Entrevista do Mês: 07/06/2009

 

Roney Giah

Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa

ritmomelodia@hotmail.com

A musicalidade inovadora do compositor, cantor, guitarrista e produtor brasileiro Roney Giah está conquistando o mercado internacional. Em 2008, o músico foi convidado a participar da trilha sonora do filme norte-americano No pain, no gain e assinou um contrato com a gravadora inglesa ASTRANOVA Records para o lançamento da coletânea Yesterday´s tomorrow. Para a divulgação, a gravadora produziu podcasts shows que foram disponibilizados em 107 países.

O interesse da gravadora ocorreu após o músico ter, por duas vezes consecutivas, as músicas Amar com E e A chuva – do álbum Mais dias na Terra –, indicadas ao Track of the day pelos dois milhões de usuários do site Garage Band (www.garageband.com ), portal de música norte-americano que tem a curadoria de George Martin, ex-produtor dos Beatles. Ainda em 2008, um dos mais renomados festivais internacionais de composição, The John Lennon Songwriting Contest, destacou com Menção Honrosa, na categoria World, o trabalho de Roney Giah. Com a curadoria de Yoko Ono, o júri – formado pelos músicos Carlos Santana, Wyclef Jean, Fergie (Black Eyed Peas), John Legend, Al Jareau, Bob Weir (Grateful Dead), Lamont Dozier e Natasha Bedingfield – concedeu Menção Honrosa ao artista pela música Amar com E, que integra seu segundo CD - Mais dias na Terra.

Com o CD - Mais dias na Terra, ele ampliou a linha instrumental que marcou o seu primeiro trabalho, o CD - Semente, que concorreu ao Prêmio Sharp 1998. Em 2007, Roney Giah integrou o Oi Novo Som, projeto cultural da operadora de telefone celular Oi, com o qual realizou uma turnê em Recife (PE). Sua música Lembra? Foi destaque da Oi FM, uma das principais rádios pernambucanas.

Roney como guitarrista, disputou o Prêmio Visa 98 e conquistou ainda como instrumentista, o segundo lugar no Festival Berklee/Souza Lima, em São Paulo. Teve também sua música Argila relançada no disco Pearl Brazilian Team 3, numa coletânea de artistas brasileiros. Em shows e apresentações Roney Giah já dividiu o palco com Sandra de Sá, Claudio Zoli, Milton Guedes, Xis, Rappin Hood, Vanessa Jackson, Daniel Boa Ventura, Bocato, Roberto Sion, Mané Silveira e muitos outros. Ele grava o quarto CD e prepara a primeira turnê internacional. Segue abaixo entrevista exclusiva de Roney Giah para a www.ritmomelodia.mus.br em 07/06/2009:

1-) Ritmo Melodia – Qual sua data de nascimento e sua cidade natal?

Roney Giah - Nasci no fim de um inverno paulista; dia 11 de agosto, em São José dos Campos - SP.

2-) RM – Fale do seu primeiro contato com a música?

RG - Meus pais têm um hábito que hoje em dia é raro: parar para escutar música. Foi ali, por volta dos meus três anos, que percebi como eram especiais para mim os momentos em que parávamos para curtir os discos.

3-) RM – Qual sua formação musical e\ou acadêmica (Teórica)?

RG - Comecei a estudar violão aos seis anos, no Clube Banespa, pois morava por ali, no Brooklin-SP. Aos oito anos comecei a estudar com o Manoel Santos, que me abriu os horizontes musicais. A partir daí estudei com Rafael Bittencourt, Sandro Haick, Tomati e Pollaco. Ao mesmo tempo em que estudava guitarra, estudei quatro anos de piano no CLAM (Centro Livre de Aprendizado Musical). Na adolescência, fiz o curso de harmonia e arranjo com o maestro Claudio Leal Ferreira e aos dezoito anos fui para o Musicians Institute, em Los Angeles, onde me formei em Jazz. Na volta, em 2003, acabei me formando também em engenharia de som pelo I.A.V (Instituto de Áudio e Vídeo), em São Paulo.

