Kelvin Diniz

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Kelvin Diniz
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O cantor, compositor, acordeonista baiano Kelvin Diniz teve seu primeiro contato com um acordeom em abril de 2005 em Serra Talhada – PE, cidade que residiu por dez anos.

Ele tomou gosto pelo instrumento e pediu uma sanfona como presente de aniversário. No mês de maio 2005 ganhou sua primeira sanfona (com 48 baixos). Com quatro meses de estudo como autodidata, começou a se apresentar com seu quarteto Autêntico do Forró que tocavam forró pé de serra. Estudando teoria e leitura musical foi se aperfeiçoando com o instrumento e passou para um acordeom de 80 baixos. Em abril de 2008 gravou o seu primeiro CD – Parte da minha vida – ao vivo. Teve a participação de Assisão e Ivanilton Cordeiro. Para o São João do ano de 2008, montou uma banda, mas mantendo o mesmo estilo de repertório e apresentação. Em novembro de 2008 gravou o seu primeiro CD no estilo Vaquejada. Em janeiro de 2009 gravou o segundo CD – Minha fala, pé de serra, com as participações de Alcymar MonteiroIrah Caldeira e Petrúcio Amorim. Em maio de 2009 foi presenteado com uma sanfona Giulietti de 120 baixos. Em março de 2010 gravou o CD Ensaio para a divulgação da banda no São João 2010 na Bahia. Ele em setembro de 2010 participou do 4º Festival Internacional Roland de Acordeom (Festival aberto para todos os acordeonistas/sanfoneiros do Brasil sendo profissional ou amador maior de idade), ocorrido em São Paulo no Teatro Vivo. Em setembro de 2011 participou do 5º Festival Internacional Roland de Acordeom. Ele possui o título de segundo melhor acordeonista do Brasil pela Roland Brasil e é Parceiro da Roland.

Em 2011, ele gravou mais dois CDs. O segundo da linha de Vaquejada e o quarto da linha forró pé de serra (Cultura Nordestina). Ele participou em novembro da abertura da FENAGRO emSalvador – BA, sendo parabenizado pelo Governador Jaques Wagner. Ele em março de 2012 gravou mais um CD – Menino Bagunceiro com as participações de Alcymar Monteiro, Adelmario Coelho e Roberto Neto. O sétimo CD de carreira. A sua banda possui 15 integrantes, dançarinos fazendo a mesma linha de forró de pé de serra. A banda já se apresentou em grandes festas juninas na Bahia como Senhor do Bonfim, Piritiba, Capim Grosso, Serrolândia, Itatiaia, Ourolândia, São José do Jacuípe, Mirangaba, Humildes (de Feira de Santana) e muitos outros.

Kelvin, após oito anos de carreira e 7 CDs gravados gravou o seu primeiro DVD com um repertório baseado na cultura tradicional do forró pé de serra. O cenário e os figurinos passando pelas coreografias filtradas sem expor a nudez e sem nenhum apelo erótico. Mas sem deixar de lado a sensualidade natural do forró. E teve o minucioso estudo técnico de cada instrumento utilizado para a melhor elaboração dos arranjos explorando todos os recursos tecnológicos para um som agradável e definido. Confirmando a sua personalidade forte e profissionalismo nenhum dos “padrões do sucesso” bastante usado pelos “artistas da moda/do momento” foi utilizado. No repertório do DVD tem forrós, baiões, xaxado, xotes e arrasta-pés indo até o instrumental popular e erudito. O DVD mostra abrangência técnica/teórica de Kelvin, mostrando seu lado forrozeiro e seu lado instrumentista.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Kelvin Diniz para a  www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01 de setembro de 2013:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data e a sua cidade de nascimento?

