Marco Mendes

marcos mendes
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Caminhando pelo mundo da gente e de Deus, olhei uma galera surfando num mar de som, cantando “Oxentebrother” em conjunto. Pensei gritando na cabeça: “é o estouro da boiada!”. Isso mesmo, compadre! Achei minha música nas estradas que passei, com as pessoas que conheci.

Assim eu imagino que falaria Marco Mendes se me desse, agora, uma entrevista sobre seu trabalho musical. De início, não o classificaria como artista, e sim um cara que faz arte (perceba a diferença), desprendido do fanatismo e do romantismo Cult. Aliás, não o classificaria. Simplesmente ele é.  Nasceu na Paraíba, em Campina Grande, e se criou no mundo, morando em quase todas as capitais brasileiras, saboreando a vida e questionando os estereótipos sociais. Iniciou as suas performances no teatro, ainda jovem. Mas trafega livre e criativamente pelas artes cênicas, plásticas, pelo artesanato, fotografia, entre outras, e pela música. Além da atuação na arte-educação. Residente em São Paulo, desde a década de 1990, Marco Mendes atua (também) como cantor e compositor desde que colocou um violão nos peitos e decidiu tocar.

Hoje, possui três CDs: Ao contrário, gravado com sua primeira banda: o grupo freerró. O CD – “Oxentebrother” já foi o início de seu trabalho solo; e o CD – “Música Comum”, um conceito que referencia a vida comum, o homem comum e tudo de comum que há na vida. Neles constam músicas de Marco e outros compositores brasileiros comuns. Seu estilo? Não sei dizer. Sei que é música. Forró, rock, samba, soul music, baião, etc. E tem zabumba, tem guitarra, tem citara, tem samples, violino, gaita e tem vocal. E no final de tudo, tem coisa comum a todos. Destaque para as faixas: “Oxentebrother”, “Rindo do Rio”, “Da minha janela”, “Brincando com o dinossauro” e “Coco Nenhum”. Algumas canções estão disponíveis no youtube e outras vias virtuais. Imagino que isso de “música comum” é também uma resposta ao condicionamento social de querer classificar as pessoas em algo. Qual estilo de música você canta? Que tipo de música você faz? Você é cantor de que? E a resposta é categórica: música comum. Aliás, o furgão inventivo dos inquietos sempre trafega pela fronteira do experimento, da busca do algo novo. Cabe ao restante tentar classificar ou querer compreender. E assim Marco segue produzindo arte, ao seu
modo. Ouvir Marco Mendes é uma visita às constelações escuras, onde habitam signos metafísicos, capazes de fazer funcionar um maquinário desligado, há tempo, dentro do cotidiano interior de qualquer trabalhador comum. É música comum, Amigo!Confira. * texto de Matheus Andrade que é o produtor do novo álbum de Marco Mendes.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Marco Mendes para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01 de março 2014:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Marco Mendes: Nasci no dia 13.08.1957 em Campina Grande – PB.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Marco Mendes: Foi em casa. Música no rádio. E cantando nas calçadas com a molecada. Na adolescência toquei (cantei) em alguns grupos de samba. Mas nada profissional.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Marco Mendes: Eu sou da escola da vida. E a vivência, que considero a minha maior escola foi o Teatro. Foi lá desde menino que aprendi tudo que uso até hoje: interpretação, cenografia, iluminação, música, direção, etc. Além disso, aprendi muito sobre pessoas, e ser gente.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Marco Mendes: Muita gente importante, mas acho que ninguém é mais que ninguém. E nunca fui muito exigente com o que as outras pessoas faziam. Eu gostava e gosto de tudo. E fico na minha. Faço o que tenho vontade e acho que as pessoas tem esse direito e eu não julgo ninguém. Então, Genival Lacerda, Lenine, Martinho da Vila, Alceu Valença, Gilberto Gil, Paralamas do Sucesso, Zeca Baleiro, Chico César e tudo mais que eu escutar está valendo. Mas, prefiro o que não ouvi ainda. Hoje em dia, pela internet, todos os dias ouço vários jovens artistas muito bons, é difícil citar nomes.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Marco Mendes: Eu trabalho desde o começo da adolescência. Tudo que fiz foi profissionalmente, ainda em Campina Grande. Comecei no Teatro e em Natal – RN, nos anos 80, eu fiz o meu primeiro trabalho com música com o show “Irreverência Nordestina” a partir daí a música foi tomando conta e nunca mais parei. Sempre tive a preocupação de manter vivas todas as artes que produzo.

