diversas. E ouvindo Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, descobri compositores mais antigos, como Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Cartola, Herivelto Martins, Dolores Duran. Depois descobri a Bossa Nova, a Tropicália, o Jazz. Eu ouvia tudo isso e sempre estava atenta a algo novo que surgisse. E sempre gostei de descobrir novidades, lançamentos. Minhas referências continuam sendo Chico Buarque, Caetano Veloso, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Elis Regina, Maria Bethânia.

05) RM: Quando, como e onde  você começou a sua carreira musical?

Renata Iacovino: Antes de 1995 eu me apresentava com Voz e Violão informalmente em festinhas, às vezes em bares, dando uma canja, em reuniões de amigos. Mas em março de 1995 fiz minha primeira apresentação profissional a convite do jornalista Celso de Paula, que estava coordenando as atividades de um espaço cultural montado dentro de um supermercado, em Jundiaí-SP. Daí em diante eu não parei mais. Fiz outras apresentações lá e comecei a agendar shows em bares e restaurantes de Jundiaí e São Paulo (onde eu já morava).

06) RM: Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações).? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Renata Iacovino:São 3 CDs Infantis (letras: Valquíria Gesqui Malagoli; músicas: Renata Iacovino): “uniVerso enCantado” – livro/CD infantil (2007) que, com o apoio da Secretaria Municipal de Educação e Esportes de Jundiaí, foi distribuído graciosamente para setecentos (700) alunos da rede pública municipal de ensino de Jundiaí/SP e depois, em 2008, material base para as “Oficinas Pedagógicas de Educação Ambiental” que as autoras desenvolveram junto a educadores e alunos, em Macapá, com o patrocínio do Ministério Público e da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente e Conflitos Agrários do Estado do Amapá; adaptado (roteiro: Valquíria – arranjos: Patrícia Gasparin – direção cênica: Mariana Pincinato) para a versão musical, estreou na Sala Glória Rocha, em Jundiaí/SP, no dia 27 de setembro de 2009. Os músicos que participaram foram: Márcio Menuchi (bateria), Cassiano Roque (contrabaixo), Leandro Troiani (guitarra e violões), Jean Bertoli (sax alto), Rodrigo Ribeiro (viola) e Renata Iacovino (vocal). “De grão em grão” – CD infantil (2009), cujo conteúdo serviu de mote para as oficinas de capacitação pelas autoras ministradas para educadores e demais funcionários das creches de Jundiaí, numa promoção da Secretaria Municipal de Educação e Esportes. O CD foi gravado com voz, violão e percussões, com as participações de Renata Iacovino, Valquíria Gesqui Malagoli e Raquel Gesqui Malagoli. “Aprender e brincar” – CD de CAntação de história (roteiro e letras de Valquíria; músicas e interpretação de Renata) – 2010. A percussão contou com a participação especial da professora Karen Comandulli e os vocais com crianças da Escola de Música Pio X, além de Renata na voz e no violão.

4 CDs para adultos: “1 Rumo” (1999); um single com 4 canções, todas de minha autoria, exceto o poema “Gandaia”, de Bruna Lombardi, poema por mim musicado. Participações especiais de Celso Nascimento (percussão), Renato Santoro (violão), Atílio Marsiglia (violino) e Beto Sporleder (sax). Arranjos de base de Petch Calasans“Igualdiferente” (2001); contendo 2 regravações e mais 9 composições minhas, sendo algumas com parceiros diversos. Samba, jazz e rock são alguns dos ritmos encontrados. Músicos: Sergio Cruz e Dino Daia“inVERSO” (2010); o repertório traz doze faixas com letras de Valquíria Gesqui Malagoli e músicas de Renata Iacovino, que também interpreta as canções e fez a direção musical. A valorização da palavra, da língua portuguesa, dos versos, da poesia e dos elementos a esta ligados, sempre estiveram presentes nas criações de Valquíria e Renata, que possuem uma vasta obra em prosa e poesia. Aqui não é diferente. O cuidado com a composição das letras é acompanhado de perto pela melodia e pelo ritmo idealizado para cada música.

