Marcus Vinícius

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Marcus Vinícius
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Marcus Vinicius é daquelas pessoas que você não conhece, mas sempre conhece pessoas que o conhece e cita-o pela importância dentro do segmento musical.

Músico prático-teórico, professor de Conservatório, sua primeira influência musical foi a Bossa Nova, se encantou pelos acordes dissonantes. Marcus era referencial musical como arranjador e produtor. Pernambucano criado na Paraíba chegou ao Rio de Janeiro em 1969 para começar uma carreira de músico profissional e ser aluno do Conservatório Villa Lobos, em um ano de conservatório virou professor. O mesmo tinha concluído o curso secundarista e musical simultaneamente na Paraíba que lhe dava condições plenas para ensinar algumas disciplinas.

Gravou dos Discos: “Dédalo” e “O Trem dos Condenados”, e fez varias trilhas para cinema com destaque para o Filme: “A Hora da Estrela”. Trabalho em algumas gravadoras como produtor e hoje é diretor artístico do Selo CPC – UMES de São Paulo que em cinco anos tem mais de setenta artistas no seu Catalogo. Um senhor muito simpático e falante me recebeu no seu Estúdio no bairro dos Jardins. Despojado no falar, no vestir e detentor de uma opinião firme e com conceitos próprios sobre o meio musical e a produção musical brasileira.

Nessa entrevista exclusiva com Marcus Vinícius para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01\05\2002 falou-me do seu relacionamento pessoal e profissional como: Zé Ramalho, Vital Farias, Elba Ramalho, Raul Seixas, Geraldo Azevedo, Sivuca, Cátia de França, Alceu Valença, Jarbas Mariz e Tom Zé e de suas experimentações musicais.

01) Ritmo Melodia: Como foi o seu primeiro contato com a música? 

Marcus Vinícius: Eu comecei nos anos sessenta, a minha grande descoberta e o catalisador para o meu envolvimento com a música foi a Bossa Nova. Em 1959 quando a Bossa Nova estava começando eu tinha dez anos e fiquei fascinado por aquele tipo de sonoridade de acordes dissonantes. E aos doze anos eu ganhei um Violão e antes eu tocava Acordeon que era a “praga” do Brasil nos anos cinqüenta. Quando ganhei o Violão esqueci inteiramente do Acordeon e quando ouvia João Gilberto fiquei fascinado por aqueles acordes. Muita gente fala de João Gilberto em segundo plano, mas eu falo dele em primeiro plano, ele me influenciou, eu era um garoto começando a tocar Violão e estudava em Conservatório em João Pessoa – PB. Eu fiz o colegial artístico, era um curso colegial acoplado em um conservatório no final do curso recebi dois diplomas um colegial e outro de música em 1967. E em 1965 eu comecei a compor, eu já tinha experiência com poesia e juntei as duas aptidões.

02) RM: Como surgiram as suas primeiras composições? 

Marcus Vinícius: Em 1966 teve o primeiro Festival de Música na Paraíba eu concorri com uma música chamada: “Poeira”, que fiz em parceria com Marcos Tavares que hoje é colunista do Jornal: O Norte. E ganhamos o terceiro lugar, naquela época havia uma interação muito grande entre os movimentos cultural da Paraíba e o de Pernambuco e viajamos muito para Recife – PE que é meu Estado de origem e no qual minha infância musical é permeada pelo frevo, maracatu. Mas comecei compor na Paraíba para onde minha família mudou-se. Mas em 1966 comecei participar dessa interação de João Pessoa – Recife com pessoas como: Teca Calazans que hoje mora na Europa, Geraldo Azevedo, Naná Vasconcelos na época tocava bateria e percussão, Marcelo Mello que participou do Quinteto Violado e foram com essas pessoas que comecei a dá os primeiros passos profissionais, mas ainda dentro do amadorismo. Em 1967 houve a primeira feira de Música do Nordeste realizada pelo grupo: Construção que era dirigido por Teca, nessa época eu estava com um balaio de música mais recheado e escrevi quatro músicas na Feira de Música e foram classificadas e uma delas ganhou o primeiro lugar: Chegança de Fim de Tarde, e a outra música, segundo e outra quarto lugar. O primeiro lugar eu dividir com a música: Aquela Rosa, de Geraldo Azevedo. E a cantora Eliana Pittiu nos conheceu no Recife e fez um convite para o Geraldinho ser violonista dela, levando-o para o Rio de Janeiro em 1967 e mostrou as composições dele e as minhas que ganharam a Feira de Musica e ela gravou as duas. Foi a primeira opção profissional e em 1968 eu, Naná e Teca fomos para o Rio Janeiro. E comecei de fato a fase profissional com toda essa preparação.

