Lia Cordoni

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A cantora e compositora paulistana Lia Cordoni. É filha da cantora, poeta e compositora Neuza Pinheiro (que desenvolveu parcerias com Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, entre outros) e conviveu com o meio musical desde a infância.

Nas visitas a casa da mãe em São Paulo ficava a maior parte do tempo cantando e gravando canções que inventava. Neuza estimulava a criatividade da filha e conta que Lia vivia brincando com os timbres da voz, divertindo-se ao ouvir as gravações que fazia. Ela morava com o pai em Londrina – PR, o médico Luiz Cordoni Jr, vivia em meio aos discos de música brasileira, ouvindo, cantando e pesquisando. Em 1993 iniciou sua carreira artística em Londrina, como integrante do já extinto grupo cênico-musical “Chaminé-Batom”. Neste grupo atuou como atriz e backing vocal, descobrindo sua vocação para o canto. Em 1996 iniciou sua carreira solo como cantora realizando apresentações que conquistam destaque na mídia local. No mesmo ano inicia o curso de psicologia, formando-se no ano 2000.

Em 2001 volta para São Paulo, para especializar-se em psicologia clínica pela PUC, dividida entre a escolha da carreira artística e a profissão de psicóloga. No mesmo ano passa nos testes do “Curso de Canto Popular” no “Centro de Estudos Musicais Tom Jobim” (antiga “ULM”), onde estuda até 2003. Em 2003 conhece o violonista e compositor Jairo Cechin e assume de vez sua relação com a música. Lia e Jairo desenvolve um trabalho com músicas próprias e canções de compositores conceituados da MPB. Como Tom Jobim e Baden Powell.

Para complementar seus estudos musicais, Lia Cordoni estudou piano e teoria musical na Fundação das Artes em São Caetano do Sul de 2005 a 2007. A partir de 2006 passa a estudar com a preparadora vocal e fonoaudióloga Maria Alvim, que trabalha com o aperfeiçoamento profissional de vozes reconhecidas no cenário da música brasileira, entre elas Maria Rita e Paula Lima. Em 2008 ela foi convidada a integrar o “Projeto Chuva de Estrelas” no “Centro Cultural São Paulo”. Um projeto que visa a revelação de novos talentos femininos da música brasileira. Veteranas como Tetê Espíndola e Alaíde Costa também se apresentaram. Lia vem conquistando espaço como intérprete apresentando-se em vários locais de renome no circuito cultural da capital e Grande São Paulo (ABC): Teatro Municipal de Santo André, Bar Brahma – SP, Teatro Elis Regina – SBC, o já extinto Villaggio Café – SP, Centro Cultural São Paulo – SP, entre outros.

Sempre priorizando a propagação da música brasileira de qualidade. Lançou em 2010 seu primeiro CD – Samba-Fusão. Em que interpreta com muito estilo e personalidade as canções inéditas deJairo Cechin, criadas especialmente para este projeto.

Segue abaixo a entrevista exclusiva com Lia Cordoni para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.01.2011:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Lia Cordoni: Nasci em 11 de setembro de 1977 em São Paulo. Mas fui morar no Paraná com apenas 1 aninho. Minha alma é Paranaense. Voltei para São Paulo aos 22 anos de idade.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música?

Lia Cordoni: Minha mãe (Neuza Pinheiro) começou a carreira na banda de Arrigo Barnabé. Ela ganhou o prêmio de melhor intérprete com a música “Sabor de Veneno” no Festival da TV Tupi na década de 70. E Arrigo ganhou com o melhor arranjo. Lembro do Arrigo e do Itamar Assumpção na casa da minha mãe quando eu era bem pequena. Lembro também de ter ido com ela na casa de Paulo Leminsky. Mas eu nem imaginava que ele era o Paulo Leminsky! Não tinha dimensão do talento deles. Lembro que quando vi o Leminsky (eu tinha uns 8 aninhos) comentei com minha mãe:”_ Nossa! Que “tio” diferente mãe! Ele e a filha dele são punks?” (porque a Áurea, filha mais velha dele usava um cabelão todo arrepiado e os 2 estavam vestidos de preto no dia que fui na casa dele). Então, apesar de ter sido criada pelo meu pai no Paraná, sempre que vinha para São Paulo visitar minha mãe (quando eu era pequenina). Eu tinha uma convivência com a música, por conta da carreira da minha mãe.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Lia Cordoni: Minha formação musical: estudei na ULM – Universidade Livre de Música por 2 anos. Voltei para São Paulo em 2001 e passei no curso de canto popular – mas vim para São Paulo fazer pós graduação em Psicologia Clínica, pois tinha acabado de me formar em Psicologia em Londrina – PR. A música falou mais alto e, quando vi, já estava fazendo canto na “ULM” e em busca de um músico para continuar tocando na noite comigo (pois em Londrina/PR eu já cantava na noite). Mais tarde (em 2006) comecei a fazer aulas com a grande preparadora vocal Maria Alvim, que me orienta até hoje. Não largo as aulas dela de jeito nenhum, pois para mim ela é a grande “mãe da voz”. Paralelamente ao estudo do canto sempre estive cantando por aí: em bares, eventos corporativos, festas particulares, centros culturais. Desde 1996 comecei a cantar e não parei mais!

