Fábio Stella

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O cantor, compositor e violonista Fábio Stella; quem tem mais de 40 anos de idade lembra-se dele, por conta da música: “Stella-a-a-a! Em que estrela você se escondeu?“…

Há décadas que ele está esquecido pelo grande público. Um paraguaio radicado há anos no Brasil, hoje com mais de 60 anos de idade. Ele foi um dos melhores amigos de Tim Maia e fez sucesso antes do Tim com a balada soull Stella, nos anos 70. Em 2007, Fábio o livro Até parece que foi sonho – Meus 30 anos de amizade e trabalho com Tim Maia.

Mas ele comemora sua nova etapa de carreira artística com o descobrimento do seu trabalho por um produtor norte americano (Joel Stones) que lançou uma coletânea Brazilian Guitar Fuzz Bananas via Los Angeles, com artistas de renome do lado B da Jovem Guarda brasileira, com expoentes como Serguei e Os Novos Baianos. A canção dele na coletânea é Lindos Sonhos Delirantes, de 1967. A coletânea obteve elogios de críticos musicais na revista americana Wired, no jornal inglês The Guardian, e no nova iorquino Village Voice. E Fábio voltou a está em evidência no “revival” dos anos 60 da cultura brasileira. Será que Fábio Stella terá a mesma “sorte” que o Tom Zé, que foi redescoberto pelo cantor norte americano David Byrne nos anos 90?

Ele tem composições gravadas por como Tim Maia, Wanderléa, Vanusa, Wanderley Cardoso, Sandra de Sá, entre outros. Recentemente a gravadora Trama relançou o CD – Tim Maia Racional, que tem uma música de sua autoria, “Quer queira quer não queira”Fábio lançou em 2007 o CD – Meu Jovem Amigo. A faixa-título é Um recado a Tim. Entre inusitado bolero, Inolvidable, o repertório inclui regravações de Risos (Fábio com Paulo Imperial, gravada por Tim Maia nos anos 70), Socorro nosso amor está morrendo (gravado por Wanderley Cardoso) e Preciso Urgentemente Falar com Cassiano, um recado para o outro grande gênio temperamental da soul music nacional. Faz shows com as canções novas além das já conhecidas pelo público, como “Socorro nosso amor está morrendo” e “Risos”, além, claro, de “Stella”.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Fábio Stella para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16.09.2012:

01) Ritmo Melodia: Qual o seu nome de batismo, a sua data de nascimento e a sua cidade natal? 

Fabio Stella: Eu fui batizado como Juan Zenon Rolon, nasci na cidade de Horqueta, Paraguay, no dia 09/02/1946. Em 1964 me naturalizei brasileiro em Ponta Porã – MS.

02) RM: Conte como foi seu primeiro contato com a música.

Fábio Stella: Foi em uma noite, em que pela primeira vez ouvi um jovem índio de nome Jak, peão da fazenda, dedilhando um instrumento de corda, parecido com um Cavaquinho. Fiquei profundamente deslumbrado. Detalhe: tinha apenas cinco anos de idade.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Fábio Stella: Sou autodidata. Porém tive pessoas de muita importância, na minha formação musical, como o maestro paraguaio Herminio Jimenes, já falecido. Um dos maiores maestros, compositor e ser humano maravilhoso, autor de célebres canções, como Mi Dicha, Lejana, Lejenia (Meu primeiro amor) música esta imortalizada na voz de vários cantores brasileiros, por exemplo, Mario Zan, Gal Costa e tantos outros. Eu morei na casa dele em São Paulo, logo que cheguei vindo do Paraguai, ainda nos tempos de Juancito Rolon. Morávamos no mesmo prédio do perigoso psicopata Chico Picadinho, na Rua Aurora 72 – Centro. Mas o pirado só gostava de bulir com prostitutas, coitadas delas. Outra pessoa que me incentivou muito foi o grande violonista, cantor das noites paulistanas, Messias de Holanda, uma fera nas harmonias (joãogibertianas), Trio Montanhês, Trio Cristal, Luis Carlos, Parana, Mário Freitas, Oslain Galvão e tanta gente boa que desapareceu na poeira das estradas.

