Choro Novo

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 Choro Novo é o nome trio carioca formado em 2001 pelos amigos Abel Luiz (Cavaquinho, Bandolim, Violão Tenor e Viola Caipira), Marcelo Nami (Violão de Sete Cordas) e Reinaldo Pestana (Bateria e Percussão).

Em 2011, com a saída do músico Marcelo Nami, entrou para o grupo o violonista Marlon Mouzer. Nesse mesmo ano apresentou-se, no projeto “Mercado da Música”, realizado no Mercado São Sebastião, em Vitória – ES, com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura da cidade.

Em 2012 esteve na programação do projeto “Música no Museu – Mês das Cordas” apresentando o show “Choro Novo visita Villa-Lobos e outros mestres”. Nesse mesmo ano apresentou-se no SESC Niterói – RJ dentro do projeto Giro Musical.

Em 2013 lançou o seu primeiro CD – “Sotaques e Influências”, com nove faixas autorais, dentre as quais “Catarina” (Abel Luiz), “Novos tempos” (Marlon Mouzer) e “Sorrindo pra vida” (Reinaldo Pestana).

O show de lançamento do disco foi apresentado no Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF), no Rio de Janeiro. Em 2014 apresentou-se na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, dentro de uma programação especial para o Dia Nacional do Choro.

O projeto Choro Novo – Sotaques & Influências busca mostrar a constante busca / construção do discurso sonoro entre a cidade e suas transformações urbanas e o choro como canal de expressão e diálogo com e na contemporaneidade a partir de instrumentos e ritmos regionais sem perder a linguagem urbana do choro.

O resultado deste projeto é mostrar ao público a evolução do choro como linguagem musical que “adquiriu” novos sotaques – leia-se sotaque neste contexto musical como uma variante própria de uma região e pode-se caracterizar por alterações de ritmo, entonação, ênfase no plano musical – e recebe as influências sonoras dos participantes através de suas vivências musicais em outros estilos musicais como jazz, samba, forró etc.

Pretendemos mostrar a evolução do choro e expressar visualmente as transformações urbanas, desde os clássicos dos grandes mestres aos dias atuais onde vivenciamos uma nova Era e um novo pensar, novos conceitos permeados, especialmente, por palavras como experimentar, vivenciar, melhorar, aperfeiçoar, ousar.

Segue abaixo entrevista exclusiva com o Trio Choro Novo para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16.05.2015:

01) RitmoMelodia: Qual a data de nascimento, a cidade natal e o instrumento que toca cada um do Grupo Choro Novo?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana | 07/02/1974 | Rio de Janeiro | Bateria e Percussão; Marlon Mouzer | 13/07/1980 |Rio de Janeiro | Violão 7 cordas;   Abel Luiz | 10/04/1982 | Rio de Janeiro | cavaquinho, bandolim, viola caipira e violão tenor;       Ahnis Fraga | 10/12/1974 | Rio de Janeiro | gestão de carreira, produção e quarto integrante fora do palco.

02) RM: Falem do primeiro contato com a música dos membros do Grupo Choro Novo.

