João Araújo

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João Araújo
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O músico, produtor e gestor cultural mineiro João Araújo, desde 1979 vem cantando, tocando instrumentos (viola, violão e cavaquinho), compondo, arranjando, escrevendo textos, registrando e tentando fazer cultura no Brasil.

Criador do trabalho de preservação músico-cultural “Pesquisa Viola Urbana”, produziu sobre o tema quatro CDs (em 2005, 2008 e 2015) e dois DVDs (em 2010 e 2015). Outras produções: “Violando Fronteiras” (2007); “Imaginário Roseano” (2008); “Viola Brasileira em Concerto” (2012); “Trem” e “Lagoa do Peixe” (2013); “Catrumano & Urbano” (2014); “Duo Barreto-Araújo” (2016). Dezenas de trabalhos de terceiros como diretor artístico. Projetos futuros: DVD “Eu a Viola e Deus” entre outros. Participações em programas de TV: “Sr. Brasil” (Rolando Boldrin – SP), “Ensaio” (Fernando Faro – SP), “Sem Censura” (Leda Nagle – RJ), “Nordeste Caboclo” (Carneiro Portela – CE), “Arrumação” (Saulo Laranjeira – MG), “Viola Brasil” (Chico Lobo – MG) – além de dezenas de programas de rádio. Já fez shows e palestras em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Espírito Santo, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul.

Em fevereiro de 2017 fez tournée internacional pelas cidades de Londres (Reino Unido), Zurique (Suíça), Munique (Alemanha) e Lisboa (Portugal). Produtor e apresentador do programa “Violando…” – pela Rádio Inconfidência de BH – em 2009.

Em 2012 lançou o livro “João Pança: pedrinhas de ouro que só faltou Dr. Rosa contar…” – prefaciado por Olavo Romano. Atua como Coordenador Editorial em projetos literários próprios e de terceiros. Pela “Viola Urbana Produções”, atua na gestão de projetos como “Festival Mineiro de Viola”, “Prêmio Nacional de Excelência da Viola”, “Memória Maria Helena Buzelin”, livros “Minas Gerais – fazendas e sabores”, “Mostra Internacional de Viola de Arame do Brasil” e outros. Em 2017 atuou na consultoria de gestão internacional do projeto “Mil Violas” pelo recorde junto ao Guinnes Book. Desde 2014 trabalha no requerimento junto ao IPHAN pelo reconhecimento da Viola Brasileira como Patrimônio Imaterial – protocolado em janeiro de 2017. Promove diversas campanhas de engajamento pelo desenvolvimento da viola, como: “Viola: Nosso Patrimônio”, “Prêmio Nacional de Excelência da Viola”, “Violas pela Paz”, “Violas pelo Brasil” entre outras. “Prêmio de Excelência da Viola” (em 2011 e 2013); “Prêmio Cícero de Excelência Gráfica” (em 2012); “Gourmand World Cookbook Awards 2014”; “Prêmio Profissionais da Música 2015”; Prêmio “Discoplay de Ouro 2016”; “Gourmand World Cookbook Awards 2017”.

Diretor e fundador da empresa Viola Urbana Produções de 2012 até os dias atuais. Curso de atualização em teoria musical – Professora Cecília Barreto (de 2015 a 2017). Diretor Financeiro no IBVC – Instituto Brasileiro da Viola Caipira (de 2010 a 2014). Curso de Gestão Cultural – EAD – SENAC/MINC (2013/2014). Curso de Gestão Financeira para Terceiro Setor – ADETS/SP (2013). Sócio Diretor na empresa Gvianna Produções Culturais (de 2010 a 2012). Trabalhou no sistema financeiro – Banco Itau SA (de 1992 a 2007). Curso Superior incompleto em Matemática – UFMG – (1994). Curso Técnico em Mecânica – CEFET/MG (1987)

Segue abaixo entrevista exclusiva com João Araújo para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 18.06.2018:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

João Araújo: Nasci no dia 08.02.1967 em Contagem (MG).

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música?

