Lu Toledo

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Lu Toledo
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A cantora, compositora, poetisa, psicóloga, doutora em educação, pela UFMG Lu Toledo aficionada pela MPB e pela Trova Cubana.

Estudou canto, teoria musical, violão e música popular em diversas escolas e em cursos de extensão na Faculdade de Música da UFMG. Possui um estilo peculiar de cantar com voz que expressa delicadeza e lirismo ao mesmo tempo em que consegue exprimir como quem realmente acredita no que diz. Como nas palavras de um fã escritor que lhe escreveu: “Que mulher é essa que quando canta solta sua alma como pássaros escapando de uma gaiola, numa demonstração de felicidade pura?” Já se apresentou em Festivais de Músicas, em teatros da cidade e tem experiência internacional se apresentando em Berna (Suíça) e em Cuba, onde gravou o EP Brasil-Cuba: Simientes em parceria com a cantautora Martha Roche e seu esposo e trompetista Juan.  Ela gravou dois álbuns: “Risco” e “Entre Mundos”.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Lu Toledo para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 17.08.2018:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Lu Toledo: Eu nasci em Belo Horizonte no dia em 27 de janeiro de 1967. Mas, a minha família materna é de Betim (MG) e a paterna é do Rio Grande do Sul.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Lu Toledo: Minha mãe foi professora e sempre nos ensinou cantigas de roda, brincadeiras cantadas e histórias cantadas. Além disso, tenho um tio que tocava Violão e eu aos 14 anos de idade, aprendi os primeiros acordes com ele. Aos 15 anos, a minha mãe me deu o meu primeiro Violão. Meus tios-avôs também tocavam violão. E sempre que íamos passar as férias no sítio da vovó; que chamávamos de “Roça da vovó” e íamos com mamãe e minhas duas irmãs visitá-los. E ficávamos ouvindo as suas serestas, canções regionais e caipiras. Eu escutava rádio o dia todo. Cresci escutando as músicas do “Clube da Esquina”, Beto Guedes, Milton Nascimento, Lô Borges, MPB 4, Quarteto em CY, Beatles, Rolling Stones. Na minha adolescência, escutava muito Rock progressivo (Pink Floyd, Triumvirat e vários outros) e Rock e Pop brasileiro: Legião Urbana, Capital Inicial, Roupa Nova, 14 Bis.  Meu tio nessa época conseguiu comprar o primeiro aparelho de som (Toca disco) e junto alguns discos em vinil: o Geraldo Vandré, a Ópera do Malandro, de Chico Buarque, um do Milton Nascimento e Concerto para uma só Voz. Eu ficava maravilhada escutando todos eles. Sabia de cor todas as canções desses discos.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Lu Toledo: Sou Professora, Psicóloga, Mestre e Doutora em Educação e Psicanálise. Na área de música, estudei e faço aperfeiçoamento vocal há muitos anos. Estudei teoria musical e técnica de canto na Babaya, Escola de Canto, em Belo Horizonte. Babaya é muito conhecida como preparado vocal de vários cantores brasileiros e grupos de teatro. Estudei também Violão Clássico e cursos de extensão em Música Popular na Faculdade de Música da UFMG. Fiz também uma pós-graduação em Recursos Pedagógicos em Educação Musical, na Escola de Música, da Universidade Estadual de Minas Gerais.  A música, no entanto, fazia parte de um universo paralelo, sem grandes intenções de investir em uma carreira.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Lu Toledo: Como relatei anteriormente, cresci escutando o “Clube da Esquina”, Beto Guedes, Milton Nascimento, Lô Borges, Beatles. Na minha adolescência, escutava muito Rock Progressivo e muitas canções populares. Desde quando escutei Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Ivan Lins, Renato Teixeira, Almir Satter, Elomar, Xangai, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, as músicas dos grandes Festivais de Música. Era apaixonada por Elis Regina, chorei muitas vezes escutando a sua interpretação de “Atrás da Porta”. Ficava fascinada com a sua voz e a sua forma visceral de cantar. Também adorava Dorival Caymmi e agora, a Nana Caymmi. Adorava o “Secos e Molhados”, o Ney Matogrosso, para mim é um gigante. Adorava Rita Lee,  “Os Mutantes”. O que sempre me encantou mesmo foi a MPB. Para mim, desde pequena, me interessava muito pelas canções que tivessem boas poesias, belos melodias, arranjos e interpretações magistrais. Nunca gostei muito de sertanejos e bregas, embora, nas rádios tocassem de tudo. Acho que nenhuma dessas influências perdeu a sua importância na minha formação musical e pessoal. Todas fazem parte da paisagem sonora que marcou e marca toda a minha vida.