Kelvin Diniz: Nasci no dia 12/05/1991 em Capim Grosso – BA.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Kelvin Diniz: Nos fins de semana na minha casa era quase sempre uma festa. O meu pai reunia amigos e passava o domingo comendo bebendo e ouvindo música. Sempre música brega (antiga), sertaneja (raiz) e forró (de grandes nomes pernambucanos), ou seja, desde meus oito anos de idade me lembro de estar ouvindo constantemente música boa. Depois de todo esse tempo ouvindo, aos 13 anos tive contato com um Teclado e comecei a “brincar” de tocar junto com outros dois amigos. Só tirávamos trechos de músicas (como refrões ou introduções) e passávamos de um pro outro, tudo na base do ouvido, na época brincávamos disso sem a menor pretensão de sermos músicos. Meses mais tarde por meio de um trabalho de escola (uma paródia para a matéria de Português) resolvi me juntar a um colega que tinha uma sanfona de 8 baixos para eu e ele tocar e não ter que cantar. Nesses ensaios comecei a mexer na sanfona e alguns meses depois, eu ganhei de um vizinho, Romildo Lopes (que sempre estava nesses churrascos na minha casa), um de 48 baixos da marca Universal. Meu primeiro acordeom.

03) RM: Qual a sua formação musical? Qual a sua formação acadêmica fora da área musical?

Kelvin Diniz: Estudei de forma autodidata. De forma direta só tive quatro aulas sobre os baixos com o sanfoneiro Sebastião em Serra Talhada – PE. Depois disso passei a investir na teoria musical. Comprei revistas, livros, aprendi a leitura e a escrita musical (partitura). E me aprofundei em harmonia e continuei usando meu ouvido para aproveitar o melhor dos sanfoneiros da região que eu tinha a oportunidade de assistir frente a frente tanto em palcos quanto em Barzinhos. Na escola concluí o Ensino Médio.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Kelvin Diniz – Não sei com os outros, mas comigo nunca deixei de dar importância a ninguém, dos que eu parei para apreciar. Tudo bem que tem épocas que a gente ouve menos determinado artista ou tipo de música, mas depois voltamos e re-estudamos aquele ponto de novo. Afinal é impossível ficar sendo influenciado por todos; o tempo todo. Tem épocas que eu vou mais pro lado de Sivuca, outro tempo mais pra Hermeto Paschoal, Oswaldinho do Acordeom, Spok Frevo Orquestra, Richard Galliano, Yamandu Costa, Dominguinhos entre vários outros instrumentais. E na área do forró a influencia sempre foi de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Assisão, Jorge de Altinho, Alcymar Monteiro, Santana. E existem centenas de compositores que eu acompanho. E raramente essa lista aumenta porque ultimamente, sinceramente não estar aparecendo ninguém interessante no mercado forrozeiro. Aparecem grandes sucessos de repente, mas para mim eu só aproveito o que é bom.

05) RM: Quando, como e onde  você começou a sua carreira profissional?

Kelvin Diniz: Não consigo vê um momento específico para dizer onde comecei a carreira profissional. Afinal estou vindo de baixo como uma bola de neve só crescendo. Se eu tivesse “surgido” de repente “estourado” (como se diz) aí seria outra história. Acredito que comecei entre 2008 e 2009, depois da minha primeira sanfona compramos uma zabumba e ganhamos um triângulo. E nisso os sons nos dias de domingo passaram a ser ao vivo. Isso serviu muito bem de ensaio me fazendo render técnica, resistência e um repertório gigantesco (pois apareciam vários cantores com repertórios cada vez maiores e mais distintos). Em seis meses com meu primeiro acordeom já fiz uma apresentação com um repertório de umas 30 músicas (tocando no Teclado e nos baixos). Pouco depois já tive que comprar um acordeom maior (de 80 baixos) e conseqüentemente um contrabaixo elétrico para dar um tempero diferente (esse tipo de formação é muito comum em Pernambuco). Depois veio a guitarra e a bateria, mas não perdemos a linha da música. Tudo isso em Serra Talhada – PE dentro de uns três ou quatro anos.

06) RM: Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as musicas que entraram no gosto do seu público?