João Araújo: Um pouco antes e até que aos 12 anos de idade passei a acompanhar as aulas de Violão e Viola de meu irmão, em casa. Juntei o meu gosto por literatura latente desde os 10 anos de idade, mais ou menos, ao interesse por textos falando sobre música e assim começou tudo.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

João Araújo: Sou músico, produtor e gestor cultural autodidata. Curso de atualização em teoria musical – Professora Cecília Barreto (de 2015 a 2017). Curso de Gestão Cultural – EAD – SENAC/MINC (2013/2014). Curso de Gestão Financeira para Terceiro Setor – ADETS/SP (2013). Curso Superior incompleto em Matemática – UFMG – (1994). Curso Técnico em Mecânica – CEFET/MG (1987)

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

João Araújo: Fiz de minhas influências meu principal produto de carreira e do selo Viola Urbana Produções, que são grandes nomes da música regional brasileira, sobretudo ligada à Viola de 10 cordas, homenageados até 2015 em quatro CDs e dois DVDs na série: “Pesquisa Viola Urbana”. Portanto, nenhum deixou ainda de ter importância, sendo que os grandes nomes da música clássica, choro, MPB, samba, música nordestina, música gaúcha e praticamente todos os outros estilos brasileiros vem se somando como influências.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

João Araújo: Considero que seja a partir do primeiro CD autoral de múltiplos estilos “Festival”, lançado em 2000.

06) RM: Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

João Araújo: Tenho 13 CDs, 05 DVDs e um livro lançados – os detalhes estão disponíveis em nosso site www.violaurbana.com  – releases disponíveis para download.

Acho fundamental que quem se interesse pelo trabalho visite o site, pois é muito mais do que só listar as produções. São fotos, vídeos, matérias de jornais, projetos realizados como produtor e gestor, imagens de capa, amostras de áudio de cada música gravada.

Meu trabalho é direcionado a um público diferenciado, capaz de valorizar cultura e que não tenha preguiça de se aprofundar em informações, pois atuo ao mesmo tempo como músico, produtor e gestor cultural. Quem não visita e explora meu site não vai conseguir entender nem dar valor ao que venho fazendo.

07) RM : Como você define o seu estilo musical?

 João Araújo: Não defino. A minha estratégia atual é de explorar a Viola em possibilidades além da música caipira, isso abrange toda a minha experiência em vários ritmos. Como compositor, não tenho qualquer definição, faço o que acho mais pertinente e que gosto de fazer, inclusive gosto de explorar e estudar vários estilos.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

João Araújo: Não.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

João Araújo: Quando me interessei por fazer técnica vocal eu já tinha mais de 20 anos como cantor. A professora disse que não valia a pena estudar, se eu quisesse seguir apenas como cantor popular. Já cuidar da voz é fundamental a qualquer pessoa, sobretudo que use a voz profissionalmente ou constantemente.

10) RM : Quais as cantoras(es) que você admira?

João Araújo: Milton Nascimento, Elis Regina – principalmente.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

João Araújo: Basicamente, cada música precisa ter história, contexto, coerência e fundamento cultural. Se for com letra, o ritmo ou arranjo tem que refletir as palavras, por exemplo. Quanto à prática, antigamente simplesmente a ideia surgia e fluía. Hoje, coleciono as ideias e pratico constantemente a possibilidade delas fluírem, em meus estudos diários com a Viola (média de 3 horas por dia, de segunda a sexta).

12) RM : Quais são seus principais parceiros de composição?

