Michel Leme

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Michel Leme
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Michel Leme é um dos grandes expoentes da guitarra no Brasil. Ele é considerado um dos grandes mestres da improvisação tanto pelos músicos, como pela crítica.

Com vinte anos de carreira tem como uma de suas características principais uma impressionante vontade de tocar, o que o levou a realizar mais de 160 apresentações no ano de 2009. Ele já participou de mais de 30 discos de música instrumental, tocando a convite de outros músicos ou participando de coletâneas que tem como foco o seu instrumento. E gravou cinco discos solo lançados de maneira totalmente independente, são eles: Umdoistrio, Quarteto, Trocando Idéias, Michel Leme & A Firma e o seu mais recente Michel Leme 5°.

Nos palcos, tocou com grandes músicos, tais como Gary Willis, Michael Brecker, Toninho Horta, Nenê, Lee Konitz, Joe Lovano, entre outros. Michel mantém parcerias musicais constantes com Arismar do Espírito Santo, Alexandre Mihanovich, Alex Buck, Djalma Lima e outros amigos. Ao longo dos anos, o guitarrista marcou presença em mídias importantes como Guitar Player, Cover Guitar, Clube do Jazz, Bandas de Garagem, Ejazz, além de ter sido destaque no jornal O Globo, na Folha de São Paulo, no Programa do Jô, no Metrópolis, entre outros.

Michel também dedica uma atenção especial ao seu site – que possui uma média de cinco mil acessos mensais – e ao seu blog, no qual escreve regularmente textos desafiadores que também são requisitados por outros sites e portais da internet. De novembro de 2007 a dezembro de 2009, Michel conduziu o “Programa Michel Leme & “Convidados”, exibido todas as quintas feiras pela TV Cia da Música. Durante os mais de dois anos em que o programa esteve no ar, o artista teve a oportunidade de tocar semanalmente com diferentes músicos. Para manter o espírito da improvisação. Ele sempre fez questão de que as apresentações fossem realizadas sem ensaios prévios.

Michel ainda atua como professor nos principais conservatórios de música de São Paulo: o Souza Lima, Escola de Música e Tecnologia (EM&T) e a In Concert Academia de Música – sendo que esta adotou sua metodologia para o curso de guitarra. O guitarrista também possui alguns vídeos didáticos em diferentes veículos da internet.

Atualmente, o guitarrista está ‘a todo vapor’ lançando seu novo trabalho – Michel Leme 5º – e se apresentado em diferentes palcos do país. Além disso, está iniciando novos projetos para gravar e finalizando outros para lançar em breve, e, também, concluindo o seu primeiro songbook.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Michel Leme para a  www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16.06.2011:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Michel Leme: Nasci no dia 02 de outubro de 1971, em São Paulo.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Michel Leme: Minha mãe e meu irmão contam que quando eu estava aprendendo a andar já ficava grudado na vitrola da sala vendo o LP rodando e, quando a vitrola estava desligada, eu mesmo fazia com que o disco rodasse manualmente sob a agulha… Destruí alguns discos fazendo isso, claro. E, por incrível que pareça, tenho alguns flashes destes momentos na mente ainda. Meu irmão e meu pai também viviam ouvindo música e tocando em casa, e eu ia direto à casa do meu avô paterno, que morava no mesmo terreno, pra ouvi-lo tocar e ficar tentando tocar nos violões dele. Eu sou atraído pela música desde sempre.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora e dentro da música?

