Fabio Torres

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O pianista, arranjador e compositor paulista Fabio Torres iniciou os estudos de piano aos 5 anos de idade, tendo posteriormente concluído o curso técnico de piano erudito em 1990 e se formou Bacharel em Composição em 1998 pela ECA-USP.

Apesar da formação acadêmica com a música erudita, desde muito cedo ele se voltou para música popular brasileira e para o jazz. Em 1994, aos 23 anos, já havia gravado com Dominguinhos, Arismar do Espírito Santo, Heraldo do Monte. Nesta época na faculdade venceu o III Prêmio Nascente (destinado a jovens talentos da USP) e gravou seu primeiro CD pela gravadora Velas, junto a seu grupo “Mistura e Manda”. Em 1998, ainda na faculdade, foi finalista do I Prêmio Visa ao lado de André Mehmari e Hamilton de Holanda. Desde essa época, levou paralelamente seus projetos pessoais e a atividade como acompanhante. Trabalhou com Zizi Possi, Ivan Lins, Leny Andrade, Toninho Horta e, mais assiduamente, com Rosa Passos. Com Rosa gravou inúmeros CDs e viajou pela Europa, Ásia e Américas. A partir de 2004, começa a priorizar sua carreira como solista.  Lançou em 2005, o CD – Corrente junto a Paulo Paulelli e Edu Ribeiro. Em 2008, lançou outro CD em trio com Paulo Paulelli e Celso de Almeida. Em 2009, lançou seu elogiado CD – Pra Esquecer das Coisas Úteis, CD autoral que conta com a participação de Luciana Alves, Tatiana Parra, Fabiana Cozza, Renato Braz, Chico Pinheiro e outros. Seu trabalho vem sendo, a cada dia, mais reconhecido no Brasil e no exterior como atestam as recentes performances em clubes e festivais no Brasil, Venezuela, Espanha, França, Irlanda, Japão e Suíça. Em 2011, já tem viagens programadas pra os EUA, acompanhando o compositor e guitarrista, Chico Pinheiro. E viagens com o Trio Corrente que se juntará ao saxofonista, Paquito de Rivera, na Espanha. O Trio Corrente tem também shows marcados com a cantora americana Stacey Kent na sala São Paulo pelo Projeto Tucca, em maio.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Fabio Torres para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 15.03.2011:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal? 

Fabio Torres: Nasci em São Paulo no dia 23 de janeiro de 1971.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Fabio Torres: Fui levado ao Conservatório por minha mãe aos 5 anos de idade. Lembro das aulas de Flauta Doce e teoria musical que antecederam o estudo do Piano.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Fabio Torres: Conclui o Conservatório e sou Bacharel em Composição pela ECA-USP.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Fabio Torres: Na infância, ouvi os LPs de música clássica do meu pai e os de MPB de minha mãe, por tabela. Eu adorava ouvir música e percorria a discoteca encontrando tesouros.  Lembro-me do encontro com os clássicos mais populares como a Quinta Sinfonia de Beethoven, o Concerto nº 1 de Tchaikovsky entre outros. Também me recordo da Elis Regina cantando. Tudo isso ficou em minha memória musical e muitas vezes eu redescobri estas músicas da infância. Na adolescência, cheguei a gostar de música Pop. E o primeiro contato com o Jazz foi com um grupo muito conhecido nos anos 80, o Spirogyra. Esse ecletismo da adolescência acabou se perdendo com as referências que vieram depois.

05) RM: Existe idade adequada para se começar o estudo do piano?

Fabio Torres: Eu iniciei muito cedo, logo aos 05 anos e isso teve prós e contras. Acho que por volta dos dez anos é uma boa idade, pois a criança já está mais amadurecida. Por outro lado, antes disso a criança já pode ter aulas de musicalização infantil, trabalhando a percepção musical.

06) RM: Quais os fundamentos necessário para ser tornar um pianista acima da média?

Fabio Torres: É preciso muito trabalho pra vencer o desafio técnico que todo instrumento exige. Mas, feito isso, não se pode dizer que é bom pianista. Há que se cuidar da estética, ouvir os grandes mestres (não sé do piano). Os caras da música erudita, do jazz, enfim, informar-se musicalmente. Essa cultura musical é tão importante quanto a técnica.

07) RM: Quais as diferencias de ser pianista e tecladista?

Fabio Torres: Hoje em dia aprende-se Teclado em escolas de música. Embora os instrumentos sejam parecidos, as possibilidades são diferentes. O Piano é um instrumento acústico e oferece os recursos de sonoridade que o Teclado não tem. O Teclado é um instrumento eletrônico e, nos modelos profissionais, tem muitos recursos de timbres. Teoricamente é possível tocar bem os dois, mas sempre se acaba optando por um deles.