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Em uma manhã de 1982 no bairro de Olaria no Rio de Janeiro, estava indo em direção a escola, ao passar em frente a uma casa (Escola de Música) escutei o som do instrumento (bateria) e fiquei deslumbrado e pensei, é isso que eu quero ser quando crescer. Ser Músico! Marlon Mouzer: Meu primeiro contato foi quando criança ainda, pois minha mãe, a Helô Mouzer, é cantora. Meu interesse começou a ouvindo cantar. Chegou a comprar um violão para mim quando eu tinha 8 anos de idade. Mas, como eu não era dedicado, o meu professor disse a ela: “Teu filho tem talento, mas não é isso que ele quer. Pare de gastar seu dinheiro à toa. Quando ele quiser, ele mesmo vai te procurar”. Com o tempo, eu tirava algumas músicas para cantar junto com a minha mãe. Comecei a me interessar por instrumentos de percussão, mas não tocava profissionalmente. Aos 16 anos de idade, em 1996, conheci dois estilos musicais que estava sendo esquecido pela mídia – o Samba e o Choro. Foi então que conheci o Violão de sete cordas e me encantei com a forma de tocar. Comecei a ter aulas com o violonista Luis Felipe de Lima que me incentivava a exercitar o ouvido. Ingressei na carreira musical um ano depois tocando Samba com a minha mãe. A partir daí fui conhecendo vários artistas no meio do Samba e acompanhando-os. Com o tempo fui me interessando por outras formas de tocar violão. Conheci Sergio de Pinna que me deu aulas de Violão clássico e me fez aprimorar a leitura musical. Logo após tive contato com o jazz e comecei a tocar guitarra semi – acústica. Hoje em dia gosto de ouvir diversos estilos musicais e usar influências de vários estilos em vários estilos. Grupo Choro Novo – Abel Luiz: Do trio, sou o Chorão de Carteirinha… Aprendi a tocar cavaquinho com meu Avô (Seu Luiz), e, com e através dele, conheci e convivi com grandes músicos e interpretes deste gênero, frequentando Rodas de Choro, Sambas e Bailes de Serestas, nos subúrbios e periferias da cidade. No caso do bandolim, violão tenor e viola de caipira, minha formação é autodidata. Posteriormente, tive oportunidade de estudar violão com o, recentemente, falecido, Zé Menezes que muito me incentivou, junto com Guinga, a investirChoro Novo 1 Entrevista - Música - Revista Ritmo Melodia mais de tocar este instrumento.

03) RM: Qual a formação musical e\ou acadêmica fora da área musical dos membros do Choro Novo?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Comecei a estudar tarde, aos 18 anos. Motivo que naquela época você teria que ter a profissão de Engenheiro, Médico ou Advogado, os pais te obrigavam. Em 1992 me conclui o 2º grau e fui fazer prova para o vestibular, sabia que não iria passar pois meu coração não pulsava para seguir alguma profissão que não fosse música. Resumindo, não passei em 1993 fui fazer prova na Escola de Música Villa-Lobos e consegui a vaga. Estudei Percussão Sinfônica e em 1997 abandonei e fui estudar Percussão Popular que exerço ate hoje. Marlon Mouzer: Formação acadêmica: Ensino Médio. Formação musical: Não há formação musical “formal”. Não estudei em cursos mas sim com professores e com muitos colegas de trabalho que sempre me apresentavam e ainda apresentam novidades no campo harmônico e teórico e na vida pessoal e musical. Abel Luiz: Minha formação musical é a Roda de Choro. Nesse ponto, é importante definir que a música é algo muito além da audição e execução da mesma. Enfim, o resultado sonoro, também, é resultado de uma trajetória e de seu encontro com outras trajetórias. No caso da Roda de Choro, isso diz respeito a elementos como ancestralidade, oralidade, hierarquia, confiança, amizade, etc… Ferramentas importantes na construção e reconstrução deste conhecimento, que remete a um “Modo Africano de Viver” da cidade do Rio de janeiro fundamental para entender como, histórico-social e culturalmente é formada a figura do “Chorão”. Fora isso, sou Geografo e estudei na Escola estadual de Música Villa Lobos, e, também, pude contar com a generosidade e solidariedade de pessoas como Alceu Bocchino, Mané do Cavaco, Joel Nascimento, Inês Perdigão, Paulinho da Aba, Guilherme Milagres que, entre outros grandes músicos e amigos, me ensinam sobre o respeito e amor a música.