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Lia Cordoni: Influências… Bom… Graças a Deus meu pai e minha mãe sempre tiveram bom gosto musical. E eu, naturalmente sempre busquei a música. Quando era pequena tinha um cantinho na casa do meu pai, onde ficava o aparelho de som e os CDs. Lembro que ficava pesquisando tudo, ouvi todos os CDS e vinis do meu pai: desde música clássica, jazz até a MPB. Foi aí que comecei a me interessar pela MPB: ouvi muito Elis Regina, Paulinho da Viola, João Bosco, Milton Nascimento, Edu Lobo, Chico Buarque, Clara Nunes… Essas acabaram sendo minhas influências. Na adolescência cheguei a curtir até rock: The Doors, Janis Joplin, Led Zeppelin, Black Sabbath, etc. Mas realmente, o que bate no meu coração é a música popular brasileira. Meu ouvido sempre se interessou por MPB. Então minhas influências são Joyce, Paulo César Pinheiro, Tom Jobim, Baden Powell, Adoniran Barbosa, Vinicius de Moraes e outros nomes da música brasileira. Nenhuma influência deixou de ter importância. Acho que tudo que a gente pesquisa e ouve no decorrer da vida é válido, pois nos ajuda a formar nossos valores e nosso gosto musical. Então não descarto nada. Tudo que ouvi teve seu valor e importância em determinada época da minha vida.

05) RM: Quando, como e onde  você começou sua carreira musical?

Lia Cordoni: Em 1993, com 16 aninhos, num grupo cênico-musical chamado “Chaminé Batom” na cidade de Londrina – PR. Comecei como contra-regra do grupo: comprava tecidos para os figurinos das peças que iam entrar em cartaz, ficava na coxia ajudando na troca de figurinos do pessoal do grupo. Mas aí o diretor (Silvio Ribeiro) viu algo em mim e me colocou para atuar. Fiz papéis pequenos, mas foi bom porque a sementinha da arte foi plantada no meu coração ali, naquele grupo. Fiz aulas de expressão corporal, técnica vocal para projetar a voz no teatro, etc. Aprendi bastante ali. O “Chaminé” era uma banda e tinham atuações teatrais, tudo junto! Era muito divertido! E a Simone Mazzer (cantora do grupo, que hoje em dia é uma grande atriz – trabalha com o “Armazém Companhia de Teatro” no Rio de Janeiro), então eu achava ela o máximo! Eu a via cantando, meus olhos brilhavam… E um dia, olhando ela cantar eu disse p/ mim mesma: ”_ Nossa! É isso que eu quero! Quero cantar!”. Aí, numa das peças do grupo o Silvio (diretor) me colocou para fazer backing vocal. Depois disso resolvi ir com a cara e a coragem em busca de um músico para me acompanhar na noite de Londrina! Nessa época eu já tinha 19 anos.

06) RM: Fale do seu primeiro CD? (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical do CD? E quais as músicas que se destacaram no CD?