03) RM: Você trabalhou com música em Bares? 

Marcus Vinícius: Eu só frequentei os bares como consumidor, por que quando cheguei ao Rio de Janeiro por ser um cara multifacetado tinha experiência com poesia, música, compositor. Eu só tive um problema com minha família que queria que me formasse em Engenharia, Medicina, Direito que era muito comum naquela época. Eu tinha passado no Vestibular para o Curso de Letras em João Pessoa, mas não concluir e resolvi comprar a briga pela música. E na época não tinha o curso superior de Música no Nordeste, esse foi um dos motivos de vi para o Rio de Janeiro para fazer o curso no Conservatório que tem o nome do compositor e maestro: Villa Lobos e que era dirigida por um paraibano de Guarabira: Reginaldo Carvalho que foi discípulo de Villa Lobos e que estudo na França. Comecei a Cursar para ter o diploma superior de música e no primeiro ano; como tinha estudado em conservatório e naquela época não existia professor com formação superior passei a ser professor em algumas cadeiras que estava qualificado a lecionar. E nessa época passei a fazer pequenos shows com Geraldo Azevedo, Naná Vasconcelos, tocávamos juntos de 1969 a 1971 comecei a compor com Geraldo Azevedo fizemos: Coqueiro, Novena e etc. Mas cada um tinha um trabalho individual.

04) RM: Qual era o panorama cultural e político nessa época?

Marcus Vinícius: Nesse período 1970 o país passava por momentos difíceis por conta da Ditadura Militar. Os teatros não funcionavam, depois de uma efervescência cultural que o país passou através dos Festivais de Música, chegamos a um momento muito difícil, limitado. E fui procurado pelo compositor Sergio Ricardo que nos chamou para fazer algum movimento, porque tudo estava muito parado. E a ideia que ele nos passou seria de fazer algum evento no Teatro Opinião que era o símbolo de resistência cultural naquela época. E propôs um show com três pessoas que eram: Eu como sendo uma revelação por está chegando naquele momento, Sergio Ricardo como um representante da Bossa Nova e Sidnei Muller que era da geração dos Festivais, que inclusive é um compositor injustiçado apesar de ter um teatro no Rio de Janeiro. Ele foi um autor muito importante na época dos Festivais de Música. E fizemos o espetáculo chamado Opção. Antes eu tive um envolvimento com inicio do Tropicalismo que ainda hoje é uma história não muito bem contada no Brasil que muitos dão o titulo de criadores a Gilberto Gil e Caetano Veloso. A história real do Tropicalismo, que é um fruto da inquietação coletiva que existia e lembro que em uma entrevista de Caetano que foi editada no: Livro de Cabeceira de um Homem, da Editora Civilização Brasileira. Caetano falou que em 1966 Gil passou uma temporada no Recife e que de lá ele trouxe o salto para o Tropicalismo e mostra que quando o Gil nos encontrou no Recife e naquele momento nós que estávamos fazendo música estamos buscando um caminho que não fosse mais Bossa Nova ou Música de Festival, mas ninguém sabia direito qual seria a direção a ser tomada. A Bossa Nova era uma música bem acabada, eu acredito que quando o bom gosto se cristaliza todo mundo fica repetindo a mesma coisa. E nessa época buscando algo novo eu assinei os famosos manifestos e participei das primeiras discussões do Tropicalismo que podia ter outro nome. Então eu fiquei com o rôtulo de fazer a música nova que mesmo havendo alguma resistência para o movimento musical batizado de Tropicalismo, que acabo sendo identificado como tal. E voltando ao show Opção, recebíamos convidados como: Paulinho da Viola, Dori Caymmi, Bethe Carvalho, Luizinho Eça e outros convidados que era o quarto participante. O show foi o momento da minha profissionalização, mesmo tendo músicas gravadas e continuei dando aulas no Villa Lobos.