04) RM: Quais as influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância para os membros do Grupo Choro Novo?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Quando criança os primeiros gêneros musicas que prestei atenção foram o Rock e Samba. No Rock era Titãs, Legião Urbana, Plebe Rude e etc… e  no Samba era Fundo de Quintal, Beth Carvalho e etc… Na adolescência  vieram os dinossauros do Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple e no Samba fui conhecer mais Geraldo Pereira, Candeia, Monsueto… Quando você começa a estudar música, sua percepção aumenta e começa a prestar atenção em outros gêneros musicais. Então fui conhecer Bach, Beethoven ,Igor Stravinsky, Pixinguinha, Ernesto Nazareth , Radamés Gnattali, Luiz Gonzaga, John Coltrane, Mile Davis, Hermeto Pascoal. Certamente a maioria destes músicos que citei fazem parte da influência sonora do Choro Novo. Marlon Mouzer: Na verdade não existe influência que tenha deixado de ter importância. Eu sempre me inspiro em vários estilos. Tenho como influência inicial o choro e o samba mas os outros estilos estão sempre presentes, mesmo que por um breve instante, no momento em que estudo ou executo uma peça ou um acompanhamento. Ultimamente tenho usado a salsa junto com o baião. O funk junto com o samba passando pelo maracatu e pela salsa com uma pitada de jazz. O candombe com o choro. E mais uma infinidades de “misturas” rítmicas.Abel Luiz: Como disse, anteriormente, minha escola de música e vida é o Choro. Este, como primeira música urbana e instrumental do Brasil, se colocou, na época, como catalizador dos sons, das paisagens e dos territórios sonoros da cidade e sua diversidade. Creio que o Choro continua exercendo esse função, pois seu repertório harmônico, melódico e contrapontístico foi quem me permitiu apreciar, incorporar, trocar, interagir e dialogar com outros gêneros do Brasil de do Mundo. Como compositor, arranjador e instrumentista, tenho tido oportunidade de, mais efetivamente, demonstrar como o Choro pode contribuir para outros gêneros, assim como os outros gêneros podem contribuir para o Choro, como música viva, contemporânea e urbana que é.

05) RM: Quando, como e onde  vocês começaram a carreira profissional?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: No ano de 1994 comecei a tocar profissionalmente, fazendo bailes na noite no Rio de Janeiro e com o passar do anos você vai se aprimorando. Marlon Mouzer: Meu primeiro trabalho foi no Petisco da Vila no Shopping Iguatemi no Rio de Janeiro. O meu professor tocava no bar ao lado chamado: Botequim do Martinho. Dá pra imaginar a minha reação ao vê-lo em pé na minha frente me assistindo? Abel Luiz: Comecei com 16 anos acompanhando meu avô, com meu velho companheiro de música e vida – meu cavaco.

06) RM: Quando, como e onde começou o grupo Choro Novo? Nome dos músicos e instrumentos que tocam?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: O Choro Novo começou em 2001. Eu estava escutando muito Choro na época e ao mesmo tempo muito Jazz e não curtia tocar naquela forma tradicional. Um belo dia fui fazer um sub para uma amiga, era um Tributo a Adoniram Babosa e no meio da apresentação tocávamos alguns Choros. Foi ai que conheci o Abel Luiz (Cavaquinho, Violão Tenor, Viola Caipira e Bandolim), fiquei de bobeira com a forma dele interpretar  e na semana seguinte liguei para ele,  vamos fazer um evento corporativo quer tocar? Chamei o Marcelo Nami (Guitarrista e Violonista) que vinha do Jazz e já estava conhecendo o gênero(Choro) e formamos assim o Choro Novo. Em 2010 o Marcelo foi para Israel e chamei o Marlon Mouzer para fazer parte do Trio. Em 2012 gravamos o CD Sotaques & Influências. Em 2013 lançamos o CD. Marlon Mouzer:  Pestana pode responder isso com mais precisão. Abel Luiz: (não respondeu).

07) RM: A escolha do nome Choro Novo tem a ver com alguma inovação no gênero Choro?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Não!  Ao meu ver é a influência sonora que cada músico tem. Marlon Mouzer:  Pestana mais uma vez. Abel Luiz: (não respondeu)