Lia Cordoni: Eu lancei em 2010 meu primeiro CD – Samba-Fusão. Eu e meu parceiro, o compositor Jairo Cechin, queríamos que fosse um trabalho com unidade. Que tivesse algo que “amarrasse” as canções. O Jairo percebeu que meu repertório era composto por muito Samba e Bossa Nova. Então decidimos fazer uma homenagem aos grandes sambistas. O projeto nasceu como show (Show Samba-Fusão) e tinham canções de sambistas consagrados e algumas autorais. Depois o Jairo (compositor de todas as canções do disco) se inspirou com essa história de samba e começou a compor mais canções para o CD – Samba-Fusão. O conceito do trabalho foi se firmando a partir da letra da música “Samba-Fusão”, ela diz assim: “Vamos tocar um samba bom, batuque vindo do maracatu. Baque-virado, virando baião, estilizado num suingue-sun”. Ironicamente esta é a única canção que não foi composta para mim (as outras todas foram), mas esta letra deu um “clique” na minha cabeça e aí eu disse pro Jairo: “_ É isso! Vamos fazer um “samba estilizado”! E ele foi compondo aqueles sambas diferentes, sem rótulos. Bebemos da fonte do samba de raiz, da tradição. Mas damos novas cores ao samba: às vezes misturamos célula rítmica de maracatu na canção e depois voltamos para o samba. Tem também samba-jazz (Seu Jogo), samba-soul (Nego Vivido)… Tem uma canção (A Flor) que o grande violonista Camilo Carrara gravou. Ele toca três violões em contraponto, de modo que a “costura” das melodias forma um ritmo sincopado, que faz com que a canção vire samba sem ter instrumento de percussão na gravação: isso é “Samba-Fusão”!. Um jeito diferente de fazer samba. A sensibilidade do produtor do disco, Xinho Rodrigues, somada aos arranjos do pianista Leandro Néri (que fez os arranjos junto com o Xinho), firmaram ainda mais o conceito de “samba estilizado”. Eles entenderam nossa proposta e eles fizeram tudo com muito esmero. O Xinho chamou os melhores músicos para gravar: Dalua, Felipe Roseno, Dino Barioni, Paulo Dáfilin, Marco da Costa. Músicos tarimbados, que tocam com gente como Maria Rita, Ney Matogrosso, Ana Carolina, Fabiana Cozza. O CD ficou lindo! Tudo feito com amor, carinho, conceito, dedicação e com profissionais talentosíssimos! Tenho muito orgulho deste primeiro trabalho! É como um primeiro filho, que a gente quer exibir para o mundo! A repercussão deste disco ainda está começando. Não sei que música se destaca. Mas a canção “Linda Maravilhosa” (um samba-rock) é muito bem aceita pelo público. A canção “Samba-Fusão” as pessoas também costumam gostar. “Tô no Samba” e “Contra Maré” tem refrões fortes, o pessoal logo sai cantando. Eu sou suspeita para falar, né?! Acredito muito neste trabalho! As músicas do Jairo Cechin são muito populares, bem aceitas pelos ouvidos do público! E eu AMO todas as músicas do CD. Acho que isto também influencia na aceitação do público: quando a gente canta nossa verdade, com alma, conseguimos chegar mais perto das pessoas!

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Lia Cordoni: Sou da MPB. Meu estilo esta ligado à missão de propagar nossa cultura, a música da cultura popular brasileira! Acho que o artista tem como missão de alma passar sentimentos ao público; Levar a cultura para o público, gerar reflexões, transformar. Por isso que digo que sou da música e da cultura popular brasileira. Não vejo a música apenas como mero lazer e entretenimento.

08) RM: Como você se define como cantora/interprete?

Lia Cordoni: Defino-me como uma pessoa que canta com amor. A técnica é importante, sem técnica não temos nem condições de passar emoção. Mas valorizo demais a interpretação, a intenção que o intérprete coloca nas palavras ao cantar. Eu procuro sentir cada palavra quando canto, mas não consigo achar uma definição de mim mesma como intérprete. Quem define é o público! Só sei que amo cantar e quero conseguir tocar a alma das pessoas com meu canto.

09) RM: Você estudou técnica vocal?

Lia Cordoni: Estudo até hoje. Se eu fosse compositora e gostasse de cantarolar, mas meu grande lance fosse compor, talvez não estudasse técnica vocal. O compositor estuda harmonia, quando compõe acerca de um determinado tema deve ler a respeito para ter bagagem para compor sobre aquilo e tal. Eu sou cantora, intérprete. Acho que para fazer jus a este título, tenho que, no mínimo, estudar! Como você pode dizer que é cantor se você não tem domínio de seu instrumento? Como teria domínio do meu instrumento (a voz) sem conhecê-lo profundamente? E para conhecer a voz profundamente, só estudando! De preferência com um bom professor, né?! Minha preparadora vocal chama-se Maria Alvim e ela é maravilhosa! Me ensina muito!