Kelvin Diniz: São 7 CDs e agora 1 DVD. Em 2008 veio o meu primeiro CD, com a formação tradicional (sanfona, zabumba, triangulo, um contrabaixo e um cavaquinho) e com participação do grande forrozeiro Assisão. Em 2009 foram dois CDs sendo um de Vaquejada e um de forró tradicional (já com a formação de banda) que veio com participação do poeta Petrúcio Amorim, Alcymar Monteiro e da maravilhosa Irah Caldeira. Em 2010, já morando Capim Grosso – Bahia, eu gravei um CD simples durante os ensaios. E em 2011 voltei a gravar dois CDs sendo o segundo na linha de Vaquejada e o outro de forró tradicional. Em 2012 gravei mais um de forró que contou com a participação de Adelmário Coelho, Roberto Neto e pela segunda vez a do Rei do Forró Alcymar Monteiro (dessa vez a pedido do próprio). Em 2013, depois de muitas reflexões se estava pronto ou não, resolvi gravar o DVD de forma simples sem público, sem participações, sem apelo erótico através das dançarinas e com muito conteúdo musical. O meu público sempre gostou das diversas linhas que faço. Eu e minha banda trabalhamos com Forró, Baião, Xaxado, Xote e Arrasta-pé além das misturas de fragmentos de Frevo, Maracatu e Samba dentro das próprias músicas. Sempre inovo nos arranjos, mas nem por isso dou um nome diferente à música que faço, simplesmente não vejo necessidade. Acho ridícula essa epidemia do “universitário”. O que eu faço é Música Nordestina, não preciso apelar para nada.

07) RM: Quais os motivos o levaram a escolher o forró tradicional como estilo musical para a sua carreira?

Kelvin Diniz: Forró é uma expressão Cultura. E Cultura, pelo que aprendi na escola e nas minhas observações, é meio de vida (sobrevivência). Eu simplesmente toco e canto o que eu vivo; o que eu faço; o que eu sinto… Assim como Luiz Gonzaga fez. Acho que isso já explica… Não sou influenciado pela mídia/modismo. Então tenho meu gosto particular, eu gosto do que é bom. O forró me faz bem, então trabalho com ele. No instrumental, por exemplo, gosto de Chorinhos, Frevos e Jazz (além de outras músicas estrangeiras). Então quando só toco, eu escolho sempre dentro desse repertório. Faço o que me faz bem, como diz aquela frase: “Escolha o que gosta de fazer e nunca terás que trabalhar.”

08) RM: Quais os motivos o levaram a escolher o acordeon (Sanfona) como instrumento musical?

Kelvin Diniz: O grau de dificuldade. Sempre gostei de coisas complexas, até por isso tenho uma coleção de cubos mágicos de diversos modelos. Além do som gostoso produzido pelo fole. A sanfona consegue colocar todos os sentimentos de quem toca pra fora, é impressionante a expressividade desse instrumento.

09) RM: Quais as técnica necessária para ser um bom Acordeonista/Sanfoneiro?

Kelvin Diniz: Digitação limpa, bom domínio do fole (abrir e fechá-lo). E boa harmonização e consciência sobre o uso dos baixos para aproveitar ao máximo o que eles têm para dar. A criatividade para não viver imitando outros sanfoneiros (como vem acontecendo com alguns seguidores de Dominguinhos). E expressividade, postura e um pouco de velocidade escondida nas mangas.

10) RM: Além do Forró o quais os estilos musicais que você gosta de tocar no Acordeom?

Kelvin Diniz: Chorinho, Valsa, Frevo, Jazz, Tango, Música Gaúcha e Música Clássica. Em geral, instrumental, só precisa ser bem tocado e ter melodia/harmonia bem construída.

11) RM: Quais as principais diferenças do Acordeom de 8 baixos e de 120 Baixos?

Kelvin Diniz: Além do tamanho a principal diferença é o timbre. É impossível confundir um com o outro, a não ser na música “Imitando os 8 baixos” de Oswaldinho do Acordeon. O Teclado é diferente além da disposição das notas que no 8 baixos cada botão é uma nota, quando abre o fole, é uma nota e quando fecha o fole, é outra nota.