04) RM: Quais foram as suas influências musicais no passado e no presente (no Paraguai e Brasil)? Quais que deixaram de ter importância?

Fábio Stella: No Paraguai minhas influências foram: Joselito (cantor Espanhol), Luiz Alberto del Parána e seu Trio Los Paraguayos, verdadeiros mitos na terra dos guaranys. E no Brasil foram: Tim Maia (meu saudoso parceiro e amigo por muitos anos), Cassiano, Tito Madi, Roberto Luna.

05) RM: Quando, como e onde  você começou a sua carreira musical?

Fábio Stella: Comecei ainda menino, integrando o Trio Los Mensú, ainda no Paraguai. Fazia a primeira voz.

06) RM: Quando e quais o motivos e motivações fizeram você escolher morar e começar uma carreira musical no Brasil?

Fabio Stella: Quando vi pela primeira vez o filme de Michel CamusOrfeu de carnaval e ouvindo o cantor Agostinho dos Santos, cantando a música tema, Manhã de carnaval de Luiz Bomfá.

07) RM: Fale de sua experiência e convivências com músicos brasileiros na boate Cave em São Paulo. 

Fábio Stella: Conheci grandes músicos na noite paulistana, quando ainda era menor de idade. Foram seis anos, de bar em bar, até chegar ao Cave, o point da moda nas noites da terra da garoa. Por lá passaram, Davi GordomTony e Frank, um Sebastião, que depois se tornaria Tim Maia. Mas antes cantei na boate de Roberto luna, em que tocavam: Luiz MeloJóvito(batera), Cleber (baixo). E canja primorosa de tantos excelentes artistas da vida, Airtom Moreira, já com Flora Purim, e muito mais.

08) RM: Quando, como você conheceu Carlos Imperial?

Fábio Stella: Eu conheci o Gordo (como Carlos Imperial era chamado pelos íntimos), em uma tarde de sábado, em uma feijoada oferecida para ele pelo proprietário da boate Cave, o Sr. Luis Vassalo, já falecido. Este encontro mudaria o meu destino. Nasci artisticamente Fábio.

09) RM: Como o Carlos Imperial colocou você na cena musical brasileira?

Fábio Stella: Naquela abençoada tarde de verão paulistana, todos cantamos para o renomado descobridor de talentos, como Roberto Carlos, Wilson Simonal, Erasmo CarlosRenato e seus Blue Caps e tantos outros surgiram a partir das mãos dele. A boate Cave estava repleta de gente bonita e descolada. Subimos ao pequeno palco, Eu, Tim, Tony e Frank, e outros mais. E cada um fez a sua graça, mas o escolhido fui eu, Juancito, era assim que me chamavam. O Imperial me chamou pro Rio de Janeiro. Nesta mesma noite partimos rumo à cidade maravilhosa, em um reluzente carro esporte, um Mercury Cougar, ano 68, verde metálico, conversível. O sonho estava apenas começando para minha carreira musical.

10) RM: Quais os motivos de escolher o nome Fabio como nome artístico?

Fábio Stella: Já morando no Rio de Janeiro, uma tarde quente de verão carioca, Carlos Imperial ligou para a RCA Victor, a grande gravadora da época da brilhantina, e convidou a diretoria para um lanche em seu apartamento, na Miguel Lemos esquina com Barata Ribeiro, Posto 5, em Copacabana, para ouvir o seu mais novo pupilo. Em menos de duas horas pintaram por lá o staff da RCA, o diretor artístico, e a divulgadora, de nome Odilia. E Imperial pediu que eu pegasse o violão e cantasse algumas melodias. E assim o fiz. Ao final do meu concerto, eles perguntaram como era o nome do cantor. E Imperial olhou pra mim, meio sem graça, eu respondi: é Fábio, e todos concordaram com o meu novo nome. E Juancito ficou em Sampa.

11) RM: Você chegou a participar das orgias e bacanais promovido pelo Carlos Imperial?

Fábio Stella: Carlos Imperial, que eu saiba nunca fez bacanais. Ele gostava muito de menininhas. Ele era de família. Eu sou eternamente grato à família Imperial, que me recebeu de braços abertos. Moravam em um tríplex que mais parecia um navio. O nosso relacionamento sempre foi sadio e de muito respeito. Ele só bebia Coca-Cola.

