Paulo Dionísio

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Paulo Dionísio
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O cantor e compositor gaúcho Paulo Dionísio é um artista militante envolvido com movimentos populares e culturais da periferia e centros urbanos de Porto Alegre (RS), como AFROSUL ODOMODÊ, MARIA MULHER, SOPAPO POÉTICO, entre outros e sempre que solicitado, através de sua música presta serviços sociais.

Atuou como comunicador na extinta rádio IPANEMA FM sendo âncora do programa “REGGAE PARADISE”, responsável pela divulgação de novos expoentes da música reggae do Sul do Brasil. Sócio fundador e primeiro presidente da ACRER – Associação Cultural Reggae RS, tendo participado ativamente de edições do FÓRUM SOCIAL MUNDIAL, tanto como artista bem como produtor, junto a CARRASCO Produções com quem realiza projetos culturais em parceria. Atualmente encontra-se gravando um CD solo e independente intitulado “O ESPIRITO DOS LANCEIROS”, o qual tem como diretor musical LUÍS VAGNER “GUITARREIRO” e com a participação ilustre de três nomes do reggae nacional: FAUZI BEYDOUN – TRIBO DE JAH, RAS BERNARDO Fundador e primeiro vocalista da banda CIDADE NEGRA e CELSO MORETTI, representante legítimo do reggae de Minas Gerais.

O CD – “O ESPÍRITO DOS LANCEIROS”, tem a proposta de valorização do compositor negro gaúcho e faz uma pequena homenagem aos grandes e verdadeiros heróis da revolução Farroupilha, “Os Lanceiros Negros”, traídos e mortos no massacre de Porongos através da música que dá nome ao álbum. Paulo é o vocalista e fundador da banda “PRODUTO NACIONAL” (1989), que é uma das referências do reggae gaúcho para o Brasil com uma carreira de 29 anos ininterruptos.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Paulo Dionísio para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 30.07.2018:

 01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Paulo Dionísio: Nasci no dia 08.11.1960 em Porto Alegre (RS).

02) RM: Conte como foi o seu primeiro contato com a música.

Paulo Dionísio: Desde muito jovem já cantava sem saber que mais tarde eu iria fazer disso a minha profissão. Percebi que poderia ser cantor, compositor e produtor cultural já com 18 anos de idade em função de reuniões em Bares com os amigos cantando samba, mpb, rock. E a coisa foi ficando séria e resolvi que seria esse o meu caminho na vida.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Paulo Dionísio: Sou autodidata na música e não tenho formação acadêmica. Atualmente estudo Violão.

04) RM: Quais suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Paulo Dionísio: Tenho três ídolos que são: Stevie Wonder, Gilberto Gil e Bob Marley, mas influências são diversas, passa por Luís Vagner Guitarreiro, Bedeu, Pau Brasil, Nina Simone, James Brown e uma infinidade de nomes, bandas que tiveram importância em sua devida época, atualmente ouço muito Chronixx, a Família Marley, Luedji Luna, Amani Kushi e os Slam que é a manifestação poética mais revolucionária da atualidade no Brasil.

05) RM: Quando, como e onde  você começou a sua carreira musical?

Paulo Dionísio: Antes eu cantava em bares, bailes, aniversários, tive alguns trabalhos convencionais, mas profissionalmente enquanto músico, cantor foi a partir da banda “Produto Nacional” em 1989, da qual sou fundador.

06) RM: Quantos discos lançados e quais os anos de lançamento(quais os músicos que participaram das gravações)? Qual o perfil musical de cada álbum? E quais as músicas que você acha que caíram no gosto do seu público?

Paulo Dionísio: A banda “Produto Nacional” nasceu no propósito de dar voz aos compositores que faziam parte do grupo, trabalhar com música original, tornou-se uma banda de reggae levada pelas temáticas abordadas nas músicas. Temos dois CDs: “Produto Nacional” e “A mão do Justo” e algumas coletâneas: Tri Legal Reggae, Porto Reggae, Reggae as Pampas, Tributo A Bedeu, Rock Garage 3. As canções que tiveram uma aceitação boa do público são várias: “Nação” (Ludi Oliveira), “A mão do Justo” (Ludi Oliveira e Kau Azambuja), “Reggae Paradise” (Paulo Dionísio), “Esperança” (Geda), “Yuka Bazuka” (Paulo Dionísio), “Oprimidos e Opressores” (Paulo Dionísio), “Aqui e Há Horas” (Isnard Prates), “Negritude Gato” (Paulo Dionísio) e outras.