05) RM: Fale do primeiro Disco? 

Marcus Vinícius: O primeiro disco aconteceu em 1974, eu já era arranjador por que estudava música e algumas pessoas me procuravam. E fiz o primeiro disco pela Continental a convite do Produtor: Valter Silva, conhecido como o Pica Pau. E vi morar em São Paulo nessa época e o nome do disco: “Dédalo”. Depois de enfrentar vários obstáculos (labirintos) como: A crise do Petróleo e a Censura foram cortadas músicas e mudaram o nome de outras. Em 11 de Setembro 1973 comecei a gravar e para mim foi uma data marcante foi quando Salvador Allender sofreu um Golpe no Chile e morreu. O disco foi muito premiado com melhor do ano e bastante badalado. Hoje consta como um disco antológico e teve uma vendagem razoável. E foi relançado pela: Marcos Pereira.

06) RM: Fale de suas experimentações musicais e do segundo disco.

Marcus Vinícius: Comecei a gravar um outro disco de forma Independente que se chama: “O Trem dos Condenados”, quando o disco estava quase pronto eu procurei a gravadora Marcos Pereira que era uma gravadora totalmente oposta ao meu trabalho, mas tinha um caráter cultural. Nessa época em 1976 a indústria brasileira estava se tornando mais mercadológico e comercial. O meu trabalho era um experimental e estava gravando música atonal (Que não existe um centro tonal na música) que não tinha referência com o ciclo das quintas: (C-G- D -A). O Acorde não é formado por três notas com os intervalos clássicos de: Tônica –Terça – Quinta. Essa forma de composição se faz na música erudita desde 1913, mas na música popular até hoje é um tabu. E dentro dos muitos caminhos que eu estava buscando um dos caminhos era esse. E proposta desse trabalho não caberia para uma grande gravadora e a Marcos Pereira estava desenvolvendo um trabalho com a música folclórica e música tradicional. Em 1976 foi lançado se tornando um disco muito badalado por ter ganhado muitos prêmios e por ter um caráter experimental explorando atonalidade que até então não era feita por outros compositores populares. Fiz uma música para o poema Lígia Fidelis de Augusto de Campos. Tem uma música de trinta segundos baseado em uma onomatopéia dos quadrinhos Grrre. Nessa época fazia muitos shows em São Paulo e comecei a trabalhar nos primeiros discos de Belchior como produtor.

07) RM: Fale da sua experiência como produtor musical. 

Marcus Vinícius: Eu comecei o meu trabalho de produtor como uma extensão do meu trabalho como arranjador, o primeiro disco do Belchior os arranjos foram feitos na minha casa, escrevíamos a música e a noite eu escrevia a orquestração e mostrava no outro dia para ele. E quando o Marcos Pereira viu meu disco pronto, ele está sem uma pessoa para a direção artística da gravadora, o meu trabalho na verdade é mais como diretor artístico e não como produtor, mesmo acompanhando os trabalhos no estúdio. E fiz os trabalhos do Quinteto Armonial no qual faziam parte Antonio Carlos Nóbrega, Antonio José Madureira, Elomar, Arthur Moreira Lima, O Grupo Tapis do Rio Grande do Sul, Papete, Adauto Santos, Carlos Poyares, Jane do Duboc. A Marcos Pereira trabalhava mais com temática musicais do que com trabalhos autorais e com essa filosofia produzi mais de cem discos. Quando o Marcos faleceu a gravadora fechou as portas e fui produzir para Eldorado fiz alguns trabalhos como: Canto dos Escravos que contava com a participação de Clementina de Jesus, Doca da Portela, Geraldo Filme que era um grande sambista de São Paulo e foi gravado com o dialeto Banto que era usado pelos negros da Chapada Diamantina. E montei um Estúdio de Gravação e comecei abri espaços para os músicos independentes como: O Quinteto Viola, Mauricio Tapajós e outros artistas.