4-) RM – Quais suas influencias musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

RG - Andei pensando nesse assunto há alguns meses e resolvi fazer uma lista dos artistas que “preciso” escutar. Descobri que considero muitos artistas/compositores excelentes, mas a lista dos que preciso escutar é menor. Os artistas que para mim são essenciais e mantêm minha sanidade musical são: Tom Jobim, Cartola, Chico Buarque, Gonzaguinha, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Pixinguinha, Caetano Veloso, Villa-Lobos, Dori Caymmi, Edu Lobo, Cazuza, Paralamas do Sucesso, Cassiano, Lulu Santos, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Ed Motta, Lenine, João Bosco, Zeca Baleiro, Raul Seixas, Elis Regina, Almir Sater, Maria Bethânia, Gal Costa, Djavan, Jimi Hendrix, Ray Charles, Mozart, The Beatles, Led Zeppelin, Michael Jackson, Johnny Cash, Alberta Hunter, Billie Holiday, Steve Wonder, The Police, Sting, Elton John, Leonard Cohen, James Taylor, Tom Waits, Neil Young, Joni Miltchel, Dinah Washington, Aretha Franklin, Otis Redding, Tina Turner, Charlie Parker, Pat Metheny, Steve Vai, George Benson, Joe Pass, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Dave Mathew, Miles Davis, Lenny Kravitz, Stevie Ray Vaughan, Seal, John Mayer, Nora Jones, David Bowie, Prince, Jamiroquai, Red Hot Chili Peppers. Não tenho essa sensação de artistas que deixaram de ter importância... Muitos dos que não escuto mais hoje em dia, acabo lembrando pelo significado específico que tiveram em minha formação; pelas características e qualidades que despertaram em mim.

 5-) RM – Quando, como e onde você começou sua carreira profissional?

RG - Acredito que foi quando recebi o primeiro cheque por uma apresentação da minha banda “Moscou Capitalista”. Fomos contratados para tocar em uma festa. Eu tinha 13 anos e naquele momento minha mente vislumbrou um mundo de possibilidades.

6-) RM – Quantos CDs lançados (músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas de cada Cd que agradaram o público?

RG - Tenho três CD’s lançados e até o fim deste ano, 2009, terei o quarto se tudo correr bem.

O primeiro foi o: Semente (1998), um CD instrumental com muitos arranjos e improvisos dosados, e apenas uma faixa cantada. Teve Maurício Biazzi (baixo), Lael Medina (bateria), Otávio Noronha (teclado e piano) e Rodrigo Ursaia (Sax Tenor).

O segundo foi o Mais dias na Terra (2006), uma mistura de pop com MPB com arranjos inusitados e muita produção. Teve Maurício Biazzi no baixo; Piu e Flávio Marchesin revezando os teclados; André Novais na bateria e revezando a percussão com Cris Bananal; Vanessa Jackson; Alex Mariet e Marrom como backvocals, e Doriel Oliveira, Fúlvio Lucietto e Soró nos metais. Dani Ferraz também fez participação como backing vocal.

Yesterday’s tomorrow (2008) foi o terceiro. É uma coletânea reunindo músicas dos CDs: Semente e do Mais dias na Terra com duas faixas inéditas, a Fa Fa Fa (O velho, o menino e o vento) com a banda vocal Perseptom e Quero ser o mar que tem músicos do mundo inteiro tocando. A gravadora ainda não me passou os nomes, por incrível que possa parecer.

Quanto às faixas que mais agradam: no CD Semente, Baleia e Tão Simples são muito compradas no Itunes. No CD Mais dias na Terra, a música Lembra? Esteve entre as mais tocadas no Nordeste em 2008 e foi muito adquirida com Um Zeppelin, e no Yesterday’s tomorrow a Fa Fa Fa está liderando os números de downloads por enquanto...

