Fernando Chuí

fernando chui
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Fernando Chuí
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O cantor, compositor, violonista e guitarrista Fernando Chuí traz uma experiência dentro da música brasileira com a mescla de ritmos e harmonias de rock, samba, funk, blues, xote em busca de uma estética urbana e brasileira.

Fernando com sua canção “Tubaína” foi finalista e destaque do Festival da Música Brasileira, realizado pela Rede Globo em 2000. A música está presente em seu primeiro CD – “Feito a Mão” que foi lançado em 2001. O disco foi bem recebido pelos críticos musicais dos principais jornais paulistanos. O novo CD – “Eu nunca vi Mandacaru”, foi produzido ao longo de 2004 com base em uma seleção de canções compostas nos últimos anos. E dá continuidade ao conceito do disco anterior mesclando ritmos e estilos. Fernando assina todas as canções, além da produção geral do disco. O músico tem formação em artes plásticas, sendo responsável por todo o projeto gráfico de seus CDs, incluindo as capas e ilustrações. Os discos têm letras que fazem o ouvinte refletir sobre valores pessoal e social. No primeiro a crítica é mais ácida que no segundo. O cotidiano e a vida urbana são temas presentes nos dois discos, mais em evidencia no primeiro. No trabalho do músico é claro a intenção de compor uma obra original, questionadora e inquietante em letra e melodia. Um bom melodista, arranjador e instrumentista. Um cantor de timbre de voz impa, em cor e potência. No show dele, é impossível cochilar. Um músico consciente do seu ofício, sem deslumbramento nem afetação artística. Um artista que tem consciência do seu trabalho e dos seus colegas de profissão. A forma que ele manipula os gêneros regionais mostra seu conhecimento, comprometimento para trazer algo mais. No primeiro disco a presença da influencia da música nordestina é direta e forte em letra e música.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Fernando Chuí para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 02.04.2008:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Fernando Chuí: Nasci no dia 14 de outubro de 1974, em São Paulo.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Fernando Chuí: Foi relativamente tardio. Até os 14 anos de idade, eu pouco me relacionava com música, somente pensava em desenhar histórias em quadrinhos e jogar futebol. O acaso fez com que uma escola de música abrisse na esquina de casa. E meu irmão; que estudou violão quando era criança, disse: “tem um violão parado aqui, você está aí de bobeira – porque não vai estudar nessa escola?”. Aí eu fui estudar violão clássico, depois comecei a tocar guitarra e cantar. Em menos de um ano, o “vício musical” já havia se instalado por completo em minha vida.

03) RM:  Qual a sua formação musical e\ou acadêmica (Teórica)?

Fernando Chuí: A minha formação musical é extra-acadêmica, sendo que a minha formação acadêmica foi em artes plásticas. No entanto, música é certamente a área que eu mais estudei na vida. E continuo estudando, pois nem sei mais viver sem isso. Iniciei em um conservatório e estudei dois anos de violão clássico. Passei um bom tempo aprendendo acordes com amigos e tirando rock de ouvido na guitarra. Tinha duas bandas no colégio, O “Dirty Darling”, que eu tocava guitarra e o “8 Hermanos”, em que eu também cantava. Depois estudei guitarra, canto, harmonia, improvisação e arranjo. Fiz aulas com muito bons professores como Ricardo Brein, Consiglia Latorre e o maestro Tasso Bangel. Voltei a estudar violão com um grande músico de Sampa, o Ulisses Rocha, com quem estudei violão-solo, arranjo e improvisação. E recentemente fiz oito meses de especialização em violão clássico, mas não concluí por baixa afinidade com aquilo e hoje estudo basicamente improvisação, sobretudo a estética do jazz cigano, inventada pelo guitarrista Django Reinhardt.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Fernando Chuí: Eu ouvia rock e blues quando comecei a tocar. Gostava, sobretudo do rock “contracultura” de bandas como Velvet Underground e Sonic Youth. Mas também adorava Led Zeppelin, Hendrix e Stevie Ray Vaughan. E sabia todas as músicas da Legião Urbana. Ao mesmo tempo, sempre achei incrível a força estética da música nordestina, o baião, o xote, a cultura dos repentistas. A MPB me pegou primeiro pela Tropicália e pela música do Chico Buarque. Depois me apaixonei pelo chamado samba de raiz, de Cartola a Ari Barroso. No meu processo musical, me deparei com a obra de Pixinguinha e Tom Jobim, inevitáveis. Estudei a obra de Villa-Lobos no Violão e percebi a sua importância e genialidade. Hoje em dia, redescobrir Bob Dylan. E passo ouvindo o jazz cigano dos anos 30 de Django Reinhardt. Também adoro a banda inglesa Radiohead. Nenhuma influência deixou de ter importância. Até aquilo que eu não gosto me influencia positivamente.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Fernando Chuí: Não sei bem dizer o que é uma carreira profissional de músico no Brasil. Faz 10 anos que dou aulas de música sistematicamente. Mas talvez tenha sido no momento em que lancei minha primeira música, a “Tubaína” no Festival de música da Globo, em seguida, lancei meu primeiro disco: “Feito a Mão”.