Michel Leme: Minha formação na música está acontecendo no atual momento. Lidar com a música é um processo de uma vida inteira e, no meu caso, não passa pelo ambiente acadêmico. Não tenho “curso superior” fora da música também. Comecei tocando violão com meu avô aos sete anos de idade e meu irmão me dava toques na guitarra na mesma época. Comecei tocando e aprendendo da maneira que alguns se referem pejorativamente como “de ouvido”, mas que é algo extremamente musical, na minha opinião – música não é algo pra ouvir? Só mais tarde, aos 18 anos de idade, é que fui aprender teoria e começar a investigar os acordes mais a fundo. O que é muito importante, porque descobre-se sons novos e expande-se os recursos pra tocar sobre o que já se conhecia. Peguei informações com algumas pessoas junto com alguns livros, e sempre ia conferindo com as gravações de caras como Coltrane, Thelonious Monk, Miles Davis etc. E mesmo tendo algumas aulas, ninguém me “ensinou a tocar” no sentido mais óbvio do termo; recebi dicas valiosíssimas aqui e ali, o que é importante, claro, mas desde o começo eu peguei o instrumento e venho ralando direto. Quero dizer com isso que não dá pra pular essa etapa de ralação (tem muitos meninos que ficam arrogantes só por entender alguma teoria); é preciso estar em contato constante com o instrumento, porque é aí que se tem a noção real das coisas. Eu escolhi o que chamo “artesanato da música”, que é algo que se dá com as descobertas diárias, aos poucos, sem pressa e, ao mesmo tempo, sempre alerta e focado no que é prioridade pra melhorar. É preciso uma auto-análise constante também, por isso vivo ouvindo gravações de sons que faço por aí. Escolhi tocar, e essa é uma escolha que venho renovando sempre.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Michel Leme: Todas influências fazem parte do que sou e permanecem importantes. Influências iniciais: meu avô Durvalino Leme com a música regional (choros, catiras, valsas brasileiras, sambas etc.); meu irmão Mauro Leme, que me mostrou várias coisas na guitarra, além de sons como The Beatles, Jimi Hendrix, Black Sabbath, John McLaughlin e George Benson; e a música clássica que meu pai, Maurindo Leme, me mostrava: Mozart, Paganini, Bach, Beethoven etc.. Caras cujo som eu conheci no começo da vida adulta: Sonny Rollins, John Coltrane, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Joe Henderson, Ahmad Jamal e meus queridos amigos Arismar do Espírito Santo, Alexandre Mihanovich e Wilson Teixeira – que sempre me ensinam muito; seja tocando ou conversando. E tem muito outros mais. Sempre volto a ouvir o que sinto que é feito de uma forma honesta, por amor, talento e tesão por fazer música. E, para mim, ser influenciado por alguém não quer dizer imitar esse alguém, quer dizer aprender com esse alguém. As influências abrem a minha mente, me mostram novas possibilidades e aí eu vou fazendo do meu jeito.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Michel Leme: Comecei tocando com sete anos de idade, com meu avô e indo aos ensaios do meu irmão com as bandas dele e, inclusive, já me apresentando por aí com ele em algumas oportunidades. Lembro-me de algumas histórias, como um baile no qual eu assumi o baixo em determinado momento porque o baixista teve que sair às pressas. Aí toquei até o final da noite – eu tinha sete anos de idade e o baixo era maior do que eu. Então, pra mudar de uma nota pra outra eu quase tinha que tomar um táxi… E eu me lembro também que, desde muito moleque, eu vejo alguém tocando e fico com uma vontade quase insuportável de tocar também! Isso permanece igual até agora. Depois, aos treze anos de idade, eu já tinha uma guitarra e um amplificador, a partir daí sempre estive envolvido com a música e tocando estilos variados com qualquer um que permitisse que eu tocasse junto. Comecei a viver profissionalmente da música aos 19 anos de idade, em 1990. Tenho hoje 21 anos de profissão. Sinto-me como um iniciante.

06) RM: Fale do perfil das bandas, Trios, Grupos que você já tocou e quantos CDs gravou com elas? Cite os motivos de ter saído das bandas? E fale do seu projeto atual?

Michel Leme: Sempre toquei com várias pessoas e grupos ao mesmo tempo e não com apenas uma banda ou grupo por vez. Continuo fazendo a mesma coisa hoje. Gosto de tocar com o máximo possível de pessoas, porque tem muita gente boa por aí a fim de tocar e cada combinação de pessoas te leva a tocar de uma forma. Além disso, tocando com vários grupos você vai criando uma sintonia maior com cada um, a cada som. Sendo assim, quando saio de casa pra tocar sinto que o som vai sempre se aprofundando, independente da turma com a qual eu esteja tocando.  Quanto aos CDs:  Álbum: Michel Leme 5°  – Produzido por: Michel Leme – Gravado no(a): Auditório da EM&T e Estúdio Cantareira – Data: 2010. Álbum: Michel Leme & A Firma. Produzido por: Michel Leme. Gravado no(a): Nimbus Studio. Data: 01 e 02 de Junho de 2007. Álbum: Alex Buck & Michel Leme . Trocando Idéias 
Produzido por: Michel Leme & Alex Buck. Gravado no(a): Estúdio Haick. Data: 04 e 05 de setembro de 2005. Álbum: Michel Leme Quarteto.  Produzido por: Michel Leme. Gravado no(a): Estúdio Haick. Data: 13 e 14 de maio 2004. Álbum: UmDoisTrio. Produzido por: UmDoisTrio. Gravado no(a): Estúdio Domínio Digital
Data: 15 e 16 de abril 2002