12) RM: Quais as verdades ditas e escritas sobre Carlos Imperial que você confirma? E quais “verdades” eram lendas?

Fábio Stella: O Carlos Imperial sempre foi um tremendo gozador. Era um “bon vivant” e muito inteligente, bem articulado no meio artístico, botafoguense fanático, mulherengo, bom de garfo. Ele ajudou muita gente e contavam muitas inverdades ao seu respeito por pura inveja dos inconformados. Ele era bom como amigo e implacável como inimigo.

13) RM: Qual era sua relação pessoal e profissional com Paulo Imperial?

Fábio Stella: Paulo foi meu amigo, parceiro de cem canções e companheiro das horas difíceis. E compartilhamos muitos bons momentos, e inesquecíveis aventuras. Só resta agora muitas saudades.

14) RM: Você mudou-se de São Paulo para o Rio de Janeiro nos anos 60 e chegou a ser vizinho das estrelas da MPB na época. Conte alguns casos interessantes que viveu com músicos de sucesso dessa época e que são ícones hoje?

Fábio Stella: Saí de Copacabana e fui morar na Fonte da Saudade com a minha primeira mulher, a Mabel, com quem me casei em 1972. E lá encontrei um grupo de músicos, cantores, artistas, que estavam ensaiando um show, que se tornaria uma verdadeira lenda, era o Clube da Esquina (Milton Nascimento, Wagner Tiso, Beto Guedes, Ló Borges, Robertinho Silva). Eu bebi e vivi aqueles momentos mágicos no bar do seu Manoel, o único que tinha na redondeza. Lulu Santos foi meu vizinho lá em cima do túnel Rebouças. O grande teatrólogo e intelectual Flavio Rangel, o ator Lauro Corona, muito querido, e gentil, que papai do céu levou, Lilian que fazia dupla com Leno, e tanta gente boa – a memória me trai sempre.

15) RM: Quantos discos lançados? Quais os anos de lançamentos? Qual o perfil de cada disco? Quais as músicas que se destacaram em cada disco?

Fábio Stella: Eu gravei pouco, foram dois LPs e vários compactos. Do primeiro LP se destacaram “Stella”, o meu grande e derradeiro sucesso, “Prelúdio para os olhos de Vanuza”, “Ana Luíza”, “Em busca das Canções perdidas”, “Cidade sem você” (outro dia fiquei sabendo que quem tocou guitarra, neste disco foi o Helio Delmiro, o órgão foi Mauro Motta). O segundo LP foi na gravadora Polidor e as músicas foram: “Phillipis, o cult”, “Os frutos de mi tierra”, “Manuela” de autoria de José Jorge, e “Ruimauriti”, “Guantanamera”, de José Marti, a música título do LP, e os arranjos são de Zé Rodrix, o piano na música “Encouraçado”, quem tocou foi César Camargo Mariano.

Gravei o compacto simples. A música “Lindo Sonho Delirante” na faixa A, por causa do polêmico disco lançado pelos The Beatles e que tinha a música “Lucy in the sky with diamonds”, acompanhada pelo The Fevers. Do lado B música “O Reloginho”. O compacto não fez o sucesso esperado, mas consegui apresentar-me em todos os programas de televisão da época. Ninguém conseguia entender como a censura permita que essa música fosse cantada em quase todos os programas de rádio e todos da televisão.  Seis meses depois, gravou o segundo disco que foi lançado quando Carlos Imperial estava preso pela ditadura militar porque ele tinha mandado um postal com uma situação meio constrangedora: sentado no vaso, desejando feliz Natal para os militares. Naquela mesma época, compus duas músicas em parceria com o irmão de Carlos ImperialPaulo Imperial“Stella” e “Socorro”, “Nosso Amor Está Morrendo”, que foi gravada pelo Wanderley Cardoso. Inicialmente, a música foi composta como “Marisa”, minha ex-namorada. Mas, Paulo Imperial sugeriu a troca do nome para “Stella”. A música foi gravada em um compacto com arranjos do maestro Pachequinho e o Mazola foi o técnico de som na gravação. A gravadora sugeriu, então, que a música tivesse um som espacial, com um eco, para aproveitar o momento da chegada do homem na lua. A música foi um grande sucesso no Brasil inteiro. Foi um marco inclusive na fonografia nacional, porque nunca tinha sido gravada uma música com eco e mais pretensiosa em comparação com as músicas da Jovem Guarda que tinham letras bem infantis. Meu primeiro LP – “Frutos de Mi Tierra” com músicas com minhas origens hispânicas. Nessa época, tinha cabelos compridos, barba e estava muito voltado para os problemas da América Latina. Nesse primeiro disco tocaram: Hélio Delmiro, um dos maiores guitarristas do mundo; o Mamão, o baterista do AzimuthMauro Motta, tecladista que trabalha com Roberto Carlos há muitos anos.