08) RM: Como surgiu a proposta para ser o produtor da CPC –UMES?

Marcus Vinícius: Estou desde 1997 trabalhando de Produtor para CPC – UMES que neste cinco anos de existência tem setenta e quatro discos no seu Catalogo. E estamos tentando fazer aqui um pouco do que a Marcos Pereira fazia, mas tendo a consciência que os tempos são outros, e felizmente muitas sementes que o Marcos plantou frutificou em outros lugares como na Kuarup, Eldorado e outras gravadoras que deram continuidade aos trabalhos de resgate e preservação da música brasileira se generalizaram, mesmo sendo de uma maneira muito pulverizada. Então o convite da CPC – UMES foi pautado pelo fato de eu ter experiência, um estúdio e conhecer os caminhos das pedras. E falei quando me procuraram que se tivesse alguém responsável pela administração da empresa, porque não tenho nenhum tino empresarial mesmo sendo dono de um estúdio e foi à mesma resposta que dei para a família do Marcos Pereira quando me convidaram para continuar os trabalhos da gravadora, mas a família não tinha ninguém que administrasse.  E aqui na CPC –UMES fizemos a parceria ideal, eles no empresarial e eu no artístico. Essa empresa surgiu da iniciativa dos estudantes secundaristas do município de São Paulo que além de administrarem um cursinho pré-vestibular e gerenciar a distribuição das carteirinhas de estudantes que são atividades muito complexas, resolveram direcionar os seus recursos a uma atividade cultura criando um selo. E o nome Centro Cultural Popular é uma homenagem ao CPC da UNE, mas eu falei para eles que não poderia ser repetido os anos sessenta nos anos noventa, porque o passado não volta e a situação hoje é outra, por que a historia não se repete a não ser como farsa, então falei para eles se o CPC for apenas o nome tudo bem, mas se for para resgatar o CPC da UNE vocês não contem comigo, porque acho que é uma furada. Minhas exigências foram: Carta branca para fazer o trabalho na parte artística e que vocês tenham paciência por que não vamos resolver certas questões na música brasileira hoje a não ser com paciência sem imediatismo, porque do contrário tem que buscar grupos que estão na moda no momento ou uma loira ou morena, boazuda para rebolar no palco. É processo lento e continuo por que o mercado está tomado pelas estratégias de marketing das grandes gravadoras e que gastão milhões para atingir o objetivo e não vamos entrar nesse mercado por que não temos esse dinheiro e porque estaríamos sendo igual e queremos ser diferentes para criarmos nossa marca porque é isso que a música brasileira está precisando de gravadora que dê espaço para a liberdade criativa.

09) RM: Quais são as prioridades da CPC –UMES?

Marcus Vinícius: Nossas prioridades são: resgate da música brasileira, da música instrumental como o que está acontecendo agora aqui, estamos gravando um Quinteto de Clarinetes que é uma coisa inédita, Quarteto de Sax da Paraíba, Quarteto de Trombone da Paraíba, Isaias do Bandolim, Choro e Samba, Inezita Barroso, Glória Gadelha, Música da Nicarágua, o Grupo Novel Voz. Trabalhamos com o histórico e o cultural, mas que não é do tempo da Marcos Pereira ou da década de sessenta, hoje não precisamos gravar gêneros musicais tradicionais com medo deles não existirem no futuro. Hoje os jovens músicos estão mantendo as tradições musicais. Um bom exemplo é o grupo A Barca, que é formado por jovens paulistanos que pesquisam as tradições musicais regionais como o Mario de Andrade, eles vão aos mesmos lugares para verem como está hoje. O CD chama-se: O Turista Aprendiz; que é o titulo de um livro do Mario de Andrade. A juventude tem um papel muito grande no processo de revitalização da cultura musical. Hoje não podemos gravar um disco como registro etnográfico, achando que a música folclórica e popular vai acabar. Hoje temos que gravar o melhor maracatu, frevo, boi bumbar, choro, samba gravados por jovens que não encontram o lugar em outras gravadoras.