07) RM: Como se você define como guitarrista?

Michel Leme: Sou um aprendiz e gosto muito de tocar. Para maiores definições procure outras pessoas para ouvir o que elas têm a dizer, não sou o mais apropriado para dar essa definição.

08) RM: Como identificar um bom professor de guitarra?

Michel Leme: O que faz música quando toca. Se isso acontece, a metodologia oferecida estará baseada em coisas verdadeiras e não em meras táticas mercantilistas de mais um hipócrita.

09) RM: Como foi a sua formação teórica e a prática como guitarrista?

Michel Leme: Aprendi os intervalos, formações de acordes em aulas teóricas e fui me aprofundando nas possibilidades de modos/escalas/arpejos sozinho, ouvindo nos discos e sacando como cada cara que eu gostava usava essas coisas. Ao entender as coisas teoricamente eu ia para o instrumento, tentando me preparar para tocar sobre qualquer coisa que chegasse até mim.  É claro que existem infinitas possibilidades, mas a base é ter condições de tocar dentro dos acordes, do tempo e da forma, em primeiro lugar. A partir daí se cria com mais conhecimento de causa. Tomei isso como base quando comecei a estudar lá pelos 18 anos de idade, e procuro ensinar assim hoje em dia. Eu estudo a guitarra sem me limitar a uma “escola” de tocar. E livre pra tentar tocar cada coisa das mais variadas formas possíveis. O que me faz descobrir coisas interessantíssimas no instrumento, sempre. É algo apaixonante, porque não tem rotina, sempre rola uma surpresa. Sinto que a música é muito generosa e que a gente deve ter disciplina e mente aberta para merecer as visitas da divina.

10) RM: Na sua opinião quais as principais técnicas que o guitarrista deve conhecer e praticar?

Michel Leme: Todas que estiverem ao seu alcance. Não tenho nenhum preconceito com nenhuma técnica. O músico deve ficar atento a tudo e usar tudo a serviço da música.

11) RM: Qual é o maior defeito que o guitarrista deve evitar?

Michel Leme: Não só o guitarrista, mas todo músico deve evitar a arrogância e/ou pensar que é melhor do que alguém. Música não é competição; muito pelo contrário, ela só agrega.

12) RM: Existe mais guitarristas vaidosos que vocalistas?

Michel Leme: A vaidade é geral na música, não está limitada aos vocalistas ou guitarristas. A questão é não deixar que a vaidade prejudique a música. Quando isso acontece é melhor conversar e acordar o vaidoso. Quando não há a possibilidade de diálogo, melhor evitar tocar com estes tipos, como eu venho fazendo.

13) RM: Quais os guitarristas que foram e são a sua referência?

Michel Leme: Guitarristas: George Benson, Jimi Hendrix, Tony Iommi, Eddie Van Halen, Heraldo do Monte, Allan Holdsworth e muitos outros. Outros instrumentistas: Ahmad Jamal, Art Tatum, John Coltrane, Wayne Shorter, Joe Henderson, Sonny Rollins, Hariprasad Chaurasia, Eric Dolphy, Herbie Hancock e muitos outros. Compositores ditos “clássicos”: Bach, Beethoven, Ravel, Debussy, Stravinsky, Villa-Lobos e vários outros. Cito músicos além da guitarra porque minhas referências não ficam somente no meu instrumento. Aliás, eu recomendo que, para não se limitar a serem meros imitadores de outros guitarristas, os guitarristas devem abrir o leque e ouvir a música feita por outros instrumentistas. Guitarrista que só ouve guitarrista vira “cover”. Estou fora dessa.

14) RM: Você também canta?