05) RM : Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Lu Toledo: A música fazia parte de um universo paralelo, sem grandes intenções de investir em uma carreira. Ela era o pano de fundo de tudo que eu me propusesse fazer. Utilizava a música em meu trabalho com os alunos, posteriormente em meu trabalho com formação de professores. Mas aí, conheci um jovem e talentoso compositor de Belo Horizonte, em 2000, o saudoso mestre Jonas, que me estimulou a musicar as inúmeras poesias que estavam guardadas em minhas gavetas. Comecei a exercitar o meu lado “intérprete”, cantando algumas das canções do amigo em mostras realizadas pela Babaya Escola de Canto, onde me descobri cantora. Foi mestre Jonas também que me cunhou o meu nome artístico. Aí, a partir de recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Betim (MG), consegui gravar meu primeiro álbum – “Risco”, foi gravado entre 2010 e 2011.  Mas só consegui fazer o lançamento em 2013, no Teatro de Bolso do SESC Palladium. Fiquei muito abalada com a morte do mestre Jonas na passagem de ano de 2011 para 2012. Não consegui reunir forças e apoios para fazer todo o trabalho de construção do show, produção e divulgação, que são necessários para movimentar a carreira.  Mas apesar do lançamento tardio e tímido, o álbum – “Risco” me abriu inúmeras portas, que acabaram me estimulando, cada vez mais, a investir na carreira artística. Ele me rendeu posição de destaque no maior site de música do Brasil, o palcomp3.com, por duas vezes; Fui convidada a participar de vários programas de TVs e Rádios, de diversas mostras e shows coletivos. E passei a ser requisitada por outros compositores a interpretar as suas canções. E meu primeiro CD vendido por uma loja virtual caiu nas mãos do escritor, José Renato Esteves, que se encantou com o CD e elegeu minha canção “Escolhas” para fazer parte de seu livro de memórias, inspiradas em músicas mineiras, numa viagem imaginária, em um trem Maria Fumaça, de Brasília até Barbacena, sua cidade natal. A partir daí, a música foi ganhando cada vez mais espaço em minha vida e cada vez mais um caráter profissional no meu fazer musical.