10) RM: Fale dos Festivais de Música dos anos sessenta?

Marcus Vinícius: Eu participei dos Festivais no Nordeste, quando cheguei ao Rio de Janeiro foi quando esses Festivais estavam no processo final. Eu cheguei à Festa quando o Garçom estava recolhendo os copos (risos). Essa foi à sensação que eu tive e que toda minha geração teve.  Eu acho o que é mais importante não é propriamente o Festival, é preciso fazer uma reflexão do que se passava na época. O Festival era um momento anual que coroava o movimento musical que acontecia na Televisão. A TV naqueles anos tinha lugar para música brasileira, a TV Record e Tupi tinham vários programas musicais. A TV globo surgiu em depois de 1965 e começou com Festivais. Você ligava a TV e tinha programas musicais e os festivais coroavam esse momento musical. Existia uma ânsia por coisa nova e tinha uma geração que estava se preparando para desempenhar um papel nesse momento musical do Brasil. Tinham a música do rádio que eram populares e na TV não tinham e esses músicos foram os primeiros ícones: Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Gil, Caetano, Toquinho, Elis Regina, Edu Lobo, Jair Rodrigues, Gal Costa, Tom Zé, Vitor Martins, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, Ivan Lins e muitos outros que indiscutivelmente eram os melhores. A música passou a ser vista no Brasil como um mercado depois desse processo dos Festivais. Eu na função de produtor musical recebo muitas fitas e CDs demonstrativos apresentado trabalho e noventa por cento que chega é muito ruim. A parti de 1969 veio o declínio dos Festivais e quem entrou no espaço da TV foi a telenovelas. Então os cantores que se destacaram nos festivais eram os melhores e participaram dos melhores momentos da música popular brasileira. A geração que veio depois não teve mais o espaço na TV. Sem falar da censura política e estética, porque as gravadoras não querem muitos ícones no seu elenco, um e outro são bons, mas não querem ter hoje cem ícones nem cem egos para peitarem elas de frentes com exigências.

11) RM: Fale dos principais movimentos musicais e artistas que você conviveu na Paraíba?

Marcus Vinícius: Por questão de justiça um momento importante musical na Paraíba eu não vivi que foi o tempo da Orquestra Tabajara que o Severino Araújo criou no final dos anos quarenta, aquela maravilha que fizeram apresentações em João Pessoa, Recife, Rio de Janeiro. Eu imagino que esse momento foi muito bonito e gostaria de escrever uma crônica ou conto sobre o duelo da Orquestra Tabajara versus a Orquestra de Tomy Dorsi no Cassino da Urca e as pessoas votando em quem era a melhor e o público deu empate. E o Tomy levou o baterista paraibano Mario Lins para o Estados Unidos para tocar na sua Orquestra. No rádio na Paraíba passaram: Sivuca (que é meu parceiro e estamos para realizar uma obra imensa que é um choro de cordel, ele quer que eu ponha letra e tenho umas músicas e quero que ele coloque a segunda parte; precisamos nos encontrar para realizar esse trabalho), Jackson do Pandeiro, Glorinha Gadelha. Os meus contemporâneos da música eram poucos e tinham os músicos eruditos fazendo concertos para uma dúzia de pessoas na platéia e um coral universitário regido pelo mineiro Arlindo Teixeira e o professor de música amazonense Pedro Santos que foi responsável por abri a cabeça da moçada para o cinema, a música e teatro, são duas figuras muito importantes. E tinha também os conjuntos de bailes e poucas pessoas compondo, os que se destacavam era o Genival Macedo, Rosil Cavalcante que era um grande compositor. Em 1966 aconteceram os primeiros festivais e abriu os baús, começaram aparecer novos compositores: eu, Luiz Ramalho que é advogado mais compunha, Genival Veloso era um médico que compunha com Zé Pequeno que era alfaiate, eram compositores que saiam dos seus trabalhos compunham algumas músicas. E o grande Gabimar Cavalcante de Campina Grande que é mais instrumentista.