O CD conta com a participação especial do coral “Divino em Canto”, sob regência de Cláudia de Queiroz, na faixa “Trenzinho”. Demais músicos que participam: violão nylon (Renata Iacovino); guitarra, violões aço e nylon (Marco Malagodi); contrabaixo (Cassiano Roque); saxofones e flauta transversal (Dinho Fonseca); gaita (Rodrigo Ribeiro); bateria (Phall Colombera); percussão (Pedro Ivo); pandeiro (Michel Danon). “translúdico” (2015); mais uma parceria entre Valquíria e Renata, sendo que desta vez a letrista Valquíria compôs, também, duas das músicas. “translúdico” traz arranjos de cunho bastante contemporâneo, sem deixarem de ser atemporais. Tendo a MPB como alicerce, podemos encontrar variados ritmos que desfilam ao longo do CD. Blues, Samba, Reggae, Rock, Baião, toada, Pop, tudo vai se alinhavando de maneira a nos trazer a sensação de querer ouvir mais e mais. O CD foi gravado no estúdio Batuke, em São Paulo e contou com o competente trabalho do produtor, engenheiro de som e músico Sergio Cruz, responsável pela produção musical, arranjos, mixagem e masterização, além de ter tocado em todas as faixas. Não sei identificar quais músicas de cada CD o público mais apreciou ou aprecia. Isso varia muito, as opiniões são bem diferentes.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Renata Iacovino: Minha influência direta é da Música Popular Brasileira no que ela tem de variado. Tenho uma veia romântica bastante forte. Procuro valorizar o lirismo da canção, o aspecto melódico, e não privilegio apenas o ritmo, o que me parece uma tendência atual.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Renata Iacovino: Atualmente componho muito mais músicas para letras que me entregam, do que ambas feitas por mim. Gosto de trabalhar em cima da palavra, é por aí que me guio e a partir de uma letra existente eu vou tendo ideias. Às vezes leio, releio, pego o violão, experimento algo. Pode ser que saia de imediato algo pronto. Ou não. Outras vezes sai uma música que depois eu modifico. Ou às vezes demora mais. Eu tenho que ficar experimentando até aquilo me convencer. Mas na maioria das vezes não faço muitas alterações, acabo preservando a ideia inicial. Se ela é boa para mim, claro.

09) RM: Quais são seus principais parceiros musicais?

Renata Iacovino: Valquíria Gesqui Malagoli é a letrista/poeta com quem mais faço músicas. Tenho outro parceiro que é o Carlos Thompson e outros menos frequentes. Nas parcerias tem de haver uma identificação, uma química.

10) RM: Como começou a sua parceria musical e os projetos com Valquíria Gesqui Malagoli?

Renata Iacovino: Conheci a Valquíria Gesqui Malagoli quando ela fazia revisão e alguns outros trabalhos para uma revista de literatura em Jundiaí-SP. Eu escrevia pra essa revista. E ela acompanhava meu trabalho como cantora. Até que nos conhecemos por ocasião do lançamento de seu primeiro livro de poemas, em 2005. Ela me convidou para escrever a orelha do livro “Versos versus Versos”. Nossa afinidade começou aí, quando já se estabeleceu nossa primeira parceria de composição musical, com o livro-CD – “uniVERSO enCANTADO”. Com poesias dela que musiquei para crianças. Depois veio um livro de poemas a 4 mãos, “Missivas”, todo escrito por meio de troca de emails e no qual deixamos em suspense para o publico, quem escreveu o quê. Ela sempre foi uma exímia poetisa de versos metrificados e eu não, aprendi muito com ela nesse quesito. E acabei influenciando-a com minha poesia livre. Depois vieram as oficinas que ministramos para publico infantil e adulto os saraus e recitais. Mais livros e CDs em parceria. Um projeto de nossa autoria chamado CircuitoTeca, que é uma biblioteca itinerante. E a Confraria Japi de Haicai, que fundamos há alguns anos a partir de oficinas de Haicai que ministramos.