08-) RM – Fale sobre seu primeiro CD? Qual o ano de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical do CD? E quais as musicas que entraram no gosto do seu público?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: O CD Sotaques & Influencias é só alegria, verdade e cumplicidade. Foi lançado em 18/07/2013 no CCJF (Centro Cultural Justiça Federal). Abel Luiz – Violão Tenor , Viola Caipira , Bandolim e Cavaquinho. Marlon Mouzer – Violão 7 cordas. Reinaldo Pestana – Bateria e Percussão. O perfil musical esta ligado a personalidade sonora de cada integrante. Cada pessoa que escuta o CD se identifica com uma música, fica difícil falar as que entraram para o gosto musical do público. Pois cada faixa tem um estilo musical. Só escutando o CD para entender o que estou falando. Abel Luiz: Desde já, deixamos claro que esse não é um CD de Choro e nem um trabalho que se propõe a modernizar ou mostrar as evoluções do mesmo. Na verdade, esse é um disco de Música Instrumental Brasileira que nasceu do encontro de três músicos com formações e experiências musicais distintas – dentre eles um Chorão -, que se encontraram para tocar Choro. Daí o nome de nosso trio: Choro Novo. Daí, também, toda nossa reverência pela música que permitiu a expressão, troca e o dialogo – entre semelhanças e diferenças – com e entre vivências musicais internas e externas aos nossos cotidianos. Portanto, é com grande alegria que celebramos, neste disco, nossa cultura e sua capacidade de, em meio a repousos e tormentas, seguir produzindo, de forma espontânea e criativa, em todos os cantos do Brasil e do mundo, o contato e o encantamento necessários para a expressão e o reconhecimento dos ´´Sotaque & Influências“ que tornam tão especial e original a música brasileira na sua totalidade. Nela (r)existimos.

09) RM: Quais as semelhanças e diferenças do Choro para o Jazz?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: O Choro é música brasileira da América do Sul e o Jazz música da América do Norte. Música é música, se você souber a linguagem musical tudo irá fluir. Semelhanças e diferenças só vai existir se você permitir. Marlon Mouzer: Semelhanças: Ambos são aberto a influências de outros estilos musicais dentro do mesmo. As composições são, na maioria, instrumentais. Diferença: Na maioria dos casos, o jazz tem temas mais curtos mas as improvisações são maiores. Normalmente o improvisador toca a forma da musica pelo menos quatro vezes. Abel Luiz: Na verdade, acho o Jazz muito mais próximo da Bossa Nova, como forma e estrutura musical… Porém, enquanto sentido/cultura, ambas (Choro e o Jazz) são músicas com representações muito significativas da diáspora africana, ou seja, são expressões da riqueza, importância, relevância, potência e resistência da cultura negra, frente ações como o escravismo, preconceito, intolerância religiosa e outras violações de direitos humanos (o que inclui o simbólico e cultural), ainda presentes até os dias atuais, no brasil e no mundo.

10) RM: Qual a importância do estudo de técnica para os instrumentistas que tocam o Choro?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Como em qual qualquer gênero musical acho muito importante a técnica, ela facilita. Você só tem que saber aplica-la. Marlon Mouzer: A mesma importância para todos os estilos. A técnica é uma ferramenta para o musico expressar, com clareza, tudo o que sente na hora de executar qualquer estilo, instrumento etc. Abel Luiz: O estudo, o instrumento e a técnica são necessários para que possamos expressar, experimentar, trocar e compartilhar as sensações e pensamentos que tomam e/ou atravessam nossos corações e mentes.

11) RM: A roda de Choro é um “duelo” entre instrumentistas para vê quem vai até o final?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Choro é um estilo de música e música não se duela. Propagar arte é a alma do negócio. Marlon Mouzer: Não. É uma doação de cada instrumentista. Podemos fazer uma sugestão onde o outro embarca nessa ideia ou repetindo o que foi feito ou sugerindo mais coisa. Mas sempre com o pensamento de compartilhar. Abel Luiz: Não, a Roda de Choro é o locar de formação, manutenção e resistência do Choro e do Chorão. Nela se aprende, brinca, ensina… Por isso, elas são tão importantes: elas fazer um gênero musical ter um sentido muito maior que sua execução e consumo musical.

12) RM: Quem é o compositor no grupo? Como é processo de compor?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Os três são compositores. A maioria das minhas composições vem em sonhos que tenho. Marlon Mouzer: Todos nós somos compositores. No meu caso, o processo de composição vem naturalmente de acordo com acontecimentos pessoais. Abel Luiz: Todos nós compomos! No meu caso, não tenho método. Fico aguardando a música. Normalmente ela já vem pronta. Podem, várias num único dia, como demorar anos. Como componho desde muito cedo, não tenho pressa e nem interesse quantitativo a este respeito. Só quero ter a oportunidade de apresentar o que tenho feito ao longo dos anos.