Michel Leme: Mal, mas canto. Só que minha voz é feia, então procuro privar a humanidade de mais este sofrimento.

15) RM: Você estudou técnica vocal?

Michel Leme: Jamais. Preciso estudar mais guitarra, isso sim.

16) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Michel Leme: Sarah Vaughn, Ella Fitzgerald, Johnny Hartman, Nat King Cole, Tony Bennett, Elis Regina, Milton Nascimento e outros.

17) RM:  Como é o seu processo de compor? Você também compõe música com letra? Quais seus principais parceiros em música com letra?

Michel Leme: As músicas surgem quando estou estudando algo na guitarra ou quando estou longe do instrumento. O segundo caso é mais raro, mas, quando acontece, eu canto a melodia e gravo no celular pra não perdê-la. Quanto a letras, não tenho o mínimo talento pra escrevê-las. Tem apenas uma música minha que tem letra por enquanto, “Essência”, e quem fez a letra foi minha amiga Guzzi Woolley. Qualquer hora dessas a gente grava.

18) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Michel Leme: Prós: eu estabeleço meus prazos, decido o que gravar e o que fazer, e não preciso me vender ou ceder em nenhum aspecto do meu trabalho. Faço as coisas dentro do que acredito ser mais íntegro artisticamente e mais prazeroso. Contra: falta de grana. Aí a gente vai se associando a marcas que fazem ou importam produtos nos quais acreditamos para que aconteçam parcerias pra viabilizar projetos como shows e CDs, por exemplo. Sem grana também trabalha-se mais para divulgar datas e novidades, como eu que fico na internet algumas horas por dia, mesmo depois de várias aulas e de tocar. Mas prefiro assim, é mais digno. E se surgir alguma gravadora ou selo eles é que devem se adaptar a mim, o contrário jamais.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Michel Leme: Quem toca ou canta de verdade está sempre às margens, porque o que é veiculado é, invariavelmente, o “refrão de fácil assimilação”, ou seja, algo que seria como uma proto-música, coisas que mais se encaixam na definição de “jingle” do que música propriamente dita. É isso que chega facilmente a todos, porque é o que convém ao sistema (mídia+bancos+oligarquias+Estado). Então, quem quer ter acesso a algo verdadeiro deve garimpar por aí, pesquisando as agendas em blogs e sites alternativos; e deve conferir a verdade por si mesmo, indo aos shows e constatando quem é que faz música de fato. E, se a música de qualidade é, na prática, proibida, a música instrumental de qualidade, então, é algo que é abafado para ser dado como morto! – a não ser aquela música instrumental pra boi dormir, a que deixa as pessoas “relaxadas”, a que passa “otimismo” (ou torpor) e é toda certinha e pré-combinada, e, portanto, morta; essa sim é veiculada inclusive como “a” música instrumental. Então, o que chega a todos facilmente, o que está nos principais portais da internet, o que está nos cadernos de “cultura” dos principais jornais, o que é recomendado nos telejornais etc. invariavelmente faz parte do plano “refrões de fácil assimilação”, é parte do “pão-e-circo” e eu tenho verdadeiro asco disso tudo, porque serve pra manter as pessoas na superficialidade, para que sejam cada vez mais facilmente manipuladas e dominadas. Caras como Filó Machado,Toninho Horta, Hélio Delmiro, Heraldo do Monte, Arismar do Espírito Santo, só pra citar alguns exemplos de música brasileira honesta, estão na luta a pelo menos o dobro de tempo que eu e sua música não existe para os principais meios de informação deste país. É algo lamentável e que nunca é questionado, mesmo pela própria classe musical. As pessoas simplesmente aceitam a postura mercantilista dos meios e, pior, acabam se adaptando às tendências grotescas que vão surgindo; vendendo-se, abandonando o sonho e, claro, morrendo artisticamente. Eis a grande inversão de valores: o lixo é valorizado a preço de ouro e o ouro artístico é isolado como lixo radioativo. Só que, mesmo assim, alguns ainda insistem e trabalham em sua música da forma mais digna. Para mim, estes são os que merecem ser ouvidos.

20) RM:  Como você vê a cena instrumental brasileira? O que deve ainda pra “cena gringa”?