12) RM: Quais as principais diferenças acústicas do Acordeon?

Kelvin Diniz: O que primeiramente caracteriza o timbre do acordeon são as Vozes (timbres), isso sim determina quase que 100% se o acordeon é bom ou não. Depois entra em questão o tipo de madeira, o tipo de trabalho manual ou não que foi empregado. E a qualidade das outras peças como teclas e botões, além das ferragens. Para saber se um acordeom é bom, primeiro você o ouve e depois o observa.

13) RM: Quais os prós e contras de um Acordeon Digital?

Kelvin Diniz: Os prós são: Não causa microfonia, é mais leve que muitos acordeons acústicos. E há a possibilidade da troca de timbres (praticamente como se você tirasse uma sanfona e colocasse outra). E há os recursos MIDIs e timbres orquestrais para quem sabe usar a tecnologia a seu favor. E há saída para o fone de ouvido para somente quem toca ouvir o som (assim pode tocar a qualquer horário sem incomodar ninguém). E muitas vezes também é mais barata. Os contras são: que eu, particularmente, ainda não faço o ricochete (mas tem gente que faz e faz muito bem). Na verdade o problema dela é que quando te virem com uma; falam: “Quieta com isso! Isso nem acordeom, é! Tem som de plástico! Nem mexe o fole!” e por aí vai. Porém, quem fala isso não sabe usar uma. O som é totalmente personalizável nos modelos “x”. E o fole não mexe com tanta freqüência, exigindo pouca força, o que alivia muito pros sanfoneiros. E dentro desse pouco espaço exigindo pouca força é possível fazer todas as dinâmicas na escala do teclado indo da mais baixa até a mais alta passando pelo Bellows Shake.

14) RM: Como escolher um bom Acordeon?

Kelvin Diniz: No acordeon novo se ouve o som, avalia se o timbre é interessante para o que se pretende usar (pois nenhum acordeon tem o som “feio”). E se as vozes são boas e respondem de forma imediata, se  avalia o material usado na construção, peso, tamanho e valor. Na verdade se avalia se ele serve para o que se quer usar ou não por ser grande, pesado ou caro. No acordeom usado geralmente se olha primeiro a resistência do fole, o timbre e o estado de conservação em que se encontra o instrumento.

15) RM: Quais os métodos para aprender Acordeon que você estudou e que indica?

Kelvin Diniz – Manejo dos baixos (A. Franceschini), A técnica da velocidade (Alencar Terra) e Método de Acordeão Mascarenhas (Mário Mascarenhas). Obviamente bem acompanhados de bons livros de teoria como os de Bohumil Med e Pasquale Bona. Complementos com Escalas para Improvisação em Todos os Tons para Vários Instrumentos(Luciano Alves), Princípios Básicos da Música para a Juventude (Maria Luiza de Mattos Priolli) e boas partituras sem erros de grafia.

16) RM: Quem são Acordeonistas brasileiros que você admira?

Kelvin Diniz: Sivuca, Oswaldinho do Acordeon, Dominguinhos, Beto Hortiz, Adelson Viana, Luciano Maia, Renato Borguetti, Waldonys, Toninho Ferraguti… São muitos, desde os nomes internacionais, aos nacionais até os regionais.

17) RM: Você acha que o alto preço para comprar um Acordeon inibi quem quer aprender tocar?

Kelvin Diniz: Muitas vezes sim, pois sinceramente é um sofrimento para se comprar um Acordeon. A não ser que já se seja rico para pagar 18.000,00 em um Acordeon a cada ano. Com isso muitos investem em acordeons baratos e terminam sendo prejudicados tanto financeiramente quanto tecnicamente.

18) RM: O peso físico do Acordeon dificulta o desempenho para quem toca?

Kelvin Diniz: Sim, sem dúvidas. Porém às vezes um peso maior ajuda. Tem músicas instrumentais que eu toco que são muito intensas, o fole se move com muita pressão e ao mesmo tempo a digitação é rápida e complexa, com isso preciso que o acordeom se mova o mínimo possível. Nisso o peso ajuda.