13) RM: Vocês gravam composições de autores que não são do grupo Choro Novo?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Por enquanto só tocamos em shows. Marlon Mouzer: No primeiro álbum não gravamos, mas executamos composições de vários compositores. Abel Luiz:  Todas a composições são dos integrantes do trio.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Os prós é a liberdade e os contras é a falta de incentivo a cultura.

Abel Luiz: Os prós são a autonomia e o “coletivo” como forma de atuação. Surgem encontros/parcerias com artistas plásticos, produtores, culturais, movimentos sociais, gente engajada e procurando construir soluções e solidariedades na contra-mão do mercado. Os contras, são a ausência e carência de políticas públicas que, de fato, reconheçam e procurem um diálogo mais participativo com a cultura popular, periférica, favelada, regional… Enfim, precisamos sair da tecno-burocratização da cultural, para que ela avance para além do balcão, das firmas de produção e da lógica do mercado. Ahnis Fraga: Os prós estão na liberdade e nas possibilidades que experimentamos seja ao integrar música a outras artes num evento ao ar livre ou inserir uma animação num show no teatro dando outra dimensão ao que iniciamos.  As iniciativas independentes geram momentos de cocriação com outros artistas e uma saudável troca de ideias no grupo.  É experimentação.  Outro ponto positivo que percebemos é que o músico transita em outras áreas: ele divulga, agencia, é assessor de imprensa e, assim, tem mais consciência da sua arte.  Amplia sua percepção como gestor da sua carreira.  E num grupo como o nosso, cada um, de forma planejada, atua em cada área aumentando as oportunidades de alcance do trabalho. Não sinto como algo contra, mas o grande desafio é descobrir como funciona a maquina burocrática atual e tentar “desgrudar” um pouco as produções independentes de fórmulas do mainstream que são irreais e incompatíveis.  Esse desafio nos permite encontrar nossa identidade e formas mais reais e factíveis de tornar a carreira fluida e estruturada.  Desvincular da ilusão e perceber a potencia artística do grupo em sua “individual totalidade”.  Como gestora do grupo, minha missão é gerar mais satisfação, prazer e ampliar a percepção de avanço da carreira.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da carreira do Choro Novo dentro e fora do palco?

Grupo Choro Novo – Reinaldo PestanaAbel Luiz: Trabalhamos com a proposta de desmistificação sobre a música instrumental, no Brasil. Daí, é preciso trabalhar com formação e interação de platéia e músicos (o que -e claro! – nos inclui), para que possamos fazer um diálogo coerente e coletivo entre todas as partes, apresentando músicas inéditas, populares, menos conhecidas, releituras, etc… Enfim, apresentar o quanto o instrumental está próximo e acessível a todos (pessoas, gêneros, locais e classes sociais). Ahnis Fraga: Buscamos tornar a música instrumental brasileira mais próxima da realidade ao contextualizar as composições, sejam elas próprias ou releituras.  Possibilitar que o público perceba que as composições são fruto do nosso dia a dia, é história em som. Formação de público para este gênero ainda é um desafio, mas com experiências como integração da música com ilustração, por exemplo, percebemos que o público ao ler tirinhas com alguns “Contos do Choro Novo” identificam na música e se aproximam. Outra estratégia que adotamos, mas que foi percebida numa apresentação para adolescentes da rede pública de ensino é levar releituras de hits do universo musical do público de forma instrumental.  Daí incluir no repertório o Rap da Felicidade, músicas do Legião Urbana, Gonzaguinha e tantas outras releituras que acabam sendo cantadas pelo público. Fora formação de público, buscamos participar de festivais de música instrumental – geralmente festivais de jazz – no Brasil e no Mundo para, assim, ter a oportunidade de propagar a riqueza da música instrumental brasileira. Realizo ao final de cada ano, um balanço das iniciativas e analiso o que podemos repetir e o que podemos aprimorar ou o que simplesmente podemos descartar. Nossa estratégia é mais dedutiva do que indutiva, pois apostamos na articulação do conhecimento, nas ações proativas, em novas formas de pensar, num mundo mais volátil, mas também que tem hoje a colaboração como grande ganho da revolução cognitiva que vivenciamos.

16) RM: Quais as ações empreendedora que o Choro Novo pratica para desenvolver a carreira?