7-) RM – Como você define seu estilo musical?

RG - Faço música sem paredes, sou um “misturalista”. Se a música ecoa em mim; eu toco. 

8-) RM – Como é seu processo de compor?

RG - A melodia surge primeiro. Posso estar vendo televisão, sonhando ou guiando. De repente, ela surge na minha mente. É muito real a sensação. Depois componho tudo junto: harmonia com a letra, introdução, finais, acabamento e etc.

9-) RM – Quais são seus principais parceiros?

RG - Como eu componho desde os meus 11 anos de idade, há muito tempo tenho o hábito de fazê-lo sozinho. A forma da criação é algo difícil de mudar. Recentemente, no Clube Caiubi de Compositores, surgiram parcerias com Álvaro Cueva, Élio Camalle e Léo Nogueira. Gosto muito do resultado final, mas essas músicas deram trabalho para que eu conseguisse mudar minha forma de compor, de pensar a canção.

10-) RM – Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

RG - O pró é que quando dá certo, a culpa é sua. É o contra é que se dê errado a culpa é sua. Liberdade é sem dúvida um pró e as incertezas fazem às vezes de contra nesse caminho independente.

11-) RM – Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

RG - O cenário brasileiro é 90% de uma monocultura tediosa. E isso é um assunto técnico cheio de delongas. Mas existem “resistências” no mainstream e fora dele. Zeca Baleiro e Lenine pegaram a tocha dos MPBistas de primeira linha e vem mantendo uma constante muito bacana em seus trabalhos. O Clube Caiubi é um exemplo de artistas ainda não conhecidos e excelentes: Ricardo Soares, Rossa Nova, Élio Camalle, Fred Martins, Max Gonzaga, enfim, música boa não falta. Falta, porém, nos associarmos com agilidade, agressividade mercadológica e tal, mas não se pode apressar o curso do rio.

12-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

RG - Tenho os meus heróis. Muitos estão nessa lista citada em resposta a uma questão anterior. Acredito que qualquer artista que faça sucesso com música boa há mais de uma década está fazendo muita coisa certa. Devemos estudar suas histórias, segui-los, aprender com seus erros e acertos. Nessa vida qualquer sucesso requer uma quantidade de trabalho sobre-humana. Aqueles que conseguiram, deixam suas pegadas para dar fé a quem ainda está para trás, mas que com muita energia poderá chegar lá.

13-) RM – Quais as situações mais inusitadas que aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

RG - Todas as citadas(risos). Toquei 15 anos na noite, no começo em bares e restaurantes, depois em boates, danceterias e, por fim, em casas de show. São centenas de histórias, literalmente. Condição técnica é uma frase que não existe no Brasil. Áudio e biologia dos morcegos africanos têm o mesmo número de estudiosos por aqui. Eu fazia 120 shows por ano; era raro não ter briga, muitas vezes com tiros. Shows marcados em dia errado em cidades que ficam há oito horas ou mais de São Paulo. Não receber após o show é padrão. E cantadas de homens e de mulheres sempre. Carro quebrado na estrada. Músico que não aparece pro show. Cantor que desmaia. Gelo seco que sufoca o baixista. O palco que cai, luz que despenca. Cuspidoras de fogo que erram e acertam banda. Laser que “dá pau” em cima do baterista e queima o braço do cara... Mas, eu mudei o olhar que tenho sobre tudo isso há muito tempo. Cada um desses acontecimentos me fez mais forte, mais preparado. Hoje sei conduzir minha carreira graças a isso, sei organizar um evento chamando minha equipe e estar atento em todos os infortúnios que citei. Conheço as falhas. Para cada um desses problemas eu precisei parar e achar uma solução; é a única maneira de vencê-los.