12) RM: E os seus contemporâneos?

Marcus Vinícius: Começando por meu compadre: Vital Farias, que era guitarrista da Banda: “Os Quatros Loucos” que tinha também o Zé Ramalho na outra Guitarra que também era compositor, mas nessa época não estavam compondo. Eu era um compadre chato e falava para o Vital abri a cabeça e lê música e leve-o para o Recife para participar de Programas de TV, a música dele tem muita vitalidade, mas tem um excesso de ideias e caminhos que ele precisa podar um pouco para chegar a um caminho sólido. Não basta ter boas intenções, mas sim saber realiza-las, ele é talentoso fazendo melodias, mas quando você escuta: A “Saga da Amazônia” é uma coisa, quando escuta Sete Cantigas Pra Voar é outra, que mostra bem o excesso de musicalidade dele, ele precisa encontrar um caminho mais único. Ele tem muito talento e excesso de musicalidade.

13) RM: E Zé Ramalho?

Marcus Vinícius: Zé Ramalho não compunha quando eu estava na Paraíba, um belo dia aparece no Rio de Janeiro com um trabalho solo e fizemos alguns trabalhos. Ele me acompanhando e coloquei-o em contato com Robertinho do Recife e o pessoal que orbitava em torno de mim, do Geraldo Azevedo e do Alceu Valença, dividíamos os músicos em nossas apresentações que eram: O Robertinho (Guitarra), Lucinho (Bateria), Wilson (Baixo) ou Bruce e se agregou a esse grupo e fiquei muito feliz por ele ter gravado uma música minha no CD: “Eu Sou Todos Nós”, a música: “Falido Transatlântico”. Eu voltei para São Paulo e pedir o contato, mas fiquei acompanhando de longe o surgimento de Cátia de França, Pedro Osmar, Elba Ramalho que atuavam na peça: Lampião no Inferno que tinha a participação de Vital Farias e Tânia Alves. Esse grupo me chamou para ser diretor musical de uma peça: “Viva o Cordão Encarnado” do Luiz Marinho.

14) RM: E Cátia de França e Pedro Osmar?

Marcus Vinícius: Foi quando conheci a Cátia que era Sanfoneira, Violonista e Zabumbeira. Cátia é muito sentimento e visceral no seu trabalho e penso que falte um pouco de técnica. Ela tem universo interno muito rico na poesia, mas está limitada a técnica no instrumento. Mas ela dá o recado de forma latente e tem um pulsar muito forte. Pedro Osmar é um Vital Farias com um sinal invertido, ele está tateando e buscando o caminho, mas não basta fazer musical experimental por experimentar. Espero que ele chegue ao caminho certo porque ele tem potencial, mas não pode chegar aos oitenta anos tateando.

15) RM: Fale um pouco do seu trabalho com Geraldo Azevedo.

Marcus Vinícius: Geraldinho temos uma convivência desde 1966 fazíamos música no Recife, em João Pessoa nos encontros musicais, apresentações e shows. No Rio de Janeiro ficamos mais próximos compúnhamos e trabalhávamos juntos. Quando comecei trabalhar em São Paulo tive pouca convivência com Geraldo, deixamos de lado a parceria e não sei por quê. E de vez em quando pensamos em fazer algumas músicas por estarmos mais maduros. Eu vejo no Geraldo o caminho inverso do Vital, ele é um músico direcionado para um voo mais alto. Ele faz uma música boa dentro da música brasileira no sentido de preservar o universo da canção, mas sei que ele tem muito mais recursos do que está apresentado. Um excelente violonista e pode ter uma obra mais profunda, sair do universo da canção do rádio e quase pop, ele tem fôlego e talento para fazer um trabalho mais denso.