Grupo Choro Novo – Reinaldo PestanaAhnis Fraga: Em shows, por exemplo, para gerar cadastro para mailing e estreitar contato com público, distribuímos papel e caneta para participação em sorteio de CD que, na verdade, nos ajuda saber os “sentimentos e sensações” causados pelo show.  Com esta ação mensuramos como a escolha do repertório e execução atingiu cada pessoa presente. Outra ação é, ao realizar mais de um show no mesmo local, usar o primeiro dia como “termômetro” para ouvir, ao final do show, feedback do público.  Por exemplo: em 2013, durante período do Rock in Rio, houve uma série de shows na rede Estadual de Ensino.  Os alunos esperavam por algo mais “rock n roll”.  Na segunda apresentação, músicos optaram por incluir Legião Urbana no repertório e deram uma pegada mais rock n roll à música “Carinhoso”. Incluímos animação nos shows em teatros, os músicos interagem com a animação apresentada ao executar a trilha sonora da animação. Para desenvolver seja a carreira do grupo ou músico, o mais importante é a consciência do conceito de sucesso e da trilha que é possível seguir sem perder sua musicalidade e suas características que os tornam únicos seja como músico ou como grupo.  Além disso, perceber como podem contribuir além da música.  Reinaldo Pestana é o divulgador virtual e pesquisador de oportunidades.  Já conseguiu para o trio ao interagir com pessoas chaves no Facebook uma matéria na revista Modern Drummer Brasil, na Revista Bakstage e, na TV Brasil, no programa Estúdio Móvel.  Nos shows que faz com o trio ou em outros grupos, Abel Luiz é o grande vendedor de CDs pelo carisma que tem ao interagir com público com histórias, estórias e contextualizando o momento.  A força do violão que impressiona, Marlon Mouzer capta a atenção e desperta o interesse das pessoas que passam a seguir a fanpage no Facebook onde pessoas interagem com o grupo.  Eu busco festivais com perfil do trabalho da banda e escrevo projetos para editais e patrocínio.  Por ser da área de tecnologia, faço gestão tecnológica e a produção executiva da banda.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da carreira?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: A meu ver a Internet só ajuda, se prejudica, é você que não esta sabendo conduzir a sua carreira.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Você sabendo o que quer, só vai existir vantagem. Ahnis Fraga: Possibilita de forma mais ágil gerar material de melhor qualidade para divulgar nos canais de comunicação da banda seja um vídeo com uma câmera de boa qualidade (HD) e edição em software doméstico, por exemplo.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente uma carreira musical. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo, mas, a concorrência se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: O mais importante é a mensagem que se passa. Sendo verdadeira ambos (músico, fã…) ganham.  Abel Luiz: Nesse ponto, penso como o pessoal do movimento Hip Hop – o mais importante é que a mensagem chegue. E que a mesma possa trazer reflexão, alento e transformação. Creio que quando o trabalho (carreira) e mensagem apontam para tais fatores, elas ganham um sentido mais relevante que o consumo e, portanto, não é o fato de disponibilizar o disco para download que vai atrapalhar a venda do mesmo nos nossos shows. As pessoas, mais que comprar, contribuem e se somam na multiplicação de uma sentido/mensagem/som/trajetória que as representa.

20) RM: Como você analisa o cenário musical do Choro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: O cenário atual é a produção independente. Sendo Choro ou outro estilo musical o cenário sempre será de altos e baixos. O mercado fonográfico que manda, se é moda estamos faturando(mercado). Mas eles esquecem que a música sendo de qualquer época sempre perdura. Abel Luiz: Acho que o cenário aponta para novidade, via produção e música independente. Porém, vejo uma lógica de mercado que ainda assombra o Choro e outras expressões culturais: o embate entre o tradicional e o contemporâneo. Pra mim, tal embate é puramente mercadológico e só enfraquece o próprio debate sobre a cultura e, consequentemente, a salvaguarda e renovação de um determinado fazer cultural. O fato de uma determinada Cultura estar viva se deve ao fato desta dialogar – ou não! – com as transformações do mundo. Portanto, segmentar só leva ao enfraquecimento da cultura como um todo. No caso do Choro, é importante que todos estejam juntos e entendendo que ambos precisam um do outro. Como bem colocou o professor Milton santos, o presente é a soma das resultantes do passado somadas as expectativas com o futuro.