14-) RM – O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

RG - No começo achava um saco essa história de eu mesmo me “empresariar”. Queria compor, tocar, cantar. Mas hoje em dia acho que tudo me deixa feliz e triste. Durante o curso do meu dia, fico feliz e triste, várias vezes. Ganho umas e perco outras diariamente. Fazer o que a gente ama é incrível, mas o mundo é um lugar imperfeito e talvez para nosso aperfeiçoamento conspire contra muitas vezes, e outras vezes conspire a favor.

15-) RM – Nos apresente a cena musical de São Paulo?

RG - São Paulo para quem sabe o que quer é fantástico. A cena musical da cidade é muito prolixa, variada. Todo dia recebo convite para shows de jazz, mpb, rock, gospel, hip hop, samba de artistas famosos e os que estão em ascensão. Embora as casas de shows ainda não saibam se organizar (muitas não tem um bom som, assessoria de imprensa, divulgação eficiente, cachê bacana para o músico), público temos para tudo. Uma boa dica é abrir o caderno de cultura e começar a explorar. Riquezas não faltarão.

16-) RM – Você acredita que sua música vai tocar nas rádios sem o jabá?

RG - Sim. A transformação das mídias já começou. A grande mídia não é mais a televisão, tampouco o rádio. Daqui a dez anos, elas serão mídias auxiliares. O artista que sabe se organizar hoje pode “acontecer” na NET, para depois acontecer na tevê e no rádio, como, aliás, já é realidade para alguns artistas.

17-) RM – O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

RG - Faça uma carreira musical se não conseguir se imaginar fazendo outra coisa na vida. Sem esse amor e dedicação absolutos a vitória é distante, improvável. O mercado é canibal. Só vence quem por amor não desiste e se permite transformar.

18-) RM - Fale da importância para sua carreira de participar da trilha sonora do filme norte-americano No pain, no gain? Quais foram às portas que se abriram?

RG - Toda essa repercussão que meu trabalho vem tendo lá fora, só trouxe boas oportunidades. Editoras norte-americanas estão publicando minhas músicas, ofertas de shows e novas parcerias continuam pintando. Mas tudo foi uma soma: a pré-seleção ao Latin Grammy, o filme No Pain no Gain, a Menção Honrosa do John Lennon Contest com curadoria da Yoko Ono, a contratação pela gravadora inglesa ASTRANOVA Records. Tudo isso junto me levou aos resultados que venho obtendo.

19-) RM - Fale da importância de assinar contrato com a gravadora inglesa ASTRANOVA Records para o lançamento da coletânea Yesterday´s tomorrow? Quais os nomes das músicas que estão nesta coletânea?

RG - Enorme. Foi o gatilho que deu início a minha carreira internacional. Sem a ASTRANOVA é possível que o resto não tivesse acontecido. Estão no CD Yesterday’s Tomorrow as canções: Tão simples, Fa Fa Fa, A chuva, I’ve got something, Arara, Semente, Amar com E, Baleia, O vôo, Pousar, A volta, Quero ser o mar (2 versões:instrumental e cantada), Evening blues e Avisa.

21-) RM - Você participou de outras coletâneas? Quais?

Sim, na década de 1990 estive na coletânea Pearl Brazilian Team com minha música Argila (CD Semente) e no fim de 2009 sairá uma coletânea norte-americana, Rock 4 life, com uma faixa minha: A chuva.

22-) RM - Fale do projeto da operadora Oi (Oi Novo Som) o que contribuiu pra sua carreira?

RG - Ser executado em uma rádio mainstream foi muito bacana, possibilitou minha pequena turnê no Recife-PE e angariou mais fãs e colegas. Toda divulgação bem feita é bem quista.

23-) RM - Como você usa a ferramenta internet para divulgar sua carreira musical?