07) RM: Como você define o seu estilo musical dentro da cena reggae?

Paulo Dionísio: Acho sempre difícil falar que sou isso ou sou aquilo, porque gosto de me reinventar, me dar oportunidade de poder ser o que eu quiser dentro das minhas possibilidades. E trabalho com as gerações e prefiro ter liberdade para fazer shows com a Tribo de Jah e também Maneva sem perder a minha essência!

08) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Paulo Dionísio: Acredito no meu trabalho. Amo o que faço e me sinto bem em dizer que sou um bom cantor e intérprete!

09) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Paulo Dionísio: Marietti Fialho, Fyah Rocha, são duas vozes femininas de Porto Alegre das quais sou muito fã. A primeira é da minha geração, ex vocalista da banda “Motivos Óbvios” e a segunda mais jovem e não menos talentosa!

10) RM: Quem são seus parceiros musicais?

Paulo Dionísio: Muitas das músicas da “Produto Nacional” são de minha autoria e tenho muito poucos parceiros musicais. Atualmente estou gravando um CD que tem uma música que compus com o Raggamano Koyah, chamada “Não Vou Me Conformar” e “Hoje é dia de Ragga” em parceria com o Koyah e Jimmy Luv.

11) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Paulo Dionísio: Nos dias de hoje há muitos prós. Fazer as coisas no meu tempo e ter mais liberdade para dizer o que penso. Assumir as consequências das minhas escolhas e não preciso dividir os direitos de minha obra com exploradores de artistas. Os contra são as dificuldades que o mercado impõe, mas como existem muitas formas de estar no mercado; a dificuldade maior é descobrir qual é a minha forma.

12) RM: Quais as ações empreendedora que você pratica para desenvolver sua carreira?

Paulo Dionísio: Atualmente estudar violão tem sido a minha premissa. E me atualizar através de tutoriais que dão dicas de como potencializar e gerenciar a carreira e desenvolver projetos.

13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira?

Paulo Dionísio: Na vida tudo tem dois lados, você tem que saber de que lado está. Se não corre o risco de ter que voltar atrás e recomeçar. A internet só ajuda quando bem utilizada, tem que se buscar a informação certa pra ter os resultados esperados.

14) RM: Como você analisa o cenário reggae brasileiro? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Paulo Dionísio: Sou da geração que começou o Moviment of Jah people no Brasil, de lá pra cá muita coisa aconteceu no cenário reggae Brasileiro. “Mato Seco” é uma banda que representa bem o roots sendo contemporânea na sua sonoridade. “Ponto de Equilíbrio” evoluiu muito fazendo o que sempre fez. “Natiruts” desde que era “Nativus” continua sendo excelente na sua proposta. “Tribo de Jah” lançou o disco comemorando 30 anos de carreira que é maravilhoso. Edson Gomes ainda é um dos grandes nomes do reggae brazuca. “Chimarruts” e Armandinho têm seus nomes na história e continuam na estrada. Banda “GrooVI” é uma das que tem espaço em qualquer lugar onde o reggae for solicitado. Vell Rangel, consistente já a bastante tempo. O que tem me encantado mais é ver o movimento feminino dentro dessa esfera do reggae nacional.

15) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (Home Studio)?

Paulo Dionísio: Para quem quer colocar um trabalho para rua ajuda um monte, mas para quem quer qualidade nesse trabalho é bom tomar cuidado com essas facilidades!

16) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Paulo Dionísio: Meus heróis musicais são três: Stevie Wonder, Gilberto Gil e Bob Marley, são exemplos e referências para mim. Mas hoje no Brasil tem o Emicida, Rael

17) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Paulo Dionísio: Uma banda com o tempo que a “Produto Nacional” tem, já passou por todas essas situações citadas na pergunta. Em 2019 completamos 30 anos ininterruptos de estrada, então eu não saberia te relatar agora muitas ocasiões em que se deu algum tipo de problema, mas houve calote, produtor que nos deixou empenhado, já esqueci letra no show e o público me ajudou a lembrar cantando-a para mim. Muitas coisas legais também, tipo pessoas vindo dizer que uma música nossa mudou a vida dela e por ai vai!

18) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Paulo Dionísio: O que me deixa mais feliz é subir no palco e cumprir a missão que é fazer um bom show não importando quantas pessoas tenham na minha frente para ver e ouvir. E o que me provoca tristeza é a falta de respeito com a arte!

19) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

Paulo Dionísio: Porto Alegre (RS) é uma cidade eclética musicalmente, tem uma diversidade de estilos, mas predomina o rock, o samba tem seus espaços, o reggae perdeu do que já foi um dia, mas continua proliferando bandas e nomes no gênero. E como em todo o país as coisas da moda que a grande mídia impõe vão se sucedendo até serem descartadas!

20) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Paulo Dionísio:Produto Nacional”, “GrooVI”, “Cachola”, “Terminal 470”, “Raggamano Koyah”, Fabão, Luís Vagner, Bedeu, “Rutera”, “Ultramen”, Guga Munhoz, “Papas da Língua”, “Chimarruts”, Tati Portella, “Motivos Óbvios”, “Grupo Kiai”, “Gil Jazz Trio”, “Be Livin”, “Solo Fértil”, Andrei Correia

21) RM: Quais os cantores e cantoras que gravaram as suas canções?

Paulo Dionísio: Ainda não tive essa honra de ter minha música gravada por outro artista!

22) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

 Paulo Dionísio: O rádio hoje é uma ilusão, minha música toca em algumas rádios locais, mas é uma coisa esporádica, mas pagando o jabá tocaria mais.

23) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Paulo Dionísio: A primeira coisa que eu acho que tem que ser feita é se perguntar se você acredita na sua arte e se está disposto a pagar para ver, o resto é caminhada.

24) RM: Como você analisa a relação que se faz do reggae com o uso da maconha?

Paulo Dionísio: Se for pensar pelo viés do reggae, isso faz parte da cultura Rastafari. Não é uma premissa do regueiro, a maconha está relacionada com a sociedade: médicos, engenheiros, arquitetos, garis, artistas em geral fumam maconha. Então quem fuma maconha são as pessoas e não as suas profissões. Muitos hoje usam dreadlock e nem gostam de reggae ou conhecem o Rastafari, penso que as pessoas são livres!

25) RM: Como você analisa a relação que se faz do reggae com a religião Rastafari?

Paulo Dionísio: O Rastafari é um modo de viver, em comunhão com a natureza, de forma simples, espiritualizada e reservada. E a música reggae a ponte da mensagem do Rastafari com o mundo, mas são coisas distintas.

26) RM: Você usa os cabelos dreadlock. Você é adepto a religião Rastafari?

Paulo Dionísio: Não sou adepto a religião rastafari, mas tenho o máximo respeito. E para eu ser um Rastafari teria que mudar o meu modo de vida, sou um regueiro convicto.

27) RM: Os adeptos a religião Rastafari afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como você analisa essa afirmação?

Paulo Dionísio: Acredito que pela linha da espiritualidade possa ser verdade, mas se for pelo lado da música em si, eu não creio!

28) RM: Na sua opinião porque o reggae no Brasil não tem o mesmo prestigio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral?

Paulo Dionísio: Por uma questão de cultura, educação, preconceito, e falta de informação. A grande mídia dita o que é e o que não é bom de ouvir e no Brasil, infelizmente somos reféns de uma mídia manipuladora que faz um desserviço à população. O reggae é sem dúvida a música que mais trás mensagens que possam acrescentar algo de bom ao ser humano. Já dizia o mestre Bob Marley: “Quando o reggae bate você não sente dor”.

29) RM: Quais os prós e contras de usar o Riddim como base instrumental? Quais os prós e contras de fazer show usando o formato Sound System (base instrumental sem voz)?

Paulo Dionísio: Sempre compus para banda, com o conceito orgânico de arranjos e melodias, mas tenho recebido convites nos últimos tempos para fazer uns sound system. Estou me adaptando para trabalhar em cima de riddins!

30) RM: Quais os seus projetos futuros?

Paulo Dionísio: Estou finalizando o meu primeiro CD solo chamado “O espírito dos Lanceiros”, dirigido e arranjado por Luís Vagner, com as participações de Fauzi Beydoun, Ras Bernardo e Celso Moretti, esse trabalho terá 11 músicas  na sua maioria autorais e de compositores gaúchos como Geda, Silvio Oliveira Raggamano Koyah e Luís Vagner, produzido por mim e Claudiomar Carrasco Martins!

31) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Paulo Dionísio:     (51) 98230 – 8524 (com Claudiomar Carrasco) |     (51) 99282 – 0283 (com Paulo Dionísio) | [email protected] | [email protected] | Instagram – reggaebs10 |  Facebook Paulo Dionisio

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.