João Araújo: Tenho cerca de 60 parceiros em composições, apenas com dois ou três fiz mais de uma música, mas às vezes o parceiro abandona a música feita, não volta mais a falar no assunto, eu respeito. Nos últimos anos, meus mais profícuos parceiros tem sido o cineasta mineiro Celso Machado e o professor cearense Aluísio Cavalcanti Jr. Recentemente implantei um sistema de divulgação diária de vídeos das composições e interpretações nos meus perfis Facebook que está ampliando o contato das pessoas com os trabalhos, isso ajuda bastante, pois ter público a quem mostrar os trabalhos é fundamental para manter a veia artística de qualquer um.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

João Araújo: Alguns poucos artistas independentes, como a Orquestra Terra da Uva de Jundiaí (SP) e alguns parceiros fora do Brasil. Importante salientar que durante alguns anos mantive a estratégia de lançar as releituras “Pesquisa Viola Urbana” (04 CDs e 02 DVDs) e outras produções como intérprete, para chegar ao mercado, e então só nós últimos anos, gradativamente, ir lançando meus trabalhos como compositor.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

João Araújo: De positivo é o artista ter total autonomia sobre o que quer fazer. O negativo é que o caminho é muito mais difícil, os espaços são muito mais concorridos e muitas vezes não se consegue grande público. Porém, esse quadro está mudando, cada vez menos há grandes gravadoras para lançar tantos bons artistas, assim esses cada vez mais precisam “se virar” por conta própria. Foi nesse sentido de mercado que lancei em 2012 minha empresa Viola Urbana Produções – para dar suporte aos outros artistas com minhas expertises em produção fonográfica, de eventos, gestão de projetos, etc.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

João Araújo: Conforme citei acima, o suporte artístico é mantido pelo da empresa, onde atuo como produtor e gestor tanto para mim quanto para terceiros. Fico sempre muito atento ao mercado e procuro direcionar minha carreira dentro do que consigo e gosto de fazer – mas que me dê melhores espaços.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

João Araújo: Mantenho a prestação de serviços como produtor e gestor de projetos a terceiros, busco estar sempre muito atento ao que acontece no meio, pesquiso muito, lanço pelo menos um trabalho por ano e invento sempre (ou aprimoro) alguma nova ação que ainda não tenha sido feita. Desde 2017 sou o mentor da Campanha Nacional pela Viola à Patrimônio Imaterial – uma ação que quando reconhecida pelo IPHAN trará benefícios a toda a classe. Isso é fruto do principal problema que vejo na cena da Viola brasileira, que é a divisão entre os seus admiradores. Invisto muito em ações para o crescimento coletivo da Viola, pois toquei viola fora do Brasil e comprovei que lá eles têm muito interesse em consumir coisas de viola – pois é um instrumento pouco conhecido mundo afora. O que nos falta, enquanto violeiro brasileiro é dar uma boa “embalagem” a esse produto para apresentá-lo lá fora. Uma classe unida, nesse e em todos os sentidos, é fundamental.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

João Araújo: Internet é muito benéfica. Com baixo custo consigo mostrar meu trabalho e atender clientes de qualquer parte do mundo, em tempo real. O único ponto negativo é ter que conviver com algumas pessoas que infelizmente ainda não desenvolveram a noção de que a ética existe para ser aplicada também na internet. Há várias coisas desagradáveis no dia-a-dia na internet que acredito não aconteceriam ao vivo. Mas os benefícios são infinitamente maiores!

18) RM : Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

João Araújo: Não vejo qualquer desvantagem. Gravar em estúdio é fundamental para ter qualidade de um produto que se queira “vender”. Dizem que o CD vai acabar. Pode até ser. Mas as gravações em estúdio, de alto nível, sempre terão que existir.

19) RM : No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

João Araújo: Além do que já respondi anteriormente, invisto num nicho com grande potencial mundial (a música de Viola 10 cordas), com foco na diversidade que este instrumento pode apresentar em termos de ritmos e estilos. Faz parte do diferencial minha atuação múltipla, como músico, produtor e gestor cultural.

20) RM: Como você analisa o cenário musical Sertanejo Caipira. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

João Araújo: Desconheço a nomenclatura “Sertanejo Caipira”. Para mim há o “sertanejo universitário”; com fundamento comercial, inspirada na cultura country americana e mistura música romântica ao canto terçado que vem desde os menestréis medievais e é uma das marcas características da música caipira brasileira. E há a música caipira, potencializada a partir do início do século XX com as ações do visionário produtor, jornalista, escritor e contador de causos Cornélio Pires. O primeiro “independente” do Brasil, que abriu as portas desse tipo de produção fonográfica a todos. Também não entendo bem o que queira dizer com “consistência”… Se for “anos de carreira”, ambos apresentam boa consistência. Se forem “anos de permanência de músicas na memória do povo”, as canções caipiras dão show nas sertanejas. Se for “riqueza, vendas de produtos e shows” a sertaneja dá show na caipira. Se for “fundamentação e acréscimo à cultura brasileira” a música caipira tem muito mais consistência.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

João Araújo: Chico Buarque, Milton Nascimento e Tom Jobim.