06) RM: Quantos CDs gravados?

Fernando Chuí: Lancei dois: “Feito a Mão”, em 2001 e “Nunca Vi Mandacaru”, em 2005, distribuído pela Tratore. A música de destaque só: “Tubaína” que, por causa do Festival de Música da Globo, tocou em alguns lugares e me deu acesso a um pequeno público. Mas há algumas canções que sempre são pedidas e recebo vários e-mails de pessoas que estabeleceram relações especiais com elas. Do primeiro disco, além de “Tubaína”, destacaria  “João da Silva” e “Assassinato ao cair da Tarde”. Do segundo, “Drops” e “Quero Amanhecer ao seu Lado”. Os CDs têm uma linha comum de discutir o ser humano dentro da cidade, com suas questões amorosas e problemas sociais. A questão urbana está presente em ambos, mas o primeiro tem mais um cunho de protesto e o segundo um olhar mais contemplativo.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Fernando Chuí: Não sei definir bem. Mas é uma canção urbana certamente. Uma estética urbana. E brasileira também.

08) RM: Quais são seus principais parceiros musicais?

Fernando Chuí: Trabalho quase sempre sozinho ao compor canções e arranjos. Já tive alguns parceiros legais, mas não deram continuidade. Atualmente tenho tocado com um super amigo e gaitista, o Guappo. Um outro grande amigo, o Guima, é um guitarrista que me acompanha há vários anos.

09) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Fernando Chuí: O ponto pró é que você faz o que quer, na hora que quer. Faço tudo nos meus discos, gravo quase tudo, arranjo, produzo, faço o encarte e a capa. Pra mim, que sou artista plástico, é uma delícia. O principal ponto contra é o fato de você não ter acesso ao grande público. Sem uma divulgação massiva, não é possível. Também o fato de não ganhar dinheiro, por isso não chega realmente a constituir uma carreira.

10) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Fernando Chuí: Não sei bem avaliar isso. Não gosto da palavra regressão para se falar de uma obra. Há uma espécie de cobrança com relação à atitude e a qualidade da produção de um músico, mas cada um passa por um caminho próprio. O escritor Proust disse que “não há processo da arte, mas sim, processo de um artista”. Quando se fala em revelação, fala-se de revelação do mercado fonográfico. Existem alguns que analisam de forma equivocada a música brasileira de hoje. Dizem que os velhos estão esgotados e que os novos pouco têm a dizer, mas acho uma bobagem. A canção brasileira está em constante transformação, assim como a mundial. E, no entanto, não há mais portas de mercado abertas para esse meio, pois o próprio conceito está em crise com a questão das novas tecnologias. E o olhar da sociedade se abre somente para aquilo que vem pela indústria fonográfica. Talvez a novidade na canção brasileira não seja mais a canção, apesar de eu ser apaixonado por canções. A cena independente é sempre muito criativa. Mas não se pode esperar que portas estéticas se abram a cada disco novo que aparece. As portas são abertas para dentro de um espaço poético e os artistas caminham desenhando novas janelas. O problema é julgar o novo pelos velhos conceitos. O contemporâneo é exatamente aquilo que ainda não podemos compreender. Quando falamos em revelação, pensamos em gente jovem, mas Zé Miguel Wisnik é, até certo ponto, uma revelação das últimas décadas? Seu trabalho com trilhas e seus discos são certamente, como nos aponta o título de seu disco “pérolas aos poucos”. Continuo achando Chico Buarque e Caetano Veloso, as duas maiores estrelas da história da mpb, ainda expressivos em seus novos trabalhos. O renascimento do Tom Zé foi uma coisa bastante importante. Gosto da poesia-deboche do Zeca Baleiro e do suíngue político do Chico César. Sempre que deparo com novos compositores, tenho boa surpresa. Penso no Kléber Albuquerque e no Fernando Cavalieri que têm canções belíssimas. Mas ainda sobre revelações, vejo que o HIP HOP foi a grande novidade da mpb dos anos 90. O disco:“Sobrevivendo no Inferno” dos Racionais MCs é provavelmente o disco mais importante dos últimos tempos. Hoje em dia todo mundo se relaciona com o RAP, de alguma forma. Gostaria de tocar o meu violão com a força da voz do MV Bill.  Das cantoras, acho a Cássia Eller uma figura fundamental. E os grupos Cordel do Fogo Encantado, Mestre Ambrósio, Chico Science & Nação Zumbi nos mostram que não se deve esperar o surgimento de novos Chicos e Caetanos, que a experiência pode ser absolutamente outra. Cantoras como a Céu e a Vanessa da Mata delineiam uma nova estética do canto da mpb. Da cena independente, costumo gostar de tudo. Mas confesso que talvez eu não seja a melhor pessoa para falar de novos nomes, pois sempre que me debruço sobre algum som novo para mim, ele costuma ser antigo.