06) RM : Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Lu Toledo: Meu primeiro álbum – “Risco” lançado em 2013 que possui doze músicas e é composto de sete canções de minha autoria e em parcerias e, cinco canções de amigos compositores, entre os quais se destaca o mestre Jonas e David Torrico Martin (um cantautor espanhol), que conheci quando esteve em Belo Horizonte. Esse álbum raízes na música mineira, influências espanholas, medievais e sonoridade que em alguns momentos remete aos anos 70, com diferentes estilos da MPB em belos arranjos produzidos pelo músico e arranjador, Alair Borges. Mas antes dele, gravei um EP, quando fui a Cuba para estudar o Mestrado em 2008. Lá, conheci a cantautora Martha Roche e o seu esposo trompetista Juan e resolvemos arriscar um duo, com canções dela e minhas. Ficou um trabalho bem interessante, que intitulamos Cuba-Brasil en Simientes. O meu segundo álbum “Entre Mundos” foi lançado em dezembro de 2016. Nesse álbum, todas as canções são de minha autoria, contando também com algumas parcerias e tendo o mesmo amigo, Alair Borges, como arranjador e diretor musical. Ambos os CDs apresentam um trabalho diferente, poético e melódico. Desses que as pessoas gostam de ouvir e saborear o conteúdo das letras e das melodias. Tenho como proposta musical sempre trazer coisas mais bem elaboradas e arranjos inusitados, sem seguir uma linha reta. As pessoas costumam dizer que minhas canções são contundentes. Passeio por esses diferentes mundos musicais que trago de minhas vivências.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Lu Toledo: Eu trago em minhas canções muito das minhas raízes mineiras, quanto às influências culturais da música brasileira em seus diversos estilos e ritmos. Em meu fazer musical, procuro cantar com lirismo e poesia o cotidiano das pessoas, suas emoções, anseios, ideias, alegrias e suas escolhas. Mas busco um processo criativo naturalmente simples, contendo elementos poético-musicais inusitados, primando pelo cuidado estético e conduzido pela busca de excelência artística. Minhas músicas sempre trazem conteúdos que promovem reflexões sobre a vida, sobre o amor e os valores humanos. É um trabalho bem intimista e feminino. Procuro fazer uma música gostosa de ouvir, mas que provoca um olhar atento à realidade.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Lu Toledo: Sim. Desde 2000 eu estudo canto e técnicas para aperfeiçoamento vocal.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Lu Toledo: É importantíssimo, inclusive, me descobri cantora, pelo fato de ter tido problemas na voz (calos e fenda nas pregas vocais) pelo mau uso que fazia dela, quando era professora. Tive que buscar ajuda médica e depois fonoaudiologia para aprender a impostar a voz, com respiração adequada e técnicas e exercícios de aquecimento e desaquecimento. Um dia, em uma sessão, cantei uma canção que a fonoaudióloga havia pedido para trabalhar determinadas técnicas de articulação das palavras. Ela se surpreendeu e me perguntou se era cantora. Disse que cantava, mas só em rodas de violão e festinhas de família e amigos. E ao final do tratamento ela me indicou a escola de canto da Babaya. Ela dizia que aprender as técnicas vocais iria me ajudar muito, ao mesmo tempo em que estaria fazendo o que eu amava que era cantar. Nunca faço um show ou gravo em estúdio sem antes fazer vários exercícios de aquecimento, respiração, alongamento, articulação, etc. É importantíssimo evitar alimentos, como leite, chocolate, café e bebidas alcoólicas antes dos shows. O aparelho vocal é sensível também às emoções e precisamos estar sempre atentos e cuidadosos com nosso precioso “instrumento de trabalho”.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Lu Toledo: A primeira de todas é Elis Regina. Fiquei encantada também quando escutava Piaff. Amo também Maria Bethânia, Gal Costa, Nana Caymmi. Gosto demais de Marisa Monte, Zélia Duncan, Tetê Espínola. Conheci também uma cantora de Jazz carioca, a Leila Maria, que é maravilhosa.  Aqui em Minas fiquei encantada com Alda Resende, a Titane. Na nova geração gostei muito de uma jovem mineira que se chama Maíra Baldaia.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Lu Toledo: Não tenho um processo definido para compor. Já fiz três ou quatro canções que me vieram durante o sono, outras a partir noites de insônia, outras me vieram imediatamente ao ler algum poema meu ou enviado por poetas amigos, outras de maneira intuitiva em momentos de reflexão. Algumas nascem com letra e melodia juntas, outras a poesia já existia há tempos e aí vem uma melodia inesperada. É assim. Não tem hora certa de sentar para compor.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição? 