10) RM: Quais as cantoras que você admira?

Lia Cordoni: Cantoras que emocionam! Para mim as grandes divas da música brasileira são Elis Regina e Clara Nunes. São incomparáveis, singulares! Considerando-se cantoras que estão vivas, gosto muito da interpretação visceral de Fabiana Cozza, da originalidade de Paula Lima, adoro a Joyce (canta, compõe e toca um violão absurdo!), a Rita Ribeiro, a Maria Gadú também tem um timbre bonito, a Céu é interessante. Tem tanta cantora, né?! Mas essas por enquanto são as que me chamam mais atenção.

11) RM: Você compõe? Quem são seus parceiros musicais?

Lia Cordoni: Não me considero compositora. Minha mãe (Neuza Pinheiro) que é compositora, cantora e poetiza, costuma dizer que um dia vou compor muito, que uma hora eu “engreno” na composição! Mas como sou casada com um compositor (Jairo Cechin), já aconteceram algumas parcerias. “Sete Ervas” que é uma música do meu disco, fizemos juntos depois que eu havia chegado da feira com um vasinho de sete ervas. A gente pesquisa tanto a cultura popular, e quando percebemos, ela está dentro da nossa casa! Lá estava eu e o Jairo, com um vasinho de sete ervas compondo sobre a proteção das ervas contra o “mau-olhado”. Isso é Brasil!

12) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Lia Cordoni: Os prós é que temos a liberdade de fazer nosso trabalho como bem entendemos. Acho que se chegasse o dono de uma gravadora e falasse: ”Olha, você vai ficar muito conhecida e vai ganhar muito dinheiro, mas terá que colocar um short curtinho e rebolar!” Eu não toparia de jeito nenhum! Prefiro cantar o que gosto do jeito que eu gosto. Posso não ficar famosa e nem rica, mas pelo menos fico feliz cantando a minha verdade! Os contras é que o músico independente não tem recurso suficiente! Infelizmente esta é a realidade. Muitas vezes temos projetos, idéias brilhantes, mas não temos verba nem equipe para colocar em prática nossas idéias. O artista independente não tem verba para pagar uma boa produção, uma boa assessoria de imprensa. Então, ele tem que fazer tudo praticamente sozinho e acaba ficando sobrecarregado.

13) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro? Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Lia Cordoni: Essa pergunta é complicada, pois sou meio saudosista. Gosto da época da Bossa Nova, em que se priorizavam os arranjos, a harmonia, a poesia. Hoje sinto as coisas mais superficiais. Porém, no cenário da música autoral e independente (que é o meio em que eu mais circulo), vejo que tem muita coisa boa, muito artista que escreve bem (letras poéticas e profundas), músicos que tocam muito bem. Mas a grande mídia não apóia. Parece que o interesse da grande mídia está cada vez mais voltado para o entretenimento do que para a cultura. Quanto às revelações musicais. Sinceramente, eu não acompanho tanto as coisas da mídia. Quase não assisto TV e só ouço rádio no trânsito. Mas gosto da Fabiana Cozza, por exemplo. Acho que ela é visceral, interpreta, não está só preocupada com afinação. Hoje em dia a coisa mais rara é encontrar intérpretes. Cantar afinado é uma coisa, interpretar é outra. Também acho interessante o trabalho da Mariana Aydar, acho que ela cresceu bastante desde que apareceu na mídia. Os timbres de voz da cantora Céu e da Maria Gadú também são interessantes. A Céu tem uma coisa “modernosa”, acho autêntico o trabalho dela. Diego Moraes que se mostrou um grande intérprete no programa “Ídolos 2009”. Em minha opinião ele é uma grande revelação da MPB, além de ter um ótimo gosto musical na escolha do repertório. Quem permaneceu com obras consistentes. O Chico Buarque é um deles. Suas composições são sempre belíssimas. A Maria Bethânia sempre escolhe pérolas da MPB para interpretar. Cuida muito bem do próprio trabalho. Não estou me recordando de mais ninguém agora. Quem regrediu. Não tenho o direito de ficar julgando o trabalho das pessoas. Tem artistas que gravam CDs belíssimos, depois gravam outros que a gente não gosta tanto. Mas isso é muito pessoal. Não cabe ficar julgando.

14) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Lia Cordoni: Difícil de responder. Acho o Milton Nascimento um grande artista. A Joyce também. Eles são completos: sabem compor muito bem, zelam pelos arranjos dos discos, as produções dos CDS são sempre muito bem cuidadas. E os shows são lindos. O Chico Buarque também é maravilhoso. Eu não poderia deixar de citar o grandioso Ney Matogrosso, que é praticamente minha maior “musa inspiradora”! (risos). Os shows dele são lindos e aquela veia cênica dele é demais! Além disso, é muito elegante! Tem uma cantora que trabalha com um estilo musical que não é o que eu costumo ouvir. Mas admiro muito o profissionalismo dela e a qualidade das produções dos shows ao vivo: É a Ivete Sangalo. Assisti o DVD dela, só para ficar “babando” na produção! Uau! Aquilo é meu sonho de consumo: acho o máximo estes espetáculos com várias trocas de figurinos. Uma super produção, escada no palco, ela descendo glamourosa pelas escadas, fumaça, mil luzes, dançarinos, essa coisa meio cênica… Gosto disso!

15) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Lia Cordoni: Ah meu amigo. Foram muitas situações inusitadas! A gente só continua nisso por amor! Se não fosse o amor à música já teria desistido. O artista no Brasil não é valorizado (salvo os artistas famosos). Por exemplo: muitas vezes as condições técnicas são péssimas! O retorno é ruim, a gente não se ouve. E quando não se ouve não se canta bem! Isso é terrível. Muitas vezes o equipamento de som é ruim e o técnico de som pior ainda! Aí a coisa complica. Quantas vezes eu fui cantar em barzinho e preferi levar meu próprio equipamento, para não prejudicar minha voz. Cantora precisa de, no mínimo, um bom retorno! E os músicos também! Hoje em dia é raro eu cantar em barzinho. Não gosto muito de atender aos pedidos. A não ser que me peçam musicas de Tom Jobim ou algo da MPB. Mas no geral, o pessoal quer ouvir sertanejo ou pop-rock, que são gêneros que não combinam com meu estilo. E para muitos donos de bar, a música ao vivo é apenas um “adorno”, um enfeite a mais, um “pano de fundo” para as pessoas conversarem. Uma vez passei por uma situação muito humilhante: eu sou expressiva, gosto de sentir a música. Então estava no auge da interpretação, me empolguei e levantei do banquinho para cantar. Gesticulei, faço gestos, isto está em mim! Faz parte da minha personalidade. Aí o dono do bar ficou bravo, viu que as pessoas pararam de conversar para me olhar, me ouvir. Aí ele me olhou bem bravo e fez um gesto para eu abaixar o volume e sentar, pois estava chamando muita atenção. Nunca mais cantei lá! Se ele soubesse o que é arte, iria amar aquilo e me agradecer! A maior realização para o artista é quando ele consegue tocar a alma das pessoas de alguma forma. E ali eu consegui e fui reprimida! Isso não tem nexo! Atire a primeira pedra o artista que disser que não gosta de aplausos! Ninguém quer ser apenas um enfeite para as pessoas ficarem conversando e rindo alto. Eu prefiro ficar sem cantar, e fazer shows em lugares onde me sinto valorizada. É muito bom fazer shows na rede SESC, por exemplo. Ali somos respeitados como artistas, os cachês são decentes, o público é educado, o equipamento e técnicos de som são ótimos! Tem alguns bares em São Paulo, como o Ao Vivo Music, que são bem legais, pois faz parte da cultura do bar o respeito pela música ao vivo. Bares assim eu gosto de cantar! O público vai para assistir ao show. É muito bom! Todo ser humano, artista ou não, quer se sentir digno, né?!

16) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Lia Cordoni: Mais feliz: cantar e conquistar público. De preferência com uma boa equipe técnica e com bons músicos. Também AMO acompanhar o processo criativo do Jairo Cechin (meu marido e compositor). É maravilhoso ver as canções nascendo dentro de casa, escolher as que mais gosto e ir construindo o jeito de interpretá-las. É um processo muito bonito! Também gosto de pesquisar música autoral, fico feliz quando vejo uma cantora ou compositor desconhecido cantando de um jeito que me toque. É delicioso conhecer novos talentos, trocar com outros artistas, conhecer novas canções! Mais triste: não ser valorizada como artista por conta dos cachês baixos (na maioria das vezes) e por falta de espaços e oportunidades para fazer mais shows. A falta de verba para montar uma equipe competente me entristece muito. Se eu tivesse essa verba poderia divulgar muito mais meu trabalho, contratando uma boa assessoria de imprensa, e fecharia muito mais shows, contratando uma boa produção para agendar os shows. Por questões de necessidade eu tenho que produzir tudo (eu e o Jairo Cechin, meu grande parceiro). Muitas vezes chega na hora do show, estamos dois “caquinhos”. Na hora que vamos fazer o que mais gostamos (que é estar no palco fazendo música), já estamos tão esgotados com questões de produção, que acaba sobrando pouca energia para curtir o show.

17) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

Lia Cordoni: Na realidade sou uma pessoa caseira. Não deveria ser, pois músico precisa fazer contatos, precisa circular por aí! Mas quando não tenho shows marcados, ou quando não tenho um propósito para sair, fico em casa. Então não estou totalmente inteirada da cena musical do ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano). Tem muito músico bom que saiu daqui. O meu primeiro disco, produzido por Xinho Rodrigues, tem a participação de um monte de músicos que hoje tem renome, e são do ABC. Por exemplo: Paulinho Dáfilin, Dalua, Felipe Roseno, Dino Barioni, só para citar alguns. Eles saíram do ABC e foram se destacando no cenário da música brasileira, porque são muito bons no que fazem. Percebo que aqui em Santo André, onde eu moro, o que rola mesmo na noite é o pop rock. Sinto que a MPB está perdendo espaço. Mas sempre achamos um ou outro lugar que tenha espaço para a música de qualidade! O Tupinikim Bar sempre foi um point legal, com música ao vivo de qualidade (instrumental, MPB, soul). Cantei bastante lá quando os donos eram o Alê e a Magda(pessoas queridas e que respeitam os artistas). Tem umas bandas legais no circuito alternativo: UAFRO (uma banda que mostra um pouco da cultura negra, tem canções de protesto, bem bacana); tem a Juliana Lima, amiga da música autoral que está na batalha também; tem um encontro de compositores que acontece uma vez por semana aqui em Santo André, mas confesso que não costumo freqüentar. Enfim, tem um circuito alternativo rolando em paralelo, mas no geral a noite é cheia de adolescentes animados que adoram ouvir pop-rock. Particularmente, gosto de freqüentar alguns saraus lítero-musicais em São Paulo, nestes encontros de artistas a gentileza e a atenção estão sempre presentes! Além disso, ouvimos coisas bacanas e conhecemos pessoas interessantes.

18) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Lia Cordoni: Recomendo que as pessoas busquem conhecer novos artistas, pois tem muita coisa boa que não está na mídia. Eu freqüento de vez em quando alguns projetos autorais, já fui algumas vezes no Clube Caiubi de Compositores – www.clubecaiubi.ning.com. Em 2008 teve o “Projeto Enquanto Isso” no Bar Brahma voltado para a música autoral. Tem de tudo nestes encontros! coisas boas e ruins. Mas conheci grandes talentos neste meio. Só para citar alguns: Kleber Albuquerque, a dupla Marcio Pazin e Carol PereyrAdolar Marin, Fernando Cavallieri, Ritinha Carvalho, os meninos do Cinco a Seco, Cahê Rolfsen, a cantora Dandara (me impressionou muito sua maturidade musical. Quando a conheci com 16 aninhos, cantando lindamente e tirando lágrimas de meus olhos!) e tantos outros talentos da música autoral. Acho interessante o jeito de Mariana Aydar cantar, gosto da Fabiana Cozza, Diego Moraes, Paula Lima, Rita Ribeiro, o bom gosto de Roberta Sá. Nem tudo está perdido, né?! Também acho legal o resgate que a Folha de São Paulo fez com aquela coleção de Bossa Nova e depois a outra coleção Raízes da Música Brasileira. Eu tenho as duas coleções completas: o CD de cada artista vem acompanhado de um livrinho com sua biografia, discografia, etc. Grandes nomes da nossa música estão nesta coleção: Adoniran Barbosa, Wilson Simonal, Leny Andrade, Joyce, Roberto Menescal, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Cartola, Jackson do Pandeiro, Ataulfo Alves, João Donato. Aprendo muito ouvindo estes discos!

19) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Lia Cordoni: Minha música já está tocando em algumas rádios. Toca no sul do Brasil, no nordeste, Minas, Mato Grosso. Eu batalho muito, envio meu CD – Samba-Fusão para várias rádios. São “passos de formiguinha”, pois infelizmente nas maiores rádios a gente não tem resposta. Mas não sei exatamente como funciona o tal “jabá”. Sei que é algo que existe e sei de pessoas que tiveram que pagar. Acho essa situação do jabá uma coisa bem triste. Não é o talento que importa, e sim o quanto você pode pagar para ter oportunidade. Mesmo assim sou uma “eterna romântica”. Chego a parecer ingênua. Ainda acredito na sensibilidade humana. Acredito que tenham donos de rádios e programadores que ouvem o material que nós enviamos e acabam gostando e dando oportunidade. Isso já aconteceu algumas vezes comigo. Em rádios menores, mas já aconteceu. Acredito no meu trabalho e acredito que ainda existe ética em alguns lugares. Se o cara tiver escrúpulos, se o cara tiver ligado realmente na ARTE, ele vai ouvir com atenção. E vai perceber que trabalhamos muito para obter o resultado e a sonoridade bacana que tem o meu disco. E eu vou continuar fazendo meu trabalho com carinho e dedicação, como sempre fiz. Cada um tem consciência do que faz. Eu acredito na propagação da cultura, tem gente que acredita apenas no seu bolso cheio de dinheiro… Fazer o que, né?!

20) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Lia Cordoni: Digo que tem que ter muita garra e força de vontade! A situação do músico no Brasil não é das melhores. A arte não é valorizada como deveria. Muitas vezes o cachê do artista é baixo e num mundo capitalista às vezes você é mais respeitado se tiver “grana”. Aí entra em jogo também o “status”. Às vezes o que conta são suas influências, se você é amigo de alguém influente ou se é filho de alguém que tem nome na música brasileira. Aí se você não tem a tal “grana”, não tem amigos influentes, não é filho de alguém que tem nome na música. Vai “na raça”! Eu e o Jairo, por exemplo: somos nós e o Samba-Fusão. A gente acredita nisso e acredita que tem gente acreditando junto! Aos poucos vamos conquistando espaço. Então, mesmo com todas as dificuldades que se tem para trabalhar com música no Brasil, se você sente dentro de si que precisa da música, que sem ela você padeceria (é o meu caso), então siga em frente! Mas sem grandes expectativas. Faça por amor, porque reconhecimento é algo que depende de muitos fatores alheios a você. Eu insisto em fazer música porque acredito e procuro fazer meu trabalho com amor, dedicação e profissionalismo. E é desta forma que, aos pouquinhos estou conquistando um público bacana, pessoas que conseguem sentir junto comigo o que eu sinto quando canto! Essa troca com o público não tem preço! É uma delícia quando termino um show e vem alguém com brilho nos olhos falar comigo, me contar dos sentimentos que meu show proporcionou! Mas… Já que estou aqui para falar, então deixo um apelo: que as pessoas aprendam a perceber o verdadeiro valor da arte. Seja música ou outra expressão artística. A missão do artista é sagrada. Temos a missão de tocar a alma das pessoas com nossa arte, com nossa verdade. Se não tiver verdade, não se toca a alma. Então se você quer trilhar uma carreira musical, faça porque ama e acredita. Tenha um propósito! Porque ter que lidar com a falta de valorização do trabalho (cachês baixos, falta de recurso para investir na carreira, pouco espaço no mercado para uma quantidade enorme de artistas, ter que lidar com o mercado competitivo; estar num mercado com pessoas que tem influências e sobrenome… “Affe!!” Não é nada fácil! Seria lindo se o reconhecimento fosse maior!Porque a batalha pelo reconhecimento é ENORME, meu amigo! Tem que AMAR e ACREDITAR MUITOOO para continuar nisso! E digo, se você quer trilhar uma carreira artística: ESTUDE. Não dá para dizer que é cantor sem fazer aula de canto! O dentista arranca dentes sem fazer odontologia? Não! Então porque o artista pode sair tocando por aí sem ter estudado? Não! Muitas vezes é por isso que a classe artística “se queima”. O cara chega para tocar num bar com uma postura totalmente amadora, não sabe se portar profissionalmente, “toma todas” em serviço e ainda toca mal! Depois o povo fala que ser artista não é profissão por culpa desse tipo de postura! Tem exceções: artistas fenomenais que nunca cursaram um conservatório musical, ou fizeram sequer uma aula particular e tocam muito bem! Mas isso é raro. E se você conversar por um tempo com uma dessas pessoas, vai descobrir que o “autodidata” estuda sim! Horas e horas por dia com o instrumento, testando todas as possibilidades, ouve muita música, etc. E se o cara leva jeito para aquilo, acaba ficando bom! Mas, no geral dou o seguinte conselho: Estude. Assim você será mais respeitado e terá mais domínio de seu instrumento, pode acreditar. Num mercado tão competitivo, temos que procurar ser muito bons no que fazemos, e só o estudo vai nos dar isso.