11) RM: Fale de sua experiência em Festival de Música.

Fernando Chuí: Toquei em alguns pequenos Festivais de Colégio e Faculdade, mas foi importante. Minha primeira apresentação foi no festival do colégio Bandeirante, onde eu estudava, o EMACB, e toquei com minhas bandas por dois anos. Toquei também no Festivalda, na época da Faculdade, fazendo uma versão de “Stry Cat Strut” dos Stray Cats. Mas, como eu disse antes, o Festival da Globo me lançou à questão musical de vez. Pude saborear público, crítica, fama e esquecimento em um curtíssimo período e tudo isso foi importante para eu entender o que eu realmente queria da música.

12) RM: Você participou da vanguarda paulistana? Qual sua visão sobre esse movimento musical?

Fernando Chuí: Não, puxa, eu era muito novinho na época. Até 1985, quando se costuma definir o final dessa cena, eu tinha apenas somente 10 anos. Nessa época eu nem sonhava em fazer música. É um dos movimentos mais expressivos da música popular brasileira. Itamar Assunção é realmente uma figura absolutamente paradigmática para mim. Sua forma de escrever canções de forma simples e ao mesmo tempo complexa é algo que eu persigo. E o Rumo é genial. O trabalho de Luiz Tatit com a prosódia – que é a área que se ocupa dos acentos corretos das sílabas faladas ou cantadas – é brilhante em cada canção do Rumo. Lembro-me de criança, cantarolando “Não vou, não quero, fico todo envergonhado…”, com a batida de uma escola de samba toda em uma fala divertida. E o Tatit, como professor, escreveu livros como “O Cancionista” em que, de forma única, definiu a complexa função e o lugar do compositor de canções brasileiros, em uma relação do canto com a fala e com o discurso de alguém para alguém – algo que tem tudo a ver com o próprio trabalho do Rumo. A Ná Ozetti é uma cantora sensacional. E o Arrigo Barnabé é também uma peça única no espaço entre música popular e pesquisa da música moderna. Ou seja, adoraria ter assistido aquilo tudo. E a influência é total.

13) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Fernando Chuí: Acho que já teve um pouco de tudo, mas a maior de todas foi certamente no próprio Festival da Globo. Eu iria tocar pela primeira vez na TV e ao vivo, em cadeia nacional. Quando comecei a cantar, o som não veio e continuei. O microfone estava desligado. Mas segui por 3 estrofes até que um técnico correu ao palco e o ligou. Mas foi tudo bem: o público prestou atenção, eu toquei outra vez e fui classificado para a final.

14) RM: Como é seu processo de compor?

Fernando Chuí: São muitos. Pode vir de um poema, uma ideia musical, um groove do violão. Surgir tudo junto ou mesmo se inspirar em um desenho. Mas o elemento constante é o acaso.

15) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Fernando Chuí: Eu não tenho carreira, tenho um trabalho. Em meu trabalho, que se constitui de tocar, compor e gravar, tudo me deixa feliz. Do ensaio, ao show, ao estúdio, é tudo muito bom. O que me entristece na música é o mesmo que me entristece na vida, ou seja, a dificuldade de chegar às pessoas.

16) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Fernando Chuí: Diria: “Não pergunte o que fazer, apenas faça”.

17) RM: Quem são os músicos conhecidos que você se espelha como um padrão de criatividade e profissionalismo?

Fernando Chuí: Django Reinhard e Bob Dylan. Para mim, profissionalismo em arte é seguir com lealdade o seu desejo. A verdade está acima do objetivismo.

18) RM: Quais os projetos futuros?

Fernando Chuí: Gravar meu terceiro CD com meus cordéis urbanos e buscar fundos para gravar o Samblues, meu projeto com o Guappo, de versões blues/jazz de sambas antigos.

Contatos:  www.fernandochui.com.br \ [email protected]

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.