11) RM: Você estuda técnica vocal?

Renata Iacovino: Hoje faço exercícios de respiração e demais estudos, sozinha. Estudei com professor durante 10 anos. Fiz aulas de técnica vocal durante dez anos com a cantora Eliete Negreiros. Fui aluna, cantor e compositor Tato Fischer.

12) RM: Qual a importância do estudo da técnica vocal e os cuidados com a saúde vocal?

Renata Iacovino: É fundamental! A voz é um instrumento, como qualquer outro. Aliás, é um instrumento muito mais vulnerável que os demais, pois está dentro da gente. Se não estamos bem emocionalmente ou estamos cansados, estressados, tudo isto reflete de imediato no canto. O resultado é perceptível. E como a voz e a garganta, principalmente hoje em dia, em que nos grandes centros a poluição e o ar seco nos deixam sempre doentes, merecem cuidados especiais, se não temos conhecimento de técnicas, não sabemos como lidar com isso. Outra questão muito importante é a respiração. Tomar conhecimento do que faz bem e do que faz mal, do que é mito e do que é verdade, é muito importante para quem quer tratar da voz profissionalmente.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Renata Iacovino: A vantagem é o alcance que isto tem, com o advento da internet. Você pode atingir um número incalculável de pessoas num tempo mínimo. Mas essa rapidez também favorece uma circulação maior de produtos, ou seja, é mais difícil você se manter ali durante um tempo, porque o mercado é fugaz, é ágil e as pessoas estão sempre querendo ver e conhecer novas coisas. Hoje em dia as pessoas não têm muita paciência em se fixar em algo durante muito tempo, ou aprofundar um conhecimento sobre aquilo. Outra vantagem é você fazer seu trabalho com a sua cara, dentro do tempo que planeja e do jeito que idealiza. Claro que tudo isso depende muito de dinheiro, também. No entanto, é possível desenvolver projetos em formatos menos custosos. Enfim, tudo vai depender do que se quer realizar e do quanto se dispõe para isso. Essa questão do “independente” também mudou ao longo dos anos. Há uns 20, 30 anos, ser independente era não ter estrutura, nem apoio; era andar com as próprias pernas sem nenhuma espécie de favorecimento ou apadrinhamento, quando se optava ou não se tinha a chance de ter um vínculo com gravadoras e/ou produtoras. Hoje praticamente tudo é “independente”. Só que dentro desse tudo, há os que obtêm uma chance maior, por ser filho, sobrinho, neto, pai de músico, de artista. As oportunidades não são iguais, mas o conceito é esse, de que somos independentes. Penso que o independente é aquele que não tem outro meio, a não ser por si só, de obter uma chance, isto é, exclusivamente pelo seu talento e trabalho. O que é bastante difícil, pois num mundo capitalista e consumista, obter méritos exclusivamente por talento e trabalho é um pouco contraditório. Posso estar sendo pessimista, mas é o que observo e sinto na pele. Para as portas se abrirem é necessário você ter “algo mais”, que não necessariamente seja talento. Não que quem tenha talento e não esteja batalhando não consiga oportunidades, mas creio que seja exceções, uma minoria. O número de acessos que um videoclipe meu terá será muito menor do que o de algum artista que está se lançando e esteja tocando nas rádios. Ambos, em tese, somos independentes. Mas um investiu dinheiro nisso e o outro não. Ou melhor, ambos investiram, no entanto, quando é chegada a hora da divulgação, o investimento é muito mais pesado, para que possa fazer acontecer. Então coloco em questionamento esse conceito de “independente” hoje.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira musical dentro e fora do palco?