RG - Com muito zelo. Meu site (www.roneygiah.com.br) hoje tem uma média de 45 mil hits por mês. Muitos downloads, muitos views. Estou sempre o atualizando, aperfeiçoando-o. O mailing que adquiri nos anos de noite com minha banda responde bem as novidades do site e das minhas outras homepages (MYSPACE, YOU TUBE, ORKUT, FACEBOOK). Quem está no meu mailing recebe notícias em primeira mão, descontos e postagens do blog assim que são escritas. Minha assessoria de imprensa também utiliza o disparo online concomitantemente ao tradicional fax e correio. Enfim, tudo deve estar integrado senão o castelinho cai.

24-) RM - Conte como foi encontrar o Michael Jackson?

RG - Ele riu. Pausou seu andar, me olhou e disse:
- Ok, give me your card. (okay...me dá seu cartão)
Seu nome era Michael Jackson.
Eu era um estudante de música em Los Angeles e aquela era minha primeira semana na América.
A história que antecede essa cena e sua continuação é mais ou menos simples, com exceção da mágica que a envolve.
Eram meus primeiros dias no M.I. (Musicians Institute), uma faculdade de música em Los Angeles que estudei de 1993 à meados de 1994. Acabara de achar um lugar para morar de aluguel, numa garagem de uma casa em Highland Park há 15 minutos do centro de Hollywood. Uma casa calma, onde morei os 16 meses que passei por lá, cujo gentil dono, se tornou uma grande amizade que carrego até hoje.
Na primeira semana de escola, tive a oportunidade de fazer algumas aulas com a Jennifer Batten, na época guitarrista de Michael Jackson, que alucinava o mundo da guitarra com seus solos virtuosos e sua energia espantosa.
No meu primeiro sábado Estado Unidense, após meu debut na faculdade, fui convidado por Jorge Briozzo, o gentil dono da casa, para conhecer a praia de Santa Monica, uma vez que eu ainda não tinha um carro.
Muito bacana.
Um sol quente, porém moderado, diferente do forno habitual do litoral brasileiro, uma areia fina e distante da água fria que quebrava na praia, falafel no papel para enganar a fome e boas conversas. Ao fim de nossa sessão praiana, umas 16hs, estávamos indo ao estacionamento pegar o carro para voltar para casa, quando ao som de uma buzina, Jorge me pegou pelo braço e disse baixo, tentando não mover os lábios:
- Esse na Cherokee verde acenando e buzinando pra gente é um amigo meu, o Adrian. Se ele nos convidar para almoçar, responda “não”. Da última vez, ele me levou num restaurante muito caro aqui em Malibu, fiquei quatro meses pagando a conta.
Ri da história e assim fomos ao encontro da camionete do Adrian.
De janela aberta, sorridente, muito simpático, ele nos cumprimentou animado, perguntou qual era meu nome e após breves apresentações, sem cerimônia, disparou:
- Vamos almoçar?
Jorge disse não imediatamente.
Adrian insistiu.
Jorge comentou que o estacionamento ia ficar caro, que estava tarde e que tínhamos acabado de comer um falafel.
Adrian respondeu:
E daí ?
Brasileiro e desbocado, interrompi aquela conversa chata, confessando:
- Sabe o que é Adrian...estamos duros. Então tem que ser um lugar bem barato ou você nos ajuda a pagar a conta (nesse caso, paciente leitor, ele era nitidamente resolvido financeiramente).
Adrian parou de sorrir, olhou pra baixo rapidamente - como quem faz contas de cabeça - e respondeu:
- Claro, entrem logo antes que eu mude de idéia. E riu de suas próprias palavras.
Fomos ao primeiro restaurante; fechado (eram 16hs).
Adrian disse: conheço um bem bacana que está aberto.
Um minuto depois, ainda no bairro de Santa Monica (onde Michael morava) e sentado no banco de trás do carro, o que vi foi matematicamente improvável:
Pelo reflexo do vidro espelhado da janela de um Café Francês do outro lado da rua, vi uma porta de uma camionete limusine GMC branca abrindo e Michael Jackson saindo. Não sei se me fiz claro, mas só para constar: Se estivesse 1 ou talvez 2 segundos atrasado ou quem sabe adiantado, ou mesmo sentado no banco da frente, não teria ângulo suficiente para ver o reflexo da tal janela e conseqüentemente ver o Michael abrindo a porta. Tudo parecia curioso demais.
Era, porém, claro para mim o que tinha que fazer.
Falei com toda falta de intimidade que tinha com o dono do transporte:
Adrian... pare o carro. O Michael Jackson está entrando num café do outro lado da rua.
- Quem?
- Michael Jackson.
- Como você sabe?
- Eu vi.
- E se for um sósia?
- Numa camionete limusine GMC de meio milhão de dólares?
- Adrian - bom de contas - emudeceu, mas não parou o carro.
Falei num tom mais ansioso:
- Adrian, pare o carro, por favor.
- Mesmo se for ele, o que você vai fazer?
- Trocamos olhares pelo retrovisor e ele entendeu que eu estava em um estado pouco negociável.
Paramos o carro, já longe e corri para o café. Antes de entrar, olhei dentro da limusine; três seguranças jogavam cartas despreocupados. No café – vazio - um casal de velhinhos comia um sundae.
Perguntei ao único garçom da casa, que secava copos:
- Onde está o Michael?
- Que Michael?
Decifrei a charada imediatamente: acredite ou não, Michael Jackson parou para ir ao banheiro e ninguém o viu entrando no lugar.
Procurei o banheiro e nada...o café era grande.
Até que vejo do outro lado do balcão uma porta se abrindo e Michael saindo.
Adrian, que já tinha alcançado o café e estava por lá, o cumprimentava com alegria.
Com passos apressados cheguei a Michael:
Óculos espelhados Ray-Ban, ombreira dourada, calça preta e camisa preta (sem as famosas fardas douradas, num estilo mais “casual”) ele me cumprimentou.
Com as mãos no bolso e muito relaxado, ficou parado, como que esperando uma conversa (pois na minha mente, ele teria me cumprimentado e saído às pressas).
Chocado com o súbito interesse, disse:
- Sabe, estou tendo aula de guitarra com a Jenniffer...
- Really?
E assim, do nada...ali estava eu...conversando de música com o Michael Jackson com meus pés cheios de areia. Falamos de guitarra, do que ele gostava no estilo da Jenniffer , da sua banda, até que ele me perguntou da onde eu era e comentei que era do Brazil.
- Really??! E num tom mais animado, falou:
- Cara, eu adoro o Brazil...
Perguntei por que ele não tinha tocado ainda no Brazil (era 1993). Ele me perguntou se eu achava que as pessoas iriam ao show. (rsrsrs)
- Cê ta brincando? Bobear, você tem mais fãs lá do que aqui.
Ele riu. Começou a se mover em direção a porta de saída lentamente.
Pensei:
- Puxa, já era...e perguntei:
- Você precisa ir, né?
- Não... queria tomar um sorvete...quer um?
(ceeeerto...)
- Claro. (puta merda...como é surreal escrever sobre isso)
Mas na rua, do lado de fora, outra realidade se aproximava:
Adolescentes que estavam por perto esperavam sua saída, talvez por acharem que não podiam entrar no café...não sei.
Ali, notei que acabara meu momento de privacidade com ele.
Falei sem pensar:
- Michael, queria tocar com você. Uma canção lhe acompanhando na guitarra, me daria inspiração para uma vida inteira.
- Ele parou de andar e se virou. Com um leve sorriso, ele me passou a expressão mais confiante que recebi em 20 anos de carreira encontrando todos os artistas que a vida me possibilitou conhecer. Balançando a cabeça afirmativamente, seu olhar e seu rosto diziam: “That’s it boy. That’s the attitude”.