Michel Leme: A música é uma manifestação artística que não tem uma matriz reguladora, pelo que eu saiba. Ela também não tem barreiras linguísticas e, principalmente, não está sob uma lei que nos obrigue a dizer amém a nenhuma potência do hemisfério Norte, por exemplo. Portanto, não devemos nada a ninguém, pra começo de conversa, porque ninguém detém o poder sobre o exercício desta arte. O poder econômico está nas mãos dos países que a gente sabe quais são faz tempo, mas não o poder que decide o que fazer ou não em termos de arte. Isso continua sendo escolha de cada um, embora poucos tenham consciência disso – já que são levados a obedecer tendências por confundir arte com trabalho pra pagar as contas. Então, não precisamos tomar os “gringos” como patamar e muito menos anular o que fazemos se por acaso não estiver em sintonia com as “tendências” que vêm de lá. O “jazz” que se faz na América hoje não merece sequer ser citado perto do que Miles Davis ou John Coltrane fizeram em 1965, por exemplo. Então, eu estou fora de querer estar à altura da tal “cena gringa”, porque eu gosto de música, e é a música viva que me atrai. E o que ouço que vem sendo feito nos últimos anos nos EUA não tem vida – a exceção são os caras que já estavam tocando na década de 60. Então, ao invés de ficar na internet pra ouvir música em clubes americanos que transmitem música ao vivo, por exemplo, os músicos jovens daqui deveriam sair de casa pra tocar, pra se juntar a seus companheiros e fazer algo mais verdadeiro e real. Infelizmente a baixa autoestima em relação ao norte-americano ainda reina por aqui. Eu estou fora disso, porque percebi que isso é algo perverso ao extremo. Não fico esperando a chegada do “novo Charlie Parker” ou algo do tipo, prefiro sair pra tocar com os caras que ainda estão a fim de fazer música a ficar lamentando “não ter nascido americano” como a maioria faz. Isso é o que a dominação quer: que nos sintamos uns merdas invariavelmente pra que não nos arrisquemos a criar nada e apenas sejamos consumidores semi-mortos. Os músicos são todos irmãos, independente da pátria. E eu toco vários standarts belíssimos que foram compostos por norte-americanos; é um repertório muito importante, sem dúvida. Só que, por outro lado, eu não abaixarei a cabeça jamais para o que chamam “cena gringa”, porque esta não é a minha realidade. A minha realidade é a música que está acontecendo aqui e agora, mesmo com os pouquíssimos lugares que restaram para isso. Seria melhor, então, o músico se concentrar pra inventar novos lugares pra exercer sua arte em sua própria cidade; lugares onde não seja preciso se limitar a fazer fundo musical pra conversa de gente mal-educada, lugares onde o músico pode basear suas escolhas apenas no que pede a própria música. Isso sim, seria algo muito mais produtivo a se fazer do que sentar em frente a um computador ou à TV dizendo, com atitude de um potencial suicida, “é, os americanos são foda”. O melhor Prozac para estes casos é sair de casa e ver que existem músicos daqui que estão vivos de verdade e a fim de fazer música, ainda.

21) RM:  Quais as dificuldades em desenvolver uma carreira com a música instrumental no Brasil?

Michel Leme: A música instrumental está proibida na TV, nas rádios e nos principais portais da internet. E não é proibida na nossa Constituição, mas na lei “quem pode mais chora menos”, ou seja, apenas quem tem grana terá a sua música veiculada. E se tiver música instrumental tocando na TV, por exemplo, repare que é sempre como fundo musical. E não pense que quero a massificação da música instrumental, não se trata disso. O que quero é igualdade, ou seja, onde se toca Rihanna, deveria ser tocada uma música da Reteté Big Band em seguida, por exemplo – e sem comentários que induzam as pessoas a consumir o que teve o jabá pago. Utópico, não? Pode ser, mas já tive a oportunidade de tocar com um trio instrumental em meio a outros gêneros não-instrumentais ou em lugares que não tinham a menor tradição em levar música instrumental às pessoas, e a reação do público é surpreendente, por mais que as pessoas nunca tenham tido o contato com essa música. Elas viajam, se emocionam, vem conversar com a gente depois etc. Ou seja, as pessoas são sensíveis à música, sem dúvida. O problema não é a “ignorância das pessoas” como dizem alguns, o problema é que a ignorância foi imposta às pessoas desde seu nascimento, através do massacre ideológico da TV e toda a chamada “grande mídia”. Por isso, cabe a nós, além de cuidar de nossa música, inventar meios de levar essa música ao encontro das pessoas. É neste encontro que se tem a noção do poder dessa arte, bem como o potencial das pessoas de apreciar um som que tenha uma razão de ser. Além disso, eu não penso em termos de “carreira”. Meu foco está em tocar e em criar música. Qualquer profissão é difícil, mas quem realmente ama o que faz vai lutando e superando as dificuldades pra continuar fazendo. E o simples fazer é o prêmio do artista. Claro, isso não quer dizer que não tenhamos que cobrar de quem pode pagar, nós temos que ter a noção do que é trabalhar sob justas condições. É como um amigo me disse: “eu posso trabalhar de graça para o Homem e para a sociedade; para o Capital, jamais”.