06) RM: Quantos CDs lançados e quais os anos de lançamento(quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que se destacaram em cada CD?

Marco Mendes: Em 1994 gravei o CD – “Ao Contrário” com o grupo “Freerró”, banda que eu criei em São Paulo em parceria com o flautista e saxofonista Haylton Proença. Esse CD foi um trabalho experimental com referência do jazz.  Em 1998 o segundo CD – “Oxentebrother” e primeiro disco solo, gravado em Campina Grande – PB, produzido por Paulo Pelee com participação de Moisés Freire (guitarra); Beto Piler e Djair (baixo); Ferreti (percussão);com participação de Capilé e Jarbas Mariz. Foi mixado e masterizado em São Paulo por Paulo Le Petit. Foi um CD com um pouco de tudo: funk, forró, xote, um disco contemporâneo com vários ritmos e foi focado na escolha das poesias principalmente. Em 2003 foi o terceiro CD – “Música Comum” produzido por mim e a proposta é de um CD político focado também na poesia com nuances do Movimento Harmorial. Usei cítara, violino, viola caipira, gaita; não tem bateria nem contrabaixo porque a percussão foi usada como sonoplastia e o ritmo foi acentuado pelos violões. As músicas que se destacaram em cada um dos trabalhos citados acima foram: Do CD – Ao Contrário foi “Papagaio do Futuro”; no CD – “Oxentebrother” a música que deu nome ao disco e virou um hit; no CD – “Música Comum”, duas músicas “Brincando com Dinossauro” e “Se não fosse o valor do nordestino em São Paulo não tinha Arranha Céu”. Atualmente estou na produção do CD – “Do Meu Jeito” com os Fanfarrões em São Paulo. É o primeiro totalmente autoral.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Marco Mendes: Eu adoro invencionices, esse é o meu principal estilo, azul calcinha (risos). Sou um homem totalmente sem estilo, sou livre, um criador. Faço o que tenho vontade, sou antenado com o futuro.

08) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Marco Mendes: COMUM.

09) RM: Você estudou técnica vocal?

Marco Mendes: No teatro, bastante, e utilizo na música. Como intérprete, sou visceral.

10) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Marco Mendes: Já citei alguns acima, mas gosto muito do Michael Jager, João Bosco, Elba Ramalho, gosto de cantores com timbres diferentes…

11) RM: Como é seu processo de compor? Quem são seus parceiros em composição?

Marco Mendes: O processo é sentar e escrever. Tenho dois parceiros que sempre que nos encontramos sai música nova, são Nino Marcos e Arleno Farias. Quando componho sozinho, a letra sai aos poucos, vou fazendo um pouco por dia.

12) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Marco Mendes: Eu vejo apenas vantagens por poder me expressar livremente, ser dono do que faço e compartilhar meu trabalho. Por não ter o sonho de virar pop star não busco a grande mídia, é um trabalho que compartilho com amigos e o meu público.

13) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro? Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Marco Mendes: Eu não sou pesquisador nem juiz. Ouço muitas coisas boas e muita coisa ruim. Acho que a grande revelação do mundo hoje é Michel Teló que atingiu o mundo com a criação de um “mantra popular universal”, então, como vou considerá-lo ruim? O mundo inteiro canta junto com ele. E a canção que ele canta está traduzida em todas as línguas. E eu estou fora de guerrilhas musicais. Sou aberto.