Lu Toledo: Eu tenho parcerias com meu “ex-companheiro”, com três amigos poetas: Maria Mári, Alex Sartorelli e Joel Gomes e com um jovem amigo cantor e compositor, Danilo Pataro.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Lu Toledo: Ainda não tenho músicas gravadas por outros cantores. Mas ao contrário, venho gravando e cantando músicas de outros compositores, inclusive em vários Festivais pelo Brasil. Recentemente gravei canções de parcerias da poetiza e Festivaleira paulista, Valéria Pisauro, algumas também de outro compositor de Santa Catarina, também festivaleiro, Bruno Kohl e seus parceiros de composição. E gravei canções de um compositor daqui, o Joel Gomes, com quem também tenho duas parcerias. Gravei uma canção de um compositor e cantor de Tocantins, o Nando Cruz, duas canções de mestre Jonas, uma canção de David Torrico, da Espanha. Em 2017, ganhei um prêmio de melhor intérprete, em um Festival em Minas Gerais e fui para a final em outro, com a canção “Essência”, de Bruno Kohl e André Fernandes.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Lu Toledo: Os prós: Não tenho compromisso com nenhuma tendência comercial, ou produtora. Desenvolvi meu estilo próprio a partir de minhas referências e influências diversas. Os contras: Muito difícil sobreviver de música em um país que não valoriza a música brasileira e segue apenas as tendências do Mercado, impondo um estilo massificado e de conteúdo vazio, como vemos no segmento “sertanejo universitário”. Investem-se milhões em duplas fabricadas em série. E destina-se muito pouco aos artistas independentes, aos eventos culturais de menor porte. Por esse motivo, os espaços culturais onde podemos mostrar nosso trabalho são restritos, com baixos valores de cachê, que mal dá para cobrir os gastos e para pagar uma pequena banda.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Lu Toledo: Em 2014 em realizei um curso de Empreendedorismo na área de Música, pelo SEBRAE, aqui em Belo Horizonte e isso me deu uma série de orientações muito importantes e que até hoje são base de todo o meu investimento na minha carreira.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Lu Toledo: Tenho um amigo especialista em mídias sociais e designer gráfico. Fazemos reuniões semanais, com planejamento estratégico de divulgação e circulação sistemática de minhas músicas em sites especializados, alimentando a página no Facebook, organizamos um site (www.lutoledo.com), o canal do Youtube, o www.palcomp3.com, entre outros. Constantemente fazemos fotos de boa qualidade (mais profissionais) para o trabalho de divulgação. Nos shows, sempre fazemos registros de vídeos, clipes e imagens. Faço estudos constantes de teoria musical e prática do violão, além do aperfeiçoamento vocal constante. Dedico um tempo razoável também para ouvir e apreciar diferentes trabalhos e tendências. Dedico também um tempo razoável para o trabalho de composição, já tendo músicas para um terceiro CD. E estou sempre em intercambio com outros artistas, fazendo novas parcerias e trocando experiências. Realizo pesquisas constantes em busca de espaços alternativos, centros culturais e teatros, para apresentar meu trabalho, etc.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Lu Toledo: A internet ajuda bastante. É uma alternativa para divulgação e circulação de nossa música, com alcance bastante razoável. O que prejudica é a questão dos direitos autorais. A maioria dos sites não paga aos autores para executa-la.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Lu Toledo: O home estúdio é interessante para quem é instrumentista e não depende de uma acústica. Teclado, piano, violão, são instrumentos que são possíveis de fazer em home estúdios sem perder a qualidade do áudio. Mas a voz não tem jeito. A parte vocal tem que ser em estúdio de gravação especializado, com microfones próprios e recursos de gravação e edição mais sofisticados para se obter maior qualidade no resultado do trabalho.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Lu Toledo: Eu procuro desenvolver um trabalho que prima por letras mais elaboradas. Investir em bons arranjos e bons músicos são primordiais. Procuro manter a minha singularidade e minha marca sem me render a modismos ou tendências impostas pelos meios de comunicação de massa. Em primeiro lugar, a música tem que me agradar. Ela tem que transmitir a minha verdade.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Lu Toledo: O Brasil é riquíssimo do ponto de vista de sua cultura musical. Temos grandes talentos nos mais variados estilos. Mas infelizmente, como dito anteriormente, muitos acabam permanecendo no anonimato, em função de uma supervalorização de um segmento em detrimento de vários outros. Não sei dizer quem regrediu, mas vemos alguns cantores e compositores que antes tinham maior visibilidade e espaço nas mídias e que hoje, nem tanto. Alguns pararam de produzir novos trabalhos e focou em seus clássicos, como é o caso de Fagner, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Ivan Lins. Algumas intérpretes, como Gal Costa, Fafá de Belém, Elba Ramalho. Temos os clássicos que estão sempre produzindo lindos trabalhos, que para mim, são os gigantes da música brasileira, acima da média: é o caso de Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Ney Matogrosso como Intérpretes. E vi despontar artistas muito interessantes, como é o caso de Lenine, Zeca Baleiro, Chico César, Vanessa da Mata, Skank, J.Quest. E alguns muito irreverentes, como Karina Bur, Leninker.