22) RM:  O que melhorou no mercado da música instrumental brasileira?

Michel Leme: A internet melhorou o acesso das pessoas a essa música, elas podem entrar num site e conhecer a música de um cara e, caso gostem, podem até comprar faixas em formato digital etc. Considero tudo isso ótimo, mas não tenho os dados para responder a sua pergunta, porque não sei o que mudou nos últimos dez anos, por exemplo. Só sei que enquanto algumas coisas melhoram por um lado, a manipulação e o massacre ideológico pioram tudo pelo outro. E a internet não está livre disso. É preciso sempre estar atento.

23) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Michel Leme: Bem, tudo isso que você cita entre parêntesis aconteceu e alguns itens acontecem ainda. Mas o que é inusitado mesmo é fazer esse tipo de som – nada preparado estrategicamente para vender, onde 95% do tempo se improvisa, sem letra e sem refrões, sem artifícios para distrair as pessoas – nessa nossa terra tão dominada pela porcaria imposta pelos meios e constatar que tem ainda tem muita, muita gente que se encanta com essa música. Tocar um som que é formado por temas autorais desconhecidos da maioria das pessoas, com versões ao vivo que chegam a vinte minutos ou mais e, no final, ver o público aplaudindo de pé, o que não é raro, isso sim é o que posso te contar de mais inusitado – e maravilhoso.

24) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Michel Leme: A música é divina, estar em contato com ela é estar em contato com um mundo onde a mentira não existe. Onde há mentira, não tem música. Por isso que os caras inseridos na Indústria Cultural usam muitos aparatos visuais, é pra distrair, porque a música boa se sustenta sem artifícios – o som deles, não. De fato, a música é uma trajetória, um processo, é vida, e é algo além de definir coisas como positivas ou negativas, bem e mal etc. Estar envolvido com a música é autoconhecimento puro, é algo que exige estar atento o tempo todo porque ela é extremamente rica, complexa e em constante movimento – como a vida. Tocar é um estado acima de “feliz ou triste”. E não poderei defini-lo, desculpe. Só tocando pra saber.

25) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

Michel Leme: Em São Paulo os bares onde é possível tocar à vontade fecham por problemas com a lei e os vizinhos, devido à falta de tratamento acústico e alvará – o tratamento acústico é caro, quase ninguém prioriza isso, e o alvará de funcionamento é algo praticamente impossível de se conseguir, fale com alguém que tem comércio e saberá. Por isso, sempre é difícil arrumar algum lugar onde se toca realmente à vontade. Algumas pessoas podem ler isso e pensar que apenas quero tocar com o volume do Motörhead, mas não é isso. A música pode ir do volume mais baixo até um volume onde a bateria é tocada da forma mais intensa, assim como os instrumentos à sua volta, e isso é alto. Mas eu não inventei isso, simplesmente é assim. Então, para comportar essa riqueza de nuances, as casas devem ter estrutura, só que quase nenhuma tem. Então, abre-se um bar e fecha-se outro ao mesmo tempo, e vem sendo assim há anos. Hoje estou tocando em um ou outro bar à noite, onde é possível tocar realmente à vontade, mas são pouquíssimos, observe na agenda do meu site. O que se tem mais em São Paulo são lugares onde se faz música de fundo, como restaurantes e coisas do gênero. Por ser algo onde a música não é permitida ser tocada com liberdade, eu nem cito esses lugares como “cena musical”, eu chamo apenas de “cena de trabalho para músicos”, mesmo que alguns jurem que é música. É música até certo ponto, porque o músico é cerceado e não pode ir à frente com algum conteúdo que surja no momento, ou seja, deve “domar-se” e ser “adequado”, já que deve manter seu emprego. Ora, isso é arte? Não, é um trabalho. Ponto. Então, resta a quem quer tocar música de fato apenas os lugares onde os responsáveis curtem esse som e bancam tê-lo em sua programação – eis outro fator que torna rara uma casa que abrigue esse som dignamente. Tem também as casas que têm condições acústicas mas que pagam mal ou desrespeitam o músico, e tem também os locais que tem grana pra bancar ótimos show mas que foram loteados por máfias. Enfim, os meios para tocar música estão limitados. Uma coisa que faço, então, é tocar em escolas ou em lugares que não costumavam ter música. No Souza Lima, por exemplo, de 2000 a 2008, eu toquei num projeto do qual fui um dos idealizadores, o som acontecia semanalmente. O mesmo ocorria no meu programa na internet que aconteceu de 2007 a 2009, o Michel Leme & Convidados, na extinta TV Cia. da Música, onde tocávamos e transmitíamos ao vivo todas as quintas-feiras. Hoje em dia, esta idéia foi adaptada e transferida para a EM&T, onde realizo uma Jam Session mensal, e à Virtuose, onde toco num sábado por mês. Tocar em auditórios de escolas é bem interessante, porque quem vai assistir está ali pra apreciar música; não tem bebida e nem “baladinha” envolvidos, é som. Também toco numa luthieria em Santo Amaro num sábado à tarde por mês e em frente ao salão da minha mulher, em dois domingos de manhã por mês, no bairro do Campo Belo. Para mim, então, a cena é essa: bares surgindo e sumindo com certa rapidez e a permanente necessidade de inventar lugares para tocar.

26) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Michel Leme: Ouçam de tudo; aprende-se como fazer e como não fazer.

27) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Michel Leme: Em algumas rádios da internet a minha música já toca sem jabá faz tempo; por outro lado, nas rádios tradicionais, jamais. Infelizmente, quem manda nesse segundo âmbito é o capital.

28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Michel Leme: Estude, toque muito e se informe sempre. Tenha bom senso e observe-se para não ser um babaca arrogante. A música é divina, deve-se estar limpo pra pisar em seu terreno.

29) RM: Quais os seus projetos futuros?

Michel Leme: Tocar é o principal projeto desde sempre. Em relação a discos, vou gravar um com composições inéditas em trio (guitarra, baixo e bateria) em breve. Também vou gravar um disco em parceria com o guitarrista Djalma Lima e outro com o guitarrista Edu Ardanuy. Gravarei um DVD com o guitarrista e violonista mineiro Sandro Nogueira neste mês de maio. Tem alguns discos pra sair, como por exemplo, o “Batuqueiro” do Arismar do Espírito Santo, no qual ele toca bateria, mais o primeiro CD da banda A.R.M., que é um rock’n’roll bem pesado, além do primeiro single da banda SANGUE, que é outra banda de rock da qual faço parte. Também tem alguns sons registrados em vídeo com outros grupos que aguardam ser finalizados, como um trio gravado no MIS(Museu de Imagem e Som) com Thiago Alves e Serginho Machado e outro trio com Cuca Teixeira e o Arismar tocando baixo. Um projeto em relação à web é lançar meu novo site, que entrará no ar lá pelo meio do ano. Pra quem quiser ficar ligado nas novidades, acesse www.michelleme.com  ou meu twitter e facebook (é só procurar pelo meu nome).

30) RM: Quais seus contatos ?

Michel Leme: www.michelleme.com / [email protected]

SHOWS: Camará Produções (Amanda Souza) [email protected]

Muito obrigado pela oportunidade e vida longa ao Ritmo Melodia! Quero agradecer aos meus apoios: cordas D’Addario, guitarras Music Maker, cabos Tecniforte e amplificadores Rotstage por viabilizar a música em várias oportunidades.

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.