21) RM: Quais os seus projetos futuros?

Lia Cordoni: No momento estou focada principalmente na divulgação do meu primeiro disco, o “Samba-Fusão”. Este trabalho foi muito bem produzido, muito bem arranjado. Conta com a participação de músicos de renome na música brasileira. Eu e o Jairo nos dedicamos muito para que este primeiro projeto fosse concluído. Durante todo o ano de 2007 ele compôs quase todas as canções do disco, mas fomos entrar em estúdio somente em 2008. Os arranjos de Xinho Rodrigues e Leandro Néri também foram feitos com muito esmero. Então no momento preciso batalhar MUITO a divulgação deste primeiro trabalho. É um disco independente e não custou barato. Então seria um desperdício ir atrás de outros projetos agora, e perder o foco. Quero muito que as pessoas conheçam meu primeiro “CD-filho”: o SAMBA-FUSÃO! Ele é lindo e sei que as canções do Jairo Cechin interpretadas com tanto amor e verdade por mim, podem chegar aos ouvidos do povo! As músicas de Jairo têm uma popularidade muito forte. Porém, existem sim outros projetos para os quais fui convidada, que são muito bacanas! Tem o “Vazante” que é um projeto dirigido pelo grande compositor Kleber Albuquerque, que trata da temática do feminino, tendo como elemento simbólico principal a água, bem como outros elementos que representam o feminino. O trabalho é composto por canções autorais (a maioria do Kleber), mas também tem canções de Jairo Cechin. O Kleber convidou quatro cantoras para interpretar o que ele chama de “canções líquidas”: eu (Lia Cordoni), Elaine GuimarãesDaniella Alcarpe e Lis Rodrigues. A Lis teve que sair do grupo logo no início dos ensaios, pois estava priorizando os projetos da carreira solo dela. Então eu chamei uma amiga cantora, muito talentosa: a Stella Rocha. Ela foi muito bem recebida pelo grupo, e estamos fechando o repertório agora. O show está ficando lindo! Acho que nós todas estamos aprendendo bastante com este projeto. Eu por exemplo, nunca havia trabalhado com abertura de vozes, e é muito bonito fazer parte disso! Está sendo um momento inesquecível! Do mesmo modo que gravar o “Samba-Fusão” foi inesquecível! A verdade é que estamos sempre aprendendo… E tem outro projeto de um compositor e poeta venezuelano, chamado Carlos Rodriguez Sanchez. Ele estava no Brasil, me viu cantar no bairro Bela Vista – “Bixiga” e gostou muito! Aí me convidou para fazer parte de um projeto dele chamado “Bossa Venezuelano”, com canções autorais traduzidas para o português, com arranjos feitos por músicos brasileiros e intérpretes brasileiras cantando. Quem está produzindo este trabalho é a cantora e produtora Mara Nascimento. Eu gravei duas faixas deste projeto, que será lançado e divulgado na Venezuela. Os arranjos também são belíssimos! Enfim, estou feliz por ser convidada para trabalhos tão interessantes! Estes projetos todos só têm me mostrado que aos pouquinhos estou conquistando o reconhecimento que almejo! Isso é muito gratificante! No meu site tem mais detalhes sobre os projetos paralelos ao “Samba-Fusão”. E também bastante informação sobre o “Samba-Fusão”. Espiem lá! Ouçam!

Contatos: www.liacordoni.com / [email protected] / [email protected]

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.