16) RM: Como você analisa o trabalho da Elba Ramalho?

Marcus Vinícius: A Elba Ramalho é uma artista grande, mas que pode ser maior. Eu trabalhei com Elba e conheço a potencialidade dela. Com todo respeito aos produtores que fizeram os discos dela, mas ela tem mais para oferecer. É um pouco do que falei sobre Geraldo Azevedo são pessoas com um potencial ainda não explorado. Os discos da Elba tem problema de inconsistência de repertório que tem músicas boas juntas com músicas não tão boas. A Elba é a nossa Tina Turner e que poderia trilhar uma carreira internacional, mas deixaram-na na condição limitada de vender 300 mil copias e se dão por satisfeitos e não pensam em voos maiores para a carreira dela.

17) RM: Fale um pouco de como você vê a obra do Alceu Valença.

Marcus Vinícius:  Alceu é meu companheiro desde Recife, é um vulcão de talento espontâneo e por ser espontâneo não dá para direcioná-lo. Ele não tem o víeis musical que o Geraldo Azevedo tem como músico, desde Violão a melodia das músicas criadas. A música de Alceu é uma música popular, de refrão e verbal tenho um maior respeito pelo trabalho dele e tenho um enorme prazer em ouvi-lo. Não é um autor que seja um referencial de mudança da música brasileira. Ele reuniu e condensou muito da música folclórica e deu uma linguagem pop e como uma figura de palco é contagiante. E a música dele é nordestina e muito agradável. A contribuição importante de Alceu para música brasileira foi colocar a sua personalidade musical criativa no que já existia e como artista espontâneo tem que ser tratado como tal.

18) RM: Fale do trabalho do Jarbas Mariz? 

Marcus Vinícius: Jarbas é múltiplo na sua arte,mas precisa descobri o seu caminho, atirar em todas as direções às vezes não funcionar. Eu conheço o Jarbas sei da potencialidade dele e tem um caminho que é dele, mas ele não encontrou ainda.

19) RM: Tem outro compositor paraibano que você gostaria de tecer algum comentário?

Marcus Vinícius: Mas uma pessoa da Paraíba que eu cito com muito prazer é o Alcides Neves que é medico, mas tem uma inquietação musical muito grande. Ele não é tão inquieto como Pedro Osmar e parece não ter tanto gosto pela experimentação. É pouco conhecido na Paraíba.

20) RM: Quais são os músicos paulista que você destacar?

Marcus Vinícius: É difícil. Eu como produtor já conheci tanta gente.  Madan, realmente é um trabalho muito interessante e por ele não ter tido paciência ou tempo de esperar foi que o disco dele não saiu pela gravadora CPC-UMES. A gravadora estava passando um momento muito difícil. Ele é um autor interessantíssimo. O trabalho do Celso Viáfora está apontando para um caminho muito bom. O trabalho do Itamar Assumpção para mim é muito fluido, é um bom autor e gosto dele, mas penso que está mais conceituado do que realizado. Ele tem muita ideias em torno do trabalho do que realização dessas ideias, mas fica só no nível da intenção.

21) RM: Como você vê o trabalho do Tom Zé.