22) RM : Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

João Araújo: Todas as acima listadas, sendo que “briga” foi apenas verbal e apenas uma vez. Senti-me covarde ao responder no mesmo tom a um cliente, pois eu tinha um microfone e ele não. Foi há muito anos atrás, quando tomei consciência de que o artista tem que saber o lugar dele e o que significa o destaque que ele busca e alcança na sociedade.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

João Araújo: Mais feliz é o reconhecimento real de novos públicos a tudo o que faço, não apenas como músico. Mais triste, naturalmente, é contrário disso, ou seja: quando as pessoas não entendem / respeitam minhas múltiplas atuações e expertises.

24) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

João Araújo: Belo Horizonte tem uma cena musical das mais variadas do Brasil, temos bons representantes em praticamente todos os estilos, inclusive na cena instrumental. O maior destaque talvez seja essa variedade. Uma pena é que Belo Horizonte ainda não percebeu que historicamente os maiores expoentes da Viola em todos os tempos são nascidos em Minas Gerais e que isso poderia ser mais explorado comercial e turisticamente pela cidade. De maneira geral, a Viola ainda é muito pouco reconhecida e respeitada em todo o Brasil.

25) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

João Araújo: Isso depende de qual o objetivo. Temos boas opções para praticamente todos os estilos, mas eu só indicaria se soubesse qual o público alvo. Alguém que queira sertanejo universitário pode não querer um músico ou banda de rock e indicar errado seria um fator negativo para mim, enquanto produtor e gestor.

26) RM: Você acredita que as suas músicas tocarão nas rádios sem o pagamento do jabá?

João Araújo: Várias de minhas músicas tocam há vários anos sem pagar o jabá.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

João Araújo: Tenha persistência e procure sempre se aprimorar. Com pelo menos uns 10 anos investindo e acreditando diariamente em seu trabalho se houver um espaço seu ele vai surgir.

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

João Araújo: Penso que os Festivais de Música são a maior ação de fomento da cadeia produtiva da música. Fomenta criação, gravação em estúdio, concorrência (aprimoração), divulgação de novos valores, etc. Vários e vários profissionais são beneficiados. De negativo só aqueles onde os processos de seleção não são transparentes ou são mal elaborados. Já coordenei vários tipos de Festivais de Música e participei de poucos como músico ou jurado por causa de não sentir firmeza na organização.

29) RM: Na sua opinião, hoje os Festivais de Música ainda é relevante para revelar novos talentos?

João Araújo: Sim, são relevantes.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

João Araújo: Na minha concepção, grande mídia é “news” – ou seja, é “novidade”. Não posso provar as razões pelas quais acho que acontece, então só posso dizer que vejo sempre muita coisa que não é novidade alguma tendo espaço continuamente. No caso específico do meu foco, a Viola, eu sinto uma grande dificuldade do meio jornalístico em entender, pois é um segmento que remete às raízes culturais e para entender bem é preciso pesquisar, ler, estudar. E olha que não posso reclamar, pois já apareci em grandes espaços nacionais de Rádio, TV, Jornais. Tenho muito a falar sobre um produto que é uma novidade na maior parte do mundo e que grande parte do Brasil ainda não descobriu, mas que poderia ser uma fonte de atração comercial, turística e cultural. Lembrando que uma grande parte do consumidor estrangeiro gosta de ler, gosta de ter consistência cultural e, sobretudo, gosta de novidades. O problema são que sempre temos que responder às mesmas perguntas, superficiais e utilizadas para qualquer artista. Isso normalmente toma o tempo e o espaço para o que temos de verdadeiramente valioso. Por outro lado, se não respondemos ou se reclamamos, a matéria não vai ao ar ou o jornalista não te procura mais.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