14) RM: Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Marco Mendes: A referência para mim hoje continua sendo o velho e bom Hermeto Paschoal.

15) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Marco Mendes: Já tomei vaia em show de Rua com a banda “Freerró”. Outra vez, com a mesma banda, no Norte de Minas Gerais e de repente vimos o público todo sair correndo; ninguém da banda entendeu nada. Era o ônibus do Araketu que estava chegando (risos). Isso virou a comédia de nossa vida.

16) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Marco Mendes: O que me deixa mais feliz é tocar, fazer meu trabalho. O que me deixa mais triste é não tocar.

17) RM: Como era a cena musical de Campina Grande antes de vir morar em São Paulo?

Marco Mendes: Faz 30 anos que saí de Campina Grande e, na época, eu frequentava a cena teatral. Da música eu era um frequentador, como público, da cena musical alternativa: Bráulio Tavares, Fuba, Quinteto Harmorial eram as minhas referências, além dos Festivais de Música Universitários.

18) RM: Quem eram os músicos que se destacavam?

Marco Mendes: Os citados acima.

19) RM: Hoje quando você visita Campina Grande o que você analisa que mudou de relevante na cena musical local?

Marco Mendes: Frequento pouco Campina Grande, vou lá para visitar a família e não tenho contato profissional. Tenho alguns amigos que fazem trabalho que gosto.

20) RM: Fale como começou a sua parceria musical com Nino (autor de vários sucessos nacionais na voz de duplas sertanejas)?

Marco Mendes: O Nino é amigo de infância. Na adolescência criamos o grupo “Batuqueiros do Relento”. E entre uma partida de futebol e outra, tinha sempre um violão e uma cachaça e assim começou nossa parceria. Até hoje quando ele vem a São Paulo, vem aqui em casa e sai mais uma música!

21) RM: Quais os músicos campinenses e paraibanos que você recomenda ouvir o som?

Marco Mendes: Elba Ramalho, Chico César, Daera, Oxentegroove, Zé Ramalho. Dá pra tu?

22) RM: Quando e quais os motivos levaram você a trocar Campina Grande por São Paulo?

Marco Mendes: Eu não troquei uma cidade pela outra. Saí de Campina, fui para João Pessoa (PB), depois Recife (PE), Natal (RN) Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília e aí cheguei a São Paulo. O motivo foi minha curiosidade de novas formas artísticas e, principalmente, as oportunidades de trabalho que foram me chamando em cada lugar.

23) RM: Quais os prós e contras desta troca de cidade?

Marco Mendes: Como falei acima, não foi uma troca de cidade e sim novas oportunidades que foram surgindo e parei em São Paulo, aonde fui muito bem recebido, tenho muitas oportunidades de trabalho e criei meu espaço.

24) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

Marco Mendes: São Paulo é a esquina cultural universal. Aqui eu conheço gente de todos os lugares do Brasil e do mundo. Aqui pouco importa de onde você é, de onde vem, estamos todos, somos gente e é isso o que importa. Várias linguagens. São Paulo tem vários guetos que se encontram e dialogam.

25) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Marco Mendes: Na minha discoteca tem de tudo. Recomendo que escutem tudo de alma aberta que sempre terá algo bom a extrair. A música vale a pena.

26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Marco Mendes: Eu compreendo hoje a música como produto e, um produto para ser tocado no meio de comunicação deve ser pago. Entendendo que as rádios sobrevivem do departamento comercial, essa prática deveria ser legalizada, seria o mais justo.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Marco Mendes: Trilhe.

28) RM: Quais os seus projetos futuros?

Marco Mendes: Não sou arquiteto, não vivo de projetos, vivo de arte. Chame-me que vou lá e faço. Vou tocando minha vida.

28) RM: Quais seus contatos?

Marco Mendes: (11) 97962 – 0921 | [email protected] 

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.