21) RM: Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Lu Toledo: Milton Nascimento pelo conjunto da obra: belíssimas canções, arranjos maravilhosos, banda maravilhosa, produção musical impecável, voz maravilhosa, interpretação. Maria Bethânia pelo conjunto da obra: uma Diva no palco. Ney Matogrosso pelo conjunto da obra.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Lu Toledo: Constantemente nos acontecem situações inusitadas e desconfortáveis durante a carreira musical. Mas uma delas foi muito marcante: em 2015 fui participar de um Festival de Música no Paraná e encontrei um dos concorrentes no voo, que prometeu uma carona até Ponta Grossa. Fiquei esperando o mesmo na saída do aeroporto, pois descemos por escadas diferentes do avião. Ele simplesmente desapareceu. Resultado: peguei um taxi correndo para a rodoviária de Curitiba, perdi o ônibus que havia saído pouco antes de eu conseguir chegar e quase não consigo chegar para a passagem de som. Acontece que, esse concorrente e seu parceiro se diziam amigos dos compositores da canção que eu ia defender e eles fizeram isso, por pura maldade mesmo, boicote, para prejudicar a apresentação. Viajei horas de Belo Horizonte (MG) até Ponta Grossa (PR) e realmente, a tensão que ficamos e o atraso, prejudicou em muito a apresentação e não fomos classificados. Outra vez, em 2015, fui a Santos (SP), para fazer uma apresentação na Concha Acústica, num show contratado pela prefeitura de lá… Cachê pequeno, mal deu para pagar a despesa com a viagem. Mas era interessante por causa da divulgação e pela oportunidade de sair de BH e mostrar meu trabalho fora. Mas chegando lá, uma chuva torrencial nos esperava. O que durou todo o fim de semana e não pudemos fazer o show. Foi muito frustrante. Voltamos no mesmo dia para BH. Horas dentro de um ônibus.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Lu Toledo: Eu amo música.A música em si já me deixa feliz. Amo cantar. Costumo dizer que a minha música foi e é a minha cura. Então, muitos encontros que a vida me proporcional, foi por causa da música e isso é o que me deixa mais feliz. O que me deixa triste é não poder viver de música. Ter que desenvolver outra atividade financeira para me manter. O que tira também um pouco do meu tempo que poderia ser mais dedicado ao meu fazer musical.

24) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Lu Toledo: Belo Horizonte é uma cidade muito importante na cena musical brasileira. Grandes nomes da música brasileira saíram daqui: Beto Guedes, Lô Borges, Flávio Venturini, Toninho Horta, Tavinho Moura, Fernando Brant, parceiro de Milton Nascimento. Um dos movimentos mais ricos da música brasileira saiu daqui: o “Clube da Esquina”. Com músicas rebuscadas, arranjos sofisticados, instrumentação virtuosa, letras muito bem trabalhadas. Ainda hoje temos muitos nomes despontando aqui. O problema maior é que não há muita união entre os artistas. Muito pelo contrário, vemos muitos grupos fechados, as “panelas”, onde é difícil entrar. Até mesmo nas rádios locais, privilegiam determinados nomes e não abrem para novos trabalhos.  Mas há muitos espaços alternativos e movimentos que tentam promover mais encontros e trocas entre artistas. Ano passado participei de um projeto só de mulheres compositoras, organizado por Deh Mussollini, Flavia Helen, Bia Nogueira. São cantoras e compositoras muito talentosas daqui. Idealizaram o “Sonora Musical”, dando visibilidade para inúmeras cantautoras de talento.

25) RM : Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

Lu Toledo: Adoro Sergio Pererê, Marcus Vianna, Pedro Morais, Flávio Henrique (que infelizmente, faleceu esse ano, vitima da febre amarela), Tom Nascimento e o Ladston do Nascimento (voz maravilhosa e lindas composições). Tive o prazer de compartilhar o palco com ele em dezembro de 2017, num show lindo, o “Trinato” (com Cecília Barreto, e participação de outro menino muito talentoso, o Felipe Bedetti, o Ladston e eu). Entre as meninas, gosto das que citei anteriormente, entre muitas outras.

26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Lu Toledo: Elas tem tocado em webradios diversas, aqui e fora do Brasil. Mas é muito difícil tocar nas emissoras que cobram caro, esse famoso jabá é um empecilho aos artistas independentes de divulgar seus trabalhos.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Lu Toledo: Estudo, dedicação, fé e trabalho, unidos ao talento.