Renata Iacovino: Já corri muito atrás de tentar fazer acontecer um CD, um trabalho. Já acreditei muito! Quando digo “acontecer”, quero dizer em larga escala. Hoje puxei um pouco o freio de mão e não fico pensando em muitas estratégias, não. Fazer música, cantar, tocar, são coisas necessárias para mim. Então isto vem antes de tudo. O resto é consequência. Se eu vou conseguir tocar alguém com minhas composições, com meu canto, será um ótimo retorno e um reconhecimento do meu trabalho e acontecerá como reflexo desses 20 anos em que trabalho com música. Se eu tenho algum planejamento hoje, é no sentido de atingir um público pequeno, mas com qualidade. Pessoas que estejam realmente dispostas a ouvir o que você tem a dizer/cantar/tocar, e não somente comprar seu CD ou ir ao seu show sem nem ter noção porque está fazendo aquilo. Ou seja, por estar contra a maré do que é moda e do que o mercado dita para ser feito no momento, é preciso garimpar seu público. Não vivo de música, vivo para fazer bem a música que faço. Sou profissional quando me dedico à música. Levo muito a sério o que faço e executo da melhor forma que posso e com qualidade. Ser profissional não quer dizer dedicar-se exclusivamente à música.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Renata Iacovino: Hoje tenho um trabalho junto a uma produtora, a Cacimba Discos Produções, que desenvolve uma divulgação do que eu realizo e especialmente do meu mais recente CD -“translúdico”, que pode ser encontrado em lojas físicas específicas e nas maiores plataformas de música. Busco fazer uma divulgação constante, por meio de canais como o da Ritmo Melodia, por exemplo. Divulgando os videoclipes e as músicas em sites e redes sociais com grande acesso. Além do trabalho autoral, que financeiramente é mais complicado de obter retorno, ao menos em curto prazo, eu trabalho com música ao vivo tanto em bares e restaurantes, quanto em projetos especiais. Tenho formações diversas, como solo, duo, trio e banda.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Renata Iacovino: A internet é uma porta aberta para o mundo, sem censura, sem cortes, sem crivo… Então ela ajuda porque posso expor meu trabalho de variadas maneiras e direcionando para o público que desejo. Ou ainda tendo um alcance bastante amplo. Também através dela tenho acesso a outros trabalhos e a conhecer pessoas que podem dividir suas experiências sobre o campo em que atuo. É sempre uma surpresa. É um excelente campo de difusão. O que pode ser prejudicial é que como cada um expõe o que quer e da forma que quer; tudo acaba ficando misturado aos olhos do grande publico. O publico de opinião mais apurada saberá distinguir entre o que é de qualidade e o que é falso ou duvidoso. Mas como a competição é grande, a gente acaba tendo que desenvolver um lado de marketing, de venda, a fim de fazer um trabalho que cause impacto de certa forma. E isso não é tão fácil, pois se trata de outra seara, de outro campo de atuação.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home studio)?