Respondeu prontamente:
- Ok, give me your card. (okay...me dá seu cartão)
- Não tenho cartão ainda. Cheguei do Brazil faz uma semana.
- Michael olhou um vaso decorativo em cima da mesa, levantou-o e pegou um papel que estava embaixo dele. - Olha...Escreve seu número aqui.
- Escrevi meu telefone (o do Jorge Briozzo, na verdade) apoiado em suas ombreiras.
Ele saiu. As adolescentes atacaram.
Distanciei-me e sentei, chocado.
Vi ele pegar o sorvete, mas a pequena multidão crescia e ele correu pra sua limusine com o sorvete na mão.
Antes de entrar, ele parou e olhou dentro do café, como que me procurando.
Pensei:
- Não é possível...
Mas era. Ele veio até a porta, me viu sentado. Tirou o papel com meu telefone do bolso e o sacudiu no ar, como quem diz:
- Do caralho sua coragem brother...
Passei um mês grudado no telefone. Comprei fitas novas pra secretária. Mas ele não ligou...rs
O único comentário do Jorge nesse dia foi: “Não acredito ! O Michael Jackson tem meu número ?! rs
Sua presença era calma e foi sem dúvida o mais humilde pop-star que conheci, que conversei.
Tratou-me como igual, apesar de sua grandeza evidente.
Dois meses depois, e passado a alvoroço, saí da faculdade para almoçar.
Andava por Los Angeles pelos Back Alleys (aqueles becos que aparecem em filme). O pessoal da escola dizia que era muito perigoso andar pelos becos, mas pra brasileiro aquilo era uma piada...sério - tinha até umas tabelas de basquete penduradas pros “bandidos” brincarem.
De repente, sozinho no beco, vejo uma camionete limusine GMC branca vindo em minha direção a dois por hora, apertada no estreito beco - que não pode entrar carros, aliás...
Penso:
- Cê ta zoando ?
Não. O destino não estava brincando.
Era o carro de Michael com quatro policiais acompanhando-o a sua volta, vindo na minha direção.
Tive que parar, não dava nem para ficar ao lado da janela, pois era muito apertado pra camionete passar.
A Limo parou. A porta abriu. Michael saiu.
Só tinha eu no beco. Aproximei-me e uma policial fez sinal com a mão de “chega pra lá”.
Michael percebeu a tensão e me olhou. Parou de andar e sorriu, como que se soubesse que me conhecia, mas não lembrava da onde. Hesitou, veio em minha direção, mas a policial pôs a mão em suas costas e ele parou.
Pôs o dedo indicador no lugar do relógio (mesmo não usando nenhum relógio), como quem diz:
- Pô...to atrasado...senão parava pra conversar.
Eu sorri. Ele deu tchau. Corri pra rua. Na Hollywood Boulevard tinha uma cerimônia no Wax Museum de sua primeira estátua de cera.
Aqui no Brasil, cinco anos atrás, tomando um vinho com Paulo Ricardo do R.P.M., Carlini e o pessoal da casa noturna que eu me apresentava, o Marcenaria, Carlini me disse que o Michael deu um pedal Wha Wha pra ele quando eles se conheceram no festival que teve Rita Lee , Jackson 5 e muitos outros.
O Rei da gentileza.
O Rei da dança.
O Rei da música.
O Rei da voz.
The king of pop.
Não haverá outro tão cedo.
Um beijo pra você, meu irmão, que nos ajudou a sonhar mesmo sem saber.
 

25-) RM – Quais os projetos futuros?

RG - Até o fim de 2009 lançarei meu quarto CD, Queimando a moleira com show de lançamento aqui em Sampa e tudo mais que manda o figurino. No primeiro semestre de 2010 teremos mais dois CD’s, uma vez que meus projetos da Lei Rouanet e Mendonça foram captados e estão a caminho. Enfim, muito trabalho e muita novidade por aí. Obrigado a Ritmo Melodia pelo carinho pela oportunidade.

26-) RM – Contatos para show?

RG - www.roneygiah.com.br /roneygiah@roneygiah.com.br /(55 11) 9638 - 2308