21) RM: Quais os músicos e grupos já conhecidos do público que vocês têm como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Marcio Bahia, Hamilton de Holanda, Hermeto Pascoal, Joel Nascimento, Dirceu Leite. Abel Luiz: Joel Nascimento, Mestre Siqueira, Marco Cesar, Dirceu Leite, Marcio Bahia, Marcio Hulk

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Graças a Deus nunca tive estes problemas citados. Abel Luiz: Não sei dizer, pois já passei por isso tudo e muito mais… Mas, posso dizer que vejo a “furada” como algo pedagógico e que, assim como todo projeto de formação, tem período e prazo de término. A partir daí, você começa a gerir para onde vai sua carreira.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: A música só traz felicidade, basta saber conduzir a sua carreira. Abel Luiz: Mais feliz: os amigos que faço.  Mais triste: os amigos que se vão.

24) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que vocês moram?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Mesmo a cultura sendo deixada de lado em uma metrópole como o Rio de Janeiro ela continua sobrevivendo e se reinventando. Existem vários eventos (gratuitos) coletivos em Favelas, Ruas e Praças da cidade. Tudo para a cena se manter viva. E todos os estilos musicais(Funk, Jazz, Salsa, Rap, Rock,Forró, Choro, Blues, Samba e etc…) estão inseridos nos eventos. Abel Luiz: Mesmo com a cultura da cidade estar fortemente vinculada ao samba, nossas classes populares tem o fantástico dom de reinventar, criar, transformar e salvaguardar diferentes expressões culturais sem financiamento público, em meio a opressão do Estado, e uma série de mazelas sociais provenientes da diferença de classes. Funk, soul, Choro, samba, Jongo, Charme, Forró, salsa, Jazz, Música Erudita, Hip Hop, Folia de Reis, circulam para além da falta de equipamentos públicos de cultura, educação e saúde, e da criminalização da pobreza, apoiada pela grande mídia e endossada pelo prefeito e governador da cidade.

25) RM: Quais os músicos, grupo de Choro da cidade que vocês moram vocês indicam como uma boa opção?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: O Grupo Choro na Feira, Grupo Beliscando, Água de Moringa, Joel Nascimento. Abel Luiz: Joel Nascimento, Dirceu Leite, Mestre Siqueira, Paulinho da Aba, Rafael Mallmith, Mauricio Massunaga, Andersom Balbueno, Patrick Ângelo, Joana saraiva, Alexandre Bittencourt, Wanderson Martins, Marcio Wanderlei.

26) RM: Vocês acreditam que as suas músicas tocarão nas rádios sem pagar o jabá?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Não me preocupo com isso. Abel Luiz: Sim, pois as rádios públicas têm despontado como grande canal para apresentação de música independente, em toda sua diversidade.

27) RM: O que vocês dizem para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Acredite sempre na música, só ela para lhe dar força pra você continuar sonhando. Abel Luiz: Fundamente-se bem, como disse, música é algo que vai muito além da execução de um tema. ela precisa ser pensada, vivida, sentida, historicizada, experimentada… E, assim, como a presentação, a audição está em constante construção. É uma troca permanente – sensibilidade e sonho são fundamentais.

28) RM: Quais os seus projetos futuros?

Grupo Choro Novo – Reinaldo Pestana: Gravar o segundo CD com o Choro Novo e de seguir em frente com a música. Abel Luiz: Fazer mais som: ensaiar, compor, arranjar… Estamos com o segundo disco em faze de gestação, porém, acreditamos que ainda temos muito a fazer com nosso primeiro CD ( Sotaques & Influência), enquanto temporalidade de um trabalho independente. Estamos na luta pra este trabalho chegue e receba o maior número de pessoas possível, no Brasil e no Mundo, seja via internet, shows, workshop, seja via edital.

29-) RM – Quais seus contatos para show e para os fãs?

Grupo Choro Novo – Ahnis Fraga: Pupurri Cultural Produções | Produção Cultural e Consultoria em Vinhos | (21) 99133 – 4580 | http://www.pupurricultural.com.br | [email protected] | Fanpage do Choro Novo:  https://www.facebook.com/ChoroNovo

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.