No auge do sucesso da música “Stella”, eu fui convidado para fazer uma fotonovela com a cantora Vanusa. Na época, ela namorava com Wanderley Cardoso. Eu e Vanusa fomos para Santos – SP, passamos uma semana para fazer aquele trabalho. Terminadas as fotos, eu voltei para o Rio de Janeiro e Vanusa para São Paulo, mas Vanusa se sentia atraída por mim. Pouco tempo depois, Vanusa terminou o noivado, brigou com a família e mudou-se para o Rio de Janeiro. Iniciamos um romance. Eu escrevi para ela a música “Prelúdio para os Olhos de Vanusa”.

Em 1970, participei do Festival de MPB, defendendo a música “Encouraçado”, de Sueli Costa e Tite de Lemos, que falda da história de um exilado político brasileiro em Paris. A música ficou em terceiro lugar no Festival e fui classificado como melhor intérprete. A partir dessa música, fui considerado cantor de protesto e fiquei na mira da censura e do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

Aquele Festival consagrou o soul no Brasil. Toni Tornado ficou em primeiro lugar, Ivan Lins em segundo e Erlon Chaves em quarto com a música “Eu Quero Mocotó”.

Na verdade, Erlon Chaves havia conquistado o sexto lugar na classificação e eu o primeiro. Só que o Boni, achou que teriam problemas com a Censura caso a classificação fosse divulgada daquele jeito e sugeriu Toni Tornado para que o festival não ficasse marcado pelo contexto político. Quando foi anunciada a classificação, eu recebi vaias de todo o Maracanã porque as pessoas tinham ficado insatisfeitas, preferiam a música Universo no Teu Corpo (de Taiguara) que havia ficado em décimo lugar. No dia seguinte, o jornal O Globo tinha como manchete “Encouraçado afunda em mar de vaias de um povo que ama o seu país”.  Eu, com receio da polícia da Censura Federal, eu fui para São Paulo, na casa do Eduardo Araújo e Silvinha que eram amigos do delegado Sérgio Paranhos Fleury, delegado integrante do DOPS. Lá, ninguém iria procurá-lo. Em seguida, o jornal O Estado de São Paulo publicou na primeira página que eu havia sido preso por tráfico de drogas. Depois, colocaram uma pequena errata, negando a informação. Com isso, a minha carreira acabou. Não era mais chamado para nenhum programa de televisão, nem para fazer shows e meu casamento acabou. Em 1973 fui embora para Paris (França) encontrar aMabel, tentando salvar o nosso casamento, ela estava morando por lá. Um ano e quatro meses depois voltei paro o Rio de Janeiro. Ela ficou e voltou quatro meses depois e pediu o desquite, tinha arrumado um outro cara.

Retornei da França em 1975 porque ainda tinha um contrato para cumprir na Gravadora Continental. Gravei a música “As Aventuras de Um Certo Capitão” e mais dois compactos. Quando acabou o contrato, fui para a EMI/Odeon, encontrei o produtor Augusto Cesar, e gravei a música “Venha”, com letra de Paulo Sérgio Valle. A música foi tocada no programa “Fantástico”, da Rede Globo, e marcou a minha volta. Em seguida, compus diversas músicas com Tim Maia, Cassiano e Hyldon.

Em 2008, lancei o CD – Meu Jovem Amigo. Tem repertório autoral e o título é uma homenagem a Tim Maia. Assumi como sobrenome o nome da canção que me fez famoso.