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Lu Toledo: Eu às vezes canto em festivais, normalmente a pedido de compositores que participam dos mesmos. Mas o que vejo é que a maioria é tendenciosa, há sempre os “dinossauros” dos Festivais de Música que sempre ganham prêmios, os estilos são muito fixos, há estilos que praticamente não são aceitos. Muitas vezes, quem compõe o júri não tem muito conhecimento de música. E quase nenhum oferece ajuda de custo, o que inviabiliza a participação de muitos artistas. Eu participo porque é mais uma oportunidade de exercitar o lado intérprete, encontrar novos amigos e parceiros, conhecer trabalhos de diferentes lugares do país. Nesse aspecto é muito interessante.

29) RM: Na sua opinião, hoje os Festivais de Música revelar novos talentos?

Lu Toledo: Não creio. Os Festivais de Música não tem mais aquela projeção que tinham nas mídias e ficam muito restritos a poucos artistas que sempre participam e ganham os primeiros lugares. Muitos são conhecidos apenas nesses circuitos e não tem a menor projeção além dos Festivais de Música. Conheço festivaleiros que só compõem canções nesse estilo, só compõem para festivais e suas canções não são conhecidas em outros espaços.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Lu Toledo: Já comentei acima. É lamentável o que vivemos no país, em termos de investimento massivo em determinados gêneros e nenhum ou quase nenhum investimento e visibilidade à música brasileira de qualidade.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Lu Toledo: Pelo que conheço aqui em Belo Horizonte, os editais são muito restritos e muito poucos artistas são contemplados. Normalmente os artistas que já tem projeção e carreiras mais consolidadas conseguem ser selecionados nesses editais.

32) RM: O circuito de Bar de sua cidade como boa opção de trabalho para os músicos?

Lu Toledo: Não creio que seja. Da mesma forma que os Festivais de Música, os circuitos de bares normalmente acolhem mais trabalhos de covers e releituras e quase não abrem espaço para a música autoral independente.

33) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com José Renato Esteves?

Lu Toledo: Uma das pessoas mais significativas na minha carreira foi um amigo, publicitário que só conheço virtualmente, mas que foi de uma importância imensurável: Em 2012, como comentei, perdi um grande amigo, o mestre Jonas, e entre outras perdas, fiquei bastante depressiva e não consegui lançar o CD – “Risco”. Mas havia deixado duas copias com um amigo que tem um site de vendas de CDs raros e independentes. O Edu Pampani vendeu uma das copias para esse escritor, pesquisador musical e no final de 2012, recebi dele um email com o seguinte título: “Carta de Fã, sua música no meu livro”. Fiquei intrigada com esse título e ao ler o conteúdo da mensagem, me emocionei profundamente. Ele pedia autorização para publicar a letra de minha música “Escolhas”, em seu livro. Esse escritor, José Renato Esteves também me concedeu um lugar em seu livro de memórias inspiradas em músicas mineiras, entre artistas renomados da MPB, como Milton Nascimento e o “Clube da Esquina”, entre diversos outros.  E daí por diante, viramos grandes amigos, trocamos muitas músicas e histórias. Ele me apresentou trabalhos de vários artistas que estariam em seu livro e eu o apresentei vários conhecidos que acabaram também entrando em seu livro. Ele escreveu a apresentação do meu show de lançamento que inicia: “Que mulher é essa que quando canta solta sua alma como pássaros escapando de uma gaiola, numa demonstração de felicidade pura?” A crônica que ele escreveu de “Escolhas” é linda, ao ler fiquei muito emocionada… e esse foi o alimento que eu precisava para voltar daquele momento de desolação e acreditar na minha carreira como cantora e compositora. Segue o texto: “Escolhas” por José Renato Esteves.