19) RM: Você toca ou pretende tocar Piano ou/e Teclado?

Kelvin Diniz: Não me aperfeiçoei no Teclado, porém a minha mão direita sempre trabalhou em teclas, com isso eu sei mexer com elas. Mas a mão esquerda sempre esteve em cima de botões (os baixos), a cabeça processa a informação, mas os dedos não obedecem como deveriam. Pretendo um dia ainda ter um Piano em casa, só para uso particular. Muitas vezes da vontade de tocar, mas o cansaço causado pela sanfona faz desistir de um simples improviso. Já no Piano seria só sentar e tocar.

20) RM: Como você se dedica ao estudo de música. Você pretende cursar música na Faculdade?

Kelvin Diniz: Ainda não encontrei nenhuma Faculdade próxima da minha casa para me ajudar a decidir se continuo o estudo da música ou não. Mas se for estudar será para me aprofundar não só na música popular.

21) RM: Você compõe música instrumental? Como é o seu processo de compor?

Kelvin Diniz: Geralmente só arranjos/trechos, não músicas inteiras. Mas para um filme que foi produzido em Capim Grosso – BA, eu terminei “compondo” uma música a pedido do diretor/roteirista. Ele me pediu uma música com clima bem nordestino para determinadas cenas. Aí eu pensei: “Nada mais característico nordestino, no campo musical, do que as bandas de pífe de Caruaru”. O processo foi incomum, pois comecei com a zabumba, pensei em determinado clima e escolhi o andamento sem tocar nada, só imaginando. Aí gravei a zabumba alternando o ritmo em divisões de 4, 6 e 8 compassos quaternários. E uma ou outra parada de silêncio total e a zabumba sempre usando Forró e Xaxado (com uma marcação de semínimas no bacalhau), como eu queria mais tensão do que convite à dança. Eu não usei o Baião. Depois coloquei o triângulo acompanhando exatamente a zabumba. Resolvi colocar um caixa como nas bandas de pífe, porém ao invés de acompanhar a zabumba, a caixa ficou livre fazendo acentuações hora em Baião hora em Maracatu. E senti falta das Alfaias, e resolvi colocá-las. O ritmo que as Alfaias tocaram; nem eu sei. Tem momentos que é Maracatu de Baque Virado literalmente, mas nos momentos leves só fazem uma base para a Zabumba sem chamar muita atenção (Resolvi colocar assim, pois já fiz uma análise sobre o disco Afrociberdelia de Chico Science & Nação Zumbi e achei muito interessante as possibilidades de conjugação rítmica desses tambores). Nesse momento dei por concluído a parte percussiva, agora faltava o “pior”: a harmonia e a melodia. Parei para pensar no que cairia bem em cima dessa mistura e resolvi convidar um músico mineiro que mora por aqui, Junior da Mata. Violeiro caipira fino e paramos para ouvir e discutir o que faríamos em cima “daquilo” e resolvemos usar somente um acorde, com isso improvisamos nos ciclos da zabumba revezando entre acordeom e Viola (de 10 cordas). Em determinado momento decidimos variar e usamos dois acordes (Dm e Bm) e depois voltamos para um só (Dm). E na base do improviso a “melodia” saiu e o instrumental foi gravado somente com isso. E para acabar com a agonia da composição dessa música faltava o nome. Nada mais interessante que “Pelejas”.  Tanto trabalho e bagunça rítmica / harmônica, o nome foi justo.

22) RM: Você compõe música com letra? Como é o seu processo de compor?

Kelvin Diniz: Não escrevo, acredito que, por falta de inspiração ou sei lá o que. Sou muito crítico com o que eu faço. Não gosto das melodias que me veem à mente. Porém costumo fazer correções em divisões silábicas, nos sentidos de determinados trechos e raramente em ajustes finos na melodia para ficar mais agradável junto à harmonia.