16) RM: Você morou no Rio de Janeiro no período da Ditadura. Você tinha uma postura de artista alienado ou consciente na política? Na defesa da música Encouraçado (Sueli Costa/Tite Lemos) no FIC – Festival Internacional da Canção, que era uma música de letra forte, você foi escolhido como melhor intérprete, mas foi vaiado por parte do público. Conte como foi esta experiência. E quais os motivos de ser vaiado?

Fábio Stella: Eu era um consciente alienado, com pavor da polícia, porém conscientemente fui defender uma das músicas mais polêmica da história da MPB de protesto. Fui para a final, ficando em terceiro lugar e fui escolhido pelo júri o melhor intérprete do Festival. E fui impiedosamente vaiado, pela metade do público que m o lotou o Maracanãzinho. Eu vi colegas meus me apoiando, como Eliana Pitman, Tarcísio Meira, Glória Meneses. E quem me tirou do palco foi o meu brother Gonzaguinha, que me deu um toque no ouvido: “Fabinho vamos embora porque sujou”, e eu obedeci.

17) RM: Quando e como você conheceu o Tim Maia?

Fábio Stella: Eu conheci o Tim Maia em São Paulo na boate Cave, nos anos 60. Ele recém-chegado do EUA, ele passou pelo Rio de Janeiro e caiu em Sampa, em uma noite fria de inverno.

18) RM: Como se deu a sua relação pessoal e profissional com o Tim Maia?

Fábio Stella: O Tim Maia foi o meu irmão negro, nunca brigamos, foi o meu mestre musical.

19) RM: Você gravou o seu primeiro disco e fez sucesso antes do Tim Maia. E o Tim Maia foi morar na sua casa? Como foi esta convivência?

Fábio Stella: Eu fui o estouro da boiada, como falou uma vez Cassiano. O primeiro sucesso foi a música “Stella” que me levou às nuvens, literalmente. Aí eu e o Tim Maia, que estava preparando a base do se primeiro LP em São Paulo, nos encontramos casualmente na Av. Rio Branco, na Pauliceia desvairada, em um sinal qualquer, ele me pediu pra ficar lá em casa no Rio de Janeiro, aí eu falei que estava tudo bem. E duas semanas depois, ele chegou em Botafogo, na Rua Real Grandeza 171, segundo andar, apartamento 202, de mala e cuia. Ele não tinha malas, apenas sacolas, e um gravador de rolo nas costas.

20) RM: O sucesso “Azul da Cor do Mar” ele fez quando morava na sua casa, e sua boa vida e seu êxito na carreira na época serviram de inspiração para a letra desta canção. Conte mais detalhe do nascimento desse clássico da música popular brasileira?

Fábio Stella: Tim Maia sofria muito, esperando pelo sucesso que já estava perto. E as minhas companhias femininas e do meu empresário Glauco, o deixavam bolado. O ranger da cama na hora do sexo, e os sussurros lhe incomodavam. Eu fui viajar para fazer show e retornando, ele me chamou e, sentado no “sofá dromedário”, compôs com o meu violão, que tinha deixado com ele, a belíssima canção Azul da cor do mar. 

21) RM: Quando, como e o que lhe motivou a escrever um livro “Até Parece que foi sonho” contando os casos e sua convivência pessoal e profissional de 30 anos com o Tim Maia?