Marcus Vinícius: Eu gosto muito por me inquieta (Eu até cruzei com ele no transito e fiz sacanagem com ele), o trabalho do Tom Zé me fascina porque ele tratar a música com irreverencia. As fitas que me chegam para eu escutar e me dou o luxo de escutar todas, mesmo demorando um pouco para respondê-los. E é incrível como as pessoas vêem a música com uma formalidade. E todo mundo acha que podem salvar o mundo, a vida e a filosofia com a música. Eu, penso que em alguns casos a música pode até se prestar para essa função, mas você tem que vê a música como veículo de expressão extraordinária, mas sem reverenciar para não cair no mal da cristalização da arte. E o Tom Zé circular à vontade nas grandes ideias e às vezes nas nem tão grande assim, mas ele pega e circula com desenvoltura e mostra a sua capacidade experimentando e inquietando. Não sou obrigado a gosta da música que não me incomoda. Eu gosto muito quando a música me incomoda tendo qualidade. Aqui na CPC –UMES temos muitos talentos, mas nenhum que possa despontar e pode acontecer com um jovem chamado Lupercio Albano que nos conhecemos depois de uma oficina que realizamos e a inquietação dele está me surpreendendo. A gente sempre tem uma geração que cria e outra que desenvolve bem. E o Tom Zé tem um desprendimento total para vê no que vai dá. E as pessoas têm medo de ousar. Ousar acho muito bom e saudável, se tratarmos a música com muito respeito não conseguiremos fazê-la ir pra frente.

22) RM: Quem você destacaria como revelação dos últimos anos? 

Marcus Vinícius:  Eu gosto do trabalho do Chico César, mesmo achando muito reverencial e referencial ao que já existi. É um trabalho de muito bom gosto, mas que está preso ao status da MPB. Eu penso que ele deveria ser mais irreverente para chegar a alguma coisa mais diferente. Ele usar símbolos que existi atualmente e isso segura um pouco a sua criatividade, quando ele esquecer um pouquinho que se deve gravar o Baixo desse jeito e cantar desse jeito, o trabalho dele tem uma proposta pessoal, mas está preso aos costumes da música dos outros. E não é só ele mais os destaques hoje na música mantém essa cristalização da arte. A música instrumental brasileira está se abrindo mais para as novidades e menos reverencial. Mas os cantores e compositores estão presos a obrigação de ter um jeito do Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento por melhor que seja essas influências são propostas já realizadas têm que dá um passo à frente.  A Gravação do Teclado, Baixos, Guitarras, ritmos e timbres são os mesmos. É preciso largar as muletas que deram certo e buscar aprender nova fôrmula, pintar diferente.

23) RM: Quem para você está perto dessa inquietação na atualidade? 

Marcus Vinícius:  O Lobão visto pelo ângulo da música popular brasileira ele é irreverente, visto pelo ângulo do Rock é irreverente e os símbolos que usa o torna uma pessoa com um trabalho interessante. Os Paralamas do Sucesso eu não gosto da música, mas a parte rítmica eu gosto muito. Laércio de Freitas um pianista que toca choro de uma maneira impressionante.

24) RM: Fale da sua experiência compondo para trilha de Cinema. 

Marcus Vinícius: As pessoas sempre acha que o músico é aquele que faz disco. Eu fiquei alguns anos sem fazer disco e as pessoas perguntavam se eu não gravava mais nem fazia músicas. Eu fiz música para o filme: “A Hora da Estrela” que passou no mundo inteiro e para fazer aquela trilha tive mais trabalho do que se fizesse uns três discos. Eu gosto muito de trabalhar com o Cinema, porque é uma linguagem muito especifica, necessita de um conhecimento do sincronismo de som e imagem. Fiz o Pedro Mico, A Próxima Vitima, O Evangelho Segundo Teotônio e muitos outros que já perdi a conta. E lancei um CD duplo que se chama: Música do Cinema Brasileiro pela CPC –UMES.

25) RM: Como foi sua convivência pessoal e profissional com Raul Seixa?

Marcus Vinícius: Raul foi meu amigo desde Rio Janeiro e fui arranjador de músicas dele cantadas por outros interpretes. Quando Raul fazia os discos dele tinha uns esquemas dele que eram muito próprios e como ele tinha experiência de produtor fazia todo o Disco. Mas quando as músicas dele eram gravadas por outros ele me indicava como arranjador. E fizemos programas de TV em São Paulo e tínhamos um excelente relacionamento. Raul foi um cara que encontrou o caminho próprio, queira os outros gostando ou não e deixou a sua personalidade na música brasileira.

Contatos: [email protected]

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.