“Não sei se estava dormindo, se acordado, se os dois. Só vi que o fiscal do trenzinho Maria Fumaça acabara de entrar, e, parado em frente à pequena porta do vagão, estendeu o dedo como se regesse uma orquestra imaginária. Na verdade ele estava contando os passageiros. Achei engraçado o franzido da sua testa. Lembrei-me da Lu, minha mulher, que dizia pra mim, que também franzia muito a testa quando tenso ou preocupado, que iria me mandar aplicar botox. Pensei comigo que ele, o fiscal, também precisaria. Ele contou, contou, olhou sua lista e finalmente desapareceu porta a fora sem dizer uma palavra. Quando voltou veio acompanhado de mais uma passageira para a nossa viagem. O nome dela era “Escolhas”, e ela trazia a sua amiga, a cantora Lu Toledo, mais uma Lu na minha história. Descobri depois que ela era da cidade de Betim e que havia aparecido numa lista de CDs que estava querendo comprar no site A Música Que Vem de Minas. Um ótimo local para descobrir mineiros. Parece até o Mercado Central de Belo Horizonte onde todos se encontram. Ali os discos surgem como que saídos de gigantescas cartolas de mágico. Quanto mais eu olho mais novidades encontro. A Lu Toledo foi assim. Eu nunca a havia visto, nunca escutado nada dela, e de repente ela aparece no site e eu mudo a minha compra, arrisco e passo para o CD – “Riscos”, o que tem a passageira do meu trenzinho. E quando ele chegou me encantei com a cantoria da menina. A canção “Escolhas”, composta letra e música, por ela, havia vindo a calhar para quem estava falando de histórias, de passado, de olhar para trás com o objetivo de mudar, de melhorar, de corrigir erros. Escolhas são sempre duras, diz na letra da canção, e que monte de escolhas tive que fazer durante toda a minha vida. Desde pequeno sempre tive que escolher entre o medo dos confrontos com meu pai, e a certeza de lutar por justiça. Confesso que em várias situações fiquei na pior, pois o seu braço era muito pesado. Mas sempre tive a certeza de ter feito a escolha certa. E o melhor era que ele, apesar de querer, como chefe da matilha, manter o controle, nas broncas aos outros filhos ele sempre disse do orgulho que sentia por meu posicionamento. Brigamos enquanto pudemos, até que ficamos em paz e aí viramos amigos. Quando meu pai morreu em 1989, eu estava lá. Não no seu leito de morte, me arrependo até hoje de não ter despedido dele, mas com ele na ambulância indo para a funerária para o embalsamento. Foi um dos momentos mais duros pra mim. Afinal de contas, no período em que todas as nuvens haviam sido dissipadas e estávamos tão bem, rindo das brincadeiras, do orgulho dos netos, ele aos 56 anos resolve ir embora. Foi muito triste. Ali, naquele instante eu pensava em todos os anos de desentendimentos, se havia valido a pena. Mas foi a nossa escolha. A paz veio no momento certo e o que era melhor que ali, naquela hora, ele não estava só, estava ao lado de um amigo, eu!

Outras escolhas difíceis eu tive que fazer. Sair da Eletronorte, uma delas. Mesmo sabendo que meu futuro estava em risco, não tive dúvida. Escolhi sair. O motivo era importante, eu tinha certeza que aquele gesto iria resultar na cura do meu maior problema, na época, e ele deu certo. A escolha certa por meios errados, mas certa.  Outra escolha doída foi sair de São Luís. Também muito difícil pra mim e para meus filhos sair da Ilha do amor, a Jamaica brasileira, foi talvez a nossa maior derrota. Novamente a causa era justa, o sentimento é que não acompanhou a razão. Passamos muito tempo digerindo, e hoje já são seis anos. E ainda dói. A música da Lu Toledo vai tocando e eu me perguntando que menina era essa que compunha e cantava com tanta dor no coração? Como alguém coloca numa canção a vida e a morte tão juntas? Uma tropeçando na outra, mas de mãos dadas. Quem é que nos apontando com o dedo diz tão claramente que não percebemos a vida passar, e quando isso acontece vimos a vida lá na frente, indo embora, enquanto na contramão vem chegando a nossa hora. A boa hora do adeus. Vi neste livro muita coisa boa, em letras, ritmos, melodia, voz, mas a dureza da ponta do lápis da Lu Toledo – mais uma aluna de canto da Babaya, sempre ela – pra mim foi sem igual. Tão quanto a beleza de seu agudo quebrando a sequência dos graves, na sua cantoria. Quando ela chega no “Só” mantendo a nota em um tom que parece querer quebrar as taças, deu pra perceber que ela não poderia passar despercebida dos meus ouvidos. Logo eu que estava procurando as sombras ou as sobras do meu passado. Logo eu que queria voltar pra casa para rever a todos os meus. Logo eu que havia descoberto que não dava mais para seguir levando, que precisava fazer a escolha certa e mudar o rumo ou seguir reto. Mas era preciso fazer a minha escolha, e aqui, com o auxílio luxuoso de outra Lu, eu via que estava seguindo feliz. Que aceitar o desafio de escrever, de deixar meus medos de lado, e compor a minha sinfonia, contar a minha história estava me trazendo a vida de volta. O respirar depois de ficar tanto tempo debaixo d’água. Eu estava saindo do fundo do poço. Eu estava sonhando de novo, e isso estava me fazendo muito feliz. Olho para dentro do vagão e vejo que a Lu Toledo está me olhando. Ela trás um sorriso nos olhos e nos lábios, como a me dizer que eu havia entendido a sua corrida para encontrar o bilhete da passagem para que “Escolhas” viesse passear comigo nesse trem de louco. Eu devolvo o sorriso e digo a ela, com os olhos cheios de lágrima, que estava feliz por ter escolhido mudar a compra do disco, e ter apontado meu dedo para ela. Fique Lu, vamos comigo até Barbacena. Lá a loucura vai ser total, e vamos ouvir muita cantoria, risos, lágrimas e muuuitas histórias desse tempo que fiquei fora.  Escolhas (Lu Toledo) – Lu Toledo (Betim) CD: “Risco”.