Fábio Stella: Não posso esquecer importância da minha mudança para Salvador – BAItapuã-BA, Pedra do Sal-BA. Saí do Rio de Janeiro no final do verão de 1989 que migrei para a terra dos orixás, a convite da minha eterna namorada Popo Muniz. Vim morar em frente ao mar da velha cidade de Jorge Amado, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, mãe menininha e tantos outros notórios. Encantei-me com tudo, o povo, os dias claros cheios de sol, o vento, a comida, o exotismo, as 365 igrejas, as festas de Iemanjá, os encantos mil. Sempre que eu posso, aqui venho pra recarregar as baterias, para poder encarar o sul maravilha. Estou há mais de sete anos sem álcool, drogas e seus adereços, graças ao poder superior. Em breve estarei com um novo CD, DVD, show, auxiliado pelo meu produtor Nilton Ribeiro. Já morando em Salvador – BA, lá pelos anos 90, a convite da minha eterna namorada Popo. Eu lembrei que o Ivan Lins, lá no Rio de Janeiro, sempre me pedia pra contar os mais recentes causos do meu parceiro-amigo. Ele ria muito das histórias, é dizia “Fábio você precisa escrever um livro, contando tudo isto …”. Até que um belo dia, eu fui visitar um querido amigo que também já faleceu, o doutor Uzeda, estávamos almoçando um peixe raro de nome Aracanguiraó, filé dos oceanos segundo os pescadores, e o celular dele tocou. Era do outro lado da linha, o Augusto Martins, também amigo nosso, dizendo que tinha sonhado com o Tim Maia naquela noite e no sonho ele dizia que o “Fábio, é meu amigo e o único que pode falar de mim”. Achei aquilo muito estranho, e a partir dai alimentei a ideia de escrever o livro. Ai pintou o Dica, que me apresentou ao poeta e escritor baiano de Ibirataia. E nasceu “Até parece que foi sonho, meus trinta anos de trabalho com Tim Maia”, pela editora Matrix.

22) RM: Você conta no seu livro vários casos conturbados, dramáticos, tragicômicos e destemperados do Tim Maia. Mas no livro você não faz nenhuma análise nem reflexão dos fatos ocorridos. Hoje você analisaria o comportamento dele, como um desvio de caráter ou megalomania?

Fábio Stella: Tim Maia foi um oceano de controvérsias, como ele mesmo se autodefinia, perito em “cornologia”, “sofrência” e “cirurgia capilar”. E inventor nas horas vagas: ele inventou a “bicicleta aquática”, “o preenchedor de cheques já com fundos”.

23) RM:  Quais das suas músicas; em parceria com o Tim Maia ou com outros parceiros, que ele gravou?

Fábio Stella – O nosso grande hit “Até parece que foi sonho”, em 1979. “Velho camarada”, com Hyldon e Tim Maia, “Risos” parceria minha com o Paulo Imperial, sucesso do seu primeiro LP da Cultura Racional, o melhor de todos, em minha opinião. A cultura racional foi outra grande furada em que o meu camarada se meteu. No final gravaria com ele o hino do América, o time do seu coração, em que mandei aquela vinheta famosa da Rádio Globo, Americaaaaaaaa; para revista Placar.

24) RM:  Você sabe o motivo do Tim Maia lhe chamar “Fabiano”? Não era uma forma de não dar moral para seu nome artístico?

Fábio Stella: Ele tinha mania de chamar os amigos mais chegados assim, Tibério era TibaHyldon era Dum Dum. O Cassiano era Dom Cássio. Existia um grande respeito e admiração mútua entre nós.

25) RM:  Você leu o livro do Nelson Motta sobre o Tim Maia? Quais suas impressões sobre o livro?

Fábio Stella: Ganhei o livro de presente, da querida amiga Glorinha e até hoje não consegui passar da página onze.

26) RM: Fale de sua relação pessoal e profissional no passado e no presente com Cassiano? E em sua opinião, o que levou o Cassiano sair da cena musical?

Fábio Stella: O Cassiano dormiu algumas vezes na minha casa, quando eu morava com a segunda mulher, a Lena, em cima do túnel Rebouças no Rio de Janeiro. E hoje ele não atende mais meus telefonemas. Fiz com meu parceiro Paulo Imperial em sua homenagem a música: “Preciso urgentemente falar com Cassiano”, gravada pela Sandra de Sá e por mim.

27) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Hyldon?

Fábio Stella: Hyldon é meu camarada, morou no meu quintal sempre.

28) RM: Qual a  sua relação pessoal e profissional com os músicos da banda do Tim Maia, a Vitória Régia?

Fábio Stella: Tive o privilégio de acompanhar a banda, desde a sua primeira formação: Jorginho Urubu (guitarra), Carlinhos (baixo) e Renato (batera), que depois tocariam comigo, depois vieram varias mudanças, coisa do síndico, aprendi muito com todos eles, saudade dos tempos da estrada longa e sinuosa…

29) RM: Relate como foram seus anos de sucesso. Quanto tempo permaneceu em evidência? Quais os excessos que você evitaria hoje? E o que você deixou de usufruir que aproveitaria hoje?