08) RM: O que a formação acadêmica de música proporciona a mais que o músicos prático ou autodidata?

Fabio Torres: Uma boa formação acadêmica pode colocar o músico em contato com a música clássica, o que sempre traz algo de bom para o músico. Mas é fato que há gênios autodidatas que provam que o talento não se curva as convenções.

09) RM: Quais os pianistas que você admira?

Fabio Torres: Egberto Gismonti, Herbie Hancock, Artur Rubinstein, Keith Jarret, Brad Mehldau, Hermeto Pascoal.

10) RM: Quais os cantores (as), músicos e grupos que você gravou e acompanhou?

Fabio Torres:  Rosa Passos, Leny Andrade, Joyce, Leila Pinheiro, Zizi Possi, Vanessa da Matta, Ivan Lins, Zé Luiz Mazziotti, Chico Buarque, Dominguinhos, Edu Lobo, Cesar Camargo Mariano, João Donato, Roberto Menescal, Cauby Peixoto, Johnny Alf, Paquito de Rivera, Heraldo do Monte, Arismar do Espírito Santo, Raul de Souza, Hamilton de Holanda, Chico Pinheiro, Pedro Mariano, Jane Duboc, Alaíde Costa, Ed Motta, Eduardo Gudin, Vânia Bastos, Mônica Salmaso, Toninho Horta, Milton Nascimento.

11) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Fabio Torres: Com 15 anos de idade eu já dava aulas particulares de piano em minha casa. Com 17, eu comecei a fazer os primeiros trabalhos na noite, mas ainda sem constância. Foi aos 19 que tive meu primeiro emprego numa banda de baile. Paralelamente a essa incipiente vida profissional, eu tinha meus grupos fixos, onde compunha e arranjava.

12) RM: Fale do seu primeiro CD (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical do CD? E quais as músicas que se destacaram no CD?

Fabio Torres: Embora tenha muitos CDs gravados em grupo. O meu primeiro CD autoral, chama-se “Pra Esquecer das Coisas Úteis”, lançado em 2009.  Compus e arranjei todas as músicas, com exceção de duas parcerias com Giana Viscardi que fez a letra para minhas melodias. Fora essa já citada, participaram Fabiana CozzaRenato BrásLuciana Alves, Tatiana Parra, Chico Pinheiro, Paulo Paulelli, Edu Ribeiro, Teco Cardoso, Vinicius Dorin, Rodrigo y Castro, Zeli, Heloisa Torres, Daniel D´Alcântara e Serginho Machado. É um CD com sonoridade acústica que preza pelo cuidado musical, harmônico, melódico. Inserindo-se na tradição legada pela clássica canção brasileira por onde transitam Edu Lobo, Tom Jobime mais recentemente, Guinga. Veja que não estou me comparando, apenas citando as influências. O CD teve várias críticas com destaque para a valsa que abre o CD, “Lilyá”(http://www.youtube.com/watch?v=HpyB7qbsqQY ), e a instrumental, “Inefável”.

13) RM: Como você define o seu estilo musical?

Fabio Torres: Diria que faço música brasileira, influenciado pelos mananciais do Choro, Samba, MPB clássicos. Mas, como um músico de uma cidade cosmopolita como São Paulo, carrego as referências do jazz, da música latina e também do estudo da música erudita (conservatório e faculdade).

14) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Fabio Torres: Eu não canto minhas canções. Prefiro liderar meu trabalho a partir do piano, instrumento que me permite conduzir o show pra onde desejo. Pra isso, conto com parceiros instrumentistas e cantores que pensam como eu na música. Acho que o resultado é um trabalho com muitas nuances e muito emocional.

15) RM: Você estudou técnica vocal?

Fabio Torres: Não.

16) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Fabio Torres: Rosa Passos, Leny Andrade, Zizi Possi, Zé Luiz Mazziotti.

17) RM: Como é seu processo de compor? Quem são seus parceiros musicais?

Fabio Torres: Componho sempre ao piano. Muitas vezes faço a música e a letra. No meu CD tenho parcerias com Giana Viscardi.

18) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Fabio Torres: Quando você realiza seu próprio trabalho, dá a cara pra bater. Cuida de todo o processo e se não há ninguém no teatro pra assistir, o problema é seu. Isso aumenta enormemente a responsabilidade.  Quando se toca com alguém, a única preocupação é tocar bem. Quando se realiza um CD, um show próprio, há que se cuidar de tudo. Isso é trabalhoso, mas extremamente recompensador. O desafio só pode ser vencido com muita convicção na própria música. E também com muito pé no chão, muito senso da realidade. O mercado é extremamente competitivo e, definitivamente não há espaço pra todos. Mas com o tempo, se você merece, vai encontrando seu lugar.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Fabio Torres: Acho que há um grande número de ótimos artistas por aí. O problema é que nem sempre eles são reconhecidos, pois há muita falta de informação por parte de quem deveria ser muito informado e formar opiniões. Citaria Hamilton de Holanda, Yamandú Costa, Maria Rita, Chico Pinheiro, André Mehmary, Roberta Sá, entre muitos outros. Toquei com a Maria Rita e ela tem muito, muito talento. Gostaria de ver, daqui um tempo, ela se libertando um pouco dessas exigências de gravadoras e fazendo um trabalho puramente artístico, certeza que seria lindo.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Fabio Torres: Trabalhei com a Rosa Passos, ela é um exemplo de integridade artística, nunca se afasta de sua essência musical. Gosto do João Bosco, Chico Buarque (cada vez melhor), Guinga, enfim, são muitos.

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Fabio Torres: Em tantos anos de carreira já enfrentei muitas situações inusitadas. Uma vez, há muitos anos, quando tocava numa banda de baile, fomos tocar num evento para adolescentes. E em nosso repertório só havia uns 40 minutos de músicas que estavam tocando no rádio. O resto era Ray Conniff, boleros, coisa para gente mais velha. Os garotos queriam matar a gente e tivemos que improvisar um bocado pra completar 5 horas de baile. Nesta mesma época, fui tocar com uma dupla sertaneja numa cidadezinha tão cheia de poeira, que o teclado parou de funcionar no meio do show. Enfim, quando a gente está começando tem que estar pronto pra tudo. Agora, depois de tantas batalhas, as condições são melhores, o que não quer dizer que, de vez em quando, não se entre numa fria.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Fabio Torres: Quando se para pra pensar no que é a música perto de tudo que há de ruim por aí. Toda miséria, toda violência, enfim, pode-se ver essa carreira como algo completamente fora da realidade. Um luxo num mundo cheio de problemas. Por isso nem dá pra exigir das pessoas que sejam sempre sensíveis, sempre atentas ao que o músico faz. Nestas horas bate aquela solidão. Você questiona-se sobre a utilidade daquilo que faz. Inclusive há um texto que fala sobre isso no encarte do CD. Além disso, é difícil, como artista, ter que precificar o seu trabalho. Quanto valerá a minha música? Esse encontro com o mundo prático, muitas vezes traz enormes dissabores. Mas as felicidades que a música me traz e, espero, aos que me escutam, compensam qualquer dificuldade. Compor, gravar um CD, estar no palco, olhar as pessoas na platéia, são coisas indescritíveis e que realmente me fazem feliz. Uma felicidade que vem do íntimo e que, tendo-se habilidade, você pode compartilhar com as pessoas. É importante fazer sua música tocar as pessoas, isso é algo que o tempo ensina.

23) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

Fabio Torres:  São Paulo tem uma vida cultural digna de uma metrópole de primeiro mundo. Hoje você sai de casa e pode ouvir qualquer gênero de música. Há bares de jazz, música clássica nos teatros, samba, rock. E tudo isso, muitas vezes executado com enorme qualidade. Recomendo o turismo cultural em São Paulo.

24) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Fabio Torres: Tem o movimento Elefantes que reúne vários jovens músicos em inúmeras Big Bands de vários estilos. Tem o Jazz nos Fundos que é um bar que recebe muitos jovens instrumentistas fazendo jazz e música instrumental brasileira. Estão sempre lá músicos como João Paulo Barbosa e Cássio Ferreira no sax, Filó Machado e seu grupo. No Ó do Borogodó, outro bar, você pode ouvir a rapaziada do Choro e do Samba. Músicos como Alexandre Ribeiro (clarinete), Alessandro Penezzi (violão), Miltinho de Mori (bandolim) e Zé Barbeiro (violão de sete cordas). Há inúmeras jovens cantoras aparecendo como: Fabiana Cozza, Verônica Ferriani, Luciana Alves e Tatiana Parra. Isso pra citar o pessoal que não fez o sucesso que ainda fará.

25) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Fabio Torres: Não me preocupa muito isso.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Fabio Torres: Muita, mas muita dedicação. Muito pé no chão e confiança nos próprios caminhos.

27) RM: Quais os seus projetos futuros?

Fabio Torres: Meu trio instrumental (Trio Corrente) acaba de gravar um CD novo e também estamos iniciando uma série de concertos com o saxofonista cubano radicado em Nova Iorque, Paquito de Rivera.  Pro ano que vem, planejo mais um CD autoral.

28) RM: Contatos ?

Fabio Torres: [email protected] / www.myspace.com/fabiotorres


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.