 E agora, por obra do destino, conheci no Rio de Janeiro, outro escritor (esse conheci pessoalmente), o Fernando Drummond. Deixei com ele meu segundo álbum “Entre Mundos” e, para minha felicidade e surpresa, ele me escreve, dizendo que havia selecionando uma das minhas canções, a “Compromisso”, para encerrar um dos seus capítulos do novo livro que estava escrevendo. No início desse ano, recebo dele um convite para participar do lançamento do livro “O Desempregado do Amor”, que foi dia 04 de maio de 2018. Ao receber o livro e depois de folhea-lo aleatoriamente, enquanto esperava na fila para o autógrafo, me deparo, não só com a letra da música, mas como também uma página inteira em que comenta do meu trabalho, do quanto gostou etc… e viro uma personagem da história desse capítulo. Fiquei outra vez muito emocionada.  Digo que só por esses dois momentos: um com o primeiro CD e o outro com o Segundo, já valeu todo o meu trabalho, investimento, angústias, desilusões, frustrações que passei no meu percurso até chegar ao lançamento ao mundo desses filhos.

34) RM: Quando você morou e estudo em Cuba qual a impressão que teve do país?

Lu Toledo: Estive em Cuba entre 2007 a 2009 para meu mestrado e eu ficava períodos de dois a três meses e voltava para o Brasil. Amo Cuba. Um país com um povo culto, bem estruído, solidário e muito musical. E não tem a ditadura que a grande mídia propaga. Tem pobreza, mas não tem miséria. Não tem criança e adolescentes fora da escola. E quase não existe criminalidade, violência urbana e tráfico de drogas. Tem uma qualidade de vida alta. O Governo investe na formação humana.

35) RM: Quais os seus projetos futuros?

Lu Toledo: No momento, estou me dedicando a dois novos trabalhos:

Um com meu novo parceiro (na vida e na música), o compositor e cantor Márcio Duarte. Estamos produzindo um show, que intitulei como “Jeitos de Amar”, que é o nome de uma das minhas canções do CD – “Entre Mundos” e que dará também o nome ao meu próximo CD. O outro é um show só de canções do cantautor cubano, Sílvio Rodríguez, que sou profundamente apaixonada. Esse trabalho está sendo produzido por mim e por um músico chileno muito bacana que conheci aqui em Belo Horizonte: o Camilo Bernales. O nome desse show faz referência a um livro que li, de Oswaldo França Junior: “Recordações de Amar em Cuba”.Nosso show será “Recordações de Amar Cuba: Canções de Silvio Rodriguez”.

36) RM : Quais seus contatos para show e para os fãs?

Lu Toledo: www.lutoledo.com |[email protected]

| (31) 99619 – 2545 (wattsapp). | www.facebook.com/lutoledooficial

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.