23) RM: Quais os principais compositores que você gravou as musicas nos seus CDs?

Kelvin Diniz: Xico Bizerra, Alcymar Monteiro, Jorge de Altinho, Luiz Gonzaga, Zé Marcolino, Humberto Teixeira, Accioly Neto, Maciel Melo, Petrúcio Amorim, Flávio Leandro, entre vários outros. Acho que em todos os CDs há esses nomes. Eles são muito bons.

24) RM: Você estudou técnica vocal?

Kelvin Diniz: Não. Tudo o que aprendi foi basicamente por observação. Nunca parei para cursar pelo fato de estudar o Ensino Médio no período da minha formação musical. Estudava em tempo integral e ainda por cima gravava e tinha os shows para fazer.

25) RM: Quais as cantoras(es) de forró que você admira?

Kelvin Diniz: Elba Ramalho, Irah Caldeira, Nadia Maia, Cristina Amaral, Andrezza Formiga, Marinês.

26) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Kelvin Diniz: A gente não depende do “sucesso do momento” para trabalhar. E temos a liberdade de fazer nossa música do nosso jeito sem ter que seguir as ideias de alguém que pensa entender de música (a não ser que seja um profissional reconhecido nacionalmente). Mas o problema é a dificuldade para vender shows, pois, sempre há aqueles que trancam as portas e ficam com as chaves para si, só entra quem se submeter a ele e olhe lá!

27) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Kelvin Diniz: Em cima do palco vou seguir fazendo meus shows sem pressa. E divulgando meu trabalho por conta própria até encontrar alguém que realmente faça o serviço (por que já apareceram vários, mas todos eram só conversa, não vi um trabalhar como disse que faria). E quem sabe um dia ser reconhecido. Fora do palco eu faço gravações em estúdio, tanto como instrumentista, quanto na função técnica. E ministro aula de música para vários tipos de instrumentos. Não sonho e nem tenho pressa de ser artista conhecido nacionalmente, sei que todos os grandes levaram tempo para terem o reconhecimento. Então porque eu serei diferente? Dando para viver minha vida tranquila para mim já estar bom demais.

28) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Kelvin Diniz: Ajuda divulgando e expondo meu trabalho em todos os lugares. E ainda não me prejudica em nada.

29) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home Studio)?

Kelvin Diniz: A vantagem é que você pode produzir determinado material em qualquer lugar com um custo baixo. A desvantagem é que se o custo é baixo a qualidade também é baixa. Eu tenho um Home Studio, mas é focado mais para a produção do material de estudo da banda, cada músico recebe dois CDs um com seus arranjos em destaque e outro sem seu instrumento para já servir para ensaio.Isso também ajuda na criação e avaliação de arranjos.

30) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Kelvin Diniz: Faço meu trabalho com minha personalidade. Não busco fazer a diferença com CDs de produções gigantescas, nem por meio de fotos, de capas assim e assado. E de fazer divulgação com cartazes, de lotar carros e mais carros, de sair dizendo que minha banda é a melhor, etc. Só chego e faço meu trabalho musical como acho que deve ser feito e pronto. Afinal sou músico. E minha função é fazer musica com qualidade, se eu não conseguir posso desistir do instrumento.

31) RM: Como você analisa o cenário do Forró. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Kelvin Diniz: Existe diferença brusca entre o forró pernambucano, o baiano, o cearense e o carioca. Só de ouvir é fácil definir quem são, porém aos ouvidos do “povão” é tudo a mesma coisa. Então há o problema de que os forrós bons nem sempre são os bons para o povão. Prefiro não citar nomes que regrediram.

32) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Kelvin Diniz: Todos os grandes nomes do forró autêntico e vindos de Pernambuco (que é minha maior referencia) são exemplos de profissionalismo e qualidade musical.

33) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Kelvin Diniz: Já pediram pra eu tocar arrocha! (acho que qualquer forrozeiro vê isso como uma falta total de noção da pessoa que pediu). Já pediram mapa de palco e rider técnico e quando chegamos lá tinha um caminhão e a mesa de som era uma Ciclotron. Já dei boa noite a uma cidade sendo que estava em outra (sorte que o técnico do som errou e deixou meu microfone fechado, ninguém ouviu). Já fizeram proposta de tocar uma festa e receber no ano seguinte.

34) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Kelvin Diniz: Faço música porque gosto, me sinto bem quando toco. Deixa-me triste o fato de saber que a música que toco, ouço e valorizo não é considerada “boa” tanto quanto as que mandam e chamam as mulheres disso e daquilo outro. Como disse o humorista Zé Lezin da Para+iba, o mundo hoje estar uma bebedeira só. Os jovens acham que o bom é aquele que falam em cachaça.

35) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Kelvin Diniz: Aqui em Capim Grosso – BA há projetos musicais com instrumentos percussivos e harmônicos que envolvem os adolescentes das comunidades e há instrumentistas e bandas de grande porte.

36) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Kelvin Diniz: Até hoje em Pernambuco e na Bahia nunca precisei pagar. Talvez só se eu estivesse no Sudeste, tivesse que pagar o jabá.

37) RM: Como foi participar do Festival de Acordeonista da Roland?

Kelvin Diniz: Foi uma experiência muito boa. Não esperava ser finalista de um festival desse porte. E foi realmente uma surpresa ainda mais por ter sido as duas vezes em que participei. O contato com músicos de outras regiões do país e de outras áreas musicais é muito bom.

38) RM: Fale da sua parceria com a Roland.

Kelvin Diniz: Devido ao bom desempenho com o Acordeon Digital me fizeram esse convite. O V-accordion não é um acordeom comum, não é só chegar e tocar. Tem que estudar para saber manuseá-lo. É como quando começamos a estudar um instrumento musical. Muitos pegam um Acordeon Digital, apanham e saem dizendo que não presta. Mas na verdade o músico foi que não soube se atualizar. Todos sabem que parar no tempo é um problema. Hoje sou o único “representante” Roland na Bahia. E por onde vou eu levo o FR-7x, mas não é só para divulgar o instrumento, é por gostar e ele me ajudar.

39) RM: Fale do seu trabalho com jovens na cidade no aprendizado musical.

Kelvin Diniz: Há o trabalho com a Orquestra e com a Filarmônica. Todos eles estudam teoria e método específico do instrumento. E sabem ler partitura e tocam sob regência. O público alvo são os jovens do município de classe média baixa. São poucos os que têm instrumento próprio. A Orquestra funciona junto à Paróquia e a Filarmônica junto à Prefeitura. E todos os jovens que não possuem instrumento recebem um da instituição e assinam um termo de responsabilidade. E assim todos podem levar os instrumentos para casa e estudam com bons conteúdos e sem os vícios dos que estudam de forma desordenada.

40) RM: Nos apresente a Orquestra Jovem da sua cidade.

Kelvin Diniz: A Orquestra foi criada há dois anos pelo Padre Pedro junto à Paróquia. E deram o início conseguindo os primeiros instrumentos com a ajuda de jovens da Alemanha. E depois através dos Arautos do Evangelho. Trabalhamos de forma voluntária seguindo o estudo como citei na resposta anterior.

41) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Kelvin Diniz: Ou você entra para fazer bem feito ou nem pense nisso. Independente de você pretender ser “famoso” ou não.

42) RM: Quais os seus projetos futuros?

Kelvin Diniz: Seguir com meus estudos na música, conseguir influenciar grandes quantidades de jovens a praticar um instrumento musical, seguir fazendo meus shows e gravando meus CDs.

43) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Kelvin Diniz: (74) 99135-5070 | 98121-2013 | 99954-5030 | 98802-1913 | [email protected]  | www.facebook.com/kelvin.diniz.7

Links de Vídeos: O começo: http://www.youtube.com/watch?v=5KkLWvqhfEU

O DVD – 2012: http://www.youtube.com/watch?v=Rg8ZwcyTKSc&hd=1

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.