Renata Iacovino: Não vejo desvantagens. O home studio hoje em dia possue uma estrutura muito profissional e atendem àquilo que é necessário na produção e gravação de um trabalho. E ainda com a vantagem de serem mais econômicos e mais céleres, normalmente.  A única questão é que não basta haver a ferramenta. Tem de haver o bom profissional que saiba manipular muito bem aquilo e que ele lhe ofereça as condições adequadas para o propósito do que vai ser realizado. E o bom profissional nessa área, a meu ver, deve reunir conhecimento, experiência, técnica e sensibilidade.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Renata Iacovino: Eu não fico buscando me diferenciar. Eu tenho uma identidade. Minha obra tem uma cara, tem influências. Se há uma diferenciação no que faço, penso que deve ser natural e não forjada. Eu acho que convencerei pela autenticidade do meu trabalho, pela verdade que passo. E isso fica transparente, as pessoas percebem. Talvez as oportunidades para mim sejam menores, já que estou fugindo do padrão atual ditado pelo mercado, pelos veículos tradicionais e críticos, que dizem que só se estabelece quem mostrar algo diferente. E o que é o diferente? Alguém tem essa fórmula? É aquilo que eu falava sobre a moda. Obrigar o artista a ser diferente ou apresentar algo diferente, é uma ditadura de modismo ou de tendência. Alguém dita essas regras e o mercado têm de ir nessa direção. Isso sempre haverá. Se o cenário é independente ou não. Se há uma abertura maior ou não. Os modismos sempre estarão aí, mesmo que travestidos de outros elementos, que tenham uma cara supostamente moderna, contemporânea, pós-contemporânea. Tudo isso são palavras, conceitos. A música (e as artes, em geral) e a criação estão acima disso. E o que acontece é que você acaba tendo pessoas desenvolvendo um trabalho que é evidente que não é verdadeiro, que não há uma identificação com aquilo. Ou pior, a qualidade e o resultado obtidos são ruins. Mas como a regra é “ser diferente”, isso é o que acaba prevalecendo. E claro que há os trabalhos realmente diferenciados e com resultados incríveis. Mas nada do que existe já não foi inventado. A gente revisita, reinventa, mas se você parar para observar vai ver os elementos tradicionais da música presentes ali, apenas vestidos com uma nova roupa. E às vezes nem tão nova. Na verdade o que propagará essa imagem como diferente não é o trabalho em si, mas o trabalho de venda que se faz sobre ele. A música virou, ou sempre foi, um produto. Mas agora isso é muito mais forte. Então luto pela naturalidade do que faço e não por vinculá-lo a algo que tenha uma cara do que o mercado está pedindo que tenha.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Renata Iacovino: É uma infinidade de gente. E muita gente desconhecida do grande publica. São muitos talentos escondidos em detrimento de tanta música de massa veiculada nas grandes emissoras e rádios. Gosto muito da Jussara Silveira, Roberta Sá, Mariana Aydar, Filipe Catto. Sou fã do Yamandú Costa. Há grupos de choro e jazz muito bons. É difícil apontar um ou outro. Uma pessoa que tenho como referência, principalmente como compositora, é Adriana Calcanhoto. Para mim a obra dela continua consistente. E ela consegue fazer algo diferenciado sem forçar essa necessidade. Alguns não acharão o trabalho dela diferenciado. E aí cai naquela questão: o que é o diferente? Quem vai ditar essa regra. São aspectos subjetivos, principalmente porque lidam com gosto pessoais.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Renata Iacovino: Adriana Calcanhoto, Carlinhos Antunes, Celso Fonseca, Ney Matogrosso, Jussara Silveira

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Renata Iacovino: Acho que um pouco de tudo isso já aconteceu ao longo de minha carreira. Vou citar três fatos. Uma vez me apresentei dois dias em um bar em São Caetano do Sul-SP, por um valor fechado de cachê, só que a casa não deu movimento nenhum porque, segundo o dono, estava tendo um evento na cidade, algo como um rodeio. E as pessoas da cidade em peso estavam lá. Resultado: ele não quis me pegar. Como quem havia me colocado em contato com ele era um amigo em comum, que se sentiu responsável, colhemos todas as provas e eu ingressei com uma ação judicial no Tribunal de Pequenas Causas e no final das contas fui com um mandado judicial na casa do tal proprietário do bar e recolhemos dois freezers como pagamento do que me devia. Meu amigo acabou comprando os freezers e ficou tudo certo. Outra vez em Campo Limpo Paulista – SP, novamente um cachê fixo, ao final da apresentação não vi o gerente. Ele havia ido embora e disse para a pessoa que ficou no caixa que era para eu passar outro dia, pois não havia dado movimento suficiente para me pagar. Eu estava com uns amigos que foram me ouvir cantar e nós fizemos a pessoa abrir a gaveta do caixa e pegar o que havia lá de dinheiro e mais um cheque que a fizemos preencher. Pelo menos saí de lá com o pagamento no bolso. Outro fato que aconteceu e esse me deixou bem chateada. Eu tocava há três anos em uma casa. A casa tinha alguns músicos fixos que se revezavam. Eu tinha uma colega cantora que estava buscando lugares para tocar. Eu tocava sozinha, portanto ganhava um cachê que se pagava para uma pessoa. Essa pessoa tocava em três e também sozinha. Eu a apresentei ao dono desse bar e avisei a ela que ali o pessoal se apresentava solo, no máximo em dois, porque o cachê era baixo. O dono do local a chamou para tocar lá e ela foi acompanhada de três músicos ganhando o que se paga para um. Ela acabou tomando meu lugar, pois se submeteu a ganhar bem menos para poder se apresentar em três pessoas. Mas são coisas que fazem parte da caminhada e nos ensinam muito. Essas histórias são do início de carreira.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Renata Iacovino: Fico feliz quando tenho retorno de qualquer espécie, quando minha música chega às pessoas e elas gostam, entendem. Fico triste pelas oportunidades serem bem poucas e o espaço na mídia, em sua maioria, ser ocupado por música descartável, por um produto que não tem em seu conteúdo o cuidado e a qualidade que normalmente temos com o que fazemos.

23) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Renata Iacovino: Eu moro parte do tempo em São Paulo e outra parte em Jundiaí. Existem muitos músicos bons em Jundiaí. Na área erudita, inclusive, músicos premiados e reconhecidos internacionalmente, como o violonista Fabio Zanon (meu amigo), a maestrina Cláudia Feres, o fagotista Fábio Cury, o violonista Marcelo Barbosa. Fico com receio de esquecer alguém, mas com certeza esquecerei. Os músicos e bandas buscam espaços dentro e fora da cidade. Na cidade os espaços são escassos. Há uma tendência de bares e casas noturnas darem espaço para um ou outro estilo. O jeito é buscar espaços alternativos e formas alternativas de mostrar o trabalho.

24) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora  que você indica como uma boa opção?

Renata Iacovino: “Corrosivo 420”, “Still Folk” e “Seringueira”, todos de Jundiaí.

25) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Renata Iacovino: Não.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Renata Iacovino: Seja persistente, haja sempre com profissionalismo e não perca a sua identidade.

27) RM: Como você analisa a cobertura da cena musical pela grande mídia?

Renata Iacovino: As mídias alternativas buscam dar espaço aos anônimos ou pouco conhecidos e isto é fundamental para a divulgação de nosso trabalho. Mas a grande mídia (que é a que prevalece e que aparece para o grande publico) faz o papel de acordo com o que dita o mercado, tratando a música como um grande produto, isto é, algo que tem como finalidade apenas gerar lucro, direcionar grandes cifras a bolsos capitalistas e ser descartada em seguida.

28) RM: Qual a motivação em criar e/ou cantar canção com letra relevante com a propagação e popularização nas Rádios e TV de música de letra descartável ou banal?

Renata Iacovino: O jeito é não pensar muito nisso. Continuar compondo e criando sem deixar que essa expectativa seja o seu objetivo de vida. Claro que á gente não pode deixar de acreditar. Mas também não podemos nos iludir.

29) RM: Qual a importância de Festival de Música para a carreira musical? Você já participou? Você acredita que ainda revela novos talentos?

Renata Iacovino: Sim, já participei. É interessante a troca e a experiência que ele propicia, mas acho que essa fórmula já está um pouco ultrapassada. E sou cética com relação à seleção de músicas, aos critérios. Ele pode ou não revelar novos talentos. Acho que precisamos de espaços para mostrar nosso trabalho. Festivais que deem essa oportunidade ao invés de festivais de competição. O mercado já é muito competitivo, não precisamos de mais projetos que gerem competição, que restrinjam.

30) RM: Quais os seus projetos futuros?

Renata Iacovino: No momento estou ensaiando com minha banda de oito integrantes o show do novo CD e que teve a sua estreia em 26 de setembro 2015. E a partir daí novos shows foram agendados. Fora isso, continuar com os projetos paralelos, pois trabalho com música e literatura. Continuar ministrando oficinas, realizando saraus e recitais, difundindo a CircuitoTeca (biblioteca circulante) e a Confraria Japi de Haicai, todos estes projetos em parceria com a escritora e poeta Valquíria Gesqui Malagoli.

31) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Renata Iacovino: [email protected] | (11) 99897-7259 | https://www.facebook.com/oficialrenataiacovino | www.reiacovino.blog.uol.com.brWWW.caju.valquiriamalagoli.com.br

Links: https://www.youtube.com/watch?v=updKov-jczI

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.