Fábio Stella:– O sucesso pintou mais rápido do que eu esperava, dormi anônimo e acordei famosinho. “Stella” começou tocando na rádio tamoio, a quente da época, e rapidamente galgou os primeiro lugares em todas as emissoras do pais, numa época em que não tinha internet e nada dessas ondas midiáticas de hoje. Curti todos os momentos, minuto por minuto, segundo por segundo. No fundo eu sabia que  era efêmero. E, se pintasse hoje, faria tudo de novo. Claro que sem muitos excessos, o fígado nem o pâncreas segurariam a onda.

30) RM: Você viveu mais como hippie ou como playboy nos anos 60 e 70?

Fábio Stella: Vivi como um príncipe, mas acordei antes que a noite me cobrisse com o seu manto. Hoje vivo dignamente, graças a Deus. O futuro? Bem, o futuro pertence ao amantíssimo… Ainda muita água vai rolar na cachoeira, até o último suspiro.

31) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Fábio Stella: Um canário da terra, legítimo. Ainda vou cantar e compor muito, se deus assim permitir.

32) RM: Você estudou técnica vocal?

Fábio Stella: Minhas aulas de canto não passaram da 7ª aula com o professor Burgos era um ditador, e eu só tinha 15 anos de idade. Briguei com ele e nunca mais pintei na aula. Terminava ali um pretenso Mario Lanza, tenor italiano, ídolo do meu saudoso pai.

33) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Fábio Stella: Dos nacionais eu gosto de Emilio Santiago, Cassiano, Tito Madi e muitos dos que pintam no programa do Raul Gil, exemplo Ray Charles , Joe Coker, Seal, Isac Hayes, Lou Raws. Outro dia ouvi no rádio, na madruga, Paulinho Moska. Gostei muito da onda desse rapaz, parabéns!

34) RM:  Como é seu processo de compor? Quem são seus parceiros musicais? Quem, além de você, gravou suas canções?

Fábio Stella: Eu sou mais intérprete, mas quando pinta a dona inspiração, eu escrevo algumas bobagens, como dizia o lendário Lupicínio Rodrigues.

35) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente, tendo passado por uma estrutura de gravadora?

Fábio Stella: Como já dizia a música de Chico Buarque, “a gente vai levando”…

36) RM: Fazendo autoanálise de sua carreira musical quais os acertos e erros que você cometeu?

Fábio Stella: Cometi os erros por falta absoluta de experiência e os acertos foram por pura sorte.

37) RM: Quais as situações mais inusitadas que aconteceram na sua carreira musical?

Fábio Stella: Certa vez fui fazer um show em Imperatriz do Maranhão, substituindo o cantor Reginaldo Rossi. Já no palco, com a casa cheia, o locutor me anunciou e, na terceira música, três homens mal encarados que estavam bem à minha frente, começaram a discutir, um deles puxou um 38 e começou a atirar pra todos os lados. Por sorte não pegou em mim nem em ninguém. Eu não parei de cantar, voltei ao hotel todo me tremendo. Mas com o cachê gordo no bolso e uma gata me esperando no quarto do hotel. Ela entrou sem ninguém ver. Sorte a minha. Foi em 1978, a minha fase disco.

38) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira  musical?

Fábio Stella: O que me deixa feliz é o reconhecimento do público e o que me deixa triste é ver meus amigos próximos indo embora, exemplo Dicró que faleceu. Encontrei com ele na última vez na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, vendendo CD a 10 reais, em uma cadeira de rodas. Muito triste! Como dizia meu amigo Tim: “Fabiano, a gente sabe como começar, mas terminar é uma incógnita”.

39) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

Fábio Stella: Os que o meu amigo e guru musical Paulinho Trumpete envia pra mim pelo facebook.

40) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas de sucessos tocarão hoje nas rádios?

Fábio Stella: Claro que não tocarão, de jeito nenhum…

41) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Fábio Stella: Insista, persista e não desista. Vá em frente até o último suspiro.

42) RM: Quais os seus projetos futuros?

Fábio Stella – Cantar, cantar e cantar. E depois morrer como as cigarras.

43) RM: Quais seus contatos ?

Fábio Stella:  [email protected] | (11) 98965 – 7779 


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.