João Araújo: São espaços muito importantes, muito valiosos. Minha única crítica, de maneira geral, sempre é: onde é usada verba pública (do povo) no meu entender é obrigatório ser democrático e transparente ao máximo. Desses citados, apenas o Itaú Cultural abre edital público, mas os critérios de seleção precisam ser os mais concisos possíveis e deixar espaço para a população interessada opinar, recorrer das decisões, etc.

32) RM: Nos apresente o projeto de pesquisa Viola Urbana.

João Araújo: Em 2004 tive a ideia de apresentar a tese de que a Viola vem sendo utilizada com grande beleza e riqueza também fora da conhecida e valiosa música caipira, a partir da “MPB regional” que eu acompanhava já há 25 anos, àquela época. Cada releitura gravada é baseada no texto que chamei na época de “pesquisa não acadêmica” – crônicas de

fatos que vivenciei e pesquisei, num trabalho coeso de músico, produtor, escritor e gestor dos projetos incentivados. Com o sucesso de crítica e público do primeiro CD desenvolvi a estratégia de criar uma série, conforme citei, antes de começar a lançar meus trabalhos autorais no mercado. Lancei em 2008 o segundo CD, em 2010 o primeiro DVD (já com cerca de metade do investimento próprio) e cheguei a 2015 com o terceiro e quarto CDs e DVD (com 75% de investimento próprio), num espetáculo onde canto e toco Viola acompanhado de orquestra, telão, dupla de dançarinos e uma exposição de telas em acrílico inspirada nos segmentos da pesquisa, que passou de 13 para os 30 segmentos atuais. Além de não ser mais tão “não acadêmica” visto que, para a elaboração do requerimento pela Viola à Patrimônio Imaterial do Brasil, nos últimos três anos, eu juntei referências de cerca de 60 trabalhos acadêmicos (entre mestrados, doutorados e artigos). Neste último espetáculo, sempre fiel aos segmentos da pesquisa, mantive releituras de músicas conhecidas, mas inseri a metade de autorais inéditas cantadas e instrumentais também, com parceiros e participações especiais de várias regiões do Brasil, representadas por figurinos e outros elementos culturais.

33) RM: Como a Viola de 10 Cordas chegou no Brasil?

João Araújo: No início da Colonização, trazida pelos jesuítas e outros viajantes portugueses.

34) RM: Quais as principais técnicas para tocar Viola de 10 Cordas?

João Araújo: As técnicas mais conhecidas são passadas de geração a geração. No momento estou a fazer um levantamento que aponta cerca de dezesseis ritmos diferentes só na música caipira. Na atualidade, técnicas de outros instrumentos cordofônicos similares, como o Violão e a Guitarra vêm sendo introduzidas, pois como era no início e apesar da grande resistência dos caipiras, a Viola é um instrumento que pode tocar qualquer estilo e seu espantoso crescimento em número de adeptos (talvez, o maior no mundo todo) tem trazido novas técnicas.

35) RM: Quais as principais diferenças entre as duplas Sertaneja Caipira e das duplas atuais?

João Araújo: Conforme afirmei acima, eu desconheço a definição “sertaneja caipira”. Importante esclarecer que o termo “sertanejo”, com relação à música, é convencionado de ser referência ao que é hoje conhecido como “sertanejo universitário”, que como eu disse, quase nada tem de “caipira”. Sempre digo que a língua portuguesa define “sertanejo” como o que seja “do sertão” e, no caso do “sertanejo universitário”, só se for do sertão dos Estados Unidos. Mas convenciona-se de definir assim este estilo, então mantemos em respeito e para melhorar a informação. Já o mundo caipira rejeita esse termo ferozmente, posto não quererem ser confundidos – e eu igualmente acho que devemos respeitar. Esse é um dos exemplos que citei, da luta para levar à opinião pública (via mídias, mundo acadêmico e outros) informações mais fundamentadas culturalmente sobre o segmento. Agradeço pelo espaço e pela oportunidade aqui dada.

36) RM: Você acha que as duplas Sertaneja Atuais/Universitária são uma evolução musical das duplas Sertaneja Caipira ou são propostas musicais distintas?

João Araújo: Já discorri a respeito em respostas anteriores. Penso que o “sertanejo universitário” é totalmente distinto, com objetivo puramente comercial, que se utiliza apenas do canto em dupla terçado da cultura caipira e demais elementos da cultura country estadunidense; que na sua bela essência acústica também utiliza o canto terçado, que vem da Idade Média – vide Simon & Garfunkel, entre tantos, só para citar um destaque de qualidade. A temática, sobretudo romântica e pouco diversificada musicalmente do sertanejo universitário segue o modelo de outros trabalhos destinados ao alto consumo da história brasileira, como Amado Batista, Roberto Carlos, os sambas-pagode, a música chamada de “brega” e outros e em seu objetivo são perfeitas, pois o povo as consome com sofreguidão. Já as temáticas, sobretudo dos valores de ética, sabedoria popular e amor a “terra”, tanto física quanto lugar onde se vive da cultura caipira tem seu público cativo, numericamente menor, mas fiel. Em resumo, a principal distinção das propostas é o fundamento cultural envolvido.

37) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Marília Abduani?

João Araújo: A grande poetisa e escritora Marília é uma das minhas parceiras em composições musicais – o que muito me honra, pois ela tem parcerias com vários grandes nomes da música brasileira. Temos algumas poucas composições juntos, mas devemos ampliar os trabalhos, agora que estou a investir nas publicações diárias em meus perfis Facebook, conforme citei antes.

38) RM: Quais os seus projetos futuros?

João Araújo: Seguir compondo uma música inédita por semana, com aplicação de variedades rítmicas, temáticas e culturais na viola. Quero publicar mais alguns segmentos da Pesquisa Viola Urbana. Sempre surgem novos enfoques, como por exemplo, a Viola no cinema. Escrever livros sobre as descobertas feitas durante os estudos dos últimos anos. Há muitas lacunas deixadas pelo fato de termos pouco material conciso publicado sobre Viola, sobretudo nos séculos XVI e XVII. Lacunas dão vazão a teses. Estas descobertas também já me deram a ideia de fazer um CD específico muito interessante, mas que não vou revelar senão me roubam a ideia (risos). Também preciso produzir um CD autoral só de Viola e Voz, pois prometi a Rolando Boldrin (e ele autorizou) de se chamar “Eu, a Viola e Deus”. Só que já tem outras artistas usando esse título da música de Rolando para shows, então terei que desenvolver uma ideia alternativa a isso. Na área de produção e gestão, além de projetos de clientes onde insiro minhas ideias e pesquisas, tenho trabalhado pelo retorno do Prêmio Nacional de Excelência da Viola, que penso ser uma estratégia de exercício de se colocar os violeiros um ao lado do outro, em igualdade de condições e de reconhecimento. Para no futuro também está ficar disponível a demandas do IPHAN no processo do tombamento da Viola como Patrimônio Imaterial: enquanto Forma de Expressão histórica do povo brasileiro. Essa ação gera muitas ações em paralelo, pela divulgação da viola, como minha ação voluntária “Violas pelo Brasil”, onde diariamente divulgo nas redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter) cartazes de shows de viola que consigo ter notícia. Também trabalho na ampliação de minha atuação internacional como músico e produtor, que iniciei em 2017 por quatro países, tocando e palestrando sobre a Viola. Talvez ainda, aproveitando os estudos e o gosto por pesquisar, tentar uma formação acadêmica; um mestrado ou doutorado ligado a essa ainda pouco conhecida história da Viola no Brasil. Estes são apenas os projetos mais prioritários de uma grande série deles que tenho engavetado.

39) RM : Quais seus contatos para show e para os fãs?

João Araújo: www.violaurbana.com lá tem tudo.

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.